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31 de jan. de 2016

Diário de filmes do mês: Janeiro/2016


por Caio Coletti

Nem todos os filmes merecem (ou pedem) uma análise complexa como a que fazemos com alguns dos lançamentos mais “quentes” ou filmes que descobrimos e nos surpreendem positivamente. Particularmente, também, eu não me dou a escrever críticas grandes de filmes que considero ruins ou irrelevantes, porque não vejo sentido em remoer demais os erros de uma produção cinematográfica. É levando em consideração a função da crítica e da resenha como uma orientação do público em relação ao que vai ser visto em determinado filme que eu resolvi criar essa coluna, que visa falar brevemente dos filmes que não ganharam review completo no site. Vamos lá:

Hotel Transilvânia 2 (Hotel Transylvania 2, EUA, 2015)
Direção: Genndy Tartakovsky
Roteiro: Robert Smigel, Adam Sandler
Elenco: Adam Sandler, Andy Samberg, Selena Gomez, Kevin James, Steve Buscemi, David Spade, Keegan-Michael Key, Molly Shannon, Megan Mullally
89 minutos

O primeiro Hotel Transilvânia, lançado em 2012, não conseguiu evitar de se parecer muito com um desperdício dos talentos consideráveis do mestre da animação Genndy Tartakovsky, que estava fazendo sua estreia no comando de um longa-metragem depois de assinar séries de TV elogiadas como Star Wars: Clone Wars, Samurai Jack e As Meninas Super-Poderosas. O design tremendamente criativo dos personagens monstrengos de Hotel Transilvânia, a energia das piadas físicas e visuais, as referências clássicas do conceito inicial, tudo era afogado por um roteiro sem ritmo nem surpresas, que seguia à risca os clichês do gênero e não aproveitava o potencial que a história poderia oferecer.

Para a continuação, três anos depois, era difícil esperar algo diferente, principalmente com o astro Adam Sandler (que dubla o protagonista Dracula) assumindo serviços de roteirista. Que surpresa, portanto, que Hotel Transilvânia 2 abrace pelo menos um pouco mais do potencial de seus personagens e de sua premissa – na nova trama, Drac tem de lidar com a filha, Mavis (Selena Gomez) pensando em se mudar do Hotel com seu novo marido, o humano Jonathan (Andy Samberg), e o filho recém-nascido, que ainda não mostrou sinais de ser um monstro como o lado materno da família. Por baixo da trama boba e do humor um pouco mais controlado, corre em Transilvânia 2 um agradável e esperto discurso sobre preconceito e a vontade de moldar a próxima geração com os costumes das suas predecessoras.

Nesse ritmo, talvez o inevitável Hotel Transilvânia 3 possa estar à altura do seu genioso (e genial) diretor.

✰✰✰✰ (3,5/5)


A Visita (The Visit, EUA, 2015)
Direção e roteiro: M. Night Shyamalan
Elenco: Olivia DeJonge, Ed Oxenbould, Deanna Dunagan, Peter McRobbie, Kathryn Hahn
94 minutos

Desde o lançamento de A Visita nos cinemas, no finalzinho de Novembro (Setembro nos EUA), o filme foi saudado como um peculiar retorno à forma de M. Night Shyamalan, o homem responsável por clássicos como O Sexto Sentido e A Vila, mas também por desastres como Fim dos Tempos e O Último Mestre do Ar. A percepção crítica não estava errada, mas A Visita não é o que se poderia esperar de um comeback movie para Shyamalan, conhecido pelas formalidades clássicas e pela influência de Spielberg, Hitchcock e outros diretores classudos em suas obras. Pelo contrário, é um filme que testemunha a evolução de um autor e a forma como um período sendo alvejado por críticas pesadas o moldou – ao se apropriar da cansada convenção do found footage, Shyamalan decidiu não se levar a sério demais, criando um filme rechado de consciência de si mesmo e das convenções com as quais brinca, mas que as subverte e as usa com sabedoria.

A Visita é uma esperta história de terror sobre familiaridade, trauma, mágoa e cicatrizes psicológicas, o que o funda firmemente em um plano terreno, como a maioria dos bons filmes do gênero. As duas adoráveis crianças no centro do filme, Becca (Olivia DeJonge) e Tyler (Ed Oxenbould, especialmente ótimo), foram abandonadas pelo pai mais velho, que fez a mãe (Kathryn Hahn) fugir de casa aos 19 anos para construir uma vida sozinha. Quando os avós de Becca e Tyler, com quem a mãe não tinha contato desde então, pedem para conhecer os netos, o filme estabelece sua história e seu tom, usando as aspirações cinematográficas de Becca, que planeja fazer um documentário sobre os avós perdidos, para justificar o formato e tecer um discurso de metaficção no processo. Deanna Dugan e Peter McRobbie, os dois character actors veteranos que fazem o papel doa avós, abocanham com gosto as partes mais exaltadas do roteiro de Shyamalan, transpirando a malediscência do texto com facilidade.

Tremendamente criativo e com toques de irreverência que temperam o terror found footage sem deixá-lo perder o potencial aterrorizante (e as imagens impactantes que Shyamalan conjura, especialmente no memorável terceiro ato), A Visita é uma das mais bacanas misturas de gêneros do cinema em 2015.

✰✰✰✰ (4/5)


Maze Runner: Prova de Fogo (Maze Runner: The Scorch Trials, EUA, 2015)
Direção: Wes Ball
Roteiro: T.S. Nowlin, baseado na novela de James Dashner
Elenco: Dylan O’Brien, Ki Hong Lee, Kaya Scodelario, Thomas Brodie-Sangster, Jacob Lofland, Giancarlo Esposito, Patricia Clarkson, Aidan Gillen, Lili Taylor, Barry Pepper
132 minutos

No mar de adaptações de literatura young adult inundando os multiplexes por aí, é difícil encontrar alguma que pareça ter algo realmente especial. Jogos Vorazes, com sua estrela vencedora de Oscar, seu discurso político e emocional mais contundente, e suas referências à clássicos da ficção científica (1984 especialmente, é claro), é uma dessas. Maze Runner também parecia ser, no seu primeiro capítulo, se diferenciando dos concorrentes pela trama mais contida a um espaço, pelo mistério pulp da organização secreta (chama WICKED!) que estava orquestrando o futuro distópico da história, e pelo design de produção espetacular, dando apoio a um elenco jovem bem escolhido. Se acomodando ao ciclo de produção intenso das outras franquias do gênero, Prova de Fogo, a continuação, chegou aos cinemas por volta de um ano depois – uma pena que a continuação da história urdida por James Dashner na trilogia de livros originais não retenha as melhores partes do primeiro capítulo.

