Review: Dirty Computer (álbum e filme)

Janelle Monáe cria a obra de arte do ano com um álbum visual espetacular - e que desafia descrições.

Os 15 melhores álbuns de 2017

Drake, Lorde e Goldfrapp são apenas três dos artistas que chegaram arrasando na nossa lista.

Review: Me Chame Pelo Seu Nome

Luca Guadagnino cria o filme mais sensual (e importante) do ano.

Review: Lady Bird: A Hora de Voar

Mais uma obra-prima da roteirista mais talentosa da nossa década.

Review: Liga da Justiça

É verdade: o novo filme da DC seria melhor se não tivesse uma Warner (e um Joss Whedon) no caminho.

Mostrando postagens com marcador Chris Evans. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Chris Evans. Mostrar todas as postagens

11 de mai. de 2016

Review: “Capitão América: Guerra Civil” capitaliza no barulho, mas triunfa na modéstia

captain

por Caio Coletti

Os irmãos Joe e Anthony Russo não são nem um pouco como os outros diretores que passaram pelo universo cinematográfico Marvel (ou MCU) desde 2008. Vencedores do Emmy pelo trabalho no episódio piloto da inovadora série de comédia Arrested Development, em 2003, os irmãos não são iconoclastas pomposos (Kenneth Branagh, Thor), artistas com ramificações pessoais profundas (Joss Whedon, Os Vingadores), diretores/roteiristas com vozes satíricas únicas (Shane Black, Homem de Ferro 3), ou puros paus mandados de estúdio (Joe Johnston, do primeiro Capitão América). Em cada uma das entrevistas e listas de influências que os Russo passam conforme vão divulgando seus filmes da Marvel, fica claro que os irmãos são cinéfilos dedicados antes mesmo de serem amantes dos personagens e materiais dos quadrinhos. Se Capitão América: O Soldado Invernal era um thriller político traiçoeiro disfarçado de filme de super-heróis, Capitão América: Guerra Civil é um suspense psicológico profundo que quer discursar sobre guerra, vingança, efeitos colaterais e controle governamental – sem esquecer de entreter.

Dessa vez, é preciso considerar, os irmãos estão lidando com uma quantidade muito maior de personagens fantasiados (e fantasiosos) do que em Soldado Invernal, então Guerra Civil não tenta se apegar àquela sensação de gravidade e realismo que permeava seu predecessor, quase um filme de espião em meio às aventuras extravagantes da Marvel – pelo contrário, os Russo procuram abraçar a exuberância desses personagens e seus poderes com gosto, produzindo cenas desenhadas especialmente para que o espectador se deleite com os feitos apresentados em tela, e dirigindo as sequências de ação com um senso de escala, um olho aguçado e uma edição rápida que nunca se torna confusa. Valem palmas os trabalhos do diretor de fotografia Trent Opaloch (Distrito 9) e dos editores Jeffrey Ford & Matthew Schmidt, medalhões do MCU desde Capitão América: O Primeiro Vingador. No entanto, por mais que se venda com o espetáculo de cenas como a imensa batalha do aeroporto, sobre a qual virtualmente ninguém parou de falar desde a estreia do filme, Guerra Civil ganha o jogo mesmo é com seus elementos mais modestos. Em muitos sentidos, o filme se parece com um grande exercício de contenção.

A sensação é que os roteiristas Stephen McFreely e Christopher Markus são predadores cercando os fios de trama e personagens puxados de outros filmes da franquia, os juntando em um ponto concentrado, e usando-os para contar uma história que passa por temas e sub-tramas complexas e numerosas para construir uma narrativa cuja estrutura, em si, é bastante simples. Quando os Vingadores divergem de opinião sobre uma “proposta” (que mais parece uma ordem) do governo de registro e controle das ações dos super-heróis, aos poucos os heróis vão tomando lados distintos, com o Capitão América (Chris Evans) e o Homem de Ferro (Robert Downey Jr) agindo como líderes desses “times”. As motivações dos personagens são construídas com cuidado e consideração por quem eles são e como agiram em suas aparições anteriores – no caso dos dois personagens que o filme introduz (o Homem-Aranha e o Pantera Negra), as motivações, espertamente, são muito mais pessoais e emocionais do que ideológicas.

