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14 de out. de 2017

Review: O Ato de Matar e O Peso do Silêncio são os dois filmes mais importantes da nossa década

look of silence act of killing

por Caio Coletti

Nenhum outro filme despertou em mim exatamente o mesmo sentimento do que O Ato de Matar. Quando os créditos subiram no documentário de Joshua Oppenheimer, o feito monumental de cinema que eu tinha testemunhado parecia minúsculo, insignificante, perto da força humanitária e do testemunho de moralidade complicada da obra. O Ato de Matar é um grande filme, mas eu não quero sair gritando aos sete ventos que ele é um grande filme – eu não quero indicá-lo para os meus amigos, falar sobre ele na mesa do bar ou nos espaços on-line reservados para discutir cinema.

O que transpira quando Oppenheimer faz contato com líderes dos “esquadrões da morte” da Indonésia e pede para eles reencenarem o terrível genocídio que eles comandaram em forma de cinema é uma daquelas raras peças de arte que são maiores do que si mesmas, maiores até do que o nosso conceito mesquinho e arrogante de arte. O Ato de Matar é um filme que faz o espectador lamentar, de forma profunda e visceral, sua própria existência – é uma obra colossal, fundamental e indescritivelmente terrível.

Há de se colocar as reações físicas e emocionais a ele de lado, no entanto, para entender tudo de essencial que o filme discute. O Ato de Matar é sobre a história como construção dos vencedores, sobre a mentira como um mecanismo de autoproteção (por toda a sua eficiência e sua fragilidade), sobre o contraste espantoso entre ficção e realidade, e, ao mesmo tempo, sobre como uma tem poder de refletir na outra. Ao expor de forma inclemente a humanidade de figuras políticas monstruosas, O Ato de Matar os banaliza e os diminui tanto quanto os faz ainda mais aterrorizantes – porque, chocantemente, eles não são tão diferentes de nós.

E então temos O Peso do Silêncio, espécie de “continuação” do filme anterior produzida por Oppenheimer dois anos depois. Para o segundo filme, o diretor inverte a perspectiva e nos apresenta com uma obra que, embora não tenha o mesmo efeito de “soco no estômago para nunca mais se esquecer”, eleva a complexidade da discussão e coloca o panorama devastador que Oppenheimer fez dos massacres indonésios em um patamar no qual nenhuma obra cinematográfica pode alcançá-lo tão cedo.

Dessa vez, acompanhamos um sobrevivente dos massacres buscando conhecer a história de seu irmão, que foi morto na época. Em uma série de visitas tensas, ele confronta vários dos chefes locais que ajudaram a assassinar milhões de ditos “comunistas”, em busca talvez de um senso de reconciliação – Oppenheimer vê empatia aparecendo pelas frestas do mundo sombrio que retrata, mas vê também a toxicidade que contamina todas as interações em uma comunidade, um país (enfim, uma humanidade), que viveu tais horrores. A reflexão profunda e a história frágil contada por O Peso do Silêncio acaba sendo tão marcante quando a ânsia e a exaustão que O Ato de Matar causam no espectador.

Combinar um exercício intelectual com uma exposição de humanidade em seus impulsos mais monstruosos foi o que Oppenheimer buscou fazer aqui – no meio do caminho, encontrou uma experiência que é muito mais do que artística (embora também o seja, e tão, tão fundamentalmente). Em um díptico pintado em tons de cinza, o documentarista cria os filmes mais importantes da nossa década justamente ao nos lembrar que o cinema nunca será capaz de abraçar, consertar, mudar ou retratar a realidade e suas consequências mais profundas.

look of

O Ato de Matar (The Act of Killing, Inglaterra/Dinamarca/Noruega, 2012)
Direção: Joshua Oppenheimer, Christine Cynn, Anônimo
115 minutos

O Peso do Silêncio (The Look of Silence, Dinamarca/Indonésia/Finlândia/Noruega/Inglaterra/Israel/França/EUA/ Alemanha/Holanda/Taiwan, 2014)
Direção: Joshua Oppenheimer
103 minutos

7 de out. de 2017

Review: O que incomoda em Mãe! é o cruzamento herético entre deuses e humanos

mother

por Caio Coletti

Um dos meus melhores hábitos (os bons não são muitos, acredite) é não criar expectativas para obras artísticas. Via de regra, busco me manter calmamente afastado do furor pelo lançamento de qualquer peça de cinema, TV, música ou seja lá o que for, a fim não de manter a objetividade ou a frieza ao finalmente poder assisti-la (ou lê-la, ou ouvi-la, enfim), mas de me manter aberto à subjetividade que ela quer me passar, ao invés de julgá-la a partir daquilo que esperava dela. No entanto, ao entrar na minha sessão de Mãe!, era impossível não sentir aquela curiosidade no fundo da cabeça, reprimida pelas minhas melhores tentativas de não ceder ao hype: O que será que incomodou tanto nesse filme?

As reações ao longa de Darren Aronofsky não poderiam ser mais polêmicas: Houve quem o amou, saudando a coragem e intensidade do filme como dignas do pesadelo que se via em tela; e houve quem o odiou, cunhando as expressões de sempre (“exercício de ego vazio” e suas inúmeras variações) ou reclamando, do ponto de vista conservador, do uso de símbolos e metáforas sacras para contar uma história de violência.Tinha isso em mente quando o título rabiscado do filme apareceu em tela, seguido imediatamente de um ponto de exclamação grosseiro, quase como que zombando da controvérsia que Aronofsky sabia que seu filme ia causar. Por outro lado, quando “The End of the World” tocou enquanto os créditos subiam, no final do filme, a dúvida (“O que em Mãe! incomoda tanto?”) não existia mais.

A trama de Mãe! (não há spoilers aqui) acompanha o casal formado por Javier Bardem e Jennifer Lawrence, que vivem em uma casa ainda em construção. Ele, um escritor; ela, uma dona de casa. Subitamente, chega por lá um homem (Ed Harris), que cria uma ligação com o personagem de Bardem enquanto Lawrence protesta (educadamente, em particular, como a boa esposa suburbana) contra sua permanência na casa. Logo, junta-se a ele a esposa (Michelle Pfeiffer), e a partir daí o roteiro de Aronofsky dispara uma série tensa de acontecimentos que atingem um crescendo até a odisseia alucinante do final. Metade drama doméstico, metade filme de guerra, e inteiro alegoria, Mãe! é, como cinema, um bicho estranho, que não liga para equilíbrio tonal e não se acanha em usar truques sujos para pegar o espectador desprevenido.

No entanto, ainda não é isso que incomoda sobre Mãe!, visto que Aronofsky é um mestre em dançar na ponta dos pés ao redor da percepção do espectador. O filme não tem qualquer trilha sonora artificial perceptível (o compositor Jóhann Jóhannsson chegou a escrever temas que não foram usados no corte final), mas usa a edição e mixagem de som com maestria para inserir o espectador em um ambiente acústico à flor da pele. O diretor de fotografiaMatthew Libatique, velho parceiro de Aronofsky, mantem a iluminação natural e, sem dúvida sob instruções do cineasta, passa uma enorme parte da metragem filmando o rosto de Jennifer Lawrence em close-up, sua pele de boneca enchendo a tela. Percebendo o desafio, a estrela entrega uma atuação que não é só puramente reativa, buscando personalidade em meio ao desespero que o roteiro joga em sua direção.

