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30 de mar. de 2016

Review: “A Garota Dinamarquesa” está interessado demais em aparências, e de menos em essências

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por Caio Coletti

Suponhamos que a gente consiga deixar de lado, só por um instante, o fato de que a escalação de Eddie Redmayne em A Garota Dinamarquesa é mais uma em uma longa linha de casos em que Hollywood preferiu escalar um ator cisgênero para interpretar uma personagem transgênero. Vamos tentar relevar, mesmo que talvez não devamos, o fato de que essa prática provavelmente vai ser vista, nas décadas futuras, da mesma forma que vemos o hábito que Hollywood tinha (e, a bem da verdade, ainda tem) de escalar atores brancos para interpretar papéis afro-descendentes – uma afronta que faz cada um dos filmes que a perpetuou uma lembrança embaraçosa do preconceito que carregávamos. Se conseguirmos esquecer a representatividade nula que um ator cisgênero traz para a causa trans quando aceita um papel dessa natureza, e o fato de que ele foi considerado pela produção muito antes de quaisquer profissionais transgênero que almejassem o trabalho, A Garota Dinamarquesa ainda tem algo a oferecer, como filme?

A resposta é mais complicada do que eu gostaria. O diretor Tom Hooper, criticado por muitos resenhistas como um classicista sem alma e com a maior inclinação para dramas acadêmicos “redondinhos” da atualidade, não ajuda a inferir muita vitalidade ao filme. O cineasta responsável por O Discurso do Rei e pelo bem mais vibrante Os Miseráveis desperdiça o  capricho do trabalho de figurino e direção de arte ao aliá-los a uma fotografia burocrática, algo surpreendente vindo de Danny Cohen, responsável pela câmera de O Quarto de Jack. A encenação é lotada de sussurros e tensão física, e certas delicadezas aparecem sob a câmera vigilante de Cohen, mas o filme perde a oportunidade de nos mergulhar no mundo que apresenta timidamente, como se calculasse quão fundo pode entrar no mar que escolheu desbravar.

A trama cobre a jornada de Lili Elbe (Redmayne), uma pintora dos anos 20, durante o descobrimento de sua identidade como uma mulher transgênero, a jornada dela e da sua esposa Gerda Wegener (Alicia Vikander), suas tentativas erráticas de receber apoio da comunidade artística e de profissionais da saúde, e sua eventual cirurgia de mudança de sexo, operada pelo pioneiro Dr. Warnekros (Sebastian Koch). O problema é que A Garota Dinamarquesa se preocupa muito em manifestar essa jornada emocional de Lili em forma de imagem, e o resultado dessa preocupação é uma representação da feminilidade que não é só estereotípica como exacerbada, e um desserviço a qualquer retrato de personagem transgênero no cinema. Traçar a “transformação” de Lili através apenas de roupas, maquiagens, gestos e mímicas (a vemos imitando movimentos de mulheres mais de uma vez no filme) não é o bastante, e ainda limita a identidade feminina a um conjunto de trejeitos e maneirismos.

Isso em grande parte é culpa do roteiro, é claro, e o trabalho de Lucinda Coxon (Matador em Perigo) não é mesmo nem um pouco exemplar – onde ela acerta é na relação entre Lili e a esposa Gerda, interpretada com tal bravado e luminosidade por Alicia Vikander que fica difícil de engolir o seu prêmio como Melhor Atriz Coadjuvante no Oscar desse ano, quando ela é claramente tão protagonista quando Redmayne. É ainda mais contrastante perceber isso quando a Gerda de Vikander, independente, impetuosa e tão absolutamente viva, é colocada em cena com a pálida imitação de uma mulher que o roteiro quer obstinadamente que Lili seja. Coxon não investe sua Lili com detalhes e arcos dentro de sua própria história, que a tornariam tridimensional como Gerda. Em grande parte, o único traço que define a mulher transgênero que protagoniza A Garota Dinamarquesa é sua transgeneridade.

