O misterioso caso do assassinato de JonBenét Ramsey tem fascinado o público americano e mundial há mais de 20 anos. Uma breve contextualização: Ramsey era uma garota de apenas 6 anos, conhecida no circuito de concursos de beleza para crianças dos EUA, que foi encontrada morta em 1996 em sua própria casa, em um caso nunca solucionado. Teorias incluem a possibilidade de que os pais, Patsey e John, estivessem envolvidos, ou de que o irmão, Burke, a teria matado acidentalmente e os pais estavam encobrindo as evidências, e levantam também a possibilidade assustadora da existência de um círculo de prostituição infantil em Boulder, Colorado (EUA), onde a menina vivia com a família.
O documentário Quem é JonBenet, da diretora Kitty Green, explora todas essas possibilidades, ao mesmo tempo em que se estrutura de forma única para o gênero. Ao invés de trazer entrevistas com pessoas de fato envolvidas no caso, a diretora colocou uma chamada de elenco para um filme sobre JonBenet no jornal local, e entrevistou e reencenou momentos chaves do caso com aqueles que responderam. O resultado é uma análise profunda de temas como memória, preconceito, escolhas narrativas e a influência da mídia na nossa percepção de mundo, mas é também um testemunho de força inexplicável sobre a maior e mais delicada das qualidades humanas: a empatia.
Conforme conduz as entrevistas e encenações, Green escolhe se embrenhar não só na vida da família Ramsay como ela é contada por atores amadores e profissionais de Boulder, como também nas questões de foro pessoal que levam cada um deles a fazer certas escolhas em suas atuações. Incansável, a documentarista coloca uma lente de aumento sobre os pontos de contato das histórias desses indivíduos em frente a suas câmeras e a história da família imperfeita e incógnita que está no centro desse caso. Quem é JonBenet entende a imperfeição e a peculiaridade da condição humana que dá combustível para a fascinação em torno da morte de JonBenet, e prefere sublinhar essa fascinação do que buscar respostas inéditas ou insights baratos.
Planejado e executado à perfeição, o experimento cinematográfico de Green exige habilidade que sobra à diretora, tanto para editar a vastidão de material que com certeza conseguiu em suas entrevistas quanto para escolher os detalhes minuciosamente destacados pela fotografia. Assistida pelo editor Davis Coombe e pelo diretor de fotografia Michael Latham, Green encontra seu ponto de equilíbrio com facilidade, comandando uma progressão confiante de emoções entrelaçadas que atingem um clímax impecável. Atenção especial para o ator Dixon White, que faz teste para viver John Mark Karr, um pedófilo que confessou (falsamente) ter matado JonBenét. White mergulha na psique perturbada e nos motivos obscuros de Karr com uma vontade e fascinação que o fazem uma força da natureza – e um parceiro criativo perfeito para Green. Em meio a uma sinfonia cinematográfica de engenhosidade inegável, é um dueto de ator e diretor delicioso de se assistir.
✰✰✰✰✰ (5/5)
Quem é JonBenet (Casting JonBenet, EUA/Austrália/China, 2017) Direção e roteiro: Kitty Green 80 minutos
Nem todos os filmes merecem (ou pedem) uma análise complexa como a que fazemos com alguns dos lançamentos mais “quentes” ou filmes que descobrimos e nos surpreendem positivamente. É levando em consideração a função da crítica e da resenha como uma orientação do público em relação ao que vai ser visto em determinado filme que eu resolvi criar essa coluna, que visa falar brevemente dos filmes que não ganharam review completo no site. Vamos lá:
Okja (Coreia do Sul/EUA, 2017) Direção: Joon-ho Bong Roteiro: Joon-ho Bong, Jon Ronson Elenco: Seo-Hyun Ahn, Tilda Swinton, Jake Gyllenhaal, Giancarlo Esposito, Steven Yeun, Paul Dano, Lily Collins 120 minutos
A tomada final de Okja é um dos maiores triunfos de estrutura fotográfica do cinema contemporâneo. Ao mesmo tempo, ela vem de uma tradição centenária do cinema oriental – estudantes da filmografia japonesa vão identificar com facilidade a homenagem ao mestre Yasujiro Ozu, mas não é preciso ser um intelectual para entender o brilhantismo do coreano Joon-ho Bong, um dos maiores talentos de sua geração. Seu faro perfeito para a criação de mundos e personagens únicos brilhou anteriormente em O Hospedeiro e Expresso do Amanhã, entre suas outras obras, e em Okja ele está especialmente afiado. Colorido por performances devidamente exageradas de Jake Gyllenhaal, Paul Dano e da genial Tilda Swinton, cujo estilo de atuação sempre cai como uma luva na sensibilidade do diretor, o filme é um equilíbrio prodigioso de tons e gêneros, uma experiência de encenação elaborada, e uma história genuinamente tocante. A habilidade de casar tudo isso em um todo coerente, lançando mão tanto de técnicas clássicas quanto de inovações, é o que faz um grande cineasta contemporâneo como Bong parecer mais vital a cada obra acertada.
Okja é a história de um animal artificialmente criado por uma corporação da indústria alimentícia, que após dez anos sendo criado com carinho por um avô e sua neta, precisa viajar para os EUA a fim de reproduzir-se e acabar confortavelmente na mesa de jantar de alguma família de comercial de margarina. Bong, também coautor do roteiro, não esteriliza o processo, suas crueldades e suas hipocrisias, mas empresta ao filme a ambiguidade humana necessária para entender o sistema maior em que esse processo está inserido. É um filme corajosamente criativo, mas talvez ainda mais bravamente realista – e um testemunho e tanto do talento de seu diretor.
✰✰✰✰ (4/5)
Holy Hell (EUA, 2016) Direção: Will Allen 100 minutos
Há um valor inestimável intrínseco ao material apresentado em Holy Hell, documentário do diretor Will Allen sobre os 22 anos que ele mesmo passou dentro de um culto liderado por um ex-ator pornográfico americano. Sim, você leu certo. O Buddhafield começou como uma espécie de “acampamento” espiritual, mas ao longo das décadas se tornou a própria definição do culto de personalidade nos séculos XX e XXI. Como cineasta-residente do grupo, Allen tem material farto para contar sua história, e como sobrevivente ele tem uma conexão pessoal inexorável com ela, assim como contato a outros que passaram pela mesma experiência. O resultado é uma narrativa minuciosa e compreensiva, tremendamente bem ilustrada, editada e refletida pelas entrevistas dos ex-membros do culto. Por vezes ligeiramente polido demais, e com poucos insights formais, Holy Hell supera suas (poucas) deficiências como cinema através de suas (muitas) virtudes como documento histórico, e seu absurdo poder de fascinação. É um exercício de empatia em muitos sentidos entender a forma como as pessoas que vemos em frente às câmeras puderam passar duas décadas sob o feitiço de um psico-hipnotista e seu discurso pseudo-religioso. Allen nos conduz em direção a essa empatia com a mão segura que só poderia vir de alguém que também a pede do espectador ao contar sua própria história.
Em sua abundância de material, Holy Hell serve também como uma janela para a cultura da época que produziu o Buddhafield e tantos casos semelhantes, ao mesmo tempo em que frisa as características perenes da condição humana que tornaram eles possíveis. Da euforia do início nos anos 80 ao apego na década seguinte a conceitos que rapidamente se tornavam ultrapassados no zeitgeist contemporâneo, o que levou a uma posição radicalmente isolacionista nos anos 2000, a história do Buddhafield atravessando os anos é também a história da civilização ocidental nesse período de tempo. Pelo testemunho de sobrevivência, pelos insights humanos de suas testemunhas ou por esse valor histórico, Holy Hell merece ser assistido.
