Review: Dirty Computer (álbum e filme)

Janelle Monáe cria a obra de arte do ano com um álbum visual espetacular - e que desafia descrições.

Os 15 melhores álbuns de 2017

Drake, Lorde e Goldfrapp são apenas três dos artistas que chegaram arrasando na nossa lista.

Review: Me Chame Pelo Seu Nome

Luca Guadagnino cria o filme mais sensual (e importante) do ano.

Review: Lady Bird: A Hora de Voar

Mais uma obra-prima da roteirista mais talentosa da nossa década.

Review: Liga da Justiça

É verdade: o novo filme da DC seria melhor se não tivesse uma Warner (e um Joss Whedon) no caminho.

Mostrando postagens com marcador Emma Thompson. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Emma Thompson. Mostrar todas as postagens

6 de mai. de 2015

As melhores atuações femininas não indicadas ao Oscar dos últimos 10 anos (2005-2015)

img-1012529-galeria-maiores-perdedores-do-oscar

por Caio Coletti

Esses dias eu estava passeando pelo meu próprio Filmow (eu sei que você também se stalkeia nas redes sociais, não adianta fingir!) e me dei conta do monte de atuações brilhantes que eu vi nos últimos 10 anos de cinefilia. E me dei conta também da quantidade pequena delas que havia sido indicada ao prêmio-maior do mundo cinematográfico, ou ao menos o que tem maior visibilidade – o Oscar distribuído todos os anos pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas americana ignorou sistematicamente (ou quase indicou) todas essas interpretações aí embaixo, e como a lista original tinha dado quase 30 rankeados, decidi dividí-la em dois posts. Ladies first, é claro:

2013

saving-mr-banks-emma-thompson

Emma Thompson, por Walt nos Bastidores de Mary Poppins

Apesar do título brasileiro infeliz, o filme de John Lee Hancock (Um Sonho Possível) sobre a produção do quinquagenário clássico infantil é um belo drama sobre o poder do ato de contar histórias, desenhado com arcos de personagem redondinhos pelo roteiro. Nada no filme consegue eclipsar, no entanto, a brilhante atuação de Emma Thompson como a autora dos livros que deram origem ao clássico da Disney – nem mesmo a encarnação carismática do velho Walt feita, em uma decisão de casting perfeita, por Tom Hanks. Fiel ao espírito da personagem, que protege sua criação com unhas e dentes devido ao caráter ultra-pessoal que a babá mágica tem para ela, Thompson aparece com um timing cômico perfeito, e a expressão severa que não cede em nenhum momento do filme. Sutil, a atriz esconde nos momentos mais improváveis a vontade da sua P.L. Travers de se livrar da descrença que os traumas do passado lhe trouxeram, e acerta em cheio ao retratar a reação da autora ao ver o filme produzido por Disney pela primeira vez.

Poderia ter acontecido? Apesar do bom buzz em torno do filme, o Oscar acabou indicando-o apenas como Melhor Trilha-Sonora, mas Thompson entrou na lista do Globo de Ouro como Melhor Atriz – Drama, então as chances eram boas.

Já ganhou? No auge dos dramas britânicos de época, Thompson ganhou uma estatueta pela atuação em Retorno a Howards End (1993) e outra por escrever Razão e Sensibilidade (1996). Ela não foi indicada nenhuma vez desde então.

Naomi Watts Naomi Watts filming Princess Diana Jnhr-0PKrGZl

Naomi Watts, por Diana

Bombardeada de críticas, a biografia da princesa britânica comandada por Oliver Hirschbiegel (A Queda) é um filme que precisa ser redescoberto daqui a alguns anos, quando a febre pela exatidão biográfica passar. Sensível, fascinante e com uma performance central hipnotizante, é um filme muito melhor conduzido e narrado do que a maioria das críticas fez parecer – de qualquer forma, mesmo os detratores mais pesados da obra deveriam ter reconhecido o trabalho magistral de Naomi Watts na pele da Princesa Diana. Não só fisicamente parecida, mas incorporando a forma de falar, olhar e se portar da personagem histórica, a atriz junta todos esses maneirismos em um retrato compreensivo. A Diana de Watts é adoravelmente tímida, mas a atriz deixa claro que também existe um elemento de auto-proteção e mistério nessa timidez, não só o recato da realeza ou a humildade pela qual Diana foi particularmente conhecida. A maior virtude da performance da atriz, no fim das contas, é entender que a princesa deve continuar sendo um enigma para o espectador e para quem contracena com ela.

Poderia ter acontecido? A partir do momento em que o filme estreou sob uma chuva de críticas, não. O Oscar nunca vai tão categoricamente contra o consenso crítico sobre um filme. Dito isso, o buzz em torno de Watts antes da estreia do filme era considerável.

Já ganhou? As escolhas mais convencionalmente acadêmicas de Watts nos últimos anos tem trazido ela mais perto do Oscar – ela tem duas indicações, por 21 Gramas (2004) e O Impossível (2013), mas ainda falta ganhar um.

her-samantha

Scarlett Johansson, por Ela

Yes, we’re going there! O Oscar ainda não arranjou um jeito de reconhecer atores por métodos de atuação que não sejam a presença live action em frente a uma câmera (existem partidários da criação de uma categoria de dublagem no prêmio da Academia, então vamos aguardar), mas de qualquer forma é difícil não admitir a genialidade da performance de Scarlett Johansson em Ela, uma das melhores ficções científicas do século XXI. Aparecendo apenas em voice-over, a atriz voltou à melhor forma do começo da carreira, começando uma série de investidas na ficção científica que fez muito bem à carreira e ao prestígio de Scarlett entre os críticos. Brincando com o status de sex symbol e, ao mesmo tempo, colocando sub-tons contestadores, uma vontade de aprender quase infantil e, conforme o filme progride, uma incontestável sabedoria na voz de Samantha (e a melancolia que vem intrínseca a ela), Scarlett entende o espírito especulativo e humano da verdadeira ficção científica, e arquiva uma performance tão cheia de nuances quanto qualquer das ótimas atuações presenciais do filme.

Poderia ter acontecido? Nas atuais conjunturas, não. O Oscar ainda nem indicou um ator por captura de performance, que dirá por trabalho de voice-over. Esse é só mais um dos aspectos nos quais a Academia ainda não está pronta para reconhecer o melhor, de verdade, da produção cinematográfica atual.

Já ganhou? Scarlett tem 4 indicações ao Globo de Ouro e é quase universalmente considerada uma das melhores atrizes de sua geração, mas nunca chegou a ser lembrada pelo Oscar. O mais perto disso foi o buzz em torno de sua atuação em Moça com Brinco de Pérola (2004).

2012

Michelle-Williams-and-Seth-Rogen-in-Take-This-Waltz

Michelle Williams, por Entre o Amor e a Paixão

A Academia adora Michelle Williams, então é uma surpresa que tenham ignorado Entre o Amor e a Paixão, dramédia romântica da diretora canadense Sarah Polley que foi produzida em 2011, mas só chegou nos cinemas americanos no ano seguinte. Contrastando intensamente com a outra aparição de Williams no cinema em 2011 (Sete Dias com Marilyn), aqui a jovem atriz interpreta uma mulher normal, despida do glamour de estrela de cinema e das complicações à flor da pele de Marilyn Monroe. A performance de Williams como Margot é corajosa não só por permitir um retrato assim, tão banal, mas também por mergulhar fundo nas falhas e dilemas emocionais vividos pela personagem, cujo casamento com Lou (Seth Rogen) esfria quando o misterioso Daniel (Luke Kirby) se muda para a vizinhança. Entre o Amor e a Paixão, originalmente intitulado Take This Waltz, é um retrato brutalmente honesto da solidão fundamental da vida humana, e a intensa individualidade e idiossincrasia da atuação de Williams faz jus ao roteiro de Polley.