Quem também se vê preso nessas limitações é Redmayne, que, escolha ética ou não para o papel, é um ator de habilidades extraordinárias. Seu retrato sensível de Lili é esforçado e estudado da forma como aprendemos a esperar dele, cheio de pequenos detalhes que casam bem com a narrativa e tentam aprofundar uma personagem que desesperadamente carece de aprofundamento – em um contexto maior, no entanto, ele estava destinado a falhar nessa missão de uma forma ou de outra, então quem sabe não seria melhor ter recusado? Ben Whishaw, Matthias Schoenaerts e Sebastian Koch também encontram grandeza em seus papéis coadjuvantes, mas a máxima do cinema já diz que atores podem fazer muita coisa, mas são incapazes de fazer tudo.

E ainda assim, mesmo com todas essas objeções éticas e artísticas ao trabalho envolvido em A Garota Dinamarquesa, o filme emociona simplesmente pela virtude da história que conta. Em alguns momentos melancólica, em outros cruelmente impiedosa, e em raras cenas recheada com a alegria que vem da liberdade, a história de Lili é uma inspiração e uma marca indelével em quem quer que a ouça, independente da forma como foi contada. Uma figura simbólica de uma fatia da população que muitos ainda veem de forma assustadoramente negativa ou simplesmente ignorante, da violência que as pessoas transgênero sofrem diariamente e da crua invisibilidade de seus problemas para o resto do mundo, Elbe sem dúvida merecia um filme melhor, mas eleva esse só por estar, de certa forma, nele. O que falta à produção de A Garota Dinamarquesa é a coragem de ser tão desafiadora, autêntica e única quanto a personagem que a inspirou.

✰✰✰✰ (3,5/5)

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A Garota Dinamarquesa (The Danish Girl, Inglaterra/EUA/Bélgica/Dinamarca/Alemanha, 2015)
Direção: Tom Hooper
Roteiro: David Evershoff, baseado no livro de Lucinda Coxon
Elenco: Eddie Redmayne, Alicia Vikander, Amber Heard, Ben Whishaw, Matthias Schoenaerts, Sebastian Koch, Adrian Schiller
119 minutos

10 de jan. de 2016

Por que precisamos de mais premiações como o Globo de Ouro?


por Caio Coletti

Este que vos fala passou bem longe de acertar as previsões para o Globo de Ouro de ontem (domingo, 10). Como dá para ver nessa matéria, que publiquei em outro site para o qual colaboro, eu dava Carol como o filme vencedor na categoria dramática, A Grande Aposta como o dono da estatueta em comédia, e uma série de outros equívocos. Hoje em dia, como qualquer pessoa que acompanha de perto o mundo do cinema pode dizer a vocês, caros leitores, nós não fazemos mais apostas com base no que gostamos mais, ou no que achamos que é mais digno de vitória. Nós fazemos apostas baseados nas críticas de terceiros sobre os filmes (os formadores de opinião, os trend-setters), e especialmente com base na qualidade “acadêmica” de uma obra, o que implica uma série de preconceitos quanto ao gênero do filme/série, quanto a determinados recursos de linguagem usados por ele, quanto à história que conta e aos nomes que tem atrelados a si. Não nos culpe – gato escaldado tem medo de água fria, e a previsibilidade das preferências e comportamentos dos votantes de grandes prêmios nos deixou cínicos.

Nesse contexto, dizer que o Globo de Ouro é uma premiação imprevisível deveria mesmo ser visto como algo ruim? Comportamento imprevisível para um prêmio de perfil elevado dentro da temporada de premiações da forma como a conhecemos hoje é indicar obras de nichos e gêneros que fogem do drama acadêmico, do eventual épico de guerra, da comédia “classuda” e “inteligente”. Comportamento imprevisível é reconhecer talento e excelência em lugares que não são tradicionalmente antros de talento e excelência, como serviços de streaming que não são o Netflix, por exemplo; ou mesmo a The CW, amada pelo público adolescente mas notoriamente ignorada pelos Primetime Emmys. Daí não se presume indicar, apenas por indicar, coisas ruins – presume-se, no entanto, contemplar o volume de produção cinematográfica e televisiva atual de forma mais completa e interessante do que os prêmios mais tradicionalistas, como o Oscar e o Emmy notavelmente são, conseguem.