É impossível não desejar que Tickled, o documentário, tivesse sido feito por outra pessoa. David Farrier e Dylan Reeve merecem os louros de terem perseguido a história mais improvável do ano passado, mas seus instintos de repórteres não são os mesmos que um documentarista de verdade teria inserido no filme. A linguagem jornalística de Tickled é seu calcanhar de Aquiles, mas a força da história que Farrier e Reeve descobrem o faz também inescapavelmente fascinante e envolvente. Tudo começa quando Farrier, jornalista de matérias “curiosas” na Nova Zelândia, encontra na internet vídeos de jovens rapazes enfrentando maratonas de cócegas – e a companhia que banca esses vídeos jura que é um esporte legítimo. A partir daí, dizer mais seria estragar a jornada: Tickled se torna uma por vezes curiosa, por vezes revoltante jornada pelos cantos mais escuros do corporativismo e do privilégio capitalista nos EUA, além de uma reflexão engajada sobre a facilidade de destruir a vida e a reputação de uma pessoa na era da internet (isto é, quando ela não tem dinheiro o bastante para contra-atacar). É ao mesmo tempo a velha história de Davi versus Golias do mundo industrial, e uma nova e aterrorizante faceta dela – ao traçar o início de sua história junto ao início da internet, Farrier mostra instintos de pesquisa perfeitos e contextualiza a história com inteligência.
O filme escolhe acompanhá-lo durante a investigação, como se uma equipe de filmagens entrasse nos momentos íntimos em que os caminhos de uma história jornalística se desenvolve. Não sobram insights sobre esse processo, visto que o foco da câmera está constantemente nas barreiras e reviravoltas que os dois jornalistas encontram, e não na forma como as superam. Em suma, talvez o formato pareça mais uma necessidade do que uma escolha criativa – e nesse caminho Tickled se torna um documentário pouco notável tanto quanto é uma história, de sua própria forma, essencial. Paradoxal, talvez. Como o filme mostra, muitas coisas no mundo contemporâneo são.
Ao contrário dos outros documentários que dominam o nosso diário do mês de julho, Weiner não é diretamente argumentativo ou investigativo. Os diretores Josh Kriegman e Elyse Steinberg preferem outra abordagem clássica do gênero: o estilo “mosca-na-parede”, que coloca a câmera como mera observadora, e os cineastas como agentes raramente intrusivos na situação real que registram. Nesse modo, o cinema documental funciona como crônica, revelando a visão única de seus autores de forma mais sutil – na forma como estrutura a narrativa através da edição, ou nos detalhes que decidem ou não filmar. A crônica aqui é da campanha de Anthony Weiner para prefeito de Nova York em 2013/2014, e os subsequentes escândalos que revelaram que o ex-congressista democrata traía a esposa com várias mulheres através da internet. Weiner havia passado por acusações semelhantes anos antes, e foi obrigado a renunciar do cargo no Congresso, mas achou que estava na hora de voltar para a política. Kriegman e Steinberg registram a vida esparsa, as mentiras e o instinto de lutador de Weiner com um mesmo distanciamento cuidadoso, criando um estranho anti-herói com um ponto válido a fazer, mas a reputação errada para fazê-lo. No caminho, os diretores revelam a complexidade da vida pública, do sistema de governo, e de nossa relação com a imprensa quando decidindo posições políticas.
O apelo carismático do personagem no centro do documentário, assim como o quanto desse apelo é fachada, ficam claros ao final de Weiner, que acaba também testemunhando o começo da ruína de um casamento e a provação pública de uma mulher humilhada pelos segredos do marido, mas nada disposta a se deixar abater por eles. Ao invadir o espaço particular de Weiner e sua família, o documentário por vezes se parece com uma sátira sombria das ações da imprensa que acompanhou o ex-congressista em sua nova campanha, mas o desastre todo é tão envolvente que é impossível de desgrudar os olhos da tela. Talvez porque Weiner represente um símbolo tão perfeito do lugar que estamos, como civilização, na “marketização” da política, sua história é infinitamente fascinante, e inexplicavelmente essencial.
✰✰✰✰✰ (5/5)
Get Me Roger Stone (EUA, 2017) Direção: Dylan Bank, Daniel DiMauro, Morgan Pehme 92 minutos
Get Me Roger Stone é um filme cruel. Isso porque, assim como seu protagonista, o filme embrulha uma profundamente pessimista mensagem sobre o mundo e a humanidade em um pacote vagamente sensacionalista de personalidade ultrajante. O Roger Stone do título é um operativo político cuja carreira em Washington data dos anos 70, quando foi um ator para lá de coadjuvante no escândalo Watergate, que derrubou Richard Nixon. Desde então, Stone se tornou lobista, fazendo milhões ao defender interesses de ditadores sanguinários junto a congressistas americanos, e mais recentemente participou da campanha de Donald Trump para a presidência dos EUA. Os codiretores Dylan Bank, Daniel DiMauro e Morgan Pehme são fascinados por essa figura do vale-tudo político e pelo que ela representa, mais estão ainda mais interessados em entender o que ele realmente sente sobre o país que desempenhou papel fundamental para criar. Uma mistura de desdém, interesses egocêntricos e a amarga realização de que ele estava certo desde o começo é o que se vê no homem para além da figura quase cartunesca que ele cria para se defender dos críticos e realizar seus estratagemas políticos.
A ideologia cínica da política-por-lucro de Stone, suas ataques sujos aos adversários, sua visão imperdoável dos instintos mais básicos da natureza humana e do quanto eles dirigem as atitudes daqueles a sua volta – tudo isso entra em perspectiva com a vitória de Trump, e o clima político que se vive no mundo ocidental hoje em dia, ao mesmo tempo cria direta e vitória ideológica de Stone. Fazendo uma análise minuciosa da história que nos trouxe até aqui através da biografia de seu protagonista, Get Me Roger Stone é um frio e sombriamente bem-humorado feito de cinema documental que não nos deixa, ou ao próprio Stone, escaparmos de uma verdade inconveniente: a tragédia do cínico é sempre, invariavelmente, que ele está certo.
✰✰✰✰✰ (4,5/5)
Nobody Speak: Trials of the Free Press (Holanda/EUA, 2017) Direção: Brian Knappenberger 95 minutos
O diretor Brian Knappenberger pode ser visto como um documentarista um pouco argumentativo demais por vezes. Sua tendência de fazer da câmera um palanque, ainda mais sem todo o senso de entretenimento de um Michael Moore, compromete um pouco a importância de Nobody Speak: Trials of the Free Press, mas a força das histórias que ele conta em muitos momentos fala por si mesma. Em uma combinação raramente criativa de entrevistas e imagens de arquivo, o filme reconta o julgamento do site de fofocas Gawker pela publicação de uma sex tape do lutador profissional Hulk Hogan, e usa o caso de trampolim para observar como milionários estão tentando impor censuras à imprensa nos EUA e no mundo. O filme tem a coragem de mostrar o Gawker, desprezado por muitos como “lixo jornalístico”, pelo que ele era: um espaço onde era permitido jogar sujo com os ricos, famosos e privilegiados, e um site que, por toda sua fama de fútil, ainda revelou o hábito de drogas de um prefeito em exercício e denunciou atos de machismo e hipocrisia do conglomerado tecnológico Vale do Silício. Era a imprensa livre em suas consequências mais incômodas, mais ambíguas, mais provocativas e mais absolutamente fundamentais para sobrevivência da democracia como a conhecemos.
