23 de jul. de 2012

Review: A Breve Segunda Vida de Bree Tanner.

bree-turner-book

por Luís Adriano Lima
(Literatura e Cinema)

A menina estava enroscada como uma bola ao lado das chamas, os braços envolvendo as pernas. Era muito nova. Mais nova do que eu – parecia ter talvez 15 anos, o cabelo escuro e liso. Os olhos estavam focalizados em mim e as íris eram de um vermelho vivo e chocante. Muito mais brilhantes do que as de Riley, quase em fogo. Giravam loucamente, descontroladas. [...]
- Ela se rendeu – disse-me em voz baixa.
(MEYER, 2009, p. 404)

Crepúsculo (2005) é um romance lançado há sete anos e que definitivamente foi o grande momento pós-Harry Potter. Não que a escrita de Stephenie Meyer tanja a qualidade daquilo que J. K. Rowling produziu ao longo de 10 anos (1997-2007) – na verdade, está muito aquém da série de fantasia bastante madura escrita pela britânica. No entanto, de modo algum se pode negar que as personagens compostas por Meyer se popularizam de tal maneira que é impossível hoje em dia não saber quem são Isabella Swan ou Edward Cullen. Não que isso, claro, signifique apreciar ou depreciar a obra, mas a modernização do vampiro – objeto de paixão de alguns – provocou debates de proporções imensas, os quais não pudemos, querendo ou não, evitar de ouvir.

Mas o ponto dessa resenha é outro. É justamente a obra lançada em 2010, depois dos livros Lua Nova (2006), Eclipse (2007) e Amanhecer (2008), que aparentemente finalizaram a trajetória da protagonista humana, que permanece nessa natureza até meados do último romance, quando finalmente se torna vampira. A Breve Segunda Vida de Bree Tanner, como o próprio subtítulo sugere, se trata de um spin-off do terceiro livro, cujo grande momento é o embate provocado por Victoria, cujo namorado foi assassinado por Edward no primeiro volume, de quem ela gostaria de se vingar – na narrativa, a vampira cria um exército de vampiros recém-criados e, por isso, bastante fortes e descontrolados, induzindo-os através de Riley a atacar a família Cullen. Bree Tanner, que era uma moradora de rua esfomeada quando foi transformada em vampira, narra os acontecimentos anteriores aos eventos de Eclipse a partir do momento em que sai para a sua primeira caçada com Diego, outro vampiro jovem que passa também a desconfiar das intenções de Riley e da mulher – Victoria – ao criar aquele pequeno exército.

O trecho que citei logo na abertura desse texto aponta o momento no livro Eclipse no qual Bree nos é apresentada pela primeira vez, ainda sem nome, que só nos seria revelado duas páginas depois, quando Jane – uma dos Volturi – a indaga acerca de suas origens e, também, da sua identidade. O que há de surpreendente no livro em relação ao comportamento de Bree é que, como comentado por Edward e notado pelos outros Cullen, aquilo não era comum – que um vampiro recém-criado se rendesse e, como vêem, se esforçasse para se controlar. Não é spoiler dizer que Jane Volturi não perdoa Bree e a extermina, como, afinal, ditam as regras – o extermínio de Bree já havia sido lido três anos antes nas páginas do terceiro episódio da saga. O que interessa nesse novo romance são os momentos anteriores ao combate entre o grupo de Victoria e a família Cullen – também, não menos importante, surge aqui um romance entre Bree e Diego, dois personagens que dividem um momento significativo e, a partir disso, criam uma afinidade que eventualmente se aproxima de amor.

A parte boa desse romance é que, em apenas 190 páginas, menos que a metade da quantidade de páginas do livro do qual deriva, a escritora conseguiu escrever tudo aquilo que era relevante para a história. Aliás, poder-se-ia facilmente reduzir o número de páginas se fossem extraídas as tantas vezes que Bree Tanner, a narradora, se pergunta acerca de perguntas já feitas três ou quatro vezes anteriormente. O mais curioso é que não é apenas um efeito retórico no discurso – a personagem não repete sua pergunta para que o leitor compreenda o grau de preocupação que a perturba. Trata-se apenas de uma escrita prolixa que tenta a todo o momento justificar a densidade psicológica de uma personagem cujo intelecto definitivamente não está em paridade com suas atitudes.

Bree Tanner é uma personagem bastante simplista. Apesar de nos serem dadas algumas informações sobre ela – havia fugido da casa do pai, estando morando nas ruas, quando trocou sua vida por um hambúrguer –, temos uma constante sensação de que não sabemos nada sobre ela. Na verdade, apesar de estarmos ante a história de Bree, sendo, aliás, contada por ela mesma, acabamos pensando o tempo que toda a história é sobre ela, Bella. Lembrando, em tempo, que devemos sempre distinguir escritor/autor de narrador: se Meyer detém os direitos autorais, sendo, pois, a autora, é Bella, Jacob (no epílogo do terceiro livro e numa das partes do quarto) e Bree Tanner que são os narradores, havendo, portanto, necessidade de distingui-los em suas maneiras de narrar o que vêem – são, afinal, três personagens distintos! E, honestamente, não fosse por um ou outro momento, fica sempre a sensação de que A Breve Segunda Vida de Bree Tanner, em vez de um spin-off narrado por Bree Tanner, se trata de mais um episódio da saga Crepúsculo, narrado por Bella, como em todos os outros livros. Transcrevo abaixo o único momento que mais se faz notar que a personagem é uma, não a outra:

