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11 de mai. de 2016

Review: “Capitão América: Guerra Civil” capitaliza no barulho, mas triunfa na modéstia

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por Caio Coletti

Os irmãos Joe e Anthony Russo não são nem um pouco como os outros diretores que passaram pelo universo cinematográfico Marvel (ou MCU) desde 2008. Vencedores do Emmy pelo trabalho no episódio piloto da inovadora série de comédia Arrested Development, em 2003, os irmãos não são iconoclastas pomposos (Kenneth Branagh, Thor), artistas com ramificações pessoais profundas (Joss Whedon, Os Vingadores), diretores/roteiristas com vozes satíricas únicas (Shane Black, Homem de Ferro 3), ou puros paus mandados de estúdio (Joe Johnston, do primeiro Capitão América). Em cada uma das entrevistas e listas de influências que os Russo passam conforme vão divulgando seus filmes da Marvel, fica claro que os irmãos são cinéfilos dedicados antes mesmo de serem amantes dos personagens e materiais dos quadrinhos. Se Capitão América: O Soldado Invernal era um thriller político traiçoeiro disfarçado de filme de super-heróis, Capitão América: Guerra Civil é um suspense psicológico profundo que quer discursar sobre guerra, vingança, efeitos colaterais e controle governamental – sem esquecer de entreter.

Dessa vez, é preciso considerar, os irmãos estão lidando com uma quantidade muito maior de personagens fantasiados (e fantasiosos) do que em Soldado Invernal, então Guerra Civil não tenta se apegar àquela sensação de gravidade e realismo que permeava seu predecessor, quase um filme de espião em meio às aventuras extravagantes da Marvel – pelo contrário, os Russo procuram abraçar a exuberância desses personagens e seus poderes com gosto, produzindo cenas desenhadas especialmente para que o espectador se deleite com os feitos apresentados em tela, e dirigindo as sequências de ação com um senso de escala, um olho aguçado e uma edição rápida que nunca se torna confusa. Valem palmas os trabalhos do diretor de fotografia Trent Opaloch (Distrito 9) e dos editores Jeffrey Ford & Matthew Schmidt, medalhões do MCU desde Capitão América: O Primeiro Vingador. No entanto, por mais que se venda com o espetáculo de cenas como a imensa batalha do aeroporto, sobre a qual virtualmente ninguém parou de falar desde a estreia do filme, Guerra Civil ganha o jogo mesmo é com seus elementos mais modestos. Em muitos sentidos, o filme se parece com um grande exercício de contenção.

A sensação é que os roteiristas Stephen McFreely e Christopher Markus são predadores cercando os fios de trama e personagens puxados de outros filmes da franquia, os juntando em um ponto concentrado, e usando-os para contar uma história que passa por temas e sub-tramas complexas e numerosas para construir uma narrativa cuja estrutura, em si, é bastante simples. Quando os Vingadores divergem de opinião sobre uma “proposta” (que mais parece uma ordem) do governo de registro e controle das ações dos super-heróis, aos poucos os heróis vão tomando lados distintos, com o Capitão América (Chris Evans) e o Homem de Ferro (Robert Downey Jr) agindo como líderes desses “times”. As motivações dos personagens são construídas com cuidado e consideração por quem eles são e como agiram em suas aparições anteriores – no caso dos dois personagens que o filme introduz (o Homem-Aranha e o Pantera Negra), as motivações, espertamente, são muito mais pessoais e emocionais do que ideológicas.

Guerra Civil desenha uma trajetória cristalina em direção ao seu clímax, que tira potência emocional, assim como alguns outros pequenos momentos espalhados pelo filme, da história dos personagens nesses oito anos de MCU. Se você pensar bem, é o primeiro filme da Marvel a realmente fazer isso, o que significa que a editora, a essa altura de seu projeto cinematográfico, não só se viu no direito de discutir questões políticas e fazer um “thriller psicológico”, como ousou começar a ser auto-referente. Construído com cuidado e nunca superestimando seus próprios momentos de culminação ou junção narrativa, Guerra Civil é um exercício de storytelling que vai contra o instinto da maioria dos roteiristas, mas funciona dentro de uma franquia que existe nesses moldes. O filme não precisa nos mostrar, nos lembrar, da bagagem que traz – o peso que ela carrega fala por si mesmo –, e essa “modéstia” dos roteiristas ao abordá-la faz bem ao efeito duradouro que Guerra Civil causa no espectador.

