Review: Dirty Computer (álbum e filme)

Janelle Monáe cria a obra de arte do ano com um álbum visual espetacular - e que desafia descrições.

Os 15 melhores álbuns de 2017

Drake, Lorde e Goldfrapp são apenas três dos artistas que chegaram arrasando na nossa lista.

Review: Me Chame Pelo Seu Nome

Luca Guadagnino cria o filme mais sensual (e importante) do ano.

Review: Lady Bird: A Hora de Voar

Mais uma obra-prima da roteirista mais talentosa da nossa década.

Review: Liga da Justiça

É verdade: o novo filme da DC seria melhor se não tivesse uma Warner (e um Joss Whedon) no caminho.

11 de mai. de 2015

As melhores atuações masculinas não indicadas ao Oscar dos últimos 10 anos (2005-2015)

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por Caio Coletti

Esses dias eu estava passeando pelo meu próprio Filmow (eu sei que você também se stalkeia nas redes sociais, não adianta fingir!) e me dei conta do monte de atuações brilhantes que eu vi nos últimos 10 anos de cinefilia. E me dei conta também da quantidade pequena delas que havia sido indicada ao prêmio-maior do mundo cinematográfico, ou ao menos o que tem maior visibilidade – o Oscar distribuído todos os anos pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas americana ignorou sistematicamente (ou quase indicou) todas essas interpretações aí embaixo, e como a lista original tinha dado quase 30 rankeados, decidi dividí-la em dois posts.

O post com a lista de atuações femininas que deveriam ter entrado na lista da Academia você pode ver aqui, e agora é a vez dos homens. Vamos lá:

2014

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Jake Gyllenhaal, por O Abutre

Nós já dissertamos bastante sobre o esquecimento da Academia ao não indicar Jake Gyllenhaal, e o que isso significa no sentido do personagem representar um lado feio do sonho americano que talvez o Oscar não queira mostrar para o mundo. Resta falarmos, então, sobre a excelência da performance de Gyllenhaal no filme, e o processo metódico que levou a ela: o espectador atento deve notar que o ator raramente pisca em cena, uma estratégia que Gyllenhaal já havia usado no clássico cult Donnie Darko, e que só sublinha as tendências quase (ou completamente) sociopáticas da ambição de Lou Bloom. Outro caso interessante é a cena em que o protagonista explode em fúria na frente do espelho, eventualmente quebrando-o – reportadamente, a cena não estava no script (perfeito) de Dan Gilroy, sendo totalmente improvisada por Gyllenhaal, que se cortou gravemente no processo. Se isso não é dedicação o bastante para a Academia (e nós nem falamos dos aspectos mais sutis da performance, como a cadência da fala e a linguagem corporal), não sabemos o que é.

Poderia ter acontecido? Deveria, mas a competição estava tão acirrada na categoria de Melhor Ator nesse ano que ficou difícil cavar uma vaga para Gyllenhaal. O ator foi indicado ao Globo de Ouro, enquanto o filme só foi lembrado pela Academia em Melhor Roteiro Original.

Já ganhou? Jake está entrando agora na melhor fase de sua carreira, com escolhas ousadas e bem calculadas de filmes e um amadurecimento interpretativo incrível, então vamos esperar. Por enquanto, ele só foi indicado pela performance de coadjuvante em O Segredo de Brokeback Mountain.

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David Oyelowo, por Selma

Martin Luther King Jr, uma figura de suma importância na história americana, nunca havia ganhado uma versão cinematográfica antes. A negligência de Hollywood quanto à história de King é um daqueles sinais alarmantes de que a indústria do cinema, e de fato os Estados Unidos como um todo, ainda são um país cujas raízes racistas continuam envenenando a atualidade. Um sinal menos sutil do mesmo processo são os ataques de policiais a jovens negros que culminaram no climático episódio ocorrido em Ferguson, no Missouri. Essa atualidade só faz de Selma um filme mais importante, e da performance de David Oyelowo nele mais corajosa – compondo um Martin Luther King desafiadoramente humano, o ator parece querer nos dizer que mesmo um homem profundamente falho pode ser inspirador e decisivo para as mudanças sociais das quais o mundo ao redor dele precisa. O filme não esconde as infidelidades de King à mulher, por exemplo, e nem por isso o faz menos admirável. Pelo contrário: na pele de Oyelowo, o Pastor King é um líder formidável justamente por não ser superior àqueles que comanda.

Poderia ter acontecido? Oyelowo é mais um que ficou no meio do caminho na competição fatal por Melhor Ator em 2015. Mesmo assim, há a questão maior de Selma ter sido largamente ignorado nas outras categorias, devido provavelmente ao tema delicado para os americanos.

Já ganhou? Antes de Selma, Oyelowo só havia aparecido em papéis de pequenos destaque em filmes como Interestelar, Jack Reacher e O Último Rei da Escócia. Ainda não chegou a vez dele, mas é uma aposta para os próximos anos.

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Timothy Spall, por Sr. Turner

2014 foi um ano cheio de performances complexas em filmes difíceis, que escapavam das regras convencionais de narrativa e traziam reflexões raramente vistas no cinema. No furor de reconhecer Boyhood e Birdman (ainda dois dos nossos preferidos do ano), Sr. Turner ficou de fora da disputa, com seu charme e sua experimentação mais discreta, bem ao estilo do diretor britânico Mike Leigh. E em meio ao esquecimento, a performance absolutamente superlativa de Timothy Spall também não encontrou seu caminho para as principais premiações da temporada – o ator, conhecido pelo papel na franquia Harry Potter, encarna com convicção e ao mesmo tempo algum distanciamento a personalidade difícil do pintor J.W.W. Turner. A composição do personagem é cuidadosa: da maquiagem, cabelo e figurino nada glamurosos ao constante pigarreio que acompanha as falas resmungadas por Spall, é nos pequenos detalhes e expressões que a performance realmente encontra a humanidade do personagem, e na duração monumental do filme que ela se consolida, com toda a paciência, e uma das melhores dos últimos anos.

Poderia ter acontecido? Até poderia, principalmente porque os filmes de Mike Leigh costumam render indicações a seus atores, e porque Spall levou o prêmio de atuação em Cannes. Mesmo assim, entre a competição acirrada na categoria e o low profile do filme, Spall ficou fora da lista.

Já ganhou? Spall é um dos character actors mais respeitados da Inglaterra e, aos 58 anos, já estava na hora da Academia escolher alguma das ótimas interpretações do moço em filmes britânicos e adotar para si. O ator londrino nunca foi indicado ao Oscar.

2013

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Tom Hanks, por Capitão Phillips

Há algum tempo que Tom Hanks não apresentava uma grande performance no cinema. Os inícios de década parecem ser bons para o ator, no entanto, uma vez que Capitão Phillips colocou-o em um dos papéis menos arquetípicos de sua carreira e lembrou o público que poucos atores são capazes de se comparar a ele quando está em um bom momento. O filme de Paul Greengrass é excepcionalmente tenso, mas acima de tudo obstinadamente anti-maniqueista, ao retratar a relação entre o capitão americano e o pirata somali interpretado pelo ótimo Barkhad Abdi, esse sim lembrado pelo Oscar. Ambos são homens orgulhosos e, de certa forma, donos de um olhar clínico para a humanidade daqueles a sua volta. A expressividade de Hanks, e a capacidade de dialogar com o espectador o tempo todo, ajuda o protagonista de Greengrass a se tornar uma figura imponente em tela, ainda que cheia de empatia. A cena final, em que Phillips é mostrado em estado de choque, é simbólica, mas o filme todo é uma tour de force de um dos melhores atores americanos em atividade.

Poderia ter acontecido? Bastante gente chiou quando não aconteceu. Capitão Phillips marcou a oitava indicação de Hanks ao Globo de Ouro, e ao que tudo indicava a performance, junto com aquela que o ator entregou em Walt nos Bastidores de Mary Poppins, levaria Hanks a ser lembrado pelo Oscar. Não rolou.

Já ganhou? Hanks é um de dois atores a vencer o Oscar dois anos consecutivos (por Filadélfia e Forrest Gump, em 1994 e 1995) – o outro é Spencer Tracy, que levou em 1938 e 1939. Outras três indicações completam o currículo do ator, por Náufrago, O Resgate do Soldado Ryan e Quero Ser Grande.