Seguindo o exemplo do site, Knappenberger desenterra evidências e ligações das quais um diretor com menos vontade de enfrentar o estabelecimento social talvez não dispusesse. Essa é a maior importância de Nobody Speak – seu status como representante da mesma liberdade de expressão que aos poucos é cerceada pelos mesmos setores da sociedade que colam o rótulo de “censura” no politicamente correto contemporâneo. Como desafio ideológico, portanto, o filme triunfa em passar sua mensagem, ainda que como obra cinematográfica lhe falte talvez a legitimidade de discurso que um trabalho mais equilibrado e focado em insights “merecidos” poderia trazer.
✰✰✰✰ (4/5)
Um Cadáver Para Sobreviver (Swiss Army Man, EUA/Suécia, 2016) Direção e roteiro: Daniel Kwan, Daniel Scheinert Elenco: Daniel Radcliffe, Paul Dano, Mary Elizabeth Winstead, Richard Gross 97 minutos
É um chavão barato da crítica cinematográfica dizer que “você nunca viu um filme como esse antes” – o que é uma pena, porque às vezes, só às vezes, ele é verdade. Swiss Army Man, traduzido pobremente como Um Cadáver Para Sobreviver no Brasil, é um desses filmes. O que há de único nele? Nas mãos dos diretores e roteiristas Daniel Kwan e Daniel Scheinert, é a sua estranhamente comovente celebração da verdadeira diferença, livre dos constrangimentos da sociedade, e seu reconhecimento da artificialidade do mundo civilizado que construímos para nós mesmos. A trama mostra o náufrago interpretado por Paul Dano encontrando um cadáver, interpretado por Daniel Radcliffe, e usando suas surpreendentes “habilidades especiais” para tentar retornar ao mundo que deixou para trás. Piadas baratas não estão abaixo dos roteiristas, mas a dupla de atores não só vende os momentos mais pueris de Swiss Army Man como segue a deixa do roteiro e encontra uma complicada ressonância emocional neles. Não dá para dizer que é a obra-prima mais sofisticada dos últimos anos, mas você definitivamente nunca viu um filme exatamente assim.
O forte de Radcliffe como ator nesses anos pós-Harry Potter tem sido a fisicalidade, e aqui ele tem material farto para brincar com as caretas desconjuntadas de seu cadáver e as posições desconfortáveis em que o corpo é deixado. Dano, por sua vez, encontra uma sutil compreensão emocional de seu personagem e da jornada construída para ele durante os enganosamente densos 97 minutos de filme. Com um design de produção explosivamente criativo e a determinação de surpreender o espectador até onde a trama lhe permitir, Swiss Army Man é uma curiosa peça de cinema que merece ser experimentada – mesmo que você vá odiá-la.
Não dá para escapar do sentimento que Audrie & Daisy renderia um documentário muito mais poderoso na mão de diretores mais organizados e sensíveis do que Bonni Cohen e Jon Shenk. A intenção é absolutamente nobre: o filme conta a história de duas entre muitas garotas que, ainda adolescentes, foram abusadas sexualmente. Uma delas não faz denúncia e, pressionada pelos colegas de escola que compartilhavam vídeos do ocorrido, acaba tirando a própria vida. Outra vai às autoridades, mas sua cidade prefere ficar ao lado dos astros do futebol americano que ela acusa, e a pressão quase a leva para o mesmo caminho. O filme, em suma, é um testemunho denso e necessário do processo de humilhação pública que muitas vítimas de abuso sexual passam mesmo após decidirem fazer a denúncia e identificarem os culpados, e dos caminhos que elas encontram para a sobreviver e tomar de volta uma agência sobre seus próprios destinos que foi tirada não só pelos criminosos, como por aqueles que os apoiaram. A dupla de diretores ouve e recria com sensibilidade o testemunho dessas garotas, mas não encontra meios para nos dar a dimensão exata, ou o sentimento aproximado, do que é ter uma história de violência como essa negada ou defendida por aqueles da comunidade a sua volta que deveriam te proteger.
Com meros 95 minutos, o filme não tem a força de um The Killing Ground, por exemplo, que lida com temas semelhantes. O apelo emocional está aqui por conta das histórias que o filme escolhe contar, mas o contexto da cultura em que elas nasceram, tão essencial para entender como elas foram e continuam sendo possíveis, não aparece com clareza e detalhismo suficientes. Para um filme cuja missão mais fundamental é denunciar a cultura do estupro, Audrie & Daisy mergulha muito pouco nos seus significados e ramificações contemporâneos – o que é uma pena, visto o enorme poder do cinema documental de elevar casos e problemas sociais na discussão popular.
✰✰✰✰ (4/5)
O Que Fazemos nas Sombras (What We Do in the Shadows, Nova Zelândia/EUA, 2014) Direção e roteiro: Jemaine Clement, Taika Waititi Elenco: Jemaine Clement, Taika Waititi, Jonny Brugh, Cori Gonzalez-Macuer, Stu Rutherford, Ben Fransham, Jackie van Beek 86 minutos
A premissa mais interessante da comédia O Que Fazemos nas Sombras é que vampiros não são mais cool. Os galanteadores medievais viraram ídolos adolescentes radiantes (literalmente), e agora sua lenda foi exposta pela fragilidade trágica que sempre teve. No hilário filme de Jemaine Clement e Taika Waititi, os vampiros são os excluídos, seus costumes anacrônicos rejeitados pela sociedade conectada ao redor deles, e essa banalização de suas figuras abre caminho para uma série de piadas que (quase) ninguém ousou fazer antes. Nesse falso documentário, acompanhamos quatro vampiros que vivem juntos em uma casa – ao receberem um quinto membro na família, eles se veem confrontados com o mundo do qual tão frequentemente se escondem. Sobra espaço para sátira social no roteiro, mas Waititi e Clement sabem o valor de uma piada boba no momento certo, especialmente aquelas que conectam aos usos dos poderes vampirescos nos momentos mais banais, de brigas entre amigos àquele momento muito identificável em que você só deseja que a pessoa com quem você está conversando pare de falar.
Em ritmo alucinante, os dois diretores constroem personagens curiosos e bem definidos, interpretados por eles mesmos ao lado de um grupo de atores mantidos na ponta dos pés pela natureza imprevisível do filme em que se encontram. Tirando sarro dos estereótipos em que esses personagens se encaixam, e aproveitando para introduzir um subtexto queer muito óbvio que sempre foi intrínseco às histórias de vampiro, O Que Fazemos nas Sombras mostra que a forma mais fácil de fazer qualquer tema se tornar engraçado é explorar as reentrâncias mais humanas de sua mitologia. Raramente vampiros foram tão envolventes quanto aqui.