Faz bem também o fato de que McFreely e Markus, ao lado dos irmãos Russo, buscam acomodar seus impulsos mais grandiosos e iconoclastas às exigências de uma franquia que tem obrigações de continuidade e de introdução de personagens para cumprir. Há momentos de beleza plástica e temática espetaculares em Capitão América: Guerra Civil, e eles são distintamente idiossincráticos do estilo dos Russo, especialmente no embate final entre três dos heróis principais, e na realização do plano do vilão interpretado (com gosto, complexidade e comprometimento subestimados) por Daniel Bruhl. A discussão sobre o controle do governo sobre os super-heróis passa por todas as marcas que deveria, costurando questões de reponsabilidade, corrupção, preconceito, o caráter fundamentalmente falho da lei e a importância dela para ordenar nossa vida em sociedade. Sem advogar por nenhum dos lados de forma explícita, Guerra Civil olha para o mito do super-herói de um ponto de vista frio, político e ponderado, que só funciona por conta do equilíbrio fornecido pela paixão envolvida nas jornadas íntimas dos personagens.

Robert Downey Jr brilha como há muito tempo não lhe era permitido, explorando as complexidades, hipocrisias, razões, imaturidades, egoísmos e fundamentais boas intenções de Tony Stark com a disposição de um ator que ainda não cansou de submergir em seu personagem. Chadwick Boseman cria um Pantera Negra que não esconde seu status de realeza, mas também não se esconde por trás dele – um herói feroz e duro, cuja humanidade se esconde por trás dos olhos decisivos de um governante. E Tom Holland encarna o espírito de Peter Parker/Homem-Aranha através de um carisma nada calculado que se expressa de forma charmosa e comunicativa com o público. Como um casamento impossível entre o íntimo e o épico, o estupidamente divertido e o angustiantemente questionador, a ambição artística e a comercial, Capitão América: Guerra Civil conversa com a cultura criada pelos personagens da Marvel no cinema e, de sua forma singularmente improvável, dá o golpe definitivo na ofensiva da Marvel para se tornar uma das forças definidoras do cinema pop feito no século XXI.

✰✰✰✰✰ (5/5)

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Capitão América: Guerra Civil (Captain America: Civil War, EUA/Alemanha, 2016)
Direção: Joe e Anthony Russo
Roteiro: Christopher Markus, Stephen McFreely
Elenco: Chris Evans, Robert Downey Jr, Scarlett Johansson, Sebastian Stan, Anthony Mackie, Don Cheadle, Jeremy Renner, Chadwick Boseman, Paul Bettany, Elizabeth Olsen, Paul Rudd, Emily VanCamp, Tom Holland, Daniel Bruhl, Frank Grillo, William Hurt, Martin Freeman, Marisa Tomei, John Slattery, Hope Davis, Alfre Woodard
147 minutos

11 de mai. de 2015

As melhores atuações masculinas não indicadas ao Oscar dos últimos 10 anos (2005-2015)

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por Caio Coletti

Esses dias eu estava passeando pelo meu próprio Filmow (eu sei que você também se stalkeia nas redes sociais, não adianta fingir!) e me dei conta do monte de atuações brilhantes que eu vi nos últimos 10 anos de cinefilia. E me dei conta também da quantidade pequena delas que havia sido indicada ao prêmio-maior do mundo cinematográfico, ou ao menos o que tem maior visibilidade – o Oscar distribuído todos os anos pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas americana ignorou sistematicamente (ou quase indicou) todas essas interpretações aí embaixo, e como a lista original tinha dado quase 30 rankeados, decidi dividí-la em dois posts.

O post com a lista de atuações femininas que deveriam ter entrado na lista da Academia você pode ver aqui, e agora é a vez dos homens. Vamos lá:

2014

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Jake Gyllenhaal, por O Abutre

Nós já dissertamos bastante sobre o esquecimento da Academia ao não indicar Jake Gyllenhaal, e o que isso significa no sentido do personagem representar um lado feio do sonho americano que talvez o Oscar não queira mostrar para o mundo. Resta falarmos, então, sobre a excelência da performance de Gyllenhaal no filme, e o processo metódico que levou a ela: o espectador atento deve notar que o ator raramente pisca em cena, uma estratégia que Gyllenhaal já havia usado no clássico cult Donnie Darko, e que só sublinha as tendências quase (ou completamente) sociopáticas da ambição de Lou Bloom. Outro caso interessante é a cena em que o protagonista explode em fúria na frente do espelho, eventualmente quebrando-o – reportadamente, a cena não estava no script (perfeito) de Dan Gilroy, sendo totalmente improvisada por Gyllenhaal, que se cortou gravemente no processo. Se isso não é dedicação o bastante para a Academia (e nós nem falamos dos aspectos mais sutis da performance, como a cadência da fala e a linguagem corporal), não sabemos o que é.