Prova de Fogo vê nossos heróis, liderados por Thomas (Dylan O’Brien, que merece papeis melhores), sendo acolhidos por um grupo suspeito de militares ao escapar do labirinto do primeiro filme. Lá, descobrem que as intenções de seus “salvadores” não são tão boas quanto parecem, embora o espectador provavelmente tenha adivinhado isso assim que Aidan Gillen, o Mindinho de Game of Thrones, foi escalado para interpretar a principal figura de liderança do tal destacamento militar. O filme desvenda alguns dos mistérios da WICKED, adiciona perigos ao lançar os protagonistas em um deserto onde são perseguidos por criaturas parecidas com zumbis (humanos infectados com um vírus que a WICKED quer curar “chupando” o gene de imunidade dos jovens protagonistas – tal gene só existe na nova geração), mas no final das contas se parece com um longo e burocrático exercício de perseguição, estilizado com habilidade pelo diretor Wes Ball, mas nunca exibindo o brilho peculiar do primeiro filme, uma pérola de ficção científica kitsch encrustada no meio de um esquema de produção hollywoodiano que só produz pedras brutas.

✰✰✰ (3/5)


Perdido em Marte (The Martian, EUA/Inglaterra, 2015)
Direção: Ridley Scott
Roteiro: Drew Goddard, baseado no livro de Andy Weir
Elenco: Matt Damon, Jessica Chastain, Kristen Wiig, Jeff Daniels, Michael Peña, Sean Bean, Kate Mara, Sebastian Stan, Chiwetel Ejiofor
144 minutos

O maior trunfo de Perdido em Marte é Matt Damon. O americano de 45 anos, duas vezes indicado ao Oscar de atuação (ele venceu, junto com Ben Affleck, mas pelo roteiro de Gênio Indomável), está em um momento interessante da carreira, escolhendo com cuidado projetos que o colocam naquele raro equilíbrio entre “ator respeitável” e “astro de ação”. O recente Elysium foi uma derrapada nesse sentido, pendendo mais para um lado do que para o outro, mas Perdido em Marte acerta em cheio – chegando perto das 2h30 de metragem, o filme do veterano Ridley Scott, cujas incursões anteriores pela ficção científica (Alien, Blade Runner) dão à Perdido em Marte certo pedigree, não é uma obra-prima, mas se apóia no carisma e na transparência emocional sutil de Damon para envolver o espectador em uma história de sci-fi muito mais firmada na realidade e nos dados científicos atuais do que estamos acostumados a ver. Nas mãos de Damon, a ficção científica possível de Perdido em Marte encontra um herói igualmente crível, e é aí que o filme ganha o jogo.

Especialmente porque, com a honrosa exceção da capitã Lewis de Jessica Chastain, em sua segunda ótima atuação em papeis coadjuvante em ficções científicas em pouco tempo (vide Interestelar), os coadjuvantes são meros peões dessa complexa história de resgate, que é impulsionada quando um grupo de cientistas em uma missão em Marte é obrigado a abandonar o planeta vermelho por conta de uma tempestade, mas acaba deixando para trás um da sua equipe, o Mark Watney feito por Damon – que eles presumiam estar morto. Quando a NASA descobre que não é bem assim, a corrida para garantir a sobrevivência de Mark começa. O roteiro de Drew Goddard (O Segredo da Cabana) adapta com bom-humor e contenção o livro elogiado de Andy Weir, e a direção de Scott garante a elegância dos procedimentos, trabalhando a câmera e os recursos narrativos (o diário de Mark, as câmeras de vigilância do habitat artificial onde ele tem que viver) com habilidade.

Perdido em Marte envolve o espectador com facilidade, um épico de ficção científica bem diferente das aspirações filosóficas e metafóricas de seus companheiros de gênero. É um filme-pipoca em seu cerne, e um dos bons.

✰✰✰✰ (4/5)


O Bom Dinossauro (The Good Dinosaur, EUA, 2015)
Direção: Peter Sohn
Roteiro: Meg LeFauve
Elenco: Raymond Ochoa, Jack Bright, Jeffrey Wright, Frances McDormand, A.J. Buckley, Anna Paquin, Sam Elliott
93 minutos

Segundo acerto da Pixar em 2015, O Bom Dinossauro notavelmente teve um dos processos de produção mais difíceis da história da companhia, passando por uma série de reimaginações desde 2009. Talvez o pé atrás que muitos críticos desenvolveram com a empresa de animação depois do período de seca criativa entre 2010 e 2015, somado com esses já reportados problemas de produção, tenham evenenado a percepção deles do filme de Peter Sohn, que estreia em longas-metragens depois do memóravel curta Parcialmente Nublado. Embora não tenha a genialidade visual e narrativa de Divertida Mente, seu companheiro de estúdio em 2015, O Bom Dinossauro é uma fábula bem contada sobre superação de medos e, especialmente, sobre o indelével valor que esse sentimento tem na formação do caráter de uma pessoa. Uma história de crescimento como tantas da Pixar, o filme de Peter Sohn é um inteligente retrato de personagens cujos maiores medos os guiam de maneira definitiva, e da maturidade emocional que é necessária para enfrentá-los ao invés de fugir deles.

