Review: Dirty Computer (álbum e filme)

Janelle Monáe cria a obra de arte do ano com um álbum visual espetacular - e que desafia descrições.

Os 15 melhores álbuns de 2017

Drake, Lorde e Goldfrapp são apenas três dos artistas que chegaram arrasando na nossa lista.

Review: Me Chame Pelo Seu Nome

Luca Guadagnino cria o filme mais sensual (e importante) do ano.

Review: Lady Bird: A Hora de Voar

Mais uma obra-prima da roteirista mais talentosa da nossa década.

Review: Liga da Justiça

É verdade: o novo filme da DC seria melhor se não tivesse uma Warner (e um Joss Whedon) no caminho.

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28 de set. de 2015

Deixem o Wagner “hablar”: As críticas brasileiras de “Narcos” e a cultura latino-americana

Narcos

por Fabio Christofoli

A série Narcos me surpreendeu desde antes de existir. Começou com a proposta. Ousada demais. Falar sobre o maior traficante da história sob o olhar de um detetive estadunidense. Ok, isso seria normal, se o projeto fosse tocado nos Estados Unidos. Não foi. Depois fiquei “surpreso” com a escalação de dois brasileiros: José Padilha e Wagner Moura. Um iria contar, outro iria protagonizar a ferida mais dolorida da Colômbia. Polêmico também. Nisso eu já estava ansioso. Vinha aí uma série bem produzida, com a América Latina tendo autonomia e com dois brasileiros talentosos na linha de frente. Vi os primeiros episódios e me animei ainda mais. Que série incrível! Aí veio a maior e mais decepcionante surpresa de todas: muitos brasileiros reclamaram.

Num primeiro momento não entendi. Reclamaram de que? Aí começaram a brotar motivos. O primeiro era o espanhol do Wagner Moura. Eu confesso que nem reparei. Talvez porque meu espanhol seja bem pior que o dele. É tão ruim que quando viajo para um país que fala espanhol, nem arrisco. Falo português devagar porque acho ridículo ficar tentando hablar (aliás, você já viu algum hispânico tentando falar português por acaso?). Enfim, até entendi a crítica, deve ser muito estranho mesmo para quem é nativo ouvir um estrangeiro. Mas, e já ouvi isso de muitos colombianos, a atuação foi tão boa que isso fica em segundo plano.

Em seguida a coisa piorou. Os brasileiros acharam mais motivos. Alguns acusaram o grande ator Wagner Moura de falhar na interpretação. Chamaram até de “Capitão Nascimento 2”. Aí eu comecei a ver exageros, pois achei a interpretação dele muito boa. Senti toda a imponência de Pablo Escobar como um criminoso e odiei ele por tudo que fez.

Depois disso veio o golpe final. Agora é moda falar que Narcos não se compara a uma outra série sobre Pablo Escobar, a produção colombiana Pablo Escobar – El Patron del Mal. Foi neste momento que parei e pensei: os caras tão de sacanagem.

Não estou dizendo que a série colombiana é ruim. Mas são propostas completamente diferentes. Narcos não é uma série sobre Pablo Escobar. Ela é a visão de um policial estadunidense sobre o período que viveu na Colômbia e perseguiu Escobar. Ele é o vilão, rouba a cena, mas a preocupação não é contar detalhe por detalhe da história dele, nem mesmo a história correta, e sim contar a história do policial com ele. Simples de entender, não? Além disso, com todo respeito: Narcos é uma produção 10x melhor que El Patron del Mal. Tanto no lado técnico (fotografia, edição, trilha sonora e etc) quanto em roteiro e atuações.

Essa onda cult de críticas a algo feito por brasileiros lá fora não é novidade. Lembram quando Ivete Sangalo fez um show no Madison Square Garden? Pipocou gente dizendo que “só tinha brasileiro na plateia”, como se isso diminuísse o feito. Outros exemplos não faltam. É moda falar mal do Romero Britto apenas por falar. No primeiro tombo, Anderson Silva virou um fracassado. Me digam qual brasileiro de sucesso lá fora tem prestígio por aqui? Ayrton Senna, porque infelizmente morreu jovem demais para pegarem implicância.

Brasileiro odeia o sucesso de outro brasileiro lá fora. É como se isso ferisse a nossa cultura, porque o Brasil vive uma histórica frustração com o mundo. Tenta ser aquele país amado por todos, mas não tem a capacidade de se amar. Nossa cultura, que décadas atrás era rica e própria, está cada vez mais sucumbindo à influência do exterior.

Li uma entrevista do Wagner Moura sobre Narcos, e ali vi a maior verdade de todas sobre a série. Ele sentia orgulho de fazer parte daquilo, de ver tantos artistas latino-americanos talentosos envolvidos no projeto. Artistas que ele mesmo reconheceu que desconhecia, pois nós, países latinos, somos desunidos demais para saber muita coisa um sobre o outro – e o Brasil consegue ser o mais alheio dos países. Ele viu ali, e com razão, um grande trabalho colaborativo. Envolvendo várias nações, inclusive os Estados Unidos, que historicamente gosta de contar as coisas do seu jeito. É uma grande oportunidade de promover a América Latina em escala mundial.

Por isso, acho saudável o espanhol com sotaque do Wagner. Poderia ser um ator colombiano? Poderia. Seria mais coerente e até correto. Mas será que teria esse caráter de união continental? Duvido muito. Então, deixem ele hablar um pouco mais, quem sabe assim a gente aprenda um pouco a se entender melhor.

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30 de mar. de 2015

Por que não devemos comprar a ideia do Tidal, o novo serviço de streaming do Jay-Z?

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por Caio Coletti

Esse primeiro parágrafo está aqui só para o caso de você, caro leitor, ter passado os últimos dias escondido embaixo de alguma pedra por aí: desde a noite de domingo, dia 29, só de fala no Tidal, plataforma de streaming adquirida pelo rapper e magnata da música Jay-Z para declarar uma guerra não-oficial ao Spotify e seus outros primos menos conhecidos. No mercado desde o início de 2014, foi o empurrãozinho do Sr. Carter que fez o Tidal adquirir a proporção global e chamar a atenção de qualquer fã de música que preza pelo que está ouvindo. A conversa parece toda muito bem-intencionada, afinal: dar aos artistas uma quantidade maior de lucro pelas execuções de faixas em serviços de streaming, criar uma comunidade de ouvintes fidelizados, dar mais controle aos artistas sobre como e quando lançam sua música. Alardeado pelos apoiadores como “uma revolução”, com uma campanha baseada em frases megalomaníacas como “juntos nós não podemos ser parados” e chamado por alguns de “o Robin Hood” da música contemporânea, o Tidal quer arquivar tudo isso através do que chama de uma artist-driven community (o que quer que isso signifique) e um preço de assinatura que é praticamente o triplo do que cobra hoje em dia o Spotify – a mensalidade do Tidal está saindo por US$20, ou em torno de RS$60.

Acontece que, de forma nem um pouco surpreendente, toda essa campanha de marketing maquia uma série de verdades que fazem o lançamento do Tidal uma das enganações mais ultrajantes do showbusiness nos últimos tempos. Tanto é assim que algumas vozes já se levantaram contra a disseminação da ideia, mais notadamente a cantora inglesa Lily Allen, que dissertou em seu perfil no Twitter sobre suas reservas quanto ao lançamento de Jay-Z e companhia. Adiantamos que a gente tentou simplificar a conversa, mas o assunto é complexo e acabou saindo um textão – esperamos que vocês dediquem um pouco de tempo e paciência para entender porque, para nós d’O Anagrama, essa história de Tidal é uma bela de uma roubada. Vem:

“Eu acho ótimo, eu amo. Eu acho brilhante, e vou te dizer o porquê… música deveria ser compartilhada. (…) Está tudo bem pra mim se uma pessoa compra meu disco e o copia, divide com os amigos. Eu não me importo. Não me importo como você me ouve, me importo que você me ouça”. A declaração acima veio da boca de Joss Stone, a inglesa de 27 anos que é uma das mais bem-sucedidas artistas soul da nossa época – mais de uma década de carreira, dona de sua própria gravadora e autora de quatro álbuns que entraram para o top 10 da Billboard 200. É fácil pensar que Joss é hipócrita ao dizer isso de uma posição privilegiada de quem tem um público cativo e uma determinada quantidade de fãs compradores de álbuns garantida, mas olhar para a carreira da moça é ver que existe uma forma de prosperar fora do sistema e da obsessão anti-pirataria das gravadoras. Há dinheiro a ser ganho fazendo música fora das vendas de álbuns, a cada ano mais frágeis (mas ainda relevantes).