Em resumo: nós precisamos de mais premiações como o Globo de Ouro. Precisamos de mais premiações que coloquem sobre os holofotes uma protagonista jovem e latina como Gina Rodriguez, que venceu o prêmio de Melhor Atriz em Série de TV – Comédia/Musical no ano passado por Jane the Virgin e foi novamente indicada esse ano (no Emmy, nada). Elogiada quase universalmente pela crítica por sua atuação, Gina é o símbolo do renascimento da The CW como um local de comédias espertas e produções de gênero (ficção científica, ação, super-heróis, dramas históricos) interessantes. Na cerimônia de ontem a noite, a vencedora na categoria em que Gina Rodriguez triunfou no ano passado foi Rachel Bloom, que protagoniza Crazy Ex-Girlfriend, uma muito celebrada comédia musical do canal. É um bicampeonato para a The CW, e é o triunfo de uma série estreante – criada, escrita e protagonizada por uma comediante de apenas 29 anos. É uma escolha vital, que incentiva inovação, experimentação e produção fora dos padrões na TV, e é um prêmio que o Emmy jamais daria (e provavelmente não dará, quando a hora chegar mais para o meio do ano).

Precisamos de mais premiações que indiquem uma performance espetacular como a de Eva Green em Penny Dreadful, independente do fato da série escrita por John Logan (Skyfall) ser uma produção de nicho muito específico, que lida com tramas sobrenaturais, horror e kitsch sem um pingo da ironia velada de American Horror Story, por exemplo. Precisamos de mais premiações que apurem os ouvidos para além de um sotaque criticado e não liguem para ver uma performance com legendas como Narcos e seu protagonista, o brasileiro Wagner Moura. Não contar com a inclusão do ator nacional nos indicados ao Emmy talvez seja uma boa ideia – as tendências xenofóbicas das grandes premiações do circuito (Emmy, Oscar, Grammy) sempre ficaram muito claras. Não dá para dizer que o Globo de Ouro é um panorama perfeito para a produção televisiva ou cinematográfica mundial, visto que ainda vive nele aquela eterna contradição de se declarar um dos maiores prêmios de cinema do mundo e contemplar, em esmagadora maioria, apenas produções americanas. Mas dá para dizer, tranquilamente, que ele pinta um retrato mais completo do que os dois “peixes grandes” da temporada.

Para que eu não seja acusado de manter os exemplos só no mundo da televisão, ficam aqui alguns outros: a indicação de Mad Max: Estrada da Fúria e seu diretor, George Miller, quebrando o histórico preconceito que as premiações “de prestígio” tem com filmes grandes (financeiramente) e filmes de ação; a vitória do épico O Regresso sobre o drama acadêmico Carol, mesmo que talvez não seja a mais merecida, contempla um cinema mais raramente visto e ouvido pelas premiações; a vitória de Perdido em Marte, uma ficção científica, numa das principais categorias, e a indicação de comédias mais francas e rasgadas, como A Espiã que Sabia de Menos e Descompensada, para as grandes disputas; Taraji P. Henson levando o prêmio pela atuação em Empire, uma série celebrada que ficou a ver navios no Emmy por sua abordagem mais “novelesca” ao drama dos personagens – a questão é que Empire funciona, é importante, e a atuação de Taraji é uma das tour de forces mais impressionantes da TV americana no momento.


