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9 de set. de 2016

Review: Por todo seu encanto visual, o novo “Mogli” triunfa mesmo é na narrativa

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por Caio Coletti

A trajetória de Mogli: O Menino Lobo é talvez a mais conturbada da rica história da Disney. Nascida como um clássico literário instantâneo, intitulado O Livro da Selva, de Rudyard Kipling, a história de Mogli foi criticada como um apoio descarado ao colonialismo, uma alegoria que trocava indianos e britânicos por animais e humanos, e insistia na superioridade dos últimos. Quase 70 anos depois de seu lançamento, Mogli virou uma animação pelas mãos de Walt Disney – de fato, o filme de 1967 foi o último da companhia a ser supervisionado por seu criador, visto que Disney morreu durante a produção do longa. Mudando radicalmente o plot do livro, o Mogli da Disney incluía canções e performers inesquecíveis para criar um hit de bilheteria certo e uma encantadora história sobre amadurecimento.

Uma continuação para o mercado de vídeo (em 2003) e algumas outras tentativas de adaptação da história original depois, a Disney voltou a investir na trama em Mogli – O Menino Lobo, e o resultado, talvez não surpreendentemente, acabou sendo uma mistura interessante de todos esses elementos da origem da história, e ao mesmo tempo uma evolução natural dela. O homem no comando é Jon Favreau, que ganhou a confiança do público, dos críticos e dos estúdios ao dirigir os dois primeiros Homem de Ferro – certificadamente, Favreau é um cineasta deslumbrado com as possibilidades do cinema contemporâneo, e ao mesmo tempo centrado o bastante em narrativa para fazer com que um filme funcione para além de seu visual ou de seus efeitos.

Em suma, ele é o homem certo para refazer Mogli – O Menino Lobo, na reimaginação esperta do roteirista Justin Marks (Street Fighter: A Lenda de Chun-Li), que consegue juntar o carisma dos personagens e uma série de referências respeitosas ao filme da Disney com o espírito alegórico e metafórico do livro de Kipling, tudo enquanto subverte a própria mensagem que Mogli sempre representou. De uma fábula sobre colonização mal-disfarçada, a história do menino que se perde dos pais, é criado por uma matilha de lobos na selva e caçado pelo maligno tigre Shere Khan se transforma em uma encantadora lição de convivência e adaptação às diferenças. Marks não tenta equalizar Mogli a seus co-habitantes animais na selva, mas permite que um aprenda com o outro para se tornarem, coletivamente, melhores.

É um princípio interessante para se manter em tempos que vemos tanta retórica anti-imigração por aí – a frente de um mundo notadamente xenofóbico e amedrontado, Mogli quer nos dizer que trazer alguém diferente para dentro de nossa casa contribui para a evolução natural de uma sociedade. Tudo enquanto Favreau passeia luxuriosamente por paisagens deslumbrantes criadas por efeitos especiais. Não há momento do filme que pareça artificial, mas o truque não é nem mesmo esse – ao lado de seus técnicos de efeitos especiais, Favreau cria um mundo que é ativamente deslumbrante, trabalhando ângulos de câmera que favoreçam o visual concebido e insiram o personagem humano (e estreante Neel Sethi) com cuidado, realismo e beleza plástica em um mundo digital.

Ajuda que o elenco de vozes reunido também seja perfeito, embora de forma óbvia, para os personagens. Quando o assunto é Baloo, Baghera, Rei Louie e Kaa, no entanto, é claro que o público quer percebê-los da forma como se lembra deles de sua infância, e Favreau acerta em cheio ao escalar seus dubladores de acordo com a personalidade dos personagens, sem correr riscos. É claro que Bill Murray dá um ótimo urso bonachão, corajoso e despreocupado; é óbvio que Ben Kingsley traz um quê de respeitabilidade para o admirável Baghera; e é mais do que evidente que o estilo inconfundível e excêntrico de Christopher Walken se presta admiravelmente ao Rei Louie. Idris Elba (Shere Khan), Scarlett Johansson (Kaa) e Lupita Nyong’o (Raksha) completam o elenco com trabalhos igualmente bacanas.

Se alinhando a outros dois filmes excelentes adaptados de propriedades intelectuais exploradas anteriormente em animação pela Disney (Malévola e Cinderela), Mogli – O Menino Lobo toma os riscos calculados que são próprios do estúdio do Mickey, e não é um pedaço de cinema essencial para entender o estado da cinematografia americana (ou da cultura pop) em 2016. No entanto, segue como um entretenimento bem-realizado que supera as deficiências de discurso de um filme anterior da Disney e o transforma em uma mensagem verdadeiramente positiva para qualquer público que venha a apreciá-lo. Mogli – O Menino Lobo corrige os defeitos de ambas as suas versões anteriores (em livro e filme) e encontra espaço para encantar, desafiar e ensinar o espectador. Não dá para pedir muito mais do que isso.

✰✰✰✰ (4/5)

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Mogli – O Menino Lobo (The Jungle Book, Inglaterra/EUA, 2016)
Direção: Jon Favreau
Roteiro: Justin Marks, baseado no livro de Rudyard Kipling
Elenco: Neel Sethi, Bill Murray, Ben Kingsley, Idris Elba, Lupita Nyong’o, Scarlett Johansson, Giancarlo Esposito, Christopher Walken, Garry Shandling, Emjay Anthony
106 minutos

30 de jun. de 2015

Diário de filmes do mês: Junho/2015

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por Caio Coletti

Nem todos os filmes merecem (ou pedem) uma análise complexa como a que fazemos com alguns dos lançamentos mais “quentes” ou filmes que descobrimos e nos surpreendem positivamente. Particularmente, eu não me dou a escrever críticas grandes de filmes que considero ruins ou irrelevantes, porque não vejo sentido em remoer demais os erros de uma produção cinematográfica. É levando em consideração a função da crítica e da resenha como uma orientação do público em relação ao que vai ser visto em determinado filme que eu resolvi criar essa coluna, que visa falar brevemente dos filmes que não ganharam review completo no site. Vamos lá:

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Chef (EUA, 2014)
Direção e roteiro: Jon Favreau
Elenco: Jon Favreau, John Leguizamo, Bobby Cannavale, Emjay Anthony, Scarlett Johansson, Dustin Hoffman, Sofia Vergara, Oliver Platt, Robert Downey Jr
114 minutos

Chef é, para quem conhece bem carreira de Jon Favreau, talvez o projeto mais pessoal que o ator/diretor/roteirista já fez. Celebrado pelas duas primeiras comédias que dirigiu (Crime Desorganizado e Um Duende em Nova York), o cineasta foi recrutado por Hollywood e comandou os dois primeiros Homem de Ferro, além do equivocado Cowboys & Aliens, de 2011. De certa forma, ainda que contando com um elenco estrelado e um “final feliz” hollywoodiano, Chef é o retorno de Favreau não só ao gênero que o consagrou como também ao tipo de história e valor de produção que o tornou um dos queridinhos da crítica no começo da carreira. Como tal, no entanto, o filme ousa ser também uma crítica mordaz às engrenagens da indústria, usando a frustração do personagem principal, um chef de cozinha apaixonado que é pressionado pelo dono do restaurante (Dustin Hoffman, ótimo) a cozinhar “o mesmo menu de sempre” como metáfora para as pressões da indústria cinematográfica sobre um autor como Favreau, que escolheu se aventurar por blockbusters tão cedo na carreira.

O mais bacana de Chef, no entanto, é que o diretor não quer realizar uma fábula amarga contra Hollywood, e sim um estudo de personagem e uma “dramédia” familiar que expressa algumas das frustrações que carrega como artista. Daí a importância do conflito com o crítico gastronômico interpretado por Oliver Platt, e o destaque dado à relação do personagem principal (que Favreau também interpreta, e com excelência) com o filho (Emjay Anthony), com a ex-mulher (Sofia Vergara) e com o melhor amigo (John Leguizamo). O elenco ajuda a abrilhantar o roteiro, que se estrutura de forma bem desenhada e segue sem derrapar até o final, quando um flashforward é inserido para nos mostrar a felicidade utópica do protagonista. É cruel dizer que Chef peca por ser idealista demais, principalmente em se tratando de um projeto tão pessoal para Favreau – a impressão que fica é que o diretor fez o filme para respirar o ar puro de fora da máquina hollywoodiana, e que o final feliz meio Sessão da Tarde, de pouca sutileza, faz parte desse respiro. Com um elenco brilhante e momentos genuinamente tocantes, Chef é um filme que faz por merecer a boa vontade do espectador para lidar com os poucos erros que ele comete.

