Crítica – Transformers: A Vingança dos Derrotados
Posted by Caio Coletti in Cinema - Críticas on sábado, 28 de novembro de 2009
Transformers: A Vingança dos Derrotados (Transformers: Revenge of The Fallen, EUA, 2009).
De: Michael Bay.
Com: Shia LaBeouf, Megan Fox, Josh Duhamel, Tyrese Gibson, John Tuturro, Ramon Rodriguez, Isabel Lucas, Rainn Wilson, Hugo Weaving (voz), Tony Todd (voz).
150 minutos.
Regojizai-vos, filhos da discoteca, porque os anos oitenta voltaram! Ou pelo menos em terras hollywoodianas desde dois anos atrás, quando a mega-surpresa Transformers, obra do homem-espetáculo da terra do cinema Michael Bay, abocanhou 319 milhões de dólares na disputada guerra da bilheteria do verão americano. Quinto melhor resultado do ano em terras ianques, o filme baseado na linha de brinquedos (e sabe-se lá o que mais) que fez a cabeça da criançada na era da disco abriu a porta para uma enxurrada de novas produções que tentaram explorar a nostalgia dos que viveram a época e a fome de efeitos especiais do público adolescente de cinema. De Comandos em Ação a J.C.V.D., passando pelas patéticas tentativas de Dolph Lundgreen em ressurgir para o grande público, porém, nenhum dos filhos dessa nova tendência de reciclagem de idéias deu o resultado esperado, ao menos não comercialmente. Fatos apresentados, para quem conhece a mentalidade um tanto canhestra da terra do cinema é quase óbvia a rota de ação que tomaram os grandes estúdios. E aqui estamos nós com um Transformers 2, subintitulado A Vingança dos Derrotados, que conta com os mesmos elementos que fizeram sucesso no original, tem estilo, ação e efeitos especiais de ponta, mas não chega a empolgar e divertir como fez o primeiro. A bem da verdade, a continuação foi posta em andamento antes mesmo do filme de 2007 estrear nos cinemas, e talvez justamente por isso o que se vê aqui é um julgamento prematuro do que deu certo e errado na trama original e uma repetição das mesmas falhas que fizeram de Transformers “apenas mais um filme-pipoca”. Doença de Hollywood em geral, é claro, mas não tem como lamentar que personagens de fato muito bem desenvolvidos, recursos gigantescos e uma direção com fluidez e estilo sejam jogados ao léu em uma trama que faz pouco ou nenhum sentido em sua grandiloqüência forçada. O filme resgata personagens que já haviam tido seu fim ideal, insere elementos fora de seus lugares e tenta misturar ação com romance de uma forma que não convence muito bem, especialmente levando-se em conta que o público-alvo principal de uma produção como essa é claramente masculino. Mas talvez o pior dos defeitos de um filme que veio em hora errada para retomar o que já era uma reciclagem de conceitos seja sua absoluta e incômoda falta de propósito. É absolutamente antinatural dentro de uma narrativa cinematográfica que os personagens atravessando a tela vivam em perfeita harmonia, ainda mais quando o maniqueísmo é tamanho que elimina até mesmo a fascinação natural que provoca assistir mais um round completamente irrealista da velha batalha entre o bem e o mal. Quem sai perdendo da luta, dessa vez, é o espectador, que não vê gente de verdade correndo de perigos, ainda que saiba bem no fundo da memória que um dia eles tenham sido algo parecido com isso. Qual é o ponto de assistir a fantoches de uma trama exagerada escaparem de explosões quando nem mesmo uma situação extrema como a morte pode nos fazer se importar com eles? Por mais que seja divertido assistir a robôs gigantes brigando pela posse do nosso planeta, cinema não é nada sem sua maior matéria-prima: humanidade.
