Review: Dirty Computer (álbum e filme)

Janelle Monáe cria a obra de arte do ano com um álbum visual espetacular - e que desafia descrições.

Os 15 melhores álbuns de 2017

Drake, Lorde e Goldfrapp são apenas três dos artistas que chegaram arrasando na nossa lista.

Review: Me Chame Pelo Seu Nome

Luca Guadagnino cria o filme mais sensual (e importante) do ano.

Review: Lady Bird: A Hora de Voar

Mais uma obra-prima da roteirista mais talentosa da nossa década.

Review: Liga da Justiça

É verdade: o novo filme da DC seria melhor se não tivesse uma Warner (e um Joss Whedon) no caminho.

Mostrando postagens com marcador Rebecca Hall. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Rebecca Hall. Mostrar todas as postagens

3 de mai. de 2016

Diário de filmes do mês: Abril/2016

Downloads14

por Caio Coletti

Nem todos os filmes merecem (ou pedem) uma análise complexa como a que fazemos com alguns dos lançamentos mais “quentes” ou filmes que descobrimos e nos surpreendem positivamente. É levando em consideração a função da crítica e da resenha como uma orientação do público em relação ao que vai ser visto em determinado filme que eu resolvi criar essa coluna, que visa falar brevemente dos filmes que não ganharam review completo no site. Vamos lá:

au

American Ultra: Armados e Alucinados (American Ultra, EUA/Suiça, 2015)
Direção: Nima Nourizadeh
Roteiro: Max Landis
Elenco: Jesse Eisenberg, Kristen Stewart, Topher Grace, Connie Britton, Walton Goggins, John Leguizamo, Bill Pullman, Tony Hale
96 minutos

O grande pecado de American Ultra é prometer muito mais diversão do que entrega. A história acompanha Mike Howell (Jesse Eisenberg), o caixa de um mercadinho em uma cidade pequena, que tem ataques de pânico todas as vezes que tenta sair dos limites do município com a namorada, Phoebe (Kristen Stewart). Um belo dia, uma mulher misteriosa (Connie Britton) aparece e diz um monte de palavras sem sentido para Mike, e de repente uma programação escondida no fundo de sua mente é acionada, e ele se revela um agente treinado e perigoso. A trama por trás de tudo isso é um pouco mais do mesmo, com um jovem executivo (Topher Grace) tomando a posição na CIA que anteriormente pertencia a Britton e deixando o poder subir a sua cabeça, realizando operações sem a autorização de seus superiores. O mais interessante é o efeito cômico de ver Eisenberg e Stewart, tradicionalmente acostumados a papeis mais no perfil indie, se divertindo como uma dupla de maconheiros que esconde um lado badass. O roteiro de Max Landis (Poder Sem Limites) tenta explorar isso em algumas cenas de ação, e trabalhando no desenvolvimento da relação dos dois, mas falta faro cômico e conhecimento de gênero para American Ultra emplacar como a comédia de ação que poderia ser.

Ao mesmo tempo, falta ao diretor Nima Nourizadeh (Projeto X) a habilidade para comandar as cenas de adrenalina – uma luta em especial, dentro de uma sala iluminada com luzes negras, poderia render muito mais nas mãos de um diretor (e um fotógrafo) mais habilidoso e com mais senso de estética e ritmo. Dito tudo isso, American Ultra não é uma ofensa em forma de filme. São rápidos 96 minutos que podem desaparecer rapidamente da cabeça do espectador assim que os créditos sobem, mas funcionam como entretenimento e como oportunidade de ver a química entre esses dois ótimos atores da nova geração. Stewart (26) e Eisenberg (32) estarão juntos de novo esse ano, sob a direção de Woody Allen, em Café Society, e se os admiráveis esforços dos dois em American Ultra são alguma medida, o par vai funcionar as mil maravilhas.

