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18 de jan. de 2016

Review: As verdades mal-escondidas de "Carol"


por Caio Coletti

O primeiro take de um filme diz muito sobre ele – nas mãos de um bom diretor, a escolha de um take inicial pode introduzir, das maneiras mais simples e simbólicas, a trama e o significado do filme que se segue a ele. Carol começa com um close em um padrão abstrato, que descobrimos ser uma calçada a partir da qual a câmera se ergue para explorar de forma elegante e clássica a Nova York dos anos 50, em uma noite qualquer. É uma decisão brilhante do diretor Todd Haynes (Não Estou Lá.), que diz muito em pouca informação visual, revelando a cuidadosa reconstituição de época empreendida pelos aspectos técnicos do filme (especialmente o trabalho fabuloso de Sandy Powell nos figurinos); a intenção estética e proposta de classicismo do filme, que empresta tantos vícios de câmera e construções de cena do cinema dos anos 40/50; e a recorrente metáfora visual das superfícies, que reflete no mundo ao redor de suas personagens principais o próprio conflito que existe dentro delas, apresentando-se de uma forma para o mundo enquanto cuidadosamente escondem o que existe por baixo dessa encenação.

Durante as duas horas de Carol, frequentemente vemos as duas protagonistas, feitas por Cate Blanchett e Rooney Mara, através de vidros manchados de verde, janelas gotejadas de chuva, espelhos de molduras luxuosas. Haynes e seu diretor de fotografia, Edward Lachman, com quem trabalha desde Longe do Paraíso (2002), conjuram um olhar sobriamente romântico da Nova York da época que retratam, lançando um realismo muito moderno sobre as idealizações que todos temos dos cenários das décadas de ouro de Hollywood. Carol é um filme ferozmente urbano, e a decadência dos quartos de hotel baratos, refeitórios de lojas de departamento, apartamentos modestos de jovens de classe média-baixa, tudo isso faz parte de sua composição visual, sempre honesta com o espectador, cujo olhar, ditado pela câmera, por vezes asssume a identidade de observador distante, e por vezes adentra na percepção dos personagens, especialmente de Therese (Rooney Mara). A encenação ditada por Haynes é econômica e abusa da movimentação dos atores ao invés de confiar na edição, abrindo espaço para Affonso Gonçalves (Indomável Sonhadora) fazer um trabalho imensamente elegante nesse campo.

O filme segue Therese, uma jovem atendente de loja de departamento na Nova York dos anos 50 que, perto da época do Natal, vê seus caminhos se cruzarem com Carol Aird (Cate Blanchett), uma dona-de-cada mais velha, casada, mãe de uma jovem menina, que mesmo assim deixa as faíscas voarem livremente desde as primeiras interações entre as duas. Carol encena essa tensão romântica e sexual que existe entre elas sem receios, mas mantem o espírito contido que é exigido de suas personagens graças ao ambiente social em que elas se encontram – o trabalho das atrizes, e da química entre elas, é reforçar e sublinhar essa nem-tão-sutil, mas obrigatoriamente discreta, atração entre as duas. Não só ambas se entregam nesse sentido, inclusive na única cena mais quente que dividem, mas ultrapassam todas as expectativas ao entenderem, de maneiras diferentes, porém complementares, os atos teatrais e verdades que se escondem por trás deles, que formam a espinha dorsal desse relacionamento complicado e inesquecível.


A presença de Blanchett em tela é quase sobrenatural. Se, no próximo dia 28 de Fevereiro, o Oscar resolver lhe garantir a terceira estatueta da carreira pela atuação, ela estará (novamente) em boas mãos – sua Carol é uma criatura extraordinária, envolvida nos exagerados casacos de pele que a figurinista Powell lhe dá como um manto de proteção, jogando e arrumando os cabelos no vento e na neve como uma estrela de cinema dos anos 40, uma Lana Turner em carne e osso. É fácil entender porque Therese se apaixona por ela, mas Blanchett também encontra os menores e mais significativos momentos para expressar o que existe por baixo de todo o charme e sedução dessa mulher misteriosa. Em uma cena especialmente marcante, Carol está ao telefone com a mulher mais jovem, e uma pergunta feita por sua interlocutora parece ser o estopim de uma reação emocional – em um trejeito que não dura mais que um segundo em tela, Blanchett agarra o telefone e muda sutilmente a expressão corporal, e é o bastante para aquele momento atingir o espectador como um soco no estômago. Em muitos outros coasos, a atriz não precisa de nada mais do que um olhar para nos comunicar quem é a mulher que ela está interpretando quando ela baixa a guarda. No filme em que está inserida, Blanchett não poderia ser uma protagonista melhor.