Poderia ter acontecido? Dada a predileção da Academia por Williams, com certeza. O que deve ter entrado no caminho da indicação é o gênero (quase uma comédia romântica) e o lançamento limitado do filme, produzido e lançado de forma mais ou menos independente.

Já ganhou? Não, mas foi lembrada três vezes na ainda curta carreira. A primeira por Brokeback Mountain, em que atuou ao lado do ex-marido Heath Ledger, a segunda por Namorados Para Sempre, e a terceira por Sete Dias com Marilyn.

compliance-worry

Ann Dowd, por Compliance

Tenso e incômodo, o filme de Craig Zobel se destacou no circuito indie em 2012. A polêmica quanto à história real em que o filme se baseia, e quanto aos degradantes momentos pelos quais a protagonista (Dreama Walker) passa nos curtos 90 minutos de metragem não foi o bastante para encobrir a contundente crítica que o diretor/roteirista faz à postura passiva da personagem feita por Ann Dowd. Tão protagonista quando a garota interpretada por Walker, a gerente do restaurante fast food que recebe uma prank call perigosa (para dizer o mínimo) é uma personagem para o espectador odiar e, ao mesmo tempo, pela qual ele se vê fascinado. Carregando a tese do filme nas costas, Dowd entrega uma interpretação superlativa, que acha as maneiras mais geniosas de retratar o processo mental dessa espectadora de um verdadeiro show de horrores. Apoiando-se em cada estrutura e burocracia do sistema capitalista, Dowd cambaleia pelo filme de Zobel como um retrato cruel, mas excepcionalmente humano, das armadilhas do mundo moderno.

Poderia ter acontecido? Muito dificilmente. Com o caráter polêmico do filme e o nome pouco conhecido de Dowd, poucos votantes da Academia devem sequer ter visto Compliance, que dirá votado por Dowd na concorrida categoria de Melhor Atriz.

Já ganhou? Infelizmente, não. O Oscar não é exatamente conhecido por premiar character actors como Dowd, e o trabalho mais destacado dela tem sido na televisão nos últimos anos, com aparições em Masters of Sex e The Leftovers, entre outras séries.

les_miserables_interview_samantha_barks_eponine

Samantha Barks, por Os Miseráveis

Não é a toa que Samantha Barks foi a única atriz principal que Tom Hopper, o diretor de Os Miseráveis, chamou para seu filme diretamente da montagem teatral que o precedeu. O poderio vocal da moça fica mais que claro na rendição da clássica “On My Own”, mas é em cenas menores, anterior e posteriormente, que a performance de Barks realmente se destaca. A delicadeza na cena que marca a morte da personagem, com a belíssima "A Little Fall of Rain", é testemunha de uma atriz capaz de um grande leque de tons e emoções. Barks, estreante no cinema, empresta dicas da própria direção do filme, que fez todos os atores cantarem ao vivo para que as falhas em suas vozes fossem parte da humanidade dos personagens, e constrói uma versão vulnerável, sentida e completamente inesquecível de uma das personagens mais intensamente trágicas (e identificáveis) do cânone musical atual. Em um filme já intensamente humano, Barks entrega uma performance que aprofunda o próprio conceito de humanidade.

Poderia ter acontecido? Com uma produção do prestígio de Les Misérables, não dá pra dizer que era impossível – mas ela era a segunda na fila para Melhor Atriz Coadjuvante pelo filme, e previsivelmente perdeu o lugar para a mais conhecida Anne Hathaway, que acabou vencendo a estatueta.

Já ganhou? Os Miseráveis foi a estreia de Barks no cinema, então a Academia ainda não teve a oportunidade de laurear essa moça de apenas 25 anos. Esperemos que as escolhas de papéis no futuro sejam boas o bastante para corrigir a injustiça cometida em 2012.

2011

tumblr_mwynrkqtsO1skeujfo1_500

Roma Gasiorowska, por Suicide Room

Sobrenatural. Desde que tive o prazer de ver Suicide Room, em 2012, eu nunca consegui usar outra palavra para definir a performance de Roma Gasiorowska nele – e eu tenho a impressão que quem assiste ao filme de Jan Komasa tende a concordar comigo. Atuando quase totalmente através da imagem estática de uma webcam que mostra pouco mais do que seus olhos (mesmo porque a personagem usa uma máscara boa parte do tempo), Gasiorowska dá vida a essa força da natureza chamada Sylwia, que se torna a principal companhia de Dominik (Jakub Gierszal) quando este se reclui no mundo virtual depois de uma série de maus-tratos de seus colegas de escola. A estética da personagem, com a máscara, as tatuagens no rosto e o cabelo rosa, já é bastante marcante, mas a combinação opressiva de sedução, fervor ideológico e fragilidade que Gasiorowska empresta para Sylwia é uma colaboração toda particular da atriz, que se usa de artifícios bem mais sutis que aqueles de Gierszal para nos colocar no olho do furacão da depressão e do coração negro de Suicide Room, essencialmente uma crítica social.

Poderia ter acontecido? Só se o filme polonês tivesse tido mais impacto e entrada no circuito de grandes festivais. Subestimado como foi na época de seu lançamento, Suicide Room não chegou nem a uma indicação a Melhor Filme Estrangeiro, que dirá uma para Roma.

Já ganhou? Apesar dos múltiplos prêmios na Terra natal, Roma ainda não conseguiu um papel que a destacasse internacionalmente – mas ela ainda tem só 34 anos, então resta torcer para que isso aconteça algum dia.

kevin_tilda_swinton_2

Tilda Swinton, por Nós Precisamos Falar Sobre o Kevin

O impacto da fábula anti-maniqueista da diretora Lynne Ramsay sobre a mãe de um garoto condenado como autor de uma chacina escolar foi tanto que até hoje a cineasta não conseguiu bolar um sucessor à altura. De forma absolutamente clínica, quase fria, o filme observa a epopeia de Eva (Swinton) durante os anos de formação do filho Kevin (Jasper Newell e Ezra Miller em fases diferentes) – em momento algum o roteiro deixa claro se a conduta desapaixonada da mãe era causa ou consequência do comportamento cada vez mais doentio e manipulador do filho. Mas é a na atuação de Swinton que mora o trunfo de Precisamos Falar Sobre o Kevin: carregando um peso enorme nas costas, a atriz tira proveito do porte físico frágil e nos faz esquecer das feições andróginas que fizeram sua fama, construindo uma Eva que é severa, debilitada, espantada e, acima de qualquer coisa, um produto do mundo a sua volta. A maestria da atuação de Swinton está em internalizar tudo aquilo que o ambiente e as situações do roteiro oferecem, criando uma identificação com o espectador que compensa pelo estilo (acertadamente) desapaixonado da direção.

Poderia ter acontecido? Mais do que isso: foi uma genuína surpresa quando não aconteceu. Swinton não estava ainda tão longe da sua vitória por Conduta de Risco, foi indicada ao Globo de Ouro e figurou em todas as listas de melhores performances daquele ano da crítica especializada.

Já ganhou? A vitória como Melhor Atriz Coadjuvante por Conduta de Risco não só veio tarde (2009) na carreira, como pareceu o prêmio de consolação da Academia para uma intérprete que eles nunca entenderam (e portanto, apreciaram) o bastante.

a-dangerous-method-spc02

Keira Knightley, por Um Método Perigoso

Keira Knightley é um dos jovens talentos britânicos mais apreciados pela Academia nesse século. As duas indicações aos prêmios de atuação, mais as outras vezes que o nome da inglesa figurou nas listas de possíveis indicados, no entanto, ignoram a melhor atuação da sua carreira até agora: na pele da problemática Sabina Spielrein em Um Método Perigoso, Keira desenha um arco de personagem que é difícil imaginar outra atriz desenhando. Inicialmente paciente do Dr. Jung (Michael Fassbender), a personagem de Keira começa o filme com um par de cenas verdadeiramente intensas, verborrágicas, delirantes, enriquecidas de pequenos detalhes e tiques nervosos pela interpretação da moça. Conforme o filme progride para o seu estudo aprofundado do desejo e das particulares da psique humana, Sabina é “curada” pela psicanálise e reconstrói sua vida e sua reputação – e a cuidadosa construção que Keira faz dessa personagem “sob controle” (ainda que precário) de si mesma é de uma maestria fascinante.