Guerra Civil desenha uma trajetória cristalina em direção ao seu clímax, que tira potência emocional, assim como alguns outros pequenos momentos espalhados pelo filme, da história dos personagens nesses oito anos de MCU. Se você pensar bem, é o primeiro filme da Marvel a realmente fazer isso, o que significa que a editora, a essa altura de seu projeto cinematográfico, não só se viu no direito de discutir questões políticas e fazer um “thriller psicológico”, como ousou começar a ser auto-referente. Construído com cuidado e nunca superestimando seus próprios momentos de culminação ou junção narrativa, Guerra Civil é um exercício de storytelling que vai contra o instinto da maioria dos roteiristas, mas funciona dentro de uma franquia que existe nesses moldes. O filme não precisa nos mostrar, nos lembrar, da bagagem que traz – o peso que ela carrega fala por si mesmo –, e essa “modéstia” dos roteiristas ao abordá-la faz bem ao efeito duradouro que Guerra Civil causa no espectador.

Faz bem também o fato de que McFreely e Markus, ao lado dos irmãos Russo, buscam acomodar seus impulsos mais grandiosos e iconoclastas às exigências de uma franquia que tem obrigações de continuidade e de introdução de personagens para cumprir. Há momentos de beleza plástica e temática espetaculares em Capitão América: Guerra Civil, e eles são distintamente idiossincráticos do estilo dos Russo, especialmente no embate final entre três dos heróis principais, e na realização do plano do vilão interpretado (com gosto, complexidade e comprometimento subestimados) por Daniel Bruhl. A discussão sobre o controle do governo sobre os super-heróis passa por todas as marcas que deveria, costurando questões de reponsabilidade, corrupção, preconceito, o caráter fundamentalmente falho da lei e a importância dela para ordenar nossa vida em sociedade. Sem advogar por nenhum dos lados de forma explícita, Guerra Civil olha para o mito do super-herói de um ponto de vista frio, político e ponderado, que só funciona por conta do equilíbrio fornecido pela paixão envolvida nas jornadas íntimas dos personagens.

Robert Downey Jr brilha como há muito tempo não lhe era permitido, explorando as complexidades, hipocrisias, razões, imaturidades, egoísmos e fundamentais boas intenções de Tony Stark com a disposição de um ator que ainda não cansou de submergir em seu personagem. Chadwick Boseman cria um Pantera Negra que não esconde seu status de realeza, mas também não se esconde por trás dele – um herói feroz e duro, cuja humanidade se esconde por trás dos olhos decisivos de um governante. E Tom Holland encarna o espírito de Peter Parker/Homem-Aranha através de um carisma nada calculado que se expressa de forma charmosa e comunicativa com o público. Como um casamento impossível entre o íntimo e o épico, o estupidamente divertido e o angustiantemente questionador, a ambição artística e a comercial, Capitão América: Guerra Civil conversa com a cultura criada pelos personagens da Marvel no cinema e, de sua forma singularmente improvável, dá o golpe definitivo na ofensiva da Marvel para se tornar uma das forças definidoras do cinema pop feito no século XXI.

✰✰✰✰✰ (5/5)

_captain_america__civil_war_trailer_-_h_2015

Capitão América: Guerra Civil (Captain America: Civil War, EUA/Alemanha, 2016)
Direção: Joe e Anthony Russo
Roteiro: Christopher Markus, Stephen McFreely
Elenco: Chris Evans, Robert Downey Jr, Scarlett Johansson, Sebastian Stan, Anthony Mackie, Don Cheadle, Jeremy Renner, Chadwick Boseman, Paul Bettany, Elizabeth Olsen, Paul Rudd, Emily VanCamp, Tom Holland, Daniel Bruhl, Frank Grillo, William Hurt, Martin Freeman, Marisa Tomei, John Slattery, Hope Davis, Alfre Woodard
147 minutos

31 de mar. de 2016

Diário de filmes do mês: Março/2016

Downloads12

por Caio Coletti

Nem todos os filmes merecem (ou pedem) uma análise complexa como a que fazemos com alguns dos lançamentos mais “quentes” ou filmes que descobrimos e nos surpreendem positivamente. É levando em consideração a função da crítica e da resenha como uma orientação do público em relação ao que vai ser visto em determinado filme que eu resolvi criar essa coluna, que visa falar brevemente dos filmes que não ganharam review completo no site. Vamos lá:

snow-piercer-poster1

Expresso do Amanhã (Snowpiercer, Coréia do Sul/República Tcheca/EUA/França, 2013)
Direção: Joon Ho Bong
Roteiro: Joon Ho Bong, Kelly Masterson, baseados na graphic novel de Jacques Lob, Benjamin LeGrand & Jean-Marc Rochette
Elenco: Chris Evans, Kang-ho Song, Ed Harris, John Hurt, Tilda Swinton, Jamie Bell, Octavia Spencer, Alison Pill, Luke Pasqualino
126 minutos

