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Review: Me Chame Pelo Seu Nome

Luca Guadagnino cria o filme mais sensual (e importante) do ano.

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Mais uma obra-prima da roteirista mais talentosa da nossa década.

Review: Liga da Justiça

É verdade: o novo filme da DC seria melhor se não tivesse uma Warner (e um Joss Whedon) no caminho.

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3 de dez. de 2016

Review: Animais Fantásticos demora para se encontrar, mas é mágico quando consegue

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por Caio Coletti

Às vezes, nós críticos nos perdemos tanto em análises e análises sobre como a saga Harry Potter marcou uma geração (e de fato é fascinante pensar e falar sobre isso) que esquecemos do fato de que J.K. Rowling é uma das melhores contadoras de histórias em atividade na literatura popular. É um caso clássico de se concentrar no impacto de uma obra ao invés de seu conteúdo ou sua técnica, mas assistir Animais Fantásticos e Onde Habitam é simultaneamente uma lembrança da absurda habilidade de Rowling em tecer histórias e um aviso de que ela também é capaz de falhar. Essa expansão/prelúdio da saga Harry Potter explora terrenos desconhecidos para a autora, e isso fica claro na primeira meia hora de filme, quando Rowling parece estar procurando pela história que quer contar.

O filme começa com Newt Scamander (Eddie Redmayne) chegando à Nova York dos anos 20 com uma maleta mágica cheia dos animais fantásticos do título, espécies que só existem no mundo bruxo. A tranca mais que frouxa da mala é o dispositivo de plot que Rowling usa para colocar em movimento uma trama que se conecta profundamente com o passado da saga, e também com seus temas. Quando finalmente se encontra, após fazer a introdução de personagens e situações, Animais Fantásticos é cheio daquela magia típica da escrita de Rowling, um prazer que mistura a intimidade com os personagens e a sensação de assistir enquanto todas as peças aparentemente desconectadas se juntam em uma exploração de tema e trama perfeita.

Animais Fantásticos tem questões sérias para discutir sobre opressão e as formas insuspeitas que ela muitas vezes toma, além dos nada belos resultados dela nos indivíduos. Rowling sabe que, ao viajar para o passado (muito mais do que viajar para o outro lado do Atlântico), uma adaptação social precisaria ser feita no mundo bruxo, e se aproveita da localização nos anos 20 para inverter a situação do preconceito que vimos na saga Harry Potter – aqui, a “caça aos bruxos” é muito mais literal que metafórica, e Rowling é mais uma vez esperta em sua construção de universo ao retratar a perseguição social que levaria ao preconceito no universo que conhecemos, de décadas mais tarde. É um círculo vicioso de ódio que a autora revela aqui, uma observação aguda da forma como a nossa sociedade funciona.

Ajuda que Rowling continue colocando os outsiders como seus campeões e heróis – o perpetuamente constrangido Scamander, interpretado com os maneirismos adoráveis usuais por Redmayne, é apenas um condutor para o público se conectar a personagens como a subestimada ex-Aurora Tina (Katherine Waterston), a excêntrica leitora de mentes Queenie (Alison Sudol), o caloroso e fracassado Kowalski (Dan Fogler), e até o terrivelmente reprimido Credence (Ezra Miller). Cada um desses atores traz um elemento diferente que contribuí para a forte miscelânea de estilos do filme, que só não parece mais vibrante porque o diretor David Yates, que comandou as quatro derradeiras aventuras de Harry Potter, insiste em um visual e mise-en-scene de poucas intervenções estilísticas.

Não significa, é claro, que o trabalho de figurino da sempre espetacular Colleen Atwood não brilhe, assim como o esforço da equipe de efeitos especiais ao criar criaturas críveis inseridas em visuais de encher os olhos. Animais Fantásticos é um caldeirão de criatividade conduzido por uma força unificadora (Yates) talvez centrada demais para seu próprio bem, mas funciona como filme, entretenimento e pedaço de narrativa pop assim que encontra seu rumo como história. A expectativa de outros quatro capítulos dessa nova saga é excitante especialmente para ver o que a mente de Rowling pode tramar tendo tirado as introduções e caracterizações do caminho.

Deixamos esse último parágrafo pra endereçar o “elefante na sala”, que atende pelo nome de Johnny Depp – o ator, recentemente acusado de violência doméstica pela agora ex-esposa Amber Heard, aparece por poucos minutos no final do filme (não se preocupe, não vamos “estragar” a surpresa aqui), mas deve ter papel maior nas continuações. E sim, a escalação dele diz algo sobre o quanto produtores, estúdios e até criadores que amamos em Hollywood realmente se importam com questões sociais, mas a verdade é que histórias transcendem aqueles que as contam. Animais Fantásticos é sobre a unidade superando o medo, mesmo em um mundo mais adulto e cruel do que o de Harry Potter, e o tempo vai transformar Johnny Depp, assim como transformou a cruel vilã Mary Lou (Samantha Morton), em uma nota de rodapé nessa história.