Ironias do destino, uma das maiores mancadas do ano em matérias de roteiro nos vem como um crédito da mesma dupla que fez da ressurreição da marca Star Trek um estudo brilhante de personagens permeado com o melhor da ação espacial cinematográfica em muito tempo. Aqui, o duo em questão, Roberto Orci e Alex Kurtzman, também donos do crédito pelo muito superior script do primeiro filme, tem a ajuda de Ehren Kruger, o responsável por filmes como Os Irmãos Grimm e A Chave Mestra, que supostamente deveria acrescentar elementos de fantasia e suspense a uma trama que, se você pensar bem, até necessita dessas nuances. Pois bem, primeira falha do script: a colaboração de Kruger mal transparece nos diálogos e nas situações que passam pela tela, espécie de extrapolação de todos os maneirismos de texto que estavam escondidos sobre a ação explosiva e intensamente urbana do primeiro filme. A propósito, outra escorregada feia do roteiro é a amplificação do alcance da história, que se estende dos subúrbios de Pequim, numa das seqüências iniciais, até os desertos egípcios que guardam o que pode ser o clímax mais absurdo da história de Hollywood. Se essa é a marca da fantasia que Kruger deixou para trás na premissa, aliás, o melhor mesmo era não esperar grande coisa do resultado final de A Vingança dos Derrotados. A storyline segue, mais uma vez, o jovem Sam Witwicky (Shia LaBeouf), que está partindo para a faculdade e tem que enfrentar o obstáculo da distância num momento de decisão de seu relacionamento com Mikaela Banes (Megan Fox). Isso se desenrola de forma imprevisível quando Sam encontra uma lasca do Cubo de energia que movimentou a ação do primeiro filme e acaba ficando com informações valiosas da raça dos Transformers gravadas na mente. A trama dá mais uma guinada com a inserção de Fallen (dublado por Tony Todd), um lendário membro dos Decepticons que, dizem as histórias, tentou destruir a Terra na época do Antigo Egito e foi impedido pelos ancestrais de Optimus Prime, hoje líder dos Autobots, facção dos robôs que se opõe a sede de sangue dos seguidores de Fallen. Assim, está armada uma guerra grandiosa de seqüências impressionantes que denotam criatividade narrativa não espelhada na forma como o roteiro lida com personagens tão essenciais como o próprio Sam, deixado quase de lado na busca por um segredo milenar qualquer que pode salvar o mundo (de novo). Ironicamente, os diálogos e relações que permeiam os elementos fundamentais desse entrelaço de fios de história distintos que não se decide para que rumo seguir até o ponto em que a paciência do espectador já se esgotou são tão áridos e sem graça quanto a paisagem desértica que enche os olhos dos espectadores durante boa parte de A Vingança dos Derrotados.
No final das contas, com tamanhas falhas de texto, se existe alguma razão para ver essa continuação, ela sem dúvida descansa em méritos de elenco e, por incrível que pareça em se tratando de um filme de Michael Bay, no estilo e beleza da direção. Sem abrir mão de seu estilo taxado como “cinema vídeo-clipe”, o diretor transforma cada tomada de transformação dos robôs em uma obra de arte bruta e digital que não precisa fazer muito para encher os olhos do espectador. Giros alucinantes, travellings inesperados e até uma reedição de tomada de um filme anterior seu (quem puder descubra) entram no repertório de Bay para criar visuais grandiosos explorados com estilo por sua câmera inquieta e espetacularmente comercial. Ele, sim tem um ponto a provar: nem tudo que é bonito precisa ser elegante. Aqui, ele acerta o alvo em cheio. Esse acerto, ao lado da força do elenco, quase fazem as exageradas duas horas e meia do filme valerem a pena. A começar pelo retorno de John Turturro, conhecido do público pelas mais do que freqüentes participações nos filmes do amigo Adam Sandler, desde Mr. Deeds até o recente Zohan. Ele, grande ator cômico e dramático que é, faz da reaparição quase sem justificativa do Agente Simmons uma jornada de redenção das mais interessantes e divertidas de se acompanhar. Deliciosamente caricato e absolutamente perfeito em sua construção de personagem, Turturro faz as cenas mais prazerosas do filme, recriando com as próprias mãos o clima descompromissado que marcou vários dos pontos que o filme original recebeu entre a crítica. Trabalho semelhante, mas um tanto mais ingênuo, faz o estreante na série Ramon Rodriguez (Força Policial), astro latino ascendente na cena de Hollywood, como um convencido nerd, companheiro de quarto de Sam na universidade, que é arrastado para a aventura. Tipo estereotipado, verdade, mas que rende boas risadas. No extremo oposto da história, as presenças de gente como Josh Duhamel e Tyrese Gibson, ambos repetindo os papéis que assumiram na aventura original, sofrem com personagens sem carisma que em pouco ou em nada afetam o jeito do público receber a trama. Se eles desperdiçam cenas, Megan Fox ganha algumas com o público masculino. Linda, sexy e cheia de atitude, ela não prova nada em relação ao seu talento encarnando a ingênua e estereotipada Mikaela, mas não deixa de ser uma bela distração para os olhos destreinados. Claro, não para os verdadeiros apreciadores do carisma no cinema quando Shia LaBeouf está em cena. Basicamente, o show é dele. Em sua boca, autenticados por seu rosto de bom moço, tipo físico de americano médio e senso de humor peculiar, os diálogos mais piegas e esdrúxulos ganham vida, mesmo que por breves momentos, como verdadeiras lições de vida. Talvez o sejam, mas a chance de acertar é muito maior quando o meu palpite é que apenas se trata da magia do cinema acontecendo. Porque se há algum motivo para a cena final e a música que preenche os créditos de A Vingança dos Derrotados nos fazerem clamar por (outras) continuações, boa parte da culpa é de Shia. Venham então. Mas que Bay e companhia se lembrem de consertar os erros da próxima vez. E, quem sabe, talves seja bom pensar em não se levar tão a sério.
Nota: 5,0
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Bom, pessoal, e por hoje é só isso mesmo. Demorei quase um mês para ter uma opinião clara sobre esse filme, mas o certo que estava em minha mente era que não tinha o mesmo espírito e não dava a mesma diversão que o primeiro. Enfim, mas semana que vem tem mais por aqui, da segunda parte do nosso Do Silêncio a um novo Top Hollywood e quem sabe até a terceira lista do século. Certo, então? Deixo vocês com um trecho do que pode ser a letra de música pop mais inteligente em muito tempo. Aproveitem!