Poderia ter acontecido? Deveria, mas a competição estava tão acirrada na categoria de Melhor Ator nesse ano que ficou difícil cavar uma vaga para Gyllenhaal. O ator foi indicado ao Globo de Ouro, enquanto o filme só foi lembrado pela Academia em Melhor Roteiro Original.

Já ganhou? Jake está entrando agora na melhor fase de sua carreira, com escolhas ousadas e bem calculadas de filmes e um amadurecimento interpretativo incrível, então vamos esperar. Por enquanto, ele só foi indicado pela performance de coadjuvante em O Segredo de Brokeback Mountain.

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David Oyelowo, por Selma

Martin Luther King Jr, uma figura de suma importância na história americana, nunca havia ganhado uma versão cinematográfica antes. A negligência de Hollywood quanto à história de King é um daqueles sinais alarmantes de que a indústria do cinema, e de fato os Estados Unidos como um todo, ainda são um país cujas raízes racistas continuam envenenando a atualidade. Um sinal menos sutil do mesmo processo são os ataques de policiais a jovens negros que culminaram no climático episódio ocorrido em Ferguson, no Missouri. Essa atualidade só faz de Selma um filme mais importante, e da performance de David Oyelowo nele mais corajosa – compondo um Martin Luther King desafiadoramente humano, o ator parece querer nos dizer que mesmo um homem profundamente falho pode ser inspirador e decisivo para as mudanças sociais das quais o mundo ao redor dele precisa. O filme não esconde as infidelidades de King à mulher, por exemplo, e nem por isso o faz menos admirável. Pelo contrário: na pele de Oyelowo, o Pastor King é um líder formidável justamente por não ser superior àqueles que comanda.

Poderia ter acontecido? Oyelowo é mais um que ficou no meio do caminho na competição fatal por Melhor Ator em 2015. Mesmo assim, há a questão maior de Selma ter sido largamente ignorado nas outras categorias, devido provavelmente ao tema delicado para os americanos.

Já ganhou? Antes de Selma, Oyelowo só havia aparecido em papéis de pequenos destaque em filmes como Interestelar, Jack Reacher e O Último Rei da Escócia. Ainda não chegou a vez dele, mas é uma aposta para os próximos anos.

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Timothy Spall, por Sr. Turner

2014 foi um ano cheio de performances complexas em filmes difíceis, que escapavam das regras convencionais de narrativa e traziam reflexões raramente vistas no cinema. No furor de reconhecer Boyhood e Birdman (ainda dois dos nossos preferidos do ano), Sr. Turner ficou de fora da disputa, com seu charme e sua experimentação mais discreta, bem ao estilo do diretor britânico Mike Leigh. E em meio ao esquecimento, a performance absolutamente superlativa de Timothy Spall também não encontrou seu caminho para as principais premiações da temporada – o ator, conhecido pelo papel na franquia Harry Potter, encarna com convicção e ao mesmo tempo algum distanciamento a personalidade difícil do pintor J.W.W. Turner. A composição do personagem é cuidadosa: da maquiagem, cabelo e figurino nada glamurosos ao constante pigarreio que acompanha as falas resmungadas por Spall, é nos pequenos detalhes e expressões que a performance realmente encontra a humanidade do personagem, e na duração monumental do filme que ela se consolida, com toda a paciência, e uma das melhores dos últimos anos.

Poderia ter acontecido? Até poderia, principalmente porque os filmes de Mike Leigh costumam render indicações a seus atores, e porque Spall levou o prêmio de atuação em Cannes. Mesmo assim, entre a competição acirrada na categoria e o low profile do filme, Spall ficou fora da lista.

Já ganhou? Spall é um dos character actors mais respeitados da Inglaterra e, aos 58 anos, já estava na hora da Academia escolher alguma das ótimas interpretações do moço em filmes britânicos e adotar para si. O ator londrino nunca foi indicado ao Oscar.