✰✰✰✰ (3,5/5)

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Sem Limites (Limitless, EUA, 2011)
Direção: Neil Burger
Roteiro: Leslie Dixon, baseada na novela de Alan Glynn
Elenco: Bradley Cooper, Robert De Niro, Abbie Cornish, Andrew Howard, Anna Friel
105 minutos

Histórias de ascensão ao poder e desilusão idealista com os meandros do mesmo já foram contadas inúmeras vezes por Hollywod, em quase todos os cenários imagináveis. Esse arco narrativo particular foi o cerne de O Poderoso Chefão, e mais recentemente a política moderna ganhou sua própria versão da história em Tudo Pelo Poder, um grande filme que foi tragicamente ignorado pela temporada de premiações à época. Sem Limites, de certa forma, é uma variação dessa mesma trama – a diferença é que inclui elementos de ficção científica na mistura, produzindo um conto esperto sobre a inevitável corrupção daqueles que desejam o poder. A fábula de Eddie Morra (Bradley Cooper) e sua vida meteórica e perigosa depois de descobrir uma droga que o permite utilizar 100% das capacidades cerebrais não é um aviso anti-narcóticos, como muita gente interpretou – é uma condenação da ambição desmedida, uma análise fria e pessimista da pouca consideração que temos pela vida humana quando nossa felicidade (mesmo que seja uma felicidade artificial) está em jogo.

Curiosamente, o roteiro de Leslie Dixon (Hairspray) não hesita em herdar da novela de Alan Glynn esses dois clichezões (o da história de ascensão ao poder e o da questão “do que seríamos capazes com 100% do nosso cérebro?”), principalmente porque sabe que a força da trama está no discurso político e moral que tece ao misturar essas duas coisas. Há algo de novo e refrescante em Sem Limites, mesmo que haja muito pouco de original nele – parte da culpa, é claro, é do diretor Neil Burger (O Ilusionista), um dos mais eficientes “diretores-por-contrato” de Hollywood hoje e um esteticista com o olho certeiro para expressar as emoções da trama. Ele faz também um bom trabalho de direção de atores, orientando Cooper e Abbie Cornish, o casal principal, a trazer gravitas a seus papéis ao mesmo tempo em que se aproveita da verborragia e do carisma natural de seu protagonista. Sem Limites convence o espectador de sua própria inteligência até certo ponto, principalmente porque se mantem um passo a frente de nós, meros mortais, o tempo todo – e o resultado é um dos blockbusters mais interessantes dos últimos tempos.

✰✰✰✰ (4/5)

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Terremoto: A Falha de San Andreas (San Andreas, EUA/Austrália, 2015)
Direção: Brad Peyton
Roteiro: Carlton Cuse
Elenco: Dwayne Johnson, Carla Gugino, Alexandra Daddario, Ioan Gruffudd, Archie Panjabi, Paul Giamatti, Kylie Minogue, Colton Haynes
114 minutos

O cineasta canadense Brad Peyton tem um dos currículos menos auspiciosos de Hollywood atualmente. Para além de curtas-metragens e episódios do procedural Republic of Doyle, o diretor só assinou as sequências Como Cães e Gatos 2 e Viagem 2: A Ilha Misteriosa. O novo Terremoto: A Falha de San Andreas até herda desse último o seu astro, o ex-campeão de luta livre Dwayne “The Rock” Johnson, um ator surpreendentemente carismático para suas origens. Ele é o ponto fundamental de Terremoto, e faz seu trabalho de forma bastante decente como um piloto do corpo de bombeiros de Los Angeles, recém-divorciado, que se vê na obrigação de resgatar a ex e a filha quando um tremor de proporções mastodônticas atinge a Costa Oeste americana. O problema aqui não é o elenco, que é completado por um time surpreendente de nomes famosos (e atores competentes) que inclui Carla Gugino, Paul Giamatti e até a jovem Alexandra Daddario. Todos eles lutam contra os clichêzões dos seus personagens, criando seres humanos que seriam bastante envolventes em tela caso o filme ao redor deles fosse outro.

Sim, porque Reed e o roteirista Carlton Cuse (Lost, Bates Motel) moldam o seu filme-desastre para espelhar aqueles famosos feitos cinematográficos do diretor alemão Roland Emmerich, que destruiu o planeta em O Dia Depois do Amanhã e 2012. Da história da família que foi separada por uma tragédia do passado e as consequências emocionais dela até a fotografia de Steve Yedlin (Carrie), que tenta criar imagens genuinamente impressionantes nas sequências carregadas de CGI, tudo é um reflexo do estilo de Emmerich dirigir. O problema é que Reed não tem o senso de escala e a capacidade de conversar com o espectador no sentido de localizar seus personagens dentro da catástrofe que assistimos em takes abertos e generosos. O problema de San Andreas não é sua falta de surpresas, mas a pouca habilidade de seu diretor de criar tensão genuína mesmo que o espectador já saiba, no fundo, o destino dos personagens. O resultado é um filme morno, que falha em divertir ou emocionar de qualquer maneira o espectador.

✰✰ (2/5)

22 de mai. de 2015

Review: “Vingadores: Era de Ultron” é o melhor da Marvel no cinema, mesmo com todas as suas falhas

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por Caio Coletti

Desde 2008, quando começou sua passagem de rolo compressor pelo cinema comercial, a Marvel Studios fez um trabalho (de certa forma) admirável em transpor para as telas o conceito de um universo coeso de super-heróis que agem em storylines interconectadas – um conceito que há boas décadas tem funcionado para os quadrinhos. Vingadores: Era de Ultron é o décimo filme dessa colossal franquia e, como culminação de mais um “ciclo” dentro do storytelling da Marvel, é naturalmente uma obra muito atarefada, absorvida na tentativa de nos localizar no universo que os filmes anteriores construíram e, pelo caminho, ganhar personalidade e razão de existir próprias. O mais impressionante, no entanto, é que em algum lugar na sua impressionante metragem de quase 2h30 de explosões, aniquilação mundial e conflitos de personagem, Era de Ultron encontra a rota certa para se tornar um dos filmes mais gritantemente autorais do estúdio até hoje. E mesmo que, sob um olhar técnico e analítico, seja um filme bem falho, isso também significa que é o melhor capítulo do universo cinematográfico da Marvel até hoje.

Para começar, o filme conta uma história reprocessada dezenas de vezes pelo cinema de ficção científica e consegue encontrar um ângulo interessante para abordá-la. Na tentativa de criar uma força protetora para o planeta que torne o trabalho dos Vingadores desnecessário, Tony Stark passa por cima da burocracia e usa uma das joias do infinitos (parte integral da mitologia Marvel, sobre as quais você pode saber mais aqui), contida no cetro de Loki, para criar Ultron. Visto que o nome do vilão está no título do filme, dá para perceber que o androide (dublado espetacularmente por James Spader) não sai exatamente como o planejado, e usa o assustador poder que possui para buscar a aniquilação humana na Terra (porque, como manda o clichê do gênero, nós somos a ameaça à sobrevivência do planeta). O foco do genioso roteiro de Joss Whedon, no entanto, não fica nas implicações filosóficas do abuso da tecnologia, ou na incapacidade robótica de compreender a experiência humana – Era de Ultron é um filme sobre o mito do super-herói, sobre a reponsabilidade do poder bélico, sobre o fardo e a dúvida que é intrínseca à vida desses personagens que vemos desfilar pelas produções da Marvel desde 2008.