Poderia ter acontecido? A Academia nunca foi muito fã de David Cronenberg, e a transição do canadense de seus filmes mais chegados ao horror para dramas elegantes (ainda que essencialmente idiossincráticos) não impressionou muito, o que os torna virtualmente cegos para atuações como a de Keira.

Já ganhou? Lentamente Keira está dominando as mentes e corações da Academia, tendo sido indicada duas vezes (por Orgulho & Preconceito em 2006 e O Jogo da Imitação em 2015). Eventualmente a moça deve sim levar a estatueta para casa.

2010

copie-conforme_binoche

Juliette Binoche, por Cópia Fiel

Talvez a atriz mais celebrada e premiada da sua geração, Binoche já ganhou tudo o que se pode ganhar como atriz (ou quase tudo). Foi com Cópia Fiel que ela conquistou o prêmio do Festival de Cannes, consolidando sua posição como a mais recente de uma linhagem de grandes atrizes francesas (Deneuve, Huppert, etc). O filme do iraniano Abbas Kiarostami acompanha uma mulher francesa e um escritor britânico enquanto os dois passeiam por um vilarejo na Itália e discutem, nos âmbitos da arte e da vida, uma questão fundamental: até que ponto uma cópia é também, de sua forma, autêntica? A reflexão do filme só fica clara para quem realmente assiste (e olhe lá), mas apreciar a atuação de Binoche é inescapável – a sutileza com a qual sensibiliza sua personagem para as ações do único companheiro de cena, a forma como a vaidade e a insegurança são partes integrais de sua construção, e a afamada (com razão!) cena em que Elle, a personagem, se olha longamente no espelho são momentos testemunha do ápice de uma atriz brilhante.

Poderia ter acontecido? Mesmo com todo o barulho que o filme de Kiarostami fez em Cannes, não foi o bastante para o Oscar abrir os braços para o cinema estrangeiro com tanta convicção – são raras e bem espaçadas as ocasiões em que isso acontece.

Já ganhou? Binoche só ganhou atenção da Academia na fase mais hollywoodiana da carreira, previsivelmente. Venceu a estatueta por O Paciente Inglês, em 1997, e voltou a ser indicada pela comédia romântica Chocolate, em 2001.

2009

jmoore

Julianne Moore, por Direito de Amar

Citar só um filme em que Julianne Moore merecia ter sido lembrada pela Academia é uma tarefa dificílima (tanto que tivemos que escolher dois, como você pode ver aí embaixo) – especialmente nos últimos 15 anos, a americana tem escolhido e desempenhado seus papeis com um nível de refinação tão absoluto que é quase como se sua filmografia fosse uma série de performances dignas de Oscar, com pouquíssimos deslizes. No bom Direito de Amar, adaptação de Christopher Isherwood comandada pelo estilista Tom Ford, Julianne encara uma das personagens femininas coloridas pelas quais o escritor ficou conhecido. A amiga de meia-idade do protagonista interpretado com minimalismo exemplar por Colin Firth entra no filme cuidadosamente controlado de Ford como um furacão de comoção – intensa, trágica e patética, Charley é um retrato pintado com pinceladas largas, mas exemplarmente bem colocadas. Ela é o elemento mais gritantemente humano do filme, e os ecos de mágoas do passado que a personagem traz à jornada do protagonista são material farto para uma atriz como Moore, mesmo com o pouco tempo em cena.

Poderia ter acontecido? Teoricamente, sim. O filme de estreia de Tom Ford rendeu indicação a Melhor Ator para Firth, e Moore até foi indicada ao Globo de Ouro, mas a Academia a substituiu na categoria Melhor Atriz Coadjuvante por Maggie Gyllenhaal (Coração Louco).

Já ganhou? A novela de Julianne e o Oscar era uma das mais citadas entre os cinéfilos – até que a atriz finalmente ganhou o prêmio, na quinta indicação, pela atuação em Para Sempre Alice, em 2015.

2008

blindness_03

Julianne Moore, por Ensaio Sobre a Cegueira

Nós lutamos por um tempo com a perspectiva de incluir a atuação de Moore em Minhas Mães e Meu Pai na lista, mas o papel protagonista pelo qual nós realmente gostaríamos de ter visto Julianne entre as indicadas é esse, na adaptação de José Saramago empreendida pelo brasileiro Fernando Meirelles. Ensaio Sobre a Cegueira é um filme tumultuado, extremo e coalhado de sensações, como manda a própria premissa, e a âncora moral da história, durante todo esse tempo, é a atuação de Moore como a esposa do médico interpretado por Mark Ruffalo (os personagens não ganham nomes). O sofrimento pelo qual a personagem passa é governado por leis tão diferentes daquelas do nosso mundo que talvez, nas mãos de outra atriz, fosse difícil de identificar com ela. Mas não só o diretor Meirelles faz um bom trabalho em nos colocar o tempo todo junto com esses personagens, como Moore realiza um trabalho profundamente humano, que deixa as falhas da personagem aparecerem e sua resiliência nos parecer tão natural quanto extraordinária.

Poderia ter acontecido? A recepção crítica morna do filme de Fernando Meirelles tornou virtualmente impossível que qualquer aspecto dele fosse reconhecido pelo Oscar – uma pena, porque a obra dirigida pelo brasileiro está passando por revisões e reavaliações críticas até hoje.

Já ganhou? Vide a aparição anterior de Julianne na lista.

063187e9-8d32-430a-afde-5f750aaed9d8

Kristin Scott Thomas, por Há Tanto Tempo Que Te Amo

Majestosamente elegante em sua presença em filmes de época durante os anos 90, no auge de seu estrelato, a bela inglesa Kristin Scott Thomas encontrou no papel mais improvável o pico de sua atividade como atriz. Sob a direção crua de Philippe Claudel, e interpretando uma mulher que acaba de sair da cadeia após cumprir pena pelo assassinato do seu próprio filho, na época com 6 anos, Thomas brilha na ambiguidade e na culpa que empresta à personagem. O filme nos deixa no escuro, por boa parte do tempo, sobre os motivos que levaram ao horrendo crime, mas brinca com o espectador ao humanizar intensamente essa mulher da qual não estamos absolutamente dispostos a gostar. Thomas mantem essa ambiguidade, mas ao mesmo tempo parece trilhar uma jornada toda sua durante o filme, observando com olhos cansados as reações adversas daqueles a sua volta, e carregando desafiadoramente um sufocante luto que incomoda justamente por parecer tão fora de lugar. Há Tanto Tempo Que Te Amo contesta cada percepção do espectador, e nenhuma é mais forte que a causada pela performance de Thomas.

Poderia ter acontecido? Deveria. O filme de Claudel quebrou barreiras internacionais quando fez Thomas ser indicada ao Globo de Ouro pelo papel – o reconhecimento do Oscar era bastante esperado, mas acabou não acontecendo. Há Tanto Tempo Que Te Amo não entrou nem na competição por Melhor Filme Estrangeiro.

Já ganhou? Perdeu sua única indicação no mesmo ano em que a co-estrela (e companheira de lista) Juliette Binoche ganhou, por O Paciente Inglês. Desde então, as aventuras britânicas e francesas da atriz não impressionaram a Academia.