O streaming, cada vez mais, é uma das formas dos artistas obterem lucro através de sua produção. Em uma elegante e esclarecedora carta aberta em resposta às acusações da cantora Taylor Swift de que o Spotify “não paga o bastante aos artistas”, o CEO da empresa, Daniel Ek, afirmou que o serviço já pagou cerca de US$2 bilhões de dólares à indústria musical (e esses são números de Novembro de 2014!). Completou afirmando que, apesar de apenas 25% dos 50 milhões de usuários do Spotify pagarem pelo serviço premium, cada execução na interface free do aplicativo/site também é convertida em pagamento para os artistas, graças ao suporte das propagandas obrigatórias que os usuários free são obrigados a ouvir entre as faixas. Segundo Ek, a receita obtida pelas execuções de uma artista com a popularidade de Swift deve girar em torno de US$6 milhões anuais – e a única coisa que o Spotify não pode controlar em relação a isso é o quanto desse dinheiro é repassado pelas gravadoras aos artistas envolvidos na produção.

(PS: Um dos já citados tweets disparados por Lily Allen no seu perfil, inclusive, sugeria que, ao invés de cobrar mais pelos serviços de streaming, os artistas exigissem de suas gravadoras uma porcentagem justa do lucro que já estão recebendo. A sugestão vai de encontro a uma série de outras intervenções operadas por profissionais do showbusiness, inclusive a greve dos roteiristas de Hollywood entre 2007 e 2008, que reclamou dos grandes estúdios a repassagem de uma maior fatia de lucros para os autores de filmes e séries sendo exibidos em canais da “nova mídia”)

É mito, portanto, que o Spotify pague pouco para os artistas pela reprodução de seu conteúdo. O mais importante nessa história toda, no entanto, é perceber que o Tidal jamais vai poder ser o “Robin Hood da música contemporânea”, e que a fundação do serviço não é, em absoluto, um ato de rebeldia contra a ingerência das gravadoras quanto ao lucro dos artistas. A evidência mais flagrante disso é que o próprio Jay-Z é dono de seu selo musical, a Roc Nation, e que todos os seus pupilos e associados que estão embarcando na onda do Tidal continuam inseridos no esquema da grande indústria musical. Cobrar mais pelo serviço de streaming nesse caso, portanto, não significa que uma parcela maior dos lucros vai para os artistas – significa que o lucro vai ser maior para eles simplesmente porque o dinheiro arrecadado também vai ser. E nessa brincadeira tanto eles quanto as gravadoras vão enriquecendo para além dos nossos sonhos mais extravagantes de meros consumidores de música.

Veja bem, eu não estou dizendo que esses artistas não mereçam que paguemos pelo trabalho criativo deles. Não estou dizendo que toda a distribuição de arte do mundo deveria ser feita de graça, e definitivamente não estou propondo um showbusiness comunista. Embora esse conceito seja muito bonito, é preciso reconhecer que o trabalho duro desenvolvido por esses indivíduos criativos precisa ser recompensado tanto quanto o de qualquer outra pessoa em qualquer outra área. O que eu estou dizendo, de fato, é que já estamos recompensando essas pessoas pelo que elas fazem – mesmo na atualidade, em que as vendas de discos caíram vertiginosamente em relação a poucos anos atrás, ainda é mais do que significativa a renda conseguida por essas pessoas com ingressos de shows, contratos de publicidade (que só lhes são oferecidos porque nós, consumidores, demonstramos nossa fidelidade aos artistas), streaming e cópias de álbuns adquiridas por fãs e curiosos. De fato, eles são recompensados pelo trabalho deles de forma muito mais abundante que a grande maioria de nós – e nós, como consumidores, temos o dever de fincar o pé no chão e dizer o quanto estamos dispostos a pagar pelo que eles nos oferecem.

Outro ponto muito interessante de se fazer sobre o Tidal, aliás, tem a ver com a quantidade de pessoas que está disposta a desembolsar R$60 mensais para ouvir música. A falácia toda em relação a maior qualidade do streaming vai atrair apenas uma parcela pequena do público, especialmente aquela que tem acesso a headphones de alta definição e especialistas do ramo musical. Uma enorme fatia do público médio, e até dos apreciadores mais atentos de música, está mais que satisfeita com o serviço que o Spotify oferece em termos de resolução de som. E se mesmo assim, mesmo com as mensalidades girando em torno de R$20 por mês, o serviço mais popular de streaming da atualidade conseguiu fidelizar “apenas” em torno de 15 milhões de usuários pagos, qual será o número de subscritos em uma rede que cobra o triplo desse valor?

Caso a adesão de artistas como Alicia Keys, Madonna, Taylor Swift (alguém está surpreso?), Beyoncé, Kanye West, Daft Punk, Rihanna, Coldplay, Usher, Nicki Minaj, Jack White, Calvin Harris e Arcade Fire signifique que todos esses artistas, donos de uma imensa fatia do público musical, estarão lançando seu conteúdo para streaming exclusivamente no Tidal, a coisa vai ficar feia. Pode ser que o Spotify perca muito público, com certeza, mas a imensa maioria dos órfãos de todos os serviços de streaming vai se aglomerar de volta nos sites de pirataria. E, a essa altura, nem é preciso esclarecer porque a indústria musical nunca vai conseguir aniquilar a pirataria, certo? Os sites de torrent tornam quase impossível de se rastrear a fonte primária de um vazamento, uma vez que a cada novo download o conteúdo se torna mais e mais compartilhado entre um número ilimitado de computadores ao redor do mundo. Sem contar que, a cada vez que alguma agência governamental bloqueou o domínio de algum site do gênero, eles encontraram novos lugares para se hospedar na imensidão da web.

Se as consequências desse processo todo não estão claras para você, caro leitor, a gente explica: enquanto redes como o Spotify garantiam que artistas novos e pequenos recebessem (ainda que não muito) pelo trabalho que fazem, principalmente através da aglomeração de um público considerável em torno do serviço, e serviam como uma poderosa ferramenta de conexão e facilitação da ascensão desses artistas, a pirataria obriga-os a disponibilizar seus conteúdos de graça até que tenham adquirido uma base de fãs maior (o que pode nunca acontecer). Em suma, o Spotify era uma alternativa justa e interessante à pirataria, porque fazia bem para a indústria e para os artistas sem fazer mal para o consumidor – era uma proposta conectada com um ambiente cultural em que pagar valores altos por música não é mais uma realidade, e em que vale muito mais conquistar um público pagante do que obrigá-lo a pagar.

O Tidal quer fazer justamente o contrário, tentando nos coagir a pagar muito mais do que pagamos atualmente por um conteúdo que poderíamos ter de graça, se bem quiséssemos. É uma estratégia de marketing empreendida por pessoas que  não precisam de mais dinheiro do que você, leitor, já dá para eles (mesmo que você não os dê nenhum!). É uma jogada muito esperta de uma gigantesca gravadora que quer disfarçar a obtenção de mais lucro como uma “revolução” na história da música – mas basta parar por alguns minutos para pensar melhor e fica bem claro que o Tidal não é o futuro do showbusiness. Pelo contrário, é o showbusiness dando dez passos para trás.

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18 de fev. de 2015

Por que estamos vendo filmes do jeito errado?

avengers-age-ultronSó no canal da Marvel, Os Vingadores 2 já tem cinco vídeos de preview

por Caio Coletti

Talvez seja a era em que nós vivemos, na qual previews de trailers são lançados online e pequenos gifs postados no Facebook e no Twitter antecipam até mesmo esses diminutos previews. Tomemos por exemplo o segundo filme da equipe de super-heróis Vingadores, da Marvel: o primeiro teaser da continuação foi lançado em outubro passado, e o filme só está marcado para estrear em abril desse ano; além disso, a produtora tem o costume de incluir durante os créditos de seus filmes pequenas cenas que dão um gostinho do que está por vir para os espectadores, então é possível considerar que Os Vingadores 2 está criando raízes nas mentes dos fãs do universo Marvel há um bom tempo (até o terceiro filme da equipe já tem elementos garantidos). Mas por que isso tudo nos faz ver filmes “do jeito errado”, como o título anuncia? Provavelmente porque, quanto mais criamos expectativas, mais uma versão “imaginária” e muito particular do resultado final se forma em nossa cabeça – e são maiores as chances de sairmos do cinema decepcionados por todas as piores razões.

O ponto maior, porém, é que isso não acontece só com continuações de franquias (nas quais, para o bem ou para o mal, o espectador já tem uma boa noção do estilo distintivo daquela série de filmes) e grandes blockbusters hollywoodianos, mas também com pequenas obras cujas pretensões são deturpadas ou pela campanha publicitária, ou pelo hype criado pela crítica e pelo público. Acontece que a culpa não é dos executivos do estúdio ou dos formadores de opinião sobre cinema, muito menos daquele cara que fez um post no Facebook dizendo que tal filme era tudo aquilo que você achou que ele falhava em ser; a culpa, na verdade, é todinha nossa.