RUSH

Daniel Brühl, por Rush: No Limite da Emoção

Nascido na Espanha mas levado pelos pais para a Alemanha ainda na infância, Daniel Brühl construiu uma carreira brilhante no país natal desde jovem (a estreia foi aos 17 anos), e se tornou uma aposta certa para o estrelato depois de Adeus, Lênin ter se tornado um hit internacional, em 2003. Desde então, em papéis ainda coadjuvantes, Brühl mostrou versatilidade de gêneros e uma excelência notável de encarnar o espírito mais intrínseco de seus personagens em tela. Seja como o patético astro de cinema de Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino, ou como o parceiro do Julian Assange de Benedict Cumberbatch em O Quinto Poder, Brühl traz convicções fortes às construções de seus personagens, e dialoga brilhantemente com o espectador na construção da nossa percepção sobre ele. O mesmo vale para a performance brilhante em Rush, na qual representa um Nikki Lauda extraordinariamente resiliente e, acima de tudo, corajosamente peculiar. Seu retrato de um outsider de talento excepcional não é só adorável – é também inspirador.

Poderia ter acontecido? Indicado ao Globo de Ouro e ao BAFTA pela performance, era esperado que Brühl fosse também reconhecido pelo Oscar. Como a Academia parece ter ignorado Rush como um todo, o ator alemão também acabou não sendo lembrado.

Já ganhou? Ainda não, mas os elogios que recebe da crítica a cada nova atuação apontam para um futuro brilhante para Brühl, que está com 37 anos.

2012

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Jean-Louis Trintignant, por Amor

Dois gigantes octogenários do cinema francês estrelam Amor, neoclássico de Michael Haneke que se tornou o filme obrigatório de 2012 depois de vencer a Palma de Ouro em Cannes. No entanto, a performance de Emmanuelle Riva como a adoentada Anne ganhou muito mais reconhecimento do que a atuação de seu companheiro de cena, Jean-Louis Trintignant, como o marido Georges. São desempenhos complementares, e igualmente notáveis: os trejeitos e o retrato realista que Riva faz da deterioração de Anne são comoventes, mas é na perduração de Georges que o filme encontra seu elemento mais amargo. Trintignant encontra o tom certo para o filme terno e ínspido (ao mesmo tempo) de Haneke, corajosamente retratando as ramificações do amor de Georges por Anne, e as consequências que esse sentimento traz ao final da vida da esposa. A performance do ator é discreta e expressiva, encontrando nos detalhes e nos momentos menores a fundação da estatura do personagem, que se agiganta no final do filme. Ao contrário de Georges, no entanto, Trintignant é excepcional durante toda a metragem de Amor.

Poderia ter acontecido? Com o impacto que Amour teve no prêmio da Academia, poderia. Até os prêmios estrangeiros, no entanto, deixaram de lado a performance de Trintignant em virtude de reconhecer o trabalho de Emmanuelle Riva.

Já ganhou? Vencedor de um César, e de prêmios de Melhor Ator em Berlim e Cannes, Trintignant sempre concentrou sua carreira no cinema de arte francês, um nicho que, infelizmente, é pouco reconhecido pela Academia.

Film Review The Perks of Being a Wallflower

Logan Lerman, por As Vantagens de Ser Invisível

Adaptação de um clássico da literatura juvenil, e um dos poucos casos em que um autor teve a oportunidade de escrever e dirigir o filme baseado em sua obra, As Vantagens de Ser Invisível é um filme de sensibilidade e sutileza notáveis. Entende o mundo adolescente de forma incomparável, e especialmente de uma geração tão enigmática e dona de um olhar tão peculiar sobre o mundo – uma das decisões mais acertadas em relação a esse aspecto da adaptação foi a escalação de Logan Lerman como o protagonista e narrador Charlie. Introspectivo e traumatizado por uma série de acontecimentos do passado, o personagem enxerga o mundo com a clareza e a sensibilidade de um artista, mas vê sua estatura diminuir quando é confrontado com questões do mundo real. Lerman interpreta essa fragilidade de forma excepcionalmente expressiva, e ao mesmo tempo quietamente charmosa, caminhando junto com a simpatia que o roteiro pede que tenhamos por Charlie e entendendo, em um olhar de fora para dentro, a intenção da narrativa de encapsular, sem subestimar, os dramas da adolescência.

Poderia ter acontecido? Ignoradíssimo pela Academia (como costuma acontecer com todos os filmes sobre jovens, independente da qualidade), As Vantagens de Ser Invisível não cavou nenhuma vaga na lista da Academia, então uma indicação para Logan seria pedir demais.

Já ganhou? Aos 23 anos, Logan está sob os holofotes há menos de uma década, e só tem feito escolhas mais interessantes (o drama de guerra Coração de Ferro) recentemente, então vamos esperar mais um pouco.

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Ewan McGregor, por O Impossível

Sim, nós sabemos que Naomi Watts está excepcional como a matriarca da família separada pelo tsunami da Indonésia em O Impossível, o emocionante épico de J.A. Bayona (O Orfanato). Isso não é motivo para diminuir a performance extraordinária de Ewan McGregor como o marido da personagem de Watts e pai dos três filhos que completam a família principal do filme. Em uma cena especialmente brutal, McGregor conversa com o sogro por telefone, e é obrigado a confessar para ele que não sabe do paradeiro da esposa, filha do seu interlocutor. A vulnerabilidade, o profundo medo e a sensação de desapontamento consigo mesmo que McGregor expressa sem nenhum vestígio de vaidade masculina é o momento mais ressonante de uma performance que se caracteriza pela determinação tanto quanto pela sensibilidade. A escalação do escocês no papel principal de O Impossível só pode ser descrita como um golpe de mestre: McGregor é um dos poucos atores, hoje em dia, capazes de expressar coragem sem cair no heroísmo fácil dos galãs hollywoodianos. No filme angustiante e realista que Bayona fez, isso faz toda diferença.

Poderia ter acontecido? Talvez, se a Academia gostasse mais de Ewan. O filme rendeu indicação a Naomi Watts e o ator escocês havia sido nomeado ao Globo de Ouro no mesmo ano, pela comédia romântica Amor Impossível.

Já ganhou? Pasmem, mas não. Ok, Ewan não é o mais consistente dos atores, mas sua carreira está cheia de performances marcantes que deveriam ter rendido pelo menos indicações por parte da Academia. Duas no Globo de Ouro, uma no Emmy, mas nada de Oscar por enquanto.

2011

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Ryan Gosling, por Tudo Pelo Poder

Talvez a segunda melhor investida de George Clooney na direção (depois de Boa Noite e Boa Sorte, é claro), Tudo Pelo Poder passou em branco pelo olhar dos votantes da Academia, talvez pelo caráter contestador em uma época em que os Estados Unidos ainda se viam mergulhados na utopia da primeira gestão Obama. A performance de Ryan Gosling no filme, como um assistente de campanha ingênuo que aos poucos vai ganhando conhecimento das corrupções e enganações ao seu redor, não só é central para a mensagem do filme como é também um show a parte. O ator empresta mais do que algumas dicas da atuação de Al Pacino no primeiro O Poderoso Chefão, construindo o seu arco de personagem de forma parecida com àquele que Coppola desenhou para Michael Corleone e trabalhando brilhantemente o minimalismo (de forma parecida com a qual faria em Drive, no mesmo ano de 2011) para expressar a transformação pela qual o personagem passa enquanto os títeres políticos ao seu redor andam em círculos, aparentemente sem muita consciência do destino para o qual se dirigem.

Poderia ter acontecido? Com a recepção gélida que o filme ganhou do prêmio da Academia, não. No entanto, Gosling foi indicado ao Globo de Ouro pelo papel, e a outros seis prêmios de associações de críticos regionais.

Já ganhou? A única indicação de Gosling até agora foi pelo filme que o revelou para o cinema “sério”, o drama indie Half Nelson, em 2007. O ator foi lembrado outras 4 vezes pelo Globo de Ouro, mas nenhuma delas se converteu em indicação para o Oscar.