A história acompanha Arlo (Raymond Ochoa), um apatossauro que, num nundo alternativo em que aquele infame asteróide não atingiu a Terra, perde o pai e se envolve em uma confusão que o leva para longe da fazenda da sua família, onde sua ajuda é necessária. Ele se alia a um menino humano (Jack Bright), que age como um cachorro e não parece ter família própria – em uma sequência linda, de cortar o coração, a origem dos dois protagonistas fica clara através de uma metáfora que o diretor Peter Sohn definiu como o coração do filme, concentrando-se na comunicação não-verbal. O Bom Dinossauro, de fato, é uma narrativa muito visual, combinando suas paisagens ultra-realistas com o deisgn mais caricato dos personagens de maneira adorável e fazendo referências visuais à farorestes clássicos e a outros filmes, como o clássico Tubarão (na cena em que os dinossauros se reúnem ao redor da fogueira). A jornada do protagonista é identificável e os personagens que o cercam sublinham essa jornada com delicadeza e graça – O Bom Dinossauro pertence, com todos os filmes da era de ouro da Pixar, na prateleira de triunfos do estúdio. Pena que nem todo mundo o tenha percebido assim.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)


Goosebumps: Monstros e Arrepios (Goosebumps, EUA/Austrália, 2015)
Direção: Rob Letterman
Roteiro: Darren Lemke, baseado nos livros de R.L. Stine
Elenco: Jack Black, Dylan Minnette, Odeya Rush, Ryan Lee, Amy Ryan, Jillian Bell, Halston Sage, Ken Marino
103 minutos

Com mais de 300 milhões de cópias vendidas mundialmente, a série de terror-para-crianças Goosebumps é chamada por muitos de “a Harry Potter dos anos 90”, mas sua natureza de histórias isoladas a cada livro, além do ritmo prolífico de seu autor (foram 62 livros entre 1992 e 1997), impediram que Goosebumps chegasse aos cinemas intacta. Uma série de antologia, produzida entre 1995 e 1998, adaptou vários dos contos assinados por R.L. Stine para a TV, mas Goosebumps, de 2015, é a primeira adaptação direta para o cinema – e o roteiro de Darren Lemke (Jack, o Caçador de Gigantes) é esperto ao comprimir todas as criaturas de Stine em uma única trama, minar a capacidade de nostalgia que essas histórias trazem, criar um conto metalinguístico divertido, e ainda estruturar uma aventura juvenil que se abre para futuras explorações em forma de franquia.

Associado à direção habilidosa de Rob Letterman (Monstros vs. Alienígenas), que mantem as engrenagens rolando, especialmente nas ótimas cenas de ação, esse trabalho de roteiro faz de Goosebumps um blockbuster divertido, mesmo que não o faça ganhar em profundidade, nem vá muito longe na reprodução da magia dos livros de Stine, que contavam histórias aterrorizantes que mexiam com medos infanto-juvenis com maestria. Jack Black estrela como o próprio Stine, retratado no filme como um paranóico morador de uma cidade pequena para onde Zach (Dylan Minnette) se muda. Não demora tanto para que o jovem descubra o segredo do escritor – quando um de seus manuscritos da série Goosebumps é aberto, o monstro que habita o mundo de ficção da história em questão é libertado. A premissa abre caminho para efeitos especiais e cenas de perseguição impressionantes, sejam elas envolvendo o Abominável Homem das Neves ou, na nossa preferida, um Lobisomem vestido de uniforme de futebol americano.

Sem a ousadia nem o elenco certo para abraçar a natureza irônica de sua reconstrução da mitologia da série, Goosebumps, o filme, sofre do frequente mal da incompletude que assombra os filmes grandes de Hollywood. Segue como uma aventura divertida, mas não satisfaz com sua reviravolta de trama meticulosamente previsível, nem com sua exploração rasa de certos temas e consequências.

✰✰✰✰ (3,5/5)


Z for Zachariah (Islândia/Suiça/Nova Zelândia/EUA, 2015)
Direção: Craig Zobel
Roteiro: Nissar Modi, baseado na novela de Robert C. O’Brien
Elenco: Chiwetel Ejiofor, Chris Pine, Margot Robbie
98 minutos

O diretor Craig Zobel brinca com os limites entre o cinema independente e o mainstream em Z for Zachariah, seu terceiro longa-metragem, primeiro desde o polêmico Obediência (2012), que explora de forma chocante a forma como as tensões escalam a partir de um trote inicialmente inofestivo a um restaurante de fast-food. A apreensão que Zobel fez crescer naquele filme, um dos mais interessantes (e menos vistos) dos últimos anos, está presente de maneira mais sutil em Zachariah, um conto dramático de ficção científica que Zobel e o roteirista Nissar Modi (Breaking at the Edge) injetam com metáforas bíblicas e discussões sobre raça, religião e machismo. Adaptado livremente de um clássico cult do gênero escrito por Robert C. O’Brien (A Ratinha Valente), Zachariah é um filme quieto e discreto, cujos desafios e teses se escondem por debaixo da superfície do triângulo amoroso que se forma entre os três únicos personagens que vemos em cena.

Localizado em um mundo pós-apocalíptico, Zachariah começa com o encontro entre Ann (Margot Robbie), uma fazendeira que foi salva dos eventos misteriosos do apocalipse graças ao isolamento natural do vale em que vive; e John (Chiwetel Ejiofor), um cientista envolvido em um traje anti-radiação que parece muito empolgado por finalmente ter encontrado ar respirável. A partir daí, a relação entre os dois vai evoluido, tal e qual um Adão e Eva moderno, completa com o conflito religioso obrigatório – Ann é católica, e John acredita apenas na ciência, o que é um problema quando a capela da fazenda, onde Ann toca órgão mesmo que sozinha, precisa ser demolida para se construir um moinho que pode trazer energia elétrica para a casa. O terceiro elemento da trama é Caleb (Chris Pine), a proverbial serpente do paraíso, que aparece assim que John e Ann acertam entre si a possibilidade de, já que são provavelmente os únicos sobreviventes do apocalipse, se juntarem como um casal. Caleb tem muito mais em comum com Ann, e Pine o interpreta com os olhos sedutores e a eventual astúcia maliciosa que o roteiro lhe pede – a maçã que essa serpente oferece à Eva é muito atraente a ela.