Celebrado por muitos críticos e entusiastas do cinema como uma das grandes revelações da nova geração, Joon Ho Bong é responsável por filmes díspares mais igualmente elogiados como Memórias de um Assassino (2003), O Hospedeiro (2006) e Mother – A Busca Pela Verdade (2009). O sul coreano de 46 anos experimentou pela primeira vez uma produção internacional com Expresso do Amanhã, adaptação de uma celebrada graphic novel francesa que o diretor tomou para si, criando uma ficção científica das mais plenamente realizadas (visualmente e narrativamente) de uma década que já está repleta delas. Repleto de significado com qualquer boa ficção, Expresso do Amanhã é por vezes dolorosamente cínico em sua concepção de humanidade, toca sem medo em temas como a estrutura social que precisa da opressão de alguns para a bonança de outros, o egocentrismo humano, a fácil doutrinação de mentes fracas, a dificuldade e a nobreza do auto-sacrifício. É um filme ácido, violento, cinético e explosivo, com um visual matador provido pelo diretor Bong em parceria com o seu diretor de fotografia habitual, Kyung-pyo Hong – é notável observar a mudança de tons durante o filme, a exploração do escuro e do monocromático no início e a explosão de sensações do meio para o final, uma transição bem marcada pela espetacular cena de ação iluminada à tochas que acontece em certo ponto do filme.

A caracterização dos personagens também é perfeita, aproveitando o pouco tempo que passamos com alguns para lhes dar alguns traços marcantes e desenvolvê-los sem muito alarde em pessoas completamente tridimensionais. Entregando um monólogo matador (é sério!) perto do final, Chris Evans prova que é mais que o Capitão América do MCU como Curtis, o relutante líder dos moradores “do fundo” de um trem pós-apocalíptico cujo “motor eterno” abriga o restante da humanidade do frio impossível da Terra destruída do lado de fora. Indignados com a opressão das classes mais altas, que ficam “na frente” do trem, próximas ao gabinete do mítico inventor e mantenedor do tal motor, Wilford, Curtis e companhia se rebelam, começando uma epopeia “trem acima” com um ataque surpresa. Tilda Swinton está especialmente espetacular como uma bizarramente caracterizada burocrata da classe alta, e os coreanos Kang-ho Song e Ah-sung Ko deixam marcas permanentes na memória do espectador também.

Feito com o cuidado aos detalhes que falta a muitos cineastas mais experientes que Bong, Expresso do Amanhã é um conto extraordinariamente verdadeiro com suas próprias ambições e realizações, uma história tremendamente bem contada que surpreende, satisfaz e faz pensar desde o primeiro minuto. É um filme que precisa ser assistido.

✰✰✰✰ (4/5)

everest

Evereste (Everest, Inglaterra/EUA/Islândia, 2015)
Direção: Baltasar Kormákur
Roteiro: William Nicholson, Simon Beaufoy
Elenco: Jason Clarke, Josh Brolin, John Hawkes, Robin Wright, Emily Watson, Sam Worthington, Jake Gyllenhaal, Michael Kelly, Keira Knightley
121 minutos

Ao contrário da maioria dos filmes sobre escaladas de grandes montanhas como o Evereste, o K2 ou o Aconcágua, o filme do ano passado, diretamente intitulado Evereste, não tenta glamourizar a experiência ou a aspiração que move esses homens a tentarem um feito que simplesmente não é desenhado para ser suportado pelo corpo humano. Essa é a grande novidade que o diretor Baltasar Kormákur (Contrabando) e os roteiristas William Nicholson (Os Miseráveis) e Simon Beaufoy (127 Horas) trazem para a mesa, uma experiência mais realista e detalhada das dificuldades de escalar um pico de 8.848 metros e sair vivo da experiência. Baseado na experiência real de uma série de aspirantes a escaladores que não chegou inteira de volta à superfície, Evereste é uma aventura de dificuldade e minúcia impressionantes, mas sua direção não se esforça para nos mostrar de forma sensorial a agonia de seus personagens, ou nos investir muito na história deles. Alguns dos tipos que conhecemos são Rob (Jason Clarke, em atuação tão indiferente quanto a que entregou em Exterminador: Gênesis), o líder da expedição, cuja esposa (Keira Knightley) o está esperando em casa grávida; Doug (John Hawkes), um humilde carteiro cujas expedições são financiadas por uma escola perto de onde mora, a fim de que ele mostre as crianças que “é possível chegar em qualquer lugar”; Beck (Josh Brolin, tipicamente detestável), um tipo bem americano que está de briga com a esposa (Robin Wright) por ter marcado a viagem sem seu consentimento. Curiosamente, a história pela qual eu me senti mais envolvido foi a de Yasuko (Naoko Mori), que quer chegar ao pico do Evereste para se tornar a primeira mulher a escalar todos as setes grandes montanhas do mundo.