Ainda teve a vitória de Mr. Robot e Christian Slater, uma série estreante que quebra convenções e se localiza em um gênero pouco visto nas premiações (thriller tecnológico), e um ator relegado ao esquecimento desde o final dos anos 90; o triunfo de Sylvester Stallone, aplaudido de pé pelo público, por sua atuação em Creed, um filme esportivo, pertencente a uma série que perdeu o “prestígio” ao se tornar popular, depois das indicações do primeiro filme ao Oscar; a indicação de Alicia Vikander pelo papel de uma andróide em Ex-Machina (é preciso explicar o quanto a ficção científica foi ignorada pelas premiações desde sempre?); e, por que não, o prêmio concedido à Lady Gaga que, e eu falo isso como jornalista, não como fã, não entrega a atuação mais convencionalmente premiável em AHS: Hotel, mas encontra uma sintonia com a atmosfera e a proposta da série de Ryan Murphy que poucos atores conseguem encontrar, e entende sua personagem através de uma sensibilidade teatral que dá frutos em tela. Sua Condessa não é uma performance digna de Meryl Streep, mas é um bom trabalho, e como tal, deveria sim ter sido reconhecido – com a vitória, como foi, ou mesmo só com a indicação.

Nós precisamos de mais premiações com o Globo de Ouro. E não é que queremos, ou que poderíamos ter – nós precisamos, desesperadamente. Não é uma festa perfeita, e as polêmicas do merecimento de uma ou outra categoria sempre vão pairar no ar, mas é a única das grandes cerimônias da temporada de premiações que realmente se esforça para reconhecer que qualidade não vem dentro de uma caixinha, nem sob medida. Que excelência não existe dentro de só um molde, e que talento significa transbordar as exigências mesquinhas de uma categoria “oscarizável” ou “acadêmica” e criar arte que obedece apenas e somente às próprias regras. Só no Globo de Ouro temos o gostinho de reconhecer que existem grandes performances e grande valor no terror, na comédia, na ficção científica, na ação, na produção feita para o público jovem (adolescentes e pós-adolescentes), até nos blockbusters de Hollywood, veja só! Como quase tudo no nosso mundo, aliás, nós precisamos de uma temporada de premiações com menos preconceito, em todos os sentidos – e a única que está no caminho certo para isso, por enquanto, é o Globo de Ouro.

1 de dez. de 2015

Diário de filmes do mês: Novembro/2015

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por Caio Coletti

Nem todos os filmes merecem (ou pedem) uma análise complexa como a que fazemos com alguns dos lançamentos mais “quentes” ou filmes que descobrimos e nos surpreendem positivamente. Particularmente, também, eu não me dou a escrever críticas grandes de filmes que considero ruins ou irrelevantes, porque não vejo sentido em remoer demais os erros de uma produção cinematográfica. É levando em consideração a função da crítica e da resenha como uma orientação do público em relação ao que vai ser visto em determinado filme que eu resolvi criar essa coluna, que visa falar brevemente dos filmes que não ganharam review completo no site. Vamos lá:

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Quarteto Fantástico (Fantastic Four, EUA/Alemanha/Inglaterra/Canadá, 2015)
Direção: Josh Trank
Roteiro: Jeremy Slater, Simon Kinberg, Josh Trank
Elenco: Miles Teller, Michael B. Jordan, Kate Mara, Jamie Bell, Toby Kebbell, Reg E. Cathey, Tim Blake Nelson
100 minutos

Os primeiros minutos de Quarteto Fantástico pertencem a um filme bem diferente da miscelânea de decisões narrativas que se seguem na 1h40 do filme, considerado universalmente um dos piores do ano. O diretor Josh Trank, que vem direto do elogiado filme alternativo de super-heróis Poder Sem Limites (2012), tenta naquelas cenas de abertura fundar a criação mais característica (e caricata) da Marvel da era do outro em um contexto realista e em um encantamento científico baseado em truques do cinema indie que funciona às mil maravilhas. Nos momentos em que um Ben Grimm  e um Reed Richards ainda na infância se encontram e o segundo mostra uma de suas experiências para o novo melhor amigo, parece que Quarteto Fantástico vai ser um olhar interessante sobre esses personagens. Parece também que o filme de Trank, co-escrito por Jeremy Slater (Renascida do Inferno) e Simon Kinberg (Sherlock Holmes) não vai deixar de incutir um humor que, embora muito mais humano do que as tentativas nada sutis dos dois filmes estrelados por Jessica Alba e Ioan Gruffudd, talvez funcione até melhor. O problema é que todas essas promessas são destruídas porque o filme se aventura em uma narrativa grandiosa e um ritmo estranhíssimo, e o diretor Trank não sabe fingir que está interessado nessas seções bem o bastante. É visível quando o cineasta toma o controle de novo – o body horror da sequência em que o quarteto acorda depois da desastra viagem inter-dimensional que os rendeu poderes é pungente e acertadíssimo, auxiliado pela edição espetacular de Elliot Greenberg (Quarentena) e Stephen E. Rivkin (Avatar).