RATATOUILLE PHOTO2O crítico com o qual você discorda

Garantidamente, e com muita frequência, filmes são interpretados como algo que não são, mas não dá pra posar de vítima nessa história. Aquele crítico cujo review você leu viu o filme de um jeito completamente diferente que você; aquele seu amigo do Twitter que foi surtar em várias mensagens de 140 caracteres, também; esse buzz todo que você está ouvindo sobre o último filme do diretor Fulano de Tal (e hype é uma coisa muito difícil de definir) é uma junção de opiniões e reflexões em cima de uma obra cuja percepção é fundamentalmente subjetiva; e sabe os executivos de estúdio, aqueles que engenham trailers, propagandas e escolhem os quotes de críticos para colocarem no cartaz? Eles vão pintar, infalivelmente, o filme mais vendável e universalmente apelativo que eles conseguirem dentro dos limites do que a obra em si os fornece.

É (ou deveria ser) dever do espectador, que não quer desrespeitar o filme que assiste, entrar na sala de cinema com só uma convicção e só uma intenção: se deixar levar por aquilo que o filme quer lhe mostrar. Mesmo que nem toda peça de cinema, especialmente o comercial, seja uma grande obra de arte, todas elas merecem essa prerrogativa porque são a expressão de uma visão sobre uma história. Todo roteiro, e cada escolha de direção, fotografia, trilha-sonora, cenografia e atuação são dotados de uma intenção em comum, e convergem para entregar ao espectador a mensagem, a sensação, a filosofia daquela trama. Um filme é o resultado do trabalho de centenas de pessoas a fim de dar vida a uma determinada narrativa, com um determinado conjunto de valores e manifestos. Quão justo é julgarmos um trabalho assim pelo que esperávamos que ele fosse, e não pelo que é? Com que direito desbancamos a visão de um artista para impor-lhe suposta má qualidade, só porque achamos que outro tipo de história deveria ter sido contada?

Claro que existem filmes que são mal-executados até naquilo que propõem. Claro que existem filmes que não resistem, por exemplo, a uma análise sobre suas atitudes em relação às personagens femininas, às políticas raciais, a todos os outros temas espinhosos com os quais, às vezes, os cineastas resolvem mexer – mas esse é exatamente o meu ponto. Quando realmente abordam esses assuntos, é justo julgar um filme pelo quão eficiente ele é em abordá-los. Dizer que a terceira temporada de American Horror Story errou ao não desenvolver as personagens negras (ou a maioria delas) antes de nos bombardear com sua chocante cena de chacina é válido, porque Coven claramente pretendia encarar a questão racial; dizer que Boyhood é racista por não incluir personagens latinos mesmo que se passe em um estado com muitos habitantes dessa etnia é ridículo, porque a história que o filme pretende contar não abarca questões étnicas e se concentra na vida íntima de uma família branca (discutir o porquê do arquétipo americano ser uma família branca de classe média é outra história, e muito maior que o filme do Linklater).

B7ZXYhWCEAEeoP-Um quiz rápido: você acha que essa família vive em um círculo social acessível para a maioria dos latinos trabalhadores dos EUA?

Entretanto, a coisa vai mais fundo, e ao mesmo tempo é mais trivial, do que isso. Até filmes que não ganham a temida acusação de “preconceituoso com minorias” são julgados de maneira cruel por qualquer espectador que entra em sua sessão com uma ideia pré-definida do que ele deveria ser. Nós sabemos que você queria que Malévola fosse um filme protagonizado pela vilã impiedosa da Disney, e não uma subversão dos próprios valores maniqueístas de A Bela Adormecida e uma história de amor fraternal desenvolvido através de anos de convivência e cuidado, mas quão bom o filme é em ser o que quis ser? Quão bem os recursos visuais casam com essa visão, as atuações dão vida ao texto como ele foi escrito e o quanto ele funciona em nos mostrar que bem e mal são relativos àquilo que escolhemos fazer com o que acontece a nós? Quão bom o filme é em contar a história que conta, do ponto de vista de quem conta? É justo julgá-lo por não atender a seus caprichos?

Não faz tanto tempo que eu descobri que ir ao cinema é uma experiência muito mais prazerosa se eu não acumular esses tais caprichos. Há um mundo saboroso de sensações e realizações artísticas para se observar quando estou livre dos desejos mesquinhos de consumidor e me deixo levar pela despretensiosa experiência de receber a mensagem – de ser, verdadeiramente, espectador. É uma visão terrivelmente limitada, e extremamente egoísta, a de quem considera qualquer expressão artística uma corrida para satisfazer suas vontades. Não só elas nunca vão ser atendidas por completo, como ele (nosso hipotético sujeito espectador) nunca vai se encontrar de verdade na experiência de ver um filme, sentí-lo como obra sensível que é, para só depois pensá-lo. Como qualquer experiência humana, a da narrativa é muito mais completa se você se entrega a ela.

MALEFICENTAbra sua mente: as vilãs também amam!

4 de fev. de 2015

Sobre pais e filhos

chris_mccandless_1O verdadeiro Christopher McCandless

por Fabio Christofoli

“Fabio, vi um filme que o protagonista era muito parecido contigo, assim, nas ideias, sabe?”

Minha amiga estava falando sobre Na Natureza Selvagem, um filme que aos poucos ganhava forma como um sucesso cult. Eu já tinha visto um ou outro cartaz de um rapaz sentando sobre um ônibus abandonado, mas até esse comentário ele não estava na minha lista de prioridades – não que eu tenha uma lista de verdade.

Na primeira vez que assisti, me emocionei bastante (leia-se chorei). Por que de fato, as ideias de Christopher McCandless eram muito parecidas com as que eu tinha naquela idade (uns 23 anos?). Logo se tornou meu filme favorito, e até perdi as contas de quantas vezes eu já vi.

Assim como Christopher, eu tinha diversas opiniões formuladas sobre a sociedade, e me se sentia tão incompreendido a ponto de concluir que o único meio de limpeza espiritual era sumir na natureza. Não demorou muito para eu descobrir que mais pessoas se identificavam com esse pensamento e que McCandless era um mito moderno.

Mas em algum momento eu comecei a questionar isso. Não lembro quando, não lembro o motivo. Só me lembro de ter a sensação de que algo me incomodava. Quando finalmente li o livro que deu origem ao filme (o que pra mim é complicado, pois não acho um processo “natural”), eu concluí algo que me surpreendeu: Christopher era um idiota.

Calma! Não me apedreje! Não pensem que foi fácil escrever isso.

Na Natureza Selvagem segue sendo meu filme favorito e ainda admiro Christopher, mas agora o admiro por uma razão bem diferente da que eu admirei no começo. Entendi, e talvez eu esteja errado, que o maior feito dele não foi enfrentar dois anos de vida nômade e ter chegado ao Alasca. Sua maior conquista foi a sua humildade ao admitir que errou, e isso fica bem claro na frase simbólica de sua jornada “a felicidade só é real quando compartilhada”. E isso só foi dito no momento de desespero. Antes disso, ele foi um jovem guiado por um desejo cego de estar certo. Que caía num erro de jovens inteligentes, que adoram falar muito e ouvir pouco.

Claro que havia críticas contundentes, e a paixão e a poesia do discurso de Christopher são inspiradoras e devem ser ouvidas, mas com serenidade, pois ele estava bem longe de representar uma verdade. De forma geral, posso dizer que fugir dos seus pais e “abandonar” sua irmã foi um comportamento egoísta, que no final não era tão diferente daquele que ele tanto julgava.

Bom, mesmo chegado a essa conclusão, ainda faltava algo. E creio que a resposta estava em outra história, que acaba de ganhar um filme: Livre.

É impossível não traçar um paralelo entre os dois. Num primeiro momento resposta mais lógica é: olha, a versão feminina de Na Natureza Selvagem! E é compreensível, já que os dois filmes possuem elementos bem parecidos, principalmente o contato do ser humano com a natureza e a busca de uma resposta dentro dela. Mas essas duas histórias realmente falam sobre isso?

Bom, fazendo uma breve sinopse, podemos até crer que sim. Livre é baseado no livro Livre - A Jornada de Uma Mulher Em Busca do Recomeço, que conta a história de Cheryl Strayed, uma mulher atormentada por uma perda e erros do passado que resolveu encarar uma trilha de 4.200 Km, que inclui toda a costa oeste dos Estados Unidos, da fronteira com o México até o Canadá, conhecida como "Pacific Crest Trail" – e sem experiência alguma no esporte, algo que fica bem claro, logo que ela tenta colocar a mochila nas costas.