Não há de se diminuir a excelência de Mara, no entanto – nem relegá-la ao espaço de coadjuvante, como a Weinstein Company fez ao submeter sua atuação para o Oscar. De forma ainda mais sutil, ela constrói sua Therese e as múltiplas facetas que ela apresenta para aqueles e sua volta com cuidado, mantendo na superfície, o tempo todo, a juventude e os conflitos internos que existem dentro da personagem. Sua atuação é um trabalho muito mais nervoso, muito mais intenso (de certa forma) do que a atuação de Blanchett, e as duas se completam pela tensão e encanto que trazem, simultaneamente, ao romance principal do filme. Com a ajuda inestimável do compositor Carter Burwell (Fargo), que cria uma das trilhas-sonoras mais belas do ano, elas e o diretor Haynes transformam Carol em um caso de amor tórrido, apaixonante, calcado em detalhes e em sentimentos fugazes, sem perder de vista o realismo e o retrato social que formam o coração da trama.

A roteirista Phyllis Nagy (Mrs. Harris) adapta o romance seminal de Patricia Hishgmith com propriedade (ela era amiga pessoal da escritora), retratando a vida de mulheres lésbicas na época em que o filme se passa e o “armário” na qual elas eram obrigadas a serem mantidas se não quisessem perder o que construíram de bom na existência de heterossexualidade compulsória que levaram até então – a repressão é palpável em Carol, nos momentos menores tanto quanto na odisséria da sua personagem-título para reter a guarda da filha após o divórcio com o marido, feito por Kyle Chandler (Bloodline). Enquanto o livro é contado apenas do ponto de vista de Therese, Carol expande sua visão para cenas em que a personagem de Blanchett é vista sozinha, ou com a amiga (e ex-namorada) Abby (Sarah Paulson), ou conversando com seu advogado, a procura de um retrato mais completo da época e da provação pela qual essas mulheres passavam. Honrando o desejo da escritora de criar um romance homossexual que não seguisse as regras daqueles que eram contados na época, Carol prova que ainda há algo de vitalmente importante a ser aprendido aqui. Com seu olhar moderno e realista, mas tremendamente romântico, o filme sutilmente sugere que o apagamento e a vilanização da identidade desses personagens não ficou nos anos 50 – e com seu caso de amor elusivo e intenso, envolvente e tocante, Carol fica na memória como nenhum outro drama LGBT recente conseguiu ficar.

✰✰✰✰✰ (5/5)


Carol (Inglaterra/EUA, 2015)
Direção: Todd Haynes
Roteiro: Phyllis Nagy, baseada na novela de Patricia Highsmith
Elenco: Cate Blanchett, Rooney Mara, Kyle Chandler, Jake Lacy, Sarah Paulson, John Magaro
118 minutos

21 de out. de 2015

Review: O novo “Peter Pan” é uma má ideia – mas ganha alguns pontos pela execução

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por Caio Coletti

Há algo especial na história de Peter Pan, uma figura cultural que muita gente talvez não apostasse que fosse sobreviver tanto tempo no imaginário popular. Criado no começo do século passado (a primeira aparição de Peter foi em 1902) pelo escocês J.M. Barrie, imortalizado em uma dezena de adaptações para o cinema e para a TV, especialmente o desenho animado da Disney dos anos cinquenta, Peter tem sido, há mais de 100 anos, a representação dominante da delícia e da tragédia da infância, ao mesmo tempo um receptáculo para as nossas fantasias de nunca envelhecermos e uma prova viva do gostinho agridoce dessas fantasias. Há certa pureza em histórias como essa, em símbolos ficcionais como Peter, que sobrevive para além de tendências narrativas e modismos de gênero de Hollywood e das outras indústrias do entretenimento, e talvez seja por isso que seja tão incômodo ver a história que conhecemos ser encaixada em um paradigma tão preguiçoso quanto o que guia esse novo Peter Pan, que chegou aos cinemas no último dia 08 de Outubro.