Esses raros flashes de brilhantismo são ofuscados, e em larga margem ainda, pelos passos burocráticos e apressados da narrativa de “origem” dos heróis, e o resultado final é um amontoado descompensado de ideias nunca levadas à cabo de forma completa. A tentativa de resvalar na ficção científica pulp na (intencionalmente?) hilária sequencia em que o quarteto visita a tal “outra dimensão” para a qual viajam, é uma boa ideia, especialmente por dialogar com os quadrinhos, mas o diretor Trank e o fotógrafo Matthew Jensen (Filth) não tem tempo para estabelecer o tom ou a abordagem, assim como, inclusive, acontece com todas as múltiplas “seções” e “misturas de gênero” que o filme, em seus modestos 100 minutos, ainda tem que conciliar com um clímax apressadíssimo desenhado pelo estúdio. O fracasso retumbante de crítica e público de Quarteto Fantástico provavelmente significa que a Fox não vai tentar tão cedo ressuscitar a franquia – a boa notícia é que talvez a performance comercial pobre faça o estúdio desistir dos personagens de vez e vendê-los de volta para a Marvel, que até agora não errou na caracterização de um personagem dos quadrinhos.

Caso aconteça mesmo, quem sabe não seria uma boa ideia dar espaço para os jovens atores que agarraram os papeis aqui? Mara e Teller podem desenvolver um pouco mais de química se o tempo de tela (e o roteiro) os deixar, e são atores mais do que capazes por si mesmos; Michael B. Jordan e Jamie Bell são escolhas inteligentes para um Quarteto com mais personalidade, mas sem perder o bom-humor; o vilão Toby Kebbell, por outro lado, provavelmente é um casting para se repensar. Ou não, vai saber. Apressado, equivocado e tremendamente irregular, Quarteto Fantástico começa e termina sem nos deixar conhecer de verdade a visão que Trank e os atores tinham para os personagens – o que é uma pena, se tratando de um grupo tão comprovadamente talentoso.

✰✰ (2/5)

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Circle (EUA, 2015)
Direção e roteiro: Aaron Hann, Mario Miscione
Elenco: Julie Benz, Mercy Malick, Carter Jenkins, Molly Jackson, Michael Nardelli, Sara Sanderson, Lisa Pelikan
87 minutos

A ficção científica independente, ou melhor, o cinema independente americano como um todo, nunca esteve em um melhor momento. Com o apoio constante de plataformas de streaming e uma base de fãs crescente construída em filmes pequenos, festivais e até webseries, cineastas e escritores iniciantes tem ganhado atenção com filmes em que uma premissa geniosa se estende em todo um longa-metragem. Cada vez mais, o cinema independente confia em gimmicks, em uma premissa inerentemente intrigante cujo desenvolvimento, fator de imprevisibilidade e satisfação final dependem totalmente da competência dos cineastas em questão. Para a sorte do instigante Circle, a dupla Aaron Hann e Mario Miscione (que ganharam os primeiros fãs com a websérie The Vault, que tinha uma premissa parecida) tem bastante competência para compensar pelas falhas de valores de produção e desenvolvimento cinematográfico. O filme do duo de diretores/roteiristas não é nenhum Coherence (ainda o melhor exemplar do estilo), mas não escapa das particularidades da observação social que faz, e reúne um elenco sólido para sustentar uma trama toda baseada em diálogo, discussões de poder e preconceitos. Esses filmes parecem-se, invariavelmente, com um episódio estendido de Além da Imaginação, mas Circle é daqueles que fazem jus à referência, seja com o seu desfecho iconográfico ou com o pessimismo inerente do desenrolar do roteiro. Hann e Miscione tem uma visão sombria sobre a humanidade, e Circle reflete e faz valer essa visão sem pudores, o que já é um ponto a mais para o filme.