Sim, Jake Gyllenhaal faz uma pequena participação como o líder de uma expedição “rival” a de Rob, mas o papel não faz bom uso de seus talentos (nem físicos nem artísticos, inclusive); e sim, Emily Watson está tipicamente adorável como a assistente de Rob, que fica no acampamento dando instruções e vigiando a meteorologia enquanto os escaladores partem para o cume. Um elenco majoritariamente eficiente de coadjuvantes e o já citado realismo da história contada servem para trazer um olhar diferente e interessante sobre essa aventura que desafia a boa lógica de qualquer ser humano, mas ainda assim parece fazer o nosso sangue correr mais quente e a nossa ambição pela grandeza despertar. De forma alguma Evereste é um filme idealista, mas Nicholson e Beaufoy o fazem um filme compreensivo, ainda que inclemente ao mostrar o destino dos que ousam desafiar a natureza. Além disso, no entanto, há muito pouco para se ver aqui.

✰✰✰✰ (3,5/5)

Sisters-Movie-PosterIrmãs (Sisters, EUA, 2015)
Direção: Jason More
Roteiro: Paula Pell
Elenco: Tina Fey, Amy Poehler, Maya Rudolph, Ike Berinholtz, James Brolin, Dianne Wiest, John Cena, John Leguizamo, Bobby Moynihan, Greta Lee, Madison Davenport, Rachel Dratch
118 minutos

Não é novidade para ninguém que, embora já sejam provavelmente duas das pessoas mais engraçadas da comédia americana no momento separadas, Tina Fey e Amy Poehler só se potencializam quando estão juntas. O espetacular período em que apresentaram o Globo de Ouro juntas, mais o charmoso Uma Mãe Para o Meu Bebê, uma gema escondida de 2008, são mais que provas disso. Com um roteiro de Paula Pell, uma das mais prolíficas e mais talentosas escritoras do Saturday Night Live, em mãos, elas atingem mais um pico de diversão e storytelling em Irmãs, comédia de título auto-explicativo em que as duas interpretam Maura e Kate Ellis, que retornam para a casa dos pais quando eles anunciam que estão prestes a vendê-la para “limpar” o quarto onde passaram a adolescência juntas, e decidem dar uma última (e épica) festa para se despedir do lugar. Parte da graça aqui é que Tina e Amy invertem personas cômicas: dessa vez, a estrela de 30 Rock interpreta a mais “soltinha” da dupla, que teve uma adolescência cheia de aventuras sexuais e agora se vê em apuros financeiros quando é despedida do trabalho; enquanto isso, a protagonista de Parks and Recreation faz a irmã responsável, que acaba de sair de um divórcio e ainda não se colocou de volta no mundo da solteirice, e que teve uma juventude mais. digamos, enclausurada. A cumplicidade entre as atrizes é o que permite que elas exercitem esse alcance cômico com mais conforto, e isso trabalha em favor de Irmãs. uma comédia com boas intenções e uma sucessão e velocidade de piadas que pode não ser tão alucinante quanto muita gente gostaria, mas é eficiente e funciona junto com a trama, ao invés de contra ela.

O leque de personagens que se reúne em torno da festa dada pelas irmãs Ellis é o mais entertaining possível, encarnados por atores que ou já deram muitas provas de suas habilidades cômicas ou estão mais do que aptos a entrar na brincadeira: John Leguizamo interpreta um abusado ex-conquistador que é apaixonado por Kate; Bobby Moynihan protagoniza momentos tão constrangedores quanto hilários na pele do piadista irritante desesperado por atenção; Dianne Wiest e James Brolin estão sensacionais como os pais de Kate e Maura, que não veem a hora de se livrar da casa e aproveitar a vida; Maya Rudolph ganha o prêmio de coadjuvante mais valiosa como a ex colega-de-classe que Kate costumava odiar e que até hoje tem seu fiel grupinho de amigas “populares’; e, claro, John Cena está mais do que disposto a emprestar seus talentos (majoritariamente físicos) para o papel do traficante de drogas que as irmãs chamam para a festa inadvertidamente.

Irmãs tem uma reunião de pessoas tremendamente engraçadas, mas o que faz o filme decolar de verdade é que o roteiro de Pell, em sua estreia no cinema, mantem essas protagonistas grudadas na realidade da situação delas, dos pais, e de cada um dos personagens que as cercam. Enquanto tira uma com o desespero por juventude e pelo retorno dos “bons tempos” que muitos adultos exasperados com as suas próprias vidas carregam, Pell parece também estar criando um conto de celebração que cuidadosamente nos mostra que partes desse culto à juventude desenfreado podemos (ou devemos) absorver. Não queremos dizer que Irmãs é um “filme importante”, mas não machuca assisti-lo, e ele ainda vai te manter tremendamente entretido por quase duas horas. Taí algo que não falamos sobre muitas comédias dos últimos anos.