✰✰✰ (3/5)

td

Tumbledown (EUA/Canadá, 2015)
Direção: Sean Mewshaw
Roteiro: Desiree Van Til
Elenco: Rebecca Hall, Jason Sudeikis, Joe Manganiello, Dianna Agron, Brythe Danner
105 minutos

Pequenos dramas indie como Tumbledown frequentemente tem muito mais a oferecer do que alguns espectadores reconhecem. Embora a fórmula e o estilo de muitos desses filmes sejam repetitivos, seus roteiros muitas vezes guardam pequenas pérolas de insight. Em Tumbledown, além de um par de atuações para lá de convincentes dos dois protagonistas, que desenham um romance adorável e satisfatório, o script da estreante Desiree Van Til carrega realizações inteligentes sobre arte, nossa idealização da vida e da mentalidade dos artistas que amamos, a forma como nos apropriamos da expressão deles para refletir obsessões e identificações nossas, sem levar em conta que não conhecemos de fato quem são esses seres humanos. A história de Hannah (Rebecca Hall), a viúva de um cantor de folk que adquiriu status de cult após sua morte, se entrelaça com a do professor e escritor Andrew (Jason Sudeikis), que pretende usar a história do marido da moça como a pedra fundadora em um livro sobre artistas que morreram cedo. A resistência de Hannah, que passa por um longo período de luto, cede quando ela percebe que Andrew pode ajudá-la a terminar a biografia do marido, na qual ela trabalha como uma forma de tentar conseguir um senso de “conclusão”. Os mecanismos sinceros e compreensivos do roteiro de Van Til não deixam que essa seja a história de uma mulher que precisa de outro homem para ajudá-la a esquecer o marido morto – ao contrário, é a história do encontro de duas pessoas que se ajudam mutuamente, conforme a convivência com Hannah faz Andrew realizar sua atitude condescendente à vida e à humanidade do artista que admira.

Sempre excelente, Rebecca Hall entrega uma atuação que traduz conceitos discrepantes de luto, amor, arrependimento, culpa e estagnação na expressão coesa de uma mulher que podemos facilmente acreditar ser real. Os que passaram pela perda de alguém próximo de si vão reconhecer-se em vários momentos da performance da britânica, uma das melhores (e mais subestimadas) atrizes em atividade no momento. Equilibrando-se frente a essa companheira de cena formidável, Sudeikis aparece meio apagado, mas seu charme natural e sua composição firme de um personagem que foge um pouco dos que ele geralmente interpreta ganham o espectador sem muito esforço. No fim de seus 105 minutos, Tumbledown não é um romance surpreendente ou subversivo, mas não precisa ser – seu humor muito naturalista funciona à perfeição, sua história envolve, emociona e faz pensar. É um filme que vale a pena ser visto pelo que é, não pelo que aspira a ser, e essa pode ser uma mudança bem-vinda na rotina de espetáculos ambiciosos de Hollywood.

✰✰✰✰ (3,5/5)

yn

Você é o Próximo (You’re Next, EUA/Inglaterra, 2011)
Direção: Adam Wingard
Roteiro: Simon Barrett
Elenco: Sharni Vinson, Nicholas Tucci, Wendy Glenn, AJ Bowen, Joe Swanberg, Amy Seimetz, Ti West, Rob Moran, Barbara Crampton
95 minutos

Outro da nova geração de filmes de terror amados pela crítica e pelo público, Você é o Próximo é único pela mistura e brincadeira de gêneros que propõe. Uma história paranoica de invasão à domicílio com um acompanhamento de slasher film (aqueles terrores baseados em assassinos em série, sobrenaturais ou não), mas a alma de uma comédia de humor negro indie sobre uma família disfuncional, o filme do diretor Adam Wingard é exageradamente divertido (e eventualmente engraçado) ao mesmo tempo em que mantem a tensão nas alturas durante a metragem de 95 minutos. O equilíbrio do tom é arquivado largamente através de um exercício de contenção – Wingard e o roteirista Simon Barrett mantem o subtexto satírico e as referências aos filmes clássicos por baixo da narrativa, telegrafada para o espectador de forma prática enquanto a câmera do diretor de fotografia Andrew Droz Palermo adiciona truques e rebuscamentos visuais, especialmente em cenas chaves da metade para o final do filme. A história acompanha uma família que se junta pela primeira vez em muito tempo assim que os pais (Rob Moran e Barbara Crampton) se mudam para uma casa afastada – logo todos os membros da reunião, incluindo os agregados, começam a ser aterrorizados por um grupo de assassinos mascarados cujo propósito é a principal revelação do filme (é genuinamente surpreendente, porque o filme nos despista com suas referências e colocações tonais).