✰✰✰✰ (4/5)
Conspiração e Poder (Truth, Austrália/EUA, 2015) Direção: James Vanderbilt Roteiro: James Vanderbilt, baseado no livro de Mary Mapes Elenco: Cate Blanchett, Robert Redford, Topher Grace, Dennis Quaid, Elizabeth Moss, Bruce Greenwood, Stacy Keach, John Benjamin Hickey, Dermot Mulroney 125 minutos
O caso de Mary Mapes e Dan Rather, produtora e âncora do programa 60 Minutes durante a crise envolvendo uma reportagem sobre o serviço militar do presidente George W. Bush no ano de 2004, é um dos mais famosos da mitologia jornalística contemporânea. Após a estreia do programa, que questionava se Bush havia cumprido mesmo suas obrigações militares, evidências começaram a surgir que os documentos conseguidos pelos repórteres, dados por um ex-tenente do exército, eram falsos. Mapes e Rather deixaram a emissora, e foram investigados por uma comissão independente que, se você acreditar no retrato visto no filme Conspiração e Poder, estava predisposta a condená-los mesmo que sua conduta jornalística não tenha sido teoricamente equivocada. O filme, é claro, é baseado no livro da própria Mapes contando o acontecido, e talvez more só na atuação de Cate Blanchett a noção de que esse é um debate mais profundo do que aquele apresentado pelo roteiro de James Vanderbilt. Pelos olhos de Blanchett, que está excepcional como de costume, podemos ver uma Mapes inteligente e determinada, mas entendemos também de onde vem a noção de que ela pode ter se aproximado desse tema com menos cautela por conta de suas posições políticas e personalidade.
Dirigido de forma um tanto burocrática pelo próprio Vanderbilt e com uma série de atores coadjuvantes que por vezes parecem desperdiçados em seus papeis (Dennis Quaid está especialmente competente), o filme serve como documento histórico de um caso que encarna um dilema do jornalismo político que não surgiu com os tempos contemporâneos, mas que certamente está mais proeminente neles: como encontrar um equilíbrio na busca pela verdade? E o quanto as nossas posições particulares, como indivíduos, podem e devem ser removidas do nosso trabalho como repórteres? O filme advoga por uma resposta muito simples para uma questão tão complexa, mas ainda merece ser visto – mesmo que seja só para ver a melhor atriz em atividade em tela.
✰✰✰✰ (3,5/5)
Experimentos (Experimenter, EUA, 2015) Direção e roteiro: Michael Almereyda Elenco: Peter Sarsgaard, Winona Ryder, Jim Gaffigan, John Leguizamo, Anton Yelchin, Kellan Lutz, Dennis Haysbert 98 minutos
Peter Sarsgaard é um dos grandes atores americanos da atualidade, e uma parcela ínfima da crítica, que dirá do público, lhe dá o devido crédito. Em Experimentos, ele é o psicólogo Stanley Milgram, que famosamente conduziu uma série de testes comportamentais em voluntários que mostravam o quanto nós, como seres humanos, estávamos dispostos a obedecer ordens de terceiros mesmo quando o resultado delas parecia cruel. Nas mãos de Sarsgaard, Milgram é um homem quietamente, placidamente apaixonado e fascinado pelo seu próprio trabalho, e mais tarde frustrado pela recepção dele e as críticas que recebe. O filme de Michael Almereyda usa o tempo todo recursos narrativos peculiares, entre eles fazer o próprio Milgram “quebrar a quarta parede” e conversar conosco, o espectador – é nessas cenas que Sarsgaard mostra que o filme não funcionaria com outro ator na pele do protagonista, medindo com cuidado o ritmo dessa narração e a relação de olhares e linguagens corporais que cria com o espectador. Ele, e em uma escala menor sua companheira de cena, Winona Ryder, equilibram a artificialidade proposital da encenação e da direção de arte com retratos profundamente humanos, mesmo que terrivelmente excêntricos, desses personagens reais.
Sobre essa tal artificialidade: o filme usa cenários reduzidos a pinturas de fundo e uns poucos móveis, ou desconstrói o espaço percorrido pelos personagens, criando intrincados diálogos que passeiam pela percepção do espectador atento de forma confiante. É um filme que nunca se cansa de surpreender e recompensar um olhar afiado com pequenos detalhes subversivos, que se entrelaçam espertamente com a trama e a percepção de mundo de Milgram, um homem acostumado a despir a condição humana a seus traços mais básicos, instintivos e deterministas. O diretor e roteirista Almereyda fez um filme único que faz jus ao homem único que representa, e uma brincadeira artística que ele, certamente, apreciaria.
Durante a infância, eu lembro de me sentar no sofá da sala e ligar a TV em qualquer programa do tipo Sessão da Tarde que estivesse no ar. Não só essas lembranças são os momentos formativos da minha paixão pelo cinema, como são os momentos formativos da minha paixão pelo cinema ruim. Eu assistia Power Rangers: O Filme (1995), ou A Incrível Jornada (1993), ou Pequenos Guerreiros (1998), ou A Chave Mágica (1995), ou A História Sem Fim (1984), ou Guerreiros da Virtude (1997), ou qualquer um dos dois filmes do Batman dirigidos por Joel Schumacher (1995, 1997). Na pré-adolescência, vi Resident Evil (2002), Mulher-Gato (2004), Adrenalina (2006) e Anjos da Noite (2003). Conforme fui mergulhando mais fundo no cinema, me “graduei” para os clássicos de Ed Wood, John Waters, Sam Raimi e Peter Jackson, e para trashs como O Monstro do Armário (1986).
Eu amo cinema. Amo cinema cult, cinema francês, cinema documental, Cinema Novo, cinema experimental e, porque não, cinema ruim. Ou melhor, uma certa estirpe de cinema ruim – nessa estirpe a que me refiro moram os trabalhos de cineastas que buscam incessantemente realizar suas próprias visões, e em grande parte conseguem. O problema é que tais visões são absolutamente equivocadas: bregas, de mau gosto, nauseantes, amadoras, ou simplesmente desconectadas com a demanda do público na época em que foram lançadas. Dentro desses filmes ruins, mora arte, e mora a noção de que nem toda arte é para o gosto de todo mundo (algumas, inclusive, não são para o gosto de ninguém).
Eu sinto falta desse tipo de filme ruim no cinemão hollywoodiano hoje em dia. O filme ruim do estúdio americano atualmente é um filme ruim muito chato – é a bolha espúria de efeitos visuais vazios e narrativas machonas da franquia Transformers e de tudo o mais em que Michael Bay coloca o dedo. O diretor, inclusive, é talvez o grande responsável pela morte do cinema ruim como eu o conheci na infância e pré-adolescência, fazendo nascer uma padronização hollywoodiana que escapou aos anos 80 e 90, talvez influenciados pela matilha de cineastas rebeldes dos 70, que fizeram filmes muito mais conceituados mas não deixaram de ter um impacto na “cultura baixa”, por assim dizer.
O meu tipo de filme ruim sobreviveu ao começo dos anos 2000 com pequenas obras que quebraram o teto de vidro de Hollywood (e alguns arrasa quarteirões anômalos no meio do caminho), mas morreu com a “gourmetização” do cinema independente com selo de qualidade Sundance. Não desprezo o cenário indie como ele existe hoje, mesmo porque é dele que algumas das grandes obras-primas dos últimos anos saíram, mas é preciso ter a consciência de que ele está se tornando um “clubinho” tão exclusivo e acadêmico quanto o sistema de estúdios do qual supostamente surge como alternativa.