O filme de Whedon é o primeiro dessa nova era a entender e retratar com mais profundidade o lado sombrio das histórias em quadrinhos nas quais é inspirado, e a chocante humanidade que existe nesses personagens capazes de feitos inumanos. Seu retrato do vilão Ultron é quase um pedaço de cinema de terror dentro do mundo “limpinho” e “espetacular” do universo Marvel – da voz de James Spader ao design cheio de reentrâncias e expressividades, passando pela linguagem corporal provida pelo departamento de efeitos especiais, o personagem é uma realização completa (e assustadora) da lenta decadência à insanidade que o roteiro retrata. Há algo de muito humano na confusão de Ultron sobre os próprios conceitos, no ressentimento que demonstra ao seu criador, no absoluto ódio que parece alimentar sua missão. Consequentemente, há algo de muito envolvente também no personagem e na teatralidade que Spader empresta a ele, o que só torna mais perturbador quando Ultron se multiplica em infinitas réplicas de si e cria um terror coletivo muito mais poderoso do que o medo de um só nêmesis.

A introdução dos outros dois novos personagens também acerta em cheio no tom, e faz com que Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen) e Mercúrio (Aaron Taylor-Johnson) sirvam a um propósito narrativo que não é apenas a expansão do universo Marvel. Ela está aqui para que possamos entrar na mente dos nossos protagonistas, criando alucinações que revelam ao espectador as ânsias e traumas mais profundos de cada um deles, a reponsabilidade que carregam e os arrependimentos que acumulam. Como se tornou comum no universo cinematográfico da Marvel, o carisma de Robert Downey Jr. faz com que o filme seja um pouco condescendente aos modos paternalistas e militaristas de Stark, trazendo redenção fácil para o personagem que, no final das contas, provocou essa confusão toda por pura soberba. Whedon acerta mais no ponto com os outros personagens, adotando uma postura ambígua em relação aos atos e motivações de todos eles e buscando um retrato realista de um mundo em que pessoas capazes de destruição formidável andam entre nós. “Ultron não sabe a diferença entre salvar o mundo e destruí-lo”, diz a Feiticeira em certo ponto. “A quem você acha que ele puxou?”

Seguindo essa deixa, a ação em Era de Ultron se preocupa muito mais com o impacto da passagem desses heróis pelo mundo em que caminham do que qualquer outro filme de super-herói recente. Enquanto outros roteiristas tentariam reduzir o dano causado pelas lutas, geralmente movendo-as para locais distantes da civilização, Whedon cria um retrato eletrizante do impacto causado pelos poderes e complicações das batalhas dos Vingadores. O clímax não só ameaça a integridade do planeta, como faz com que seja parte integral da tensão o fato de que uma cidade inteira, populada, será erguida no ar e atirada contra a Terra para arquivar o objetivo do vilão. Outra batalha na metade do filme vê dois heróis se enfrentando em uma série de desvios que destroem de forma espetacular uma outra cidade – é uma cena de ação muito empolgante (talvez a mais bem estruturada do filme), dotada de algum humor, mas que nunca se permite ser inconsequente. A câmera de Whedon tenta acompanhar o tempo todo os destroços de um impacto, por exemplo, atingindo o chão, e frequentemente volta o olhar para a expressão de medo com a qual aqueles civis olham tanto para os vilões robóticos quanto para os heróis titulares do filme.

Com um elenco que parece incrivelmente confortável em seus personagens (Scarlett Johansson faz um trabalho particularmente brilhante aqui), Era de Ultron vacila um pouco no final, quando o diálogo entre Ultron e Visão (Paul Bettany finalmente aparecendo em carne e osso no universo Marvel) apela para a filosofia barata que uma centena de ficções científicas mais competentes já elaboraram. Em alguns momentos, no entanto, como o espetacular take em câmera lenta que vê os heróis reunidos em uma catedral combatendo o exército do vilão, o filme de Whedon brilha como uma das traduções mais dignas do espírito e da alma do que fez os quadrinhos da Marvel uma forma de arte tão popular tanto nesse século quanto no século passado: em seu retrato da super-humanidade desses personagens fantasiosos, Era de Ultron é um tomo poderoso sobre as falhas e as virtudes de todos nós.

✰✰✰✰ (4/5)

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Vingadores: Era de Ultron (Avengers: Age of Ultron, EUA, 2015)
Direção e roteiro: Joss Whedon
Elenco: Robert Downey Jr, Chris Hemsworth, Mark Ruffalo, Chris Evans, Scarlett Johansson, Jeremy Renner, James Spader, Samuel L. Jackson, Don Cheadle, Aaron Taylor-Johnson, Elizabeth Olsen, Paul Bettany, Cobie Smulders, Anthony Mackie, Hayley Atwell, Idris Elba, Linda Cardellini, Stellan Skarsgard, Claudia Kim, Thomas Kretschmann, Andy Serkis, Julie Delpy
141 minutos

6 de mai. de 2015

As melhores atuações femininas não indicadas ao Oscar dos últimos 10 anos (2005-2015)

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por Caio Coletti

Esses dias eu estava passeando pelo meu próprio Filmow (eu sei que você também se stalkeia nas redes sociais, não adianta fingir!) e me dei conta do monte de atuações brilhantes que eu vi nos últimos 10 anos de cinefilia. E me dei conta também da quantidade pequena delas que havia sido indicada ao prêmio-maior do mundo cinematográfico, ou ao menos o que tem maior visibilidade – o Oscar distribuído todos os anos pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas americana ignorou sistematicamente (ou quase indicou) todas essas interpretações aí embaixo, e como a lista original tinha dado quase 30 rankeados, decidi dividí-la em dois posts. Ladies first, é claro:

2013

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Emma Thompson, por Walt nos Bastidores de Mary Poppins

Apesar do título brasileiro infeliz, o filme de John Lee Hancock (Um Sonho Possível) sobre a produção do quinquagenário clássico infantil é um belo drama sobre o poder do ato de contar histórias, desenhado com arcos de personagem redondinhos pelo roteiro. Nada no filme consegue eclipsar, no entanto, a brilhante atuação de Emma Thompson como a autora dos livros que deram origem ao clássico da Disney – nem mesmo a encarnação carismática do velho Walt feita, em uma decisão de casting perfeita, por Tom Hanks. Fiel ao espírito da personagem, que protege sua criação com unhas e dentes devido ao caráter ultra-pessoal que a babá mágica tem para ela, Thompson aparece com um timing cômico perfeito, e a expressão severa que não cede em nenhum momento do filme. Sutil, a atriz esconde nos momentos mais improváveis a vontade da sua P.L. Travers de se livrar da descrença que os traumas do passado lhe trouxeram, e acerta em cheio ao retratar a reação da autora ao ver o filme produzido por Disney pela primeira vez.

Poderia ter acontecido? Apesar do bom buzz em torno do filme, o Oscar acabou indicando-o apenas como Melhor Trilha-Sonora, mas Thompson entrou na lista do Globo de Ouro como Melhor Atriz – Drama, então as chances eram boas.

Já ganhou? No auge dos dramas britânicos de época, Thompson ganhou uma estatueta pela atuação em Retorno a Howards End (1993) e outra por escrever Razão e Sensibilidade (1996). Ela não foi indicada nenhuma vez desde então.

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Naomi Watts, por Diana

Bombardeada de críticas, a biografia da princesa britânica comandada por Oliver Hirschbiegel (A Queda) é um filme que precisa ser redescoberto daqui a alguns anos, quando a febre pela exatidão biográfica passar. Sensível, fascinante e com uma performance central hipnotizante, é um filme muito melhor conduzido e narrado do que a maioria das críticas fez parecer – de qualquer forma, mesmo os detratores mais pesados da obra deveriam ter reconhecido o trabalho magistral de Naomi Watts na pele da Princesa Diana. Não só fisicamente parecida, mas incorporando a forma de falar, olhar e se portar da personagem histórica, a atriz junta todos esses maneirismos em um retrato compreensivo. A Diana de Watts é adoravelmente tímida, mas a atriz deixa claro que também existe um elemento de auto-proteção e mistério nessa timidez, não só o recato da realeza ou a humildade pela qual Diana foi particularmente conhecida. A maior virtude da performance da atriz, no fim das contas, é entender que a princesa deve continuar sendo um enigma para o espectador e para quem contracena com ela.