Parte da diversão de Você é o Próximo é o quanto o elenco parece estar comprometido com a brincadeira. Sharni Vinson, que merecia ter se tornado uma estrela depois do trabalho aqui, se concentra em vender sua personagem com tanta força que é impossível não torcer por ela – Erin, a namorada de um dos filhos da família e protagonista da trama, aos poucos de mostra uma heroína badass em meio a um monte de personagens cheios de falhas e hipocrisias. Joe Swanberg, conhecido como o diretor de dramédias indie como Um Novo Começo e Um Brinde à Amizade, está particularmente bem como o irmão mais velho que insiste em se mostrar superior aos outros membros da família. Não é que Você é o Próximo subverta a moralidade a ponto de que a possibilidade de vê-lo morrer em algum momento da trama seja prazerosa, mas há um cerne cruel e sarcástico na violência do filme, nas suas elaborações emocionais, e no seu final.  E o mais interessante é que, mesmo se tudo isso falhar com você, Você é o Próximo ainda é uma hora e meia muito bem gasta com um pedaço de entretenimento bem realizado.

✰✰✰✰ (4/5)

mn

Sr. Ninguém (Mr. Nobody, Bélgica/Alemanha/Canadá/França, 2009)
Direção e roteiro: Jacon Van Dormael
Elenco: Jared Leto, Sarah Polley, Diane Kruger, Lin Dan Pham, Rhys Ifans, Natasha Little, Toby Regbo, Juno Temple
141 minutos

Há alguns filmes que espelham um pouco do que Sr. Ninguém é e significa, mas não há nenhum que seja exatamente igual a ele. Há algo de Charlie Kaufman, famoso por Quero Ser John Malkovich e Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, no surrealismo contido da trama, na sua estrutura pouco convencional, em seus acenos para a realidade (e as realidades) que representa. Há algo de Wes Anderson e Jean Pierre Jeunet, os diretores de O Grande Hotel Budapeste e O Fabulo Destino de Amélie Poulain, na composição visual e na forma como o filme integra o onírico e o sobrenatural em um mundo que é fundamentalmente realista. E há algo de Boyhood, de Richard Linklater, na reflexão que Sr. Ninguém nos faz fazer, de sua própria forma típica da ficção científica. A mistura de todas essas coisas é adicionada a visão única do diretor e roteirista belga Jaco Van Dormael, que conta a história de Nemo Nobody (Thomas Byrne, Toby Regbo e Jared Leto, em diferentes fases do personagem), um garoto de 9 anos cuja separação dos pais e decisões que surgem dessa separação criam uma infinidade de universos alternativos em que o garoto tem diferentes amores, destinos e mortes. De certa forma, Sr. Ninguém é uma carta de amor a essas possibilidades, um filme que prende a respiração e segura firme em todas as opções de narrativa que vê diante de si, e portanto em todas as escolhas que o seu protagonista tem que fazer. Um poema à beleza do momento em que o trapezista está suspenso no ar, entre dois pontos de apoio, o filme de Dormael nunca se cansa de surpreender o espectador, e cede a cada capricho de seu diretor/autor sem medo algum do abandono.

Jared Leto está brilhante como as várias encarnações adultas do personagem, e ainda melhor como a versão envelhecida de Nemo – cheia de maneirismos, seu retrato do protagonista frente a um futuro espantoso se encaixa perfeitamente às ambições e ao clima do filme, enquanto seu Nemo adulto representa uma pletora de decepções e sensibilidades que refletem no quão complicada a vida pode se tornar, independente de qual caminho escolhermos. Como o personagem diz em certo momento do filme: “Todo caminho é o caminho certo. Tudo que há poderia ter sido qualquer outra coisa, e teria tanto significado quanto tem agora”. Com uma filosofia que consegue ser niilista e mágica ao mesmo tempo, Sr. Ninguém quer nos pintar como peões do destino e das escolhas que fazemos simplesmente por sermos quem somos, e acha extraordinária tristeza, determinismo e beleza dentro desse conceito. É uma história fantástica para as nossas consciências, e não quer que nos desprendamos dela, mas que deixemos ela se expandir para aceitar um conceito de incerteza que é tão real quanto a carne e os ossos do nosso corpo.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

jc

Jogo de Cena (Brasil, 2007)
Direção: Eduardo Coutinho
Elenco: Marília Pêra, Andrea Beltrão, Fernanda Torres
100 minutos