Sem espaço para respirar nesse ambiente, o meu tipo de filme ruim morreu. Até os “mestres” cujas obras eu me sentava para assistir no passado foram assimilados por uma Hollywood de padrões rígidos ou simplesmente se aposentaram. Basta dar uma procurada:
Joel Schumacher (Batman Eternamente, Batman & Robin) não dirige desde 2011, quando lançou Reféns, com Nicole Kidman e Nicolas Cage. Aos 77 anos, é improvável que volte da aposentadoria.
Frank Oz (A Chave Mágica) parou em 2007, quando saiu a comédia de humor negro Morte no Funeral. Aos 73 anos, está mais do que contente em apenas emprestar a voz ao Mestre Yoda, de Star Wars.
Joe Dante (Pequenos Guerreiros) trabalha regularmente na TV, mas seu último filme foi Enterrando Minha Ex, de 2014. Rumores de uma continuação de Gremlins circulam por aí.
John Waters (Pink Flamingos, Cry-Baby) não dirige desde Clube dos Pervertidos, de 2004. 71 anos de idade.
Wolfgang Petersen (A História Sem Fim) não dá sinal de vida desde que lançou Poseidon em 2006. 76 anos de idade.
Peter Jackson (Trash) e Sam Raimi (Uma Noite Alucinante) foram absorvidos pela máquina hollywoodiana, com resultados variáveis.
Sobre a safra de diretores que fez filmes corajosamente ruins já nos anos 2000, o destino foi ainda mais cruel com eles: a maioria foi rejeitada por Hollywood, e poucos dirigiram novamente. Treze anos depois de seu lançamento, eu preferia sofrer por outro filme assinado pelo francês Pitof, cuja câmera alucinante fez de Mulher-Gato uma espetacularmente horrenda aventura cinematográfica, do que pelas cores mudas e aguda falta de criatividade de um A Lenda de Tarzan ou um A Múmia, só para citar os exemplos mais recentes. Me dê uma escolha entre um filme medíocre por seu medo do diferente e um filme ruim pelos riscos que corre e eu vou, sempre, escolher esse último. Arte não precisa ser sempre boa – só precisa ser sempre, irrevogavelmente, arte.
Eu demorei quase um ano para finalmente me obrigar a ver Stranger Things, série da Netflix que causou comoção sem precedentes na internet em julho de 2016. Desde o primeiro episódio, foi fácil identificar os motivos pelo qual a trama capturou a imaginação do público – nas mãos dos irmãos Matt e Ross Duffer, Stranger Things é tanto uma viagem nostálgica (visual e sentimental) pela mentalidade cinemática americana dos anos 80, quanto uma envolvente história de crescimento que é, fundamentalmente, atemporal. Passada em 1983, a série retrata o desaparecimento de Will Byers (Noah Schnapp), e os esforços de sua família e amigos para encontrá-lo, envolvendo-se em uma trama conspiratória encabeçada por um cientista sinistro (Matthew Modine) e por uma estranha garota com poderes chamada Eleven (Millie Bobby Brown).
Stranger Things conversa com a cultura pop de sua época de forma tremendamente inteligente, não só porque encontra as referências e rimas visuais certas para inserir em determinados momentos da trama, mas principalmente porque mergulha mais fundo na cultura que explora para encontrar uma metáfora poderosa que está no coração da sociedade americana (e ocidental como um todo). Em 1983, perceba-se, os EUA viviam a Guerra Fria contra a União Soviética, um conflito ideológico cujas ramificações iam muito além das formas de governo defendidas por cada uma das superpotências. Sob o comando de Ronald Reagan, os EUA também viviam os primeiros anos da epidemia do HIV/AIDS, que mataria mais de 20.000 americanos até 1989, quando o republicano saiu da presidência sem nunca sequer ter reconhecido a existência da doença.
A genialidade de Stranger Things está em não ignorar e interconexão entre esses aspectos mais profundos escondidos por trás das fachadas decadentes da pequena cidade de Hawkins, Indiana, e a cultura dos filmes de horror e ficção científica que a série busca homenagear com tanto carinho. O resultado é uma das obras mais deliciosa e ferrenhamente queers do cenário televisivo americano atualmente.
[Joyce] “Ele [Will] é um garoto sensível. Lonnie costumava dizer que ele era queer. Chamava ele de viado” [Hopper] ”Ele é?” [Joyce] ”Ele é um garoto desaparecido!” (Stranger Things 1x01 – The Vanishing of Will Byers)
Nos meses seguintes ao lançamento de Stranger Things, grande parte da discussão em torno do subtexto queer da série girou em torno de Will, o garoto que é “sequestrado” logo no primeiro episódio. Isso porque a série dá a entender, em quase todas as vezes em que o menino é mencionado ou discutido pelos outros personagens, que há dúvidas na comunidade de Hawkins sobre sua sexualidade. Não só o o pai ausente de Will o chamava de “viado”, como Joyce (sua mãe, feita por Winona Ryder) revela, como um par de bullies na sua escola dizem aos amigos do garoto que “Will está na terra das fadas agora” após seu desaparecimento (1x04 – The Body).
Note-se que o ator Noah Schnapp, que interpreta Will, escreveu em seu Instagram sobre a possibilidade do personagem ser, de fato, um garoto gay. “Para mim, Will ser gay ou não não é o ponto. Stranger Things é uma série sobre um monte de crianças que são excluídas e encontram umas as outras por terem sido atormentadas por serem diferentes. Ser sensível, ou solitário, ou um adolescente que curte fotografia, ou uma garota de cabelo vermelho com óculos, te faz gay? Eu só tenho 12 anos mas sei que todos podemos nos relacionar com a sensação de ser diferente”, disse o articulado ator mirim.
Talvez a rotulação de um personagem em específico não seja mesmo o ponto de Stranger Things. No entanto, para ser fidedigno ao que a série mostra, é preciso admitir que o contexto histórico e a situação retratada, assim como as metáforas construídas pelo roteiro, localizam esse elemento de “crianças excluídas” firmemente dentro da lógica da comunidade LGBT. Em seus melhores momentos, Stranger Things é envolvente por mostrar personagens procurando formas de lidar com uma afeição mal vista socialmente, seja ela reprimida por um senso de masculinidade datado ou pelos estigmas de uma sociedade pós-contracultura.
Em outras palavras: não pode ser coincidência que o Demogorgon tenha levado justamente Will e Barb para o “ponta-cabeça”, seu aterrorizante mundo invertido. Um conceito que, aliás, já tem bastante peso metafórico por si só – por ser uma réplica perfeita do mundo que vemos na superfície, o “ponta-cabeça” permite que aqueles sequestrados passeiem por suas próprias casas, ou ao lado de amigos e família, sem nunca serem notados ou vistos. É uma poderosa alegorização da invisibilidade da experiência queer, da pessoa LGBT que não se sente confortável em mostrar seu verdadeiro “eu” nos lugares em que deveria se sentir mais à vontade – em suma, é como um gigantesco armário.
Os personagens de Stranger Things o tempo todo lutam contra os preceitos que os mantém presos em vidas escolhidas para eles, e não por eles. O triângulo amoroso entre Nancy, Jonathan e Steve é exemplar nesse sentido, uma batalha de afeições que deixa nas entrelinhas o papel que o machismo e a obsessão suburbana por perfeição tiveram na escolha da garota. Homens que viveram com uma masculinidade tóxica e sufocante a vida toda encontram formas de lidar e construir suas próprias identidades, ainda que desesperadamente superficiais, enquanto mulheres encaram de frente o desafio de serem heroínas de suas próprias histórias, donas de sua própria sanidade, independente de expectativas sociais ou opiniões alheias.