2007

147890_full

Keri Russell, por Garçonete

Largamente assombrado pelo fantasma do horrível assassinato de sua diretora, Adrienne Shelly, antes do lançamento do longa-metragem, Garçonete é um comovente feel good movie feminista sobre uma mulher que descobre que há maneiras mais definitivas de fugir da realidade de um casamento infeliz do que se afogar nas elaboradas receitas de torta que faz na lanchonete local. Jenna, interpretada por Keri Russell, nunca perde a ternura durante os transformativos eventos do decorrer do filme, mas a performance da atriz dá dicas do endurecimento e da independência que a personagem adquire em momentos sutis. Passeando confortavelmente entre drama e comédia, e excepcionalmente minuciosa em cada momento, Russell e seu sorriso contagiante são a alma e o corpo de Garçonete. Cada passo da trama é seguido de perto pela observação paciente e cuidadosa das reações de Jenna ao que acontece a sua volta, e a adorável inocência da performance de Russell vem escondendo, apropriadamente, uma força e uma inteligência insuspeitas.

Poderia ter acontecido? O filme recebeu bastante amor da crítica especializada, mas como acontece com a maioria das dramédias indie, isso não se traduziu em grandes premiações. Russell, largamente uma character acrtess de TV, tampouco tem o “perfil” que o Oscar procura.

Já ganhou? Está demorando para Russell receber o prestígio que merece. Não só pela atuação em Garçonete, mas ela é sistematicamente ignorada pelo Emmy e pelo Globo de Ouro todos os anos, visto que os votantes se recusam a indicar sua brilhante performance em The Americans.

the-mist-marcia-gay-harden-and-william-sadler1

Marcia Gay Harden, por O Nevoeiro

Genial e muitas vezes mal-compreendido, O Nevoeiro está começando a passar por reavaliações críticas nos últimos anos. Essa é a hora, portanto, de reconhecer o poderoso trabalho de Marcia Gay Harden no filme, interpretando a fanática religiosa Mrs. Carmody – a atriz, que aliás parece se ajustar excelentemente a tudo o que faz (vide a comédia Trophy Wife, precocemente cancelada pela ABC), encarna o espírito à flor da pele da narrativa de Stephen King e, especialmente, entende o ponto essencial do qual ela pretende tratar. Da sua expressão corporal escorregadia e ameaçadora até o fogo que arde nos olhos de Carmody na infame cena em que ela faz uma oração iluminada por velas no banheiro do supermercado em que todos os personagens estão presos, tudo na performance de Harden grita e esperneia que essa personagem precisa ser entendida como um monstro. Mais sutil e assustadora do que qualquer dos enormes aliens que assombram os personagens de O Nevoeiro, Harden é a pedra fundadora sobre a qual o filme se sustenta.

Poderia ter acontecido? O problema aqui é de gênero cinematográfico: o “filme de monstros” de Darabont jamais se qualificaria, na mentalidade da Academia, para prêmio nenhum. Sem contar que a obra foi subestimada até pela crítica especializada.

Já ganhou? Harden foi indicada duas vezes a Melhor Atriz Coadjuvante e venceu pela cinebiografia Pollock, em 2001. A outra indicação veio três anos depois, pelo papel no drama Sobre Meninos e Lobos, de Clint Eastwood.

1 de ago. de 2013

10 candidatos fortes ao Oscar 2014 que você pode ficar de olho desde já!

jennifer-lawrence-daniel-day-lewis-oscars-2013Os atores vencedores do Oscar 2013, da esquerda para a direita: Daniel Day-Lewis (Melhor Ator por Lincoln), Jennifer Lawrence (Melhor Atriz por O Lado Bom da Vida), Anne Hathaway (Melhor Atriz Coadjuvante por Os Miseráveis) e Christoph Waltz (Melhor Ator Coadjuvante por Django Livre)

por Caio Coletti

Nem só no início do ano os cinéfilos vivem e respiram Oscar. O site Termômetro Oscar é bom exemplo de que mesmo quando ainda nem entramos na corrida oficial da premiação, já dá para começar a prever os indicados da Academia. Como nós d’O Anagrama somos cinéfilos e temos opinião, separamos 10 das apostas mais prováveis do pessoal de lá para que você já fique de olho e monte sua torcida para o ano que vem.

American Hustle
Estreia: 25 de Dezembro

David O. Russell está virando o novo queridinho da Academia, e nesse American Hustle aposta no combo de astros que estrelou seus dois últimos projetos: Christian Bale e Amy Adams de O Vencedor, Jennifer Lawrence e Bradley Cooper de O Lado Bom da Vida. Adicione Jeremy Renner, Robert DeNiro, Michael Peña e Louis C.K. e você tem o filme com o elenco mais cool de 2013, contando a história de um grupo de vigaristas que é chantageado a trabalhar com o governo para capturar outros criminosos.

O Termômetro aposta: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original.

O que a gente acha: Se o tema não assustar os votantes, American Hustle pode cavar as três vagas sugeridas pelo Termômetro, mas o certo mesmo é que Amy Adams vá conseguir a quinta indicação como Atriz Coadjuvante, e Jennifer Lawrence pode encontrar seu lugar na concorrida categoria de Atriz. Menos provável, mas possível, são os nomes de Bale e Renner como Ator e Ator Coadjuvante, respectivamente.

Saving Mr Banks
Estreia: 20 de Dezembro

O pedrigree é bom, com John Lee Hancock, que viu seu drama de esportes Um Sonho Possível render o prêmio de Melhor Atriz para Sandra Bullock, dirigindo uma história sobre a criação de um clássico dos estúdios Disney, no qual um dos personagens principais é o próprio Walt. É mais que provável que a Academia vá cair de amores pelo filme, especialmente com o sempre amado Tom Hanks na pele do fundador da Disney e Emma Thompson como a escritora P.L. Travers, autora dos livros que geraram Mary Poppins.

O Termômetro aposta: Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Atriz, Melhor Roteiro Original.

O que a gente acha: A reverência da Academia pelo velho Walt pode render a indicação a Melhor Filme, e Tom Hanks e Emma Thompson são apostas fortes para Ator e Atriz. Com muita sorte, até Hancock crava uma indicação a Melhor Diretor. Só o que não inspira confiança é o roteiro assinado por duas estreantes, vindas da televisão.

Fruitvale Station
Estreia: 26 de Julho

As surpresas indie do Oscar normalmente são menos antecipadas, mas o hype em torno de Fruitvale Station é tanto que fica difícil acreditar que não alcance os votantes da Academia. Vencedor de dois prêmios no Festival de Sundance e de um em Cannes, a estreia do diretor/roteirista Ryan Coogler retrata a noite de revellion de Oscar (Michael B. Jordan, de Parenthood) e a violência súbita em um carro do metrô que afeta a ele e a vários outros personagens, incluindo a mãe interpretada por Octavia Spencer.

O Termômetro aposta: Melhor Filme, Melhor Atriz Coadjuvante.

O que a gente acha: Se a Academia for adotar o filme como o queridinho indie do ano, vai ser em mais categorias do que as sugeridas pelo Termômetro. A indicação a Melhor Filme e a presença de Octavia como Atriz Coajuvante são apostas certas, mas é bem possível que Coogler entre na disputa de Melhor Diretor, e Jordan fique com o posto de zebra na categoria Melhor Ator.

Inside Llewyn Davis
Estreia: 06 de Dezembro

Desde que caíram nas graças da Academia com Barton Fink, de 1990, os Irmãos Coen se viram entre os indicados do Oscar (seja pela direção ou pelo roteiro – ou pelos dois!) outras seis vezes, e Inside Llewyn Davis é a primeira chance concreta de vitória de Joel e Ethan desde que levaram tudo em 2007 com seu Onde os Fracos Não Tem Vez. Premiado com o troféu do júri em Cannes, o novo tomo dos Coen conta a história do fracassado personagem título, um cantor de folk dos anos 60.

O Termômetro aposta: Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Roteiro Original.

