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20 de ago. de 2010

Drastic Fantastic – Três discos em um

álbuns (nunk excl)drastic 1

**** (4/5)

Chega a ser hipocrisia exigir algum tipo de unidade a um músico. Especialmente para quem faz música pop, o segredo do sucesso lôngevo é abrosver referências o tempo todo, brincar com estilos diferentes e compor em função da mensagem, e não do estilo. Assim, seria equívoco meu condenar Drastic Fantastic, o segundo disco da escocesa KT Tunstall, por concentrar três estilos bem distintos em uma coleção de onze canções. E não deixa também de ser verdade que a intérprete e compositora já havia mostrado seu lado pop, country e folk na obra anterior, o excepcional Eye to The Telescope. Não é surpresa encontrá-los por aqui. Os conteúdos são os mesmos, mas as embalagens… quanta diferença!

Tunstall não foi exatamente um estouro de vendas em sua primeira gravação, apesar do sucesso estrondoso do hit “Suddenly I See”. Aqui, ela procura buscar com mais afinco o caminho para ser mais bem-sucedida comercialmente, e não parece encontrar grandes dificuldades para encontrá-lo. Apesar de não ter funcionado muito bem na prática, teoricamente os truques de Drastic Fantastic são coisa de quem entende do riscado. O problema é que, para quem procura apreciar música por ela mesma, e não por seu êxito comercial, e especialmente para quem se apaixonou pelas interpretações “almadas” de Tunstall, a produção refinadíssima entra na frente, com freqüência demais, da voz da cantora.

Talvez por isso seja um respiro a faixa final, Paper Aeroplanes, uma canção quase acústica e sem retoques digitais, com a voz de Tunstall soando clara por cima de uma melodia melancólica que lembra as melhores viagens de Norah Jones sem perder a própria identidade. É o que há de melhor, e mais atípico, em Drastic Fantastic. Se te agrada ou não, não estou aqui para dizer. Certeza mesmo, só a de que KT pode fazer melhor.

Disco Um” – Na cola do Black Horse (country)

Hold On – (Faixa 05) – Letra Tunstall. Música Tunstall, Case.

A influência do sucesso country menor do álbum anterior, a empolgante “Black Horse and The Cherry Tree”, é mais do óbvia, com a batida fragmentada e a levada constante. Tunstall arquiva uma interpretação carregada de vitalidade que carrega uma letra meio desconexa nas costas, dando algum sentido a produção realizada com cuidado excepcional por Ed Case. Daquelas que dá vontade de gritar “hit!” a cada acorde e virada de ritmo.

Whitebird – (Faixa 03) – Letra Tunstall. Música Tunstall.

Aqui a derivação é muito mais lírica e temática do que musical. Apesar de ser claramente country, a canção traz o dedilhar de violão característico das canções mais cadenciadas do estilo, com KT desdobrando-se em uma interpretação corajosamente contida por cima do instrumental. A letra metafórica é que lembra “Black Horse”, se tornando uma sensível auto-reflexão que é ajudada por uma produção mais sutil do que na maioria das faixas do disco.

Disco Dois” – Dido? Nem pensar! (pop)

Funnyman – (Faixa 04) – Letra Tunstall. Música Tunstall, Terefe.

Talvez um dos poucos acertos em cheio do pop desse disco, a canção de Tunstall feita em parceria com Martin Terefe, com quem a escocesa esteve em “The Other Side of The World”, funciona a perfeição com um instrumental crescente e surpreendente, uma letra agridoce e interpretação segura o bastante para jogar em campo seguro enquanto a produção dá seu show particular, mantendo a personalidade de Tunstall e jogando com sons mais pop do que nunca.

Hopeless – (Faixa 06) – Letra Tunstall. Música Tunstall.

É difícil pensar que a mesma compositora inteligente o bastante para produzir “Funnyman” tenha caído na armadilha de explorar um teritório que, absolutamente, não é o seu. O instrumental dessa sexta entrada do álbum lembra, no começo, o surf de Colbie Caillat, e a interpretação insossa de Tunstall é uma surpresa tão grande quanto a falta de graça e elegância da música como um todo. Na voz de Colbie, talvez funcionasse. Aqui, soa um peixe completamente fora d’água.

I Don’t Want You Now – (Faixa 07) – Letra Tunstall. Música Tunstall.

A letra meio revoltada, meio triunfante de Tunstall, que celebra a sabedoria do ser humano sem esquecer que todos nós erramos, e bastante, casa bem com um instrumental que prova que, já que o indie hoje é pop, nada como mexer um pouco nesse vespeiro para criar uma canção bonitinha, digerível e grudenta. É difícil atrelar esses adjetivos a KT, mas as guitarras anormalmente pesadas e as viradas em última instância empolgantes convencem qualquer um.