Os irmãos Duffer buscam nesses conflitos o verdadeiro combustível para a sua narrativa, fazendo das referências visuais oitentistas meros detalhes frente a um poderoso comentário cultural. Ao entender a mentalidade opressiva por trás dos contos de terror dos anos 80, Stranger Things tem algo a dizer sobre a forma como encaramos as diferenças na sociedade de hoje. Se todos lamentamos o fim trágico de Barb, personagem coadjuvante de Shannon Purser que virou um improvável ícone cultural, talvez devêssemos prestar mais atenção na forma como lidamos com aqueles “sensíveis e solitários” em nosso meio. Para Barb e para Will, cada qual a sua forma, uma cultura que não lhes acolhia foi o que os condenou a um final trágico.
O ato mais corajoso de Downward Dog, comédia que a emissora americana ABC estreou no último dia 17 de maio e levou pouco mais de um mês para cancelar, poderia ter sido desafiar as expectativas para uma produção envolvendo um cachorro falante. O estigma em torno desse elemento narrativo usado por tantos filmes da Sessão da Tarde segue bastante enraizado na mentalidade popular, e caso conseguisse meramente superar esse preconceito raso de quem lhe desse uma chance, Downward Dog já teria motivos para comemorar. Claro, apenas como desafio estético ela não seria uma obra completa, e o que a série criada por Samm Hodges e Michael Killen arquivou em seus oito episódios no ar foi muito mais do que isso.
Não só Downward Dog nos apresenta um cachorro falante que é também um personagem adorável, complexo e envolvente, como também se propõe a discutir, através dele e de seu relacionamento com a dona, Nan (Alison Tolman), conceitos de masculinidade e feminilidade contemporâneos. Funcionando sempre em dois níveis ao passar dos inventivos episódios, a série é uma reprodução reconhecível das dinâmicas cachorro-dono que amantes dos animais vão apreciar, mas também expande esse retrato para um nível alegórico em que o cão Martin está lidando com dilemas parecidos com o do homem moderno e sua luta com o próprio ego, enquanto os conflitos de Nan são largamente postos no âmbito profissional. A subtrama romântica entre ela e Jason (Lucas Neff) colide com essas elaborações da série de forma elegante, se aproveitando da química impecável entre os dois atores.
Nas mãos de apenas três diretores diferentes (o co-criador Killen, além de John Fortenberry e Paul Murphy), Downward Dog busca se localizar visualmente como uma constante brincadeira metalinguística. Seja no enquadramento dos “confessionais” de Martin, que fala direto para a câmera sobre seus conflitos com Nan e sua auto-estima, ou na realização esperta de cenas como o confronto entre o cachorro e sua aqui inimiga felina, que ganha a voz da comediante Maria Bamford, a série encontra grande parte de seu humor em referências e exageros que nos colocam dentro da mentalidade de Martin. É através dessa sátira que Downward Dog busca discutir e satirizar os complexos temas com os quais esbarra, e o resultado é uma deliciosa comédia de costumes contemporâneos.
Enquanto isso, as cartas na manga da série são as performances dos protagonistas. Tolman, que se destacou em Fargo, merecia mais tempo à frente de uma sitcom da TV aberta – aqui, ela entrega uma atuação honesta e expressiva, cujo rigor dramático aparece por baixo de um carisma relaxado. Na voz de Martin, o co-criador Samm Hodges usa um perfeitamente replicado dialeto millennial que serve tanto para satirizar as preocupações fúteis do cachorro quanto para sublinhar suas tendências egocêntricas. Em seu equilíbrio perfeito, Downward Dog não deixa que seus personagens se percam nessas egotrips, o que a faria só mais uma comédia cínica na TV americana, preferindo destacar o que eles tem de comum com todos nós: a busca incessante por um lugar onde se encaixam no mundo complexo do século XXI.
✰✰✰✰✰ (5/5)
Downward Dog – 1ª temporada (EUA, 2017) Direção: Michael Killen, John Fortenberry, Paul Murphy Roteiro: Samm Hodges, Michael Killen, Daisy Gardner, Morgan Murphy, Annabel Oakes, Laura Kittrell Elenco: Allison Tolman, Lucas Neff, Kirby Howell-Baptiste, Barry Rothbart, Samm Hodges, Maria Bamford 8 episódios
Nem todos os filmes merecem (ou pedem) uma análise complexa como a que fazemos com alguns dos lançamentos mais “quentes” ou filmes que descobrimos e nos surpreendem positivamente. É levando em consideração a função da crítica e da resenha como uma orientação do público em relação ao que vai ser visto em determinado filme que eu resolvi criar essa coluna, que visa falar brevemente dos filmes que não ganharam review completo no site. Vamos lá:
Colossal (EUA/Canadá/Espanha/Coreia do Sul, 2016) Direção e roteiro: Nacho Vigalondo Elenco: Anne Hathaway, Jason Sudeikis, Austin Stowell, Tim Blake Nelson, Dan Stevens 109 minutos
As ambições de Colossal não combinam com o seu tamanho, como produção ou como obra cinematográfica. Assistir ao filme de Nacho Vigalondo é ver Davi tentando ser Golias – uma pequena dramédia indie se engraçando nas metáforas da ficção científica, tocando em questões sociais sérias através de uma premissa surreal. Colossal não deveria funcionar, mas, através de alguma mágica operada pelo diretor/roteirista espanhol, ele funciona. Em rasteiros 109 minutos, Vigalondo encontra tempo para estabelecer um tom único, nos envolver na história dos personagens, fazer gracinhas metalinguísticas e provocar reflexão sérias sobre assuntos como alcoolismo e relacionamentos abusivos. Na trama, a jovem Gloria (Anne Hathaway) se separa do controlador namorado Tim (Dan Stevens), incapaz de lidar com sua bebedeira crônica. Ela retorna para sua cidade natal, onde se reencontra com um amigo de infância, Oscar (Jason Sudeikis), que lhe dá um emprego – tudo corre normalmente até o dia em que um monstro gigante aparece sem explicação a oceanos de distância, em Seoul, e Gloria descobre que é capaz de controlar os movimentos da criatura. A genialidade do scipt de Vigalondo é que ele não se perde nas possibilidades exploratórias óbvias de sua premissa improvável, encontrando ao invés disso metáforas e situações tangenciais surpreendentemente envolventes.
No papel de Gloria, Hathaway equilibra a loucura do filme com uma performance centrada, correta no timing cômico, mas especialmente profunda na compreensão da jornada da personagem e sua fundamental confusão com a vida ao seu redor. É pela entrega de Hathaway que o clímax de Vigalondo funciona, mesmo com sua lógica frágil – com um olho inteligente para os detalhes do dia a dia de uma alcoólatra, e para as sutilezas surpreendentes e assustadoras do abuso romântico, o diretor espanhol se mostra um artista mais profundo e inteligente do que a superfície de sua ficção científica absurda dá a entender. Colossal é um drama honesto embrulhado em uma comédia referencial e cínica sobre monstros gigantes, ou, em outras palavras, é um produto inquestionável de seu tempo.