Em certo ponto de Jogo de Cena, o simples, extraordinariamente comovente e magistral documentário do mestre Eduardo Coutinho, uma das entrevistadas que compõem os 100 minutos de filme termina sua história, olha diretamente para a câmera, e diz: “e foi isso que ela disse”. Embora o jogo tenha começado algum tempo atrás, é nesse momento que Jogo de Cena pega o espectador pela boca do estômago, aplicando um choque que nos faz ver e rever o que estamos assistindo. E essa não é nem a metade do que Coutinho arquivou com um único cenário, um anúncio no jornal e a ajuda de algumas maravilhosas atrizes. A honestidade crua de Jogo de Cena se contrapõe ao seu jogo de enganação do tempo todo – é como se Coutinho, através dessas histórias contadas (em verdade ou em mentira), queira nos dizer que a narrativa e como a recebemos é sempre mais importante do que a autenticidade dela. Enquanto nos mostra histórias intensamente humanas de perda, amor e auto-conhecimento, todas elas contadas nas vozes de mulheres que viveram o que dizem ou que buscam em si a forma de expressar aquilo que outras disseram, Coutinho questiona a nossa concepção de verdade, a nossa construção de ficção e realidade, o próprio conceito de personagem e performance. Em Jogo de Cena, tudo é performance – numa teia de fingimentos e honestidades, o que fica é a identificação que o espectador sente com cada uma das mulheres em frente à câmera.

Um documentário que não foge da complexidade e do caráter esquivo do seu tema de suas reflexões, Jogo de Cena ainda mostra algumas das melhores performances de um trio de atrizes tão extraordinário que lida com o borrar da linhas entre realidade e ficção de forma espetacular: Andréa Beltrão, Fernanda Torres e Marília Pêra arquivam seus momentos em diferentes pontos do filme, e o permeiam como se fossem guias da nossa atenção ao redor dele. Torres faz trabalho especialmente superlativo com a ambiguidade das palavras e das histórias do filme, escondendo no fundo dos olhos, por trás de um sorriso fácil que tem o cuidado de parecer ensaiado e genuíno ao mesmo tempo, uma dúvida e uma semente de performance calculada. A impressão é que ninguém entende o filme exatamente como ela, nem mesmo o espectador – e é nesse mistério que mora o grande trunfo de Jogo de Cena, um documentário que, bem ao gosto do diretor, levanta mais perguntas do que trás respostas. Acima de tudo, porém, uma experiência cinematográfica (e de vida) essencial.

✰✰✰✰✰ (5/5)

sc

Special Correspondents (Inglaterra/Canadá/EUA, 2016)
Direção e roteiro: Ricky Gervais
Elenco: Ricky Gervais, Eric Bana, Vera Farmiga, America Ferrera, Raúl Castillo, Kelly Macdonald, Benjamin Bratt, Kevin Pollak
100 minutos

Excessos a parte, Ricky Gervais pode ser genial com o seu estilo sem papas na língua quando quer. Mais do que frequentemente, o que sai da boca do comediante britânico são críticas mordazes e ácidas a costumes e determinados comportamentos sociais – e na maioria dos temas, Ricky nos faz rir de quem merece ser motivo de chacota. Em Special Correspondents, os melhores momentos vem quando esse lado do comediante, aqui trabalhando em dose tripla como diretor, roteirista e astro, é libertado pelo sarcasmo que Gervais dirige à cobertura sensacionalista da mídia, ao caráter vazio de muitas reportagens “de interesse humano” que saem de coberturas de guerras e grandes acontecimentos, da busca superficial por fama e reconhecimento suplantando a nossa conexão e empatia pelo outro. Alguns momentos-chave mostram essa inteligência por trás do humor de Special Correspondents, e nesses momentos o filme se torna um divertido passeio pela mente de um comediante genial, com performances espertas de Gervais, Vera Farmiga (espetacular como a esposa falsária do protagonista) e da dupla America Ferrera e Raúl Castillo.