Ainda melhores estão outros dois membros do elenco. Bardem parece se deliciar com a missão de retirar as camadas de seu personagem lentamente durante o filme, elaborando sem medo o egocentrismo que guia cada uma de suas decisões, e encarando cada momento em que o roteiro aumenta o volume da paródia/metáfora que representa com tanto senso de aventura quanto coerência. Extravagante na medida certa, Bardem acerta o tom difícil do filme de Aronofsky na mosca, como o grande ator que é. Enquanto isso, Mãe! pede que Michelle Pfeiffer faça justamente o contrário, colorindo ao redor de uma personagem que é em muitos sentidos unidimensional – ela encontra um tom de humor negro tão refinado que, quando ela está em cena, é difícil prestar atenção em qualquer outra coisa. 

Não é nada disso que incomoda em Mãe!, no entanto. Saindo da minha sessão, a impressão é que o que enerva e envolve tanto no filme é a forma como a história contada por Aronofsky desnuda a mitologia da sociedade ocidental de seu misticismo e encontra nela observações minutas e detalhes sórdidos do nosso egoísmo, da nossa prepotência, da nossa teimosia, do nosso equívoco ao tentar entender conceitos como amor, devoção e perdão. Mãe! olha para os deuses que criamos e acha neles a reflexão da nossa pior natureza, e da verdade que nenhum de nós quer encarar: a de que cada ato, consequência, equívoco e desastre que acontece conosco, e entre nós e o meio em que vivemos, é de nossa responsabilidade.

Por toda a sua carreira, Aronofsky transformou humanos em deuses e demônios tortos. Réquiem Para um Sonho, Fonte da Vida, O Lutador, Cisne Negro, Noé – são todos filmes sobre homens e mulheres cujas obsessões, confusões, perturbações e arrependimentos os transformam em seres saídos direto de tragédias gregas grandiosas em que reis e rainhas se digladiam em meio a temas de vingança, degradação e glória. Acontece quando Nina abre suas asas na apresentação final de Cisne Negro, ou Randy sobe nas cordas do ringue para dar seu último pulo em O Lutador, ou Noé decide se deve ou não ouvir as ordens de Deus e matar um membro de sua família, ou Sara descende à loucura com seus remédios para emagrecer enquanto delira sobre estar em um programa de auditório em Réquiem.

Há 17 anos, Darren Aronofsky transforma humanos patéticos, sujos e de caráter duvidoso em deuses e mitos. Em Mãe!, o script se inverteu, e os deuses desceram à Terra para nos mostrar que, veja só, eles são mesmo só humanos, tão gloriosamente perturbados quanto os outros do diretor. É isso que realmente incomoda em Mãe!. Ele faz acreditar, mesmo que por meras 2 horas, que não há uma história maior, mais ideal ou mais pura – que isso que temos aqui é tudo o que jamais teremos. É um filme urgente, totalmente idiossincrático, que precisa ser respeitado e ouvido mesmo que todos os nossos instintos digam que não.

✰✰✰✰✰ (5/5)

mother

Mãe! (Mother!, EUA, 2017)
Direção e roteiro: Darren Aronofsky
Elenco: Jennifer Lawrence, Javier Bardem, Ed Harris, Michelle Pfeiffer, Brian Gleeson, Domhnall Gleeson, Jovan Adepo, Kristen Wiig
121 minutos

24 de set. de 2017

Diário de filmes do mês: Setembro/2017

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por Caio Coletti

Nem todos os filmes merecem (ou pedem) uma análise complexa como a que fazemos com alguns dos lançamentos mais “quentes” ou filmes que descobrimos e nos surpreendem positivamente. É levando em consideração a função da crítica e da resenha como uma orientação do público em relação ao que vai ser visto em determinado filme que eu resolvi criar essa coluna, que visa falar brevemente dos filmes que não ganharam review completo no site. Vamos lá:

annabelle

Annabelle (EUA, 2014)
Direção: John R. Leonetti
Roteiro: Gary Dauberman
Elenco: Annabelle Wallis, Ward Horton, Tony Amendola, Alfre Woodard
99 minutos

Há um filme de horror interessante dentro de Annabelle, o primeiro derivado da franquia Invocação do Mal, mas a ele não é permitido o espaço para respirar sobre as confecções preguiçosas do diretor John R. Leonetti. Difícil culpá-lo, no entanto: com apenas US$6.5 milhões à disposição no orçamento e a pressão para criar um filme que apele a uma grande audiência, ele usa os mais baixos denominadores comuns do gênero para produzir sustos sem trabalhar o suspense ou os personagens com a mesma habilidade e paciência de seu colega de profissão, o criador da franquia James Wan. Onde Wan é engenhoso com a colocação da câmera e a sugestão, Leonetti é óbvio na forma colo “telegrafa” a história dos personagens, os temas de sacrifício e maternidade do roteiro de Gary Dauberman, e a presença quase não sentida da boneca amaldiçoada do título. Na trama, vemos como Annabelle “absorve” o espírito de uma discípula de um culto satanista que morre dentro da casa da protagonista, Mia (Annabelle Wallis), enquanto ela ainda está grávida. Os acontecimentos bizarros que ocorrem ao redor da boneca não seguem uma lógica própria, e o mundo sobrenatural de Annabelle se parece exatamente com o que é: uma confecção apressada que buscou capitalizar no sucesso da “personagem” durante o filme original.

A talentosíssima Alfre Woodard é o destaque do elenco, imbuindo sua personagem com um certo censo de autoparódia, com todas as suas expressões espantadas e diálogos ominosos – se não fosse por ela, o final trágico do filme não funcionaria em nenhuma dimensão. É fácil creditar a fotografia óbvia e o design de produção pouquíssimo inspirado ao baixo orçamento, mas filmes independentes dentro e fora dos EUA nos mostram rotineiramente que dinheiro não é obstáculo para uma mente criativa. Fazer um filme de terror com propósito, climatização e habilidade artesanal sem muito dinheiro não é impossível – para que aconteça, só é preciso tempo e vontade, duas coisas que aparentemente faltam aqui.

✰✰✰ (2,5/5)

discovery

The Discovery (EUA, 2017)
Direção: Charlie McDowell
Roteiro: Justin Lader, Charlie McDowell
Elenco: Jason Segel, Robert Redford, Rooney Mara, Jesse Plemons, Riley Keough, Mary Steenburgen
102 minutos

Antes de The Discovery, o diretor Charlie McDowell e seu parceiro de roteiro, Justin Lader, criaram outra pequena ficção científica que causou comoção na época do lançamento: Complicações do Amor, lançada em 2014, sobre um casal que vai a um retiro para recuperar seu matrimônio e encontra uma cabana em que coisas bizarras acontecem (não queremos estragar nada). Como The Discovery, era uma premissa engenhosa executada com precisão e bravura, que não fugia da ambiguidade ou da ironia de seu final. Como The Discovery, era um filme ao qual faltava alguma coisa – nos 102 minutos de sua nova ficção científica, McDowell e Lader conseguem explorar os cantos escuros da mortalidade, do suicídio, da própria condição humana. O que não conseguem, no entanto, é construir personagens com jornadas que realmente envolvem o espectador. O resultado é um filme paradoxal: profundamente humano pela natureza de sua trama, mas estranhamente frio, como se a ideia (a tal descoberta) importasse mais do que as pessoas envolvidas nela – o que pode funcionar na ciência, mas não funciona na arte. Will (Jason Segel), o protagonista, vai visitar seu pai, Thomas (Robert Redford), um renomado cientista que conseguiu comprovar a existência da vida após a morte, um evento que deu início a uma epidemia de suicídios. Chegando lá, conhece Isla (Rooney Mara), que logo se junta ao grupo de “seguidores” que o pai de Will reuniu ao redor de si.