✰✰✰✰ (4/5)

FANTASTIC BEASTS AND WHERE TO FIND THEM

Animais Fantásticos e Onde Habitam (Fantastic Beasts and Where to Find Them, Inglaterra/EUA, 2016)
Direção: David Yates
Roteiro: J.K. Rowling
Elenco: Eddie Redmayne, Katherine Waterston, Alison Sudol, Dan Fogler, Colin Farrell, Ezra Miller, Samantha Morton, Carmen Ejogo, Jon Voight, Johnny Depp
133 minutos

11 de mai. de 2015

As melhores atuações masculinas não indicadas ao Oscar dos últimos 10 anos (2005-2015)

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por Caio Coletti

Esses dias eu estava passeando pelo meu próprio Filmow (eu sei que você também se stalkeia nas redes sociais, não adianta fingir!) e me dei conta do monte de atuações brilhantes que eu vi nos últimos 10 anos de cinefilia. E me dei conta também da quantidade pequena delas que havia sido indicada ao prêmio-maior do mundo cinematográfico, ou ao menos o que tem maior visibilidade – o Oscar distribuído todos os anos pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas americana ignorou sistematicamente (ou quase indicou) todas essas interpretações aí embaixo, e como a lista original tinha dado quase 30 rankeados, decidi dividí-la em dois posts.

O post com a lista de atuações femininas que deveriam ter entrado na lista da Academia você pode ver aqui, e agora é a vez dos homens. Vamos lá:

2014

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Jake Gyllenhaal, por O Abutre

Nós já dissertamos bastante sobre o esquecimento da Academia ao não indicar Jake Gyllenhaal, e o que isso significa no sentido do personagem representar um lado feio do sonho americano que talvez o Oscar não queira mostrar para o mundo. Resta falarmos, então, sobre a excelência da performance de Gyllenhaal no filme, e o processo metódico que levou a ela: o espectador atento deve notar que o ator raramente pisca em cena, uma estratégia que Gyllenhaal já havia usado no clássico cult Donnie Darko, e que só sublinha as tendências quase (ou completamente) sociopáticas da ambição de Lou Bloom. Outro caso interessante é a cena em que o protagonista explode em fúria na frente do espelho, eventualmente quebrando-o – reportadamente, a cena não estava no script (perfeito) de Dan Gilroy, sendo totalmente improvisada por Gyllenhaal, que se cortou gravemente no processo. Se isso não é dedicação o bastante para a Academia (e nós nem falamos dos aspectos mais sutis da performance, como a cadência da fala e a linguagem corporal), não sabemos o que é.

Poderia ter acontecido? Deveria, mas a competição estava tão acirrada na categoria de Melhor Ator nesse ano que ficou difícil cavar uma vaga para Gyllenhaal. O ator foi indicado ao Globo de Ouro, enquanto o filme só foi lembrado pela Academia em Melhor Roteiro Original.

Já ganhou? Jake está entrando agora na melhor fase de sua carreira, com escolhas ousadas e bem calculadas de filmes e um amadurecimento interpretativo incrível, então vamos esperar. Por enquanto, ele só foi indicado pela performance de coadjuvante em O Segredo de Brokeback Mountain.

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David Oyelowo, por Selma

Martin Luther King Jr, uma figura de suma importância na história americana, nunca havia ganhado uma versão cinematográfica antes. A negligência de Hollywood quanto à história de King é um daqueles sinais alarmantes de que a indústria do cinema, e de fato os Estados Unidos como um todo, ainda são um país cujas raízes racistas continuam envenenando a atualidade. Um sinal menos sutil do mesmo processo são os ataques de policiais a jovens negros que culminaram no climático episódio ocorrido em Ferguson, no Missouri. Essa atualidade só faz de Selma um filme mais importante, e da performance de David Oyelowo nele mais corajosa – compondo um Martin Luther King desafiadoramente humano, o ator parece querer nos dizer que mesmo um homem profundamente falho pode ser inspirador e decisivo para as mudanças sociais das quais o mundo ao redor dele precisa. O filme não esconde as infidelidades de King à mulher, por exemplo, e nem por isso o faz menos admirável. Pelo contrário: na pele de Oyelowo, o Pastor King é um líder formidável justamente por não ser superior àqueles que comanda.

Poderia ter acontecido? Oyelowo é mais um que ficou no meio do caminho na competição fatal por Melhor Ator em 2015. Mesmo assim, há a questão maior de Selma ter sido largamente ignorado nas outras categorias, devido provavelmente ao tema delicado para os americanos.

Já ganhou? Antes de Selma, Oyelowo só havia aparecido em papéis de pequenos destaque em filmes como Interestelar, Jack Reacher e O Último Rei da Escócia. Ainda não chegou a vez dele, mas é uma aposta para os próximos anos.

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Timothy Spall, por Sr. Turner

2014 foi um ano cheio de performances complexas em filmes difíceis, que escapavam das regras convencionais de narrativa e traziam reflexões raramente vistas no cinema. No furor de reconhecer Boyhood e Birdman (ainda dois dos nossos preferidos do ano), Sr. Turner ficou de fora da disputa, com seu charme e sua experimentação mais discreta, bem ao estilo do diretor britânico Mike Leigh. E em meio ao esquecimento, a performance absolutamente superlativa de Timothy Spall também não encontrou seu caminho para as principais premiações da temporada – o ator, conhecido pelo papel na franquia Harry Potter, encarna com convicção e ao mesmo tempo algum distanciamento a personalidade difícil do pintor J.W.W. Turner. A composição do personagem é cuidadosa: da maquiagem, cabelo e figurino nada glamurosos ao constante pigarreio que acompanha as falas resmungadas por Spall, é nos pequenos detalhes e expressões que a performance realmente encontra a humanidade do personagem, e na duração monumental do filme que ela se consolida, com toda a paciência, e uma das melhores dos últimos anos.