Para a premissa: 50 estranhos acordam em uma sala completamente escura, cada um deles parado em pé em um círculo vermelho, e descobrem que a cada poucos minutos um raio de energia mortal acerta um dos integrantes do círculo, em um ato que a princípio parece aleatório – logo eles descobrem, no entanto, que esse macabro jogo de roleta russa na verdade é controlado por eles mesmos, que podem votar em quem deve morrer em seguida (para ajudar, só a própria pessoa consegue ver seu voto). Circle merece algumas revisões, só para notar como a premissa permite interpretações interessantes de tramas e reviravoltas inesperadas. Ao contrário de Coherence, em que o espectador era deixado completamente no escuro, um observador não-participante, em Circle nós somos, como plateia, o 51º integrante do círculo, e não importa se escolhamos um “lado”, assumamos uma “torcida”, ou não, de todas as lealdades e verdades dos personagens, só sabemos com certeza a nossa. É uma operação esperta operada pelos diretores, mesmo que o trabalho de fotografia, trilha-sonora e edição não exatamente acompanhem essa percepção profunda dos dispositivos cinematográficos que os diretores demonstram.

Para ser o melhor que poderia, Circle precisaria de mais gente talentosa atrás das câmeras – mas ainda do jeito que está, merece e muito os fugazes 87 minutos que rouba do espectador.

✰✰✰✰ (3,5/5)

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Nocaute (Southpaw, EUA, 2015)
Direção: Antoine Fuqua
Roteiro: Kurt Sutter
Elenco: Jake Gyllenhaal, Rachel McAdams, Forest Whitaker, Oona Laurence, 50 Cent, Naomie Harris
124 minutos

A comoção em torno de Jake Gyllenhaal não é tão recente quanto parece – desde a ascensão à fama do californiano, com Donnie Darko (2001), passando pelos papeis notáveis em Brokeback Mountain (2005), Soldado Anônimo (2005) e Zodíaco (2007), muitos críticos já apontavam a importância de Gyllenhaal dentro do rol de atores da sua geração (o moço está atualmente com 35 anos). Depois da performance devastadora em O Abutre, no entanto, e do subsequente esquecimento que o Oscar dispensou a sua atuação, a percepção pareceu se solidificar com o público também: já é hora de prestar atenção em tudo que Jake Gyllenhaal faz. Nocaute, o primeiro projeto do ator pós-Abutre, ganhou notoriedade graças ao intenso, e intensamente propagandeado, treinamento físico do ator para o papel do boxeador BIlly Hope, que passa por um inferno particular após uma tragédia que mata sua esposa, Maureen (Rachel McAdams). A forma física de Gyllenhaal é de fato impressionante nos 124 minutos do filme de Antoine Fuqua (Dia de Treinamento), mas ainda mais legal é constatar que a massa de músculos tensos, distendidos e fatigados que o corpo do ator apresenta não serve só ao propósito físico de um filme boxe – pelo contrário, Gyllenhaal faz da linguagem corporal seu maior trunfo, acertando em cheio a forma de andar meio rígida, vagarosa e curvada de alguém para quem a exaustão física e a dor são constantes, e se aproveitando dessa característica para nos comunicar a insegurança e a inadequação do personagem que está interpretando em particular. Case isso com o jeito balbuciante com o qual o ator entrega as falas do roteiro de Kurt Sutter (Sons of Anarchy) e com a recusa categórica de descambar sua atuação para o lado do melodrama, e você tem uma performance perfeita.