2013

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Tom Hanks, por Capitão Phillips

Há algum tempo que Tom Hanks não apresentava uma grande performance no cinema. Os inícios de década parecem ser bons para o ator, no entanto, uma vez que Capitão Phillips colocou-o em um dos papéis menos arquetípicos de sua carreira e lembrou o público que poucos atores são capazes de se comparar a ele quando está em um bom momento. O filme de Paul Greengrass é excepcionalmente tenso, mas acima de tudo obstinadamente anti-maniqueista, ao retratar a relação entre o capitão americano e o pirata somali interpretado pelo ótimo Barkhad Abdi, esse sim lembrado pelo Oscar. Ambos são homens orgulhosos e, de certa forma, donos de um olhar clínico para a humanidade daqueles a sua volta. A expressividade de Hanks, e a capacidade de dialogar com o espectador o tempo todo, ajuda o protagonista de Greengrass a se tornar uma figura imponente em tela, ainda que cheia de empatia. A cena final, em que Phillips é mostrado em estado de choque, é simbólica, mas o filme todo é uma tour de force de um dos melhores atores americanos em atividade.

Poderia ter acontecido? Bastante gente chiou quando não aconteceu. Capitão Phillips marcou a oitava indicação de Hanks ao Globo de Ouro, e ao que tudo indicava a performance, junto com aquela que o ator entregou em Walt nos Bastidores de Mary Poppins, levaria Hanks a ser lembrado pelo Oscar. Não rolou.

Já ganhou? Hanks é um de dois atores a vencer o Oscar dois anos consecutivos (por Filadélfia e Forrest Gump, em 1994 e 1995) – o outro é Spencer Tracy, que levou em 1938 e 1939. Outras três indicações completam o currículo do ator, por Náufrago, O Resgate do Soldado Ryan e Quero Ser Grande.

RUSH

Daniel Brühl, por Rush: No Limite da Emoção

Nascido na Espanha mas levado pelos pais para a Alemanha ainda na infância, Daniel Brühl construiu uma carreira brilhante no país natal desde jovem (a estreia foi aos 17 anos), e se tornou uma aposta certa para o estrelato depois de Adeus, Lênin ter se tornado um hit internacional, em 2003. Desde então, em papéis ainda coadjuvantes, Brühl mostrou versatilidade de gêneros e uma excelência notável de encarnar o espírito mais intrínseco de seus personagens em tela. Seja como o patético astro de cinema de Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino, ou como o parceiro do Julian Assange de Benedict Cumberbatch em O Quinto Poder, Brühl traz convicções fortes às construções de seus personagens, e dialoga brilhantemente com o espectador na construção da nossa percepção sobre ele. O mesmo vale para a performance brilhante em Rush, na qual representa um Nikki Lauda extraordinariamente resiliente e, acima de tudo, corajosamente peculiar. Seu retrato de um outsider de talento excepcional não é só adorável – é também inspirador.

Poderia ter acontecido? Indicado ao Globo de Ouro e ao BAFTA pela performance, era esperado que Brühl fosse também reconhecido pelo Oscar. Como a Academia parece ter ignorado Rush como um todo, o ator alemão também acabou não sendo lembrado.

Já ganhou? Ainda não, mas os elogios que recebe da crítica a cada nova atuação apontam para um futuro brilhante para Brühl, que está com 37 anos.

2012

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Jean-Louis Trintignant, por Amor

Dois gigantes octogenários do cinema francês estrelam Amor, neoclássico de Michael Haneke que se tornou o filme obrigatório de 2012 depois de vencer a Palma de Ouro em Cannes. No entanto, a performance de Emmanuelle Riva como a adoentada Anne ganhou muito mais reconhecimento do que a atuação de seu companheiro de cena, Jean-Louis Trintignant, como o marido Georges. São desempenhos complementares, e igualmente notáveis: os trejeitos e o retrato realista que Riva faz da deterioração de Anne são comoventes, mas é na perduração de Georges que o filme encontra seu elemento mais amargo. Trintignant encontra o tom certo para o filme terno e ínspido (ao mesmo tempo) de Haneke, corajosamente retratando as ramificações do amor de Georges por Anne, e as consequências que esse sentimento traz ao final da vida da esposa. A performance do ator é discreta e expressiva, encontrando nos detalhes e nos momentos menores a fundação da estatura do personagem, que se agiganta no final do filme. Ao contrário de Georges, no entanto, Trintignant é excepcional durante toda a metragem de Amor.

Poderia ter acontecido? Com o impacto que Amour teve no prêmio da Academia, poderia. Até os prêmios estrangeiros, no entanto, deixaram de lado a performance de Trintignant em virtude de reconhecer o trabalho de Emmanuelle Riva.

Já ganhou? Vencedor de um César, e de prêmios de Melhor Ator em Berlim e Cannes, Trintignant sempre concentrou sua carreira no cinema de arte francês, um nicho que, infelizmente, é pouco reconhecido pela Academia.