O elenco tenta de forma dedicada construir a jornada desses personagens a partir dos poucos detalhes dado pelo roteiro – Segel entrega uma performance dramática que é particularmente precisa, e Redford também destaca-se com uma de suas melhores e mais sutis performances em tempos. Assim como em Lion, a Mara é dado o papel de criar suporte às elaborações emocionais de seu protagonista masculino, o que não serve bem a uma atriz tão habilidosa, cheia de recursos para criar personagens complexos (lembram-se de Carol?). O estilo meditativo de The Discovery casa bem com as intervenções escarças da câmera de McDowell e sua diretora de fotografia, Sturla Brandth Grovlen. É um filme que quer deixar espaço para sua história ganhar vida, mas não dá a ela sangue o bastante para tal – ainda que um pouco frustrante, é um exercício interessante de cinema, vindo de um gênero e um cenário que explode de ideias inovadoras todos os anos.

✰✰✰✰ (3,5/5)

gits

A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell (Ghost in the Shell, Inglaterra/China/Índia/Hong Kong/EUA, 2017)
Direção: Rupert Sanders
Roteiro: Jamie Moss, William Wheeler, Ehren Kruger, baseados no mangá de Shirow Masamune
Elenco: Scarlett Johansson, Pilou Asbaek, Takeshi Kitano, Juliette Binoche, Michael Pitt
107 minutos

Faz alguns meses que eu me obriguei a assistir Ghost in the Shell, o original japonês, duas vezes para entendê-lo (leia o review). Foram precisas duas sessões porque o filme de Mamoru Oshii me pegou desprevenido na primeira vez, com seus longos diálogos e trechos contemplativos, combinados com a ação árida, os traços retos e a consideração profunda sobre identidade de gênero, sexualidade, livre arbítrio, corrupção governamental, engenharia social que a história fazia. Posso apostar que a versão americana de Ghost in the Shell, nunca vai prontificar alguém e dizer, quando sobem os créditos: “Bom, eu preciso ver isso de novo”. Isso não só porque o filme de Rupert Sanders é menos extraordinário como peça de cinema, mas porque o roteiro de Jamie Moss, William Wheeler e Ehren Kruger vai de encontro ao mangá original de Shirow Masamune e reduz sua firma contestação filosófica a uma batida reafirmação de humanidade acima da artificialidade que já vimos um milhão de vezes na ficção científica hollywoodiana. Pudera: pensar que um roteirista de Transformers (Kruger) era uma boa escolha para adaptar uma obra como essa, ou mesmo tirar algo de diferente e igualmente excitante dela, é algo que só Hollywood faria. A trama envolve a Major (Scarlett Johansson), uma mulher de corpo inteiramente biônico, porém consciência humana, transplantada para o invólucro artificial após um acidente mortal – ela trabalha com uma organização governamental que caça o criminoso Kuze (Michael Pitt), capaz de hackear a mente de pessoas e controlá-las.

A história ligando Major e o vilão é óbvia o bastante para que o espectador médio veja a “reviravolta” chegando de longe, e o final não é nem metade tão subversão do status quo quanto o do original. Para piorar a situação, o diretor Rupert Sanders aborda o futuro de Ghost in the Shell com sua sensibilidade visual aguçada, porém voltada a um uso impecável dos melhores efeitos especiais que Hollywood pode oferecer. O resultado é um filme superficialmente deslumbrante, com seus plásticos lustrosos e curvas sinuosas – é sedutor elogiá-lo por isso, mas a verdade é que pouca ou nenhuma inventividade visual está envolvida na concepção desse futuro de Sanders, que divide o (des)crédito com o designer de produção Jan Roefls. O Ghost in the Shell americano não precisava ser igual ao original – de fato, há de se argumentar que o que o filme precisava fazer para honrar seu predecessor era criar algo nunca visto antes, no espírito de Oshii. Foi aí que (de novo) Hollywood falhou.

✰✰ (2/5)

ican

Ao Cair da Noite (It Comes at Night, EUA, 2017)
Direção e roteiro: Trey Edward Shults
Elenco: Joel Edgerton, Christopher Abbott, Carmen Ejogo, Riley Keough, Kelvin Harrison Jr
91 minutos

Seria fácil dizer que o grande trunfo de Ao Cair da Noite, como outros terrores e suspenses independentes antes dele, é o senso de expectativa que ele cria. De fato, o diretor e roteirista Trey Edward Shults é inteligente na forma como movimenta a câmera através dos espaços confinados do filme, no mistério inclemente com o qual cerca a ameaça externa enfrentada pelos protagonistas, nos poucos flashes de imagens obvia e visceralmente perturbadoras que escolhe mostrar. O incômodo causado pelo filme de Shults, no entanto, tem muito mais a ver com o que ele significa do que com a forma na qual ele é conduzido – habilidosamente, ele criou um suspense que traça as origens do medo e da raiva que impulsionam tantas atitudes e pensamentos isolacionistas e preconceituosos, muito especialmente a xenofobia que é a força motriz por trás de tantas campanhas políticas bem sucedidas mundo afora no momento atual. Ao Cair da Noite incomoda porque expõe as consequências mais extremas de um pensamento protetivo que existe na própria natureza da humanidade, e que costuma se exacerbar nos momentos mais sombrios de dificuldade (ó título do filme não é aquele por acaso). O roteiro de Shults desenha paralelos complexos desse pensamento com a estrutura machista da sociedade, tanto a que ele apresenta quanto a nossa, e tem a delicadeza de concentrar em seu protagonista adolescente a reflexão sobre como ideologias de ódio e medo tem um profundo impacto na nossa formação psicológica.

Na trama, Paul (Joel Edgerton), Sarah (Carmen Ejogo) e o jovem Travis (Kelvin Harrison Jr) vivem juntos em uma casa isolada – o mundo sucumbiu a algum tipo de vírus e os poucos sobreviventes vivem quase sem contato com o exterior. É quando Will (Christopher Abbott), com sua esposa Kim (Riley Keough) e o filho ainda criança, aparecem propondo uma parceria para sobreviver – Shults desenha a desconfiança e as sutis maneiras de segregação que os recém-chegados enfrentam com sutileza, e deixa seu filme rapidamente tomar uma direção sombria quando o primeiro evento “estranho” acontece na residência dividida das famílias. A escalação violenta, em junção com duas performances explosivas de Edgerton e Abbott, criam um clímax tão chocante quanto claramente inevitável. Quando os créditos de Ao Cair da Noite sobem, uma mistura de náuseas, tristeza e impotência toma conta do espectador – com sua fábula fatalista, Shults criou o épico de terror mais representativo da nossa época.