✰✰✰✰ (4/5)
O Poderoso Chefinho (The Boss Baby, EUA, 2017) Direção: Tom McGarth Roteiro: Michael McCullers, baseado no livro de Marla Frazee Elenco: Alec Baldwin, Steve Buscemi, Jimmy Kimmel, Lisa Kudrow, Tobey Maguire, Miles Bakshi 97 minutos
O diretor Tom McGarth, que iniciou a franquia Madagascar e fez o ótimo (e subestimado) Megamente, frequentemente tem sua genialidade visual relegada ao segundo plano. Em O Poderoso Chefinho, mais uma comédia animada cheia de referências cinematográficas, verdadeira do começo ao fim à marca da DreamWorks, essa injustiça é finalmente corrigida. A adaptação do livro infantil de Marla Frazee é um banquete para os olhos, infinitamente criativa na sua construção de mundo, tanto quanto na idealização dos espaços, cores e percepções que o formam. A trama acompanha Tim (Miles Bakshi), um menino de 7 anos cujos pais (Lisa Kudrow e Jimmy Kimmel) acabam de trazer para casa o segundo filho – acontece que o tal bebê é na verdade um gênio dos negócios, completo com a voz inconfundível de Alec Baldwin, basicamente reencarnando seu personagem de 30 Rock. Quando a dupla de irmãos, que a princípio não se gosta, precisa se unir para estragar os planos de um vilão, O Poderoso Chefinho se entrega às inspirações mais absurdas de sua premissa e cria um universo visual muito particular, que precisa ser apreciado e celebrado por sua inventividade e seu valor artístico.
É verdade que a mensagem do filme não é mais inspirada da DreamWorks, e talvez por isso todo esse estouro visual fique apagado. O mesmo aconteceu com Trolls, da produtora, que trocou um esforço maior no departamento de roteirização pelo espetáculo vazio das cores e texturas da animação – o resultado é que tanto um filme quanto o outro parecem obras incompletas, de potencialidades não exploradas, que não se comprometem de verdade com os filmes que poderiam ser. É um erro que a Pixar raramente comete, mesmo em seus momentos de maior fraqueza. Um filme desapaixonado de si mesmo, cinicamente desenhado para atingir um meio termo entre o menor denominador comum e a criatividade desimpedida, é um filme incapaz de conquistar o espectador.
✰✰✰✰ (3,5/5)
Quase 18 (The Edge of Seventeen, EUA/China, 2016) Direção e roteiro: Kelly Fremon Craig Elenco: Hailee Steinfeld, Haley Lu Richardson, Blake Jenner, Kyra Sedgwick, Woody Harrelson, Hayden Szeto 104 minutos
Desde os tempos de James Dean em Juventude Transviada (1955), talvez mesmo antes disso, é sempre motivo de comemoração quando Hollywood faz um filme sobre pessoas jovens que encontra nuance, complexidade e sutileza nas emoções e situações de suas vidas. Foi assim com John Hughes e sua trilogia adolescente nos anos 80, e é assim agora com Quase 18, título nacional de The Edge of Seventeen, estreia na direção e roteiro de Kelly Fremon Craig. É um pouco incômodo que esses filmes sejam a exceção – ter personagens tratados com profundidade e humanidade não deveria ser privilégio de nenhuma faixa etária, e cinema sensível e compreensivo não deveria ser artigo raro. Em Quase 18, Craig disseca a vida de Nadine (Hailee Steinfeld), cuja única amiga próxima, Krista (Haley Lu Richardson), subitamente se torna popular ao engatar um namoro justamente com o irmão de Nadine, o “queridinho da escola” Darian (Blake Jenner). O filme trata essa virada do destino com a ironia cruel que é particular da adolescência, e as falhas de Nadine com o olhar clínico (e cínico) que é próprio da maturidade. Craig usa com inteligência suprema coadjuvantes como o Professor Bruner (Woody Harrelson) para criar um distanciamento saudável do drama adolescente de Nadine sem subestimá-lo ou satirizá-lo de forma cruel.
Steinfeld, por sua vez, carrega a análise equilibrada e sensível do filme nas costas com uma performance belissimamente modulada. A garota-prodígio que foi indicada ao Oscar (merecidamente) aos 15 anos volta a mostrar que pode se tornar umas das intérpretes mais sutis, versáteis e envolventes da filmografia americana nas próximas décadas. Quase 18 é uma esperta história sobre responsabilidades, altruísmo e a inescapável realização, na pós-adolescência, de que o mundo é ridiculamente maior, mais complexo e mais sombrio que o nosso inferno particular – mas que, ao mesmo tempo, esse inferno particular nunca deixa de existir. Ainda assim, o filme de Craig acha espaço para ser otimista de sua própria forma, realçando a independência que a protagonista persegue durante todo o filme. É uma raridade de filme, mesmo que não devesse ser.
✰✰✰✰ (4/5)
A Bela e a Fera (Beauty and the Beast, EUA/Inglaterra, 2017) Direção: Bill Condon Roteiro: Stephen Chbosky, Evan Spiliotopoulos, baseados no roteiro original de Linda Woolverton Elenco: Emma Watson, Dan Stevens, Luke Evans, Josh Gad, Kevin Kline, Ewan McGregor, Ian McKellen, Emma Thompson, Audra McDonald, Stanley Tucci, Gugu Mbatha-Raw 129 minutos
Eu não faço o tipo de criticar a existência de remakes em Hollywood. Às vezes, histórias antigas precisam de releituras com sensibilidades modernas, para que suas mensagens e magia próprias possam sobreviver a um mundo transformado. É o que ocorreu com Malévola, Cinderela e Mogli – O Menino Lobo, três filmes recentes da Disney que adaptavam seus clássicos em animação para filmes com atores. São obras do cinema pop que tomaram decisões-chave para reimaginar e ressignificar aspectos de seus originais, corrigindo cursos de forma que era virtualmente impossível no passado. Ao assistir A Bela e a Fera, de Bill Condon, que refaz a animação de 1991 da Disney, essa mesma sensação não se replicou – talvez porque o original é bem mais recente que os outros refeitos pelo estúdio, os riscos calculados que os produtores estavam dispostos a tomar não eram tão diferentes daqueles que já estavam embutidos no desenho. O resultado é uma bonita produção com a mesma metáfora inteligente que o filme de 1991 fazia sobre masculinidade tóxica enquanto contava uma história de amor que fugia de seus problemas óbvios para se revelar realmente encantadora – não é um mau filme, mas é um que não tem razão para existir.
A direção de Bill Condon é um presente para os aspectos luxuosos da produção. O cineasta sabe realçar e equilibrar efeitos especiais deslumbrantes, design de produção genial e figurinos suntuosos, criando um visual luminoso e polido que combina com a narrativa. As músicas emprestadas do original seguem deliciosas, um atestado a atemporalidade das composições de Alan Menken e Howard Ashman, embora a única original do novo filme, “Evermore”, se arraste em uma interpretação sem brilho de Dan Stevens. É o único escorregão do ator por trás da captura de movimentos da Fera, no entanto, já que Stevens constrói, com inteligência, um personagem extraordinariamente idiossincrático durante o filme. Sua atuação é uma das poucas notas originais de A Bela e a Fera, um grande espetáculo que, infelizmente, pode dar ainda mais má fama à moda dos remakes.