Poderia ter acontecido? A partir do momento em que o filme estreou sob uma chuva de críticas, não. O Oscar nunca vai tão categoricamente contra o consenso crítico sobre um filme. Dito isso, o buzz em torno de Watts antes da estreia do filme era considerável.

Já ganhou? As escolhas mais convencionalmente acadêmicas de Watts nos últimos anos tem trazido ela mais perto do Oscar – ela tem duas indicações, por 21 Gramas (2004) e O Impossível (2013), mas ainda falta ganhar um.

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Scarlett Johansson, por Ela

Yes, we’re going there! O Oscar ainda não arranjou um jeito de reconhecer atores por métodos de atuação que não sejam a presença live action em frente a uma câmera (existem partidários da criação de uma categoria de dublagem no prêmio da Academia, então vamos aguardar), mas de qualquer forma é difícil não admitir a genialidade da performance de Scarlett Johansson em Ela, uma das melhores ficções científicas do século XXI. Aparecendo apenas em voice-over, a atriz voltou à melhor forma do começo da carreira, começando uma série de investidas na ficção científica que fez muito bem à carreira e ao prestígio de Scarlett entre os críticos. Brincando com o status de sex symbol e, ao mesmo tempo, colocando sub-tons contestadores, uma vontade de aprender quase infantil e, conforme o filme progride, uma incontestável sabedoria na voz de Samantha (e a melancolia que vem intrínseca a ela), Scarlett entende o espírito especulativo e humano da verdadeira ficção científica, e arquiva uma performance tão cheia de nuances quanto qualquer das ótimas atuações presenciais do filme.

Poderia ter acontecido? Nas atuais conjunturas, não. O Oscar ainda nem indicou um ator por captura de performance, que dirá por trabalho de voice-over. Esse é só mais um dos aspectos nos quais a Academia ainda não está pronta para reconhecer o melhor, de verdade, da produção cinematográfica atual.

Já ganhou? Scarlett tem 4 indicações ao Globo de Ouro e é quase universalmente considerada uma das melhores atrizes de sua geração, mas nunca chegou a ser lembrada pelo Oscar. O mais perto disso foi o buzz em torno de sua atuação em Moça com Brinco de Pérola (2004).

2012

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Michelle Williams, por Entre o Amor e a Paixão

A Academia adora Michelle Williams, então é uma surpresa que tenham ignorado Entre o Amor e a Paixão, dramédia romântica da diretora canadense Sarah Polley que foi produzida em 2011, mas só chegou nos cinemas americanos no ano seguinte. Contrastando intensamente com a outra aparição de Williams no cinema em 2011 (Sete Dias com Marilyn), aqui a jovem atriz interpreta uma mulher normal, despida do glamour de estrela de cinema e das complicações à flor da pele de Marilyn Monroe. A performance de Williams como Margot é corajosa não só por permitir um retrato assim, tão banal, mas também por mergulhar fundo nas falhas e dilemas emocionais vividos pela personagem, cujo casamento com Lou (Seth Rogen) esfria quando o misterioso Daniel (Luke Kirby) se muda para a vizinhança. Entre o Amor e a Paixão, originalmente intitulado Take This Waltz, é um retrato brutalmente honesto da solidão fundamental da vida humana, e a intensa individualidade e idiossincrasia da atuação de Williams faz jus ao roteiro de Polley.

Poderia ter acontecido? Dada a predileção da Academia por Williams, com certeza. O que deve ter entrado no caminho da indicação é o gênero (quase uma comédia romântica) e o lançamento limitado do filme, produzido e lançado de forma mais ou menos independente.

Já ganhou? Não, mas foi lembrada três vezes na ainda curta carreira. A primeira por Brokeback Mountain, em que atuou ao lado do ex-marido Heath Ledger, a segunda por Namorados Para Sempre, e a terceira por Sete Dias com Marilyn.

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Ann Dowd, por Compliance

Tenso e incômodo, o filme de Craig Zobel se destacou no circuito indie em 2012. A polêmica quanto à história real em que o filme se baseia, e quanto aos degradantes momentos pelos quais a protagonista (Dreama Walker) passa nos curtos 90 minutos de metragem não foi o bastante para encobrir a contundente crítica que o diretor/roteirista faz à postura passiva da personagem feita por Ann Dowd. Tão protagonista quando a garota interpretada por Walker, a gerente do restaurante fast food que recebe uma prank call perigosa (para dizer o mínimo) é uma personagem para o espectador odiar e, ao mesmo tempo, pela qual ele se vê fascinado. Carregando a tese do filme nas costas, Dowd entrega uma interpretação superlativa, que acha as maneiras mais geniosas de retratar o processo mental dessa espectadora de um verdadeiro show de horrores. Apoiando-se em cada estrutura e burocracia do sistema capitalista, Dowd cambaleia pelo filme de Zobel como um retrato cruel, mas excepcionalmente humano, das armadilhas do mundo moderno.

Poderia ter acontecido? Muito dificilmente. Com o caráter polêmico do filme e o nome pouco conhecido de Dowd, poucos votantes da Academia devem sequer ter visto Compliance, que dirá votado por Dowd na concorrida categoria de Melhor Atriz.

Já ganhou? Infelizmente, não. O Oscar não é exatamente conhecido por premiar character actors como Dowd, e o trabalho mais destacado dela tem sido na televisão nos últimos anos, com aparições em Masters of Sex e The Leftovers, entre outras séries.

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Samantha Barks, por Os Miseráveis

Não é a toa que Samantha Barks foi a única atriz principal que Tom Hopper, o diretor de Os Miseráveis, chamou para seu filme diretamente da montagem teatral que o precedeu. O poderio vocal da moça fica mais que claro na rendição da clássica “On My Own”, mas é em cenas menores, anterior e posteriormente, que a performance de Barks realmente se destaca. A delicadeza na cena que marca a morte da personagem, com a belíssima "A Little Fall of Rain", é testemunha de uma atriz capaz de um grande leque de tons e emoções. Barks, estreante no cinema, empresta dicas da própria direção do filme, que fez todos os atores cantarem ao vivo para que as falhas em suas vozes fossem parte da humanidade dos personagens, e constrói uma versão vulnerável, sentida e completamente inesquecível de uma das personagens mais intensamente trágicas (e identificáveis) do cânone musical atual. Em um filme já intensamente humano, Barks entrega uma performance que aprofunda o próprio conceito de humanidade.

Poderia ter acontecido? Com uma produção do prestígio de Les Misérables, não dá pra dizer que era impossível – mas ela era a segunda na fila para Melhor Atriz Coadjuvante pelo filme, e previsivelmente perdeu o lugar para a mais conhecida Anne Hathaway, que acabou vencendo a estatueta.

Já ganhou? Os Miseráveis foi a estreia de Barks no cinema, então a Academia ainda não teve a oportunidade de laurear essa moça de apenas 25 anos. Esperemos que as escolhas de papéis no futuro sejam boas o bastante para corrigir a injustiça cometida em 2012.

2011

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Roma Gasiorowska, por Suicide Room

Sobrenatural. Desde que tive o prazer de ver Suicide Room, em 2012, eu nunca consegui usar outra palavra para definir a performance de Roma Gasiorowska nele – e eu tenho a impressão que quem assiste ao filme de Jan Komasa tende a concordar comigo. Atuando quase totalmente através da imagem estática de uma webcam que mostra pouco mais do que seus olhos (mesmo porque a personagem usa uma máscara boa parte do tempo), Gasiorowska dá vida a essa força da natureza chamada Sylwia, que se torna a principal companhia de Dominik (Jakub Gierszal) quando este se reclui no mundo virtual depois de uma série de maus-tratos de seus colegas de escola. A estética da personagem, com a máscara, as tatuagens no rosto e o cabelo rosa, já é bastante marcante, mas a combinação opressiva de sedução, fervor ideológico e fragilidade que Gasiorowska empresta para Sylwia é uma colaboração toda particular da atriz, que se usa de artifícios bem mais sutis que aqueles de Gierszal para nos colocar no olho do furacão da depressão e do coração negro de Suicide Room, essencialmente uma crítica social.