2010

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Andrew Garfield, por Não Me Abandone Jamais

Estrelado por três dos melhores atores jovens do momento (Garfield, Keira Knightley e Carey Mulligan), Não Me Abaonde Jamais é uma das mais atípicas e bem escritas ficções científicas dos últimos anos, e muito disso se deve ao trio principal. A melhor interpretação entre os três, argumentadamente, é a de Andrew Garfield como o doce Tommy, um dos clones criados por uma poderosa corporação para substituir órgãos vitais de algum ricaço com desejo de semi-imortalidade. A história, que já foi contada algumas vezes pelo cinema de ficção científica, deságua em um triângulo amoroso entre os três atores, e tudo soa muito mais interessante do que parece graças ao roteiro e à expressividade das atuações. Garfield é um adorável “garoto sensível” na primeira metade do filme, e absorve toda a tragédia do destino do seu personagem, lidando com a intensidade de Keira e a serenidade Carey, no final. Preso no meio dessas duas co-estrelas radicalmente diferentes, o ator californiano usa seu estilo bastante naturalista para equilibrar o filme e provê-lo de seus momentos mais honestamente tocantes.

Poderia ter acontecido? O pouco alcance que o filme teve na época do lançamento atrapalhou quaisquer chances de indicação para a ficção científica alternativa de Mark Romanek. Com uma campanha de marketing melhor, talvez tivesse sido outra história.

Já ganhou? Garfield foi lembrado no Globo de Ouro pela performance em A Rede Social, mas em meio a todo o furor do filme, os votantes da Academia se esqueceram dele. Ele também tem um BAFTA, pela atuação no telefilme Boy A, em 2008.

2008

In Bruges (2008)
Colin Farrell

Colin Farrell, por Na Mira do Chefe

Escalado quase sempre como um galã com charme “perigoso” no começo da carreira, o irlandês Colin Farrell viu sua carreira mudar de figura ao encarar o protagonista de Na Mira do Chefe, dramédia deliciosamente idiossincrática do roteirista-diretor Martin McDonagh. Na pele de um assassino de aluguel preso na cidade mais bucólica, úmida e estereotipicamente bela da Bélgica, cheio de culpa depois de um serviço mal-feito, Farrell entrega uma interpretação que é infinitamente divertida, ao mesmo tempo em que não deixa escapar a tragédia de um despertar de consciência para alguém com a “profissão” de seu personagem. O filme vai longe na tentativa de retratar tais consequências, jamais se acanhando de chocar o espectador com um plot tão sombrio em um filme essencialmente cômico, mas é na performance de Farrell que o roteiro de McDonagh encontra seu ponto de equilíbrio. O galã meio gaiato de filmes como A Hora do Espanto se mostrou um ator em pleno domínio de suas habilidades nesse filme, e tal evolução passar em branco pela Academia é quase um pecado imperdoável.

Poderia ter acontecido? Poderia, visto que Farrell venceu o Globo de Ouro e saudado pela crítica como uma das atuações mais complexas daquele ano. A Academia não comprou muito o filme de McDonagh, no entanto, dando indicação apenas a Melhor Roteiro Original.

Já ganhou? Surpreendentemente, Farrell nunca foi nem indicado ao Oscar. Desde Na Mira do Chefe que as escolhas do moço tem sido mais interessantes, especialmente a boa performance coadjuvante em Walt nos Bastidores de Mary Poppins. Resta esperar pelos próximos anos.

2007

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Brad Pitt, por O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford

Em pelo menos um sentido, Brad Pitt nasceu para interpretar o fora-da-lei Jesse James. Talvez a primeira grande celebridade americana, na época do Velho Oeste, o lendário líder de uma gangue criminosa tem exatamente a aura que um dos maiores astros de Hollywood é perfeito para encarnar. No surpreendente western dirigido por Andrew Dominik, no entanto, o ator prova seu talento ao escavar mais fundo na psique do perturbado assaltante de trens que se tornou um verdadeiro mito americano. O filme de Dominik desconstrói a inveja e a mesquinhez que levou Bob Ford (Casey Affleck, brilhante) a alvejar o líder da gangue para a qual “trabalhava”, e de sua forma bem contemplativa é um estudo dos efeitos que o carisma e o magnetismo podem causar no destino de um homem. Pitt finca os dentes com gosto nesse material, interpretando James como um galã terrivelmente engajador, um sujeito que não dispensa gentilezas mas emana uma energia dominante muito forte – e, acima de tudo, um homem com consciência de sua trágica sina.

Poderia ter acontecido? A maior parte da crítica americana acha que deveria. A atuação de Casey Affleck e o trabalho de Roger Deakins na fotografia foram lembrados, e era esperado que Pitt cavasse sua quarta indicação ao Oscar pela atuação.

Já ganhou? Como dito acima, Pitt tem três nomeações aos prêmios de atuação (por Doze Macacos, O Curioso Caso de Benjamin Button e O Homem que Mudou o Jogo), mas até agora só levou a estatueta como produtor, quando 12 Anos de Escravidão venceu Melhor Filme em 2014.

2006

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Steve Carell, por Pequena Miss Sunshine

Steve Carell é um dos atores mais completos e interessantes a surgirem nos últimos tempos, e isso não é nenhum exagero. Extremamente eficiente quando o assunto é comédia, o ator cada vez mais se prova em outras áreas do cinema – se o filme fosse um pouco mais convencionalmente premiável, sua atuação em Dan in Real Life seria igualmente elegível para o prêmio da Academia. É no papel coadjuvante no seminal Pequena Miss Sunshine, interpretando um tio gay que recentemente tentou suicídio, que Carell brilha mais. Os efeitos cômicos da “corrida” do seu personagem são geniais, mas é na constante melancolia e no insistente cinismo que o personagem carrega que Carell triunfa – especialmente porque deixa espaço para caracterizá-lo, como todos os outros membros da família protagonista do filme, como um ser humano desesperadamente buscando fazer as pazes com o caráter trágico da vida. Num filme que discute a legitimidade de separar pessoas entre “vencedores” e “perdedores”, a atuação tremendamente ambígua de Carell cai como uma luva, é inegavelmente brilhante

Poderia ter acontecido? Visto o barulho que o filme fez na premiação em 2007, talvez até pudesse. No entanto, é preciso mais do que uma comédia dramática para a Academia levar a sério um ator que apareceu para o mainstream como comediante.

Já ganhou? Não, mas Carell pelo menos fez os votantes do prêmio o levarem a sério por sua performance em Foxcatcher, nesse último ano. Se as escolhas do moço continuarem sendo mais convencionais, quem sabe a estatueta acabe mesmo nas mãos dele.

9 de mai. de 2015

Person of Interest 4x22: YHWH [Season Finale]

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ATENÇÃO: esse review contem spoilers!

por Caio Coletti

Person of Interest é a história de uma luta pelo poder, mas não é a luta pelo poder que a maioria dos espectadores mais superficiais da trama da CBS devem pensar que é. Desde que abandonou a aura de procedural puro, na temporada passada, para se estruturar decisivamente como uma quase ficção científica em que as consequências de um mundo controlado por máquinas todo-poderosas eram examinadas de perto pelo roteiro, Person intensificou o debate ético e moral que sempre foi intrínseco a sua trama e nos colocou diante de verdadeiros dilemas entre a possibilidade de dominação dos impulsos mais mesquinhos da humanidade e a consideração pela vida acima de qualquer outra coisa. Durante todo o quarto ano, vimos colidir a visão utilitarista do Samaritan, cujo plano, descobrimos aos poucos e de forma bem críptica, era criar um mundo modelado a sua vontade e a sua visão do que seria melhor para nós, meros súbitos dessa nova divindade (o leitor deve ter notado que o título finale, YHWH, faz referência ao acrônimo pelo qual Deus é conhecido em hebraico antigo); com o humanismo da Machine de Finch, que foi “quebrada” por seu criador para entender que indiferente de qualquer impulso maligno, a liberdade humana está na própria fundação da nossa sociedade.