Tanto essa metáfora quanto o subtexto racial correm por baixo da narrativa direta e linear do diretor Zobel, que nunca foi muito de subterfúgios. Sua força como artista está em criar filmes impactantes narrativamente que possuem um discurso social inteiramente escrito nas entrelinhas, e nesse sentido não é tão grande o espaço que separa Obediência de Z for Zachariah. Aqui, ele tem a ajuda de um trio de atores espetacular, com Robbie se tornando imediatamente o destaque por trazer para o filme uma Ann que se equilibra na ponta dos pés entre a inocência e uma melancolia profunda e internalizada, que a envelhece muito. A atriz some dentro do papel, o que é sempre a marca de uma intérprete comprometida – ela é o trunfo de um filme lindamente concebido, mas nem sempre bem-realizado.

✰✰✰✰ (3,5/5)


A Walk in the Woods (EUA, 2015)
Direção: Ken Kwapis
Roteiro: Michael Arndt, Bill Holderman, baseados no livro de Bill Bryson
Elenco: Robert Redford, Nick Nolte, Emma Thompson, Mary Steenburgen, Nick Offerman, Kristen Schaal
104 minutos

Ainda imponente e em boa forma do alto de seus 79 anos, o perpetualmente cool Robert Redford fez de A Walk in the Woods mais um de seus projetos passionais. O astro de Butch Cassidy and The Sundance Kid está tentando adaptar o livro de não-ficção do escritor Bill Bryson há quase uma década – em primeira instância, o filme deveria marcar a reunião de Redford com o velho amigo Paul Newman, mas a doença e eventual morte do ator liquidou com os planos de produção. Sem Newman, Redford acabou escalando outro velho amigo, Nick Nolte (48 Horas), com quem ainda não tinha dividido a cena, para formar a parceria central da história, que foca em um escritor renomado perto da aposentadoria (Redford) que, ao decidir fazer uma trilha que atravessa todo os EUA, é acompanhado por um amigo das antigas com quem havia perdido contato devido a um desentendimento (Nolte). A dinâmica entre os dois atores veteranos é deliciosa de se assistir, com Nolte mastigando com gosto um papel cômico feito sob medida para seus talentos, sua voz áspera e seu porte físico desajeitado, e Redford emprestando calor humano ao protagonista da jornada.

Uma pena que os dois atores sejam quase os únicos atrativos do filme. O roteiro de Michael Arndt (Pequena Miss Sunshine) e Bill Holderman (Leões e Cordeiros) tropeça da adaptação, o que é uma surpresa dados os créditos anteriores de ambos – nas mãos deles, A Walk in the Woods é uma jornada condescendente com todos os personagens que não se encaixam no ideal de comportamento de seus protagonistas, e é melhor nem falar do tratamento que o filme dispensa às personagens femininas. Pior ainda é perceber que, se quisesse, A Walk in the Woods podia ter um elenco de personagens femininas coadjuvantes memorável, visto que reúne ótimas intérpretes (cada uma em seu estilo) como Emma Thompson, Mary Steenburgen e a sempre hilária Kristen Schaal, que até nos breves momentos em que aparece em tela consegue deixar uma marca com sua personagem. A direção de Ken Kwapis (Quatro Amigas e um Jeans Viajante) também não ajuda, aproveitando pouco das paisagens deslumbrantes do caminho e engatando o piloto-automático, deixando Nolte e Redford fazerem todo o trabalho de encenação.

Esses dois excelentes intérpretes fazem de A Walk in the Woods uma bela jornada de personagem, mas nem as forças combinadas deles conseguem fazê-lo um bom filme.

✰✰✰ (2,5/5)


A Espiã que Sabia de Menos (Spy, EUA, 2015)
Direção e roteiro: Paul Feig
Elenco: Melissa McCarthy, Jude Law, Rose Byrne, Miranda Hart, Allison Janney, Jason Statham, Morena Baccarin, Bobby Cannavale
119 minutos

Numa das cenas de ação climáticas de Spy (nos recusaremos a usar o título nacional), Melissa McCarthy enfrenta uma oponente feroz, incorporada pela esguia e atlética atriz nova-iorquina Nargis Fakhri. Encenada na cozinha de um restaurante, a luta inclui a personagem de McCarthy utilizando uma variedade de produtos alimentícios para desviar os golpes de faca da oponente, e eventualmente encontrando a arma de que precisava em uma pequena frigideira. Encenada em ritmo alucinante pelo diretor e roteirista Paul Feig (Missão Madrinha de Casamento), a luta é uma das cenas de ação mais cinéticas, divertidas, surpreendentes e bem-conduzidas do ano – e 2015 foi ano de Mad Max, lembrem-se! Na fisicalidade das duas atrizes, na escolha de não esconder a brutalidade do confronto físico e de dar a sua protagonista ostensivamente cômica um conjunto de habilidades comparável a sua graça em tela, Feig empresta da cartilha de Jackie Chan e cria uma das lutas mais bacanas do cinema na memória recente.

Na trama, McCarthy interpreta Susan, uma analista da divisão técnica da CIA que, após a morte do agente de campo com o qual ela trabalhava (feito por Jude Law), se voluntaria para sair detrás da mesa do escritório e embarcar em uma perseguição internacional por um traficante de armas que botou as mãos em uma ogiva nuclear. Se você quer um pastiche dos filmes de espião que, ao mesmo tempo, acerte todos os pontos altos do entretenimento que eles proporcionam, não recorra à Kingsman, a esnobe aventura dirigida por Matthew Vaughn, mas sim à Spy. De brinde, ainda dá para ganhar uma performance espetacular de McCarthy, tremendamente engraçada sem nunca se contentar em ser o alvo das piadas – com a ajuda de Feig, ela faz de sua Susan uma protagonista para a qual torcemos, e que faz valer a nossa torcia. Spy é uma celebração dos talentos dessa mulher que tantos subestimaram, e para a gordinha McCarthy, essa deve ser uma história familiar até demais.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