“Life’s more about film stars, and less about mothers/ It’s all about fast cars and cussing each other/ But it doesn’t matter because I’m pack in plastic/ And that’s what makes my life so fucking fantastic” – Lily Allen em The Fear
(Ficção) – Do silêncio: Parte I
Posted by Caio Coletti in Ficção - Contos on segunda-feira, 23 de novembro de 2009
Do silêncio – Parte I, por Caio Coletti
Ele quase não podia suportar aquele som. Ainda que trancado dentro de casa, mesmo depois de tanto tempo tentando conviver com toda aquela balbúrdia de longe de suas fronteiras, cada bater de martelos lá fora era capaz de provocar-lhe um daqueles incômodos e doídos estalos no ouvido. Há muito tempo decidira não mais sair de casa, apenas se acomodar em seu canto, fugindo para o mais longe possível de um mundo selvagem que não sentiria falta dele. Tudo para que pudesse escutar o silêncio. Sentir a paz, o raciocínio pulando de um lado para o outro sem influências externas, a mente aos poucos se esvaziando, o doce e pacífico vácuo aos poucos tomando conta de um momento de descanso que ele pretendia eterno.
Como era bom, estar em um lugar onde poderia ser ele mesmo, sem restrições, e ainda se ver livre de uma sociedade que o levava para lugares onde ele não queria ir, onde os sons eram altos demais, as cores eram impactantes demais, a pressão era grande demais. Às vezes, achava que não nascera para viver naquele mundo. Nas noites mais silenciosas, ele abria a janela e espiava as estrelas, pensando se lá, onde não havia ar para os destruidores humanos respirarem, o silêncio ainda dominava. Podia pensar em si mesmo flutuando, livre da gravidade e, metaforicamente, de todo o resto, simplesmente pensando em nada. A mera possibilidade era capaz de desenhar-lhe um sorriso.
Mas não naquele dia. Trazido de volta a terra pelo som da construção que se iniciara nas horas anteriores, ele agora via que, por mais que tentasse, estava preso e atachado aquele mundo barulhento. Nunca poderia fugir completamente, mesmo que desejasse voar para além das estrelas com toda a força de seu pensamento. A julgar pela altura em que os barulhos da construção chegavam aos seus ouvidos, algum vizinho de apartamento havia resolvido derrubar uma parede, ou algo do tipo. Nunca tivera queixas em relação a vizinhos, sempre discretos na medida que um ser humano comum é capaz de ser sem ofender a própria vaidade. Agora, porém, eles eram seu tormento.
Bem, verdade que deveria haver um motivo forte para criaturas tão pacíficas quanto aquelas que, esporádica e gentilmente apareciam para lhe convidar a um almoço, ao que ele sempre respondia inventando algum compromisso, estarem de repente perturbando sua paz silenciosa para algum ato vil e fútil de construção. Qualquer que fosse a motivação por trás da barulheira, porém, ele começou a ficar realmente irritado depois de alguns dias de incessante movimento. Pensou em ligar para a portaria do prédio pedindo explicações, mas há tempos que não tocava em um telefone. Não se atreveria, tampouco, a passar um passo além da soleira da porta. Se ali, dentro de sua zona de segurança, o som penetrava pelas paredes e fazia seus ouvidos doerem, o que seria dele quando estivesse de volta para selva lá fora? Não, o corredor não era seguro, para seu próprio bem.
Sua cabeça latejava a cada martelada no dia em que tudo pareceu acabado. Mais alguns sons estranhos, que ecoavam em seus ouvidos como um objeto grande sendo arrastado por um chão de madeira que rangia, e então o silêncio. Sua paz voltara. Naquela noite, porém, ele não se sentiu seguro o suficiente para observar as estrelas. Talvez devesse esperar mais alguns dias para ter certeza de que era seguro se expor a qualquer elemento externo. Depois de tamanho tormento, então, ele preferia pensar que nunca mais moveria um dedo sequer para fora dos limites daquela casa, seu santuário sagrado agora restaurado.
Naquela noite, ele dormiu bem. Mas não sonhou com suas estrelas. Algo estava vazio.
CONTINUA…
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Bom, pessoal, e por hojé é isso. É minha segunda tentativa de estabelecer uma pequena série por aqui no Anagrama, a idéia desse texto é originalmente de duas partes, a segunda seria postada na segunda-feira que vem, então se preparem. Quero saber, antes de tudo, se vocês gostaram dessa parte, para saber o que eu ainda posso mudar na segunda. Quem sabe essa história não rende até mais do que eu planejava? Enfim, resta-me esperar pela reação de vocês, esse foi um texto que simplesmente me veio a cabeça pronto, que foi surgindo melhor enquanto eu colocava ele no papel, foi bem espontâneo. Espero que tenham gostado. Por enquanto, deixo-lhes com uma frase bem curtinha, mas que me marcou muito na leitura de um certo livro. Aproveitem!
“O destino é tudo” – Bernard Cornwell em O Último Reino