Disco Três” – De volta as raízes (folk/blues)

Beauty of Uncertainty – (Faixa 09) – Letra Tunstall. Música Tunstall.

A letra não se estende demais no que quer passar, casando perfeitamente com o título da música (certezas é o que você não vai achar aqui, mas talvez faça-o apreciar mais as dúvidas) e com o instrumental grave que permite a voz de Tunstall um brilho inédito nesse disco. Ela soa como um sussurro meio incômodo, meio belo, no pé do ouvido, que nos diz coisas verdadeiras sobre uma melodia carregada por um instrumental crescente e encantador. Belíssimo, belíssimo.

Someday Soon – (Faixa 10) – Letra Tunstall. Música Tunstall, Hogarth, Dixon.

A canção de mudanças e expectativas que Tunstall preparou carinhosamente como uma mistura acertadíssima de pop e folk funciona belamente, com a produção sofisticada dando polimento a uma melodia já naturalmente encantadora, mas jamais interferindo no cerne da composição e da interpretação medida da cantora. Talvez seja a canção do Drastic Fantastic que mais remeta a mistura competente do álbum anterior, e não aos extremos de gênero que reinam por aqui.

Faixas extras” – Completando o setlist… Little Favours (Faixa 01)                                                    -                                                                                                   If Only (Faixa 02)                                                                 -                                                                                                   Saving My Face (Faixa 08)                                               -                                                                                                   Paper Aeroplanes (Faixa 11)                                            -

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Funnyman, you got a plan/ To be something wonderful/ Funnyman, listening to the words/ Turning on yourself/ Turning into a brand new universe/ Funnyman, you’ll never be anything else”

(KT Tunstall em “Funnyman”)

16 de ago. de 2010

Eye to The Telescope – O amor por inteiro

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***** (5/5)

Eu confesso: ao retomar a antiga paixão que tinha pela música da escosa Kate Victoria Tunstall (mais conhecida como KT Tunstall), meu objetivo era fazer um post nos moldes do “Gaga – Um guia de amor a primeira audição”. Ou seja, um panorama geral, incluindo os dois discos lançados pela cantora e compositora, da carreira e estilo que ela representa. Pois bem, confesso mais uma coisa: como apreciador de música, e não como crítico, Eye to The Telescope me desarmou como se estivesse tirando doce de uma criança. Talvez seja essa, afinal a qualidade das grandes obras: pegar o ouvinte desprevinido e mudar seu conceito sobre alguma coisa, servir como apoio em um momento inesperado. Poucos conseguem fazer isso e ainda realizar uma forma de expressão admirável e interessante para quem chega como leigo na aventura.

KT não diz nada de novo em sua música: as letras são sobre decepções e realizações amorosas, sobre reafirmação de identidade, mas vêm com o selo inconfundível de produção autêntica estampado em cada acorde, e com um vocal passional e desenvolto para acompanhar letras cheias de sinceridade e metáforas espertas. O disco caminha na linha tênue entre o pop e folk com habilidade notável, lançando mão dos recursos dos quais precisa sem medo, visando muito menos manter um estilo rígido e muito mais realizar uma obra que toque, de todas as formas, a sensibilidade de quem ouve. E, claro, é muito bem sucedido na tarefa.

Em última instância, Eye to The Telescope se torna talvez a obra mais completa, fechada em si mesma, no nosso século, a tratar dos temas que sempre assombram e sempre assombraram a produção musical humana. E, claro, do maior deles: o amor. Portanto, em oito passos, essa é a KT Tunstall de Eye to The Telescope.

Fase 01: caindo de amores…

Black Horse and The Cherry Tree – (Faixa 04) – Letra Tunstall. Música Tunstall.

É com certeza o jeito certo de se iniciar no universo de influências de Tunstall. Levada por uma batida country e cantada com personalidade e força invejáveis, a canção que a revelou em um programa de TV britânico pode perder um pouco da força no estúdio, mas continua com uma batida empolgante e uma letra de identificação imediata e deliciosa. Não é o melhor que ela pode fazer, mas com certeza marca na memória uma personalidade musical extremamente forte.

Suddenly I See – (Faixa 09) – Letra Tunstall. Música Tunstall.

O maior hit da escocesa é também, não por acaso, a canção pop com levada mais animada desse disco de estréia. Mas não dá para perder de vista uma batida de violão e baixo contagiante, os vocais levados com desenvltura notável e a letra que expressa um sentimento, uma noção, que indentifica-se facilmente com uma fatia imensa do público. Impossível não se apaixonar, seja  pela personagem que KT monta em sua composição, ou pela própria cantora.