O importante a se entender aqui é que Nocaute não quer reinventar a roda. Nas mãos de um diretor apenas moderadamente talentoso como Fuqua, com o material comovente mas by-the-books entregado por Sutter, cuja ressonância emocional não é acompanhada por muita criatividade narrativa, o filme é um eficiente drama de boxe que se diferencia de muitos outros pelo retrato inteligente de um personagem e sua relação com a violência, com a agressividade e com as pessoas ao seu redor que o permitem ser assim sem lidar com as consequências. Se Gyllenhaal é a estrela do filme, seu método particular de focar nas questões mais físicas e fundamentais do personagem é um contraste perfeito para a atuação espetacular de Forest Whitaker, pegando um personagem batido (o treinador humilde com métodos revolucionários) e injetando-o com tanta humanidade, sutileza e astúcia que fica difícil não se envolver com ele. O mesmo vale para a pequena Oona Laurence, e para as ligeiramente mal-utilizadas Naomie Harris e Rachel McAdams – todos esses talentos ajudam a fazer de Nocaute um filme difícil de dispensar, mas nenhum deles consegue elevá-lo para além da previsibilidade.

✰✰✰✰ (4/5)

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O Agente da U.N.C.L.E. (The Man from U.N.C.L.E., EUA/Inglaterra, 2015)
Direção: Guy Ritchie
Roteiro: Guy Ritchie, Lionel Wigram
Elenco: Henry Cavill, Armie Hammer, Alicia Vikander, Elizabeth Debicki, Luca Calvani, Sylvester Groth, Hugh Grant, Jared Harris
116 minutos

2015 foi um ano movimentado para o gênero da espionagem. Ethan Hunt voltou a ativa no elogiadíssimo (ainda que só por ter muito divertido) Missão: Impossível – Nação Secreta; lançado recentemente, Ponte de Espiões, do mestre Steven Spielberg, vem ganhando reviews espetaculares; e lá no comecinho do ano Kingsman, investida britânica de Matthew Vaughn (X-Men: Primeira Classe), também provocou frisson e criou fãs que já querem uma sequência. No meio de tudo isso, Guy Ritchie e seu O Agente da U.N.C.L.E. afundaram na bilheteria – uma pena, porque comparado com o bastante similar (em tom e abordagem) Kingsman, a obra do diretor dos dois Sherlock Holmes estrelados por Robert Downey Jr é bem melhor que a encomenda. Adaptação reverente e bem-humorada de uma série clássica dos anos 60, U.N.C.L.E.conta com tons de comédia muito mais francos que as tiradas cínicas de Kingsman a história de um agente da CIA (Henry Cavill, o Superman) e um da KGB (Armie Hammer, de O Cavaleiro Solitário) que precisam se unir em uma operação conjunta para derrotar italianos fascistas que pretendem espalhar terror atômico, liderados pela femme fatale feita por Elizabeth Debicki, uma presença tão imponente e bem-vinda aqui quanto foi em O Grande Gatsby. Para completar o time, a nova estrela Alicia Vikander (Ex Machina) empresta charme e linguagem corporal leve para a mecânica russa cujo pai está envolvido nas tramoias dos vilões.

Cavill e Hammer são o centro nervoso do filme, mas a verdade é que U.N.C.L.E. não tem um centro nervoso tão pulsante assim. Seus protagonistas, assim como os coadjuvantes, são tipos e representações visuais, veículos para comédia e poderio físico cuja vida interna é temperada largamente pelas performances dos atores – Cavill está especialmente bem encarnando um galã à moda antiga com os trejeitos e as medidas todas certas, mas Hammer e sua raiva contida também tem espaço para brilhar. Ritchie, que antes de ser cooptado por Hollywood fazia filmes de gângster importantes no cinema independente britânico (vide Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes, de 1998), se diverte à beça no roteiro, co-assinado com o parceiro Lionel Wigram, que escreveu Sherlock Holmes. A maioria das gags, especialmente as visuais, funcionam muito bem, e o filme tem um charme e um ritmo diferentes do que nos acostumamos a esperar de Hollywood. O único problema é que o estúdio (ou o próprio Ritchie, consciente demais de suas obrigações de diretor de blockbuster) tenta fazer de U.N.C.L.E. muitas coisas que ele não está exatamente apto para ser, entre elas um filme de ação sério com perseguições elaboradas e sem-humor (destaque – negativo – para a do clímax do filme).