Poderia ter acontecido? Até poderia, principalmente porque os filmes de Mike Leigh costumam render indicações a seus atores, e porque Spall levou o prêmio de atuação em Cannes. Mesmo assim, entre a competição acirrada na categoria e o low profile do filme, Spall ficou fora da lista.

Já ganhou? Spall é um dos character actors mais respeitados da Inglaterra e, aos 58 anos, já estava na hora da Academia escolher alguma das ótimas interpretações do moço em filmes britânicos e adotar para si. O ator londrino nunca foi indicado ao Oscar.

2013

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Tom Hanks, por Capitão Phillips

Há algum tempo que Tom Hanks não apresentava uma grande performance no cinema. Os inícios de década parecem ser bons para o ator, no entanto, uma vez que Capitão Phillips colocou-o em um dos papéis menos arquetípicos de sua carreira e lembrou o público que poucos atores são capazes de se comparar a ele quando está em um bom momento. O filme de Paul Greengrass é excepcionalmente tenso, mas acima de tudo obstinadamente anti-maniqueista, ao retratar a relação entre o capitão americano e o pirata somali interpretado pelo ótimo Barkhad Abdi, esse sim lembrado pelo Oscar. Ambos são homens orgulhosos e, de certa forma, donos de um olhar clínico para a humanidade daqueles a sua volta. A expressividade de Hanks, e a capacidade de dialogar com o espectador o tempo todo, ajuda o protagonista de Greengrass a se tornar uma figura imponente em tela, ainda que cheia de empatia. A cena final, em que Phillips é mostrado em estado de choque, é simbólica, mas o filme todo é uma tour de force de um dos melhores atores americanos em atividade.

Poderia ter acontecido? Bastante gente chiou quando não aconteceu. Capitão Phillips marcou a oitava indicação de Hanks ao Globo de Ouro, e ao que tudo indicava a performance, junto com aquela que o ator entregou em Walt nos Bastidores de Mary Poppins, levaria Hanks a ser lembrado pelo Oscar. Não rolou.

Já ganhou? Hanks é um de dois atores a vencer o Oscar dois anos consecutivos (por Filadélfia e Forrest Gump, em 1994 e 1995) – o outro é Spencer Tracy, que levou em 1938 e 1939. Outras três indicações completam o currículo do ator, por Náufrago, O Resgate do Soldado Ryan e Quero Ser Grande.

RUSH

Daniel Brühl, por Rush: No Limite da Emoção

Nascido na Espanha mas levado pelos pais para a Alemanha ainda na infância, Daniel Brühl construiu uma carreira brilhante no país natal desde jovem (a estreia foi aos 17 anos), e se tornou uma aposta certa para o estrelato depois de Adeus, Lênin ter se tornado um hit internacional, em 2003. Desde então, em papéis ainda coadjuvantes, Brühl mostrou versatilidade de gêneros e uma excelência notável de encarnar o espírito mais intrínseco de seus personagens em tela. Seja como o patético astro de cinema de Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino, ou como o parceiro do Julian Assange de Benedict Cumberbatch em O Quinto Poder, Brühl traz convicções fortes às construções de seus personagens, e dialoga brilhantemente com o espectador na construção da nossa percepção sobre ele. O mesmo vale para a performance brilhante em Rush, na qual representa um Nikki Lauda extraordinariamente resiliente e, acima de tudo, corajosamente peculiar. Seu retrato de um outsider de talento excepcional não é só adorável – é também inspirador.

Poderia ter acontecido? Indicado ao Globo de Ouro e ao BAFTA pela performance, era esperado que Brühl fosse também reconhecido pelo Oscar. Como a Academia parece ter ignorado Rush como um todo, o ator alemão também acabou não sendo lembrado.

Já ganhou? Ainda não, mas os elogios que recebe da crítica a cada nova atuação apontam para um futuro brilhante para Brühl, que está com 37 anos.

2012

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Jean-Louis Trintignant, por Amor

Dois gigantes octogenários do cinema francês estrelam Amor, neoclássico de Michael Haneke que se tornou o filme obrigatório de 2012 depois de vencer a Palma de Ouro em Cannes. No entanto, a performance de Emmanuelle Riva como a adoentada Anne ganhou muito mais reconhecimento do que a atuação de seu companheiro de cena, Jean-Louis Trintignant, como o marido Georges. São desempenhos complementares, e igualmente notáveis: os trejeitos e o retrato realista que Riva faz da deterioração de Anne são comoventes, mas é na perduração de Georges que o filme encontra seu elemento mais amargo. Trintignant encontra o tom certo para o filme terno e ínspido (ao mesmo tempo) de Haneke, corajosamente retratando as ramificações do amor de Georges por Anne, e as consequências que esse sentimento traz ao final da vida da esposa. A performance do ator é discreta e expressiva, encontrando nos detalhes e nos momentos menores a fundação da estatura do personagem, que se agiganta no final do filme. Ao contrário de Georges, no entanto, Trintignant é excepcional durante toda a metragem de Amor.

Poderia ter acontecido? Com o impacto que Amour teve no prêmio da Academia, poderia. Até os prêmios estrangeiros, no entanto, deixaram de lado a performance de Trintignant em virtude de reconhecer o trabalho de Emmanuelle Riva.