Fase 02: o auge da paixão…

Universe & U - (Faixa 07) – Letra Tunstall. Música Tunstall, Pleasure.

Apesar do clima de opressão, KT consegue suavizar os sons digitais inseridos com sabedoria para completar a expressão de uma letra descaradamente romântica, mas que nunca resvala no brega ou no lacrimoso gratuito. É uma canção de fazer subir arrepios pela espinha, interpretada com delicadeza e levada por um piano absurdamente bem harmonizado, uma produção pop-romântica de primeira, dotada de sofisticação rara.

Stoppin’ The Love - (Faixa 10) – Letra Tunstall. Música Tunstall, Tommy D.

O nome da música não parece concordar com o da fase, mas não se preocupe, as aparências enganam também em Eye to The Telescope. O que poderia ser um libelo depressivo sobre um defeito irrepreensível ou uma declaração de cinismo aberta e incômoda se transforma em uma pílula de esperança e paixão nas mãos de Tunstall e Tommy D. O ritmo constante e a compassada batida vão até onde podem ir, e KT soa feliz em acompanhá-los.

Fase 03: os garotos-problema…

The Other Side of The World – (Faixa 01) – Letra Tunstall. Música Tunstall, Terefe.

A canção que abre o repertório oficial da escocesa é uma composição sem complicações, que passeia com desenvoltura entre o pop-rock e o folk, levada por um violão de acordes acertados e num ritmo crescente e bem produzido. A interpretação intensa e emocional de Tunstall confere credibilidade a uma letra que alterna ascenção e queda de um relacionamento com um refrão que deve falar muito alto para muita gente. Ouça,  mas tente pensar no que está ouvindo.

False Alarm - (Faixa 08) – Letra Tunstall. Música Tunstall, Terefe.

Tunstall arquiva o que pode ser a interpretação mais emocionada e emocionante em muito tempo na música pop, tudo em cima de uma letra sincera, universal e autêntica. Levada fácil por um instrumental que, como a música, não surpreende, mas cumpre o que promete com louvores: ser uma balada a moda antiga com o espírito de produção, composição e significado da música atual. A mistura, nas mãos de KT e do produtor Martin Terefe, funciona a perfeição.

Fase 04: curtindo a fossa…

Under The Weather - (Faixa 03) – Letra Tunstall. Música Tunstall, Tommy D.

Sugere que talvez tenha sido mais acertado aproximar KT de Norah Jones do que de Dido, mas não deixa dúvidas da originalidade da escocesa na virada grunge-acústica perto do final. Com um punhado de surpresas melódicas, o clima melancólico casa bem com a letra mezzo-comodista, mezzo-autodepreciativa, mezzo-esperançosa que KT construiu como a mais contida das canções desse álbum de estréia. Como bem nos ensinam os talentosos: menos às vezes é mais.

Silent Sea - (Faixa 06) – Letra Tunstall. Música Tunstall, Hogarth.

O estilo acústico remete ao indie da canadense Feist, mas a voz de KT brilha mais bela do que nunca sobre o instrumental simplista, que consegue criar uma sensação crescente sem nunca recorrer ao apoteótico gratuito. A letra segue o mesmo estilo minimalista, em poucos versos alcançando o objetivo de passar uma sensação complicada demais para descrever longamente. É a prova cabal de uma sensibilidade musical notável.

E o setlist se completa com… Another Place to Fall (Faixa 02)                                                                  -                                                                      Miniature Disasters (Faixa 05)                                                                    -                                                                      Heal Over (Faixa 11)                                                                                         -                                                                      Through the Dark (Faixa 12)                                                                         -

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“…You can hear, she’s a beautiful girl, she’s a beautiful girl/ She fills up every corner like she’s born in black and white/ Makes you feel warmer when you’re trying to remember what you heard/ She likes to live you hanging on her world…

…Suddenly I see this is what I want to be/ Suddenly I see why the hell it means so much to me…”

(KT Tunstall em “Suddenly I See”)

13 de ago. de 2010

A Onda (Die Welle, 2008)

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Se nesses tempos de Wikipédia alguém ainda tiver paciência de procurar alguma coisa em um dicionário, vai notar que a ascepção de fascismo (diz o Aurélio: “Sistema político nacionalista, imperialista, antiliberal e antidemocrático…”) vem logo abaixo do verbete fascínio (ainda no pai dos burros: “Atração irresistível, fascinação…”). Certos arranjos cósmicos ou humanos não são nem um pouco por acaso. Por definição, e por mais que pareça absurdo pensar nisso hoje, quase um século depois do movimento de Mussolini, irmão próximo do nazismo de Hitler, surgir em terras italiantes, a natureza humana é fraca o bastante, influenciável o bastante, entediada o bastante, para se deixar levar por ideais que são tudo, menos razoáveis. O fascismo não está tão morto quanto pensamos. O que falta, ainda bem, é alguém para trazê-lo a tona.