Essa disputa, sem dúvida, ocupou muito espaço na quarta temporada de Person, mas o grande trunfo de “YHWH” é que ele dialoga não só com os episódios que diretamente o precederam, mas com elementos importantes do restante da série também. Durante toda a terceira temporada, uma undercurrent incisiva nos mostrava que, muitas vezes, os seres humanos retratados por Person eram meramente peões do poder das duas máquinas formidáveis que os controlavam. Previsto lá no finale do segundo ano, “God Mode” (review), esse tema foi sutilmente revertido nessa quarta temporada, em que assistimos, do lado do #TeamMachine, os nossos protagonistas lentamente tomarem de volta o controle de suas próprias vidas, especialmente por estarem vivendo grande parte delas no “território-sombra” do Samaritan. Em “YHWH” não faltam momentos em que Reese, Root e Control encontram brechas na vigilância eterna e instruções rígidas das máquinas-divindades para não só escaparem pelas rachaduras mas, principalmente, expressarem ordens diretas a elas. Reese ordena que a Machine desligue as luzes e o ajude a eliminar os capangas de Samaritan, Root exige que a inteligência artificial ajude ela e Finch a fugirem de um apartamento em que são alvejados por um traficante de armas, e por aí vai.

Mais importante que tudo isso é o momento decisivo em que Finch e Root precisam agir com as próprias mãos para salvar a Machine da extinção, um contraste ruidoso com a autonomia que a entidade demonstrava uma ou duas temporadas atrás, quando era capaz de escapar das investidas de Samaritan, memoravelmente através de um processo de “mudança” auto-operado. “YHWH” mostra o outro lado da moeda também, com Samaritan manipulando as atitudes de Control para testar sua lealdade e essencialmente construindo aquele mundo “ideal” (seja qual for a ideia de uma inteligência artificial do que seria “ideal”) que vem planejando desde seu surgimento. A personagem da sempre ótima Camryn Manheim não encontra um destino agradável, mas é com crueldade e desdém que o roteiro de Dan Dietz (4x15, “Q&A” – review) e Greg Plageman (4x16, “Blunt” – review) retrata essa tentativa de criar uma sociedade em que o poder dominante não permite a existência de outsiders e pessoas com sede de contestar a autoridade.

No decorrer dos 22 episódios de mais uma temporada incrível, Person of Interest caminhou decididamente para um futuro que não vai deixar devendo, provavelmente, a nenhuma das distopias clássicas nas quais se inspira. 1984 e Fahrenheit 451, estamos olhando para vocês! A série da CBS cresceu tanto desde a sua estreia que ousa refletir, e com complexidade e competência exemplares, a temática mais fundamental desses e de outros clássicos da ficção científica. Embora, sim, tenhamos visto a luta pelo poder entre Samaritan e a Machine, a narrativa maior de Person retrata nada menos do que a disputa entre o humano e o artificial, os controles e vantagens que um tem sobre o outro.

✰✰✰✰✰ (5/5)

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Apesar da CBS não ter confirmado, Person of Interest provavelmente deve voltar para uma quinta temporada.

8 de mai. de 2015

Gotham 1x22: All Happy Families Are Alike [Season Finale]

GOTHAM: Oswald Cobblepot (Robin Lord Taylor, R) pays a special visit to Carmine Falcone (John Doman, L) in the “All Happy Families Are Alike” episode of GOTHAM airing Monday, May 4 (8:00-9:00 PM ET/PT) on FOX. ©2015 Fox Broadcasting Co. Cr: Jessica Miglio/FOX

ATENÇÃO: esse review contem spoilers!

por Caio Coletti

“You’re going to burn in hell”. “I do worry about that, but your first, my friend”. Esse pequeno diálogo, trocado entre Carmine Falcone e Oswald Cobblepot, o Pinguim, em uma das primeiras cenas realmente tensas do finale da temporada de estreia de Gotham, é simbólico do espírito do episódio. “All Happy Families Are Alike” se impõe como um finale legítimo na força bruta, enfileirando cenas verdadeiramente violentas e transformações de personagem verdadeiramente perturbadoras para tentar disfarçar que, a bem da verdade, o episódio não finaliza muita coisa. O espírito do roteiro de Bruno Heller, developer da série, está contido em um embate simbólico entre crença e descrença, como bem expressa o Comissário Loeb interpretado de forma acertadíssima (como sempre) por Peter Scolari: “Hope, it’s for losers”. Na guerra de gangues insana que o episódio retrata, com o retorno de Fish para esquentar o embate já intenso entre Maroni e Falcone, “All Happy Families Are Alike” deixa seus personagens navegarem da melhor forma que podem o caos controlado que o roteiro cria, e no caminho cria um capítulo que triunfa por encapsular bem a significância de cada um deles.

Comecemos pelos que ganham menos espaço no episódio: Bruce a Alfred passam-no presos em uma busca incessante pelos segredos de Thomas Wayne, subtrama que cria um belo retrato da relação antagônica e ainda assim fraterna entre os dois, e de quebra provem o cliffhanger de que Gotham precisava para reafirmar que, ainda que em passos lentos, está caminhando para o amadurecimento desses personagens e a mitologia essencial que eles representam; Leslie e Barbara jogam um jogo empolgante de se assistir, cheio de meias palavras e insinuações, e é interessante ver que Erin Richards, que esteve bem apagada durante a temporada, se aproveita da oportunidade de explorar um lado kitsch de sua interpretação – é bacana ver que Gotham não fugiu do trauma que Barbara claramente demonstrou no episódio anterior, depois de ter sido liberada pelo Ogre, e ainda que o roteirista Heller soube lidar com essa storyline da maneira quadrinesca característica da série; a única subtrama que parece não significar muita coisa é a aliança entre Fish e Selina, que se desenha de forma vaga e termina (presumivelmente) tão rápido que nem tem tempo de significar algo no arco de personagem da futura Mulher-Gato – mesmo assim, Camren Bincondova acerta em cheio nos trejeitos e linguagem corporal da personagem.

O prato principal, no entanto, é a guerra de gangues em que os jogadores relevantes vão se multiplicando: Falcone e Maroni são manipulados pelo Pinguim, que quer derrubar os dois e se tornar rei de Gotham (será que aquela exclamação no final significa que ele conseguiu?), enquanto Fish ressurge das cinzas para bagunçar ainda mais essa disputa, e convenientemente desferir um tiro certeiro na cabeça de um dos chefões, em uma cena que só pode ser descrita como catártica. A grande virtude da interpretação de Jada Pinkett Smith durante esses 22 episódios foi a forma como ela tornou Fish uma vilã crível, entendendo a luta da personagem por ser reconhecida em um mundo essencialmente masculino, ao mesmo tempo em que não perdeu de vista o fato de que Fish se sentia a vontade no mundo hiper-violento e sórdido de Gotham. Se essa realmente for a última vez que a veremos, Fish Mooney vai deixar saudades como a vilã gloriosamente geniosa que se mostrou.

É através de Falcone, no entanto, que a série faz seu ponto mais forte, e volta a entender a minúcia do seu protagonista. John Doman e Ben McKenzie são ótimos dividindo a cena, mas é do roteiro de Heller que sai o profundo entendimento de que Gotham, a série, é nada mais do que a crônica de uma metrópole em processo de transição. Quando John Doman entrega a pequena faca, que pertencia ao pai de Gordon, para Ben McKenzie, é quase como se um personagem estivesse “passando a guarda” da cidade para o outro. Nesse primeiro ano, por mais devagar que Gotham tenha se movido no sentido da mitologia, a série fez um retrato brilhante do ambiente dessa metrópole, e das rachaduras nem tão pequenas que existem em sua própria fundação. Posicionar um herói falho como Gordon (e como o Batman também virá a ser) no papel de homem responsável por assegurar o mínimo bem-estar dessa cidade é uma forma empolgante de armar uma narrativa – e é também estranhamente apropriado. Digamos que, se “esperança é para perdedores”, como diz o Comissário Loeb, Jim Gordon definitivamente é um.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

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Gotham está renovada para segunda temporada!

