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10 de fev. de 2016

Review: “O Quarto de Jack” é a experiência mais sensitiva da atual temporada de premiações

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por Caio Coletti

Em O Quarto de Jack, filme de Lenny Abrahamson (Frank) adaptando o livro ultra-bem-sucedido de Emma Donoghue, mais do que em qualquer outra obra cinematográfica da atual temporada de premiações que chegará ao seu ápice no próximo dia 28, no Oscar, é importante que o espectador esteja sempre dentro do mundo, e das cabeças, dos personagens principais da história. As formas que o diretor, os atores, o roteiro e o trabalho de fotografia e edição (especialmente) encontram para arquivar essa sensação é que o tornam um dos filmes mais tecnica e emocionalmente realizados do ano. Logo nas primeira cenas, o trabalho do diretor de fotografia Danny Cohen (O Discurso do Rei) é observar os mínimos detalhes do quarto do título, local onde Joy (Brie Larson) e o filho Jack (Jacob Tremblay) passam todo o seu tempo. O trabalho de Cohen é nos transmitir a claustrofobia do pequeno cômodo, e ao mesmo tempo a vastidão que ele representa para Jack, que nunca viu o mundo lá fora – para ele, tudo no universo está contido lá dentro, e a forma como isso é realçado visualmente, além dos pequenos detalhes da história que constróem essa realidade, é espetacular.

Acontece que nossos dois protagonistas são vítimas de uma história que não tem nada de sobrenatural, ou de ficção científica – eles são reféns de um homem (Sean Bridgers) que mantem Joy em cativeiro há anos, e que abusa sexualmente dela em uma base diária. É aí que Larson e Tremblay entram para pousar o filme firmemente na realidade desde o começo. Ela, em uma performance que provavelmente vai render o Oscar de Melhor Atriz no próximo dia 28, e que a transformou em uma das maiores estrelas de Hollywood no momento, incorpora a personagem sem a ambição de fazê-la um pedaço previsível de ficção sobre a obstinação humana. Em certo momento do filme, uma entrevistadora diz para Joy: “Ninguém espera que você seja um exemplo de força”. A genialidade de Larson está em entender que não é bem assim, que as pessoas (nós espectadores incluídos) esperam que os que passaram por tragédias como a que Joy perdurou nos renovem a fé na capacidade humana de se adaptar e ser maior que as circunstâncias que nos são apresentadas. Em vez disso, a personagem que Brie constrói é uma jovem irremediavelmente quebrada, por vezes irritadiça e imatura, e sua resistência pelos anos de tormento, e pela difícil readaptação ao mundo real, é mais sentida e cruamente expressada do que seria nas mãos de qualquer outra atriz.

O pequeno Jacob Tremblay é outra história, é claro. Exibindo sua personalidade afável por aí nas temporadas de premiações, é fácil perceber que Tremblay não é um daqueles atores mirins prematuros, que falam como adultos de seus personagens e dos filmes que fazem. Essa energia passa para O Quarto de Jack, é claro, e torna ainda mais notável a forma como o ator entende e reage à história e às interações de seu personagem com a trama. Jack é essencialmente a âncora do filme, de onde a trama tira o seu principal ponto de vista, e o dono da jornada de maior descoberta e florescimento no cinema de 2015 – a forma como Tremblay expressa isso nos maiores momentos da trama, assim como nos menores, prova uma essencial compreensão do que o personagem está passando. Em um momento em especial, quando Jack vê pela primeira vez o céu azul fora do quarto onde viveu sua vida inteira, a expressão no rosto de Tremblay é uma surpresa de tirar o fôlego, a moldura a partir da qual o diretor Abrahamson contrói uma das sequências mais angustiantes e tensas do cinema do ano passado.

As performances coadjuvantes vem de atores que são consistentemente excelentes em qualquer papel, então não é surpresa que Joan Allen e William H. Macy emocionem, de maneiras bem distintas, na pele dos pais de Joy. O excelente elenco passa por cima até das poucas imperfeições que o roteiro da própria Emma Donoghue, adaptando seu próprio livro, deixa passar – a maioria dessas imperfeições, paradoxalmente, servem para o bem da história, vide a narração de Jack, que é a espinha dorsal do livro, mas parece deslocada em alguns dos momentos em que aparece no filme. É impossível, no entanto, escrever objeções diretas a inclusão desses trechos narrados com doçura ímpar por Tremblay, porque eles provem a uma história sufocantemente realista certa sombra de realismo mágico, e aprofundam a dimensão metafórica da história que Donoghue escreveu. É até curioso que, mesmo assim, as cenas narradas pareçam deslocadas com o restante do filme, incluídas como um recurso simples em um filme complexo, ou talvez seja só o diretor Abrahamson que não trabalha o bastante a sobreposição de tons e gêneros.

Por mais que O Quarto de Jack seja sobre uma situação lamentavelmente comum e terrível, e aborde essa situação com sensibilidade e coragem, mostrando as dificuldades e exigências do mundo (da família, por mais bem intencionada; da mídia; da sociedade como um todo) frente aos sobreviventes desse tipo de tragédia, confrontando decisões de seus personagens e as consequências dela com bravado, a criação de Donoghue é também uma dolorida jornada metafórica por aquele momento da infância em que uma mãe percebe que seu filho é capaz de explorar o mundo por si próprio. Quando a Joy de Brie Larson sussurra suas últimas e significativas palavras em O Quarto de Jack, ela não está dizendo adeus só a um passado traumático, mas a tudo que houve ali e a conexão profunda e irreparável que por vezes pode fazer uma mãe e um filho acharem, por muito tempo, que o mundo se resume só a eles dois. Eventualmente, a realidade se impõe, e a grandeza absoluta  do mundo obriga mãe e filho a forjarem um outro tipo de elo, imperfeito e machucado como todo o resto do que eles vão conhecer na vida.

✰✰✰✰✰ (5/5)

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O Quarto de Jack (Room, Irlanda/Canadá, 2015)
Direção: Lenny Abrahamson
Roteiro: Emma Donoghue, baseada em seu próprio livro
Elenco: Brie Larson, Jacob Tremblay, Sean Bridgers, Joan Allen, William H. Macy, Tom McCamus
118 minutos