O que a gente acha: Se entrar como Melhor Filme (o que a essa altura é bem provável), Llewyn Davis traz de reboque as indicações dos Coen em Melhor Direção e Melhor Roteiro Original. A aposta em John Goodman, um consagrado queridinho da América que ainda não tem um Oscar, é razoável, mas é preciso dar espaço a Oscar Isaac (Melhor Ator), cuja atuação no papel principal causou rebuliço em Cannes.

The Wolf of Wall Street
Estreia: 15 de Novembro

Da última vez que Martin Scorsese dirigiu uma biografia, nós tivemos O Aviador. Agora, sem notícias de nenhum filme de Clint Eastwood para atrapalhar, The Wolf of Wall Street tem tudo para se tornar o papa-tudo do Oscar 2014. Adaptado do livro auto-biográfico de Jordan Belfort, um investidor americano que foi do auge ao fundo do poço em tempo recorde, o filme é escrito por Terrence Winters, de Familia Soprano e Boardwalk Empire. Scorsese escalou Leonardo DiCaprio, Jonah Hill, Matthew McConaughey, Jon Favreau, Jean Dujardin, Rob Reiner e Spike Jonze.

O Termômetro aposta: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator.

O que a gente acha: As três indicações dadas pelo termômetro são barbada, e vamos concordar que esse foi o ano de Leo DiCaprio (e que o tempo de dar ao moço a sua estatueta já até passou). Nós apostariamos também no trabalho de Winters na categoria Melhor Roteiro Adaptado e em Matthew McConaughey, que já merecia indicação no ano passado, como Melhor Ator Coadjuvante.

August: Osage County
Estreia: Janeiro de 2014

Terceira peça própria que Tracy Letts adapta para o cinema (ele assinou Os Possuídos e Killer Joe), August: Osage County é um drama de família que conta com um elenco sensacional para conquistar os votantes da Academia. O destaque, como sempre, é Meryl Streep no papel da matriarca da família, enquanto Benedict Cumberbatch, Julia Roberts, Ewan McGregor, Abigail Breslin, Juliette Lewis, Dermot Mulroney, Chris Cooper, Sam Shepard e Margo Martindale completam o elenco comandado por John Wells (Shameless).

O Termômetro aposta: Melhor Atriz (Meryl e Julia).

O que a gente acha: É tudo uma questão do quanto os votantes da Academia estão dispostos a favorecerem o inesperado esse ano. August pode entrar até para Melhor Filme e, especialmente, Melhor Roteiro Adaptado.  As duas indicações sugeridas pelo Termômetro são mais ou menos certas,

Ain’t Them Bodies Saints
Estreia: 16 de Agosto

Se Fruitvale Station falhar, esse Ain’t Them Bodies Saints está esperando na fila para ser a zebra do ano no Oscar. A estreia em longas-metragens do celebrado diretor/autor de curtas David Lowery passou como um furacão pelo festival de cinema independente de Sundance, levando prêmios de Melhor Filme e Fotografia. A história acompanha o fora-da-lei vidido por Casey Affleck, que escapa da prisão para reencontrar-se com sua amada (Rooney Mara) e a filha que ele nunca conheceu.

O Termômetro aposta: O filme está listado na “repescagem” de quase todas as categorias.

O que a gente acha: No momento, o status de Ain’t Them Bodies Saints é esse mesmo: na lista de espera. Mas o filme ainda não estreou nos cinemas comerciais americanos, e o hype pode mudar até o final do ano. Com sorte, veremos uma indicação a Melhor Filme, Melhor Roteiro Original e até Melhor Ator para Casey Affleck.

Captain Phillips
Estreia: 11 de Outubro

A gente não perde esperanças de que um dia a Academia reconheça o gênio de Paul Greengrass. O homem que ressuscitou o cinema de ação inteligente com os dois capítulos derradeiros da trilogia Bourne original, e o britânico que realizou retratos pungentes e tensos de dois momentos da história americana com Zona Verde e Vôo United 93 (sua única indicação ao Oscar de Melhor Direção até hoje), agora escolhe outra história real para contar: o sequestro por piratas somali do navio americano Alabama, comandado pelo Capitão Phillips do título (Tom Hanks).

O Termômetro aposta: É outro que está na “repescagem”.

O que a gente acha: A nossa torcida está toda ao lado de Paul Greengrass e uma indicação para Melhor Diretor, mesmo que não seja dessa vez que ele leve a estatueta para casa. Hanks não vai competir consigo mesmo, e a Academia vai preferir lembrá-lo em Saving Mr. Banks, mas seria bacana ver Billy Ray, o homem que escreveu Plano de Vôo e Intrigas de Estado, indicado para Roteiro Adaptado.

Diana
Estreia: 25 de Outubro

Oliver Hirschbiegel passou perto do Oscar com seu A Queda! em 2004, mas desde que se instalou em Hollywood não tem emplacado exatamente as melhores escolhas. Diana tem tudo para ser uma mudança da maré, centrando nos dois últimos anos de vida da Princesa de Gales e em sua polêmica morte acidental (ou não?). O filme talvez seja um veículo para alçar Naomi Watts ao primeiro time de grandes atrizes, mas o envolvimento do roteirista Stephen Jeffreys, cujo primeiro e último filme foi O Libertino, sugere que a produção tem algo de especial.

O Termômetro aposta: Melhor Atriz.

O que a gente acha: Que esse ano é de Naomi Watts ninguém duvida, e provavelmente nenhuma outra atriz é capaz de tirar a estatueta das mãos da moça, especialmente com a Academia fresca de uma indicação para ela por O Impossível. Há sempre a possibilidade de que o bom currículo de Hirschbiegel lhe dê uma vaga em Melhor Diretor.

The Fifth Estate
Estreia: 18 de Outubro

Ok, a gente vai admitir: guardamos o nosso preferido para o final. The Fifth Estate é o filme que dramatiza a jornada de Julian Assange, criador do WikiLeaks, site que libera informações confidenciais dos governos para o público. A debatidíssima iniciativa ganha as cores sempre elegantes de Bill Condon (Amanhecer – Parte I e II), e marca também a estreia cinematográfica de Josh Singer, que escreveu para Fringe e Lie to Me. Benedict Cumberbatch, Stanley Tucci, Daniel Bruhl, Carice van Houten, Laura Linney e David Thewlis estão no elenco.

O Termômetro aposta: Na “repescagem” para Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Ator Coadjuvante e Melhor Roteiro Adaptado.

O que a gente acha: A Academia não pode passar esse ano sem indicar Benedict Cumberbatch. Ponto. Aqui ele interpreta um personagem real e notável, ao contrário de em August: Osage County, então nossa aposta fica com The Fifth Estate. Ficaríamos mais do que felizes em vê-lo também lembrado em Melhor Filme.

27 de set. de 2011

Mais Estranho que a Ficção – Das coisas extraordinárias.

ficção 1

Nesses últimos tempos eu tenho aprendido a saborear o prazer de rever alguns filmes que me marcaram em um outro contexto e comprovar que, mesmo que eu tenha esquecido os motivos pelos quais me agarrei tanto a esses pedaços de ficção, ou mesmo que eu os compreenda melhor agora, no final das contas o que importa é a memória de cada espectador, e não do inconsciente coletivo do que “marcou ou cinema” ou toda essa baboseira de crítico. O filme é o que cada um de nós vê. Tudo isso para falar de Mais Estranho que a Ficção, e de como essa obra de 2006 dirigida pelo alemão Marc Forster (que teve prévias experiências brilhantes em A Última Ceia e Em Busca da Terra do Nunca) é capaz de atiçar a sensibilidade e reaver o prazer de ver, fazer e viver arte desse que vos fala.