Poderia ter acontecido? Só se o filme polonês tivesse tido mais impacto e entrada no circuito de grandes festivais. Subestimado como foi na época de seu lançamento, Suicide Room não chegou nem a uma indicação a Melhor Filme Estrangeiro, que dirá uma para Roma.

Já ganhou? Apesar dos múltiplos prêmios na Terra natal, Roma ainda não conseguiu um papel que a destacasse internacionalmente – mas ela ainda tem só 34 anos, então resta torcer para que isso aconteça algum dia.

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Tilda Swinton, por Nós Precisamos Falar Sobre o Kevin

O impacto da fábula anti-maniqueista da diretora Lynne Ramsay sobre a mãe de um garoto condenado como autor de uma chacina escolar foi tanto que até hoje a cineasta não conseguiu bolar um sucessor à altura. De forma absolutamente clínica, quase fria, o filme observa a epopeia de Eva (Swinton) durante os anos de formação do filho Kevin (Jasper Newell e Ezra Miller em fases diferentes) – em momento algum o roteiro deixa claro se a conduta desapaixonada da mãe era causa ou consequência do comportamento cada vez mais doentio e manipulador do filho. Mas é a na atuação de Swinton que mora o trunfo de Precisamos Falar Sobre o Kevin: carregando um peso enorme nas costas, a atriz tira proveito do porte físico frágil e nos faz esquecer das feições andróginas que fizeram sua fama, construindo uma Eva que é severa, debilitada, espantada e, acima de qualquer coisa, um produto do mundo a sua volta. A maestria da atuação de Swinton está em internalizar tudo aquilo que o ambiente e as situações do roteiro oferecem, criando uma identificação com o espectador que compensa pelo estilo (acertadamente) desapaixonado da direção.

Poderia ter acontecido? Mais do que isso: foi uma genuína surpresa quando não aconteceu. Swinton não estava ainda tão longe da sua vitória por Conduta de Risco, foi indicada ao Globo de Ouro e figurou em todas as listas de melhores performances daquele ano da crítica especializada.

Já ganhou? A vitória como Melhor Atriz Coadjuvante por Conduta de Risco não só veio tarde (2009) na carreira, como pareceu o prêmio de consolação da Academia para uma intérprete que eles nunca entenderam (e portanto, apreciaram) o bastante.

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Keira Knightley, por Um Método Perigoso

Keira Knightley é um dos jovens talentos britânicos mais apreciados pela Academia nesse século. As duas indicações aos prêmios de atuação, mais as outras vezes que o nome da inglesa figurou nas listas de possíveis indicados, no entanto, ignoram a melhor atuação da sua carreira até agora: na pele da problemática Sabina Spielrein em Um Método Perigoso, Keira desenha um arco de personagem que é difícil imaginar outra atriz desenhando. Inicialmente paciente do Dr. Jung (Michael Fassbender), a personagem de Keira começa o filme com um par de cenas verdadeiramente intensas, verborrágicas, delirantes, enriquecidas de pequenos detalhes e tiques nervosos pela interpretação da moça. Conforme o filme progride para o seu estudo aprofundado do desejo e das particulares da psique humana, Sabina é “curada” pela psicanálise e reconstrói sua vida e sua reputação – e a cuidadosa construção que Keira faz dessa personagem “sob controle” (ainda que precário) de si mesma é de uma maestria fascinante.

Poderia ter acontecido? A Academia nunca foi muito fã de David Cronenberg, e a transição do canadense de seus filmes mais chegados ao horror para dramas elegantes (ainda que essencialmente idiossincráticos) não impressionou muito, o que os torna virtualmente cegos para atuações como a de Keira.

Já ganhou? Lentamente Keira está dominando as mentes e corações da Academia, tendo sido indicada duas vezes (por Orgulho & Preconceito em 2006 e O Jogo da Imitação em 2015). Eventualmente a moça deve sim levar a estatueta para casa.

2010

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Juliette Binoche, por Cópia Fiel

Talvez a atriz mais celebrada e premiada da sua geração, Binoche já ganhou tudo o que se pode ganhar como atriz (ou quase tudo). Foi com Cópia Fiel que ela conquistou o prêmio do Festival de Cannes, consolidando sua posição como a mais recente de uma linhagem de grandes atrizes francesas (Deneuve, Huppert, etc). O filme do iraniano Abbas Kiarostami acompanha uma mulher francesa e um escritor britânico enquanto os dois passeiam por um vilarejo na Itália e discutem, nos âmbitos da arte e da vida, uma questão fundamental: até que ponto uma cópia é também, de sua forma, autêntica? A reflexão do filme só fica clara para quem realmente assiste (e olhe lá), mas apreciar a atuação de Binoche é inescapável – a sutileza com a qual sensibiliza sua personagem para as ações do único companheiro de cena, a forma como a vaidade e a insegurança são partes integrais de sua construção, e a afamada (com razão!) cena em que Elle, a personagem, se olha longamente no espelho são momentos testemunha do ápice de uma atriz brilhante.

Poderia ter acontecido? Mesmo com todo o barulho que o filme de Kiarostami fez em Cannes, não foi o bastante para o Oscar abrir os braços para o cinema estrangeiro com tanta convicção – são raras e bem espaçadas as ocasiões em que isso acontece.

Já ganhou? Binoche só ganhou atenção da Academia na fase mais hollywoodiana da carreira, previsivelmente. Venceu a estatueta por O Paciente Inglês, em 1997, e voltou a ser indicada pela comédia romântica Chocolate, em 2001.

2009

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Julianne Moore, por Direito de Amar

Citar só um filme em que Julianne Moore merecia ter sido lembrada pela Academia é uma tarefa dificílima (tanto que tivemos que escolher dois, como você pode ver aí embaixo) – especialmente nos últimos 15 anos, a americana tem escolhido e desempenhado seus papeis com um nível de refinação tão absoluto que é quase como se sua filmografia fosse uma série de performances dignas de Oscar, com pouquíssimos deslizes. No bom Direito de Amar, adaptação de Christopher Isherwood comandada pelo estilista Tom Ford, Julianne encara uma das personagens femininas coloridas pelas quais o escritor ficou conhecido. A amiga de meia-idade do protagonista interpretado com minimalismo exemplar por Colin Firth entra no filme cuidadosamente controlado de Ford como um furacão de comoção – intensa, trágica e patética, Charley é um retrato pintado com pinceladas largas, mas exemplarmente bem colocadas. Ela é o elemento mais gritantemente humano do filme, e os ecos de mágoas do passado que a personagem traz à jornada do protagonista são material farto para uma atriz como Moore, mesmo com o pouco tempo em cena.

Poderia ter acontecido? Teoricamente, sim. O filme de estreia de Tom Ford rendeu indicação a Melhor Ator para Firth, e Moore até foi indicada ao Globo de Ouro, mas a Academia a substituiu na categoria Melhor Atriz Coadjuvante por Maggie Gyllenhaal (Coração Louco).

Já ganhou? A novela de Julianne e o Oscar era uma das mais citadas entre os cinéfilos – até que a atriz finalmente ganhou o prêmio, na quinta indicação, pela atuação em Para Sempre Alice, em 2015.

2008

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Julianne Moore, por Ensaio Sobre a Cegueira

Nós lutamos por um tempo com a perspectiva de incluir a atuação de Moore em Minhas Mães e Meu Pai na lista, mas o papel protagonista pelo qual nós realmente gostaríamos de ter visto Julianne entre as indicadas é esse, na adaptação de José Saramago empreendida pelo brasileiro Fernando Meirelles. Ensaio Sobre a Cegueira é um filme tumultuado, extremo e coalhado de sensações, como manda a própria premissa, e a âncora moral da história, durante todo esse tempo, é a atuação de Moore como a esposa do médico interpretado por Mark Ruffalo (os personagens não ganham nomes). O sofrimento pelo qual a personagem passa é governado por leis tão diferentes daquelas do nosso mundo que talvez, nas mãos de outra atriz, fosse difícil de identificar com ela. Mas não só o diretor Meirelles faz um bom trabalho em nos colocar o tempo todo junto com esses personagens, como Moore realiza um trabalho profundamente humano, que deixa as falhas da personagem aparecerem e sua resiliência nos parecer tão natural quanto extraordinária.