A Onda, filme alemão de 2008 engendrado bilhantemente pelo jovem Dennis Gansel, pouquíssimo conhecido por aqui (o maximo que você deve lembrar dele é a comédia Garotas Procuram, isso se for o caso), levanta essa questão e bate fundo na percepção do espectador ao mostrar que não há ambiente e geração mais propícios para o aparecimento de um movimento totalitário do que os nossos. Isso tudo transportando uma história real ocorrida  na Califórnia para a Alemanha, onde, naturalmente, o tema gera ainda mais polêmica. O roteiro de Gansel e do desconhecido Peter Thorwath não foge delas, mas sofisticadamente as contorna para contar uma história chocante, sim, mas num ambiente tão realista que não é possível julgar ou culpar ninguém, em momento algum. Em A Onda todos estão, em certa medida, tão certos quanto equivocados. E esse clima torna um filme que poderia ser apenas conceitualmente impressionante em uma obra completa, de cores quentes e intensas, verdadeiramente humana.

A começar pelo professor roqueiro e anarquista Rainer Wenger (Jürgen Vogel), que toma uma rasteira de um colega e é orbigado a dar aulas especiais, por uma semana, sobre autocracia, a forma de governo exercida por um poder centralizado e autoritário. Para tanto, ele aos poucos vai criando um movimento próprio, de ideologia bem definida e objetivos inicialmente pedagógicos, que acaba se tornando um ponto de apoio, um desafio, uma causa para a vida fácil de seus alunos entediados. Jens (Tim Oliver Schultz) talvez seja o personagem mais forte nesse sentido, mas o script é tão engenhoso que envolve o espectador com todos os personagens e mostra diferentes facetas para as causas e conseqüências de um movimento que todos, no primeiro momento, colocariam como impossível. Marco (Max Riemelt) aprende sobre união, mas acaba confundido unidade com perda de individualidade, Dennis (Jacob Matschez) reafirma sua identidade, aprende a impor suas opiniões, mas não percebe que, com isso, deixa de respeitar a dos outros. E o círculo vicioso se repete com todos os personagens, em arcos de transformação lógicos e inteligentes.

Tecnicamente, seja dita a verdade, A Onda não tem nada de especial. A encenação de Gansel é mero apoio para os conceitos que ele deseja passar. Sua concepção de cinema urgente, caloroso, intenso e ainda assim um tanto quanto distanciado do trabalho dos atores deixa um gosto quase agridoce na boca do espectador mais atento. Seus planos longos, preferidos sempre aos cortes rápidos, e sua movimentação insistente e leve de câmera funcionam só até certo ponto. Falta-lhe elegância, sobra-lhe instinto. O elenco, por sua vez, dá conta do recado, mas não apresenta nada de especial. Vogel protagoniza com uma atuação concentrada e ajustada ao personagem, mas nem mesmo na chocante cena final nos apresenta uma atuação capaz de prender a percepção de quem assiste por si só. O mesmo pode ser dito do elenco jovem, destacando-se do pelotão os talentosos Elyas M’Barek (Sinan) e Cristina do Rego (Lisa).

A força de A Onda está mesmo nas palavras, e no significado que elas trazem. O discurso fascista perto do final, proferido pelo professor/líder do movimento, é de um impacto que poucos filmes americanos conseguiram produzir no espectador nesse século. Nisso, A Onda permanece europeu por natureza: faz o espectador pensar, e colocar-se no lugar dos próprios personagens. E, quem sabe, pode até mudar algumas de suas atitudes, se você não for antiliberal, rígido, totalitário… enfim, fascista demais para isso.