Já ganhou? Vencedor de um César, e de prêmios de Melhor Ator em Berlim e Cannes, Trintignant sempre concentrou sua carreira no cinema de arte francês, um nicho que, infelizmente, é pouco reconhecido pela Academia.

Film Review The Perks of Being a Wallflower

Logan Lerman, por As Vantagens de Ser Invisível

Adaptação de um clássico da literatura juvenil, e um dos poucos casos em que um autor teve a oportunidade de escrever e dirigir o filme baseado em sua obra, As Vantagens de Ser Invisível é um filme de sensibilidade e sutileza notáveis. Entende o mundo adolescente de forma incomparável, e especialmente de uma geração tão enigmática e dona de um olhar tão peculiar sobre o mundo – uma das decisões mais acertadas em relação a esse aspecto da adaptação foi a escalação de Logan Lerman como o protagonista e narrador Charlie. Introspectivo e traumatizado por uma série de acontecimentos do passado, o personagem enxerga o mundo com a clareza e a sensibilidade de um artista, mas vê sua estatura diminuir quando é confrontado com questões do mundo real. Lerman interpreta essa fragilidade de forma excepcionalmente expressiva, e ao mesmo tempo quietamente charmosa, caminhando junto com a simpatia que o roteiro pede que tenhamos por Charlie e entendendo, em um olhar de fora para dentro, a intenção da narrativa de encapsular, sem subestimar, os dramas da adolescência.

Poderia ter acontecido? Ignoradíssimo pela Academia (como costuma acontecer com todos os filmes sobre jovens, independente da qualidade), As Vantagens de Ser Invisível não cavou nenhuma vaga na lista da Academia, então uma indicação para Logan seria pedir demais.

Já ganhou? Aos 23 anos, Logan está sob os holofotes há menos de uma década, e só tem feito escolhas mais interessantes (o drama de guerra Coração de Ferro) recentemente, então vamos esperar mais um pouco.

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Ewan McGregor, por O Impossível

Sim, nós sabemos que Naomi Watts está excepcional como a matriarca da família separada pelo tsunami da Indonésia em O Impossível, o emocionante épico de J.A. Bayona (O Orfanato). Isso não é motivo para diminuir a performance extraordinária de Ewan McGregor como o marido da personagem de Watts e pai dos três filhos que completam a família principal do filme. Em uma cena especialmente brutal, McGregor conversa com o sogro por telefone, e é obrigado a confessar para ele que não sabe do paradeiro da esposa, filha do seu interlocutor. A vulnerabilidade, o profundo medo e a sensação de desapontamento consigo mesmo que McGregor expressa sem nenhum vestígio de vaidade masculina é o momento mais ressonante de uma performance que se caracteriza pela determinação tanto quanto pela sensibilidade. A escalação do escocês no papel principal de O Impossível só pode ser descrita como um golpe de mestre: McGregor é um dos poucos atores, hoje em dia, capazes de expressar coragem sem cair no heroísmo fácil dos galãs hollywoodianos. No filme angustiante e realista que Bayona fez, isso faz toda diferença.

Poderia ter acontecido? Talvez, se a Academia gostasse mais de Ewan. O filme rendeu indicação a Naomi Watts e o ator escocês havia sido nomeado ao Globo de Ouro no mesmo ano, pela comédia romântica Amor Impossível.

Já ganhou? Pasmem, mas não. Ok, Ewan não é o mais consistente dos atores, mas sua carreira está cheia de performances marcantes que deveriam ter rendido pelo menos indicações por parte da Academia. Duas no Globo de Ouro, uma no Emmy, mas nada de Oscar por enquanto.

2011

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Ryan Gosling, por Tudo Pelo Poder

Talvez a segunda melhor investida de George Clooney na direção (depois de Boa Noite e Boa Sorte, é claro), Tudo Pelo Poder passou em branco pelo olhar dos votantes da Academia, talvez pelo caráter contestador em uma época em que os Estados Unidos ainda se viam mergulhados na utopia da primeira gestão Obama. A performance de Ryan Gosling no filme, como um assistente de campanha ingênuo que aos poucos vai ganhando conhecimento das corrupções e enganações ao seu redor, não só é central para a mensagem do filme como é também um show a parte. O ator empresta mais do que algumas dicas da atuação de Al Pacino no primeiro O Poderoso Chefão, construindo o seu arco de personagem de forma parecida com àquele que Coppola desenhou para Michael Corleone e trabalhando brilhantemente o minimalismo (de forma parecida com a qual faria em Drive, no mesmo ano de 2011) para expressar a transformação pela qual o personagem passa enquanto os títeres políticos ao seu redor andam em círculos, aparentemente sem muita consciência do destino para o qual se dirigem.

Poderia ter acontecido? Com a recepção gélida que o filme ganhou do prêmio da Academia, não. No entanto, Gosling foi indicado ao Globo de Ouro pelo papel, e a outros seis prêmios de associações de críticos regionais.

Já ganhou? A única indicação de Gosling até agora foi pelo filme que o revelou para o cinema “sério”, o drama indie Half Nelson, em 2007. O ator foi lembrado outras 4 vezes pelo Globo de Ouro, mas nenhuma delas se converteu em indicação para o Oscar.