7 de set. de 2015

Diário de filmes do mês: Agosto/2015

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por Caio Coletti

Nem todos os filmes merecem (ou pedem) uma análise complexa como a que fazemos com alguns dos lançamentos mais “quentes” ou filmes que descobrimos e nos surpreendem positivamente. Particularmente, eu não me dou a escrever críticas grandes de filmes que considero ruins ou irrelevantes, porque não vejo sentido em remoer demais os erros de uma produção cinematográfica. É levando em consideração a função da crítica e da resenha como uma orientação do público em relação ao que vai ser visto em determinado filme que eu resolvi criar essa coluna, que visa falar brevemente dos filmes que não ganharam review completo no site. Vamos lá:

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As Aventuras de Paddington (Paddington, Inglaterra/França, 2014)
Direção: Paul King
Roteiro: Paul King, Hamish McColl, baseados nos livros de Michael Bond
Elenco: Ben Whishaw, Hugh Bonneville, Sally Hawkins, Nicole Kidman, Peter Capaldi, Julie Walters, Imelda Staunton, Michael Ganbon, Jim Broadbent, Matt Lucas
95 minutos

Só mesmo os britânicos poderiam fazer uma fábula infantil como Paddington. Baseado em um personagem clássico da literatura jovem britânica, o filme lançado no ano passado carrega para o gênero a marca indelével da produção cinematográfica inglesa: nunca subestimar a inteligência do seu espectador, sublinhar aquilo que torna a história única e apostar no trabalho do diretor para equilibrar o mood do filme, principalmente aqui, com o mundo meio-fantasioso-meio-realista que ele retrata. O encarregado da vez é o cineasta Paul King, cuja experiência anterior se limita a séries de TV e à pouco vista comédia Bunny and the Bull, e faz um trabalho exemplar ao colar técnicas de alguns colegas (Wes Anderson  é o primeiro que vem a mente – o take com a casa de bonecas se tornando uma miniatura da casa dos Brown é copiado direto de Steve Zissou - mas tem algo de Woody Allen em Paddington também) para criar um filme que entende a natureza da fantasia e da imaginação infantis ao mesmo tempo que realiza uma crítica velada, e sutil, à forma como os países europeus tratam estrangeiros atualmente.

A trama acompanha o personagem-título (dublado adoravelmente por Ben Whishaw), um urso peruano que, após um terremoto, se despede dos tios (Michael Ganbon e Imelda Staunton) com quem vivia e parte para Londres sozinho, na esperança de encontrar o explorador britânico que aportou nas terras de seus antepassados décadas atrás. O problema é que, dos anos pós-Guerra até o nosso presente, a capital da Inglaterra e seus habitantes mudaram bastante, e ao contrário do que acontecia com as crianças enviadas de outros países assolados pelo conflito bélico para Londres, Paddington não é exatamente recebido de braços abertos por todos. A exceção são os Brown, mais especificamente a sonhadora Mary (Sally Hawkins, maravilhosa como de costume), matriarca da família, que insiste com o marido (Hugh Bonneville) para que eles abriguem Paddington pelo menos até o urso encontrar quem procura. A partir daí a dinâmica combina Mary Poppins, histórias de peixe fora d’água (com bastante – e acertada – comédia física) e uma fábula sobre aceitar e acolher diferenças. Amável, engraçado, inventivo e com uma boa mensagem para passar, Paddington é uma das melhores fábulas infantis dos últimos anos – e o sucesso nas bilheterias mostra que o público quer mais.

✰✰✰✰ (4/5)


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Belas e Perseguidas (Hot Pursuit, EUA, 2015)
Direção: Anne Fletcher
Roteiro: David Feeney, John Quaintance
Elenco: Reese Witherspoon, Sofia Vergara, Matthew Del Negro, Michael Mosley, Jim Gaffigan, Mike Birbiglia
87 minutos

É um pouco triste constatar isso de um filme que poderia significar tanto para a indústria do cinemão hollywoodiano, mas Belas e Perseguidas (que, a partir desse momento, só chamaremos de Hot Pursuit, por razões óbvias) só acerta mesmo naquilo que seria impossível errar. Para começar, a grande virtude do filme, e provavelmente a única razão pela qual a maioria de nós mortais nos sentiríamos tentados a assistí-lo, é a interação entre duas das melhores energias cômicas femininas de Hollywood atualmente: a sumida (das comédias) Reese Witherspoon e a badalada Sofia Vergara. Elas definitivamente não decepcionam, encarnando a dupla improvável da vez e expandindo suas personagens e seus efeitos cômicos um pouquinho além dos rígidos estereótipos que o roteiro impõe. Escrito por uma dupla de roteiristas de sitcom com créditos em New Girl e 2 Broke Girls, o filme consegue ser ao mesmo tempo bastante previsível e terrivelmente desastrado, banalizando para efeitos cômicos, por exemplo, a morte de um policial e o desejo de vingança de uma das personagens. A direção, assinada por Anne Fletcher (A Proposta) também não impressiona, perdendo a mão durante as cenas de adrenalina e sofrendo de aguda falta de inventividade nos momentos cômicos.

Enfim, Hot Pursuit é todo de Witherspoon e Vergara, e é impossível negar o quão bacana é ver a forma como as atrizes interagem e criam entre si uma relação que não seria muito diferente, guardados pequenos detalhes, da relação entre qualquer dupla desajustada de uma comédia de ação policial estrelada por dois homens. A policial certinha de Witherspoon e a esposa de mafioso expansiva de Vergara não funcionam só como personagens que caem bem para as personas de cada uma das atrizes, mas principalmente como uma forma de espelhar uma dinâmica antiga em Hollywood que, até onde este que vos fala sabe, nunca foi aplicada a duas personagens femininas em uma comédia da projeção de Hot Pursuit. Colocando-as no centro da história e constantemente revertendo-as às posições de amigas ou inimigas, o filme permite que elas passem por um arco de transformação que as torna mais próximas. É uma dinâmica boba e que tem muito pouco de realista, mas é funcional e, num filme com o espírito certo, a direção certa e o roteiro certo, poderia ter sido bastante interessante de se ver. Em Hot Pursuit, apesar dos melhores esforços de Reese e Sofia, é simplesmente esquecível.