✰✰✰✰ (4/5)

Sisters-Movie-PosterHoras de Desespero (No Escape, EUA, 2015)
Direção: John Erick Dowdle
Roteiro: John Erick Dowdle, Drew Dowdle
Elenco: Owen Wilson, Lake Bell, Sterling Jerins, Claire Geare, Pierce Brosnan, Sahajak Boonthanakit
103 minutos

Há algum talento envolvido na confecção de Horas de Desespero, um thriller em que uma família recém-mudada para um país não nomeado do Sudoeste da Ásia se vê perseguido por radicais políticos que pretendem matar todos os americanos vivendo na nação após tomarem o poder com um golpe de Estado. No entanto, como você pode ter adivinhado pela sinopse, essa história de sobrevivência inspirada por eventos ocorridos na Tailândia assume o ponto de vista da família ianque e a partir daí assume que qualquer estrangeiro é uma ameaça. Desprovido de qualquer nuance política ou consciência social, Horas de Desespero caracteriza os asiáticos que cercam a família Dwyer como ameaças ou, na melhor das hipóteses, curiosidades étnicas para durar uma cena (como os frequentadores de um bar karaokê no comecinho) ou vários minutos (como o motorista camarada fã de Kenny Rogers). Em certo momento há um breve discurso sobre como o governo americano explora os recursos hídricos e a mão-de-obra barata daquele país, causando em grande parte uma piora na pobreza dessa gente, mas a conversa entra por um ouvido e sai pelo outro, porque Horas de Desespero se recusa a sentir empatia por muito tempo por alguém que não seja a família principal ou o agente britânico (Pierce Brosnan) que os salva uma mão cheia de vezes.

Vamos falar um pouquinho, no entanto, sobre os tais talentos envolvido no filme: o diretor John Erick Dowdle, responsável por filmes díspares como Quarentena, Demônio e Assim na Terra como no Inferno, sai do gênero do terror pela primeira vez, mas carrega consigo a impressionante capacidade de causar tensão e olhar para a brutalidade e perigo com a urgência que é necessária a esses sentimentos. O problema é que, se reunindo ao irmão Drew Dowdle no roteiro, ele faz de Horas de Desespero um exercício de tensão tão enervante quanto são os constantes equívocos no retrato dos estrangeiros e até da única mulher da trama, a esposa do executivo vivido por Owen Wilson. Ambos Wilson e Lake Bell, que interpreta a moça, emprestam garra e desespero a seus personagens, mas não são capazes de transcender uma história rasa, preconceituosa, que passa muito mais perto de Busca Implacável do que deveria, e que some da cabeça do espectador assim que os créditos sobem. Uma situação política complicada como essa merecia um filme melhor.

✰✰ (2/5)

Sisters-Movie-PosterNo Coração do Mar (In the Heart of the Sea, EUA/Austrália/Espanha/Inglaterra/Canadá, 2015)
Direção: Ron Howard
Roteiro: Charles Leavitt, baseado no livro de Nathaniel Philbrick
Elenco: Chris Hemsworth, Benjamin Walker, Cillian Murphy, Brendan Gleeson, Ben Whishaw, Michelle Fairley, Tom Holland, Frank Dillane
122 minutos

Há uma pureza em No Coração do Mar que raramente se vê nos grandes filmes de efeitos especiais da Hollywood de hoje, mas que sobrevive, de certa forma, nos melhores filmes de Ron Howard. O diretor americano, que tem um Oscar na prateleira por Uma Mente Brilhante, é sob certa ótica um formalista consumado, que usa e abusa de técnicas clássicas e que não toca nas modernosas decisões criativas de um Alejandro González Iñárritu, por exemplo. Ao mesmo tempo, seus filmes, quando acertados, vibram com a antiquada vontade de contar uma história da forma mais simples e mais eficiente possível, alinhando uma construção climática do cenário sempre muito palpável com uma ótima direção de atores e um senso narrativo que coloca o ponto e as reflexões da trama acima da técnica, e nos absorve para dentro do filme com facilidade. Foi o que aconteceu com Frost/Nixon (2008) e com Rush: No Limite da Emoção (2013), esse último também estrelado pelo protagonista de No Coração do Mar, o australiano Chris Hemsworth, conhecido como o Thor da franquia da Marvel. Aqui, Hemsworth interpreta Owen Chase, um filho de fazendeiro que conseguiu se infiltrar no mundo elitista dos baleeiros da Nova Inglaterra, nos EUA do século XIX. Ele parte com o esnobe capitão Pollard (Benjamin Walker) a bordo do Essex em busca de mais óleo de baleia, acompanhado por uma tripulação de tipos bem diversos, incluindo o novato Nickerson (Tom Holland, o futuro Homem-Aranha) e o veterano Joy (Cillian Murphy, o antigo Espantalho), até que os marinheiros se encontram com o monstro marinho em forma de baleia que ataca viciosamente o navio ao tentar impedir que ele cace os animais em seu território.