Film Review The Perks of Being a Wallflower

Logan Lerman, por As Vantagens de Ser Invisível

Adaptação de um clássico da literatura juvenil, e um dos poucos casos em que um autor teve a oportunidade de escrever e dirigir o filme baseado em sua obra, As Vantagens de Ser Invisível é um filme de sensibilidade e sutileza notáveis. Entende o mundo adolescente de forma incomparável, e especialmente de uma geração tão enigmática e dona de um olhar tão peculiar sobre o mundo – uma das decisões mais acertadas em relação a esse aspecto da adaptação foi a escalação de Logan Lerman como o protagonista e narrador Charlie. Introspectivo e traumatizado por uma série de acontecimentos do passado, o personagem enxerga o mundo com a clareza e a sensibilidade de um artista, mas vê sua estatura diminuir quando é confrontado com questões do mundo real. Lerman interpreta essa fragilidade de forma excepcionalmente expressiva, e ao mesmo tempo quietamente charmosa, caminhando junto com a simpatia que o roteiro pede que tenhamos por Charlie e entendendo, em um olhar de fora para dentro, a intenção da narrativa de encapsular, sem subestimar, os dramas da adolescência.

Poderia ter acontecido? Ignoradíssimo pela Academia (como costuma acontecer com todos os filmes sobre jovens, independente da qualidade), As Vantagens de Ser Invisível não cavou nenhuma vaga na lista da Academia, então uma indicação para Logan seria pedir demais.

Já ganhou? Aos 23 anos, Logan está sob os holofotes há menos de uma década, e só tem feito escolhas mais interessantes (o drama de guerra Coração de Ferro) recentemente, então vamos esperar mais um pouco.

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Ewan McGregor, por O Impossível

Sim, nós sabemos que Naomi Watts está excepcional como a matriarca da família separada pelo tsunami da Indonésia em O Impossível, o emocionante épico de J.A. Bayona (O Orfanato). Isso não é motivo para diminuir a performance extraordinária de Ewan McGregor como o marido da personagem de Watts e pai dos três filhos que completam a família principal do filme. Em uma cena especialmente brutal, McGregor conversa com o sogro por telefone, e é obrigado a confessar para ele que não sabe do paradeiro da esposa, filha do seu interlocutor. A vulnerabilidade, o profundo medo e a sensação de desapontamento consigo mesmo que McGregor expressa sem nenhum vestígio de vaidade masculina é o momento mais ressonante de uma performance que se caracteriza pela determinação tanto quanto pela sensibilidade. A escalação do escocês no papel principal de O Impossível só pode ser descrita como um golpe de mestre: McGregor é um dos poucos atores, hoje em dia, capazes de expressar coragem sem cair no heroísmo fácil dos galãs hollywoodianos. No filme angustiante e realista que Bayona fez, isso faz toda diferença.

Poderia ter acontecido? Talvez, se a Academia gostasse mais de Ewan. O filme rendeu indicação a Naomi Watts e o ator escocês havia sido nomeado ao Globo de Ouro no mesmo ano, pela comédia romântica Amor Impossível.

Já ganhou? Pasmem, mas não. Ok, Ewan não é o mais consistente dos atores, mas sua carreira está cheia de performances marcantes que deveriam ter rendido pelo menos indicações por parte da Academia. Duas no Globo de Ouro, uma no Emmy, mas nada de Oscar por enquanto.

2011

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Ryan Gosling, por Tudo Pelo Poder

Talvez a segunda melhor investida de George Clooney na direção (depois de Boa Noite e Boa Sorte, é claro), Tudo Pelo Poder passou em branco pelo olhar dos votantes da Academia, talvez pelo caráter contestador em uma época em que os Estados Unidos ainda se viam mergulhados na utopia da primeira gestão Obama. A performance de Ryan Gosling no filme, como um assistente de campanha ingênuo que aos poucos vai ganhando conhecimento das corrupções e enganações ao seu redor, não só é central para a mensagem do filme como é também um show a parte. O ator empresta mais do que algumas dicas da atuação de Al Pacino no primeiro O Poderoso Chefão, construindo o seu arco de personagem de forma parecida com àquele que Coppola desenhou para Michael Corleone e trabalhando brilhantemente o minimalismo (de forma parecida com a qual faria em Drive, no mesmo ano de 2011) para expressar a transformação pela qual o personagem passa enquanto os títeres políticos ao seu redor andam em círculos, aparentemente sem muita consciência do destino para o qual se dirigem.