O curioso é que ao mesmo tempo que as duas histórias se parecem, elas não têm nada a ver. E ao mesmo tempo que não tem nada a ver, essa diferença é crucial para entender tanto uma quanto o outra. Complicado? Nem tanto.

Então já aviso uma coisa, não assista Livre pensando em ver um novo Na Natureza Selvagem. É um filme com outra proposta, com um ritmo mais lento, que aposta muito em pequenos detalhes. Não espere grandes momentos de aventura embalados por Eddie Vedder (apesar de considerar a trilha sonora de Livre MUITO boa também). O propósito principal não é esse.

Aliás, Livre deixa bem claro que sua proposta é falar sobre relacionamentos. A natureza está lá, bem representada com belos cenários e sendo importante para o contexto, mas a parte mais significativa da história se concentra no passado. Foi aí que percebi que Na Natureza Selvagem também tinha como base a relação entre pais e filhos – apesar de não deixar isso tão claro.

De certa forma, podemos dizer que Cheryl foi mais forte que Christopher. Se ele passou dois anos na natureza culpando seus pais e fugindo de um diálogo, ela foi para natureza buscar perdão próprio por diversos erros que cometeu na vida, principalmente após a morte da sua mãe, a quem tenta entender a todo o momento.

Diante disso, creio que a maior lição das duas histórias diz respeitos a filhos que não entendem seus pais. Muitas vezes exigimos muito dos nossos pais. Para muitos de nós, filhos, é inadmissível que os pais errem. E pais erram demais, pois são seres humanos com inseguranças e problemas próprios. Também sonham, também se frustram. É muito triste perceber que Cheryl e Christopher entenderam isso diante da morte, mas porque não usar a história deles para chegar às mesmas conclusões sem uma situação tão drástica?

Infelizmente, dificilmente Cheryl vai se tornar um mito como Christopher. Já vejo na internet pipocarem comentários raivosos dizendo que Livre não passa de uma “cópia mal feita” de Na Natureza Selvagem, muitas vezes feitos por pessoas que nem viram o filme ou que viram com uma expectativa errada. É uma pena, pois de certa forma essas pessoas deixaram de absorver as lições que essas duas grandes histórias e essas duas grandes pessoas deixaram para nós.

strayed1jpg-06ea303246651338A verdadeira Cheryl Strayed

13 de ago. de 2014

Por que a ditadura anti-spoilers não faz sentido nenhum?

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ATENÇÃO: O texto a seguir contem spoilers!
(obviamente)

por Caio Coletti

Nos primeiros minutos de Lisbela e o Prisioneiro, produção nacional de 2003, a personagem-título interpretada por Débora Fallabella está indo ao cinema com um rapaz (Bruno Garcia) e, antes mesmo do filme começar, conta a ele exatamente o que vai acontecer. Lisbela nunca viu o filme, mas garante ao seu companheiro de sessão que é sempre do mesmo jeito. Então, qual é a graça? “A graça não é saber o que acontece, é saber como acontece e quando acontece”, decreta a personagem, com o adorável sotaque nordestino que a atriz lhe emprestou. Esse é um daqueles momentos deliciosos em que um filme mostra a que veio já de primeira, e Lisbela e o Prisioneiro veio para (re)acender em seu espectador o prazer de uma boa história. E uma boa história nunca – nunca – é definida por seu final.

Corta para os últimos anos, com as febres culturais de Game of Thrones e Breaking Bad trazendo ainda mais gente para esse buraco negro de opções que é o mundo das séries de TV. As tramas da HBO e da AMC mobilizaram um contingente de fãs que talvez não seja inédito para a história da mídia (vide Friends, The X-Files, Lost), mas foi sem dúvida potencializado pelo poder que a mídia social exerce sobre a cultura contemporânea. Perto do final da série estrelada por Walter White, tudo o que se lia no Twitter e no Facebook eram reclamações sobre spoilers postados por aqueles que tinham arranjado um tempo para assistir o finale, “estragando” a experiência para os menos afortunados (e mais ocupados). No ano passado, semana após semana, a situação se repetiu com os episódios dominicais das desventuras de Daenerys, Tyrion e cia. Cada informaçãozinha postada, cada capa de Facebook mudada para homenagear alguma cena da semana – tudo era tratado como um crime capital.

Pois estou aqui para concordar com Lisbela, e discordar de (quase) todos vocês. Desculpem-me a descortesia. O dia em que ler um livro, ver um filme, acompanhar uma série ou qualquer outra coisa que eu possa fazer que me coloque em contato com uma narrativa, for feito com o único propósito de conhecer o final, será o dia em que vou procurar algo diferente para fazer. Por que se todas aquelas horas perdidas com os olhos na tela (ou no papel) são só uma inconveniência, um meio para chegar em um final, não importa quão prazeroso tudo aquilo seja – se a estrada de tijolos amarelos para encontrar O Mágico de Oz for só um caminho –, então realmente vale a pena?

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O que me faz me agarrar em uma história minuto após minuto, página após página, episódio após episódio, não é a perspectiva de chegar a algum lugar, mas a de acompanhar aqueles personagens até eles chegarem lá. Nenhum final na ficção é verdadeiramente um final, ou é? Animais cruéis como são, os escritores resolvem nos fazer entrar nesses mundos num ponto arbitrário, observá-los por um tempo limitado, e deixá-los quando ainda haveria muito o que se viver neles. Dependendo do código de crenças que rege a história, talvez nem a morte dê a algum personagem um final absoluto. A quantidade de coisas que ficamos sabendo ao acompanhar uma narrativa é insignificante diante da imensidão de coisas que nunca saberemos.

Como todos os prazeres da vida, o da ficção pode ser um prazer brutal. Pode provocar tristeza, amargura e raiva; pode nos deixar em pedaços, quase sem reação. Pior que isso, pode nos fazer gostar, aplaudir e nos apegar a todas essas emoções negativas. Em poucos relacionamentos amor e ódio são tão íntimos quanto no do ser humano com sua ficção. Talvez seja por isso que as pessoas atualmente se sintam tão violadas quando alguém lhes conta algo importante sobre sua série favorita antes que eles mesmos possam ver. É compreensível se sentir roubado do prazer de assistir, mas é também uma ilusão. O prazer continua ali, porque ele nunca esteve na surpresa.

O prazer da narrativa está na agridoce sensação de habitar e, ao mesmo tempo, não habitar aquele mundo. Conhecer e, ao mesmo tempo, não conhecer aqueles personagens. E observar de longe e, ao mesmo tempo, tão de perto, como eles podem chegar tão longe.

PS: Outra coisa que eu estive pensando quando escrevi esse texto: se tudo o que você quer é saber o final, pra quê se importar em viver? Todos nós sabemos como vai acabar mesmo…
PS2: Valar Morghulis

La muerte de Ned StarkSpoiler só da primeira temporada para ninguém ficar bravinho

6 de ago. de 2014

Quando nossa opinião não vale nada

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por Fabio Christofoli

Até pouco tempo atrás, emitir uma opinião era luxo para poucos. O século anterior foi conturbado, cheio de guerras, ditadores, paranoias nucleares e outros tipos de opressão. Ironicamente, esses eventos possibilitaram o desenvolvimento acelerado de potentes tecnologias comunicacionais. Praticamente todo meio de comunicação em massa surgiu ou se desenvolveu para a guerra ou espionagem.

Naturalmente, o interesse da população por comunicação também se desenvolveu. E de uma forma espantosamente rápida nossa cultura mudou radicalmente. Ou melhor. ESTÁ mudando. De uns anos pra cá, não nos contentamos em sermos passivos na comunicação. Primeiro ouvíamos rádio e televisão. Depois vivemos o início da internet com sites e blogs ainda precários, mas que permitiam que falássemos. Hoje temos um público potencialmente gigantesco nas redes sociais.

Aí começou a bagunça.

De uma hora pra outra as pessoas perceberam que eram vistas. Um like aqui, um comentário ali. Despretensiosamente pessoas desconhecidas ganhavam fama com virais. Reações que dão a sensação de que o que falamos ou produzimos é importante. Mesmo que sejamos xingados, não importa. Se alguém viu, é porque foi relevante. Aí você soma essa situação com outra realidade: somos cada vez mais carentes. Ou éramos antes também, mas não sabíamos ou tínhamos menos formas de chamar atenção. E se somos mais carentes é porque estamos mais confusos sobre o que queremos, afinal, quantas opções, caramba!

E nessa onda por atenção, surge um fenômeno muito chato: a mania de opinar sobre tudo.

Aí você pausa a leitura e pensa: “seu bosta, esse seu texto é sobre opinião, logo é uma opinião”. Sim, verdade, mas em hipótese alguma sou contra o direito de opinar. Sou apenas contra a mania de ter uma opinião sobre qualquer coisa.