✰✰✰✰ (4/5)

tdt

A Torre Negra (The Dark Tower, EUA, 2017)
Direção: Nikolaj Arcel
Roteiro: Akiva Goldsman, Jeff Pinkner, Anders Thomas Jansen, Nokolaj Arcel, baseados nos livros de Stephen King 
Elenco: Idris Elba, Matthew McConaughey, Tom Taylor, Dennis Haysbert, Claudia Kim, Jackie Earle Haley, Abbey Lee, Katheryn Winnick
95 minutos

Adaptar A Torre Negra, saga de sete livros assinados por Stephen King, sempre foi uma tarefa ridiculamente difícil – os livros são supremamente bizarros, uma mistura curiosa, excitante e inesquecível de épico de fantasia, faroeste e a escrita sempre recheada de cultura pop de King. Seria tolice esperar que um filme hollywoodiano de 95 minutos, como o A Torre Negra de Nikolaj Arcel, fosse capaz de capturar essa bizarrice e esse exato encanto. Talvez por isso a decisão dos roteiristas de criar uma nova história com os mesmos personagens tenha sido acertada, mas do jeito como foi feito, A Torre Negra não se destaca de seus parceiros blockbusters nem em feitura nem em narrativa. A construção de Akiva Goldsman, Jeff Pinkner, Anders Thomas Jansen e do próprio Nikolaj Arcel no roteiro é inana, conformando os personagens em moldes pré-concebidos. Pior ainda, o script não consegue se decidir qual dos moldes quer dar para cada um deles – o pistoleiro Roland vai de herói estoico a alívio cômico/peixe fora d’água, enquanto o jovem Jake (Tom Taylor) começa como aprendiz subestimado e acaba como mais um “Prometido” trágico da fantasia, um Harry Potter sem a gana adolescente do protagonista de J.K. Rowling.Enquanto isso, Matthew McConaughey mal é um personagem – o filme não lhe dá espaço ou material para ser, e o ator se reduz a ajustar seus maneirismos usuais em um contexto vilanesco arrogante. O Homem de Preto de McConaughey quer destruir a Torre Negra, construção que mantém os múltiplos universos livres de monstros, enquanto Roland jurou impedí-lo, e Jake é jogado em meio a essa batalha de homens poderosos quando percebe que tem habilidades psíquicas especiais. A jornada de Jake e Roland por dois desses múltiplos universos (o nosso e um outro, que parece genericamente pós-apocalíptico) não encontra virtualmente nenhum módico de originalidade.

Se a construção clichê não desmorona completamente, culpe Idris Elba. O ator encontra no Roland errante do roteiro um personagem envolvente, colando as partes distintas de seu passado com habilidade – contra todas as possibilidades, o ator britânico consegue comunicar a tragédia, relutância, extraordinária habilidade e até a comédia de Roland; muitas vezes todas elas ao mesmo tempo. É uma performance incomum em um filme desesperadoramente comum, ao qual o diretor Arcel faz pouco para injetar vida – seu trabalho ao lado do cinematógrafo Rasmus Vidabaek é belamente controlado, mas o mesmo não pode-se dizer da concepção e uso dos efeitos especiais, por exemplo. Mudar o universo de Stephen King não foi o problema em A Torre Negra – privá-lo de sua humanidade, sim.

✰✰✰ (2,5/5)

whtm

Onde Está Segunda? (What Happened to Monday, Inglaterra/França/Bélgica/EUA, 2017)
Direção: Tommy Wirkola
Roteiro: Max Botkin, Kerry Williamson
Elenco: Noomi Rapace, Glenn Close, Willem Dafoe, Marwan Kenzari
123 minutos

O diretor Tommy Wirkola não tem exatamente o melhor dos currículos. Seja a “franquia” Zumbis na Neve ou o terrível João e Maria: Caçadores de Bruxas, o norueguês é conhecido por construções baratas e “sujas” de ação, erguidas sem o cuidado de outros diretores contemporâneos do gênero. Onde Está Segunda? não é tão diferente – Wirkola encontra-se com um roteiro básico de Max Botkin e Kerry Williamson e não faz muito esforço para surpreender com ele. Seu filme é eventualmente divertido e envolvente, mas some da memória do espectador minutos depois dos créditos subirem. A falta de imagens ou momentos indeléveis também não favorece a atriz Noomi Rapace, que já provou ser talentosa sob as condições corretas. Aqui, ela encara um papel sétuplo que não lhe dá espaço para desenvolver nenhuma das irmãs Settman propriamente – Rapace é boa em simular o desespero pelo qual as irmãs passam, a busca incessante por conexão humana, o cansado companheirismo entre elas, mas são emoções primárias e coletivas que se esquivam das complexidades do particular de cada uma. Conforme o roteiro despacha cada uma das gêmeas Settman, a impressão é que nunca realmente as conhecemos – o que é uma pena, porque o roteiro é de exemplar diversidade. Não ajuda que o filme desperdice Glenn Close, sempre excelente independente do material, na pele de uma vilã cujas motivações podemos entender, e cuja frustração com a monstruosidade de seus próprios atos é palpável.

Na trama, Close é uma cientista que provém a solução definitiva para o problema de superpopulação na Terra: permitir que cada família tenha apenas um filho, e congelar qualquer eventual irmão em criogenia, para ser acordado quando a situação estiver normalizada. Quando as gêmeas Settman nascem, a mãe morre no parto, e o avô (Willem Dafoe) as cria para se esconderem do mundo – todas elas assumirão a identidade de Karen Settman, e só sairão de casa um dia por semana. O “plano perfeito” funciona por décadas, até que um dia a irmã para a qual é designada a Segunda-Feira desaparece do mapa. Daí para frente, Wirkola dirige uma série de cenas de ação brutais e dinâmicas, mas desencontra de vez a urgência e humanidade de sua história.

✰✰✰ (3/5)

30 de jul. de 2017

Review: O documentário Quem é JonBenet entende que a empatia é o traço mais humano de todos

casting

por Caio Coletti

O misterioso caso do assassinato de JonBenét Ramsey tem fascinado o público americano e mundial há mais de 20 anos. Uma breve contextualização: Ramsey era uma garota de apenas 6 anos, conhecida no circuito de concursos de beleza para crianças dos EUA, que foi encontrada morta em 1996 em sua própria casa, em um caso nunca solucionado. Teorias incluem a possibilidade de que os pais, Patsey e John, estivessem envolvidos, ou de que o irmão, Burke, a teria matado acidentalmente e os pais estavam encobrindo as evidências, e levantam também a possibilidade assustadora da existência de um círculo de prostituição infantil em Boulder, Colorado (EUA), onde a menina vivia com a família.

O documentário Quem é JonBenet, da diretora Kitty Green, explora todas essas possibilidades, ao mesmo tempo em que se estrutura de forma única para o gênero. Ao invés de trazer entrevistas com pessoas de fato envolvidas no caso, a diretora colocou uma chamada de elenco para um filme sobre JonBenet no jornal local, e entrevistou e reencenou momentos chaves do caso com aqueles que responderam. O resultado é uma análise profunda de temas como memória, preconceito, escolhas narrativas e a influência da mídia na nossa percepção de mundo, mas é também um testemunho de força inexplicável sobre a maior e mais delicada das qualidades humanas: a empatia.

Conforme conduz as entrevistas e encenações, Green escolhe se embrenhar não só na vida da família Ramsay como ela é contada por atores amadores e profissionais de Boulder, como também nas questões de foro pessoal que levam cada um deles a fazer certas escolhas em suas atuações. Incansável, a documentarista coloca uma lente de aumento sobre os pontos de contato das histórias desses indivíduos em frente a suas câmeras e a história da família imperfeita e incógnita que está no centro desse caso. Quem é JonBenet entende a imperfeição e a peculiaridade da condição humana que dá combustível para a fascinação em torno da morte de JonBenet, e prefere sublinhar essa fascinação do que buscar respostas inéditas ou insights baratos.