Poderia ter acontecido? Com a recepção gélida que o filme ganhou do prêmio da Academia, não. No entanto, Gosling foi indicado ao Globo de Ouro pelo papel, e a outros seis prêmios de associações de críticos regionais.

Já ganhou? A única indicação de Gosling até agora foi pelo filme que o revelou para o cinema “sério”, o drama indie Half Nelson, em 2007. O ator foi lembrado outras 4 vezes pelo Globo de Ouro, mas nenhuma delas se converteu em indicação para o Oscar.

2010

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Andrew Garfield, por Não Me Abandone Jamais

Estrelado por três dos melhores atores jovens do momento (Garfield, Keira Knightley e Carey Mulligan), Não Me Abaonde Jamais é uma das mais atípicas e bem escritas ficções científicas dos últimos anos, e muito disso se deve ao trio principal. A melhor interpretação entre os três, argumentadamente, é a de Andrew Garfield como o doce Tommy, um dos clones criados por uma poderosa corporação para substituir órgãos vitais de algum ricaço com desejo de semi-imortalidade. A história, que já foi contada algumas vezes pelo cinema de ficção científica, deságua em um triângulo amoroso entre os três atores, e tudo soa muito mais interessante do que parece graças ao roteiro e à expressividade das atuações. Garfield é um adorável “garoto sensível” na primeira metade do filme, e absorve toda a tragédia do destino do seu personagem, lidando com a intensidade de Keira e a serenidade Carey, no final. Preso no meio dessas duas co-estrelas radicalmente diferentes, o ator californiano usa seu estilo bastante naturalista para equilibrar o filme e provê-lo de seus momentos mais honestamente tocantes.

Poderia ter acontecido? O pouco alcance que o filme teve na época do lançamento atrapalhou quaisquer chances de indicação para a ficção científica alternativa de Mark Romanek. Com uma campanha de marketing melhor, talvez tivesse sido outra história.

Já ganhou? Garfield foi lembrado no Globo de Ouro pela performance em A Rede Social, mas em meio a todo o furor do filme, os votantes da Academia se esqueceram dele. Ele também tem um BAFTA, pela atuação no telefilme Boy A, em 2008.

2008

In Bruges (2008)
Colin Farrell

Colin Farrell, por Na Mira do Chefe

Escalado quase sempre como um galã com charme “perigoso” no começo da carreira, o irlandês Colin Farrell viu sua carreira mudar de figura ao encarar o protagonista de Na Mira do Chefe, dramédia deliciosamente idiossincrática do roteirista-diretor Martin McDonagh. Na pele de um assassino de aluguel preso na cidade mais bucólica, úmida e estereotipicamente bela da Bélgica, cheio de culpa depois de um serviço mal-feito, Farrell entrega uma interpretação que é infinitamente divertida, ao mesmo tempo em que não deixa escapar a tragédia de um despertar de consciência para alguém com a “profissão” de seu personagem. O filme vai longe na tentativa de retratar tais consequências, jamais se acanhando de chocar o espectador com um plot tão sombrio em um filme essencialmente cômico, mas é na performance de Farrell que o roteiro de McDonagh encontra seu ponto de equilíbrio. O galã meio gaiato de filmes como A Hora do Espanto se mostrou um ator em pleno domínio de suas habilidades nesse filme, e tal evolução passar em branco pela Academia é quase um pecado imperdoável.

Poderia ter acontecido? Poderia, visto que Farrell venceu o Globo de Ouro e saudado pela crítica como uma das atuações mais complexas daquele ano. A Academia não comprou muito o filme de McDonagh, no entanto, dando indicação apenas a Melhor Roteiro Original.

Já ganhou? Surpreendentemente, Farrell nunca foi nem indicado ao Oscar. Desde Na Mira do Chefe que as escolhas do moço tem sido mais interessantes, especialmente a boa performance coadjuvante em Walt nos Bastidores de Mary Poppins. Resta esperar pelos próximos anos.

2007

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Brad Pitt, por O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford

Em pelo menos um sentido, Brad Pitt nasceu para interpretar o fora-da-lei Jesse James. Talvez a primeira grande celebridade americana, na época do Velho Oeste, o lendário líder de uma gangue criminosa tem exatamente a aura que um dos maiores astros de Hollywood é perfeito para encarnar. No surpreendente western dirigido por Andrew Dominik, no entanto, o ator prova seu talento ao escavar mais fundo na psique do perturbado assaltante de trens que se tornou um verdadeiro mito americano. O filme de Dominik desconstrói a inveja e a mesquinhez que levou Bob Ford (Casey Affleck, brilhante) a alvejar o líder da gangue para a qual “trabalhava”, e de sua forma bem contemplativa é um estudo dos efeitos que o carisma e o magnetismo podem causar no destino de um homem. Pitt finca os dentes com gosto nesse material, interpretando James como um galã terrivelmente engajador, um sujeito que não dispensa gentilezas mas emana uma energia dominante muito forte – e, acima de tudo, um homem com consciência de sua trágica sina.