Nota: 8,0

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A Onda (Die Welle, Alemanha, 2008)

Drigido por Dennis Gansel…

Escrito por Dennis Gansel, Todd Strasser…

Estrelando Jürgen Vogel, Frederick Lau, Max Riemelt, Jennifer Ulrich, Christiane Paul, Jacob Matchenz, Cristina do Rego, Elyas M’Barek…

107 minutos

11 de ago. de 2010

JOGO RÁPIDO: “Lunar” + “Efeito Cascata”

critica (nunk excl)jogo rápido 1

Lunar (Moon, Inglaterra, 2009)

Uma produção da Liberty Films UK…

Dirigido por Duncan Jones…

Escrito por Duncan Jones, Nathan Parker…

Estrelando Sam Rockwell, Kevin Spacey (voz), Dominique McElligott…

97 minutos

A sabedoria popular, como tudo nessa vida, é uma coisa complicada. Tão complicada que, muito frequentemente, ela está tão certa quanto errada. Veja o ditado, por exemplo: em terra de cego, quem tem olho é rei. Não deixa de ter seu valor. A tendência em uma área sem grandes ideias é mesmo se contentar com pouco. Mas, só por isso, o dito cujo deixa de ser caolho? Brincadeiras à parte, é mais ou menos o que aconteceu com Lunar, ficção científica espacial do estreante em longa-metragens Duncan Jones. Aclamado como uma pérola de um gênero que anda carente de suas grandes obras há, no mínimo, uma década, o filme nada mais é do que uma tentativa de dar ao gênero tão marcado por 2001: Uma Odisseia no Espaço (referência essencial para quem quer ver o filme de Jones) um sopro de vida com um drama de suspense intrigante, mas que entrega os pontos com facilidade e acaba dependendo do talento de seu astro para entreter o espectador.

A verdade é que o filme é de Sam Rockwell, e ponto. Carismático e, ao menos aqui, desenvolto, o californiano conhecido por projetos independentes foi lançado ao primeiro escalão de astros de Hollywood, cavando um papel em Homem de Ferro 2, após atuar na pele do renegado Sam Bell, astronauta prestes a deixar a estação espacial lunar onde ficou pelos últimos três anos, cheio de saudades da mulher e da filha que ele nem pôde conhecer. Um homem que é levado ao limite e um protagonista com o qual o público se identifica. O roteiro de Jones e Nathan Parker é obviamente efetivo nesse sentido, mesmo que não ofereça o final que todos esperavam e mostre uma realidade muito mais banal do que se poderia almejar. Pode ser que seja até mais acessível que a obra de Kubrick e, devo dizer, tem os méritos de ser uma narrativa de verdade, e não uma colagem feita para demonstrar a perícia técnica do seu diretor. E, acreditem, Jones poderia fazer isso com muita tranquilidade. Por escolher um caminho difícil e sair-se com uma boa memória, vale a pena. Mas ainda não é uma obra-prima. Enfim, em terra de cego…

Nota: 7,0

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Efeito Cascata (Ripple Effect, EUA, 2007)

Uma produção da YBG Productions…

Dirigido e escrito po Philippe Caland…

Estrelando Philippe Caland, Forest Whitaker, Virginia Madsen, Minnie Driver…

87 minutos

Parece preconceito, e soa como um. Talvez o seja. Mas não dá para não notar que, geralmente, quem se desdobra em milhares de funções em um mesmo filme acaba gravemente prejudicado em uma, ou algumas, delas. Clint Eastwood e Mel Gibson que me perdoem, mas assistir Efeito Cascata é desejar, inevitavelmente, que atores sejam atores, e diretores sejam diretores. Conhecido pela peça auto-biográfica Hollywood Budha e naturalmente dado a filosofia barata, Pilippe Caland se faz diretor, produtor, roteirista e astro dessa nova obra. Uma pena, de fato, que ele não saiba desempenhar nenhuma das funções com particular habilidade. Ok, sejamos justos, Caland não é mau ator, e encarna o papel de Amer Atrash, um estilista que é atormentado por um acontecido de seu passado e precisa acertar as contas com Philip (Forest Whitaker), que ele atropelou e não socorreu, ao mesmo tempo em que seus negócios e seu casamento vão por água abaixo, com alguma propriedade. Nada que ele não possa compensar com a câmera na mão, é claro.

Caland é um diretor de escolhas mal-trabalhadas, criando um ambiente opressivo e vulgar, em uma mise-en-cene desleixada e sem coesão. A fotografia sem brilho de Daron Keet também não ajuda, mas não dá para culpar um fotógrafo por um filme tão porcamente encenado, planejado e realizado quanto Efeito Cascata. E, se não fosse por Caland, o filme não seria tão ultrajante. Temos Whitaker em uma atuação honesta, mesmo que certos diálogos do roteiro barato não o ajudem. Temos Virginia Madsen e Minnie Driver em momentos sensíveis e encantadores. E temos uma trama que poderia, nas mãos de um artista de verdade, focado em seu próprio trabalho, render uma narrativa otimista e inspiradora, na tradição de filmes como Gênio Indomável e, até, o criticado Encontrando Forrester. Mas esses dois filmes tiveram Gus Van Sant atrás das câmeras, é bom lembrar. Com Caland tão dominante em cena, o que temos é um suplício de uma hora e meia.

