Muito do que eu escrevi nos últimos meses veio parar aqui no blog. Não digo tudo, porque nada é verdadeiramente completo, e porque confesso ter guardado anlguns escritos para mim mesmo. E que me perdoem o estilo meio anacrônico da escrita, mas é o efeito que fica depois de passar os olhos por Dom Casmurro, de Machado de Assis. Aliás, passar os olhos não, ler. Há um abismo entre as duas coisas, se me permitem dizer. Talvez ambas sejam tão distantes quanto um olhar e um gesto, um pensamento e uma atitude, o mundo e o paraíso. É a diferença entre deixar-se levar pelo clima de uma história ou prender-se firmemente ao mundo real, sem a gana de seguir por uma vida diferente, nova, ainda que finita e instantânea. Como a nossa, aliás, o é.
Mas, enfim, voltemos ao meu ponto: apesar de boa parte do que criei em letras ter vindo parar aqui, creio que nunca falei de literatura, por falar, como opinião, nesse espaço. Pois chegou a hora, caro leitor (e cara leitora, que não me esqueça). E nunca pensei que seria Assis, um escritor tão absurdamente analógico para os dias de hoje, tão cruelmente realista, que me levaria a tal gana de dissertar sobre a arte das frases. Mas, como ele mesmo diria em outro tomo, A Cartomante, citando a Shakespeare (dezenas de vezes mais talentoso, diga-se de passagem): “há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia”. E Dom Casmurro, como obra de arte e um escrito personalíssimo, nos mostra algumas delas.
Olhares, andares, formas de falar, pequenos atos que fazem toda a diferença na caracterização de Assis a seus personagens. Se ficamos em dúvida, no final, e somos deixados nela acerca da traição de Capitu, é porque o escritor nos presenteia com personagens simultaneamente adoráveis, fascinantes e repugnantes em sua vil humanidade. Capitu é a dama dos olhos de ressaca, uma personagem difícil de tirar da cabeça, uma mulher que prende o pensamento do leitor mesmo sem nunca ter saído do papel. Pouco ficamos sabendo sobre ela, e talvez seja esse mistério velado que faça da amada de Bentinho, o narrador, uma das personagens mais duradouras no inconsciente coletivo popular brasileiro. Ainda assim, um leitor inocente seria capaz de odiá-la com todas as forças. Mas apenas um leitor inocente.
Assis deixa dicas por todo o lado, na narração de Bentinho, das dúvidas do próprio protagonista, nos mostra a ambigüidade de cada ato e deixa o narrador caracterizar-se como santo e correto, quase o tempo todo. Embora não negue seus pecados, o Dom Casmurro do título quer nos mostrar que pagou-os todos, amou sua mãe (“santíssima” e “terníssima”) sobre qualquer criatura do mundo, e envelheceu fazendo as pazes com Deus, o mundo e seu passado. Se escreve agora, é pela solidão do homem correto em um mundo de corruptos. Quem conhece o mínimo de Machado de Assis sabe que a caracterização é feita justamente para o leitor duvidar-se dela. E o gosto do escritor por personagens presunçosos de si mesmo, sempre seguros, não deixa dúvida: Bentinho é tão suspeito quando Capitu. E quem garante que ele e Sancha nunca tiveram nada a não ser a intensa troca de olhares de um marcante capítulo?
E, por fim, há sempre José Dias. Talvez a criatura mais santa, ainda que bajuladora e por vezes inconveniente, de todo o livro. Os superlativos, a subserviência, a forma como tratava Bentinho e reverenciava Dona Glória, tudo culmina em um final mezzo trágico (o do homem que nunca chegou a suas ambições), mezzo doce (o céu “lindíssimo” que o cobre ao leito de morte, o autor sugere sem palavras, é o seu destino depois dela). É a forma de Assis ser um pouco romântico, culpadamente, ainda que seja apenas pelo bem do olhar de seu narrador. E, porque não? Porque não um respiro de romantismo em uma históra tão cruelmente realista que acabamo-la sabendo tanto quanto sabíamos quando começamos?
Talvez seja uma fuga, um anestésico poderoso para uma dose forte de deseperança. Talvez seja covardia. Talvez seja o dito de alguém que tem medo de viver. Talvez seja a forma de ir a outro mundo, onde nem tudo é tão naturalmente escuro. Mas, ainda, porque não? Assis não nos dá ao luxo dessa pergunta. E, não nos dando, cria uma pérola da literatura que dói no fundo do coração e deixa um gosto amargo na boca. Não é agradável. Talvez você nem mesmo goste dele quando você terminar. Mas certos desgostos são indispensáveis, tanto quanto as delícias.
“As minhas (lágrimas) secaram logo. Fiquei a ver as dela; Capitu enxugou-as depressa, olhando a furto para a gente que estava na sala. Redobrou de carícias para a amiga, e quis levá-la; mas o cadáver parece que a retinha também. Momento houve em que os olhos de Capitu fitaram o defunto, quais os da viúva, sem o pranto nem as palavras dela, mas grandes e abertos, como a vaga do mar lá fora, como se quisesse tragar também o nadador da manhã”
(Machado de Assis, em “Dom Casmurro”)