2010

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Andrew Garfield, por Não Me Abandone Jamais

Estrelado por três dos melhores atores jovens do momento (Garfield, Keira Knightley e Carey Mulligan), Não Me Abaonde Jamais é uma das mais atípicas e bem escritas ficções científicas dos últimos anos, e muito disso se deve ao trio principal. A melhor interpretação entre os três, argumentadamente, é a de Andrew Garfield como o doce Tommy, um dos clones criados por uma poderosa corporação para substituir órgãos vitais de algum ricaço com desejo de semi-imortalidade. A história, que já foi contada algumas vezes pelo cinema de ficção científica, deságua em um triângulo amoroso entre os três atores, e tudo soa muito mais interessante do que parece graças ao roteiro e à expressividade das atuações. Garfield é um adorável “garoto sensível” na primeira metade do filme, e absorve toda a tragédia do destino do seu personagem, lidando com a intensidade de Keira e a serenidade Carey, no final. Preso no meio dessas duas co-estrelas radicalmente diferentes, o ator californiano usa seu estilo bastante naturalista para equilibrar o filme e provê-lo de seus momentos mais honestamente tocantes.

Poderia ter acontecido? O pouco alcance que o filme teve na época do lançamento atrapalhou quaisquer chances de indicação para a ficção científica alternativa de Mark Romanek. Com uma campanha de marketing melhor, talvez tivesse sido outra história.

Já ganhou? Garfield foi lembrado no Globo de Ouro pela performance em A Rede Social, mas em meio a todo o furor do filme, os votantes da Academia se esqueceram dele. Ele também tem um BAFTA, pela atuação no telefilme Boy A, em 2008.

2008

In Bruges (2008)
Colin Farrell

Colin Farrell, por Na Mira do Chefe

Escalado quase sempre como um galã com charme “perigoso” no começo da carreira, o irlandês Colin Farrell viu sua carreira mudar de figura ao encarar o protagonista de Na Mira do Chefe, dramédia deliciosamente idiossincrática do roteirista-diretor Martin McDonagh. Na pele de um assassino de aluguel preso na cidade mais bucólica, úmida e estereotipicamente bela da Bélgica, cheio de culpa depois de um serviço mal-feito, Farrell entrega uma interpretação que é infinitamente divertida, ao mesmo tempo em que não deixa escapar a tragédia de um despertar de consciência para alguém com a “profissão” de seu personagem. O filme vai longe na tentativa de retratar tais consequências, jamais se acanhando de chocar o espectador com um plot tão sombrio em um filme essencialmente cômico, mas é na performance de Farrell que o roteiro de McDonagh encontra seu ponto de equilíbrio. O galã meio gaiato de filmes como A Hora do Espanto se mostrou um ator em pleno domínio de suas habilidades nesse filme, e tal evolução passar em branco pela Academia é quase um pecado imperdoável.

Poderia ter acontecido? Poderia, visto que Farrell venceu o Globo de Ouro e saudado pela crítica como uma das atuações mais complexas daquele ano. A Academia não comprou muito o filme de McDonagh, no entanto, dando indicação apenas a Melhor Roteiro Original.

Já ganhou? Surpreendentemente, Farrell nunca foi nem indicado ao Oscar. Desde Na Mira do Chefe que as escolhas do moço tem sido mais interessantes, especialmente a boa performance coadjuvante em Walt nos Bastidores de Mary Poppins. Resta esperar pelos próximos anos.

2007

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Brad Pitt, por O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford

Em pelo menos um sentido, Brad Pitt nasceu para interpretar o fora-da-lei Jesse James. Talvez a primeira grande celebridade americana, na época do Velho Oeste, o lendário líder de uma gangue criminosa tem exatamente a aura que um dos maiores astros de Hollywood é perfeito para encarnar. No surpreendente western dirigido por Andrew Dominik, no entanto, o ator prova seu talento ao escavar mais fundo na psique do perturbado assaltante de trens que se tornou um verdadeiro mito americano. O filme de Dominik desconstrói a inveja e a mesquinhez que levou Bob Ford (Casey Affleck, brilhante) a alvejar o líder da gangue para a qual “trabalhava”, e de sua forma bem contemplativa é um estudo dos efeitos que o carisma e o magnetismo podem causar no destino de um homem. Pitt finca os dentes com gosto nesse material, interpretando James como um galã terrivelmente engajador, um sujeito que não dispensa gentilezas mas emana uma energia dominante muito forte – e, acima de tudo, um homem com consciência de sua trágica sina.

Poderia ter acontecido? A maior parte da crítica americana acha que deveria. A atuação de Casey Affleck e o trabalho de Roger Deakins na fotografia foram lembrados, e era esperado que Pitt cavasse sua quarta indicação ao Oscar pela atuação.

Já ganhou? Como dito acima, Pitt tem três nomeações aos prêmios de atuação (por Doze Macacos, O Curioso Caso de Benjamin Button e O Homem que Mudou o Jogo), mas até agora só levou a estatueta como produtor, quando 12 Anos de Escravidão venceu Melhor Filme em 2014.