No roteiro assinado por Jason Fuchs (A Era do Gelo 4), o personagem clássico criado por Barrie “finalmente” ganha uma história de origem, exatamente como a de todos os super-heróis que inundam os multiplexes mundo afora. Além disso, o líder dos garotos perdidos se envolve com a tribo de nativos da Terra do Nunca e descobre a existência de uma profecia que fala de um “garoto voador”, uma espécie de messias que livrará a ilha mágica do domínio malévolo de Barba Negra (Hugh Jackman). Coloque na mistura a busca de Peter pela mãe, que pode não ter realmente morrido, e você tem uma gênese de personagem que poderia muito bem figurar em qualquer história distópica de literatura young adult contemporânea. O script estrutura uma narrativa que joga com conceitos familiares e não se importa muito em criar um contexto mais criativo para eles, ao menos não em um nível mais do que superficial – vide os bizarros números musicais (que incluem “Smells Like Teen Spirit”, do Nirvana; e “Blitzkrieg Bop”, dos Ramones) e o estranho clima de Oliver Twist das cenas passadas no orfanato dirigido por freiras no qual Peter começa sua jornada.

Com um roteiro desses em mãos, o britânico Joe Wright, um dos mais distintivos e inteligentes talentos de sua geração, fica renegado à posição de comandante de blockbuster, o que não significa que ele não adicione um pouco de brilho aos procedimentos. Pan é, afinal, um filme visualmente genioso, com o senso esperto de teatro do homem que fez a sucessão de cenários e jogos de cena funcionar no peculiar Anna Karenina, e o bom gosto estético do diretor que adaptou Orgulho & Preconceito em um dos filmes mais classudos e delicados do nosso tempo. Do campo de batalha colorido que emerge quando piratas e nativos se enfrentam até as acrobacias desafiadoras da gravidade do vilão interpretado com garra e vontade por Jackman, passando pelos visuais elaborados em tons mais neutros das partes passadas no orfanato e na enorme mina de pó-de-fada (não pergunte) comandada pelo vilão, Wright respira criatividade visual em um filme que não a contrapõe com boas ideias narrativas. É um esforço admirável, mas em última instância fútil.

O mesmo vale para as atuações de Jackman e do carismático Levi Miller, um menino-prodígio que já estrelou campanhas para a Ralph Lauren e agora mostra que, dadas as escolhas certas na carreira, tem futuro no cinema. O australiano Miller faz seu Peter Pan com as doses certas de inocência e travessura, entende quando retratá-lo como um personagem em crescimento (por mais irônico que pareça) e quando mostrar flashes da personalidade maior-que-a-vida e irritantemente conquistadora que ficou eternizada no clássico da Disney. As escolhas certas do protagonista quase (quase) salvam a construção da trama da mediocridade, mas aí somos lembrados que esse é um filme em que a tribo de indígenas da Terra do Nunca é repaginada com uma princesa branca (Rooney Mara) e um ou outro integrante de etnia diferente, mesmo que os costumes e estilo de vida sejam um retrato estereotípico dos nativos-americanos.

Em certos sentidos, portanto, Pan é até ofensivo. Na maior parte do tempo, porém, é apenas uma carga anormalmente pesada de más ideias hollywoodianas, com a adição de um diretor temperamental e interessante para fazê-la funcionar, ao menos em alguns níveis. E onde mais falha é em capturar tanto a magia quando a tragédia do personagem que pretende redefinir, mesmo que ele claramente não precise de uma redefinição.