Poderia ter acontecido? A maior parte da crítica americana acha que deveria. A atuação de Casey Affleck e o trabalho de Roger Deakins na fotografia foram lembrados, e era esperado que Pitt cavasse sua quarta indicação ao Oscar pela atuação.

Já ganhou? Como dito acima, Pitt tem três nomeações aos prêmios de atuação (por Doze Macacos, O Curioso Caso de Benjamin Button e O Homem que Mudou o Jogo), mas até agora só levou a estatueta como produtor, quando 12 Anos de Escravidão venceu Melhor Filme em 2014.

2006

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Steve Carell, por Pequena Miss Sunshine

Steve Carell é um dos atores mais completos e interessantes a surgirem nos últimos tempos, e isso não é nenhum exagero. Extremamente eficiente quando o assunto é comédia, o ator cada vez mais se prova em outras áreas do cinema – se o filme fosse um pouco mais convencionalmente premiável, sua atuação em Dan in Real Life seria igualmente elegível para o prêmio da Academia. É no papel coadjuvante no seminal Pequena Miss Sunshine, interpretando um tio gay que recentemente tentou suicídio, que Carell brilha mais. Os efeitos cômicos da “corrida” do seu personagem são geniais, mas é na constante melancolia e no insistente cinismo que o personagem carrega que Carell triunfa – especialmente porque deixa espaço para caracterizá-lo, como todos os outros membros da família protagonista do filme, como um ser humano desesperadamente buscando fazer as pazes com o caráter trágico da vida. Num filme que discute a legitimidade de separar pessoas entre “vencedores” e “perdedores”, a atuação tremendamente ambígua de Carell cai como uma luva, é inegavelmente brilhante

Poderia ter acontecido? Visto o barulho que o filme fez na premiação em 2007, talvez até pudesse. No entanto, é preciso mais do que uma comédia dramática para a Academia levar a sério um ator que apareceu para o mainstream como comediante.

Já ganhou? Não, mas Carell pelo menos fez os votantes do prêmio o levarem a sério por sua performance em Foxcatcher, nesse último ano. Se as escolhas do moço continuarem sendo mais convencionais, quem sabe a estatueta acabe mesmo nas mãos dele.

18 de jan. de 2014

Previsões para o Oscar 2014: Melhor Ator Coadjuvante

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por Caio Coletti

Posando pela enésima vez para o amigo Terry Richardson, Jared Leto mostrou a forma física impressionante (não exatamente no bom sentido) durante as filmagens de Dallas Buyers Club. Magérrimo, com o corpo todo depilado – o que serviu como piada, de não muito bom gosto, no discurso do moço do Globo de Ouro –, Leto estava quase irreconhecível. No próximo dia 2 de Março, no entanto, ele provavelmente vai receber a melhor recompensa pelo sacrifício: a estátua dourada do Oscar.

Melhor Ator Coadjuvante
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Jared Leto, por Dallas Buyers Club

Jared Leto é um caso a parte na indústria americana. Revelado aos 28 anos no neo-clássico Clube da Luta, o moço engatou vários projetos marcantes até 2006. Desde então, foram só outros três filmes bastante festejados pela crítica, nos quais a performance de Leto foi aclamada. Era questão de tempo até um desses projetos bissextos garantir ao moço uma indicação ao Oscar, mas ainda é uma surpresa que ele chegue ao auge da temporada de premiações como o favorito. Talvez seja hora de deixar o 30 Seconds to Mars de lado, Jared.

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Torcemos por:

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Bradley Cooper, por Trapaça

Está na hora de confessar uma coisa: eu não sou o maior fã de Bradley Cooper. Sabe aquele pé atrás que todo mundo tinha em relação a ele antes de O Lado Bom da Vida? Pois é, eu ainda tenho. Mesmo assim, o moço me impressionou em Trapaça, numa atuação que é pelo menos uma dezena de vezes mais acertada do que a que lhe garantiu a indicação anterior ao Oscar. Seu agente do FBI Richie é retratado com uma hesitação nervosa que acompanha a verborragia e o carisma que são marcas do ator, e a queda moral do moço no final do filme é muito mais forte porque Cooper o interpretou assim.