Caso se comprometesse em ser uma sátira esperta e afiada, com um ótimo elenco e a dose certa de cinismo e reverência, U.N.C.L.E. poderia ser genial, e entrar para o rol dos melhores filmes de Ritchie – mas o diretor britânico agora é um títere de Hollywood (embora seja um dos mais talentosos), e Hollywood nunca se permite ser inteligente demais.

✰✰✰✰ (3,5/5)

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Um Deslize Perigoso (Dope, EUA, 2015)
Direção e roteiro: Rick Famuyiwa
Elenco: Shameik Moore, Kiersey Clemons, Tony Revolori, Zoë Kravitz, Bruce Beatty, Blake Anderson, Quincy Brown, Roger Guenveur Smith
103 minutos

Rick Famuyiwa faz filmes desde 1999, quando saiu sua obra de estreia, intitulada The Woods, que muitos críticos apontaram como tendo muito em comum com o novo Dope, que foi sensação no Festival de Sundance de 2015 e trouxe o nome do diretor, de 42 anos, à luz dos holofotes. Por quê agora? Garantidamente, Dope é uma história envolvente e um filme com aparentemente interminável criatividade nas mangas, mas a visibilidade do cinema americano feito por negros, com personagens negros e temas comuns às pessoas negras das regiões mais periféricas das cidades do país é latente nos últimos anos. Num movimento parecido com a onda de diretores dos anos 90 que produziu filmes como Faça a Coisa Certa (Spike Lee) e Os Donos da Rua (John Singleton), mas todo particular em sua diversidade e mistura de gêneros típica de uma geração mais nova, cineastas como Ava DuVernay (Selma), Justin Simien (Querida Gente Branca) e Gina Prince-Bythewood (Nos Bastidores da Fama) estão contando histórias que não figuravam, até agora, na paleta de opções mais proeminente do cinema americano. Dope faz parte dessa tendência, e ao mesmo tempo, como cada um dos filmes anteriormente citados, é um animal próprio – uma comédia de ação energética e cheia de brincadeiras conceituais e técnicas, quase todas baseadas na edição genial de Lee Haugen (Dear Sidewalk), com um olho espetacular para cores e um elenco esperto o bastante para entender tanto seus personagens quanto a vibe toda particular do filme de Famuyiwa, que apropria estéticas indies mas nunca se deixa encaixar demais nesse nicho.

Na trama, Malcolm (Shameik Moore), um geek de um bairro de periferia de Los Angeles, lida com problemas ao mesmo tempo similares e totalmente diferentes dos nerds brancos que vemos em tantos filmes de high school por aí. Ele corre por fora do tráfico de drogas que movimenta seu bairro, até uma série de acontecimentos surpreendentes em uma boate (a primeira de muitas dessas “fatalidades” nas quais o filme confia) o colocarem bem no centro do palco de uma briga de traficantes. O filme brinca com a noção de que seu protagonista se considera, de alguma forma, “diferente” dos outros negros com os quais divide o bairro, e o jovem protagonista Moore (Canção do Coração) entende como interpretá-lo com os olhos argutos, a sutileza e o comportamento hesitante e quieto de um adolescente em confronto com muitos pontos de vista e conflitos sociais. O discurso do roteiro de Famuyiwa, acusado por alguns de ser político, prolífico ou óbvio demais, não precisa ser julgado dessa forma – em seu cerne, é uma história criminal tremendamente densa e bem-amarrada, com bom-humor e ironia, e a clareza de afirmar as complexidades sociais que cercam esses personagens e seus caminhos para lugares em que, por conta da cor da pele, são ou não são bem-vistos. Dope é um dos melhores roteiros de 2015, e é realizado com a energia que falta, e muito, a muitos exemplares do cinema independente da atualidade.

✰✰✰✰ (4/5)