Há dois pontos importantes para que eu fale isso.

  1. É difícil pra caralho você ter a capacidade de opinar sobre qualquer coisa. Antes de tudo, ter opinião é uma grande responsabilidade. Você não precisa estar certo, mas você é obrigado a saber sobre o que está falando – e saber não envolve saber tudo e sim ter uma boa base.
  2. Ao dar uma opinião você tem que estar preparado para receber outras e, talvez, mudar a sua. Convicção é diferente de teimosia. E muita gente que opina por aí se fecha pra qualquer argumento. Volta e meia leio “o Facebook é meu e eu falo o que eu quiser”. Cara, se você não quer que alguém rebata, guarda pra ti. Sério.

E eu falo isso com propriedade, porque logo que eu entrei nas redes sociais abertas (Twitter e Facebook), eu sentia a necessidade de falar sobre tudo. Sim, eu era esse babaca. Até que um dia eu parei pra ver que muitas vezes eu não tinha certeza do que eu estava falando e que estava falando besteira. Que muitas das minhas opiniões eram baseadas em impressões que eu tinha, não em coisas que eu sabia. Hoje, depois de pegar muito mico, procuro só falar do que eu consigo entender. Senão eu só leio ou escuto.

000_nic6358320Palestinos voltam para casa ontem (05) após início da trégua humanitária de 72 horas entre Israel e Palestina

Por exemplo, eu não sei muita coisa sobre o conflito da Faixa de Gaza. É complicado para mim opinar sobre o fato, mas gosto de ler e escutar quem sabe. Mas faça um teste. Abra qualquer notícia de lá que tenha espaço para opinião. Logo você encontra um monte de gente opinando de forma bem superficial e aleatória.

Essas opiniões são baseadas no quê? Em um infográfico feito às pressas? Em uma ou outra reportagem? Em um livro resumido do colégio? A pessoa pra falar sobre Gaza, das duas uma: tem que ter lido muito sobre o fato (estudado mesmo) ou tem que ter vivido aquela realidade. Claro que você pode ter uma impressão sobre o que acontece, e baseado no que conhece pode emitir alguma ideia.

No meu caso, a única opinião formada que tenho é que sou contra qualquer conflito armado, principalmente aquele que envolve morte de inocentes (algum não envolve?). Porém, estou distante de entender esse conflito e de falar alguma coisa sobre A ou B.

Seria perigoso eu falar sobre o Hamas ou Israel, pois eu falaria sobre algo que não sei. É perigoso falar por falar, pois ao fazermos isso apenas propagamos a ignorância, não acrescentando NADA ao que é discutido. Por incrível que pareça, nossa opinião nem sempre é necessária.

Claro que opinar é um direito de todos, não quero de forma alguma dizer que as pessoas devem se calar. Só que foi tão difícil ganhar esse direito (e nem todos no mundo o tem) que me indigna ver como estamos usando de forma errada (me incluo nessa muitas vezes). Mais uma vez sublinho que é preciso ter consciência do que se diz. Afinal, usar palavras vazias não é mesma coisa que dizer nada? Em minha opinião, sim.

000_nic6358380Soldado israelense posa para foto na fronteira com Gaza

6 de jun. de 2014

“Sorry”

London_Underground_Tube_Stock_1992Estação de metrô em Londres

por Fabio Christofoli

Lá estava eu. Quieto, ouvindo música. Um garoto entra no vagão. Me chama atenção por estar com aqueles típicos uniformes escolares da Inglaterra, com blazer e gravata. E sapatos. Impecáveis. Ele senta, e abre um livro. E não pensem que era um best seller ou um livro juvenil, era um livro velho. Parecia um romance antigo. Não sei porque me impressionei com isso. E me impressionei ainda mais com a atenção que ele lia aquilo. Calculei que ele deveria ter uns onze anos. Treze, talvez. Vai saber.

Em seguida, um casal de velhinhos entra no trem. Para na frente do garoto. A mulher consegue sentar ao lado dele. O homem não. Não tinha mais lugar ali. Só em outro banco. Imediatamente o garoto fecha o livro e cede o lugar para o homem sentar ao lado da companheira. Se dirige ao banco vazio e retoma a leitura.

Fiquei impressionado com a cena. Com a naturalidade que ela aconteceu e com tantos fatores positivos intrínsecos nela.

Assim como fiquei impressionado com o fato de os ingleses pedirem desculpa cada vez que sem querer (ou quase sempre sem querer) encostam em você. É “sorry” pra tudo! Às vezes até exagerado e meio automático, mas existe a preocupação em pelo menos dar uma satisfação ao próximo. Se alguém está com dificuldade para carregar uma sacola, sempre aparece um outro pra ajudar. Sempre! E olham feio se você está do lado e não ajuda.

E foi assim, com pequenos gestos cotidianos que os ingleses me fizeram pensar no Brasil e em como estamos distantes de um país melhor.

protestos-no-brasil-em-junho-de-2013-5Manifestante usando a máscara-símbolo do grupo Anonymous levanta cartaz, em Junho/2013, em São Paulo

Vejo uma grande distância entre o que almejamos e o que fazemos pra alcançar. Queremos políticos melhores e soluções imediatas, mas somos incapazes de sermos melhores. Nossas crianças (e adultos) leem pouco. Nossos idosos ficam em pé nos precários ônibus que temos. Até ajudamos o próximo, mas na maioria das vezes precisamos que alguém peça. Somos mais calorosos, é verdade. Mas esse calor acaba camuflando na malandragem. Maldita malandragem!

Nós brasileiros exigimos muito do Brasil, mas invariavelmente esquecemos que o Brasil é feito por nós.

Ano passado teve protestos. Quantas mudanças positivas aconteceram? Imediatamente após essa frase, o reflexo é pensar no que foi feito pelo poder público, certo? Mas e o que foi feito por nós? Onde melhoramos como cidadãos? Tivemos um ano pra isso e vejo que não mudamos em nada. Pior, vejo que ficamos piores. Com mais exigências e com menos ações.

Eu penso nisso invariavelmente e infelizmente minhas respostas atualmente estão longe de algo promissor. Não que eu esteja apto para fazer uma análise profunda do que somos, mas eu me sinto apto para entender que não somos o que queremos ser.

O Brasil não vai virar Inglaterra da noite para o dia. Mas podemos começar a ser primeiro mundo na forma como pensamos e agimos no nosso dia a dia. No que somos internamente e no que passamos para os outros. E o que passamos adiante é exatamente aquilo que recebemos depois.

brasil-junho-2013-00-594x396Manifestante levanta bandeira do Brasil em protesto em Junho/2013

1 de mai. de 2014

O problema não é a banana

3200165638-camiseta-somos-todos-macacosArte da camiseta da campanha “#somostodosmacacos”, vendida na página de Luciano Huck no Facebook

por Fabio Christofoli

Aconteceu quando eu tinha 18 anos. Meu amigo e eu atravessávamos a rua, quando uma viatura passou por nós. Olhamos para os dois lados enquanto atravessávamos e isso fez com que olhássemos para a viatura. Ela parou. Deu uma ré violenta e estacionou diante de nós. Os policiais saíram correndo e gritando com a gente. Perguntando porque olhamos para eles. Tentamos responder. Levamos um tapa. Eu suava frio. Estava sem minha identidade. Meu amigo sugeriu que as mostrássemos. Por sorte um dos policiais viu aquilo como uma “ordem” e mandou ele calar a boca. Em poucos minutos nos liberaram. Mesmo assim aquela cena está bem representada na minha cabeça, pois foi humilhante demais ser tratado como bandido apenas por olhar para os dois lados para atravessar.

Algum motivo para isso? Ah, esqueci de mencionar. Meu amigo é negro.

Aí vem a grande questão desse texto. Existe racismo nessa história? De alguma maneira sim. Talvez por parte dos policiais. Talvez até por minha parte, por ter citado isso. Talvez tenha vindo de você, logo que revelei a cor do meu amigo. O fato é que em algum lugar nessa história o racismo estava lá, escondido e existindo.

Vejam bem, racismo não é só o ato explícito. Racismo é cultura. Você pode nunca ter ofendido um negro na vida, nem pensar em ofender. Pode inclusive ser totalmente contra atos racistas. Mas não vai ser completamente livre dele se no momento que alguém falar que houve um roubo a sua mente desenhar automaticamente o suspeito como negro ou você ficar surpreso se o assaltante for loiro. Mesmo que isso seja sem querer.

Eu costumo acreditar que o preconceito só acaba quando há naturalidade. Quando a questão é completamente apagada da nossa mente, não dando espaço para pensamentos compostos de “poréns”. Sabe aquelas frases chatas tipo “Eu não tenho nada contra gays, mas...” ou “Mesmo sendo negro ele conseguiu”? Isso é tão preconceituoso quanto a banana atirada contra o jogador Daniel Alves.