Poderia ter acontecido? A recepção crítica morna do filme de Fernando Meirelles tornou virtualmente impossível que qualquer aspecto dele fosse reconhecido pelo Oscar – uma pena, porque a obra dirigida pelo brasileiro está passando por revisões e reavaliações críticas até hoje.

Já ganhou? Vide a aparição anterior de Julianne na lista.

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Kristin Scott Thomas, por Há Tanto Tempo Que Te Amo

Majestosamente elegante em sua presença em filmes de época durante os anos 90, no auge de seu estrelato, a bela inglesa Kristin Scott Thomas encontrou no papel mais improvável o pico de sua atividade como atriz. Sob a direção crua de Philippe Claudel, e interpretando uma mulher que acaba de sair da cadeia após cumprir pena pelo assassinato do seu próprio filho, na época com 6 anos, Thomas brilha na ambiguidade e na culpa que empresta à personagem. O filme nos deixa no escuro, por boa parte do tempo, sobre os motivos que levaram ao horrendo crime, mas brinca com o espectador ao humanizar intensamente essa mulher da qual não estamos absolutamente dispostos a gostar. Thomas mantem essa ambiguidade, mas ao mesmo tempo parece trilhar uma jornada toda sua durante o filme, observando com olhos cansados as reações adversas daqueles a sua volta, e carregando desafiadoramente um sufocante luto que incomoda justamente por parecer tão fora de lugar. Há Tanto Tempo Que Te Amo contesta cada percepção do espectador, e nenhuma é mais forte que a causada pela performance de Thomas.

Poderia ter acontecido? Deveria. O filme de Claudel quebrou barreiras internacionais quando fez Thomas ser indicada ao Globo de Ouro pelo papel – o reconhecimento do Oscar era bastante esperado, mas acabou não acontecendo. Há Tanto Tempo Que Te Amo não entrou nem na competição por Melhor Filme Estrangeiro.

Já ganhou? Perdeu sua única indicação no mesmo ano em que a co-estrela (e companheira de lista) Juliette Binoche ganhou, por O Paciente Inglês. Desde então, as aventuras britânicas e francesas da atriz não impressionaram a Academia.

2007

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Keri Russell, por Garçonete

Largamente assombrado pelo fantasma do horrível assassinato de sua diretora, Adrienne Shelly, antes do lançamento do longa-metragem, Garçonete é um comovente feel good movie feminista sobre uma mulher que descobre que há maneiras mais definitivas de fugir da realidade de um casamento infeliz do que se afogar nas elaboradas receitas de torta que faz na lanchonete local. Jenna, interpretada por Keri Russell, nunca perde a ternura durante os transformativos eventos do decorrer do filme, mas a performance da atriz dá dicas do endurecimento e da independência que a personagem adquire em momentos sutis. Passeando confortavelmente entre drama e comédia, e excepcionalmente minuciosa em cada momento, Russell e seu sorriso contagiante são a alma e o corpo de Garçonete. Cada passo da trama é seguido de perto pela observação paciente e cuidadosa das reações de Jenna ao que acontece a sua volta, e a adorável inocência da performance de Russell vem escondendo, apropriadamente, uma força e uma inteligência insuspeitas.

Poderia ter acontecido? O filme recebeu bastante amor da crítica especializada, mas como acontece com a maioria das dramédias indie, isso não se traduziu em grandes premiações. Russell, largamente uma character acrtess de TV, tampouco tem o “perfil” que o Oscar procura.

Já ganhou? Está demorando para Russell receber o prestígio que merece. Não só pela atuação em Garçonete, mas ela é sistematicamente ignorada pelo Emmy e pelo Globo de Ouro todos os anos, visto que os votantes se recusam a indicar sua brilhante performance em The Americans.

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Marcia Gay Harden, por O Nevoeiro

Genial e muitas vezes mal-compreendido, O Nevoeiro está começando a passar por reavaliações críticas nos últimos anos. Essa é a hora, portanto, de reconhecer o poderoso trabalho de Marcia Gay Harden no filme, interpretando a fanática religiosa Mrs. Carmody – a atriz, que aliás parece se ajustar excelentemente a tudo o que faz (vide a comédia Trophy Wife, precocemente cancelada pela ABC), encarna o espírito à flor da pele da narrativa de Stephen King e, especialmente, entende o ponto essencial do qual ela pretende tratar. Da sua expressão corporal escorregadia e ameaçadora até o fogo que arde nos olhos de Carmody na infame cena em que ela faz uma oração iluminada por velas no banheiro do supermercado em que todos os personagens estão presos, tudo na performance de Harden grita e esperneia que essa personagem precisa ser entendida como um monstro. Mais sutil e assustadora do que qualquer dos enormes aliens que assombram os personagens de O Nevoeiro, Harden é a pedra fundadora sobre a qual o filme se sustenta.

Poderia ter acontecido? O problema aqui é de gênero cinematográfico: o “filme de monstros” de Darabont jamais se qualificaria, na mentalidade da Academia, para prêmio nenhum. Sem contar que a obra foi subestimada até pela crítica especializada.

Já ganhou? Harden foi indicada duas vezes a Melhor Atriz Coadjuvante e venceu pela cinebiografia Pollock, em 2001. A outra indicação veio três anos depois, pelo papel no drama Sobre Meninos e Lobos, de Clint Eastwood.

4 de fev. de 2014

Review: Por que, num ano cheio de ficções científicas, “Ela” é a melhor de todas?

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por Caio Coletti

Um dos grandes, senão o grande chavão da ficção científica moderna, é aquele que usa os elementos “extra-realistas” do gênero para exaltar o espírito humano. Em várias histórias, quando ameaçados por elementos fora do nosso mundo habitual – ou mesmo criado por nossos vícios e defeitos –, a humanidade precisa voltar a constituição mais pura de sua alma, aos sentimentos de afeição e união, para perseverar. Nós existimos contra todas as possibilidades, é o que nos diz a ficção científica, e só isso já é prova de que somos verdadeiramente excepcionais. Ela, novo filme de Spike Jonze, indicado a 5 Oscar, não quer negar que sejamos, mas ao contrário da maioria de seus companheiros de gênero, exalta a humanidade exatamente naqueles pontos em que somos mais falhos.

Para começar, como indica a tagline abaixo do título no poster, essa é uma história de amor. Sem rodeios, Ela é um filme extremamente doloroso em seu retrato de todas as fases que compreendem um relacionamento romântico, e de certa forma é também uma narrativa cíclica: Theodore (Joaquin Phoenix) é um recém-divorciado que se apaixona pelo novo sistema de operações que adquire. No futuro de Ela, todo mundo anda com um ponto no ouvido e comanda funções simples como checar e-mails e ler as notícias do dia por controle de voz. A novidade do modelo mais recente comprado por Theo é que o sistema tem uma personalidade própria, uma inteligência artificial que ganha o nome de Samantha (e a voz de Scarlett Johansson, na sua melhor atuação em anos – sim).

Humano e máquina engajam em um relacionamento, e Ela ganha pontos ao retratar um mundo em que nem todas as pessoas que cercam Theo acham isso estranho. Na verdade, o filme dá dicas de que o caso do personagem de Phoenix não é o único nesse universo criado nos mínimos detalhes por Jonze, num trabalho de roteiro excepcional. O script é sem dúvidas a obra-prima do responsável por Quero Ser John Malkovich e Onde Vivem os Monstros, combinando simplicidade e um meticuloso equilíbrio entre sarcasmo social e verdade emocional. Em última instância, Ela, assim como a sociedade que retrata, é incapaz de julgar o relacionamento entre Theo e Samantha, e talvez por isso desenhe nele um arco tão familiar para as histórias românticas. Não que o filme jogue com clichês, mas existe nessa ficção científica algo de muito realista, também, sobre o relacionamento humano.