✰✰✰ (2,5/5)

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Peter Pan (Pan, EUA/Inglaterra/Austrália, 2015)
Direção: Joe Wright
Roteiro: Jason Fuchs
Elenco: Levi Miller, Hugh Jackman, Garrett Hedlund, Rooney Mara, Adeel Akhtar, Nonso Anozie, Amanda Seyfried, Kathy Burke, Cara Delevigne
111 minutos

21 de abr. de 2015

10 filmes que Cannes 2015 vai ver (e você também deveria)

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por Caio Coletti

Como acontece todo ano, sem falta, ficamos louquinhos com o listão de selecionados para o Festival de Cannes, que vai rolar nos próximos dias 13 a 24 de Maio, na Riviera francesa. E como é nossa tradição desde 2013, fizemos das tripas coração para comprimir a seleção awesome comandada pelos presidentes do júri Joel e Ethan Coen (diretores de Queime Depois de Ler, Onde os Fracos Não tem Vez e vários clássicos da cinematografia americana) em apenas 10 filmes essenciais. O mais bacana de compilar essa lista todos os anos é entrar em contato com as obras escolhidas de países e regiões do mundo que nem sempre recebem a devida atenção do circuito de cinema mainstream, e esperamos poder passar um pouquinho dessa abertura de horizontes pra vocês.

Vamos aos dados, então. Para começar, o pôster dessa que é a 68º edição do festival mais importante do mundo é esse aí em cima, estrelado pela maravilhosa da Ingrid Bergman, que todo mundo conhece por Casablanca e pelas colaborações com Alfred Hitchcock (Interlúdio e Quando Fala o Coração). Essa sueca ganhou três Oscar na carreira (número superado, entre as atrizes, só pela Katherine Hepburn), e faria 100 anos de vida no próximo dia 29 de Agosto. Infelizmente, Bergman morreu em 1982, aos 67 anos. Enquanto a homensagem do pôster vai merecidamente para ela, a escolha de dar a presidência do júri para os irmãos Coen consolida um caso de amor longo do festival com o cinema desses americanos – os dois já tiveram sete seleções para a competição principal, duas vitórias na corrida pela Palma de Ouro, e um prêmio de direção.

Nomes bem díspares de várias áreas do cinema completam o júri, como de costume: as atrizes Sophie Marceau (França), Sienna Miller (Inglaterra) e Rossy de Palma (Espanha), os diretores Guillermo Del Toro (México) e Xavier Dolan (Canadá), o ator Jake Gyllenhaal (EUA) e a compositora de trilhas-sonoras Rokia Taoré (Mali). No comando da mostra Un Certain Regard, mais concorrida das exibições paralelas à competição principal, a diva italiana Isabella Rossellini (Veludo Azul) criou uma seleção bastante fiel ao espírito da Un Certain Regard, cheia de cineastas independentes e possíveis surpresas.

Para manter nossa lista enxuta, acabamos cortando os filmes dessas mostras paralelas, mas vale a pena ficar de olho na Un Certain Regard. Também deixamos de fora, inclusive, algumas estreias aguardadas que estarão fora da competição principal, mas prometem fazer barulho: achamos que filmes como Irrational Man (o novo do Woody Allen), Inside Out (da Pixar), Mad Max: Fury Road e The Little Prince serão escolhas óbvias quando chegarem aos cinemas, e resolvemos focar em filmes importantes e que talvez não tenham ainda chamado a atenção do público. Vamos lá?

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La Tête Haute (Standing Tall)
Filme de abertura

La Tête Haute é o primeiro filme dirigido por uma mulher a ganhar a honra de ser a abertura do Festival de Cannes desde 1987 (na época, a festa começou com A Man in Love, de Diane Kurys). É também o primeiro filme francês a abrir o festival desde 2005 – boatos circulam que o manda-chuva de Cannes, Pierre Lascure, estava procurando por um filme mais low profile para abrir a 68º edição da festa, depois de uma série de filmes estrelados (Grace of Monaco, Gatsby, Moonrise Kingdom). A obra escolhida chega com o pedigree da diretora e atriz Emmanuelle Bercot, que estreou seu filme anterior, Ela Vai, no Festival de Berlim de 2008 – ambos são estrelados por Catherine Deneuve, a diva do cinema francês que ficou conhecida por aqui pela participação em Dançando no Escuro, de Lars Von Trier. Em La Tête Haute ela interpreta uma juiza que cuida do caso de uma delinquente infantil – o filme acompanha a garota protagonista entre os 6 e os 18 anos.