Há algo de especial aqui, e talvez seja justamente por tratar de um personagem que, no final das contas, não é nada de especial. Harold Crick (Will Ferrell) é um auditor da Receita Federal ianque. Obcecado por números, ele mede sua vida nos mínimos detalhes: das vezes que passa a escova nos dentes pela manhã ao tempo que demora para realizar o nó na gravata. Harold é, como muitos de nós somos, um homem sufocado pela rotina, e acomodado nela. Não é que tenha medo de viver como deveria ou desejaria. Simplesmente escolhe não fazê-lo, porque é muito mais fácil. É, logo, uma surpresa ainda maior quando esse personagem começa a revelar suas nuances, trazidas a tona pela narração insistente que começa a ouvir das suas próprias ações. Harold está sendo narrado, e é por Karen Eiffel (Emma Thompson), uma escritora que tem o costume de matar os protagonistas de suas tragédias. Claro, Karen está sofrendo do famoso bloqueio de escritor.

Assim, combinando tão brilhantemente uma ideia extraordinária e um set de personagens tão resolutamente comuns, Mais Estranho que a Ficção faz jus a seu título. É uma fantasia passada em um contexto tão, tão realista, que é capaz de envolver, emocionar, entreter, fazer rir e refletir, tudo ao mesmo tempo.  A exemplo da própria jornada de Harold, é de um sabor tragicômico um tanto ímpar, que o roteiro do absurdamente genial Zach Helm faz questão de ressaltar. Junte esse trabalho único no nosso tempo a direção habilmente equilibrada, incrivelmente sensível de Marc Forster, e adicione um conjunto de atores extraordinários em seus papéis. Você tem um filme tecnicamente impressionante. E não me venha reclamar do final. Exatamente no momento em que parece que Zach vai se perder no caminho, como se perdeu tantas vezes a escritora de Emma Thompson, Mais Estranho que a Ficção encontra seu maior trunfo e sua maior mensagem: muito antes de ser sobre eliminar vidas, o ato de criar é sobre salvá-las.

Não me faça começar a falar sobre sutileza trágica escondida por trás do talento cômico de Will Ferrell, sobre a forma como Thompson é capaz de transmitir mais tribulações em um olhar do que muitos atores em filmes inteiros, ou mesmo acerca da maneira naturalíssima, adorável e brilhante com que Maggie Gyllenhaal passa na tela. São todos engrenagens essenciais para que, assim como tenta passar para seu espectador, esse filme se torne uma daquelas peças de cinema que falam alto demais para serem criticadas. Não, não se trata de um filme perfeito. Mas quem disse que algum filme um dia vai ser? É mais do que hora de deixar de lado certos preceitos críticos e começar a valorizar simplesmente o que nos move. Visto uma vez, duas, ou três. É simplesmente a natureza das coisas extraordinárias. Como nos adianta o próprio título de Mais Estranho que a Ficção, elas são mesmo muito difíceis de explicar.

Nota: 9,0

ficção 2 Stranger Than Fiction

Mais Estranho que a Ficção (Stranger Than Fiction, EUA, 2006)

Dirigido por Marc Forster…

Escrito por Zach Helm…

Estrelando Will Ferrell, Maggie Gyllenhaal, Emma Thompson, Dustin Hoffman, Queen Latifah, Tony Hale…

113 minutos

28 de fev. de 2011

You know… – Oscar 2011: o show, os prêmios, os destaques.

especial cinema (nunk excl)oscar 4 

Todo ano é a mesma coisa. Os cinéfilos se polarizam entre um, dois ou três filmes, cada um com sua torcida. A cidade de Los Angeles e uma boa parte do mundo pára para conferir suas apostas se confirmarem ou decepcionares. Mulheres lindas (e homens também, diriam minhas leitoras femininas) passam pelo tapete vermelho sob os olhares atentos de amantes de cinema e de moda. Por breves momentos, só se fala e se respira cinema. E não importa quanta interatividade possamos ter do lado de cá da tela, a verdade é que a magia está lá, acontecendo com o esforço de dezenas, centenas talvez, e nós somos os privilegiados a assistirem. Quanto mais de perto, melhor. Mas não se engane. Plateia é plateia, e estrela é estrela.

E a estrela desse Oscar, sem dúvida nenhuma, teve um nome: Anne Hathaway. Deslumbrante, graciosa, engraçada e talentosa, tudo numa só mulher, em uma só noite. O co-anfitrião James Franco ficou praticamente atirado de escanteio, com seu carisma genuíno (apesar de gaiato), ao lado de uma host com a classe, a simpatia e a presença de Anne. Sim, os números musicais foram curtos e foram poucos, mas quem se importa? As piadas foram boas, e o Oscar, no final das contas, é sobre cinema, não sobre música. A genial montagem de abertura com os filmes indicados para a categoria principal, seguida da divertida apresentação dos anfitriões foi só o começo de um show que pode facilmente figurar como o mais bem produzido, clean e dinâmico do nosso século.

Os destaques não param em Anne Hathaway. Estrela absoluta da edição passada, Sandra Bullock mostrou de novo seu carisma e elegância na apresentação do Oscar de Melhor Ator. Ela falou espanhol com Javier Bardem, disse para Jeff Bridges dar chance a outros atores, cobrou Jesse Eisenberg uma notificação no Facebook, parabenizou Colin Firth por ter feito um filme do agrado da rainha, e culpou James Franco pelas mães que tem que pegar seus filhos e ficam vendo General Hospital. Poucas vezes uma apresentação tão longa foi tão boa e divertida.

Último destaque, é claro: Kirk Douglas. Nonagenário. Um dos maiores atores de todos os tempos. O eterno Spartacus. E um apresentador surpreendentemente divertido. Saudando Anne Hathaway com um “onde estava você quando eu estava fazendo filmes?”, prolongando a entrega do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante com o já clássico “you know…” e piadas sobre Hugh Jackman e Colin Firth (“Hugh Jackman está rindo. Por alguma razão, todos os australianos me acham engraçado. Colin Firth não está rindo. Ele é britânico”), Kirk foi um apresentador que pode entrar para a história do Oscar nessa edição 2011.

Enfim, foi um show divertido, equilibrado e leve. Como todo Oscar precisa aprender a ser. Sem opulência demais, nem luxo de menos. Tudo na medida certa. Até, é claro, serem anunciados os prêmios. Ou não. Tudo depende do ponto de vista.

Os Vencedores

oscar 2

Para quem reclama que a Academia anda “pulverizando” prêmios, o Oscar 2011 teve um ponto a provar: nesse ano a disputa acabou ficando bem polarizada entre três filmes, mais diferentes impossível, o que comprova a temporada de prêmios de 2011 como a mais versátil em muito tempo, ainda que isso não signifique, de forma alguma, que tenha sido a melhor. Favorito absoluto de mais da metade da crítica antes da festa começar, A Rede Social acabou pondo sua bandeira em três prêmios escolhidos a dedo pela Academia: Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Montagem e Melhor Trilha-Sonora. A “surpresa da noite” e grande vencedor do ano, O Discurso do Rei, levou mais quatro estatuetas para o panteão britânico: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator e Melhor Roteiro Original. Por fim, o terceiro pólo ficou merecidamente com A Origem, a mais recente proeza de Chris Nolan, que faturou tudo nos técnicos: Melhor Edição de Som, Melhor Mixagem de Som, Melhores Efeitos Especiais e Melhor Fotografia.

Se a humilde opinião deste escriba vale de alguma coisa, na minha visão a escolha de O Discurso do Rei como o grande vencedor da noite foi um passo para trás que a Academia deu em sua recente e crescente evolução em direção ao reconhecimento de um cinema mais contemporâneo, moderno e interessante. Não que a obra de Tom Hopper seja ruim, entenda-me bem o leitor. Mas cinema precisa, antes de qualquer coisa, antes de ser tecnicamente perfeito ou surpreender com tramas mirabolantes, se comunicar com seu público. E, esse ano, ninguém fez isso de forma mais sutil, elegante e eficiente do que David Fincher, Aaron Sorkin e Jesse Eisenberg, o trio de ouro de A Rede Social que, independente da Academia, vai ser futuramente lembrado como o filme do ano. Ou não, posso estar errado. O tempo dirá.