✰✰✰ (2,5/5)

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A Escolha Perfeita 2 (Pitch Perfect 2, EUA, 2015)
Direção: Elizabeth Banks
Roteiro: Kay Cannon
Elenco: Anna Kendrick, Rebel Wilson, Hailee Steinfeld, Anna Camp, Ester Dean, Alexis Knapp, Hana Mae Lee, Brittany Snow, Skylar Astin, Adam DeVine, Ben Platt
115 minutos

O charme do primeiro A Escolha Perfeita, de 2012, em grande parte tinha a ver com o fato de que, ao mesmo tempo que o filme de Jason Moore sabia que poderia se tornar um hit com a audiência na qual mirou, em grande parte ele era também uma homenagem reverente ao poder do cinema e da música de inspirar e guiar as pessoas (especialmente as jovens) nas suas relações com o mundo, e umas com as outras. A Escolha Perfeita 2, a continuação, chegou três anos depois sob o comando de Elizabeth Banks, que também segue atuando como metade da hilária dupla de “comentaristas” de a capella (ao lado de John Michael Higgins). É um filme que responde à altura quanto a expectativa criada em torno dele, trazendo duas mãos cheias de adições de elenco e participações especialíssimas (de Snoop Dogg ao grupo de acapella Pentatonix, famoso no Youtube), além de um plot transcontinental, que segue aquela velha máxima de Hollywood de que qualquer sequência precisa, essencialmente, ser maior que o original. Do ponto de vista narrativo, no entanto, A Escolha Perfeita 2 pode até ser visto como uma comédia menor, preocupada com temas como amizade, auto-estima e perspectivas para o futuro de personagens que passam por um momento importante de transição (o final da faculdade) – mas não é grata surpresa que foi o filme de 2012.

Um dos grandes problemas é que, ocupado com todos os novos elementos, as subtramas românticas de algumas das personagens, e em dar mais espaço para a personagem de Rebel Wilson (que foi o grande destaque do primeiro filme com o público), A Escolha Perfeita 2 dá menos espaço para a sua ostensiva protagonista, a Beca de Anna Kendrick. Pena, porque Kendrick é uma daquelas atrizes que sempre tem algo na manga para acrescentar ao projeto em que se encontra, e sua construção de personagem está sempre no ponto. À guisa de economia de tempo, nesse segundo filme Beca é praticamente despida de vida pessoal (o relacionamento com o personagem de Skyler Astin não parece ter evoluído em nada desde o primeiro filme – e deveria, visto que este se passa 3 anos depois –, o pai de Beca nem mesmo dá as caras) para que acompanhemos sua primeira aventura no mercado de trabalho, buscando oportunidade como estagiária de um produtor famoso (Keegan-Michael Kay, ótimo). O problema é que mal sentimos o peso dessa decisão importante pela qual a personagem passa, porque ela parece não existir fora do escritório e da casa que divide com as outras Bellas.

A Escolha Perfeita 2 tem muitas virtudes: a estreia de Banks na direção é limpa e com o esperado bom faro para comédia, além da habilidade de comandar um filme razoavelmente grande já na primeira viagem; Wilson continua uma força da natureza no papel de Fat Amy, e mostra de novo que está na hora de Hollywood a fazer uma estrela de verdade; e o retrato da união das Bellas é uma bela forma de refletir os dilemas pelos quais todos passamos nessa fase da vida. Uma pena que, na sede por ser uma continuação grandiosa, o filme tenha perdido a oportunidade de fazer jus ao verdadeiro espírito daquele que o precedeu.

✰✰✰ (3/5)

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O Estranho Mundo de Jack (The Nightmare Before Christmas, EUA, 1993)
Direção: Henry Selick
Roteiro: Tim Burton, Michael McDowell, Caroline Thompson
Elenco: Danny Elfman, Chris Sarandon, Catherine O’Hara, William Hickey, Paul Reubens
76 minutos

O Estranho Mundo de Jack é largamente lembrado como a grande fábula natalina de Tim Burton. É compreensível: se até hoje carrega uma marca forte em Hollywood e mundo afora, no comecinho dos anos 90 a estrela de Burton era ainda mais proeminente, a visão do artista fresca na cabeça do público depois de dois filmes do Batman e dos clássicos instantâneos Edward Mãos-de-Tesoura e Beetlejuice. Vinte e tantos anos depois, no entanto, chegou a hora de admitir, e creditar propriamente: o grande mérito de Jack é ter Henry Selick na direção. Esse estranho americano de 63 anos, mestre da arte largamente moribunda da animação stop-motion, precisa começar a ser reconhecido como um dos cineastas mais inventivos, inteligentes e interessantes da nossa época – e Jack é, argumentadamente, sua obra-prima. Grande parte do seu trabalho é realizar a história de Burton em linguagem visual, e é difícil pensar em algum outro artista que entende melhor as obsessões e cacoetes do diretor de Sweeney Todd do que Selick, que também assinou James e o Pêssego Gigante e Coraline. O Estranho Mundo de Jack respira a atmosfera burtoniana de conto-de-fadas sombrio, influenciada pelos filmes de horror dos anos 30 e 40, mas é na visão de Selick que o filme transcende esse mero riff estético.

Nas mãos dele, a história do monstrengo (dublado lindamente pelo compositor da trilha-sonora e colaborador assíduo de Burton, Danny Elfman) que sai dos domínios de sua Halloween Town para descobrir os encantos da terra do Natal e querer para si a atmosfera divertida e familiar do feriado mais feliz do ano se torna arena para uma série de experimentações visuais que, surpreendentemente, nunca distraem o espectador das outras virtudes do filme – nem de sua envolvente (de certa forma) narrativa. A trilha-sonora de Elfman brilha com peculiaridade melódica, seja na euforia de “What’s This?”, na melancolia da linda “Jack’s Lament” ou na nossa preferida pessoal, a balançada e soul “Oogie Boogie’s Song”. Os tipos monstruosos (e adoráveis) de Burton povoam o filme com uma vitalidade insuspeita, e seu diálogo quase-todo-rimado é encantador. O elemento que costura todas essas qualidades e dá coerência ao mundo cheio de sombras mas estranhamente colorido do filme, no entanto, é a direção de Selick, um trabalho hercúleo e detalhista que precisa ser muito mais louvado do que atualmente é quando falamos da história imortal do rei de Halloween Town.