Il Racconto Dei Racconti (The Tale of Tales)
Competição pela Palma de Ouro

Nessa primeira escolha nossa da lista de “indicados” para a Palma de Ouro ficam claras duas tendências favorecidas pelos irmãos Coen: os filmes com inclinação bizarra e as aventuras de diretores estrangeiros no âmbito internacional (com filmes falados em inglês, em oposição a língua natal dos realizadores). The Tale of Tales é a estreia fora da Itália de Matteo Garrone, que fez muito marulho em 2008 com Gomorra, vencedor do prêmio do júri em Cannes e um dos filmes italianos mais falados dos últimos anos. O estilo bem particular que guiou aquele filme reaparece no trailer desse novo, estrelado por nomes de diversas nacionalidades como Salma Hayek (México), John C. Reilly (EUA), Toby Jones (Inglaterra) e Vincent Cassel (França). A história de fantasia, abordada de forma crua pelo diretor e com um design de produção belíssimo, se baseia em uma coleção de contos de fada famosa na Itália, o Pentamerone.

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The Lobster
Competição pela Palma de Ouro

Mais uma estreia estrangeira no cinema americano: Yorgos Lanthimos, um jovem diretor grego que ganhou aclamação crítica pelo seu incômodo Dente Canino (premiado na Un Certain Regard em 2009), estreia também na seleção principal de Cannes com The Lobster, estrelado por grandes nomes hollywoodianos como Colin Farrell, Léa Seydoux, Rachel Weisz, Ben Whishaw e John C. Reilly (de novo!). A trama do novo filme de Lanthimos é no mínimo curiosa: num futuro distópico, a humanidade desenvolveu um sistema em que, se as pessoas solteiras não encontrarem um parceiro ou parceira dentro de 45 dias depois de certo ponto na vida, elas são transformadas em animais e soltas na natureza. É isso mesmo, você não leu errado. Será que a visão de Lanthimos sob o gênero da ficção científica distópica vai ser tão incisiva e provocadora quanto seus filmes anteriores?

Carol
Competição pela Palma de Ouro

Primeiro de só dois diretores americanos da nossa lista, Todd Haynes é um dos cineastas mais celebrados das últimas décadas. Foi lembrado pelo Oscar pelo roteiro de Longe do Paraíso, foi indicado à Palma de Ouro por Velvet Goldmine e ainda dirigiu Não Estou Lá, que rendeu muitos aplausos da crítica e indicações a prêmios para seus atores. O retorno de Haynes ao cinema (ele esteve na TV com a minissérie Mildred Pierce em 2011) com Carol se qualificaria como um dos filmes “sérios” mais esperados do ano mesmo sem a seleção para a Palma de Ouro. Cate Blanchett volta a trabalhar com o diretor como a personagem-título, objeto de desejo da jovem interpretada por Rooney Mara, em plenos anos 50. Pior, a tal Carol interpretada por Blanchett é uma mulher casada.  O elenco ainda conta com Sarah Paulson, Kyle Chandler e Cory Michael Smith, e a história se baseia em uma novela de Patricia Highsmith intitulada O Preço do Sal.

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Louder Than Bombs
Competição pela Palma de Ouro

Vão contando: terceiro diretor estrangeiro expandindo fronteiras nacionais, e segundo a pular da Un Certain Regard para a competição principal de Cannes. O norueguês Joachim Trier esteve na mostra paralela em 2011, com o elogiado Oslo, 31 de Agosto, que o famoso crítico americano Roger Ebert elencou como um dos seus filmes preferidos daquele ano. Agora, ele comanda um elenco que inclui Isabelle Huppert (A Professora de Piano), Jesse Eisenberg, Rachel Broshanan, Amy Ryan, Gabriel Byrne e David Strathairn na história de uma celebrada fotógrafa francesa cuja vida vira de cabeça para baixo quando, durante a organização de uma retrospectiva de seu trabalho, um velho segredo é desenterrado e chega aos ouvidos de sua família. Elogiado por sua empatia para com os personagens e observação meticulosa das performances dos atores, esse é o tipo de história com a qual Trier é capaz de fazer maravilhas.