Essa é a história supostamente real que teria inspirado Moby Dick, o clássico livro de Herman Melville, que aparece aqui encarnado por Ben Whishaw enquanto troca histórias com um envelhecido Nickerson (Brendan Gleeson) a fim de descobrir o que realmente aconteceu com o Essex. Howard monta essa entrevista entre os dois homens, que poderia ter passado como um recurso narrativo supérfluo, para se parecer com uma confissão atormentada de um velho com memórias reprimidas, e Gleeson brilha, como de costume, ao ir retirando as camadas do seu Nickerson e o aproximando do jovem que Holland interpreta com tanta energia nas porções do filme passadas no passado. Os dois intérpretes desse personagem são o destaque do elenco, mas Cillian Murphy, Michelle Fairley, Benjamin Walker e Frank Dillane entregam trabalhos sólidos e marcantes mesmo com pouco tempo em tela, em grande parte porque o roteiro de Charles Leavitt (Diamante de Sangue) desenha esses personagens com linhas tão definidas e precisas.

No Coração do Mar é um conto sobre como o homem muitas vezes confunde necessidade com ganância, e sobre aquele velho clichê da arrogância humana em se achar domador e dominador da natureza. Da forma como está escrito, o filme coloca a enorme baleia encontrada pelos homens do Essex quase como uma materialização de um karma, e embora Howard nos leve junto com esses personagens em uma jornada de tirar o fôlego de sobrevivência, o grande arco de No Coração do Mar é ético, seja na evolução do personagem de Hemsworth (que, como ator, continua sendo um ótimo Thor – mas tem se esforçado cada vez mais ultimamente) ou nos dois momentos distintos em que vemos Nickerson, e no marcado amadurecimento (e envelhecimento) que os separam. Em seu filme mais recente, Ron Howard só quer nos contar uma história, e isso pode ser refrescante em uma Hollywood, e uma temporada de premiações, que cada vez mais coloca técnica sobre substância.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

star-wars-force-awakens-official-poster

Star Wars: O Despertar da Força (Star Wars: Episode VII – The Force Awakens, EUA, 2015)
Direção: J.J. Abrams
Roteiro: Lawrence Kasdan, J.J. Abrams, Michard Arndt
Elenco: Harrison Ford, Mark Hammill, Carrie Fisher, Adam Driver, Daisy Ridley, John Boyega, Oscar Isaac, Lupina Nyong’o, Andy Serkis, Domhnall Gleeson, Max Von Sydow, Gwendoline Christie
135 minutos

No seu coração, Star Wars sempre foi uma novela pulp de ficção científica, como o herói dos quadrinhos Flash Gordon ou os livros de Edgar Rice Borroughs, o homem que concebeu Conan, Tarzan e John Carter. Os primeiros três filmes de George Lucas, feitos entre 1977 e 1983 e amados por uma multiplicidade de gerações, tiram seu duradouro charme da vontade de serem descaradamente óperas espaciais influenciadas pelo gosto de seu autor/diretor por serials televisivos e westerns. Quando Lucas voltou a franquia, no entanto, em 1999, o gigantesco e sufocante sucesso de sua criação e de tudo o que derivou dela fez do diretor uma criatura mais cínica, e os três filmes lançados entre 1999 e 2005 são mais sombrios e complexos por conta disso – cheios de estratagemas políticos e subtextos morais, carregados de uma noção de destino e karma que é inevitavelmente obscura, e contando a queda do inocente e idealista Anakin Skywalker, que se transformou em Darth Vader. Não são filmes tão ruins quanto muitos fãs parecem achar, vale dizer, mas são obras fundamentalmente falhas e imensamente menos divertidas que os filmes originais, ou que esse O Despertar da Força, que trouxe a franquia de volta à vida sob o comando de J.J. Abrams, que já havia revitalizado Star Trek em 2009.