São preconceitos diferentes em intensidade, mas falam sobre a mesma coisa. Vão para o mesmo lugar. Afetam as mesmas pessoas.

somos-todos-macacos-66441Da esquerda para a direita, de cima para baixo: Claudia Leitte, Neymar, Gaby Amarantos, Ivete Sangalo, Luciano Huck, Angélica e Michel Teló aderiram à campanha

Lembro quando o Obama foi eleito. Ele sempre ressaltou que não gostaria de ser reconhecido como o primeiro presidente negro e sim como um grande presidente. A questão da cor deveria ficar em segundo plano, pra ele, por mais que ele soubesse que para chegar ali, ele teve que ser duas vezes melhor que seus concorrentes brancos. Mas ele não queria que essa questão ganhasse destaque. Ele queria que fosse algo natural. Que outros negros conquistassem espaço sem precisar explicar como conseguiram.

A resposta do Daniel Alves à banana arremessada sugeriu isso. Ele simplesmente passou por cima do racismo, provavelmente deixando o seu agressor confuso, afinal, a ofensa não deu certo.

O problema foi o que veio depois.

Uma campanha publicitária infeliz, globais posando com bananas alegando apoio, mas alguns visivelmente tentando se promover, camisetas vendidas... O que veio depois tirou toda naturalidade do ato, deixando o debate criado em torno do episódio completamente superficial. Pra variar, a mídia nos bombardeou com reportagens sobre tudo que envolveu a história, saturando em poucas horas o que poderia ser um passo a frente da humanidade. Por que sim, tinha tudo pra ser algo histórico. Algo tão marcante quando o gesto de Jesse Owens para Hitler.

Infelizmente coisas absurdas precisam acontecer com gente famosa para ganharem atenção. Todos os dias jovens negros são humilhados por aí. Com coisas bem piores que uma banana. A vista grossa é impressionante. Tudo poderia mudar se o gesto do Daniel Alves repercutisse isoladamente. Ao invés disso cá estamos nós, falando das camisetas vendidas pelo Luciano Huck.

O que me leva a crer que a banana é o de menos. O pior problema está na forma como lidamos com isso tudo.

1902978_10151791866027255_1856135297949364093_nXuxa também posou para foto apoiando a campanha

21 de jan. de 2014

A arte de retocar imagens: a tão falada capa de Lena Dunham para a Vogue

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por Isabela Bez

A Vogue norte-americana é bem democrática. Enquanto grande parte das revistas de moda limita suas capas a supermodelos, Anna Wintour abre o espaço para mulheres reais também. Em 1998, Hillary Clinton já era a capa de dezembro, e nos últimos anos mulheres como Adele, Oprah e Kate Upton, que apesar de ser modelo é considerada um manequim comum, também entraram nesse time.

Agora é a vez de Lena Dunham. Estrela e criadora da série Girls, a americana que ficou mundialmente conhecida por sua personalidade descuidada e seu corpo cheinho ganhou a capa da Vogue de fevereiro depois de muitas especulações, mas não pense que o mundo da moda é tão acolhedor assim. Quando até mulheres que têm corpos considerados perfeitos viram vítimas do Photoshop, é um tanto óbvio que uma mulher fora desse padrão não tenha escapatória.

Com isso em mente, o site Jezebel ofereceu 10 mil dólares pelas fotos não retocadas de Lena. Segundo eles, após a Vogue usar Photoshop até em Gwyneth Paltrow, Kate Moss e Doutzen Kroes, a revista norte-americana não falharia em retocar o que não precisa ser retocado, mesmo quando se trata de uma mulher como Lena, que já deixou claro que se sente muito bem sobre seu corpo e não se importa em mostrá-lo ao mundo, obrigada (qualquer fã de Girls sabe muito bem disso).

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Duas horas depois, várias pessoas já haviam oferecido as fotos ao site e logo elas foram publicadas, mantendo sua origem em anonimato. Para choque de muitos, Annie Leibovitz, que fotografou o editorial inteiro, não abusou tanto do Photoshop assim. Ela escondeu as olheiras, afinou o queixo e o pescoço e até diminuiu o decote, mas não houve tentativas de deixar Lena Dunham mais apropriada para a Vogue, ou seja, mais magra. Ok, só um pouco mais alta.

Mas vamos ser honestos: quem é que gostaria de ser exposta com suas falhas e imperfeições ao mundo todo? Bom, há quem queira sim. Mulheres que foram fotografadas para Aerie, a linha de lingerie da American Eagle, concordaram em sair em suas campanhas sem retoque nenhum. Tudo era permitido, desde tatuagens e marcas de nascença até olheiras e celulite (não que elas tenham muita celulite).

A proposta da marca é de acabar com o Photoshop, já que a mulher real é bem mais sexy. “Elas ainda são modelos, elas ainda são lindas, mas se parecem um pouco mais com o resto de nós”, a especialista da marca Jenny Altman contou ao Good Morning America. “Nós queremos quebrar o molde. Queremos que as mulheres do mundo todo comecem a aceitar sua beleza natural”.

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25 de set. de 2013

O aguardado “secret project” da Madonna chegou, e ela quer começar uma revolução

redimensiona

Meses de suspense e 17 minutos de vídeo em parceria com o fotógrafo Steven Klein: esse é o promissor começo do #secretprojectrevolution (assim mesmo!) de Madonna, muito provavelment o projeto mais ambicioso da carreira da cantora. Com uma linda encenação em preto e branco, o vídeo ilustra e vende a ideia de uma “revolução do amor”, indo em confronto a cultura cada vez mais conflituosa e menos pacífica do nosso tempo.

O voice-over da cantora por cima das imagens marcantes professa que através da criatividade de milhares de pessoas (essa é a parte mais bacana da ideia) é possível mudar a percepção de mundo do planeta todo – ou pelo menos de boa parte dele. O vídeo é a porta de entrada do projeto, e cumpre bem o papel de nos incitar a visitar o ArtForFreedom.com, site em que é possível contribuir com o projeto através de seu próprio trabalho artístico.

Essa noção de interatividade e colaboração é contemporânea e é também a base de todos os movimentos que vem surgindo nos últimos tempos para denotar uma nova forma de revolução se estruturando na mentalidade do século XXI. É muito inteligente da parte de Madonna se colocar como o rosto de uma dessas movimentações sem fazer com que tudo gire em torno dela.

O #secretprojectrevolution, no final das contas, é construído para ser sobre quem colaborar com ele, e essa é a gente jogada da Rainha do Pop, finalmente descobrindo que na época da internet, para ser relevante é preciso aceitar que se é só mais um.


Caio

23 de ago. de 2013

Sobre atores britânicos, maçãs do rosto e Doctor Who

Capa

Um título um tanto quanto curioso esse, não? Mas como diria a saudosa Alice, aquela mesma de Wonderland, as coisas estão prestes a ficar “curiouser and curiouser”. Um dos fatos mais aceitos na vida cotidiana hoje em dia é que o Reino Unido tem cerca de… 42 atores no total (pun intended) e que todos eles, de um jeito ou de outro, já passaram ou vão passar pela aclamada e antiga série de sci-fi Doctor Who. Seja no período clássico, no moderno, como diretores, roteiristas, atores ou estátuas ao fundo, esses 42 brilhantes cidadãos vão dar as caras na maravilhosa TARDIS, máquina do tempo (que simplista!) do Doctor.

Mas isso é um fato já comentando e conhecido pelas conspirações on-line há algum tempo, é claro. O que poucas pessoas já comentaram, no entanto, – e quando eu digo poucas eu quero dizer o Tumblr – é que desses 42 atores, uma média de… bem, quarenta e dois têm maçãs do rosto ridiculamente altas e pronunciadas. “Mas espera”, vocês pensam, “que post mais inútil esse!”; mas o que seria da vida sem uma boa dose de humor e conspiração envolvendo anatomia, comportamento social e uma boa dose de wibbly-wobbly timey-wimey stuff? Certo? Ora, os gregos deram início à apreciação do que é belo, podemos muito bem continuá-la! Portanto, aos fatos!

david-tennant-4188024David Tennant em Doctor Who

Quem aqui já ouviu falar em David Tennant e Matt Smith? Pessoas mais envolvidas em Doctor Who ou mais britânicas que esses dois, impossível. Tennant interpretou o 10º Doctor, enquanto Smith e suas bow ties deram vida ao 11º; o primeiro é natural de Bathgate, o segundo de Northampton.

who37Matt Smith, TARDIS e maçãs do rosto everywhere

Continuando a nossa lista, temos agora os dois queridinhos de Merlin, série também da BBC que em suas cinco temporadas, nos presenteou com as gloriosas maçãs do rosto de seus dois protagonistas. O moço Colin Morgan, responsável em dar vida ao mago Merlin, nasceu em Armagh e, surpresa! Já seu as caras em Doctor Who! No décimo episódio da quarta temporada, “Midnight”, Morgan viveu o jovem Jethro Cane.