Umimachi Diary (Our Little Sister)
Competição pela Palma de Ouro

Escolhemos Umimachi Diary entre as duas entradas do cinema asiático para a competição pela Palma puramente por causa do pedigree do seu diretor: Hirokazu Kode-eda é um dos cineastas chineses contemporâneos mais celebrados pelos trabalhos dramáticos, especialmente o comovente Pais de Filhos, que venceu o prêmio de roteiro em Cannes em 2013. Baseado em um mangá super muito-sucedido por lá, o filme conta a história de três irmãs vivendo na parte rural do Japão que recebem uma quarta garota, mais nova, em sua casa. Vale destacar também Assassin, filme de artes marciais de Hou Hsiao Hsien (A Viagem do Balão Vermelho), que promete trazer visuais interessantes de época e o estilo particular do diretor múltiplas vezes nomeado para a competição principal de Cannes.

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The Sea of Trees
Competição pela Palma de Ouro

A floresta de Aokigahara (que, em chinês, significa “mar de árvores”) é conhecida como “a floresta do suicídio” por ser o segundo destino mais popular do mundo para pessoas que desejam se matar – perde só para a Golden Gate Bridge, em San Francisco. Anualmente, a polícia recupera mais de uma centena de corpos de lá, sem contar os que, segundo as próprias autoridades, “são achados por animais selvagens antes”. É nessa locação sombria que se passa o novo filme de Gus Van Sant, vencedor da Palma de Ouro em 2003 por Elefante e diretor de filmes como Gênio Indomável e Inquietos. Estrelado por Matthew McConaughey, Ken Watanabe, Naomi Watts e Jordan Gavaris, o filme conta a história de um americano que se perde na floresta, e conta com a ajuda de um japonês para achar a saída.

Macbeth
Competição pela Palma de Ouro

A última adaptação “séria” de Macbeth para a tela grande foi em 1948, acreditem ou não. Dirigida e estrelada por Orson Welles, aquela versão acabou se tornando a principal referência cinematográfica para um dos dramas mais famosos de Shakespeare (Ian McKellen e Patrick Stewart já interpretaram o personagem na TV). Para sua estreia no cinema americano, o australiano Justin Kurzel resolveu esticar a ambição e escalar o badalado Michael Fassbender para o papel-título, um duque escocês que, atiçado pela profecia de três bruxas, mata o rei para tomar seu lugar. Na pele da infame Lady Macbeth estará Marion Cotillard, enquanto David Thewlis e Elizabeth Debicki interpretam papéis secundários. Kurzel impressionou bastante com seu filme anterior, Snowtown (2011), que também foi exibido em Cannes, que chocou pela intensidade emocional e física, mas ganhou elogios rasgados da crítica.

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A Tale of Love and Darkness
Fora de competição

Há algum tempo uma atriz que vem mostrando controle criativo e independência na carreira, Natalie Portman finalmente estreia na direção de longas-metragens com A Tale of Love and Darkness, que será exibido em Cannes mesmo não estando na disputa pela Palma de Ouro. O filme é um projeto muito pessoal para a atriz, que nasceu em Jerusalém, Israel, em uma família judia – a história se baseia nas memórias de Amos Oz, um escritor, jornalista e ativista israelense que defende um Estado controlado por forças muçulmanas e judias para por fim à guerra em Israel. Natalie é a única grande estrela do filme, no papel da filha mais velha do escritor, Fania – ainda não está confirmado o nome do ator que interpretará o papel principal.

La Giovinezza (Youth)
Competição pela Palma de Ouro

Segundo filme em inglês do italiano Paolo Sorrentino, que venceu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro por A Grande Beleza, em 2014. Lá em 2011, ele estreou no cinema americano comandando Sean Penn no excêntrico drama Aqui é o Meu Lugar, e embora não volte para Hollywood para comandar Youth, faz seus atores discursarem na língua inglesa. O protagonista é Michael Caine (yes!), um maestro aposentado que está passando férias num resort nos Alpes quando é chamado pela família real britânica para um último concerto. O dilema do personagem de Caine é refletido nos coadjuvantes interpretados pelo colorido e estrelado elenco: Paul Dano, Harvey Keitel, Rachel Weisz e Jane Fonda aparecem no filme. Sempre uma boa aposta, Sorrentino promete entregar mais um drama de ritmo bem peculiar, como mostra o trailer.

4 de fev. de 2014

Review: Por que, num ano cheio de ficções científicas, “Ela” é a melhor de todas?