Nota: 2,0

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[Sam]:Você não se importa com isso?”

[GERTY]: “Eu estou aqui para te manter seguro, Sam. Eu quero te ajudar. Sam, durma um pouco. Você está muito cansado.”

(Sam Rockwell e Kevin Spacey em “Lunar”)

9 de ago. de 2010

Homem de Ferro 2 (Iron Man 2, 2010)

critica (nunk excl)iron man 1

322 milhões de dólares. 4380 salas. O lançamento em maior escala nas redes de cinema ianques da história. O quinto filme a quebrar mais rápido a marca dos 100 milhões de bilheteria. Tudo isso para uma seqüência que parecia improvável dois anos atrás, quando Homem de Ferro chegou aos cinemas chefiado por um diretor sem experiências em blockbusters (o mais perto que Jon Favreau havia chegado de grandes orçamentos tinha sido a aventura Zathura), trazendo um personagem não tão conhecido do público leigo em HQs e ainda arriscando ao escalar um astro problemático tentando se reerguer (Robert Downey, quem mais?) para o papel principal. Sem coadjuvantes de peso e batendo de frente com o mega-fenômeno O Cavaleiro das Trevas, porém, o filme de Tony Stark e compania surpreendeu comercial e criticamente, emplacando sua visão em tons mais leves do mundo dos super-heróis na cabeça de público e especialistas. Downey se tornou o nome do momento em Hollywood e a expectativa para a seqüência (e a continuação do universo Marvel nas telas, agora comandado pela própria editora transformada em estúdio) era tanta que não bastaria manter a fórmula para satisfazê-la. Favreau, que se mostrou inteligente o bastante para não pôr seu ego a frente do conjunto do filme na primeira investida, acertou de novo e deu a público tudo o que ele queria: mais, mais e mais.

Homem de Ferro 2 é, em todos os sentidos, maior que seu antecessor. Se os leitores lembrarem bem, não dá para negar que a primeira aventura do Cabeça-de-Lata era divertida e tinha Downey Jr na melhor forma em um papel para o qual tinha nascido. Tudo no lugar certo, mas nada que se destacasse em cores fortes o bastante para impressionar. Aqui a história é outra. O ator continua em seu auge artistico e comercial, entregando uma interpretação vívida e interessante de um carismático anti-herói impossível de se odiar. Stark é mesmo o papel perfeito para Downey, tão cínico e inconseqüente quanto sua persona fora das telas, e tal semelhança fica clara nas auto-paródias que o ator lança sem medo para o espectador. Sem receio de se expor, Downey faz um trabalho que conquista e admira. Mas aqui o fato é que ele não brilha sozinho.

Com Tony Stark tendo que lidar com as conseqüencias nem tão desastrosas de sua revelação, no final do filme anterior, sobre ser a identidade do Homem de Ferro, entram em cena personagens como Ivan Vanko (Mickey Rourke) e Justin Hammer (Sam Rockwell), os proverbiais vilões. O primeiro, um cientista russo que desenvolve uma armadura parecida com a de Stark, com adição de chicotes elétricos que são armas mortais, parte para a pancadaria na tentativa de vingar a morte do pai, ex-membro renegado da empresa do pai de Tony. É um vilão com muito mais vida e profundidade do que o apático Jeff Bridges representou no primeiro filme, e Rourke empresta a ele as artimanhas de ex-lutador de boxe, a inteligência arguta de ator experiente e a coesão de um trabalho feito com muita pesquisa. Ao seu lado, Rockwell faz o rival empresarial da vez, que se une a Vanko para sabotar a supremacia de Stark no campo das “máquinas de guerra”. Rockwell dá ao personagem a atuação instintiva e impetuosa que é sua marca, e seu estilo cai bem na persona de Justin Hammer, um futuro personagem fundamental para a história de Stark.

A equação do filme se fecha com o Coronel James Rhodes, agora intepretado por Don Cheadle, que substituiu o igualmente talentoso Terrence Howard. Antes melhor amigo do herói, agora Rhodes tem lá suas rusgas com o protagonista, ao ponto de roubar-lhe uma das armaduras projetadas para o Homem de Ferro e entregá-la ao exército americano, que andava mesmo louco para colocar a mão na tecnologia. Nem o talento de Cheadle consegue contornar o tom irritante do personagem, mas é sempre interessante assistir um ator competente lutando contra um roteiro que de fato não o favorece. Cheadle merece crédito, mas não tanto quanto poderia. Em meio a intriga, Tony ainda se vê entre Pepper Potts (Gwyneth Paltrow), promovida a diretora da empresa Stark pelo patrão, e Natalie Rushman (Scarlett Johansson), sua nova (e extremamente “interessante”) secretária. Já que não é segredo para ninguém, Rushman revela ser na verdade Natasha Romanoff, a Viúva Negra, espiã que aqui aparece a serviço de Nick Fury (Samuel L. Jackson) e da S.H.I.E.L.D., futura reunidora do super-grupo Vingadores.