Em outros momentos, no entanto, o que vemos é uma comédia sem os espinhos que Gervais geralmente traz para os seus roteiros, se contentando em padrões fáceis de reproduzir, especialmente na oposição yin-yang, nerd-e-galã, dos protagonistas. O britânico interpreta um técnico de rádio cujo parceiro repórter (Eric Bana) é mais um picareta do que um profissional sério – quando os dois são mandados para o Equador cobrir uma guerra civil, Gervais acidentalmente perde as passagens e passaportes, e ele e Bana resolvem tapear a sua estação de rádio, se abrigando com um casal de latinos amigos e fazendo suas reportagens com base em efeitos sonoros e histórias inventadas. Para uma história com tanto potencial de sátira, e em uma plataforma aparentemente tão permissiva, Special Correspondents é notavelmente preguiçoso, assim como a performance de Bana no papel do segundo protagonista, e a direção sem novidades de Gervais por trás das câmeras. Uma pena.

✰✰✰ (2,5/5)

22 de jan. de 2016

10+ filmes que Sundance 2016 vai ver (e você também deveria)

 
por Caio Coletti

Todos os anos, lá pelo mês de Maio, nós aqui d’O Anagrama puxamos um pouco o saco do Festival de Cannes, com o nosso postzinho anual de 10 filmes imperdível da seleção do festival francês. O que nos passou relativamente despercebido até agora é que existe outra festa do cinema que precisa ser notada e merece o mesmo tratamento. Sundance acontece desde 1978, em uma cidadezinha de Utah, no coração dos EUA – já é o maior festival de cinema independente americano, e a cada ano que passa a sua seleção de filmes de outros países e documentários ganha mais destaque. Acompanhar a seleção de Sundance é invariavelmente encontrar algumas pérolas indies sobre as quais falaremos o ano todo, e é a oportunidade de conhecer, também, talentos emergentes que podem estar borbulhando por baixo do radar de Hollywood. Em tempos de Oscar, é bom lembrar que existe (muito) mais cinema por aí do que o que a Academia escolhe reconhecer.



The Birth of a Nation (Nate Parker, EUA)

Nate Parker ganhou destaque na indústria como ator, em papéis coadjuvantes em Sem Escalas e Amor Fora da Lei, além do papel principal no drama romântico Nos Bastidores da Fama, elogiado filme da diretora Gina Prince-Bythewood (A Vida Secreta das Abelhas) de 2014. A estreia do moço na direção em The Birth of a Nation, no entanto, tem arrancado mais entusiasmo da crítica do que qualquer coisa que ele fez na frente das câmeras – “emprestando” o título do filme de D.W. Griffith de 1915, considerado um clássico inovador por sua contribuição para a técnica do cinema e da narrativa, mas amplamente condenado como uma história racista que transforma em heróis os integrantes da Ku Klux Klan, Parker dirige, escreve e protagoniza a história de um ex-escravo que, em 1831, tenta libertar outros cidadãos negros que estão submetidos à escravidão na Virginia, estado conservador dos EUA.

É uma história real, daquela que é considerada a rebelião de escravos mais bem-sucedida da história americana. No elenco, destacam-se Gabrielle Union (Being Mary Jane), Armie Hammer (O Cavaleiro Solitário), Penelope Ann Miller (O Artista) e Jackie Earle Haley (Watchmen).




Christine (Antonio Campos, EUA)

A história de Christine Chubbuck ficou conhecida mundialmente em 1974, quando ela desferiu um tiro na própria cabeça durante uma transmissão ao vivo do programa que comandava em uma pequena emissora da Flórida, nos EUA. Assolada pela depressão desde jovem, Christine tinha apenas 30 anos, e as muitas declarações de sua família e de seus colegas de trabalho desde então fizeram crer que a absoluta solidão afetiva, a dificuldade social e as pressões do trabalho a levaram ao ato. O filme Christine, dirigido por Antonio Campos (Simon Killer) e escrito por Craig Shilowich (Rio Congelado), foca na psique dessa personagem real perturbadora e engimática, além de sublinhar o papel da desmoralização do trabalho e dos esforços da repórter em fazer do Suncoast Digest, programa que apresentava, um pedaço sério e comprometido de jornalismo, enquanto a emissora pedia por histórias mais “suculentas” e “sangrentas” para atrair audiência.