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por Caio Coletti

Um dos grandes, senão o grande chavão da ficção científica moderna, é aquele que usa os elementos “extra-realistas” do gênero para exaltar o espírito humano. Em várias histórias, quando ameaçados por elementos fora do nosso mundo habitual – ou mesmo criado por nossos vícios e defeitos –, a humanidade precisa voltar a constituição mais pura de sua alma, aos sentimentos de afeição e união, para perseverar. Nós existimos contra todas as possibilidades, é o que nos diz a ficção científica, e só isso já é prova de que somos verdadeiramente excepcionais. Ela, novo filme de Spike Jonze, indicado a 5 Oscar, não quer negar que sejamos, mas ao contrário da maioria de seus companheiros de gênero, exalta a humanidade exatamente naqueles pontos em que somos mais falhos.

Para começar, como indica a tagline abaixo do título no poster, essa é uma história de amor. Sem rodeios, Ela é um filme extremamente doloroso em seu retrato de todas as fases que compreendem um relacionamento romântico, e de certa forma é também uma narrativa cíclica: Theodore (Joaquin Phoenix) é um recém-divorciado que se apaixona pelo novo sistema de operações que adquire. No futuro de Ela, todo mundo anda com um ponto no ouvido e comanda funções simples como checar e-mails e ler as notícias do dia por controle de voz. A novidade do modelo mais recente comprado por Theo é que o sistema tem uma personalidade própria, uma inteligência artificial que ganha o nome de Samantha (e a voz de Scarlett Johansson, na sua melhor atuação em anos – sim).

Humano e máquina engajam em um relacionamento, e Ela ganha pontos ao retratar um mundo em que nem todas as pessoas que cercam Theo acham isso estranho. Na verdade, o filme dá dicas de que o caso do personagem de Phoenix não é o único nesse universo criado nos mínimos detalhes por Jonze, num trabalho de roteiro excepcional. O script é sem dúvidas a obra-prima do responsável por Quero Ser John Malkovich e Onde Vivem os Monstros, combinando simplicidade e um meticuloso equilíbrio entre sarcasmo social e verdade emocional. Em última instância, Ela, assim como a sociedade que retrata, é incapaz de julgar o relacionamento entre Theo e Samantha, e talvez por isso desenhe nele um arco tão familiar para as histórias românticas. Não que o filme jogue com clichês, mas existe nessa ficção científica algo de muito realista, também, sobre o relacionamento humano.

A elaboração técnica é impecável. O design de produção (indicado ao Oscar) e a fotografia genial de Hoyte Van Hoytema (Deixe Ela Entrar) ajudam a construir um universo para Ela que é absurdamente amplo. Discretamente lírico e sensorial, sem exageros impressionistas, o filme consegue uma proeza que poucos feitos cinematográficos alcançam hoje em dia: tudo na direção só acrescenta camadas e temas a um filme que já é muito rico deles no papel. O trabalho de Hoytema nas câmeras dá à discussão de humanidade e sentimento uma profundidade muito maior, e ao mesmo tempo deixa a história respirar quando o filme precisa apenas observar Joaquin Phoenix e sua impressionante gama de emoções passear pela tela. Assim como o ator acrescenta delicadeza a um personagem difícil, e comanda o filme com autoridade, a fotografia e o universo ao redor dele ajudam a contornar e colorir essa performance de forma absolutamente deslumbrante.

Como toda grande ficção científica, toda grande história de amor, e toda grande obra-prima, este filme carrega consigo uma convicção muito grande, que é tratada em tela com tanta sutileza quanto assertividade. Para Jonze, talvez o grande ponto seja que a maior parte de nossa dimensão não é física, e sim emocional. Ela é uma celebração da humanidade como a espécie que está sempre em busca de quebrar uma barreira, superar algo, viver depois do sobreviver. Mas não se furta de mostrar que nem sempre poderemos fazer isso junto de quem amamos.