Planejado e executado à perfeição, o experimento cinematográfico de Green exige habilidade que sobra à diretora, tanto para editar a vastidão de material que com certeza conseguiu em suas entrevistas quanto para escolher os detalhes minuciosamente destacados pela fotografia. Assistida pelo editor Davis Coombe e pelo diretor de fotografia Michael Latham, Green encontra seu ponto de equilíbrio com facilidade, comandando uma progressão confiante de emoções entrelaçadas que atingem um clímax impecável. Atenção especial para o ator Dixon White, que faz teste para viver John Mark Karr, um pedófilo que confessou (falsamente) ter matado JonBenét. White mergulha na psique perturbada e nos motivos obscuros de Karr com uma vontade e fascinação que o fazem uma força da natureza – e um parceiro criativo perfeito para Green. Em meio a uma sinfonia cinematográfica de engenhosidade inegável, é um dueto de ator e diretor delicioso de se assistir.

✰✰✰✰✰ (5/5)

casting

Quem é JonBenet (Casting JonBenet, EUA/Austrália/China, 2017)
Direção e roteiro: Kitty Green
80 minutos

Diário de filmes do mês: Julho/2017

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por Caio Coletti

Nem todos os filmes merecem (ou pedem) uma análise complexa como a que fazemos com alguns dos lançamentos mais “quentes” ou filmes que descobrimos e nos surpreendem positivamente. É levando em consideração a função da crítica e da resenha como uma orientação do público em relação ao que vai ser visto em determinado filme que eu resolvi criar essa coluna, que visa falar brevemente dos filmes que não ganharam review completo no site. Vamos lá:

okja

Okja (Coreia do Sul/EUA, 2017)
Direção: Joon-ho Bong
Roteiro: Joon-ho Bong, Jon Ronson
Elenco: Seo-Hyun Ahn, Tilda Swinton, Jake Gyllenhaal, Giancarlo Esposito, Steven Yeun, Paul Dano, Lily Collins
120 minutos

A tomada final de Okja é um dos maiores triunfos de estrutura fotográfica do cinema contemporâneo. Ao mesmo tempo, ela vem de uma tradição centenária do cinema oriental – estudantes da filmografia japonesa vão identificar com facilidade a homenagem ao mestre Yasujiro Ozu, mas não é preciso ser um intelectual para entender o brilhantismo do coreano Joon-ho Bong, um dos maiores talentos de sua geração. Seu faro perfeito para a criação de mundos e personagens únicos brilhou anteriormente em O Hospedeiro e Expresso do Amanhã, entre suas outras obras, e em Okja ele está especialmente afiado. Colorido por performances devidamente exageradas de Jake Gyllenhaal, Paul Dano e da genial Tilda Swinton, cujo estilo de atuação sempre cai como uma luva na sensibilidade do diretor, o filme é um equilíbrio prodigioso de tons e gêneros, uma experiência de encenação elaborada, e uma história genuinamente tocante. A habilidade de casar tudo isso em um todo coerente, lançando mão tanto de técnicas clássicas quanto de inovações, é o que faz um grande cineasta contemporâneo como Bong parecer mais vital a cada obra acertada.

Okja é a história de um animal artificialmente criado por uma corporação da indústria alimentícia, que após dez anos sendo criado com carinho por um avô e sua neta, precisa viajar para os EUA a fim de reproduzir-se e acabar confortavelmente na mesa de jantar de alguma família de comercial de margarina. Bong, também coautor do roteiro, não esteriliza o processo, suas crueldades e suas hipocrisias, mas empresta ao filme a ambiguidade humana necessária para entender o sistema maior em que esse processo está inserido. É um filme corajosamente criativo, mas talvez ainda mais bravamente realista – e um testemunho e tanto do talento de seu diretor.

✰✰✰✰ (4/5)

holyHoly Hell (EUA, 2016)
Direção: Will Allen
100 minutos

Há um valor inestimável intrínseco ao material apresentado em Holy Hell, documentário do diretor Will Allen sobre os 22 anos que ele mesmo passou dentro de um culto liderado por um ex-ator pornográfico americano. Sim, você leu certo. O Buddhafield começou como uma espécie de “acampamento” espiritual, mas ao longo das décadas se tornou a própria definição do culto de personalidade nos séculos XX e XXI. Como cineasta-residente do grupo, Allen tem material farto para contar sua história, e como sobrevivente ele tem uma conexão pessoal inexorável com ela, assim como contato a outros que passaram pela mesma experiência. O resultado é uma narrativa minuciosa e compreensiva, tremendamente bem ilustrada, editada e refletida pelas entrevistas dos ex-membros do culto. Por vezes ligeiramente polido demais, e com poucos insights formais, Holy Hell supera suas (poucas) deficiências como cinema através de suas (muitas) virtudes como documento histórico, e seu absurdo poder de fascinação. É um exercício de empatia em muitos sentidos entender a forma como as pessoas que vemos em frente às câmeras puderam passar duas décadas sob o feitiço de um psico-hipnotista e seu discurso pseudo-religioso. Allen nos conduz em direção a essa empatia com a mão segura que só poderia vir de alguém que também a pede do espectador ao contar sua própria história.

Em sua abundância de material, Holy Hell serve também como uma janela para a cultura da época que produziu o Buddhafield e tantos casos semelhantes, ao mesmo tempo em que frisa as características perenes da condição humana que tornaram eles possíveis. Da euforia do início nos anos 80 ao apego na década seguinte a conceitos que rapidamente se tornavam ultrapassados no zeitgeist contemporâneo, o que levou a uma posição radicalmente isolacionista nos anos 2000, a história do Buddhafield atravessando os anos é também a história da civilização ocidental nesse período de tempo. Pelo testemunho de sobrevivência, pelos insights humanos de suas testemunhas ou por esse valor histórico, Holy Hell merece ser assistido.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

ticklesTickled (Nova Zelândia, 2016)
Direção: David Farrier, Dylan Reeve
92 minutos

É impossível não desejar que Tickled, o documentário, tivesse sido feito por outra pessoa. David Farrier e Dylan Reeve merecem os louros de terem perseguido a história mais improvável do ano passado, mas seus instintos de repórteres não são os mesmos que um documentarista de verdade teria inserido no filme. A linguagem jornalística de Tickled é seu calcanhar de Aquiles, mas a força da história que Farrier e Reeve descobrem o faz também inescapavelmente fascinante e envolvente. Tudo começa quando Farrier, jornalista de matérias “curiosas” na Nova Zelândia, encontra na internet vídeos de jovens rapazes enfrentando maratonas de cócegas – e a companhia que banca esses vídeos jura que é um esporte legítimo. A partir daí, dizer mais seria estragar a jornada: Tickled se torna uma por vezes curiosa, por vezes revoltante jornada pelos cantos mais escuros do corporativismo e do privilégio capitalista nos EUA, além de uma reflexão engajada sobre a facilidade de destruir a vida e a reputação de uma pessoa na era da internet (isto é, quando ela não tem dinheiro o bastante para contra-atacar). É ao mesmo tempo a velha história de Davi versus Golias do mundo industrial, e uma nova e aterrorizante faceta dela – ao traçar o início de sua história junto ao início da internet, Farrier mostra instintos de pesquisa perfeitos e contextualiza a história com inteligência.

O filme escolhe acompanhá-lo durante a investigação, como se uma equipe de filmagens entrasse nos momentos íntimos em que os caminhos de uma história jornalística se desenvolve. Não sobram insights sobre esse processo, visto que o foco da câmera está constantemente nas barreiras e reviravoltas que os dois jornalistas encontram, e não na forma como as superam. Em suma, talvez o formato pareça mais uma necessidade do que uma escolha criativa – e nesse caminho Tickled se torna um documentário pouco notável tanto quanto é uma história, de sua própria forma, essencial. Paradoxal, talvez. Como o filme mostra, muitas coisas no mundo contemporâneo são.

