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Review: Me Chame Pelo Seu Nome

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Review: Lady Bird: A Hora de Voar

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Review: Liga da Justiça

É verdade: o novo filme da DC seria melhor se não tivesse uma Warner (e um Joss Whedon) no caminho.

28 de ago. de 2016

Diário de filmes do mês: Agosto/2016

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por Caio Coletti

Nem todos os filmes merecem (ou pedem) uma análise complexa como a que fazemos com alguns dos lançamentos mais “quentes” ou filmes que descobrimos e nos surpreendem positivamente. É levando em consideração a função da crítica e da resenha como uma orientação do público em relação ao que vai ser visto em determinado filme que eu resolvi criar essa coluna, que visa falar brevemente dos filmes que não ganharam review completo no site. Vamos lá:

resolution

Resolution (EUA, 2012)
Direção: Justin Benson, Aaron Moorhead
Roteiro: Justin Benson
Elenco: Peter Cilella, Vinny Curran, Emily Montague, Bill Oberst Jr.
93 minutos

Resolution é aquele raro filme que pretende funcionar em três níveis diferentes, e consegue. Primariamente observado, o filme de estreia de Justin Benson e Aaron Moorhead é um bom suspense independente com um mistério envolvente e alguns momentos genuinamente assustadores, ou no mínimo desconfortáveis. O espectador um pouco atento, no entanto, vai notar que a jornada dos personagens aqui é tão importante quanto o mistério, e as atuações naturalistas dos protagonistas Peter Cilella e Vinny Curran não deixam a peteca cair nesse aspecto – como história de um homem que tenta ajudar um amigo a sair de seu vício em drogas por algum senso deturpado de justiça ou senso de controle, Resolution é um poderoso drama de personagens com uma jornada emocional bem construída e considerações importantes sobre autonomia, amizade e os motivos egoístas dos quais nos escondemos quando sentimos o impulso de “ajudar” o outro. Na sua terceira e talvez mais fundamental camada, no entanto, Resolution é uma sátira esperta e uma consideração profunda, ao mesmo tempo, do próprio ato de contar histórias.

Benson e Moorhead deixam isso transparecer até na forma como filmam seu longa, utilizando truques de câmera como indicações de momentos fundamentais da trama, desenhando com seus protagonistas um arco fascinante que pondera o poder de nossas escolhas sob o nosso destino, e o papel do acaso, do vício e do senso de responsabilidade nessas escolhas. Cheio de recursos e ao mesmo tempo desprovido de pompa, Resolution é intensamente inteligente, atacando o espectador intelectualmente muito mais do que sensorialmente. Esse cinema cerebral de Benson e Moorhead deixa espaço para os sentimentos dos personagens vazarem pelos cantos, e anseia por uma conexão que seja ao mesmo tempo conceitual e emocional com seu público – como qualquer boa história, Resolution fica com quem o assiste por um bom tempo.

✰✰✰✰ (4/5)

the house of the devil

A Casa do Diabo (The House of the Devil, EUA, 2009)
Direção e roteiro: Ti West
Elenco: Jocelin Donahue, Tom Noonan, Mary Woronov, Greta Gerwig, AJ Bowen, Dee Wallace
95 minutos

De muitas formas, A Casa do Diabo é o completo oposto do nosso filme anterior nesse diário, Resolution. Isso porque, no espectro oposto ao filme de Benson e Moorhead, essa obra de Ti West tem muitos deleites visuais para serem absorvidos pelo espectador, mas lhe falta um pouco de riqueza narrativa. A Casa do Diabo se preocupa antes em ser um filme de terror, e uma homenagem meticulosa aos anos 80, do que em contar uma história que signifique qualquer coisa demais, e é claro que ao filme é reservado esse direito. Como exercício de estilo e demonstração da combinação certeira de direção, fotografia, trilha-sonora, atuações e design de produção, A Casa do Diabo é um filme que precisa ser visto. Seu visual saturado desde o começo, os movimentos de câmera (constantes zoom rápidos, como há muito já não é usado no cinema de terror), o clima de paranoia satanista, até a estrutura simples da trama – tudo aqui é um enorme tributo à época que ele representa, e de certa forma Ti West faz essa referência a outros tempos do cinema de terror para acordar no horror moderno um senso de antecipação, de excelência técnica e de paciência construtiva que não existe mais na grande Hollywood.

É um esforço válido, que passa pela performance tour de force de Jocelin Donahue como Samantha, uma universitária que aceita o trabalho de cuidar por uma noite de uma velha senhora na casa de uma estranha família. A trama vem pronta com uma melhor amiga que tenta avisar a protagonista dos perigos de aceitar o trabalho (feita por Greta Gerwig!); um excêntrico e suspeitíssimo, mas ainda desconcertantemente educado, patriarca da família (Tom Noonan, excelente como sempre); e uma gélida matriarca, interpretada por Mary Woronov. Com um clímax aterrorizante e envolvente que chega sem muito aviso e um final chocante para combinar, West faz a festa com uma fotografia magistral de Eliot Rockett e uma capacidade de criar tensão que certamente o coloca como um dos melhores artesãos do gênero a surgir nos últimos anos.