6 de mai. de 2015

As melhores atuações femininas não indicadas ao Oscar dos últimos 10 anos (2005-2015)

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por Caio Coletti

Esses dias eu estava passeando pelo meu próprio Filmow (eu sei que você também se stalkeia nas redes sociais, não adianta fingir!) e me dei conta do monte de atuações brilhantes que eu vi nos últimos 10 anos de cinefilia. E me dei conta também da quantidade pequena delas que havia sido indicada ao prêmio-maior do mundo cinematográfico, ou ao menos o que tem maior visibilidade – o Oscar distribuído todos os anos pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas americana ignorou sistematicamente (ou quase indicou) todas essas interpretações aí embaixo, e como a lista original tinha dado quase 30 rankeados, decidi dividí-la em dois posts. Ladies first, é claro:

2013

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Emma Thompson, por Walt nos Bastidores de Mary Poppins

Apesar do título brasileiro infeliz, o filme de John Lee Hancock (Um Sonho Possível) sobre a produção do quinquagenário clássico infantil é um belo drama sobre o poder do ato de contar histórias, desenhado com arcos de personagem redondinhos pelo roteiro. Nada no filme consegue eclipsar, no entanto, a brilhante atuação de Emma Thompson como a autora dos livros que deram origem ao clássico da Disney – nem mesmo a encarnação carismática do velho Walt feita, em uma decisão de casting perfeita, por Tom Hanks. Fiel ao espírito da personagem, que protege sua criação com unhas e dentes devido ao caráter ultra-pessoal que a babá mágica tem para ela, Thompson aparece com um timing cômico perfeito, e a expressão severa que não cede em nenhum momento do filme. Sutil, a atriz esconde nos momentos mais improváveis a vontade da sua P.L. Travers de se livrar da descrença que os traumas do passado lhe trouxeram, e acerta em cheio ao retratar a reação da autora ao ver o filme produzido por Disney pela primeira vez.

Poderia ter acontecido? Apesar do bom buzz em torno do filme, o Oscar acabou indicando-o apenas como Melhor Trilha-Sonora, mas Thompson entrou na lista do Globo de Ouro como Melhor Atriz – Drama, então as chances eram boas.

Já ganhou? No auge dos dramas britânicos de época, Thompson ganhou uma estatueta pela atuação em Retorno a Howards End (1993) e outra por escrever Razão e Sensibilidade (1996). Ela não foi indicada nenhuma vez desde então.

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Naomi Watts, por Diana

Bombardeada de críticas, a biografia da princesa britânica comandada por Oliver Hirschbiegel (A Queda) é um filme que precisa ser redescoberto daqui a alguns anos, quando a febre pela exatidão biográfica passar. Sensível, fascinante e com uma performance central hipnotizante, é um filme muito melhor conduzido e narrado do que a maioria das críticas fez parecer – de qualquer forma, mesmo os detratores mais pesados da obra deveriam ter reconhecido o trabalho magistral de Naomi Watts na pele da Princesa Diana. Não só fisicamente parecida, mas incorporando a forma de falar, olhar e se portar da personagem histórica, a atriz junta todos esses maneirismos em um retrato compreensivo. A Diana de Watts é adoravelmente tímida, mas a atriz deixa claro que também existe um elemento de auto-proteção e mistério nessa timidez, não só o recato da realeza ou a humildade pela qual Diana foi particularmente conhecida. A maior virtude da performance da atriz, no fim das contas, é entender que a princesa deve continuar sendo um enigma para o espectador e para quem contracena com ela.

Poderia ter acontecido? A partir do momento em que o filme estreou sob uma chuva de críticas, não. O Oscar nunca vai tão categoricamente contra o consenso crítico sobre um filme. Dito isso, o buzz em torno de Watts antes da estreia do filme era considerável.

Já ganhou? As escolhas mais convencionalmente acadêmicas de Watts nos últimos anos tem trazido ela mais perto do Oscar – ela tem duas indicações, por 21 Gramas (2004) e O Impossível (2013), mas ainda falta ganhar um.

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Scarlett Johansson, por Ela

Yes, we’re going there! O Oscar ainda não arranjou um jeito de reconhecer atores por métodos de atuação que não sejam a presença live action em frente a uma câmera (existem partidários da criação de uma categoria de dublagem no prêmio da Academia, então vamos aguardar), mas de qualquer forma é difícil não admitir a genialidade da performance de Scarlett Johansson em Ela, uma das melhores ficções científicas do século XXI. Aparecendo apenas em voice-over, a atriz voltou à melhor forma do começo da carreira, começando uma série de investidas na ficção científica que fez muito bem à carreira e ao prestígio de Scarlett entre os críticos. Brincando com o status de sex symbol e, ao mesmo tempo, colocando sub-tons contestadores, uma vontade de aprender quase infantil e, conforme o filme progride, uma incontestável sabedoria na voz de Samantha (e a melancolia que vem intrínseca a ela), Scarlett entende o espírito especulativo e humano da verdadeira ficção científica, e arquiva uma performance tão cheia de nuances quanto qualquer das ótimas atuações presenciais do filme.

Poderia ter acontecido? Nas atuais conjunturas, não. O Oscar ainda nem indicou um ator por captura de performance, que dirá por trabalho de voice-over. Esse é só mais um dos aspectos nos quais a Academia ainda não está pronta para reconhecer o melhor, de verdade, da produção cinematográfica atual.

Já ganhou? Scarlett tem 4 indicações ao Globo de Ouro e é quase universalmente considerada uma das melhores atrizes de sua geração, mas nunca chegou a ser lembrada pelo Oscar. O mais perto disso foi o buzz em torno de sua atuação em Moça com Brinco de Pérola (2004).

2012

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Michelle Williams, por Entre o Amor e a Paixão

A Academia adora Michelle Williams, então é uma surpresa que tenham ignorado Entre o Amor e a Paixão, dramédia romântica da diretora canadense Sarah Polley que foi produzida em 2011, mas só chegou nos cinemas americanos no ano seguinte. Contrastando intensamente com a outra aparição de Williams no cinema em 2011 (Sete Dias com Marilyn), aqui a jovem atriz interpreta uma mulher normal, despida do glamour de estrela de cinema e das complicações à flor da pele de Marilyn Monroe. A performance de Williams como Margot é corajosa não só por permitir um retrato assim, tão banal, mas também por mergulhar fundo nas falhas e dilemas emocionais vividos pela personagem, cujo casamento com Lou (Seth Rogen) esfria quando o misterioso Daniel (Luke Kirby) se muda para a vizinhança. Entre o Amor e a Paixão, originalmente intitulado Take This Waltz, é um retrato brutalmente honesto da solidão fundamental da vida humana, e a intensa individualidade e idiossincrasia da atuação de Williams faz jus ao roteiro de Polley.

Poderia ter acontecido? Dada a predileção da Academia por Williams, com certeza. O que deve ter entrado no caminho da indicação é o gênero (quase uma comédia romântica) e o lançamento limitado do filme, produzido e lançado de forma mais ou menos independente.

Já ganhou? Não, mas foi lembrada três vezes na ainda curta carreira. A primeira por Brokeback Mountain, em que atuou ao lado do ex-marido Heath Ledger, a segunda por Namorados Para Sempre, e a terceira por Sete Dias com Marilyn.

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Ann Dowd, por Compliance

Tenso e incômodo, o filme de Craig Zobel se destacou no circuito indie em 2012. A polêmica quanto à história real em que o filme se baseia, e quanto aos degradantes momentos pelos quais a protagonista (Dreama Walker) passa nos curtos 90 minutos de metragem não foi o bastante para encobrir a contundente crítica que o diretor/roteirista faz à postura passiva da personagem feita por Ann Dowd. Tão protagonista quando a garota interpretada por Walker, a gerente do restaurante fast food que recebe uma prank call perigosa (para dizer o mínimo) é uma personagem para o espectador odiar e, ao mesmo tempo, pela qual ele se vê fascinado. Carregando a tese do filme nas costas, Dowd entrega uma interpretação superlativa, que acha as maneiras mais geniosas de retratar o processo mental dessa espectadora de um verdadeiro show de horrores. Apoiando-se em cada estrutura e burocracia do sistema capitalista, Dowd cambaleia pelo filme de Zobel como um retrato cruel, mas excepcionalmente humano, das armadilhas do mundo moderno.

Poderia ter acontecido? Muito dificilmente. Com o caráter polêmico do filme e o nome pouco conhecido de Dowd, poucos votantes da Academia devem sequer ter visto Compliance, que dirá votado por Dowd na concorrida categoria de Melhor Atriz.