Rebecca Hall, que já provou suas capacidades na minissérie Parade’s End e em Vicky Cristina Barcelona, de Woody Allen, aceitou o desafio de encarnar Christine; enquanto isso, Michael C. Hall (Dexter) co-estrela na pele do colega de trabalho, e uma paixão não-correspondida da jornalista, George Peter Ryan.




Goat (Andrew Neel, EUA)

Segundo filme de ficção do também documentarista Andrew Neel (Darkon), Goat é chamado, na descrição provida pelo próprio site do Festival de Sundance, de “parte neorrealismo, parte filme de horror” e “uma experiência cinematográfica tão importante quanto é brutal”. Apoiada na experiência do diretor com documentários, o filme se apóia firmemente no realismo para contar a história de um garoto de 19 anos (Ben Schnetzer, de Pride) que, depois de um ato de violência cometido contra ele, entra na faculdade e se alia a mesma “irmandade” de seu irmão mais velho, interpretado por ninguém menos que Nick Jonas. O que se segue é uma exploração dos aspectos mais violentos e brutais do que aprendemos a convencionar, na sociedade, como “a identidade masculina”. É um filme acusatório pela mera verdade que expõe, e parece ser uma experiência cinematográfica interessante.

No elenco também o jovem Danny Flaherty, que se destacou com um papel coadjuvante em The Americans. Um dos responsáveis pelo roteiro, por sua vez, é David Gordon Green, que já dirigiu filmes elogiados como Joe, além do recente Especialista em Crise.



As You Are (Miles Joris-Peyrafitte, EUA)

Filmes de amadurecimento com pré e pós-adolescente são um artigo tão frequente em Hollywood que é uma surpresa que eles não sejam um mote batido. Como As You Are prova, no entanto, há sempre novos e interessantes meios de se olhar para essa eternamente fascinante fase da nossa vida – passado durante os anos 90, o filme de estreia do diretor/roteirista Miles Joris-Peyrafitte foca em três amigos que se consideram outsiders na escola em que estudam. O filme nos conta a história dessa explosiva relação de amizade e afeição através do ponto de vista de cada um dos três protagonistas, construindo um quebra-cabeças de memórias através de seus depoimentos para uma investigação policial. Os atrês adolescentes são feitos pelos jovens talentos Owen Campbell (excelente na segunda temporada de The Americans), Charlie Heaton (Stranger Things) e Amandla Stenberg (Jogos Vorazes).

O filme, uma exploração em longa-metragem da premissa que já rendeu o curta As a Friend, do diretor Peyrafitte, ainda conta com performances coadjuvantes fortes de Scott Cohen (Allegiance) e Mary Stuart Masterson (Tomates Verdes Fritos).




Lovesong (So Yong Kim, EUA)

Uma das recentes queridinhas de Sundance, a diretora/roteirista asiático-americana So Yong Kim já está no seu terceiro filme selecionado pelo festival. Ou seja, é uma boa ideia prestar atenção à moça, de 48 anos, que já entrou por lá com In Between Days (2006) e For Ellen (2002) – a bola da vez é o drama Lovesong, a história de duas amigas que, quando saem para uma roadtrip improvisada juntas, descobrem uma nova dimensão de afeição no relacionamento entre elas. O problema é que uma delas não sabe lidar com esses novos sentimentos, e as duas acabam se afastando até 3 anos depois, quando uma delas está de casamento marcado. Riley Keough (Mad Max) entrega uma performance elogiada ao lado da co-protagonista Jena Malone (Sucker Punch), e o resumo provido pelo festival garante que, em Lovesong, “silêncio e olhares contam uma história mais completa do que diálogo explicito”.

O elenco, estrelado para os padrões de Sundance, inclui Brooklyn Decker (Battleship), Ryan Eggold (The Blacklist), Rosanna Arquette (Pulp Fiction), Amy Seimetz (Upstream Color) e até o diretor Cary Joji Fukunaga, conhecido por comandar a primeira temporada de True Detective.




Swiss Army Man (Dan Kwan, Daniel Scheinert, EUA)

Conhecidos pelos trabalhos em videoclipes, o duo formado por Dan Kwan e Daniel Scheinert (ou simplesmente “The Daniels”) marcaram muitos espectadores com obras como "Don't Stop", do Foster The People, e "Cry Like a Ghost", do Passion Pit. A estreia dos dois na direção e roteiro de um longa-metragem promete trazer a mesma carga de criatividade e energia dos clipes, contando a história improvável de um homem perdido em uma ilha deserta que, logo antes de perder as esperanças, vê um cadáver sendo carregado pelo mar para o litoral. Munido de seu novo “amigo” de uma série de recursos improváveis, a dupla parte em uma saga para levar o protagonista de volta para a mulher de seus sonhos.