2006

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Steve Carell, por Pequena Miss Sunshine

Steve Carell é um dos atores mais completos e interessantes a surgirem nos últimos tempos, e isso não é nenhum exagero. Extremamente eficiente quando o assunto é comédia, o ator cada vez mais se prova em outras áreas do cinema – se o filme fosse um pouco mais convencionalmente premiável, sua atuação em Dan in Real Life seria igualmente elegível para o prêmio da Academia. É no papel coadjuvante no seminal Pequena Miss Sunshine, interpretando um tio gay que recentemente tentou suicídio, que Carell brilha mais. Os efeitos cômicos da “corrida” do seu personagem são geniais, mas é na constante melancolia e no insistente cinismo que o personagem carrega que Carell triunfa – especialmente porque deixa espaço para caracterizá-lo, como todos os outros membros da família protagonista do filme, como um ser humano desesperadamente buscando fazer as pazes com o caráter trágico da vida. Num filme que discute a legitimidade de separar pessoas entre “vencedores” e “perdedores”, a atuação tremendamente ambígua de Carell cai como uma luva, é inegavelmente brilhante

Poderia ter acontecido? Visto o barulho que o filme fez na premiação em 2007, talvez até pudesse. No entanto, é preciso mais do que uma comédia dramática para a Academia levar a sério um ator que apareceu para o mainstream como comediante.

Já ganhou? Não, mas Carell pelo menos fez os votantes do prêmio o levarem a sério por sua performance em Foxcatcher, nesse último ano. Se as escolhas do moço continuarem sendo mais convencionais, quem sabe a estatueta acabe mesmo nas mãos dele.

21 de abr. de 2015

10 filmes que Cannes 2015 vai ver (e você também deveria)

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por Caio Coletti

Como acontece todo ano, sem falta, ficamos louquinhos com o listão de selecionados para o Festival de Cannes, que vai rolar nos próximos dias 13 a 24 de Maio, na Riviera francesa. E como é nossa tradição desde 2013, fizemos das tripas coração para comprimir a seleção awesome comandada pelos presidentes do júri Joel e Ethan Coen (diretores de Queime Depois de Ler, Onde os Fracos Não tem Vez e vários clássicos da cinematografia americana) em apenas 10 filmes essenciais. O mais bacana de compilar essa lista todos os anos é entrar em contato com as obras escolhidas de países e regiões do mundo que nem sempre recebem a devida atenção do circuito de cinema mainstream, e esperamos poder passar um pouquinho dessa abertura de horizontes pra vocês.

Vamos aos dados, então. Para começar, o pôster dessa que é a 68º edição do festival mais importante do mundo é esse aí em cima, estrelado pela maravilhosa da Ingrid Bergman, que todo mundo conhece por Casablanca e pelas colaborações com Alfred Hitchcock (Interlúdio e Quando Fala o Coração). Essa sueca ganhou três Oscar na carreira (número superado, entre as atrizes, só pela Katherine Hepburn), e faria 100 anos de vida no próximo dia 29 de Agosto. Infelizmente, Bergman morreu em 1982, aos 67 anos. Enquanto a homensagem do pôster vai merecidamente para ela, a escolha de dar a presidência do júri para os irmãos Coen consolida um caso de amor longo do festival com o cinema desses americanos – os dois já tiveram sete seleções para a competição principal, duas vitórias na corrida pela Palma de Ouro, e um prêmio de direção.

Nomes bem díspares de várias áreas do cinema completam o júri, como de costume: as atrizes Sophie Marceau (França), Sienna Miller (Inglaterra) e Rossy de Palma (Espanha), os diretores Guillermo Del Toro (México) e Xavier Dolan (Canadá), o ator Jake Gyllenhaal (EUA) e a compositora de trilhas-sonoras Rokia Taoré (Mali). No comando da mostra Un Certain Regard, mais concorrida das exibições paralelas à competição principal, a diva italiana Isabella Rossellini (Veludo Azul) criou uma seleção bastante fiel ao espírito da Un Certain Regard, cheia de cineastas independentes e possíveis surpresas.

Para manter nossa lista enxuta, acabamos cortando os filmes dessas mostras paralelas, mas vale a pena ficar de olho na Un Certain Regard. Também deixamos de fora, inclusive, algumas estreias aguardadas que estarão fora da competição principal, mas prometem fazer barulho: achamos que filmes como Irrational Man (o novo do Woody Allen), Inside Out (da Pixar), Mad Max: Fury Road e The Little Prince serão escolhas óbvias quando chegarem aos cinemas, e resolvemos focar em filmes importantes e que talvez não tenham ainda chamado a atenção do público. Vamos lá?

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La Tête Haute (Standing Tall)
Filme de abertura

La Tête Haute é o primeiro filme dirigido por uma mulher a ganhar a honra de ser a abertura do Festival de Cannes desde 1987 (na época, a festa começou com A Man in Love, de Diane Kurys). É também o primeiro filme francês a abrir o festival desde 2005 – boatos circulam que o manda-chuva de Cannes, Pierre Lascure, estava procurando por um filme mais low profile para abrir a 68º edição da festa, depois de uma série de filmes estrelados (Grace of Monaco, Gatsby, Moonrise Kingdom). A obra escolhida chega com o pedigree da diretora e atriz Emmanuelle Bercot, que estreou seu filme anterior, Ela Vai, no Festival de Berlim de 2008 – ambos são estrelados por Catherine Deneuve, a diva do cinema francês que ficou conhecida por aqui pela participação em Dançando no Escuro, de Lars Von Trier. Em La Tête Haute ela interpreta uma juiza que cuida do caso de uma delinquente infantil – o filme acompanha a garota protagonista entre os 6 e os 18 anos.