Mas é assim que eu penso agora, e vamos combinar que estava na hora de premiar David Fincher. Ele atinge seu auge em A Rede Social, um trabalho que consegue ser racionalmente brilhante sem deixar de ser essencialmente humano. E um filme fascinante que Fincher carrega com a perfeição técnica de sempre, mas um tom mais caloroso que é novidade em sua filmografia. Pode-se dizer algo parecido de Tom Hopper? Aliás, mais uma injustiça: Roteiro Original para O Discurso do Rei. Será que uma trama baseada em uma história real pode ser considerada um Roteiro Original? E mais: será que não seria nessa categoria, justamente, que a Academia deveria reconhecer A Origem? Indiscutivel que o que o diferencia dos outros indicados desse ano é, justamente, a originalidade de seu roteiro. E o brilhantismo do mesmo.

Os prêmios principais da noite fecharam com Melhor Atriz para Natalie Portman, por Cisne Negro. Na categoria dos coadjuvantes venceram duas interpretação do filme O Vencedor, o que já era esperado: Melissa Leo levou para casa o troféu de Melhor Atriz Coadjuvante (e os de discurso mais simpático da noite e reação surpreendida mais falsa também), e Christian Bale ficou com a estatueta que deveria ser sua há tempos como Melhor Ator Coadjuvante.

Os Perdedores

oscar 1

Há algum tempo que os críticos chegaram ao concenso de que o ano de 2010 não foi dos melhores para o cinema, especialmente o americano. Apesar do faturamento mais em alta do que nunca nas bileterias, a quantidade de bons filmes e, melhor ainda, a quantidade de grandes filmes na fila para a temporada de prêmios era notavelmente menor que nos anos anteriores. Tanto foi assim que, quando os 10 concorrentes ao posto de Melhor Filme no Oscar 2011 foram anunciados, muita gente chiou, e por muitos motivos diferentes. Um pela indicação de O Vencedor, que estaria na lista apenas como prêmio de encorajamento a Mark Wahlberg, que levou a longa e complicada produção do filme nas costas. Outro, pela presença de Minhas Mães e Meu Pai, tido por muitos como um retrato superficial de uma situação muito atual que mereceria um olhar mais cuidadoso. Houve até quem desgostasse das lembranças de Bravura Indômita, cujas indicações foram consideradas apenas reconhecimento da grife “Irmãos Coen” de filmes.

Menos descreditado, mas quase como café-com-leite na disputa, veio a “surpresa indie” nem um pouco surpreendente do ano, Inverno da Alma, moderadamente elogiado mais jamais considerado para prêmio algum. E perdendo a força conforme as premiações menores abriam os trabalhos de polarização da disputa, 127 Horas chegou ao Kodak Theatre com um indicado a Melhor Ator cujo prêmio de consolação foi apresentar o show. Finais indignos para filmes que não mereciam estar numa lista apenas para preencher a premiação. Apenas cinco na categoria principal teria sido uma escolha bem mais interessante e acertada.

E, no fim das contas…

Nesse mundo, certas coisas são capazes de unir, e outras só servem para nos separar. Pode ser que, com toda essa comoção entre as polarizações e versatilidades do Oscar 2011, tenhamos esquecido que o cinema foi feito, mesmo, para unir. A verdade é que, no seu conceito original, o prêmio da Academia foi feito para reconhecer o mérito, não o gosto pessoal ou qualquer coisa sobre a qual se possa discutir. O Oscar foi feito para ser indiscutível. Se o fazemos objeto de muita polêmica, que o façamos com elegância, argumentos e inteligência. E cada um com sua opinião. Tenha você gostado ou não, foi isso. Ano que vem tem mais. Mas, “you know”… ;D

oscar 3oscar 5 

“It’s not the load that breaks you, it’s the way you carry it”

(Lena Horne, atriz homenageada)

8 de out. de 2010

Dez momentos inesqueciveis do cinema (parte 2)

especial cinema (nunk excl)lista 01

A primeira parte da minha investida por uma lista ousada e personalíssima, inteiramente sincera, de momentos que marcaram minha trajetória como cinéfilo e crítico de cinema aqui no Anagrama aventou filmes alternativos e poucos conhecidos do grande público, ao menos do atual que tende a se limitar aos blockbusters de verão. São todos grandes filmes que trazem momentos de catarse, humor, emoção ou genialidade visual únicos. Mas é aqui, agora, nessa segunda parte da lista, que o grosso do melhor que rolou em termos de cinema pelos olhos desse humilde escriba aparece, reafirmando certos casos de amor por filmes que o leitor mais antigo deve identificar e dando opotunidade a alguns dos meus grandes ídolos enfim aparecerem. Mas, acima de tudo, a intenção é mencionar a quem merece ser mencionado. De uma forma ou de outra, aqui vai a parte final da minha lista de momentos inesquecíveis do cinema.

lista 02

5º Lugar – Dreamgirls [2006] - “And I’m telling you I’m not going”

Ninguém esperava que, quando Jennifer Hudson abrisse a boca após ser deixada sozinha, com certa justiça, por suas colegas de banda e pelo empresário e grande amor de sua vida interpretado por Jamie Foxx, fosse sair uma das performances vocais e interpretativas que marcariam o nosso século. Pois foi isso que aconteceu, e a perdedora de uma edição do American Idol foi dali, do palco discretamente iluminado e filmado de forma documental por Bill Condon, para o bem mais luxuoso tapete vermelho do Oscar, onde Hudson venceu o prêmio de Melhor Coadjuvante. Só por formalidades técnicas, aliás, porque o filme é dela e não seria o mesmo sem ela. E essa cena é o momento maior do seu talento (até agora).

lista 03

4º Lugar – O Retorno do Rei [2003] – Curvem-se diante dos hobbits!

É, não foi impressão sua: O Retorno do Rei podia, sim, tem uma boa meia hora a menos, e foi o que todo mundo sentiu quando as raças da Terra Média se curvaram diante dos quatro little hobbits que surgem como heróis da história de Tolkien e dos filmes de Peter Jackson. A câmera se afasta, e a música enche a tela na mesma medida que sorrisos e lágrimas brilham nos rostos de todos os espectadores. Só esperar os créditos subirem? Bem, não exatamente. Jackson errou ao tentar resolver demais, mas isso não diminui o tamanho de sua realização ao adaptar os livros do inglês para os cinemas, muito menos o impacto dessa cena no imaginário e na emoção do espectador.

lista 04

3º Lugar – Blade Runner [1982] - “Lágrimas na chuva…”

Se, hoje, Blade Runner é o cult que é, a culpa é em boa parte desse momento marcante do cinema do século XX. É aqui que o andróide vilanesco de Rutger Hauer mostra sua face mais humana e desconcertante, uma que o próprio Rick Deckard de Harrison Ford jamais demonstrara na metragem do filme de Ridley Scott. Suas considerações sobre o tempo, a fugacidade da vida, a banalidade de sua própria artificialidade, tudo é condensado em apenas uma frase curta para tanto conteúdo, dita sob a chuva intensa e interpretada com a intensidade e concentração de um ator brilhante no seu auge. Filosofia pura, moldada por quem entende, mesmo, de cinema.

lista 05

2º Lugar – O Cavaleiro das Trevas [2008] – O interrogatório

O todo do filme de Christopher Nolan ainda é dos mais brilhantes que já passaram por meus olhos, mas a cena do interrogatório em que Coringa (Heath Ledger) e Batman (Christian Bale) enfrentam-se verbal e fisicamente é dos momentos mais “estoura-mentes” da história do cinema. A atuação de Ledger, brilhante, encontra seu ápice nessa cena tensa e intensa, que Nolan dirige com louvável equilíbrio e cujos diálogos soam as palavras certas, nos momentos certos, ditas com a entonação certa e filmadas da maneira certa. É a perfeição em celulóide, traduzida em violência, crueza, brilhantismo de roteiro e diálogos, excelência cinematográfica e choque.