Já ganhou? Infelizmente, não. O Oscar não é exatamente conhecido por premiar character actors como Dowd, e o trabalho mais destacado dela tem sido na televisão nos últimos anos, com aparições em Masters of Sex e The Leftovers, entre outras séries.

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Samantha Barks, por Os Miseráveis

Não é a toa que Samantha Barks foi a única atriz principal que Tom Hopper, o diretor de Os Miseráveis, chamou para seu filme diretamente da montagem teatral que o precedeu. O poderio vocal da moça fica mais que claro na rendição da clássica “On My Own”, mas é em cenas menores, anterior e posteriormente, que a performance de Barks realmente se destaca. A delicadeza na cena que marca a morte da personagem, com a belíssima "A Little Fall of Rain", é testemunha de uma atriz capaz de um grande leque de tons e emoções. Barks, estreante no cinema, empresta dicas da própria direção do filme, que fez todos os atores cantarem ao vivo para que as falhas em suas vozes fossem parte da humanidade dos personagens, e constrói uma versão vulnerável, sentida e completamente inesquecível de uma das personagens mais intensamente trágicas (e identificáveis) do cânone musical atual. Em um filme já intensamente humano, Barks entrega uma performance que aprofunda o próprio conceito de humanidade.

Poderia ter acontecido? Com uma produção do prestígio de Les Misérables, não dá pra dizer que era impossível – mas ela era a segunda na fila para Melhor Atriz Coadjuvante pelo filme, e previsivelmente perdeu o lugar para a mais conhecida Anne Hathaway, que acabou vencendo a estatueta.

Já ganhou? Os Miseráveis foi a estreia de Barks no cinema, então a Academia ainda não teve a oportunidade de laurear essa moça de apenas 25 anos. Esperemos que as escolhas de papéis no futuro sejam boas o bastante para corrigir a injustiça cometida em 2012.

2011

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Roma Gasiorowska, por Suicide Room

Sobrenatural. Desde que tive o prazer de ver Suicide Room, em 2012, eu nunca consegui usar outra palavra para definir a performance de Roma Gasiorowska nele – e eu tenho a impressão que quem assiste ao filme de Jan Komasa tende a concordar comigo. Atuando quase totalmente através da imagem estática de uma webcam que mostra pouco mais do que seus olhos (mesmo porque a personagem usa uma máscara boa parte do tempo), Gasiorowska dá vida a essa força da natureza chamada Sylwia, que se torna a principal companhia de Dominik (Jakub Gierszal) quando este se reclui no mundo virtual depois de uma série de maus-tratos de seus colegas de escola. A estética da personagem, com a máscara, as tatuagens no rosto e o cabelo rosa, já é bastante marcante, mas a combinação opressiva de sedução, fervor ideológico e fragilidade que Gasiorowska empresta para Sylwia é uma colaboração toda particular da atriz, que se usa de artifícios bem mais sutis que aqueles de Gierszal para nos colocar no olho do furacão da depressão e do coração negro de Suicide Room, essencialmente uma crítica social.

Poderia ter acontecido? Só se o filme polonês tivesse tido mais impacto e entrada no circuito de grandes festivais. Subestimado como foi na época de seu lançamento, Suicide Room não chegou nem a uma indicação a Melhor Filme Estrangeiro, que dirá uma para Roma.

Já ganhou? Apesar dos múltiplos prêmios na Terra natal, Roma ainda não conseguiu um papel que a destacasse internacionalmente – mas ela ainda tem só 34 anos, então resta torcer para que isso aconteça algum dia.

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Tilda Swinton, por Nós Precisamos Falar Sobre o Kevin

O impacto da fábula anti-maniqueista da diretora Lynne Ramsay sobre a mãe de um garoto condenado como autor de uma chacina escolar foi tanto que até hoje a cineasta não conseguiu bolar um sucessor à altura. De forma absolutamente clínica, quase fria, o filme observa a epopeia de Eva (Swinton) durante os anos de formação do filho Kevin (Jasper Newell e Ezra Miller em fases diferentes) – em momento algum o roteiro deixa claro se a conduta desapaixonada da mãe era causa ou consequência do comportamento cada vez mais doentio e manipulador do filho. Mas é a na atuação de Swinton que mora o trunfo de Precisamos Falar Sobre o Kevin: carregando um peso enorme nas costas, a atriz tira proveito do porte físico frágil e nos faz esquecer das feições andróginas que fizeram sua fama, construindo uma Eva que é severa, debilitada, espantada e, acima de qualquer coisa, um produto do mundo a sua volta. A maestria da atuação de Swinton está em internalizar tudo aquilo que o ambiente e as situações do roteiro oferecem, criando uma identificação com o espectador que compensa pelo estilo (acertadamente) desapaixonado da direção.

Poderia ter acontecido? Mais do que isso: foi uma genuína surpresa quando não aconteceu. Swinton não estava ainda tão longe da sua vitória por Conduta de Risco, foi indicada ao Globo de Ouro e figurou em todas as listas de melhores performances daquele ano da crítica especializada.

Já ganhou? A vitória como Melhor Atriz Coadjuvante por Conduta de Risco não só veio tarde (2009) na carreira, como pareceu o prêmio de consolação da Academia para uma intérprete que eles nunca entenderam (e portanto, apreciaram) o bastante.

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Keira Knightley, por Um Método Perigoso

Keira Knightley é um dos jovens talentos britânicos mais apreciados pela Academia nesse século. As duas indicações aos prêmios de atuação, mais as outras vezes que o nome da inglesa figurou nas listas de possíveis indicados, no entanto, ignoram a melhor atuação da sua carreira até agora: na pele da problemática Sabina Spielrein em Um Método Perigoso, Keira desenha um arco de personagem que é difícil imaginar outra atriz desenhando. Inicialmente paciente do Dr. Jung (Michael Fassbender), a personagem de Keira começa o filme com um par de cenas verdadeiramente intensas, verborrágicas, delirantes, enriquecidas de pequenos detalhes e tiques nervosos pela interpretação da moça. Conforme o filme progride para o seu estudo aprofundado do desejo e das particulares da psique humana, Sabina é “curada” pela psicanálise e reconstrói sua vida e sua reputação – e a cuidadosa construção que Keira faz dessa personagem “sob controle” (ainda que precário) de si mesma é de uma maestria fascinante.

Poderia ter acontecido? A Academia nunca foi muito fã de David Cronenberg, e a transição do canadense de seus filmes mais chegados ao horror para dramas elegantes (ainda que essencialmente idiossincráticos) não impressionou muito, o que os torna virtualmente cegos para atuações como a de Keira.

Já ganhou? Lentamente Keira está dominando as mentes e corações da Academia, tendo sido indicada duas vezes (por Orgulho & Preconceito em 2006 e O Jogo da Imitação em 2015). Eventualmente a moça deve sim levar a estatueta para casa.

2010

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Juliette Binoche, por Cópia Fiel

Talvez a atriz mais celebrada e premiada da sua geração, Binoche já ganhou tudo o que se pode ganhar como atriz (ou quase tudo). Foi com Cópia Fiel que ela conquistou o prêmio do Festival de Cannes, consolidando sua posição como a mais recente de uma linhagem de grandes atrizes francesas (Deneuve, Huppert, etc). O filme do iraniano Abbas Kiarostami acompanha uma mulher francesa e um escritor britânico enquanto os dois passeiam por um vilarejo na Itália e discutem, nos âmbitos da arte e da vida, uma questão fundamental: até que ponto uma cópia é também, de sua forma, autêntica? A reflexão do filme só fica clara para quem realmente assiste (e olhe lá), mas apreciar a atuação de Binoche é inescapável – a sutileza com a qual sensibiliza sua personagem para as ações do único companheiro de cena, a forma como a vaidade e a insegurança são partes integrais de sua construção, e a afamada (com razão!) cena em que Elle, a personagem, se olha longamente no espelho são momentos testemunha do ápice de uma atriz brilhante.

Poderia ter acontecido? Mesmo com todo o barulho que o filme de Kiarostami fez em Cannes, não foi o bastante para o Oscar abrir os braços para o cinema estrangeiro com tanta convicção – são raras e bem espaçadas as ocasiões em que isso acontece.