Il Racconto Dei Racconti (The Tale of Tales)
Competição pela Palma de Ouro

Nessa primeira escolha nossa da lista de “indicados” para a Palma de Ouro ficam claras duas tendências favorecidas pelos irmãos Coen: os filmes com inclinação bizarra e as aventuras de diretores estrangeiros no âmbito internacional (com filmes falados em inglês, em oposição a língua natal dos realizadores). The Tale of Tales é a estreia fora da Itália de Matteo Garrone, que fez muito marulho em 2008 com Gomorra, vencedor do prêmio do júri em Cannes e um dos filmes italianos mais falados dos últimos anos. O estilo bem particular que guiou aquele filme reaparece no trailer desse novo, estrelado por nomes de diversas nacionalidades como Salma Hayek (México), John C. Reilly (EUA), Toby Jones (Inglaterra) e Vincent Cassel (França). A história de fantasia, abordada de forma crua pelo diretor e com um design de produção belíssimo, se baseia em uma coleção de contos de fada famosa na Itália, o Pentamerone.

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The Lobster
Competição pela Palma de Ouro

Mais uma estreia estrangeira no cinema americano: Yorgos Lanthimos, um jovem diretor grego que ganhou aclamação crítica pelo seu incômodo Dente Canino (premiado na Un Certain Regard em 2009), estreia também na seleção principal de Cannes com The Lobster, estrelado por grandes nomes hollywoodianos como Colin Farrell, Léa Seydoux, Rachel Weisz, Ben Whishaw e John C. Reilly (de novo!). A trama do novo filme de Lanthimos é no mínimo curiosa: num futuro distópico, a humanidade desenvolveu um sistema em que, se as pessoas solteiras não encontrarem um parceiro ou parceira dentro de 45 dias depois de certo ponto na vida, elas são transformadas em animais e soltas na natureza. É isso mesmo, você não leu errado. Será que a visão de Lanthimos sob o gênero da ficção científica distópica vai ser tão incisiva e provocadora quanto seus filmes anteriores?

Carol
Competição pela Palma de Ouro

Primeiro de só dois diretores americanos da nossa lista, Todd Haynes é um dos cineastas mais celebrados das últimas décadas. Foi lembrado pelo Oscar pelo roteiro de Longe do Paraíso, foi indicado à Palma de Ouro por Velvet Goldmine e ainda dirigiu Não Estou Lá, que rendeu muitos aplausos da crítica e indicações a prêmios para seus atores. O retorno de Haynes ao cinema (ele esteve na TV com a minissérie Mildred Pierce em 2011) com Carol se qualificaria como um dos filmes “sérios” mais esperados do ano mesmo sem a seleção para a Palma de Ouro. Cate Blanchett volta a trabalhar com o diretor como a personagem-título, objeto de desejo da jovem interpretada por Rooney Mara, em plenos anos 50. Pior, a tal Carol interpretada por Blanchett é uma mulher casada.  O elenco ainda conta com Sarah Paulson, Kyle Chandler e Cory Michael Smith, e a história se baseia em uma novela de Patricia Highsmith intitulada O Preço do Sal.

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Louder Than Bombs
Competição pela Palma de Ouro

Vão contando: terceiro diretor estrangeiro expandindo fronteiras nacionais, e segundo a pular da Un Certain Regard para a competição principal de Cannes. O norueguês Joachim Trier esteve na mostra paralela em 2011, com o elogiado Oslo, 31 de Agosto, que o famoso crítico americano Roger Ebert elencou como um dos seus filmes preferidos daquele ano. Agora, ele comanda um elenco que inclui Isabelle Huppert (A Professora de Piano), Jesse Eisenberg, Rachel Broshanan, Amy Ryan, Gabriel Byrne e David Strathairn na história de uma celebrada fotógrafa francesa cuja vida vira de cabeça para baixo quando, durante a organização de uma retrospectiva de seu trabalho, um velho segredo é desenterrado e chega aos ouvidos de sua família. Elogiado por sua empatia para com os personagens e observação meticulosa das performances dos atores, esse é o tipo de história com a qual Trier é capaz de fazer maravilhas.

Umimachi Diary (Our Little Sister)
Competição pela Palma de Ouro

Escolhemos Umimachi Diary entre as duas entradas do cinema asiático para a competição pela Palma puramente por causa do pedigree do seu diretor: Hirokazu Kode-eda é um dos cineastas chineses contemporâneos mais celebrados pelos trabalhos dramáticos, especialmente o comovente Pais de Filhos, que venceu o prêmio de roteiro em Cannes em 2013. Baseado em um mangá super muito-sucedido por lá, o filme conta a história de três irmãs vivendo na parte rural do Japão que recebem uma quarta garota, mais nova, em sua casa. Vale destacar também Assassin, filme de artes marciais de Hou Hsiao Hsien (A Viagem do Balão Vermelho), que promete trazer visuais interessantes de época e o estilo particular do diretor múltiplas vezes nomeado para a competição principal de Cannes.

