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12 de set. de 2014

Review: “Steve Zissou” é o mais comovente (e menos lembrado) filme de Wes Anderson

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por Caio Coletti

Todo mundo ama Wes Anderson. Menos os que o odeiam, é claro, mas os detratores desse texano de 45 anos não estão vivendo seus melhores momentos, para dizer o mínimo. Com o lúdico Moonrise Kingdom e o inacreditavelmente estrelado O Grande Hotel Budapeste, Anderson caiu nas graças de um público jovem que busca experiências diferentes de cinema – garantidamente, eles não são a maioria, mas não deixam de ser uma audiência poderosa nessa época de mídias sociais. A estética toda particular do diretor, seus personagens até exageradamente humanos em seus traços por vezes grotescos (mas quase sempre adoráveis), sua visão fantasiosa de histórias que tem muito a dizer sobre a realidade e o nosso sentimento em relação a ela – tudo nos filmes do americano apela diretamente para esse público.

A Vida Marinha com Steve Zissou, talvez por isso, seja um peixe fora d’água (trocadilhos a parte). Realizado em 2004, três anos depois da crítica descobrir Anderson com o ótimo Os Excêntricos Tenenbaums, outra história de amadurecimento e, principalmente, envelhecimento, A Vida Marinha usa todas as ferramentas típicas do cineasta para criar um universo diferente daquele visto em Moonrise. E isso é uma virtude, sejamos bem claros. É de se aplaudir um diretor que consegue tirar tamanha beleza da história de dois pré-adolescentes fugindo dos pais para viver um romance improvável, e contar essa história sob o filtro da inocência e do duro confronto com a realidade. É igualmente admirável que esse mesmo cineasta consiga fazer de um drama fantasioso visto pelos olhos de um homem cansado e velho uma história que valha a pena –e muito – ser contada.

A Vida Marinha é sobre sonhos, fracassos, aventuras e a inescapável prisão que é sermos nós mesmos. É, de certa forma, sobre o quão sublime a humanidade pode ser dentro de suas mesquinharias, sobre quão encantadora pode ser uma viagem de descoberta, e o quanto isso eleva o nosso espírito, mesmo que o mundo insista em nos fazer decair – fisicamente, mentalmente, socialmente. A história de Steve Zissou (Bill Murray) não é uma história de superação, exatamente.

Acompanhamos o antes celebrado explorador marinho, e toda a sua pitoresca e maravilhosa equipe, enquanto ele busca por um mítico tubarão que havia matado seu companheiro de aventuras, de cuja existência ninguém tem muita certeza. O roteiro assinado por Anderson e Noah Baumbach (Frances Ha) não se prende demais às convenções de narração, e prefere observar enquanto esses personagens passam a enxergar uma glória inesperada na sua situação de decadência.

O elenco, sempre um ponto forte nos filmes de Anderson, está cheio de ótimos intérpretes dirigidos de forma minuciosa. Murray brilha com o que pode ser sua melhor interpretação no século XXI. Esqueça Flores Partidas, esqueça Encontros e Desencontros – é com o seu egoísta, mesquinho e desorientado Steve Zissou que ele encontra o melhor do seu método minimalista, construindo de maneira cuidadosa um personagem sólido que não é um anti-herói, porque seria preciso um conflito moral para sê-lo. Na atuação de Murray, “certo” e “errado” se apagam e o que sobrevive no centro do filme é um protagonista extremamente humano, pelo qual é muito difícil não se apaixonar. O restante do cast segue sua deixa e entrega performances com timing cômico perfeito (Willem Dafoe, quem diria!) e entendimento de personagem ainda mais aguçado. A sempre excepcional Anjelica Huston é uma coadjuvante particularmente merecedora de nota com a sua Eleanor irascível e poderosa.

A trilha sonora, em parte composta por versões em português (!) de músicas de David Bowie (!!) cantadas por Seu Jorge (!!!), que também faz parte do elenco (!!!!), é um achado; a fotografia assinada por Robert Yeoman, fiel escudeiro de Anderson desde Pura Adrenalina, de 1996, é o show de composições visuais de sempre, trazendo aquela tão conhecida sensação de deslocamento dos filmes do diretor. É apropriada essa linguagem aqui – assim como todos os filmes do texano, A Vida Marinha é uma história de outsiders. Não é sobre encontrar o sucesso e a aprovação, porque isso seria uma traição de tudo o que os filmes de Anderson representam para a geração que os adora, mas é sobre perceber que existe um senso de encantamento e aventura na vida, se você a olhar de longe, contemplando o quadro completo. Talvez essa seja a intenção nobre de todos os filmes do diretor, mas A Vida Marinha com Steve Zissou é aquele que a completa de forma mais apaixonante.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

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A Vida Marinha com Steve Zissou (The Life Acquatic with Steve Zissou, EUA, 2004)
Direção: Wes Anderson
Roteiro: Wes Anderson, Noah Baumbach
Elenco: Bill Murray, Owen Wilson, Cate Blanchett, Anjelica Huston, Willem Defoe, Jeff Goldblum, Michael Gambon, Noah Taylor, Bud Cort, Seu Jorge
119 minutos