Já ganhou? Binoche só ganhou atenção da Academia na fase mais hollywoodiana da carreira, previsivelmente. Venceu a estatueta por O Paciente Inglês, em 1997, e voltou a ser indicada pela comédia romântica Chocolate, em 2001.

2009

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Julianne Moore, por Direito de Amar

Citar só um filme em que Julianne Moore merecia ter sido lembrada pela Academia é uma tarefa dificílima (tanto que tivemos que escolher dois, como você pode ver aí embaixo) – especialmente nos últimos 15 anos, a americana tem escolhido e desempenhado seus papeis com um nível de refinação tão absoluto que é quase como se sua filmografia fosse uma série de performances dignas de Oscar, com pouquíssimos deslizes. No bom Direito de Amar, adaptação de Christopher Isherwood comandada pelo estilista Tom Ford, Julianne encara uma das personagens femininas coloridas pelas quais o escritor ficou conhecido. A amiga de meia-idade do protagonista interpretado com minimalismo exemplar por Colin Firth entra no filme cuidadosamente controlado de Ford como um furacão de comoção – intensa, trágica e patética, Charley é um retrato pintado com pinceladas largas, mas exemplarmente bem colocadas. Ela é o elemento mais gritantemente humano do filme, e os ecos de mágoas do passado que a personagem traz à jornada do protagonista são material farto para uma atriz como Moore, mesmo com o pouco tempo em cena.

Poderia ter acontecido? Teoricamente, sim. O filme de estreia de Tom Ford rendeu indicação a Melhor Ator para Firth, e Moore até foi indicada ao Globo de Ouro, mas a Academia a substituiu na categoria Melhor Atriz Coadjuvante por Maggie Gyllenhaal (Coração Louco).

Já ganhou? A novela de Julianne e o Oscar era uma das mais citadas entre os cinéfilos – até que a atriz finalmente ganhou o prêmio, na quinta indicação, pela atuação em Para Sempre Alice, em 2015.

2008

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Julianne Moore, por Ensaio Sobre a Cegueira

Nós lutamos por um tempo com a perspectiva de incluir a atuação de Moore em Minhas Mães e Meu Pai na lista, mas o papel protagonista pelo qual nós realmente gostaríamos de ter visto Julianne entre as indicadas é esse, na adaptação de José Saramago empreendida pelo brasileiro Fernando Meirelles. Ensaio Sobre a Cegueira é um filme tumultuado, extremo e coalhado de sensações, como manda a própria premissa, e a âncora moral da história, durante todo esse tempo, é a atuação de Moore como a esposa do médico interpretado por Mark Ruffalo (os personagens não ganham nomes). O sofrimento pelo qual a personagem passa é governado por leis tão diferentes daquelas do nosso mundo que talvez, nas mãos de outra atriz, fosse difícil de identificar com ela. Mas não só o diretor Meirelles faz um bom trabalho em nos colocar o tempo todo junto com esses personagens, como Moore realiza um trabalho profundamente humano, que deixa as falhas da personagem aparecerem e sua resiliência nos parecer tão natural quanto extraordinária.

Poderia ter acontecido? A recepção crítica morna do filme de Fernando Meirelles tornou virtualmente impossível que qualquer aspecto dele fosse reconhecido pelo Oscar – uma pena, porque a obra dirigida pelo brasileiro está passando por revisões e reavaliações críticas até hoje.

Já ganhou? Vide a aparição anterior de Julianne na lista.

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Kristin Scott Thomas, por Há Tanto Tempo Que Te Amo

Majestosamente elegante em sua presença em filmes de época durante os anos 90, no auge de seu estrelato, a bela inglesa Kristin Scott Thomas encontrou no papel mais improvável o pico de sua atividade como atriz. Sob a direção crua de Philippe Claudel, e interpretando uma mulher que acaba de sair da cadeia após cumprir pena pelo assassinato do seu próprio filho, na época com 6 anos, Thomas brilha na ambiguidade e na culpa que empresta à personagem. O filme nos deixa no escuro, por boa parte do tempo, sobre os motivos que levaram ao horrendo crime, mas brinca com o espectador ao humanizar intensamente essa mulher da qual não estamos absolutamente dispostos a gostar. Thomas mantem essa ambiguidade, mas ao mesmo tempo parece trilhar uma jornada toda sua durante o filme, observando com olhos cansados as reações adversas daqueles a sua volta, e carregando desafiadoramente um sufocante luto que incomoda justamente por parecer tão fora de lugar. Há Tanto Tempo Que Te Amo contesta cada percepção do espectador, e nenhuma é mais forte que a causada pela performance de Thomas.

Poderia ter acontecido? Deveria. O filme de Claudel quebrou barreiras internacionais quando fez Thomas ser indicada ao Globo de Ouro pelo papel – o reconhecimento do Oscar era bastante esperado, mas acabou não acontecendo. Há Tanto Tempo Que Te Amo não entrou nem na competição por Melhor Filme Estrangeiro.

Já ganhou? Perdeu sua única indicação no mesmo ano em que a co-estrela (e companheira de lista) Juliette Binoche ganhou, por O Paciente Inglês. Desde então, as aventuras britânicas e francesas da atriz não impressionaram a Academia.

2007

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Keri Russell, por Garçonete

Largamente assombrado pelo fantasma do horrível assassinato de sua diretora, Adrienne Shelly, antes do lançamento do longa-metragem, Garçonete é um comovente feel good movie feminista sobre uma mulher que descobre que há maneiras mais definitivas de fugir da realidade de um casamento infeliz do que se afogar nas elaboradas receitas de torta que faz na lanchonete local. Jenna, interpretada por Keri Russell, nunca perde a ternura durante os transformativos eventos do decorrer do filme, mas a performance da atriz dá dicas do endurecimento e da independência que a personagem adquire em momentos sutis. Passeando confortavelmente entre drama e comédia, e excepcionalmente minuciosa em cada momento, Russell e seu sorriso contagiante são a alma e o corpo de Garçonete. Cada passo da trama é seguido de perto pela observação paciente e cuidadosa das reações de Jenna ao que acontece a sua volta, e a adorável inocência da performance de Russell vem escondendo, apropriadamente, uma força e uma inteligência insuspeitas.

Poderia ter acontecido? O filme recebeu bastante amor da crítica especializada, mas como acontece com a maioria das dramédias indie, isso não se traduziu em grandes premiações. Russell, largamente uma character acrtess de TV, tampouco tem o “perfil” que o Oscar procura.

Já ganhou? Está demorando para Russell receber o prestígio que merece. Não só pela atuação em Garçonete, mas ela é sistematicamente ignorada pelo Emmy e pelo Globo de Ouro todos os anos, visto que os votantes se recusam a indicar sua brilhante performance em The Americans.

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Marcia Gay Harden, por O Nevoeiro

Genial e muitas vezes mal-compreendido, O Nevoeiro está começando a passar por reavaliações críticas nos últimos anos. Essa é a hora, portanto, de reconhecer o poderoso trabalho de Marcia Gay Harden no filme, interpretando a fanática religiosa Mrs. Carmody – a atriz, que aliás parece se ajustar excelentemente a tudo o que faz (vide a comédia Trophy Wife, precocemente cancelada pela ABC), encarna o espírito à flor da pele da narrativa de Stephen King e, especialmente, entende o ponto essencial do qual ela pretende tratar. Da sua expressão corporal escorregadia e ameaçadora até o fogo que arde nos olhos de Carmody na infame cena em que ela faz uma oração iluminada por velas no banheiro do supermercado em que todos os personagens estão presos, tudo na performance de Harden grita e esperneia que essa personagem precisa ser entendida como um monstro. Mais sutil e assustadora do que qualquer dos enormes aliens que assombram os personagens de O Nevoeiro, Harden é a pedra fundadora sobre a qual o filme se sustenta.

Poderia ter acontecido? O problema aqui é de gênero cinematográfico: o “filme de monstros” de Darabont jamais se qualificaria, na mentalidade da Academia, para prêmio nenhum. Sem contar que a obra foi subestimada até pela crítica especializada.

Já ganhou? Harden foi indicada duas vezes a Melhor Atriz Coadjuvante e venceu pela cinebiografia Pollock, em 2001. A outra indicação veio três anos depois, pelo papel no drama Sobre Meninos e Lobos, de Clint Eastwood.