No elenco tem Paul Dano (Pequena Miss Sunshine), Daniel Radcliffe (Harry Potter) e Mary Elizabeth Winstead (Scott Pilgrim), todos encarnando papeis que podem muito bem ser os mais improváveis de suas carreiras. A descrição do festival saúda o filme como “uma celebração das maravilhas e oportunidades oferecidas pelo cinema”.




Joshy (Jeff Baena, EUA)

Uma comédia dramática delicada e que não tem medo de cutucar o ego e a fragilidade masculina, Joshy chega à Sundance prometendo ser uma lufada de ar fresco em meio aos dramas mais pesados do festival. A história acompanha o personagem-título, cujo noivado termina bruscamente, dias antes da data em que o casamento estava marcado. Joshy resolve aproveitar a festa já marcada de despedida de solteiro mesmo assim, levando os poucos amigos que ainda se dispõem a ir com ele – o problema é que, concentrados em suas drogas e seus hook-ups, os tais amigos se recusam a endereçar o elefante branco que é a separação de Joshy, e conforme convidados desejáveis e não-desejáveis vão chegando e partindo, o protagonista vai ter que encontrar algum tipo de conclusão para essa etapa da sua vida.

Thomas Middleditch (Sillicon Valley) faz o protagonista, enquanto o elenco coadjuvante está lotado de talento cômico, como Adam Pally (Happy Endings), Nick Kroll (The League), Jenny Slate (Obvious Child), Lauren Graham (Gilmore Girls), Aubrey Plaza (Parks and Recreation), Joe Swanberg (O Último Sacramento), Alison Brie (Community) e Jake Johnson (New Girl).



Other People (Chris Kelly, EUA)

Um roteirista de longa data do Saturday Night Live e de séries como Broad City, Chris Kelly estreia na direção e roteirização de um longa-metragem com a história muito pessoal de um personagem que se parece muito com ele. David, o protagonista de Other People, é um escritor de comédia iniciante que se muda de Nova York de volta para sua cidade do interior dos EUA, a fim de ajudar a mãe, que está gravemente doente. Vindo do fim de um relacionamento, David se sente um peixe fora d’água, agora, com o seu pai ultra-conservador e suas irmãs mais novas – e, apesar da deterioração do estado da mãe, tenta convencer a todos (e a si mesmo) que está “indo tudo bem”. Nas palavras dos organizadores do festival, o filme de Kelly é especial porque captura a importância de pequenos momentos na dinâmica familiar, e todo o espectro de emoções que só um dia com a sua família pode trazer.

Jesse Plemons (Fargo) estrela, com Molly Shannon (Wet Hot American Summer) entregando uma performance celebrada como sua mãe, e Bradley Whitford (Trophy Wife), June Squibb (Alaska) e Paul Dooley (Insônia) completando o elenco.




Southside With You (Richard Tanne, EUA)

Southside With You é a crônica de uma tarde significativa de 1989, quando um estudante de direito de Harvard marcou um encontro com uma advogada da firma em que ambos trabalhavam. O nome dela era Michelle Robinson, e o dele Barack Obama – e apesar da pretensão para o “encontro” ter sido um evento de caridade no qual ambos deveriam comparecer pela empresa, logo fica claro que o fumante de voz suave que Michelle nunca notou na firma de advocacia está tentando impressioná-la. O épico primeiro encontro desses dois personagens significativos para a história americana é contado com habilidade e consciência pelo diretor de primeira viagem Richard Tanne, tomando muitas liberdade poéticas mas captando a essência dessas duas pessoas, iguais em poder, personalidade, ambição, intelecto e idealismo.

Tika Sumpter (The Haves and Have Nots) e Parker Sawyers (A Hora Mais Escura) estrelam em Southside With You, um filme importante para ponderar a significância desse e de tantos outros momentos para a história, principalmente agora que o segundo mandato de Obama está acabando.