✰✰✰✰✰ (5/5)

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Amaldiçoado (Horns, EUA/Canadá, 2013)
Direção: Alexandre Aja
Roteiro: Keith Bunin, baseado no livro de Joe Hill
Elenco: Daniel Radcliffe, Max Minghella, Joe Anderson, Juno Temple, Kelli Garner, James Remar, Heather Graham, David Morse
120 minutos

Uma década sendo forçado a carregar uma franquia nas costas (ainda que com ajuda inestimável dos coadjuvantes) fez de Daniel Radcliffe, previsivelmente ou não, um ótimo leading man. Não só sua presença em tela é magnética e perpetuamente interessante para o espectador, como ele entende seus personagens de maneira um pouco além do superficial. Amaldiçoado tira todo o proveito possível dessa qualidade difícil de definir, que fez a carreira de gente como Tom Cruise e, num passado mais distante, Humphrey Bogart (guardadas as devidas proporções, é claro) – é na atuação e no carisma do seu protagonista que o filme se pendura para sair ileso do impressionante malabarismo de gêneros e plot points que compõe seus surpreendentes 120 minutos. A primeira impressão é que a história não rende um filme tão longo, mas o roteiro de Keith Bunin (In Therapy) tira do livro de Joe Hill uma trama que combina comédia absurdista, análise da natureza humana a thriller de mistério fundado nas circunstâncias escusas de um assassinato. De bônus, o filme também é uma metáfora interessante sobre o papel em que a mídia e a sociedade anseia em nos encaixar, limitando invariavelmente nossa complexidade de seres humanos – esse aqui é o “vilão”, esse aqui é o “inocente”. Amaldiçoado brinca com esses estereótipos e no caminho se desvencilha da armadilha de ser ele mesmo julgado por algo mais simples do que verdadeiramente é.

Isso não quer dizer que o filme é impecável, de forma alguma. A direção de Alexandre Aja (Espelhos do Medo) é uma bagunça de ideias estéticas mal-completadas, mas se dá muito bem ao lidar com o humor e as cenas mais sutis do filme, usadas à perfeição para desenrolar o envolvente mistério do assassinato de Merrin (Juno Temple), a namoradinha de infância de Ig (Radcliffe), que se vê acusado do crime quando a moça morre na mesma noite em que termina o namoro com ele. Ao lado de Ig, defendendo a sua inocência, estão os pais (James Remar e Kathleen Quinlan, ótimos), o irmão mais velho (Joe Anderson), e o melhor amigo e advogado (Max Minghella). Quando Ig acorda um dia para descobrir que chifres estão nascendo em sua cabeça – chifres de verdade! –, e as pessoas começam a confessar seus pecados e pedir permissão para cometer atos de variado grau de perversão em sua presença, o mistério começa a se desenrolar com novo ímpeto. Radcliffe entrega facilmente a melhor performance do filme, mas isso se deve também ao quanto os personagens ao seu redor são largamente bidimensionais, mesmo quando estão sob o efeito maligno dos chifres de Ig. Amaldiçoado tem algo a dizer sobre desejos secretos, escolhas difíceis e amores perdidos, e merece ser visto nem que seja pela virtude da performance de Radcliffe.

✰✰✰✰ (3,5/5)

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Harry Brown (Inglaterra, 2009)
Direção: Daniel Barber
Roteiro: Gary Young
Elenco: Michael Caine, Emily Mortimer, Charlie Creed-Miles, David Bradley, Iain Glen, Sean Harris, Ben Drew, Jack O’Connell, Liam Cunningham
103 minutos

Thrillers de vigilantes urbanos são uma das tendências mais surpreendentes do cinema nesse século. Ao mesmo tempo em que se fascinam pelos super-heróis de colantes da Marvel e da DC, os espectadores adoram histórias estreladas por atores com carreiras sólidas como Liam Neeson (na trilogia Busca Implacável), Denzel Washington (O Protetor) e Keanu Reeves (De Volta ao Jogo) no papel de homens que reascendem habilidades obtidas com um treinamento antigo e quase esquecido para proteger ou vingar a si próprios ou aqueles que amam. Harry Brown é a entrada mais britânica nesse subgênero que não é recente (Desejo de Matar, com Charles Bronson, é de 1974), mas que ganhou popularidade inédita nos últimos anos. De forma nada surpreendente, o filme é também a mais observadora e inteligente das obras do tipo, em grande parte porque o diretor Daniel Barber, estreante em longas-metragens, eleva o material dúbio do roteiro de Gary Young (Vingança Entre Assassinos) em um conto de justiça com as próprias mãos dotado de consciência social, que tem um olho aguçado para as situações de vida de todos os personagens (“bandidos” e “mocinhos”) e que se permite questionar a validade da atitude de seu protagonista. Não machuca, é claro, que o filme tenha Michael Caine entregando o que é sua melhor atuação em muitos anos.

Tanto a idade mais avançada de seu protagonista (em relação aos personagens de Neeson, Washington e Reeves, por exemplo) quanto a ênfase maior que o diretor Barber dá aos momentos mais quietos da narrativa auxiliam Caine a pintar um retrato mais convincente do luto, da culpa e da devastadora solidão na qual seu personagem é deixado na primeira metade do filme. O ator, dono de duas estatuetas do Oscar, por Hannah e Suas Irmãs e Regras da Vida, demonstra tremenda empatia com o público, desfilando ainda hoje um carisma e magnetismo em tela que provavelmente ele deve aos tempos de galã dos filmes britânicos (ele estrelou a versão original de Alfie, refeito com Jude Law em 2004) – ambas as qualidades são bem-acompanhadas por uma sensibilidade quieta e uma precisão de tom e linguagem corporal que mostram que Caine é mais do que um movie star envelhecido. Com um protagonista tão crível e uma direção em alguns momentos até poética (embora não economize na violência), Harry Brown aparece como um exemplo interessante de como virtualmente qualquer convenção ou clichê cinematográfico pode se tornar uma história envolvente e interessante quanto bem executada.