3 de mai. de 2015

Person of Interest 4x21: Asylum

Person of Interest - Episode 4.21 - Asylum - Promotional Photos

ATENÇÃO: esse review contem spoilers!

por Caio Coletti

Person of Interest é uma narrativa equipada de uma infinidade de recursos, acumulados durante a cuidadosa elaboração que a série construiu nesses quatro anos no ar. Um dos mais interessantes deles, usado com frequência especial em “Asylum”, é a diferenciação entre as interfaces da Machine criada por Finch e do Samaritan, a inteligência artificial representada por Greer. Nesse pré-season-finale da quarta temporada, a diferença gráfica entre as intervenções das duas máquinas, usadas na transição entre cenas e subplots, como é tradição em Person, diz muito sobre o momento em que a trama da série se encontra. “Asylum” é a culminação do confronto entre essas duas forças formidáveis do mundo ultra-vigiado de Person, um confronto que sempre foi pintado com tintas mitológicas (quase bíblicas) pela série, e que o episódio genialmente reduz a um embate moral, em que o espectador é (re)apresentado ao conceito fundamental da diferença entre os dois sistemas operacionais de vigilância: a atitude em relação aos seres humanos que manipula para alcançar seus objetivos.

Quando a Machine de Finch resolve entregar sua localização para os agentes de Samaritan em troca do bem-estar de dois dos nossos protagonistas, há certa nobreza na derrota que o “lado do bem” sofre. Há certa afirmação de que a compaixão pelo ser humano vale mais do que o controle sobre ele – e Person se destaca por mostrar isso em um contexto tão adverso a esse tipo de pensamento. O mesmo tema corre na subtrama que envolve Reese e Fusco se metendo no meio da guerra entre gangues de Elias e a Brotherhood, especialmente no momento em que o chefão do crime interpretado por Enrico Colantoni desconstrói seu poder para vingar o assassinato de Anthony, seu braço-direito, pelas mãos de Dominic, o líder da Brotherhood. “Asylum” mostra que, quando os personagens de Person são levados pela emoção e pelo impulso, esses dois instintos caminham na direção de dialogar com as relações interpessoais que eles cultivaram através da vida. Acontece com Elias, com Root e com Control, e acontece de maneira negativa com Dominic, que termina o episódio sentindo na pele as consequências de confiar em informações ao invés de pessoas.

O roteiro de Andy Callahan (4x12, “Control-Alt-Delete” – review) e Denise Thé (4x11, “If-Then-Else” – review) faz um bom trabalho em nos trazer esse prólogo intensamente emocional para os acontecimentos sem dúvida bombásticos do finale da próxima terça-feira. Pegando as dicas do antecessor de “Asylum”, o brilhante “Terra Incognita” (review) o script resgata a dimensão mais humana de Person of Interest e transforma a série, que vacilou entre gêneros e tons durante toda a temporada, em uma ficção científica no melhor sentido da palavra. É ao refletir quem somos como seres humanos, e mostrar de que forma isso se infiltra na situação extraordinária que retrata, que Person se torna uma legítima representante do gênero que encarnou durante todo esse ano. Há algo na mensagem de “vocês não são trocáveis” da Machine para Finch e Root que fala diretamente com a insistência da ficção em reafirmar o caráter extraordinário da humanidade e das peculiaridades essenciais que carregamos.

Person quer nos dizer que somos especiais, mesmo que nos mostre, semana após semana, que também podemos fazer muito mal uns aos outros. É preciso admirar uma narrativa assim.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

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Próximo Person of Interest: 4x22 – YHWH (05/05)

2 de mai. de 2015

Gotham 1x21: The Anvil or the Hammer

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ATENÇÃO: esse review contem spoilers!

por Caio Coletti

Depois de algumas semanas nas quais, apesar da geral competência na hora de construir e lidar com os personagens e temas de seu cenário, Gotham havia deixado para trás o tom mais sombrio de algumas das desventuras urbanas que retratou no início da temporada, o arco envolvendo o assassino The Ogre, interpretado por Milo Ventimiglia, pareceu trazer de volta o espírito sujo e perturbador da produção da Fox. Em seus melhores momentos, Gotham é uma peça quase sórdida de narrativa, tirando um prazer estranho do ato de observar seus personagens serem corrompidos e chafurdarem em uma lama de corrupção, violência e psicopatia. Ao mesmo tempo, também em seus melhores momentos, a série dá um jeito de ser um conto de retidão moral exemplar, retratando seus vilões e mocinhos (sem aspas mesmo) da forma como eles são, pelos princípios que eles seguem. Há certa anarquia na forma como o caminho dessa moral não é imaculada, como se a sujeira da metrópole Gotham City fosse contagiosa, mas a prerrogativa fundamental da bondade ou maldade desses personagens continua aqui, como em qualquer boa HQ de super-heróis.

Vamos falar do próprio Ogre, para começar, e da atuação de Ventimiglia, um ator que muita gente ridiculariza até hoje pelo papel fraco que desempenhou na (afamada e mal-afamada) Heroes. Aqui, é notável a forma como o californiano encarnou a mitologia que a série construiu para seu Jason Lennon, calculando as expressões e a forma de se movimentar para a suave sedução, com o fundo perigoso (demais), que o personagem representa. Ventimiglia nunca realmente perde o controle em cena, refletindo o fato de que a psicopatia de Jason é muito mais fria e calculada do que desvairada como a de outros personagens notáveis do universo do Batman. Uma pena que o clímax de “The Anvil or the Hammer” elimine o personagem de Ventimiglia, que parece ter causado um desequilíbrio emocional transformador em Barbara – resta esperar os próximos episódios para ver o quanto Gotham está disposta a seguir esse caminho perturbador e sério de narrativa.

Por outro lado, o episódio também faz um bom trabalho ao seguir o script ditado pelo seu antecessor, “Under the Knife” (review) no sentido de emprestar ao futuro Charada, o Edward Nygma interpretado por Cory Michael Smith, uma storyline mais densa e sombras da personalidade extrema que ele vai representar no futuro. Não só o ator faz um trabalho formidável nas cenas em que o episódio lhe dá essa oportunidade, como o roteiro e a direção do sempre ótimo Paul Edwards (1x08, “The Mask” – review) fazem questão de fazer dessas cenas algumas das mais gráficas que Gotham já ousou mostrar. “The Anvil or the Hammer” é talvez o episódio mais gory e violento dessa primeira temporada da série da FOX, e não é que isso o empreste credibilidade automaticamente, mas como esse não é um prestige drama em uma emissora de TV fechada que aspira a uma braçada de Emmys no final do ano, a técnica nada sutil funciona muito bem – e o resultado é mais uma hora de televisão que retrata com contundência a forma como a violência é retroalimentada pela corrupção em Gotham City, e como é difícil mesmo para os mais nobres entre os cidadãos da metrópole quebrar esse ciclo vicioso.

Nessa engrenagem maligna podem incluir as empresas Wayne, que começam a ser desmascaradas pelo jovem Bruce quando o executivo que contratou Reggie para espionar a mansão Wayne confidencia ao personagem de David Mazouz que tanto o pai do garoto quanto o avô (e, presumivelmente, todos os CEOs da Wayne antes deles) sabiam dos negócios ilegais da empresa, e escolhiam fazer vista grossa. Ao mesmo tempo, as maquinações do Pinguim durante toda a temporada chegam ao seu ápice quando ele, sozinho, começa uma guerra de gangues descarada entre Maroni e Falcone. O personagem astuto de Robin Lord Taylor é sempre uma figura pivotal em Gotham, e não é a toa: ele é também a pessoa para se seguir quando se quer entender o destino e o funcionamento da metrópole em que a série se passa. Sempre intimamente conectada com seu cenário, a trama da FOX encosta no final da sua temporada mais coerente e interessante do que nunca.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

GOTHAM: Bruce (David Mazouz) looks deeper into his father’s past in the “All Happy Families Are Alike” episode of GOTHAM airing Monday, May 4 (8:00-9:00 PM ET/PT) on FOX. ©2015 Fox Broadcasting Co. Cr: Jessica Miglio/FOX

Próximo Gotham: 1x22 – All Happy Families Are Alike (04/05)