Abrams faz seu filme como uma carta de amor ao espírito kitsch (mas levado à sério) que guiou o Guerra nas Estrelas de 1977, hoje chamado de Star Wars: Episódio IV – Uma Nova Esperança. Ao invés de tomar o caminho da segunda trilogia, que contou o que aconteceu antes do que assistimos no primeiro filme, O Despertar da Força nos transporta 30 anos para o futuro depois do final de O Retorno de Jedi (1983) e nos reapresenta velhos personagens e seus destinos enquanto coloca novos heróis e vilões conectados invariavelmente ao passado da saga de alguma forma. Simplificando a política, Abrams e os companheiros de roteiro Lawrence Kasdan (que escreveu parte da trilogia original) e Micharl Arndt (Toy Story 3) colocam mais uma vez uma parte da galáxia tendo que lutar contra os desmandos de um poder autoritário em forma de rebelião, e uma insuspeita moradora de um planeta em que ninguém presta muita atenção revelando poderes extraordinários da Força e se tornando a esperança dos Jedi.

Tudo poderia parecer familiar demais, apesar da nostalgia criada pelo retorno de Harrison Ford como Han Solo (em uma atuação extraordinária, há de se dizer) e de Carrie Fisher como a agora General Leia. Em certo momento de O Despertar da Força, parece que as partes estreladas pelos dois veteranos da franquia serão as melhores do filme, mas aos poucos Abrams vai construindo seus novos heróis Poe Dameron (Oscar Isaac), Rey (Daisy Ridley) e Finn (John Boyega) e articulando um tema que é muito caro a toda a sua filmografia: a forma como fugimos ou abraçamos as nossas responsabilidades e os nossos deveres morais. Esse dilema está em Finn, um ex-Stormtrooper cujo primeiro instinto é simplesmente ir para o mais longe possível, e não ficar e lutar; está no arco de Solo, Leia e seu filho Kylo Ren (Adam Driver), o vilão da trama, e na forma como um trauma do passado afastou o casal, fugindo dos sentimentos levantados por esse fatídico acontecimento, e levou o filho ainda mais longe para o caminho do lado negro da Força; e está, de forma menor, nas jornadas de cada um dos outros personagens. Em suma, então, O Despertar da Força é o melhor de dois mundos: o bom e velho Star Wars com uma nova mensagem para passar.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

22 de mai. de 2015

Review: “Vingadores: Era de Ultron” é o melhor da Marvel no cinema, mesmo com todas as suas falhas

avengers-age-of-ultron

por Caio Coletti

Desde 2008, quando começou sua passagem de rolo compressor pelo cinema comercial, a Marvel Studios fez um trabalho (de certa forma) admirável em transpor para as telas o conceito de um universo coeso de super-heróis que agem em storylines interconectadas – um conceito que há boas décadas tem funcionado para os quadrinhos. Vingadores: Era de Ultron é o décimo filme dessa colossal franquia e, como culminação de mais um “ciclo” dentro do storytelling da Marvel, é naturalmente uma obra muito atarefada, absorvida na tentativa de nos localizar no universo que os filmes anteriores construíram e, pelo caminho, ganhar personalidade e razão de existir próprias. O mais impressionante, no entanto, é que em algum lugar na sua impressionante metragem de quase 2h30 de explosões, aniquilação mundial e conflitos de personagem, Era de Ultron encontra a rota certa para se tornar um dos filmes mais gritantemente autorais do estúdio até hoje. E mesmo que, sob um olhar técnico e analítico, seja um filme bem falho, isso também significa que é o melhor capítulo do universo cinematográfico da Marvel até hoje.

Para começar, o filme conta uma história reprocessada dezenas de vezes pelo cinema de ficção científica e consegue encontrar um ângulo interessante para abordá-la. Na tentativa de criar uma força protetora para o planeta que torne o trabalho dos Vingadores desnecessário, Tony Stark passa por cima da burocracia e usa uma das joias do infinitos (parte integral da mitologia Marvel, sobre as quais você pode saber mais aqui), contida no cetro de Loki, para criar Ultron. Visto que o nome do vilão está no título do filme, dá para perceber que o androide (dublado espetacularmente por James Spader) não sai exatamente como o planejado, e usa o assustador poder que possui para buscar a aniquilação humana na Terra (porque, como manda o clichê do gênero, nós somos a ameaça à sobrevivência do planeta). O foco do genioso roteiro de Joss Whedon, no entanto, não fica nas implicações filosóficas do abuso da tecnologia, ou na incapacidade robótica de compreender a experiência humana – Era de Ultron é um filme sobre o mito do super-herói, sobre a reponsabilidade do poder bélico, sobre o fardo e a dúvida que é intrínseca à vida desses personagens que vemos desfilar pelas produções da Marvel desde 2008.