✰✰✰✰ (4/5)

weiner

Weiner (EUA, 2016)
Direção: Josh Kriegman, Elyse Steinberg
96 minutos

Ao contrário dos outros documentários que dominam o nosso diário do mês de julho, Weiner não é diretamente argumentativo ou investigativo. Os diretores Josh Kriegman e Elyse Steinberg preferem outra abordagem clássica do gênero: o estilo “mosca-na-parede”, que coloca a câmera como mera observadora, e os cineastas como agentes raramente intrusivos na situação real que registram. Nesse modo, o cinema documental funciona como crônica, revelando a visão única de seus autores de forma mais sutil – na forma como estrutura a narrativa através da edição, ou nos detalhes que decidem ou não filmar. A crônica aqui é da campanha de Anthony Weiner para prefeito de Nova York em 2013/2014, e os subsequentes escândalos que revelaram que o ex-congressista democrata traía a esposa com várias mulheres através da internet. Weiner havia passado por acusações semelhantes anos antes, e foi obrigado a renunciar do cargo no Congresso, mas achou que estava na hora de voltar para a política. Kriegman e Steinberg registram a vida esparsa, as mentiras e o instinto de lutador de Weiner com um mesmo distanciamento cuidadoso, criando um estranho anti-herói com um ponto válido a fazer, mas a reputação errada para fazê-lo. No caminho, os diretores revelam a complexidade da vida pública, do sistema de governo, e de nossa relação com a imprensa quando decidindo posições políticas.

O apelo carismático do personagem no centro do documentário, assim como o quanto desse apelo é fachada, ficam claros ao final de Weiner, que acaba também testemunhando o começo da ruína de um casamento e a provação pública de uma mulher humilhada pelos segredos do marido, mas nada disposta a se deixar abater por eles. Ao invadir o espaço particular de Weiner e sua família, o documentário por vezes se parece com uma sátira sombria das ações da imprensa que acompanhou o ex-congressista em sua nova campanha, mas o desastre todo é tão envolvente que é impossível de desgrudar os olhos da tela. Talvez porque Weiner represente um símbolo tão perfeito do lugar que estamos, como civilização, na “marketização” da política, sua história é infinitamente fascinante, e inexplicavelmente essencial.

✰✰✰✰✰ (5/5)

roger

Get Me Roger Stone (EUA, 2017)
Direção: Dylan Bank, Daniel DiMauro, Morgan Pehme
92 minutos

Get Me Roger Stone é um filme cruel. Isso porque, assim como seu protagonista, o filme embrulha uma profundamente pessimista mensagem sobre o mundo e a humanidade em um pacote vagamente sensacionalista de personalidade ultrajante. O Roger Stone do título é um operativo político cuja carreira em Washington data dos anos 70, quando foi um ator para lá de coadjuvante no escândalo Watergate, que derrubou Richard Nixon. Desde então, Stone se tornou lobista, fazendo milhões ao defender interesses de ditadores sanguinários junto a congressistas americanos, e mais recentemente participou da campanha de Donald Trump para a presidência dos EUA. Os codiretores Dylan Bank, Daniel DiMauro e Morgan Pehme são fascinados por essa figura do vale-tudo político e pelo que ela representa, mais estão ainda mais interessados em entender o que ele realmente sente sobre o país que desempenhou papel fundamental para criar. Uma mistura de desdém, interesses egocêntricos e a amarga realização de que ele estava certo desde o começo é o que se vê no homem para além da figura quase cartunesca que ele cria para se defender dos críticos e realizar seus estratagemas políticos.

A ideologia cínica da política-por-lucro de Stone, suas ataques sujos aos adversários, sua visão imperdoável dos instintos mais básicos da natureza humana e do quanto eles dirigem as atitudes daqueles a sua volta – tudo isso entra em perspectiva com a vitória de Trump, e o clima político que se vive no mundo ocidental hoje em dia, ao mesmo tempo cria direta e vitória ideológica de Stone. Fazendo uma análise minuciosa da história que nos trouxe até aqui através da biografia de seu protagonista, Get Me Roger Stone é um frio e sombriamente bem-humorado feito de cinema documental que não nos deixa, ou ao próprio Stone, escaparmos de uma verdade inconveniente: a tragédia do cínico é sempre, invariavelmente, que ele está certo.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

ns

Nobody Speak: Trials of the Free Press (Holanda/EUA, 2017)
Direção: Brian Knappenberger
95 minutos

O diretor Brian Knappenberger pode ser visto como um documentarista um pouco argumentativo demais por vezes. Sua tendência de fazer da câmera um palanque, ainda mais sem todo o senso de entretenimento de um Michael Moore, compromete um pouco a importância de Nobody Speak: Trials of the Free Press, mas a força das histórias que ele conta em muitos momentos fala por si mesma. Em uma combinação raramente criativa de entrevistas e imagens de arquivo, o filme reconta o julgamento do site de fofocas Gawker pela publicação de uma sex tape do lutador profissional Hulk Hogan, e usa o caso de trampolim para observar como milionários estão tentando impor censuras à imprensa nos EUA e no mundo. O filme tem a coragem de mostrar o Gawker, desprezado por muitos como “lixo jornalístico”, pelo que ele era: um espaço onde era permitido jogar sujo com os ricos, famosos e privilegiados, e um site que, por toda sua fama de fútil, ainda revelou o hábito de drogas de um prefeito em exercício e denunciou atos de machismo e hipocrisia do conglomerado tecnológico Vale do Silício. Era a imprensa livre em suas consequências mais incômodas, mais ambíguas, mais provocativas e mais absolutamente fundamentais para sobrevivência da democracia como a conhecemos.

Seguindo o exemplo do site, Knappenberger desenterra evidências e ligações das quais um diretor com menos vontade de enfrentar o estabelecimento social talvez não dispusesse. Essa é a maior importância de Nobody Speak – seu status como representante da mesma liberdade de expressão que aos poucos é cerceada pelos mesmos setores da sociedade que colam o rótulo de “censura” no politicamente correto contemporâneo. Como desafio ideológico, portanto, o filme triunfa em passar sua mensagem, ainda que como obra cinematográfica lhe falte talvez a legitimidade de discurso que um trabalho mais equilibrado e focado em insights “merecidos” poderia trazer.

✰✰✰✰ (4/5)

sam

Um Cadáver Para Sobreviver (Swiss Army Man, EUA/Suécia, 2016)
Direção e roteiro: Daniel Kwan, Daniel Scheinert
Elenco: Daniel Radcliffe, Paul Dano, Mary Elizabeth Winstead, Richard Gross
97 minutos

É um chavão barato da crítica cinematográfica dizer que “você nunca viu um filme como esse antes” – o que é uma pena, porque às vezes, só às vezes, ele é verdade. Swiss Army Man, traduzido pobremente como Um Cadáver Para Sobreviver no Brasil, é um desses filmes. O que há de único nele? Nas mãos dos diretores e roteiristas Daniel Kwan e Daniel Scheinert, é a sua estranhamente comovente celebração da verdadeira diferença, livre dos constrangimentos da sociedade, e seu reconhecimento da artificialidade do mundo civilizado que construímos para nós mesmos. A trama mostra o náufrago interpretado por Paul Dano encontrando um cadáver, interpretado por Daniel Radcliffe, e usando suas surpreendentes “habilidades especiais” para tentar retornar ao mundo que deixou para trás. Piadas baratas não estão abaixo dos roteiristas, mas a dupla de atores não só vende os momentos mais pueris de Swiss Army Man como segue a deixa do roteiro e encontra uma complicada ressonância emocional neles. Não dá para dizer que é a obra-prima mais sofisticada dos últimos anos, mas você definitivamente nunca viu um filme exatamente assim.