✰✰✰✰ (3,5/5)
Com a Maldade na Alma (Hush… Hush, Sweet Charlotte, EUA, 1964) Direção: Robert Aldrich Roteiro: Henry Farrell, Lukas Heller Elenco: Bette Davis, Olivia de Havilland, Joseph Cotten, Agnes Moorhead, Cecil Kellaway, Victor Buono, Mary Astor, Bruce Dern 133 minutos
A história do cinema é frequentemente injusta. Dos dois filmes do movimento hagsploitation feitos por Robert Aldrich, explorando mulheres mais velhas e as histórias de terror escondidas em seu passado e presente, O Que Aconteceu com Baby Jane? (1962) ficou mais conhecido, graças às brigas entre suas duas estrelas, Bette Davis e Joan Crawford. Seu segundo, no entanto, esse Com a Maldade na Alma (1964), é um exercício de gênero muito mais completo, com uma performance matadora e equilibrada de Olivia de Havilland na pele de Miriam. A personagem da estrela de …E o Vento Levou é a prima da protagonista, Charlotte (Davis), que, após um trauma de juventude envolvendo um amante, se tornou cada vez mais reclusa e solitária. Quando a prefeitura ameaça demolir a casa da família para construir uma ponte, Miriam chega para acalmar os ânimos – ou quase isso. O filme de Aldrich abraça com elegância os elementos trash do gênero que explora, criando um enervante suspense psicológico, com diálogos recheados de entrelinhas trabalhadas com prazer imenso por gente como Havilland e Agnes Moorhead, genial na pele da fiel empregada de Charlotte.
Davis, por sua vez, parece estar em um espetáculo particular (como de costume). É sempre um deleite assisti-la viver e morrer pelas emoções de suas personagens, e em Charlotte ela encontra uma rica fonte de ressentimentos, confusões e medos para expressar em tela – se Havilland é quem carrega a coerência e verossimilitude do filme, Davis carrega seu senso de teatralidade. O dueto entre as duas é talvez ainda mais belo de observar do que aquele entre Davis e Crawford em Baby Jane, talvez por se ver livre do simbolismo que a rivalidade entre elas carregava. Sem esse peso, Com a Maldade na Alma tem a liberdade de ser um horror referencial brilhante, cheio de momentos que seriam emulados no futuro da filmografia americana.
✰✰✰✰✰ (4,5/5)
Power Rangers (EUA/Hong Kong/Japão/México/Canadá/Nova Zelândia, 2017) Direção: Dean Israelite Roteiro: John Gatins, baseado na série criada por Haim Saban Elenco: Dacre Montgomery, Naomi Scott, RJ Cyler, Ludi Lin, Becky G., Elizabeth Banks, Bryan Cranston, Bill Hader 124 minutos
Dean Israelite tinha uma missão impossível em Power Rangers, nova versão para o clássico trash infantil dos anos 90: adaptar a trama desses vingadores coloridos intergalácticos para o contexto de blockbuster “sombrio” e “realista” que Hollywood patrocina no atual momento cultural. Como se isso não fosse difícil o bastante, o diretor e seu roteirista, John Gatins, ainda sofreram pressão para fazer tudo isso sem desagradar aos fãs do original que pediam fidelidade ao espírito e aos detalhes da história. Tendo tudo isso em vista, o resultado poderia ser muito, muito pior. Ao invés de um filme ativamente e cinicamente terrível, o Power Rangers de 2017 é apenas um pouco esquizofrênico, tentando equilibrar um drama colegial honesto, ainda que um pouco aleatório, com o surrealismo da premissa principal. Coloque na conta uma Rita Repulsa equivocadamente repaginada na pele de Elizabeth Banks, e um elenco de jovens apenas marginalmente talentoso, e você tem uma aventura de 124 minutos que tem problemas para encontrar seu ritmo, e cujas boas sacadas (especialmente na parte do drama colegial) ficam perdidas em um mar de geral indiferença que ela desperta no espectador.
Na trama, acompanhamos cinco adolescentes de Alameda dos Anjos. Jason (Dacre Montgomery) é um atleta desiludido envolvido em atos de vandalismo, Kimberly (Naomi Scott) uma ex-garota popular excluída após um escândalo de sexting (?), Billy (RJ Cyler) um garoto autista que perdeu o pai, Zack (Ludi Lin) um solitário incorrigível que precisa cuidar da mãe doente, e Trini (Becky G) uma rebelde lésbica sem amigos. Após uma noite em que, aleatoriamente, estavam todos juntos em uma mina abandonada da cidade, eles descobrem “moedas” de poder e são recrutados pelo robô Alpha 5 (Bill Hader) para se tornarem a nova geração de Power Rangers, justamente quanto Rita retorna dos mortos para tentar dominar o mundo. É estranho ver um Power Rangers que não reconheça o ridículo de toda essa premissa, mas o filme de Israelite encontra uma maneira de contornar essa estranheza, usando o pouco tempo que dispõe para desenvolver os personagens com esperteza, tornando-os um pouco mais do que uma mistura de estereótipos aleatórios. Funciona melhor do que teria o direito de funcionar, mas não o bastante para obliterar a fundamental má ideia na qual o reboot foi construído.
✰✰✰ (2,5/5)
Kong: A Ilha da Caveira (Kong: Skull Island, EUA/China/Austrália/Canadá, 2017) Direção: Jordan Vogt-Roberts Roteiro: Dan Gilroy, Max Borenstein, Derek Connolly, baseados nos personagens criados por Merian C. Cooper & Edgar Wallace Elenco: Tom Hiddleston, Samuel L. Jackson, Brie Larson, John C. Reilly, John Goodman, Corey Hawkins, John Ortiz, Tian Jing, Toby Kebbell 118 minutos
Durante os últimos 80 e poucos anos, três dos maiores filmes já lançados por Hollywood em suas respectivas épocas foram estrelados por King Kong, o gorila gigante mais famoso do imaginário popular. Em 1933, 1976 e 2005, o mundo parou para ouvir a mesma história de dominação humana irresponsável e presunçosa, e quando Kong: A Ilha da Caveira foi anunciado para este ano, nós já sabíamos o que esperar. É aí que entra Jordan Vogt-Roberts, o genioso diretor por trás do novo blockbuster do gorila, que agarrou a oportunidade de seu primeiro arrasa-quarteirão para virar a fórmula de cabeça para baixo e fazer um filme excepcionalmente estranho, espantosamente inteligente, e deliciosamente inesperado. As referências para o novo Kong são os filmes passados na Guerra do Vietnã, como Apocalypse Now, Platoon e Nascido Para Matar, triunfos de rigor técnico que criaram um universo sensorial muito particular ligado a esse conflito da história mundial. O filme de Vogt-Roberts empresta essa identidade visual para espertamente transformar King Kong em uma metáfora para a guerra impossível (e impossivelmente cruel) travada por americanos com um entendimento trágico da filosofia ufanista de seu país natal.
Parece exagero ligar um filme como Kong: A Ilha da Caveira a esse tipo de reflexão, mas as melhores narrativas pop são capazes de divertir e fazer pensar ao mesmo tempo. Com suas névoas tóxicas coloridas, sua paisagem em permanente crepúsculo selvagem, seus efeitos especiais impressionantes inseridos em um universo visual que já seria deslumbrante sem eles, o filme de Vogt-Roberts é um feito cinematográfico e tanto, uma deliciosa alquimia kitsch com um ponto a provar e a coragem de surpreender o espectador provando-o. Poucos blockbusters são mais desafiadores para o público acostumado ao padrão de Hollywood, e só por isso Kong: A Ilha da Caveira já merece ser celebrado como um dos grandes produtos do cinema pop americano em 2017.