✮✮✮✮✮ (5/5)

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Ela (Her, EUA, 2013)
Direção e roteiro: Spike Jonze
Elenco: Joaquin Phoenix, Amy Adams, Rooney Mara, Scarlett Johansson, Chris Pratt
126 minutos

5 de jan. de 2014

Review: Amor e destino são inimigos no belo “Ain’t Them Bodies Saints”

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por Caio Coletti

Poucas histórias no cinema contemporâneo tem a coragem de serem trágicas da forma que é Ain’t Them Bodies Saints (no Brasil, História de Amor no Texas). Para um filme que tem sido na mesma medida amado e criticado graças a sua abordagem dispersa e propulsiva da narrativa, que deixa grandes espaços de reflexão e beleza estética entre os focos de ação, o segundo longa-metragem de David Lowery é uma história intensamente sufocante. O destino marcado e irrefutável dos amantes Ruth e Bob (Rooney Mara e Casey Affleck) chama a atenção para o mundo pequeno e mesquinho desses personagens, e o quanto seus sonhos são tão fúteis e irreais quanto qualquer um dos nossos.

O roteiro, também de Lowery, deixa muito para a imaginação do espectador. Não sabemos exatamente quais atividades criminosas levam Bob a ser preso logo no começo do filme, tomando toda a culpa para si a fim de que Ruth possa ter o bebê que está esperando fora da prisão. Quatro anos depois, Bob escapa, e é responsabilidade do policial Patrick (Ben Foster), atingido por um tiro na emboscada armada contra o casal, encontrá-lo. Ao mesmo tempo, Patrick se aproxima cada vez mais de Ruth e da agora crescida filha Sylvie (as gêmeas Kennadie e Jacklynn Smith), atualmente vivendo em uma casa bancada por Skerritt (Keth Carradine), espécie de chefão local do crime que, nos tempos áureos, liderou as atividades levadas a cabo por Ruth e Bob.

As duas referências essenciais para entender Ain’t Them Bodies Saints são as sagas criminosas do Oeste americano dirigidas por Robert Altman na década de 70 (boa parte delas estreladas por Carradine) e os filmes do bissexto e celebrado cineasta americano Terrence Malick. Esses pólos aparentemente opostos se encontram no trabalho de Lowery, comandando fotografia, design de produção, trilha-sonora e narrativa a fim de produzir uma versão idílica e sensorial de uma história aparentemente simples, mas com ramificações emocionais extremamente complexas. Bradford Young, um dos diretores de fotografia queridinhos do mundo indie, poetiza em imagens essa narrativa de caráter quase elegíaco, e Daniel Hart insere palmas e percussões na trilha para conferir ritmo a um filme que, sem esse trabalho, não teria nenhum.

O elenco é parte fundamental da tragédia conduzida por Lowery, e os três atores principais mostram-se a altura do desafio. O destaque óbvio é Ben Foster, um dos atores mais subestimados de Hollywood hoje em dia, que preenche seu Patrick com uma alma e uma motivação tão genuinamente boa e livre de julgamentos que é um choque com o mundo de confusão moral de Ain’t Them Bodies Saints. Não a toa, sua ligação com Ruth é um dos aspectos mais tocantes do filme. Por falar nela, Rooney Mara baseia toda a sua atuação em uma linguagem corporal rígida e muitas vezes fragilizada, uma constante oposição entre fraquezas e forças que a fazem um ser humano fascinante. E o irmão mais novo de Ben Affleck, Casey, é a escolha perfeita para o papel de Bob, com sua habilidade de ser inescrutável e ameaçador sem perder a essência do amor extremamente puro que guia o personagem.

Ain’t Them Bodies Saints é uma perfeita plataforma para Lowery, um diretor de curtas-metragens muito celebrado, como um dos artistas mais únicos da sua geração. Sua forma de enxergar a narrativa é bastante antitética ao que se dita hoje na cartilha do bom cinema americano, e mesmo assim, com as pequenas sutilezas que aparecem pelo caminho, ele monta, por pura força de acumulação, uma das histórias de amor e destino mais pungentes dos últimos tempos. Nos últimos segundos do filme, um de muitos momentos em que a edição e montagem (palmas para Craig McKay e Jane Rizzo pelo trabalho) contribuem para a história, é quase impossível não sentir a ferroada amarga de um futuro que simplesmente não podemos saber como será.

**** (4/5)

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História de Amor no Texas (Ain’t Them Bodies Saints, EUA, 2013)
Direção e roteiro: David Lowery
Elenco: Casey Affleck, Rooney Mara, Ben Foster, Keith Carradine
96 minutos