lista 06

1º Lugar – Moulin Rouge! [2001] - “El Tango de Roxanne”

Não foi difícil, para mim, colocar essa cena no pódio. Difícil é escolher só um momento do filme de Baz Luhrmann para taxar como inesquecível. Há que prefira o pot-pourri romântico no topo do elefante, ou a primeira execução da canção dos amantes (“Come Waht May”, única composição original do filme). Eu fico com a versão que Jacek Koman canta para os ciúmes de Christian (Ewan McGregor) por Satine (Nicole Kidman) quando esta deve entregar-se ao Duque (Richard Roxburgh). A música, a direção de cortes secos, rápidos e intensos, a voz rascante de Koman, a interpretação sensível de Ewan McGregor e as belas palavras da letra convergem para um dos momentos mais fortes, sombrios e emocionantes do cinema moderno. Belíssimo, belíssimo.

lista 08lista 07

Eu vi coisas que vocês humanos provavelmente nem acreditariam. Naves de ataque em fogo fora do Cinturão de Orion. Eu observei raios-C brilhar pelo negrume perto do portão de Tannhauser. Todos esses momentos ficarão perdidos no tempo… como lágrimas na chuva… Hora de morrer”

(Rutger Hauer em “Blade Runner”)

Why does my heart cries? Feelings I can’t fight! You’re free to leave me, but just don’t deceive me, and please, believe me when I say I love you!”

(Ewan McGregor em “Moulin Rouge!”)

4 de out. de 2010

Dez momentos inesquecíveis do cinema (parte 1)

especial cinema (nunk excl) lista 01

Tanto na fase final do Filme-Pipoca quanto no começo desse nosso Anagrama, eu tentei engatar uma série de listas que selecionassem alguns dos meus preferidos quando o assunto era cinema. Eram as “listas da década”, feitas sob o pretexto do primeiro decênio desse século estar chegando ao final. Talvez o problema delas tenha sido mesmo a ambição. Ao começar essa nova seção de listas com a, de alguma forma, grandiosa pretensão de selecionar dez momentos inesquecíveis do cinema, não pretendo compilar o que há de melhor na sétima arte de todos os tempos, senão meramente demonstrar um pouco da minha forma de ver, receber e analisar o cinema. São dez cenas, seqüências, diálogos ou registros que fazem parte da minha memória afetiva e racional em relação ao cinema, e que de alguma forma acrescentaram alguma coisa na visão rica dessa forma de arte ainda mais complexa. Críticas, sugestões, exclusões, novas listas: tudo é bem-vindo. Mas a primeira parte da minha seleção, de uma forma ou de outra, é essa.

lista 02

10º Lugar – O Grande Truque [2006] - “Watch closely…”

Duas palavras. É do que Christian Bale, o Alfred Borden de O Grande Truque, precisa para disparar um gatilho de choque, revelações e pura genialidade de roteiro. A trama labiríntica apresentada por Christopher Nolan se revela aos poucos no clímax do filme de mágicos do diretor, que não se furta de sua fumaça e espelhos para revelar tanto o segredo de Borden quanto a grande, genial e trágica sacada de seu nêmesis, feito por Hugh Jackman. Ambas as revelações são cozinhas devagar para o espectador durante todo o filme, e explodem com pressão inesperada em uma sequência perfeita que engana direitinho qualquer um, e deixa com um sorriso no rosto qualquer apreciador de bom cinema.

lista 03

9º Lugar – J.C.V.D. [2008] - “Eu sei que é difícil para vocês não me julgarem…”

Pois é, não deveria ser. Julgar é o ato mais hediondo que um ser humano pode cometer, ainda mais contra alguém que, de crimes, está livre há muito tempo. Submetido a um mundo de pressão e muito dinheiro, Jean-Claude Van Damme errou, ele não nega em nenhum momento, envelheceu, ele não deixa de admitir a cada frame de J.C.V.D., mas também amadureceu e se tornou um ator de verdade. E um ser humano que não merece todos os altos e baixos que imprensa e fãs, egoístas e inescrupulosos, deram e dão a ele. Tudo isso transparece no que pode ser o monólogo mais tocante, pungente e bem-atuado da nossa década, uma explosão de sinceridade que atinge em cheio a nossa própria hipocrisia.

lista 04

8º Lugar – Equilibrium [2002] – Ouça a música…

Em um mundo sem emoção, para quê vivemos? É a pergunta incômoda que nos faz Equilibrium, a obra genial e ignorada por ser “uma cópia de Matrix”, de Kurt Wimmer. A bem da verdade, Matrix não é nada perto da história de John Preston (Christian Bale), policial de um futuro distópico que repreeende aqueles que demonstam emoções em público, ao mesmo tempo em que para de tomar os remédios que o garantem a condição de frieza e calculismo. É no meio desse comovente processo de humanização que ele entra em contato, quase sem querer, com a música clássica. Sua reação é tudo o que sentimos e não sentimos quando uma obra de arte nos comove. Bale segura as pontas com louvor, e nós (inevitavelmente) nos emocionamos com ele.

lista 05

7º lugar – Filadélfia [1993] - “Eu sou o amor!”

Andrew Beckett (Tom Hanks) é um jovem profissional, demitido de sua firma preconceituosa ao descobrir ser portador de HIV, que se junta ao advogado homofóbo feito por Denzel Washington para processar a tal firma. Até aí, nada demais, mas a condição de Andrew piora constantemente e, mesmo que o filme de Jonathan Demme “sanitarize” essa condição para o bem de um público maior, é no momento em que ele declama um trecho de ópera para o já amigo advogado que percebemos o quanto a condição humana daquele personagem é tão ou mais completa do que a nossa. Nós sentimos por ele e, mais adiante, comemoraremos com ele. Tom Hanks se mostra, em todos os sentidos, superlativo. A altura de seu personagem, diga-se de passagem.

lista 06

6º lugar – O Suspeito da Rua Arlington [1999] – Sermão no jardim

O inimigo pode estar mais perto do que você imagina: até no seu próprio jardim, se você não se cuidar. O Suspeito da Rua Arlington é um filme ardiloso ao acender a paranóia na mente de cada espectador e do protagonista Jeff Bridges, que suspeita que seu novo vizinho, Oliver Lang (Tim Robbins), possa ser um terrorista. Colocar em pratos limpos, sem revelar absolutamente nada, é o que o personagem de Robbins faz durante uma discussão quase banal com seu nêmesis, em pleno jardim da casa de Bridges. Apático como está no filme, o protagonista leva uma surra, ficcional e criticamente, de Robbins, numa aula de atuação e ameaça que fica na memória por muito tempo.

Continua no próximo post…

lista 08lista 07

Essa é minha aria favorita. É Maria Callas. ‘Andrea Chenier’. Ela é Madeleine. Ela está dizendo como durante a Revolução Francesa uma multidão colocou fogo em sua casa e sua mãe morreu… para salvá-la. ‘Veja, o lugar que me criou está queimando’. Você pode ouvir a dor na voz dela? Você pode sentir, Joe? Então vêm as cordas, e elas mudam tudo. A música se enche de esperança, e isso vai mudar de novo. Escute… escute… ‘Eu trago sofrimento a quem me ama’. Ah, aquele violoncelo! ‘Foi durante esse sofrimento que o amor veio até mim’. Uma voz tão cheia de harmonia. Ela diz, ‘Ainda viva, eu sou a vida. O paraíso está nos seus olhos. Tudo ao seu redor é só o sangue e a lama? Eu sou o divino. Eu sou o esquecimento. Eu sou o Deus… que vem dos céus, e faz da Terra um Paraíso. Eu sou o amor! Eu sou o amor!’”

(Tom Hanks em “Filadélfia”)