O filme de Whedon é o primeiro dessa nova era a entender e retratar com mais profundidade o lado sombrio das histórias em quadrinhos nas quais é inspirado, e a chocante humanidade que existe nesses personagens capazes de feitos inumanos. Seu retrato do vilão Ultron é quase um pedaço de cinema de terror dentro do mundo “limpinho” e “espetacular” do universo Marvel – da voz de James Spader ao design cheio de reentrâncias e expressividades, passando pela linguagem corporal provida pelo departamento de efeitos especiais, o personagem é uma realização completa (e assustadora) da lenta decadência à insanidade que o roteiro retrata. Há algo de muito humano na confusão de Ultron sobre os próprios conceitos, no ressentimento que demonstra ao seu criador, no absoluto ódio que parece alimentar sua missão. Consequentemente, há algo de muito envolvente também no personagem e na teatralidade que Spader empresta a ele, o que só torna mais perturbador quando Ultron se multiplica em infinitas réplicas de si e cria um terror coletivo muito mais poderoso do que o medo de um só nêmesis.

A introdução dos outros dois novos personagens também acerta em cheio no tom, e faz com que Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen) e Mercúrio (Aaron Taylor-Johnson) sirvam a um propósito narrativo que não é apenas a expansão do universo Marvel. Ela está aqui para que possamos entrar na mente dos nossos protagonistas, criando alucinações que revelam ao espectador as ânsias e traumas mais profundos de cada um deles, a reponsabilidade que carregam e os arrependimentos que acumulam. Como se tornou comum no universo cinematográfico da Marvel, o carisma de Robert Downey Jr. faz com que o filme seja um pouco condescendente aos modos paternalistas e militaristas de Stark, trazendo redenção fácil para o personagem que, no final das contas, provocou essa confusão toda por pura soberba. Whedon acerta mais no ponto com os outros personagens, adotando uma postura ambígua em relação aos atos e motivações de todos eles e buscando um retrato realista de um mundo em que pessoas capazes de destruição formidável andam entre nós. “Ultron não sabe a diferença entre salvar o mundo e destruí-lo”, diz a Feiticeira em certo ponto. “A quem você acha que ele puxou?”

Seguindo essa deixa, a ação em Era de Ultron se preocupa muito mais com o impacto da passagem desses heróis pelo mundo em que caminham do que qualquer outro filme de super-herói recente. Enquanto outros roteiristas tentariam reduzir o dano causado pelas lutas, geralmente movendo-as para locais distantes da civilização, Whedon cria um retrato eletrizante do impacto causado pelos poderes e complicações das batalhas dos Vingadores. O clímax não só ameaça a integridade do planeta, como faz com que seja parte integral da tensão o fato de que uma cidade inteira, populada, será erguida no ar e atirada contra a Terra para arquivar o objetivo do vilão. Outra batalha na metade do filme vê dois heróis se enfrentando em uma série de desvios que destroem de forma espetacular uma outra cidade – é uma cena de ação muito empolgante (talvez a mais bem estruturada do filme), dotada de algum humor, mas que nunca se permite ser inconsequente. A câmera de Whedon tenta acompanhar o tempo todo os destroços de um impacto, por exemplo, atingindo o chão, e frequentemente volta o olhar para a expressão de medo com a qual aqueles civis olham tanto para os vilões robóticos quanto para os heróis titulares do filme.

Com um elenco que parece incrivelmente confortável em seus personagens (Scarlett Johansson faz um trabalho particularmente brilhante aqui), Era de Ultron vacila um pouco no final, quando o diálogo entre Ultron e Visão (Paul Bettany finalmente aparecendo em carne e osso no universo Marvel) apela para a filosofia barata que uma centena de ficções científicas mais competentes já elaboraram. Em alguns momentos, no entanto, como o espetacular take em câmera lenta que vê os heróis reunidos em uma catedral combatendo o exército do vilão, o filme de Whedon brilha como uma das traduções mais dignas do espírito e da alma do que fez os quadrinhos da Marvel uma forma de arte tão popular tanto nesse século quanto no século passado: em seu retrato da super-humanidade desses personagens fantasiosos, Era de Ultron é um tomo poderoso sobre as falhas e as virtudes de todos nós.

✰✰✰✰ (4/5)

avengers-age-ultron

Vingadores: Era de Ultron (Avengers: Age of Ultron, EUA, 2015)
Direção e roteiro: Joss Whedon
Elenco: Robert Downey Jr, Chris Hemsworth, Mark Ruffalo, Chris Evans, Scarlett Johansson, Jeremy Renner, James Spader, Samuel L. Jackson, Don Cheadle, Aaron Taylor-Johnson, Elizabeth Olsen, Paul Bettany, Cobie Smulders, Anthony Mackie, Hayley Atwell, Idris Elba, Linda Cardellini, Stellan Skarsgard, Claudia Kim, Thomas Kretschmann, Andy Serkis, Julie Delpy
141 minutos