Spa Night (Andrew Ahn, EUA)

O diretor Andrew Ahn estreia em longas-metragens com o promissor Spa Night, que coloca luz sobre uma comunidade pouco vista no cinema (a dos imigrantes coreanos nos EUA, especialmente em Los Angeles), e ainda os confronta com a cultura gay ocidental e as novas configurações familiares que se organizam no mundo todo. Na história, um jovem consegue trabalho em um spa para ajudar sua família, em crise financeira quando o restaurante do qual eram donos vai à falência – lá, ele descobre um submundo de sexo gay e possibilidades de relacionamentos novos que o assustam e o excitam ao mesmo tempo. Em casa, o pai machista não admite que a mãe, que conseguiu rapidamente um emprego como garçonete, seja a provedora de dinheiro para a família.

Joe Seo (Férias Frustradas) encara o difícil papel principal, enquanto Haerry Kim (Law & Order) interpreta a mãe. A descrição do festival diz que o diretor estreante Ahn, “assim como o seu protagonista, está à beira de um desenvolvimento incrível”.


Menções honrosas:

- White Girl (Elizabeth Wood, EUA): Uma garota branca e de classe privilegiada se apaixona, em meio à diversão regada a drogas das suas férias de verão, por um traficante de drogas porto-riquenho.

- Between Sea and Land (Carlos del Castillo, Colômbia): Um jovem com uma doença debilitante, preso em sua cama, sonha em visitar o mar, que se estende logo a frente de sua janela.

- Mi Amiga Del Parque (Ana Katz, Argentina/Uruguai): Uma jovem mãe se esforça para cuidar do filho recém-nascido enquanto o marido viaja a trabalho, encontrando no parque em que passei uma mãe solteira, de classe mais baixa, com a qual se conecta.

- The Lure (Agnieszka Smoczynska, Polônia): Uma família encontra duas sereias no litoral, que prometem não devorá-los. Elas se tornam vocalistas de uma nova banda no clube de dança local, mas a paixão de uma delas pelo baixista pode provocar consequências mortais.

- Sand Storm (Elite Zexer, Israel/França): Conflito de gerações em uma família muçulmana – enquanto prepara o casamento de seu marido com uma segunda esposa, Jalila descobre que sua filha mais velha, Suliman, está envolvida em um caso proibido com um garoto da universidade.

- Tallulah (Sian Heder, EUA): Uma moradora de rua (Ellen Page) “sequestra” o bebê de uma mãe negligente, e no desespero procura a única adulta responsável que conhece – sua ex-sogra (Alison Janney). Entrevista com a diretora aí embaixo.


Documentários:

- Audrie & Daisy (Bonnie Cohen, Jon Shenk, EUA): Duas garotas de idade escolar foram atacadas sexualmente por garotos que achavam ser seus amigos. Uma delas tirou a própria vida, e o filme acompanha a jornada da outra e sua descoberta sobre um caso tão semelhante ao seu.

- Author: The JT Leroy Story (Jeff Feuerzeig, EUA): Desmascarada em 2006, após 10 anos de atividade, Laura Albert publicou três celebradíssimos livros sob o pseudônimo JT Leroy – e enganou o público de tal forma, incluindo aparições públicas (conduzidas por uma atriz profissional) e amizades com grandes artistas e escritores, que seu caso até hoje caminha na linha tênue entre pseudônimo e fraude.

- Life, Animated (Roger Ross Williams, EUA): Aos três anos, Owen Suskind começou a aparesentar sinais de autismo – o único estímulo ao qual respondia eram os filmes da Disney. Um dia, seu pai perguntou a ele, com o boneco do papagaio Yago, de Aladdin, em mãos: “como é ser você?”. E Owen respondeu.

- Suited (Jason Benjamin, EUA): A empresa Bindle & Keep é uma alfaiataria inovadora – eles consideram a narrativa pessoal de cada um dos seus clientes para criar o terno perfeito, e não tem problemas em olhar para além dos gêneros binários.

- Holy Hell (Will Allen, EUA): Ao sair da faculdade, o jovem aspirante a cineasta Will Allen se juntou a um culto religioso – lá, filmou mais de 20 anos de acontecimentos chocantes e, mais tarde, da lenta deterioração e derrocada da seita. Entrevista com o diretor aí embaixo.