A narrativa acerta, aliás, ao não deixar a sub-trama de evolução da mitologia Marvel se interpor sobre o conflito do personagem. Tony é, aqui mais ainda do que no primeiro, o centro do holofote da trama, e mostra-se uma persona muito mais complexa e interessante do que pode fazer nas estruturas rígidas do “filme de apresentação”. Com escritor bom é assim: familiaridade nunca é desculpa para preguiça, e sempre oportunidade para aprofundamento. Substituindo um time de quatro roteiristas, Justin Theroux (Trovão Tropical) faz um trabalho exemplar, conduzindo toda a trama com fluidez e naturalidade, mexendo fácil com a adenalina e o ritmo da narrativa e ainda abrindo espaço para o senso de humor maravilhoso de Tony e seus coadjuvantes. É a condução ideal para a direção de personagem e franquia, tudo colocado em perfeita coesão por Favreau, um diretor que mostra instinto, visceralidade e ímpeto, realizando uma direção muito menos presa a estigmas e muito mais empolgante do que teve a oportunidade de fazer no primeiro.

Homem de Ferro 2 é, sim, muito maior que seu antecessor. Mas isso não significa que seja melhor. Como diria uma escola de samba carioca, “apenas diferente”. Ou nem tanto. O que importa, no finas das contas e da pipoca, é entretenimento de verdade. Emocionante, empolgante, bonito, viciante, instigante e competente. Como, aliás, poucas vezes se vê na Hollywood do século XXI.

Nota:  8,0

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Homem de Ferro 2 (Iron Man 2, EUA, 2010)

Uma produção da Marvel Studios/Paramount Pictures…

Dirigido por Jon Favreau…

Escrito por Justin Theroux…

Estrelando Robert Downey Jr, Don Cheadle, Scarlett Johansson, Gwyneth Paltrow, Sam Rockwell, Mickey Rourke, Samuel L. Jackson, Clark Gregg, Jon Favreau…

124 minutos

4 de ago. de 2010

Decifradores – Entrevista: Babi Leão

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Ok, sejamos um pouco egoístas e contemos uma pequena história que é essencial para a criação desse espaço aqui no Anagrama. Certo dia, estava eu no meu formspring.me quando me deparo com a seguinte pergunta: “Se você tivesse seu próprio programa de entrevistas, quem seriam seus primeiros três convidados?”. Tudo bem, eu admito que coloquei meus ídolos, que não vêm ao caso agora, mas basta dizer que sonhei alto: duas atrizes e um ator do alto escalão hollywodiano. Acontece que, independente da minha resposta, a pergunta me fez pensar. Pensar que, colocando os pés no chão, eu posso ter meu próprio programa de entrevistas, ou pelo menos algo parecido. E, ao me perguntar quem ocuparia a cadeira de convidados, vocês, leitores e parceiros blogueiros, me vieram a cabeça. Portanto, preparem-se, porque uma vez por mês vai ter algum blogger de imenso talento por aqui.

E, como não poderia deixar de ser, começamos por ela, que estaria na quarta vaga inexistente daquela pergunta de uma maneira ou de outra. Eu já devo ter falando por aqui, e não quero me estender agora, mas a Babi é minha amiga na rede e fora dela, leitora e comentadora assídua do blog e autora de dois outros, o Babi Leão e o Casa da Babi, onde ela publica suas reflexões e visões de mundo de escritora talentosa, cristã, artista nata, jovem e ser humano. Vale a pena, para quem é de qualquer religião. Agora, deixemos ela falar.

Parte Um: As letras…

Uma palavra: Liberdade.

Um  gesto: Sorriso.

Um filme: “Um Amor Para Recordar” (A Walk to Remember, 2002)

Uma banda: Paramore.

Um programa de televisão: A Liga.

Uma citação: “As únicas coisas que podemos conservar são as que entregamos a Deus. As que guardamos para nós são as que perderemos com certeza” (C.S. Lewis)

Um blog: As Roupas no Varal

Uma celebridade: Eu gosto da Gisele Bundchen, porque apesar de ela ser famosa, ela continua sendo simpática, humilde e ela. Valorizo isso!