Era isso que Riley nos mandava fazer. Caçar a escória. Escolher os humanos de quem ninguém sentiria falta, aqueles que não estavam voltando para casa e para a família, os que não gerariam ocorrências de desaparecimento. [...] Desliguei meu cérebro. Era hora de caçar. [...] Sua [de Diego] aterrissagem foi silenciosa demais para chamar a atenção da prostituta chorona, da prostituta distraída ou do cafetão zangado. Saltei do telhado, atravessei a rua e aterrissei ao lado da loura que chorava. [...] Ela abriu a boca para gritar, as meus dentes dilaceraram sua traquéia antes que algum som pudesse ser emitido. [...] O sangue era morno e doce.
(idem, 2010, p. 18-20)

O trecho acima apresenta o momento divisor de águas, que é justamente aquele que transforma Bree, a outsider, em alguém com um companheiro com quem dividir alegrias e tristezas. É extremamente superficial o contato dos dois – apenas uma caçada –, mas isso parece suficiente para começar uma boa amizade, até amor, por que não? Naquela mesma noite, os dois passam a partilhar juras e prometem dar suporte sempre um ao outro. Houvesse um princípio de rejeição por qualquer um deles em relação ao outro, independentemente das razões, decerto o romance estabelecido seria idêntico ao de Bella e Edward. Aliás, cabe dizer o quanto as duas personagens – Bella e Bree – são bastante parecidas, a começar pelo modo como sempre parecem desajustadas e intrusas às circunstâncias. Seguem passagens, uma de “Crepúsculo”, outra do objeto resenhado.

Não era só fisicamente que eu não me adaptava. [...] Eu não me relaciono bem com as pessoas da minha idade. Talvez a verdade seja que eu não me relaciono bem com as pessoas, e ponto final. [...] Às vezes eu me perguntava se via as mesmas coisas que o resto do mundo.
(idem, 2008, p. 18)

Eu franzi a testa. A casa de Riley era o último lugar onde eu gostaria de passar o resto da noite. Não queria ver o rosto estúpido de Raoul nem ouvir os gritos e as brigas constantes. Não queria ter de ranger os dentes e me esconder atrás do Freaky Fred para as pessoas me deixarem em paz.
(idem, 2010, p. 28)

Acima, um exemplo do desajuste social e pessoal que as personagens vivem. Além disso, Bella com Edward e Bree com Diego, ambas vivem romances marginalizados – no caso de Bree, mesmo que tanto ela quanto seu par sejam da mesma natureza, é evidente que todos os personagens que o circunvizinham desprezariam o relacionamento, o que os obriga a manter a guarda perto dos outros, seja por autopreservação ou por preocupação com o outro. Ambas as protagonistas lutam contra um inimigo invisível – Bella nunca sabe o quanto de risco há para ela por conviver com vampiros e Bree, grosso modo, também, salvo o fato de que ela sabe que o inimigo verdadeiro (não o grupo de recém-criados, sempre em desavenças) se mantém escondido o tempo todo e parece planejar algo perigoso.

Poderia resultar em algo verdadeiramente interessante apresentar o ponto de vista de uma história pelas perspectivas de outras personagens. O “Efeito Rashomon” poderia ser magnificamente explorado nessa obra se, além de uma boa composição literária que não se alicerçasse em senso comum, Stephenie Meyer houvesse realmente se preocupado em criar personagens diferentes em situações que demandassem um desenvolvimento psicológico aprofundado delas. O que se vê, no entanto, é apenas toda a história da saga Crepúsculo confinada em 190 páginas, das quais 1/5 – as últimas 40 páginas, praticamente – se trata na verdade de uma releitura do episódio registrado anteriormente em Eclipse. Pode-se ler o livro tranquilamente em uma tarde e gastar cinco ou seis horas seguidas atento às páginas, sobretudo porque não há nenhuma dificuldade na digestão desse romance, que é tão superficial quanto nenhum outro título da série ainda havia conseguido ser. Talvez seu maior mérito seja “externo” à qualidade literária da obra – paguei apenas R$5 nesse título que, de brincadeira, daria de presente a um colega. No mais, carece de estrutura adequada para que se faça notar como uma boa leitura.

bree

Luís Adriano Lima escreve todo dia 23.

1 comentários:

Renan disse...

Li todos os livros da saga e concordo que o sucesso não é proporcional a qualidade dos livros.

Espero ler este spin-off em breve, mesmo achando que sua crítica deve ser certeira sobre qualidade razoável do livro.

obs: as citações retiradas do livro poderiam ser formatadas de acordo com o estilo acadêmico que segue as regras da ABNT.