20 de mai. de 2013

Cannes 2013: Dia 05 – O estranho no ninho, o novo favorito e Keanu Reeves

Wara No Tate Photocall 66th Annual Cannes Y37QKLfRCwalDa esquerda para a direita: o diretor Takashi Miike e os astros de Wara no Tate, Nanako Matsushima e Takao Osawa

por Caio Coletti

Um dos raríssimos exemplaresw do cinema de ação que aparece em Cannes, ainda mais na disputa pela Palma de Ouro, Wara no Tate é a segunda seleção de Takashi Miike para o Festival. O filme anterior, Ichimei, era uma dramática história de samurais que remontava aos trabalhos de Akira Kurosawa, mas essa nova investida do diretor (cujo título pode ser traduzido, livremente, com Escudo de Palha) é um thriller policial de orçamento estratosférico para os padrões japoneses, que estava fadado a dividir opiniões entre o público sempre passional do Festival. Vaias e aplausos foram ouvidos na mesma medida ao final da projeção.

Baseada em um best-seller japonês, a trama de Wara no Tate acompanha a escolta de um assassino até a cadeia. O problema é que um milionário, cuja neta foi assassinada pelo dito cujo, oferece 1 bilhão de iêmens para quem quer que consiga matá-lo, o que leva várias pessoas comuns a se colocarem no caminho da polícia em busca da recompensa. O próprio diretor disse-se surpreso por seu filme ter sido escolhido para participar da competição em Cannes: “Eu realmente não acho que este é um filme feito para a Palma de Ouro. Mas estou satisfeito em saber que um tipo bem diferente de filme, uma outra classe de filme, está na seleção”.

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Alec Baldwin e James Toback (esquerda e centro) em cena de Seduced and Abandoned

Indicado ao Oscar pelo roteiro de Bugsy mas sempre duramente criticado por seus trabalhos na direção, James Toback parece ter encontrado um acolhimento melhor no formato de documentário. O nova-iorquino já ganhou prêmio em Cannes por Tyson, sua obra documental anterior, e agora está de volta a Riviera Francesa com o ácido humor de Seduced and Abandoned. Desde que Hollywood saiu do studio-system (época em que os estúdios assinavam contratos de exclusividade com atores e definiam linguagens próprias para seus filmes) para embarcar no star-system (onde os astros mandam), é impossível vender um filme sem nomes estrelados no elenco.

O documentário de Toback mostra isso de maneira bem-humorada, retratando ele e Alec Baldwin tentando vender um filme de arte (existente apenas para os propósitos do documentário) aos estúdios. Filmado no Festival de Cannes do ano passado, é oportuno que Seduced and Abandoned esteja presente em exibição esse ano, no qual a maioria das estrelas estão presentes apenas para divulgar projetos futuros e outras, como Leonardo DiCaprio, Nicole Kidman e Emma Watson, aproveitam a ocasião para, nos intervalos de estreias, reuniões de juri e festas de gala, promover filmes já filmados ou ainda a filmar, com os quais estão envolvidos.

diretor-palestino-hany-abu-assad-no-centro-e-o-elenco-de-omar-chegam-a-exibicao-do-filme-no-festival-de-cannes-2013-1369065697710_615x300O diretor palestino Hany Abu-Assad (no centro) e seu elenco na premiere de Omar em Cannes

Foi por pouco que o até agora franco favorito para a Palma de Ouro Le Passé não ganhou um concorrente a altura. Ovacionado durante cinco minutos pelo público presente na exibição, o longa palestino Omar, no entanto, participa da mostra parelela Un Certain Regard, que tem prêmios separados da competição principal. O filme é fruto da mente do diretor Hany Abu-Assad, que impressionou o mundo em 2006 com seu ousado Paradise Now, primeiro filme palestino a ser indicado ao Oscar. Depois de breve passagem pelo cinema americano (no pouquíssimo visto Entrega da Risco), Assad voltou a terra natal para contar uma história de amor em tempos de guerra.

O personagem título é um jovem padeiro que se apaixona pela irmã de um amigo, líder de uma célula de resistência palestina nos territórios ocupados por Israel. Para visitar a amada, Omar é obrigado a escalar um muro que separa os territórios conflituosos, sendo pego pela polícia, humilhado e maltratado. Furioso, Omar resolve se juntar ao amigo em uma operação para matar um soldado israelense. O personagem título é do estreante Adam Bakri, aplaudido pela crítica presente na exibição.

066138-keanuKeanu Reeves, quase irreconhecível, em Cannes

Prestes a completar 49 anos, Keanu Reeves esteve em Cannes (com um visual que o tornou quase irreconhecível) para promover, vejam só, sua estreia na direção. Man of Tai Chi, em que o astro também atua, é um filme de ação e artes marciais, uma co-produção entre China e EUA, que se insere em uma estratégia muito inteligente da indústria americana para infiltrar o mercado cinematográfico crescente chinês. Estrelado por Tiger Hu Chen (que Keanu conheceu nos sets de Matrix, como dublê) e escrito por Michael G. Cooney, cujas experiencias anteriores são com roteiros de video-games e curtas, Man of Tai Chi conta a história de um lutador fenomenal (Tiger) que se torna um astro na China e precisa lidar com pessoas inescrupulosas (incluindo o personagem do diretor Keanu) ao seu redor se aproveitando de seu talento.

A lei chinesa que determina que apenas 37 filmes estrangeiros por ano sejam exibidos dentro do país tem bloqueado as produções hollywoodianas de um dos mercados crescentes do cinema. Com a estratégia de co-produções desenvolvidas por um astro americano, o filme pode entrar sem problemas no país e, ainda, garantir que os espectadores americanos sejam atraidos para o filme também. Sobre a experiencia de dirigir, Keanu comentou: “Há uns quatro ou cinco anos acho que comecei a me sentir velho e pensei em dirigir um filme. Comandar uma filmagem é um processo muito maluco. Você chega ao set todo dia com um planejamento, mas a vida simplesmente não funciona assim”.

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