A elaboração técnica é impecável. O design de produção (indicado ao Oscar) e a fotografia genial de Hoyte Van Hoytema (Deixe Ela Entrar) ajudam a construir um universo para Ela que é absurdamente amplo. Discretamente lírico e sensorial, sem exageros impressionistas, o filme consegue uma proeza que poucos feitos cinematográficos alcançam hoje em dia: tudo na direção só acrescenta camadas e temas a um filme que já é muito rico deles no papel. O trabalho de Hoytema nas câmeras dá à discussão de humanidade e sentimento uma profundidade muito maior, e ao mesmo tempo deixa a história respirar quando o filme precisa apenas observar Joaquin Phoenix e sua impressionante gama de emoções passear pela tela. Assim como o ator acrescenta delicadeza a um personagem difícil, e comanda o filme com autoridade, a fotografia e o universo ao redor dele ajudam a contornar e colorir essa performance de forma absolutamente deslumbrante.

Como toda grande ficção científica, toda grande história de amor, e toda grande obra-prima, este filme carrega consigo uma convicção muito grande, que é tratada em tela com tanta sutileza quanto assertividade. Para Jonze, talvez o grande ponto seja que a maior parte de nossa dimensão não é física, e sim emocional. Ela é uma celebração da humanidade como a espécie que está sempre em busca de quebrar uma barreira, superar algo, viver depois do sobreviver. Mas não se furta de mostrar que nem sempre poderemos fazer isso junto de quem amamos.

✮✮✮✮✮ (5/5)

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Ela (Her, EUA, 2013)
Direção e roteiro: Spike Jonze
Elenco: Joaquin Phoenix, Amy Adams, Rooney Mara, Scarlett Johansson, Chris Pratt
126 minutos

24 de mai. de 2013

Estamos na fila: Don Jon, com Joseph Gordon-Levitt e Scarlett Johansson

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por Caio Coletti

É um sinal de que a transição televisão-cinema não é mais um tabu quando alguém como Joseph Gordon-Levitt nem é mais lembrado como um caso bem-sucedido da mesma. Lembrei ou não, o californiano de 32 anos esteve em todas as cinco temporadas de 3rd Rock From The Sun, entre 1996 e 2001. Difícil apontar exatamente quando ele se tornou um astro depois disso, mas a gente gosta de pensar em (500) Dias com Ela, claro. Isso fazem só quatro anos. Agora, em 2013, Joseph estreia na direção com Don Jon, previsto para Outubro nos EUA.

Levitt também escreve o roteiro sobre um cara de New Jersey que tem apenas algumas preocupações na vida: seu corpo, sua casa, seu carro, sua família, sua Igreja, seus amigos, suas garotas… e seu pornô. Isso muda quando ele conhece Barbara (Scarlett Johansson), que idealiza como a mulher da sua vida. O problema é que, como a maioria das mulheres, Barbara não tem a melhor das opiniões sobre a fixação do seu namorado com a pornografia. O elenco também tem Julianne Moore, além de participações especiais de Channing Tatum, Anne Hathaway e Cuba Gooding Jr.

16 de mai. de 2013

Cannes 2013: Dia 01 – Gatsby, Scarlett Johansson e The Bling Ring

DV1474985Na coletiva de imprensa de Gatsby, da esquerda para a direita: Tobey Maguire, Baz Luhrmann, Carey Mulligan e Leonardo DiCaprio

por Caio Coletti

O primeiro dia de Cannes 2013 teve de tudo: estreias aguardadíssimas, anúncios inesperados e até uma surpresa sul-americana. Mas tudo começou com O Grande Gatsby, é claro, exibido pela manhã antes mesmo da grande abertura do Festival, que ocorreu em grande estilo ontem (15) a noite. A recepção um pouco fria do público ao filme de Baz Luhrmann não casou muito com a estreia meteórica (US$ 50 milhões em um final de semana) do filme nos EUA.

O diretor, em entrevista ao site brasileiro UOL, reafirmou a relevância atual de seu filme: “O periódo moderno que conhecemos hoje começou nos anos 1920, que o livro retrata (…). Então, essa história do Gatsby poderia acontecer hoje. Wall Street ainda tem corrupção, está fora de controle e temos essas festas, a decadência”. Para DiCaprio, Gatsby é sobre “a tragédia desse americano em anos de opulência”. O filme estreia no dia 07 de Junho no Brasil.

DV1475180O júri de Cannes 2013, da esquerda para a direita: Lynne Ramsay, Ang Lee, Steven Spielberg, Nicole Kidman, Daniel Auteuil, Vidya Balan, Christoph Waltz, Maomi Kawasi e Christian Mungiu

A sempre diplomática coletiva de imprensa com o Juri da seleção oficial de Cannes não fugiu do script em 2013, embora abrilhantada pelo carisma de alguns de seus integrantes. O grande astro do ano, o presidente do juri, Steven Spielberg, comentou com franqueza e maturidade sobre ter concorrido apenas uma vez (com Louca Escapada, em 1974) a Palma de Ouro: “Isso é normal. Não podemos comparar maçãs com laranjas; filmes feitos para atrair o máximo possível de espectadores aos cinemas com filmes que mudam a sua maneira de ver a si mesmos, os outros, a vida”.

O diretor taiwanês Ang Lee e Spielberg trocaram elogios: “Eu o idolatro, o vejo como herói. Não sei como ele me vê”, disse o vencedor do Oscar por Brokeback Mountain. “Eu idolatro As Aventuras de Pi, portanto também idolatro você”, Spielberg retribuiu. O sempre charmoso Christoph Waltz, dono de dois Oscar de coadjuvante (Bastardos Inglórios e Django Livre), arrematou o clima do evento com uma comparação graciosa: “Uma boa psicanálise é a combinação entre um bom analista e um bom paciente. Da mesma maneira, seremos a combinação entre bons filmes com o nosso trabalho de juri. Terei a chance de discutir com essas oito pessoas maravilhosas, vindas de todo o mundo”.

Primeiro filme a ser exibido pela Seleção Oficial e, portanto, primeiro concorrente a Palma de Ouro visto pelo júri, Heli, filme mexicano, é o único representante latino-americano na disputa esse ano. Como Cannes não é Cannes sem um pouco de polêmica, a ultraviolência do diretor Amat Escalante, que já ganhou prêmio na mostra Un Certain Regard com Sangre, de 2005, dividiu opiniões. Houve jornalistas que deixaram a sala durante a exibição, especialmente após uma cena em que um animal de estimação é sufocado até a morte na frente de sua dona, uma criança. O diretor se defendeu: “Quando filmo esses atos de violência, não estou tentando impressionar, e sim traduzir a tristeza desses atos”.

127084355BG004_Dolce_GabbanScarlett Johansson em Cannes

Embora não participe de nenhum dos filmes em exibição nessa edição do Festival, Scarlett Johansson é sempre o centro das atenções por onde passa. Escalada para o novo filme de Jon Favreau, Chef, ao lado do próprio Robert Downey Jr com quem contracenou em Homem de Ferro 2 e Os Vingadores, a moça aproveitou todo o fuss da imprensa em Cannes para anunciar que, veja só, tem planos para estrear na direção em breve. E o projeto não carece de pedigree: trata-se da adaptação de Travessia de Verão, romance de Truman Capote publicado anos anos 90 sobre uma menina de classe alta na Nova York pós-Segunda Guerra. A única experiencia da ScarJo na direção é o custa These Vagabond Shoes, estrelado por Kevin Bacon, de 2009.

Emma-Watson-poses-during--001Emma Watson na mira dos fotógrafos na coletiva de The Bling Ring

As coletivas de imprensa da mostra Un Certain Regard poucas vezes são tão badaladas quanto a de The Bling Ring, novo filme de Sofia Coppola estrelado por Emma Watson. Assumindo o posto de uma das obras mais esperadas de todo o Festival, o filme jovem da filha de Francis Ford sobre uma gangue de garotas que rouba casa de celebridades teve gente ficando de fora da sessão graças a super-lotação. Graciosa como sempre, Miss Watson respondeu brilhantemente as perguntar sobre sua fase Harry Potter: “Essa fase já parece tão distante para mim, já se passaram três ou quatro anos. Mas ao mesmo tempo é tão presente ainda. Não quero fugir do meu passado, mas estou feliz de poder fazer novos papéis e trabalhar com gente nova”. Uma resposta elegantíssima.