O forte de Radcliffe como ator nesses anos pós-Harry Potter tem sido a fisicalidade, e aqui ele tem material farto para brincar com as caretas desconjuntadas de seu cadáver e as posições desconfortáveis em que o corpo é deixado. Dano, por sua vez, encontra uma sutil compreensão emocional de seu personagem e da jornada construída para ele durante os enganosamente densos 97 minutos de filme. Com um design de produção explosivamente criativo e a determinação de surpreender o espectador até onde a trama lhe permitir, Swiss Army Man é uma curiosa peça de cinema que merece ser experimentada – mesmo que você vá odiá-la.

✰✰✰✰ (4/5)

    

audrie

Audrie & Daisy (EUA, 2016)
Direção: Bonni Cohen, Jon Shenk
95 minutos

Não dá para escapar do sentimento que Audrie & Daisy renderia um documentário muito mais poderoso na mão de diretores mais organizados e sensíveis do que Bonni Cohen e Jon Shenk. A intenção é absolutamente nobre: o filme conta a história de duas entre muitas garotas que, ainda adolescentes, foram abusadas sexualmente. Uma delas não faz denúncia e, pressionada pelos colegas de escola que compartilhavam vídeos do ocorrido, acaba tirando a própria vida. Outra vai às autoridades, mas sua cidade prefere ficar ao lado dos astros do futebol americano que ela acusa, e a pressão quase a leva para o mesmo caminho. O filme, em suma, é um testemunho denso e necessário do processo de humilhação pública que muitas vítimas de abuso sexual passam mesmo após decidirem fazer a denúncia e identificarem os culpados, e dos caminhos que elas encontram para a sobreviver e tomar de volta uma agência sobre seus próprios destinos que foi tirada não só pelos criminosos, como por aqueles que os apoiaram. A dupla de diretores ouve e recria com sensibilidade o testemunho dessas garotas, mas não encontra meios para nos dar a dimensão exata, ou o sentimento aproximado, do que é ter uma história de violência como essa negada ou defendida por aqueles da comunidade a sua volta que deveriam te proteger.

Com meros 95 minutos, o filme não tem a força de um The Killing Ground, por exemplo, que lida com temas semelhantes. O apelo emocional está aqui por conta das histórias que o filme escolhe contar, mas o contexto da cultura em que elas nasceram, tão essencial para entender como elas foram e continuam sendo possíveis, não aparece com clareza e detalhismo suficientes. Para um filme cuja missão mais fundamental é denunciar a cultura do estupro, Audrie & Daisy mergulha muito pouco nos seus significados e ramificações contemporâneos – o que é uma pena, visto o enorme poder do cinema documental de elevar casos e problemas sociais na discussão popular.

✰✰✰✰ (4/5)

wwdits

O Que Fazemos nas Sombras (What We Do in the Shadows, Nova Zelândia/EUA, 2014)
Direção e roteiro: Jemaine Clement, Taika Waititi
Elenco: Jemaine Clement, Taika Waititi, Jonny Brugh, Cori Gonzalez-Macuer, Stu Rutherford, Ben Fransham, Jackie van Beek
86 minutos

A premissa mais interessante da comédia O Que Fazemos nas Sombras é que vampiros não são mais cool. Os galanteadores medievais viraram ídolos adolescentes radiantes (literalmente), e agora sua lenda foi exposta pela fragilidade trágica que sempre teve. No hilário filme de Jemaine Clement e Taika Waititi, os vampiros são os excluídos, seus costumes anacrônicos rejeitados pela sociedade conectada ao redor deles, e essa banalização de suas figuras abre caminho para uma série de piadas que (quase) ninguém ousou fazer antes. Nesse falso documentário, acompanhamos quatro vampiros que vivem juntos em uma casa – ao receberem um quinto membro na família, eles se veem confrontados com o mundo do qual tão frequentemente se escondem. Sobra espaço para sátira social no roteiro, mas Waititi e Clement sabem o valor de uma piada boba no momento certo, especialmente aquelas que conectam aos usos dos poderes vampirescos nos momentos mais banais, de brigas entre amigos àquele momento muito identificável em que você só deseja que a pessoa com quem você está conversando pare de falar.

Em ritmo alucinante, os dois diretores constroem personagens curiosos e bem definidos, interpretados por eles mesmos ao lado de um grupo de atores mantidos na ponta dos pés pela natureza imprevisível do filme em que se encontram. Tirando sarro dos estereótipos em que esses personagens se encaixam, e aproveitando para introduzir um subtexto queer muito óbvio que sempre foi intrínseco às histórias de vampiro, O Que Fazemos nas Sombras mostra que a forma mais fácil de fazer qualquer tema se tornar engraçado é explorar as reentrâncias mais humanas de sua mitologia. Raramente vampiros foram tão envolventes quanto aqui.

✰✰✰✰ (4/5)

truth

Conspiração e Poder (Truth, Austrália/EUA, 2015)
Direção: James Vanderbilt
Roteiro: James Vanderbilt, baseado no livro de Mary Mapes
Elenco: Cate Blanchett, Robert Redford, Topher Grace, Dennis Quaid, Elizabeth Moss, Bruce Greenwood, Stacy Keach, John Benjamin Hickey, Dermot Mulroney
125 minutos

O caso de Mary Mapes e Dan Rather, produtora e âncora do programa 60 Minutes durante a crise envolvendo uma reportagem sobre o serviço militar do presidente George W. Bush no ano de 2004, é um dos mais famosos da mitologia jornalística contemporânea. Após a estreia do programa, que questionava se Bush havia cumprido mesmo suas obrigações militares, evidências começaram a surgir que os documentos conseguidos pelos repórteres, dados por um ex-tenente do exército, eram falsos. Mapes e Rather deixaram a emissora, e foram investigados por uma comissão independente que, se você acreditar no retrato visto no filme Conspiração e Poder, estava predisposta a condená-los mesmo que sua conduta jornalística não tenha sido teoricamente equivocada. O filme, é claro, é baseado no livro da própria Mapes contando o acontecido, e talvez more só na atuação de Cate Blanchett a noção de que esse é um debate mais profundo do que aquele apresentado pelo roteiro de James Vanderbilt. Pelos olhos de Blanchett, que está excepcional como de costume, podemos ver uma Mapes inteligente e determinada, mas entendemos também de onde vem a noção de que ela pode ter se aproximado desse tema com menos cautela por conta de suas posições políticas e personalidade.

Dirigido de forma um tanto burocrática pelo próprio Vanderbilt e com uma série de atores coadjuvantes que por vezes parecem desperdiçados em seus papeis (Dennis Quaid está especialmente competente), o filme serve como documento histórico de um caso que encarna um dilema do jornalismo político que não surgiu com os tempos contemporâneos, mas que certamente está mais proeminente neles: como encontrar um equilíbrio na busca pela verdade? E o quanto as nossas posições particulares, como indivíduos, podem e devem ser removidas do nosso trabalho como repórteres? O filme advoga por uma resposta muito simples para uma questão tão complexa, mas ainda merece ser visto – mesmo que seja só para ver a melhor atriz em atividade em tela.