Merlin-merlin-the-young-warlock-22411543-2560-1707Colin Morgan em Merlin

A parte mais terrena de Merlin, o rei Arthur, se dá na forma de Bradley James, nascido na famosa Exeter. O moço ainda não deu as caras em Doctor Who, mas quem sabe? Com certeza nas próximas temporadas ainda veremos essas maçãs do rosto por lá.

James029Bradley James, mais conhecido como o grande Rei Arthur

Os próximos da fila são dois atores que não têm nenhuma relação entre si, mas que também nunca participaram de Doctor Who (ainda). Talvez os mais importantes da lista, em termos de proeminência das maçãs do rosto, Benedict Cumberbatch e Daniel Sharman. O primeiro dá vida ao famoso detetive Sherlock Holmes, na absurdamente aclamada série da BBC, Sherlock. Além das maçãs do rosto, Cumberbatch tem sobrancelhas estranhamente curvadas que garatiram um papel de honra como Khan em Star Trek Into the Darkness.

cumberbatchBenedict Cumberbatch (e suas high cheekbones) em still promocial de Sherlock

Sharman, por sua vez, nasceu em Londres e é ator da queridinha da MTV, Teen Wolf. É só alguém resolver dar um passeio no Tumblr pelas tags do moço que outras, hilárias, não demorarão a aparecer, como: #i could cut myself in those cheekbones e #i could cut myself slapping those cheekbones. Quem não se cortaria?

Photoshoots-daniel-sharman-31576471-1693-2560Daniel Sharman, jovem lobo em Teen Wolf

Andando um pouco mais pela grande ilha do Reino Unido, temos o irlandês Cillian Murphy com sua eterna expressão de desprezo – sem ofensas, é um ótimo rosto! –, famoso pelo seu assustador Scarecrow na sequência Batman Begins.

550_cillian-murphy-wants-to-do-television-soon-5777Cillian Murphy, cara constante de desprezo, olhos ridiculamente azuis e maçãs do rosto de dar inveja

Para finalizar a lista temos por último, mas não menos importante, o equivalente a um deus britânico e (TA-DAM!) roteirista de episódios de Doctor Who como “The Doctor’s Wife”, sexta temporada, e “Nightmare in Silver”, sétima temporada: Neil Gaiman! Dotado de poderes sobrenaturais para escrever e casado com ninguém menos, ninguém mais que Amanda Palmer (alguém ainda tinha dúvidas sobre o melhor casal do mundo?), o sr. Gaiman encerra nossa lista da estranha coincidência entre britânicos, anatomia e Doctor Who.

news_photo_40655_1374019346_630Neil Gaiman, autor de Deuses Americanos, Lugar Nenhum, Coraline, O Oceano no Fim do Caminho

Andreas

22 de ago. de 2013

Alexander Wang apóia o uso de lã de carneiro: até onde a moda irá?

Alexander-Wang-The-Woolmark-Companys-Merino-Wool-No-Finer-Feeling

Não é novidade que as peles de animais vieram com tudo nos últimos desfiles internacionais. A tendência reinou firme e forte após o desfile icônico de inverno 2013 do Marc Jacobs, e não saiu mais de vista. Pode-se dizer que as peles não agradaram tanto as ruas, mas os editoriais definitivamente se esbanjaram delas. O tão prestigiado casaco da Prada marcado por flores desenhadas em torno dele estava por toda parte. Até rolou um encontro surpresa entre Marc Jacobs e Anna Wintour vestindo exatamente o mesmo modelo.

Esta semana, uma nova campanha estrelada por Alexander Wang e fotografada por nada menos que Annie Leibovitz entrou em cena (veja acima). O estilista, que carrega a grife Balenciaga em suas costas há quase um ano, mostrou em seu último desfile de inverno somente quatro casacos de pele, mas aparentemente as coisas vão ser diferentes de agora em diante. Na imagem para a campanha, Wang é clicado em frente a uma ovelha, e, em tradução livre, as palavras “Pele de carneiro. Não há melhor sensação” estampam o resto da fotografia.

Segundo o site da The Woolmark Company, companhia que está por trás disso tudo, essa campanha tem como objetivo incentivar uma nova geração de consumidores a deixarem de lado a lã falsa e passarem a consumir a lã de carneiro, a qual “promove uma experiência melhor do que a lã sintética”. Para eles, a maneira como você vai se sentir e a imagem que você passará para os outros são motivos o suficiente para trocar a pele falsa pela pele de carneiro imediatamente. Sim, imediatamente.

A companhia está sendo tão apelativa que conseguiu se juntar com os maiores nomes da moda: as revistas Vogue, Vanity Fair, GQ e Harper’s Bazaar e grifes como Givenchy, Jean Paul Gaultier e Dolce & Gabbana já estão inclusas na lista. Há campanhas, editoriais, declarações e colaborações sendo feitas sobre como os consumidores jovens devem fazer parte de uma nova geração, na qual a sofisticação fala mais alto do que qualquer coisa.

É por isso que pergunto: até onde a moda irá?

Para conseguir o efeito tão especial que a Woolmark Company garante, os carneiros são obrigados a viver em condições miseráveis, passando fome e sede, e sendo torturados diariamente. Seus criadores deixam sua pele crescer ao máximo, até o ponto em que os animais não consigam mais ver nem fazer suas necessidades naturais. Se já não bastasse, cortam a pele de cada animal com uma faca e arrancam cada parte dela, com o carneiro completamente são e consciente disso. Depois, desprotegidos sem sua pele, morrem de dor, doenças, ou até fome.

Será que o sofrimento de pequenos animais inocentes vale a sua satisfação pessoal? A resposta é óbvia. Vá de pele falsa. E, se ainda não se convenceu, assista ao vídeo abaixo que mostra a vida miserável que a moda está dando a esses animais inocentes. Mas se prepare psicologicamente antes.

 

Isabela

20 de ago. de 2013

Sobre complexo de Deus, jornalismo e Lady Gaga, ou uma crítica estatística e pessoal a André Forastieri

774px-Michelangelo,_Creation_of_Adam_04Detalhe de Creation of Adam, de Michelangelo

Os adeptos a séries médicas já devem ter ouvido o termo “complexo de Deus”. O God complex é caracterizado por um sentimento inabalável de certeza na própria opinião, uma recusa absoluta de se reconhecer errado (mesmo que só eventualmente), um sentimento todo-poderoso de infalibilidade. Como frequentemente são responsáveis por salvar ou tirar vidas, os profissionais da medicina precisam ficar atentos ao próprio ego para não desenvolverem alguma coisa assim e, do nada, virarem pacientes. Os psicólogos de plantão precisam ser avisados, no entanto, que não são só os médicos que sofrem do “complexo de Deus”. Alguns jornalistas também.

Sou estudante de Jornalismo e confesso que já conheço alguns que poderiam ser enquadrados nesse diagnóstico, mas meu principal contato com esse tipo de jornalista que eu pretendo nunca me tornar é, para o meu próprio choque, em sites e publicações consagradas. E se posso falar pela minha universidade em específico, o curso faz um trabalho bem incisivo em nos dar a noção de que não somos e nem devemos nos considerar Paladinos da Justiça e da Verdade (em maiúsculas para sublinhar a insuportável pretensão do próprio termo). A neutralidade jornalística? Mito. É virtualmente impossível escrever um texto sem tomar um lado. A escolha de cada palavra significa assumir uma ótica de se olhar a situação, e não outra.

Por outro lado, aprendo que o compromisso do jornalista é sim com os fatos. Com o que lhe foi dito, por quem foi dito. Quando há números comprovados, com eles. O jornalista não molda a realidade para encaixar-se em sua opinião, e não omite fatos e números que falam contra ela. O trabalho jornalístico tem a ver com apresentar uma versão de um acontecimento que deixe seu leitor, espectador ou ouvinte decidir por si mesmo quem está certo. Não é pecado jornalístico advogar uma opinião, desde que se dê espaço para advogar pela outra.

Ao trazer toda essa envergadura e premissa moral para o meu atual campo de atuação, o jornalismo de entretenimento online, as linhas são um pouco mais difusas – mas ainda estão lá. A expressão direta da opinião é enormemente valorizada no mundo dos blogs e sites de entretenimento, mas o posicionamento de quem a escreve não deve nunca fugir do que pode ser comprovado, e jamais omitir dados que possam dizer o contrário. Logo, se um lançamento pop que não me agradou estoura nas paradas, resta escrever um review ruim que inclua a informação de que o público abraçou aquela composição com unhas e dentes. E o mesmo ao contrário. Uma canção que eu gostei e vendeu mal “deveria ter vendido mais”. Reconhece-se o desempenho estatístico e irrefutável e insere-se a opinião.