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E esqueceram de:

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Daniel Bruhl, por Rush

Na verdade esse é menos um esquecimento e mais uma maldosa exclusão. Bruhl, um ator alemão que a maioria dos espectadores provavelmente conhecem como o falso herói alemão de Bastardos Inglórios, esteve em todas as listas de melhores interpretações do ano por sua performance como o piloto de fórmula 1 Niki Lauda no ótimo Rush, de Ron Howard. Não só Bruhl supera em muito seu companheiro de cena Chris Hemsworth, como seu desempenho nervoso e compenetrado é um dos retratos mais estranhamente cativantes do cinema em 2013.

17 de jan. de 2014

Review: Não deixe de ver “Rush” só porque o Oscar te disse para não vê-lo

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por Caio Coletti

Apesar da boa recepção crítica, do buzz bem grande que sustentou por um tempo para a temporada de premiações, e das duas indicações ao Globo de Ouro, Rush passou em branco pelas nominações do Oscar, anunciadas ontem (16). Não dá para dizer que não é justo, embora Rush passe longe de ser um filme ruim, ou mesmo um filme mediano. Com a competição pelo prêmio da Academia acirrado como está, no entanto, é compreensível que essa produção menor de Ron Howard tenha ficado de fora da corrida (sem trocadilhos), abrindo espaço para momentos mais brilhantes de Woody Allen, David O. Russell e Martin Scorsese, entre outros. Isso tudo desde que não se deixe de saber que Rush é um filme que merece, e muito, ser assistido.

Howard é notadamente um crowd-pleaser que aos poucos aprimorou suas habilidades para transformar dramas acadêmicos como Uma Mente Brilhante (pelo qual ganhou o Oscar de Melhor Diretor) e Frost/Nixon em sucessos também entre o público. Seja no campo emocional, intelectual ou físico, o diretor sabe como empolgar e envolver, tem uma noção bastante decente de narrativa e encenação, e encontra boas soluções de abordagem para os filmes que comanda. Dito isso, não há nenhuma novidade no seu trabalho em Rush, embora seja esse faro para manipular a percepção do público que faça as cenas de corrida do filme, seu próprio centro nervoso e dramátcio, momentos genuinamente excitantes e, quando preciso, agourentos e tensos.

A história acompanha a rivalidade entre o britânico James Hunt (Chris Hemsworth) e o austríaco Niki Lauda (Daniel Brühl) nas pistas da Fórmula 1, especialmente na temporada de 1976, quando Lauda sofreu seu célebre e horrendo acidente. Como boa parte dos espectadores, eu acredito, vá entrar nessa história sem saber o final, existe um aspecto em Rush que é a expectativa e a incerteza, uma vez que o roteiro de Peter Morgan se estrutura literalmente como uma “corrida” entre esses dois homens vastamente diferentes. O escritor, que repete a parceria com Howard em Frost/Nixon, consegue equilibrar bastante seu filme entre Hunt e Lauda, embora não possa deixar de fazer o primeiro ligeiramente antipático. No papel, porém, a ideia é mostrar as falhas de ambos, e as formas como a competição entre eles os levou a serem melhores – na pista e fora dela.

Se há uma indicação ao Oscar que Rush deveria ter recebido, ela é para Daniel Brühl como Melhor Ator Coadjuvante. Por pura formalidade, aliás, porque o ator alemão conhecido pela participação em Bastardos Inglórios e pelo amado Adeus Lênin é tão protagonista quanto Hemsworth, se não mais. Compenetrado e ligeiramente impulsivo como é de seu feitio, Brühl empresta uma dignidade e uma arrogância a Lauda que, estranha e imprevisivelmente, o fazem uma espécie de “underdog” muito mais identificável do que o astro de cinema interpretado por Hemsworth. O Thor dos cinemas ainda não está preparado para segurar um papel dramático, mas é carismático o bastante para não comprometer o resultado final de Rush, um filme sobre rivalidade que, de maneira quase brilhante, é também um filme sobre o valor da convivência.

✮✮✮✮ (4/5)

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Rush: No Limite da Emoção (Rush, EUA/Alemanha/Inglaterra, 2013)
Direção: Ron Howard
Roteiro: Peter Morgan
Elenco: Chris Hemsworth, Daniel Brühl, Olivia Wilde, Alexandra Maria Lara
123 minutos