✰✰✰✰ (3,5/5)

experimenter

Experimentos (Experimenter, EUA, 2015)
Direção e roteiro: Michael Almereyda
Elenco: Peter Sarsgaard, Winona Ryder, Jim Gaffigan, John Leguizamo, Anton Yelchin, Kellan Lutz, Dennis Haysbert
98 minutos

Peter Sarsgaard é um dos grandes atores americanos da atualidade, e uma parcela ínfima da crítica, que dirá do público, lhe dá o devido crédito. Em Experimentos, ele é o psicólogo Stanley Milgram, que famosamente conduziu uma série de testes comportamentais em voluntários que mostravam o quanto nós, como seres humanos, estávamos dispostos a obedecer ordens de terceiros mesmo quando o resultado delas parecia cruel. Nas mãos de Sarsgaard, Milgram é um homem quietamente, placidamente apaixonado e fascinado pelo seu próprio trabalho, e mais tarde frustrado pela recepção dele e as críticas que recebe. O filme de Michael Almereyda usa o tempo todo recursos narrativos peculiares, entre eles fazer o próprio Milgram “quebrar a quarta parede” e conversar conosco, o espectador – é nessas cenas que Sarsgaard mostra que o filme não funcionaria com outro ator na pele do protagonista, medindo com cuidado o ritmo dessa narração e a relação de olhares e linguagens corporais que cria com o espectador. Ele, e em uma escala menor sua companheira de cena, Winona Ryder, equilibram a artificialidade proposital da encenação e da direção de arte com retratos profundamente humanos, mesmo que terrivelmente excêntricos, desses personagens reais.

Sobre essa tal artificialidade: o filme usa cenários reduzidos a pinturas de fundo e uns poucos móveis, ou desconstrói o espaço percorrido pelos personagens, criando intrincados diálogos que passeiam pela percepção do espectador atento de forma confiante. É um filme que nunca se cansa de surpreender e recompensar um olhar afiado com pequenos detalhes subversivos, que se entrelaçam espertamente com a trama e a percepção de mundo de Milgram, um homem acostumado a despir a condição humana a seus traços mais básicos, instintivos e deterministas. O diretor e roteirista Almereyda fez um filme único que faz jus ao homem único que representa, e uma brincadeira artística que ele, certamente, apreciaria.

✰✰✰✰✰ (5/5)

5 de jul. de 2017

Mais Mulher-Gato, menos Michael Bay: Hollywood precisa de gente com a coragem de fazer filmes ruins

ed woodEdward D. Wood Jr, o rei dos filmes ruins

por Caio Coletti

Durante a infância, eu lembro de me sentar no sofá da sala e ligar a TV em qualquer programa do tipo Sessão da Tarde que estivesse no ar. Não só essas lembranças são os momentos formativos da minha paixão pelo cinema, como são os momentos formativos da minha paixão pelo cinema ruim. Eu assistia Power Rangers: O Filme (1995), ou A Incrível Jornada (1993), ou Pequenos Guerreiros (1998), ou A Chave Mágica (1995), ou A História Sem Fim (1984), ou Guerreiros da Virtude (1997), ou qualquer um dos dois filmes do Batman dirigidos por Joel Schumacher (1995, 1997). Na pré-adolescência, vi Resident Evil (2002), Mulher-Gato (2004), Adrenalina (2006) e Anjos da Noite (2003). Conforme fui mergulhando mais fundo no cinema, me “graduei” para os clássicos de Ed Wood, John Waters, Sam Raimi e Peter Jackson, e para trashs como O Monstro do Armário (1986).

Eu amo cinema. Amo cinema cult, cinema francês, cinema documental, Cinema Novo, cinema experimental e, porque não, cinema ruim. Ou melhor, uma certa estirpe de cinema ruim – nessa estirpe a que me refiro moram os trabalhos de cineastas que buscam incessantemente realizar suas próprias visões, e em grande parte conseguem. O problema é que tais visões são absolutamente equivocadas: bregas, de mau gosto, nauseantes, amadoras, ou simplesmente desconectadas com a demanda do público na época em que foram lançadas. Dentro desses filmes ruins, mora arte, e mora a noção de que nem toda arte é para o gosto de todo mundo (algumas, inclusive, não são para o gosto de ninguém).

Eu sinto falta desse tipo de filme ruim no cinemão hollywoodiano hoje em dia. O filme ruim do estúdio americano atualmente é um filme ruim muito chato – é a bolha espúria de efeitos visuais vazios e narrativas machonas da franquia Transformers e de tudo o mais em que Michael Bay coloca o dedo. O diretor, inclusive, é talvez o grande responsável pela morte do cinema ruim como eu o conheci na infância e pré-adolescência, fazendo nascer uma padronização hollywoodiana que escapou aos anos 80 e 90, talvez influenciados pela matilha de cineastas rebeldes dos 70, que fizeram filmes muito mais conceituados mas não deixaram de ter um impacto na “cultura baixa”, por assim dizer.

O meu tipo de filme ruim sobreviveu ao começo dos anos 2000 com pequenas obras que quebraram o teto de vidro de Hollywood (e alguns arrasa quarteirões anômalos no meio do caminho), mas morreu com a “gourmetização” do cinema independente com selo de qualidade Sundance. Não desprezo o cenário indie como ele existe hoje, mesmo porque é dele que algumas das grandes obras-primas dos últimos anos saíram, mas é preciso ter a consciência de que ele está se tornando um “clubinho” tão exclusivo e acadêmico quanto o sistema de estúdios do qual supostamente surge como alternativa.

Sem espaço para respirar nesse ambiente, o meu tipo de filme ruim morreu. Até os “mestres” cujas obras eu me sentava para assistir no passado foram assimilados por uma Hollywood de padrões rígidos ou simplesmente se aposentaram. Basta dar uma procurada:

  • Joel Schumacher (Batman Eternamente, Batman & Robin) não dirige desde 2011, quando lançou Reféns, com Nicole Kidman e Nicolas Cage. Aos 77 anos, é improvável que volte da aposentadoria.
  • Frank Oz (A Chave Mágica) parou em 2007, quando saiu a comédia de humor negro Morte no Funeral. Aos 73 anos, está mais do que contente em apenas emprestar a voz ao Mestre Yoda, de Star Wars.
  • Joe Dante (Pequenos Guerreiros) trabalha regularmente na TV, mas seu último filme foi Enterrando Minha Ex, de 2014. Rumores de uma continuação de Gremlins circulam por aí.
  • John Waters (Pink Flamingos, Cry-Baby) não dirige desde Clube dos Pervertidos, de 2004. 71 anos de idade.
  • Wolfgang Petersen (A História Sem Fim) não dá sinal de vida desde que lançou Poseidon em 2006. 76 anos de idade.
  • Peter Jackson (Trash) e Sam Raimi (Uma Noite Alucinante) foram absorvidos pela máquina hollywoodiana, com resultados variáveis.

Sobre a safra de diretores que fez filmes corajosamente ruins já nos anos 2000, o destino foi ainda mais cruel com eles: a maioria foi rejeitada por Hollywood, e poucos dirigiram novamente. Treze anos depois de seu lançamento, eu preferia sofrer por outro filme assinado pelo francês Pitof, cuja câmera alucinante fez de Mulher-Gato uma espetacularmente horrenda aventura cinematográfica, do que pelas cores mudas e aguda falta de criatividade de um A Lenda de Tarzan ou um A Múmia, só para citar os exemplos mais recentes. Me dê uma escolha entre um filme medíocre por seu medo do diferente e um filme ruim pelos riscos que corre e eu vou, sempre, escolher esse último. Arte não precisa ser sempre boa – só precisa ser sempre, irrevogavelmente, arte.

tumblr_mkyrahHW8b1qd8s62o1_500Jim Carrey em Batman Eternamente