A diretora Sofia Coppola, por sua vez, contou que quis narrar uma história simples e doce ao mesmo tempo que não deixou de lado a crítica a sociedade consumista e a obsessão dessas jovens pela fama: “A história toda aconteceu há dez anos, mas diz muito sobre a nossa cultura hoje. Los Angeles é o epicentro da cultura americana. Sempre me interessei por personagens que estão em busca da sua própria identidade, e de alguma forma perdem a inocência nessa busca”. The Bling Ring estreia dia 12 de Julho no Brasil.

10 de jan. de 2013

Previsões para o Oscar 2013: Melhor Canção

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Saíram os indicados ao Oscar 2013! Pra quem ainda não viu a lista completa, dá uma olhada aqui. A cerimônia acontece no dia 24 de Fevereiro próximo, apresentada por Seth McFarlane, criador de Family Guy e roteirista e diretor do sucesso Ted.

Vamos começar a diversão? A melhor parte de qualquer temporada de premiações? Façam suas apostas! A gente elenca aqui as cinco indicadas a Melhor Canção Original, e as chances de cada uma levar a estatueta.

“Skyfall” – Adele

A indicação óbvia da categoria (e franca favorita para a vitória) é a canção composta por Adele e o produtor Paul Epworth para a última aventura de James Bond, 007 – Operação Skyfall. O histórico da pérola musical inclui indicação ao Critics Choice Awards, ao Globo de Ouro e ao Satellite Awards, todas premiações ainda a serem realizadas, além da vitória entre a associação de críticos de Las Vegas. A gente aqui do site é fã da forma como a cantora britânica resgatou o melodrama e a pureza do arranjo de cordas, fazendo da canção a melhor composição de um filme de James Bond em um bom tempo.

“Suddenly” – Hugh Jackman

Os compositores da versão teatral original, que estreou em 1980, da obra literária de Victor Hugo, juntaram-se à equipe do novo remake cinematográfico da história para criar uma canção original. “Suddenly” é uma balada cantada por um fragilizado Hugh Jackman sobre pianos delicados e arranjos sutis de cordas. Não é climática, mas é cuidadosamente (e corretamente) medida. Os Miseráveis, dessa vez sob o comando de Tom Hopper, ganhou outras sete indicações: Melhor Figurino, Melhor Maquiagem, Melhor Design de Produção, Melhor Mixagem de Som, Melhor Filme, Melhor Ator (Hugh Jackman) e Melhor Atriz Coadjuvante (Anne Hathaway).

“Pi’s Lullaby” – Mychael Danna

A explosão de indicações do compositor canadense Mychael Danna e a incontestável beleza dessa “Pi’s Lullaby”, cantada em indiano por Bombay Jayshree, o colocam como o segundo (ou terceiro, se você preferir o tradicionalismo de “Suddenly”) nessa categoria. É bastante característico da Academia, na verdade, dar o prêmio que poderia ser de uma grande estrela como Adele para um compositor como Danna, em sua primeira indicação apesar de trabalhos primorosos na filmografia. As Aventuras de Pi recebeu outras 10 indicações: Melhor Trilha-Sonora, Melhor Fotografia, Melhor Direção, Melhor Edição, Melhor Design de Produção, Melhor Edição de Som, Melhor Mixagem de Som, Melhores Efeitos Visuais, Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado.

“Before My Time” – J. Ralph feat. Scarlett Johansson and Joshua Bell

O compositor nova-iorquino J. Ralph é conhecido por fazer trilhas para documentários como O Equilibrista e The Cove, ambos vencedores do Oscar em suas categorias. Agora ganha a primeira indicação ao prêmio pelo trabalho no filme de Jeff Orlowski que segue o fotógrafo James Balong, da National Geographic, enquanto ele registra as mudanças nas geleiras dos polos no espaço de um ano. “Before My Time” é uma pequena pérola folk cantada por Scarlett Johansson e Jushua Bell, mas só leva o prêmio se a Academia estiver determinada a surpreender (essa é a parte em que você, leitor, pode rir).

“Everybody Needs a Best Friend” – Norah Jones

O jazz à la Tony Bennet composto por Norah Jones para o filme Ted, criado, dirigido e estrelado pelo anfitrião do Oscar 2013, Seth McFarlane, garantiu que o fenômeno de bilheteria não passasse em branco pela cerimônia. A canção é um deleitezinho de ser ouvida, e dá vontade de ver o filme, especialmente o clipe ressaltando a parte doce da história engendrada por McFarlane. Com meio bilhão de dólares na bilheteria, Ted é o nono filme mais lucrativo do ano passado.

11 de out. de 2012

Estamos na fila: Hitchcock, com Anthony Hopkins e Scarlett Johansson.

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por Caio Coletti
(Twitter – Tumblr)

Alfred Hitchcock é, talvez, o cineasta cuja persona mais marcou a cultura pop e cuja imagem mais está gravada na memória afetiva de cinéfilos (ou nem tanto) por todo o mundo. O peso de interpretá-lo em Hitchcock, a quase-cinebiografia dirigida por Sacha Gervasi a ser lançada no ano que vem, no entanto, não poderia ter caído em melhores braços do que nos de Sir Anthony Hopkins. Um tira-gosto da performance do britânico pode ser visto no primeiro trailer do filme, lançado ontem (dia 10).

Hopkins interpreta o diretor durante um dos momentos mais marcantes de sua carreira: a idealização, realização e repercussão de Psicose, a obra mais reconhecida de sua extensa filmografia. O roteiro de John J. McLaughlin (Cisne Negro) aborda a complicada relação de Hitchcock com a esposa, Alma Reville, aqui interpretada por Helen Mirren (A Rainha). O elenco ainda inclui Scarlett Johansson como Janet Leigh, Jessica Biel como Vera Miles, Toni Collette como a assistente do diretor Peggy Robertson, e James D’Arcy como Anthony Perkins.

Hitchcock tem previsão de estreia para 22 de Março de 2013.

19 de abr. de 2012

“Hitchcock” traz Anthony Hopkins como o lendário diretor britânico.

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por Caio Coletti
(Twitter – Tumblr)

Foi revelada hoje (quinta-feira) a primeira imagem de Sir Anthony Hopkins na pele de Sir Alfred Hitchcock para o projeto Hitchcock, que alguns sites de notícias ainda intitulam como “Alfred Hitchcock and The Making of Psycho”, à semelhança do livro de Stephen Rebello no qual é baseado. O roteiro, assinado por Rebello e por John J. McLaughlin (Cisne Negro), foca na época das gravações do grande clássico da carreira do diretor, Psicose.

Rumores em torno da produção indicam o envolvimento de Sacha Gervasi, responsável pelo roteiro de obras como O Terminal, que faria do projeto sua estreia na direção. O elenco confirmado até agora conta também com Scarlett Johansson na pele de Janet Leigh, Jessia Biel como Vera Miles, Toni Collette como Peggy Robertson, e Helen Mirren como a esposa do diretor, Alma Reville. O papel de Anthony Perkins, o ator que encarnou o assassino Norman Bates, ficaria supostamente com James D’Arcy (W.E.).

Menos badalado mas igualmente interessante é The Girl, segundo projeto focado na figura de Hitchcock a estrear nos próximos anos. Aqui, quem assume o papel do diretor é Toby Jones (Jogos Vorazes, O Nevoeiro), que vem sendo o coadjuvante rouba-cenas há algum tempo, e o roteiro da desconhecida Gwyneth Hughes mira seu olhar sobre a relação de Hitchcock com uma de suas musas, Tippi Hedren. O papel da heroína de Os Pássaros ficou com Sienna Miller (Stardust), enquanto a esposa do diretor aqui é interpretada por Imelda Staunton, a Dolores Umbridge da série Harry Potter. Tudo sob o comando de Julian Jarrold, em ascenção desde Amor e Inocência, sobre a juventude de Jane Austen.

Os dois projetos devem estrear entre o final de 2012 e o começo de 2013.

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