Dia ou noite? Noite.                    Inverno ou verão?  Inverno.                    Acaso ou destino? Destino.

Twitter ou Orkut? Orkut.          Orkut ou Blogger? Blogger.             Blogger ou Formspring? Blogger.

Último filme que viu (gostou?): O último que eu vi foi “O Amor Acontece” (Love Happens, 2009). Eu gostei, mas não deu tempo de terminar, preciso ver o final.

Tocando agora: Muse – Neutron Star Collision (Love is Forever)

Parte Dois: O Anagrama…

Escrevo porque…

Escrevo porque amo e porque quando escrevo, definitivamente me perco e me encontro várias vezes entre as palavras e sem querer deixo pelos textos uma parte de mim.

O que o seu filme preferido te ensinou? E porque é seu filme preferido?

Gosto muito de “Um Amor Para Recordar”, porque o assisti em uma época em que eu comecer a me questionar se eu era o que era pelas pessoas ou por mim mesma e o filme “falou” bastante comigo quando me mostrou que ninguém tem que fazer as coisas para agradar os outros, quem é seu realmente é seu (amigo, namorado, ou seja lá o que for) e que qualquer semente que você planta, seja ela boa ou ruim, dá frutos!

Planeja antes de escrever ou deixa as coisas fluírem conforme escreve?

Comigo acontece assim: abro o Word e o que vem na minha cabeça eu vou escrevendo. Na maioria das vezes as ideias fluem. Mas tem dias que eu acordo no meio da noite com uma ideia na cabeça e, com medo de esquecê-la, pego o caderninho e anoto.

Pra quê gostaria de ter mais tempo e o quê passa tempo demais fazendo?

Sinceramente eu gostaria de ter mais tempo para dormir, mas acho que se fosse para eu pedir alguma coisa, pediria disposição e não tempo, porque eu fico a maior parte do dia na internet procurando o que fazer. É uma vergonha!

Na Internet as pessoas mudam? E, além disso, ela é capaz de mudar a vida das pessoas? Se sim, de que forma você mudou?

Prefiro não generalizar. Conheço umas pessoas que se transformam na internet e outras que continuam com a sua essência. Acho até engraçado porque conheço uma que fala errado e na internet escreve também. E sim, esse meio de comunicação é capaz de mudar a vida das pessoas. Muda tanto positivamente quanto negativamente.

Eu não mudei com a internet, mas ela influenciou na mudança. Antes eu usava-a para fazer coisas, digamos que, inúteis. E agora eu uso para edificar as pessoas que precisam se libertar das prisões que o dia-a-dia nos trás. Agora o que eu mais amo é transmitir paz para as pessoas por meio dela.

Como você compara música nacional e internacional? Qual escuta mais e porquê?

Música nacional, normalmente eu ouço só pelo instrumental. E internacional pela voz, letras e instrumental. Estamos pobres de música nacional! Para mim Cine e Restart não fazem música: fazem sucesso. Eu gosto de sentir o que o compositor quis dizer com a letra e não da idolatria. Por isso eu ouço mais internacional. Os gringos tocam mais meu coração.

Escolha uma personalidade (de cinema, música, literatura…) que acha injustiçada e defenda-a!

Eu achava uma injustiça o que diziam sobre o Michael Jackson ser pedófilo e ter abusado das criancinhas. Mas ele não está mais aqui para eu defendê-lo… Ainda acho que ele queria dar a elas o que ele não teve na sua infância. Uma pessoa que sofreu tanto não iria querer que outras sofressem também.

Como define sua forma de escrever, seu blog e a si mesma?

O que define minha maneira de escrever e meu blog é Deus e fé. Deus é uma fonte de inspiração sem fim. Ele é a vida, a verdade e tudo o que precisamos crer e saber de princípio. E a fé é tudo o que precisamos ter em prática. Vai além das coisas materiais.

Deus é o que me define também, porque Ele sempre me dá um sorriso novo, uma mudança necessária e uma nova força. Não importa o que aconteça a minha vontade é estar sempre sorrindo e Ele cumpre isso em mim. Por isso eu escrevo, e espero que novos sorrisos se abram em novos computadores!

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Imagens recentemente usadas nos blogs da Babi

Eu concordo com você. A vida não é tão perfeita para quem espera. Olhando através das seringas e agulhas eu me dou conta que a beleza da vida só está na perfeita certeza de que o dia começa e termina, acende e apaga, vive ou não. É a perfeição da luz que bate pelas frestas da janela e iluminam o piso, que precisam te fazer esperar. Espera! Espera e não cansa.”

(Babi Leão, no blog homônimo, post “Cura”)