✰✰✰✰ (4/5)

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Pixels (EUA/China/Canadá, 2015)
Direção: Chris Columbus
Roteiro: Tim Herlihy, Timothy Dowling
Elenco: Adam Sandler, Kevin James, Michelle Monaghan, Peter Dinklage, Josh Gad, Matt Lintz, Brian Cox, Sean Bean, Jane Krakowski, Dan Aykroyd, Lainie Kazan
106 minutos

Quase ninguém em Pixels parece comprometido de verdade a fazer o filme funcionar – o protagonista Adam Sandler entrega mais uma de suas performances no piloto automático, confiando muito mais no status de estrela do que numa presença genuína e carismática em tela (algo que ele até consegue ter, quando quer); o diretor Chris Columbus, que já se mostrou habilidoso com efeitos especiais e ação misturada com comédia, cria as setpieces aqui com pouco ou nenhum encantamento verdadeiro com o material que tem em mãos; e os roteiristas Tim Herlihy e Timothy Dowling se apóiam demais em estereótipos nerds e estruturas narrativas manjadas de comédias de ação, como se tivessem certeza que a ideia cool da premissa já fosse carregar, por si própria os espectadores para os cinemas mundo afora. No filme, uma gravação contendo uma série de video-games clássicos de arcade é enviada para o espaço em busca de vida inteligente nos anos 80; cortando para os dias atuais, uma raça alienígena intercepta a mensagem e a interpreta como uma declaração de guerra, e versões ameaçadoras e reais de personagens virtuais daquela era começam a ameaçar a Terra. É aí que o presidente (Kevin James) convoca seu amigo de infância (Sandler), um ex-campeão de video-game, para o resgate.

Junto com o personagem de Sandler vêm os nerds feitos por Josh Gad (que ficou famoso como a voz do Olaf de Frozen) e Peter Dinklage (o Tyrion de Game of Thrones). Eles dois são os elementos que melhor funcionam no filme, e os dois atores que parecem de fato estar se esforçando para dar vida a seus personagens – Gad encarna um furacão verbal ambulante, que não superou as glórias como jogador no passado e se tornou um especialista em teorias de conspiração; Dinklage, uma ex-celebridade do ramo e um bully de primeira categoria, que é tirado da prisão por Sandler e James para ajudá-los na missão de salvar o mundo. Ambos encarnam com gosto o ridículo da premissa do filme, enquanto seus companheiros de cena (Sandler principalmente) insistem em tentar trazer para a realidade um conceito que renderia duas horas tremendamente divertidas no cinema se abraçasse sua excentricidade. Há outras maneiras de tornar seus personagens tridimensionais e críveis sem seguir a cartilha que a trama envolvendo Sandler, a general feita por Michelle Monaghan e o filho dela segue. Do jeito que está, Pixels é muito potencial jogado fora, e há algo de um pouco deprimente nisso.

✰✰✰ (2,5/5)

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Barely Lethal (EUA, 2015)
Direção: Kyle Newman
Roteiro: John D’Arco
Elenco: Hailee Steinfeld, Samuel L. Jackson, Jessica Alba, Sophie Turner, Dove Cameron, Rachael Harris, Thomas Mann, Rob Huebel, Toby Sebastian
96 minutos

Aos 18 anos e atuando desde os 10, Hailee Steinfeld é uma das apostas mais certas para estrela da futura geração de Hollywood. Essa americana natural de Los Angeles levou uma indicação ao Oscar quando ainda tinha 15, pelo trabalho excepcional em Bravura Indômita, dos Irmãos Coen. Brilhou em filmes menores desde então e apareceu mais velha, com a mira clara no mainstream, em A Escolha Perfeita 2 (que revisamos nesse mesmo post). Aproveitou a oportunidade de soltar a voz no filme e ainda lançou carreira de cantora, com o (ótimo) single "Love Myself". Com tudo isso na bagagem, a comédia de ação adolescente Barely Lethal até empalideceu, mas coloca Hailee no centro de um filme comercial talvez pela primeira vez na carreira, além de dar a ela a oportunidade de contracenar com atores experientes como Samuel L. Jackson, Jessica Alba e Rachael Harris. Pena que, para além das ótimas performances e algumas boas piadas nas margens da trama principal, o filme dirigido por Kyle Newman (Fanboys) é completamente esquecível – para começar, o diretor não faz ideia de como conduzir cenas de ação, drenando-as de qualquer ritmo, com a honrosa exceção do embate físico entre Steinfeld e Sophie Turner (a Sansa de Game of Thrones) perto do final, que consegue empolgar principalmente pela ótima fisicalidade das duas atrizes.

Steinfeld interpreta Megan Walsh, garota que foi criada dentro de uma organização secreta dedicada a adotar meninas órfãs e treiná-las para se tornarem assassinas implacáveis desde a infância. Sentindo as urgências da adolescência e tendo na bagagem apenas as impressões do high school que tirou dos filmes do gênero, Megan finge a própria morte em uma missão especialmente complicada e se faz passar por estudante de intercâmbio para ter a oportunidade de viver a experiência colegial. Barely Lethal ensaia ser uma sátira no estilo “it’s not like the movies”, mas não se compromete completamente a essa missão – acerta na construção da personagem principal e na forma como retrata a sua aproximação de figuras inicialmente estereotípicas, como o líder-de-banda-pelo-qual-todas-as-garotas-babam (Toby Sebastian, mais um egresso de GoT), a garota-revoltada (Dove Cameron, de Liv & Maddie) e alguns outros. Em suma, o elenco reunido pelo diretor Newman entrega muito mais ao filme do que talvez ele mereça, e eleva-o a um bom entretenimento de fim-de-semana. Steinfeld e companhia merecem melhor, mas dá pra se divertir.

✰✰✰ (3/5)