Tudo isso para chegar no exemplo de mau jornalismo em questão, este artigo do colaborador do R7 e jornalista de carreira notável no ramo do entretenimento (uma informação que me chocou bastante, e que pode tirar a credibilidade do meu argumento aqui, mas que eu não omiti, percebam bem) André Forastieri. Eu não sei se o senhor Forastieri considera que a internet não é lugar para se fazer jornalismo de respeito, mas se não considera, aquele título de “jornalista” embaixo do nome exibido em seu blog deveria ser retirado, porque esse texto é tudo, menos jornalismo. Pode ser que seja só uma implicância com Lady Gaga, porque impossível negar que outras investidas dele em assuntos como política e imprensa foram quase excepcionalmente inteligentes e cristalinas.

Pessoalmente, eu gosto da artista pop Lady Gaga. Tenho CD, DVD, biografia e livro de fotos assinado por Terry Richardson. Fui ao show. Qualquer um que me conheça, ou mesmo que leia minhas ruminações aqui n’O Anagrama, sabe disso. Não acho que isso não devesse transparecer nos meus textos, porque acho-a genial, e quero que as pessoas leiam minha visão do porquê acho-a genial. Não quero que elas aceitem essa visão de bate-pronto, mas acharia brilhante se o que eu escrevo as fizesse mastigar um pouco a refeição pop de Gaga. Mesmo que elas entrem aqui achando o gosto da refeição ruim, e saiam sem mudar de opinião.

Nunca neguei que o público não abraçou a maioria dos lançamentos do Born This Way, último disco da moça, de 2011. “Marry The Night”, o último single, estagnou na posição de #29 do Billboard Hot 100. O álbum só rendeu duas canções que chegaram ao top 3. Vendeu 6 milhões de cópias, o que é um número bastante significativo na era de pirataria em que vivemos, mas ainda é metade das vendas do combo The Fame/The Fame Monster. A turnê, apesar de ter sido uma das mais lucrativas de 2012, não lotou os estádios para os quais foi desenhada. A essa altura do campeonato, é impossível negar a influência de Gaga como figura definidora do pop internacional e ditadora de tendências, vide a enxurrada de canções direcionadas a levantar a auto-estima do público jovem inseguro de sua própria identidade depois do lançamento de “Born This Way” (o single). Impossível também negar, no entanto, que ela não reina sozinha no Olimpo dos artistas com “sucesso certo”. Talvez nem mesmo reine soberana.

C093B0136AB0289CE64C2EA6677EE5André Forastieri

O que André Forastieri faz em seu artigo, no entanto, é declarar o fracasso total do último empreendimento de Gaga no mundo pop, o single “Applause”, que se seguirá do terceiro álbum de estúdio, ARTPOP, no dia 11 de Novembro. Álbum com o qual, segundo o jornalista, “ninguém se importa”. O Google Trends indica, no entanto, que o título do álbum da moça (que não é um termo comum, uma vez que o movimento artísitico de Andy Warhol e companhia se escreve “pop art”), está ligeiramente acima do nome do recentemente nomeado Papa Francisco I em volume de buscas em inglês no site (dá pra conferir aqui). Isso, claro, é uma informação só para o caso de você, leitor, e seus amigos terem discutido alguma outra coisa além de Lady Gaga na última semana.

O jornalista Forastieri continua, redigindo um texto que é tudo, menos jornalístico, ao afirmar que o novo single “não está vendendo”. O iTunes Charts americano, no entanto, coloca “Applause” como um terceiro single mais vendido do momento, atrás de “Roar” de Katy Perry e “Blurred Lines” de Robin Thicke (prova aqui, muito embora a informação no texto reflita o chart no momento em que este que vos fala o consultou, e portanto está sujeita a mudanças). A Billboard prevê que Gaga vai vender em torno de 200 a 225 mil cópias do single, um número similar ao conseguido por Adele na faixa “Skyfall”, que chegou no final do ano passado em um ambiente bem mais competitivo que o atual, e mesmo assim cravou o #8 na parada da Billboard. Com apenas Katy Perry com prospectos de vendas maiores que os seus, as chances são que Gaga encontre seu caminho para o Top 3 na próxima quarta feira (tudo que eu disse aqui pode ser corroborrado por esse artigo da própria Billboard).

“Applause” não vai alcançar o êxito de uma “Born This Way”, que estreou com vendas em torno de 600 mil cópias, um número que nem “Roar”, a papa-tudo dessa semana na Billboard, provavelmente vai arranhar (as previsões são de 475 mil para Katy Perry), mas não é um fracasso. Eu me pergunto quando uma canção Top 3 da Billboard Hot 100 começou a ser chamada de fracasso. Para efeitos de comparação, “Scream”, parceria entre Michael Jackson e a irmã Janet, não passou do #5, e ainda é considerada uma das canções pop mais bem-sucedidas dos anos 90.

Procurando outros textos do senhor Forastieri aqui e ali no blog do R7, fica bem claro que o dito jornalista tem uma visão de música pop que quase deixa de considerá-la música. E ele tem todo o direito de ter, diga-se de passagem, e de se enterrar em suas coleções de vinis do U2 e do Metallica. Assim como eu tenho todo o direito de argumentar de volta, e de me enterrar nos meus CDs da própria Gaga. Difícil saber se Forastieri sempre considerou o movimento pop todo uma grande bobagem totalmente voltada para o lado mercadológico, ou se pensa que os anos corromperam a proposta de Andy Warhol e companhia. Ou se mal entende qual era essa proposta, na pior das hipóteses. Em um dos muitos textos anteriores que ele linka no artigo sobre Gaga, ele diz que qualidade musical não tem nada a ver com pop (aqui, no segundo parágrafo).

De certa forma, esse tipo de opinião legitima exatamente a missão da artista no mundo pop. A percepção geral das pessoas em relação a esse meio não mudou muito desde que Madonna surgiu 25 anos atrás, e mesmo que o pop tenha ganhado as galerias de arte e especialistas do mundo todo, muita gente ainda se recusa a aceitar que entretenimento feito para as massas também tem o direito de provocar e instigar a mente de quem o recebe. A missão de Gaga sempre foi, desde os primórdios do The Fame – e não só recentemente, como o moço sugere no finalzinho do seu artigo – levar a performance pop de volta para as galerias de arte. O fato de que esse empreendimento ficou mais descarado na proposta do novo álbum deve estar incomodando quem acha que o pop deve se reduzir a própria (presumida) mediocridade.

E daí que vem a vontade de taxar “Applause” como um fracasso. Dois dos melhores e mais influentes álbuns de Madonna, o Erotica e o Bedtime Stories, venderam em torno de 6 milhões de cópias, só o bastante para não serem considerados flops em sua época. Para os padrões da indústria fonográfica atual, com os quais Forastieri não parece se importar o bastante para realizar o mínimo de pesquisa exigida para a função de jornalista, esse mesmo número é bem mais significativo. O autor do artigo deve achar que, se reconhecer isso, a própria fundação do que escreveu vai vir por terra. Está errado.

O senhor Forastieri tem todo o direito de escrever que acha que Gaga não representa a música pop da forma que deveria. Pode escrever, inclusive, que essa tal música pop é só lixo mercadológico. Pode contestar a escolha de colocar diversas das peças performadas e usadas por Gaga em museus de arte por aí. Pode dizer que “Applause” tem números modestos se comparados ao começo da carreira da artista. Pode até dizer que ela sofre da “síndrome de Marilyn Monroe”, muito embora a própria construção da sentença em que ele usa essa expressão devesse dar calafrios nas feministas da mesma forma que a mim. O que ele não pode fazer é deixar de escrever tudo o que fala contra essa opinião.

A partir do momento em que um texto tem só uma voz e só uma todo-poderosa visão que não admite que qualquer número ou consideração de especialistas fale contra ela, paramos de falar de jornalismo e começamos a falar de conversa de bar. A partir do momento em que a sua opinião começa a valer mais do que as fontes de informação que você tem a obrigação de buscar como jornalista, talvez seja a hora de consultar um psicólogo. Você não está mais fazendo um bom serviço ao público. Aliás, lembra que era você que deveria servir o público com fatos e informações, e então opiniões que eles deveriam considerar antes de adotar? Lendo outros textos no blog do senhor Forastieri, fica claro que, assim como eu, ele sabe muito bem disso. E esse Complexo de Deus em certos momentos começa a cheirar como implicação infantil. Eu, sinceramente, não sei o que é mais patético.

Caio