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The Sea of Trees
Competição pela Palma de Ouro

A floresta de Aokigahara (que, em chinês, significa “mar de árvores”) é conhecida como “a floresta do suicídio” por ser o segundo destino mais popular do mundo para pessoas que desejam se matar – perde só para a Golden Gate Bridge, em San Francisco. Anualmente, a polícia recupera mais de uma centena de corpos de lá, sem contar os que, segundo as próprias autoridades, “são achados por animais selvagens antes”. É nessa locação sombria que se passa o novo filme de Gus Van Sant, vencedor da Palma de Ouro em 2003 por Elefante e diretor de filmes como Gênio Indomável e Inquietos. Estrelado por Matthew McConaughey, Ken Watanabe, Naomi Watts e Jordan Gavaris, o filme conta a história de um americano que se perde na floresta, e conta com a ajuda de um japonês para achar a saída.

Macbeth
Competição pela Palma de Ouro

A última adaptação “séria” de Macbeth para a tela grande foi em 1948, acreditem ou não. Dirigida e estrelada por Orson Welles, aquela versão acabou se tornando a principal referência cinematográfica para um dos dramas mais famosos de Shakespeare (Ian McKellen e Patrick Stewart já interpretaram o personagem na TV). Para sua estreia no cinema americano, o australiano Justin Kurzel resolveu esticar a ambição e escalar o badalado Michael Fassbender para o papel-título, um duque escocês que, atiçado pela profecia de três bruxas, mata o rei para tomar seu lugar. Na pele da infame Lady Macbeth estará Marion Cotillard, enquanto David Thewlis e Elizabeth Debicki interpretam papéis secundários. Kurzel impressionou bastante com seu filme anterior, Snowtown (2011), que também foi exibido em Cannes, que chocou pela intensidade emocional e física, mas ganhou elogios rasgados da crítica.

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A Tale of Love and Darkness
Fora de competição

Há algum tempo uma atriz que vem mostrando controle criativo e independência na carreira, Natalie Portman finalmente estreia na direção de longas-metragens com A Tale of Love and Darkness, que será exibido em Cannes mesmo não estando na disputa pela Palma de Ouro. O filme é um projeto muito pessoal para a atriz, que nasceu em Jerusalém, Israel, em uma família judia – a história se baseia nas memórias de Amos Oz, um escritor, jornalista e ativista israelense que defende um Estado controlado por forças muçulmanas e judias para por fim à guerra em Israel. Natalie é a única grande estrela do filme, no papel da filha mais velha do escritor, Fania – ainda não está confirmado o nome do ator que interpretará o papel principal.

La Giovinezza (Youth)
Competição pela Palma de Ouro

Segundo filme em inglês do italiano Paolo Sorrentino, que venceu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro por A Grande Beleza, em 2014. Lá em 2011, ele estreou no cinema americano comandando Sean Penn no excêntrico drama Aqui é o Meu Lugar, e embora não volte para Hollywood para comandar Youth, faz seus atores discursarem na língua inglesa. O protagonista é Michael Caine (yes!), um maestro aposentado que está passando férias num resort nos Alpes quando é chamado pela família real britânica para um último concerto. O dilema do personagem de Caine é refletido nos coadjuvantes interpretados pelo colorido e estrelado elenco: Paul Dano, Harvey Keitel, Rachel Weisz e Jane Fonda aparecem no filme. Sempre uma boa aposta, Sorrentino promete entregar mais um drama de ritmo bem peculiar, como mostra o trailer.

10 de jul. de 2013

Review: Duas vinganças (e um final muito estranho) em “Sem Perdão”

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A estreia americana do diretor Niels Arden Oplev, que fez nome ao comandar a adaptação sueca de Os Homens Que Não Amavam as Mulheres, é uma infeliz deseventura, mas não é exatamente um filme ruim. A história de um homem (Colin Farrell) que perdeu a família para as tramas de um criminoso (Terrence Howard), e agora se infiltrou na organização do mesmo para tramar a vingança se interlaça com a de uma mulher (Noomi Rapace) desfigurada por um acidente de carro envolvendo um motorista bêbado, que testemunha o personagem de Farrell cometendo um crime no apartamento em frente ao seu, e o chantageia para conseguir a sua própria forma de justiça.

A estrutura é esperta (o filme não entrega a trama mastigada logo no começo, o que provem um jogo de gato e rato saboroso), o desenvolvimento das emoções dos personagens principais é realizado quase em ritmo europeu, a direção de Oplev é delicadamente fria e certeira, com uma abordagem refrescante das cenas de ação, e o elenco acerta: Colin Farrell entrega uma performance cuidadosamente contida e calculada que pinta um retrato comovente de um homem cuja raiva é o princípio definidor da vida que leva; Rapace está igualmente ótima, mais confortável aqui que nos outros papéis de língua inglesa que cravou até agora; os coadjuvantes Howard, Dominic Cooper e a grande Isabelle Huppert fecham bem a conta.

O problema de Sem Perdão é o roteiro de J.H. Wyman (A Mexicana), que não resiste a um clímax que parece saído de um filme de Schwarzenegger e soa estranhamente fora de lugar para o thriller dramático eficiente a que o público é exposto na primeira uma hora e meia. Sem Perdão vai deixar o público querendo um final mais substancial e menos fácil para as jornadas existenciais de seus personagens excelentemente construídos, e embora isso seja uma grande decepção, ainda é um filme eficiente quando abraça as próprias qualidades.

**** (3,5/5)

Sem Perdão (Dead Man Down, EUA, 2013)
Direção: Niels Arden Oplev
Roteiro: J.H. Wyman
Elenco: Colin Farrell, Noomi Rapace, Terrence Howard, Dominic Cooper, Isabelle Huppert
118 minutos

Caio