✰✰✰✰ (3,5/5)

warcraft

Warcraft: O Primeiro Encontro de Dois Mundos (Warcraft, EUA/China/Canadá/Japão, 2016)
Direção: Duncan Jones
Roteiro: Charles Leavitt, Duncan Jones
Elenco: Travis Fimmel, Paula Patton, Ben Foster, Dominic Cooper, Toby Kebbell, Clancy Brown, Daniel Wu, Ruth Negga
123 minutos

Warcraft: O Primeiro Encontro Entre Dois Mundos é moderadamente passável como entretenimento porque em nenhum momento o diretor Duncan Jones permite que o filme se leve a sério demais. Também co-escritor do roteiro, Jones explora um mundo de magos, magias coloridas, orcs, “orquisas” e reis com o senso de humor certo e uma concepção visual bacana que remete aos tempos dos anos 80 e 90 em que os filmes de fantasia não tinham a pretensão de ser O Senhor dos Anéis. O problema é que, em algum lugar ali no meio do caminho, a Universal decidiu que queria um O Senhor dos Anéis. Seja em seu final forçado ou na atuação de seu protagonista, o terrível Travis Fimmel, Warcraft em algum momento perde a mão de seu próprio senso de ridículo e se torna uma produção estupidamente cara que nunca se deu ao trabalho de justificar todos os dólares investidos nela. Jones tinha um plano sólido para o visual e o clima de seu primeiro blockbuster, mas plano nenhum para sua narrativa – e há uma diferença enorme entre não se levar a sério e insultar a inteligência do espectador.

É fácil engolir uma performance exagerada como a de Ben Foster como o feiticeiro Medivh; difícil é passar por cima da trama apressada espremida em 123 minutos, das três terríveis atuações principais (Fimmel, Paula Patton e Toby Kebbell), que não parecem se divertir nem metade do que deveriam, de uma narrativa que não decide se quer satirizar ou fielmente seguir os clichês de filme de fantasia mais baratos que você encontrar por aí, e do desperdício monumental de um esperto trabalho de efeitos especiais nessa bagunça de filme. Por duas horas, é possível que Warcraft te deixe entretido, mesmo com alguns pedaços sonolentos e a vontade zero que o filme mostra de subverter as manias mais problemáticas de sua origem no mundo dos RPGs – o que ele não vai te deixar é satisfeito. Muito como Jurassic World, do ano passado, Warcraft quer tirar sarro do livro de regras de Hollywood sem quebrar umazinha sequer.

✰✰✰ (2,5/5)

spring

Primavera (Spring, EUA, 2014)
Direção: Justin Benson, Aaron Moorhead
Roteiro: Justin Benson
Elenco: Lou Taylor Pucci, Nadia HIlker, Francesco Carnelutti, Jeremy Gardner, Holly Hawkins
109 minutos

Como Resolution, o filme da dupla Benson e Moorhead do qual falamos lá no começo do diário, Primavera é uma peculiar abordagem do cinema de horror, um filme cheio de camadas e misturas (“um híbrido de Richard Linklater e H.P. Lovecraft”, como definiu o crítico do RogerEbert.com)… e uma história surpreendentemente tocante. Assim como Resolution, Primavera esconde uma história muito humana por baixo de seus efeitos de maquiagem impressionantes, sua fotografia refinada e certeira (mas nunca pedantemente bela), e especialmente dos elementos absurdos de sua trama, que pendem para a ficção científica tanto quanto para o horror. Na superfície, vemos o jovem Evan (Lou Taylor Pucci, excelente), que acaba de perder a mãe e viaja para a Itália a procura de algo que nem ele sabe definir – lá, ele encontra trabalho em uma fazenda e uma namorada, Louise (Nadia Hilker, que também tem algo de especial), uma insinuante mulher que esconde um segredo antigo e selvagem. Sem entregar mais nada, Primavera aos poucos introduz seus elementos sobrenaturais, mas nunca deixa o filme descender em um pesadelo de revelações apressadas ou em um clímax de sustos e violência.

Ao contrário do que poderia se esperar do gênero, Primavera é como um lento e idílico, mas levemente desajustado, sonho de troca de estações. O momento que Evan passa em sua vida é tão importante quanto a natureza daquele segredo guardado por Louise, e no final o filme se revela a história de dois personagens tentando se reconciliar com a beleza trágica da vida, e especialmente com sua inerente finitude. Primavera poderia ser deprimente, mas escolhe conscientemente não ser – ao contrário, é uma celebração daqueles que não tem a eternidade para viver, uma viagem iluminada por possibilidades incríveis, contos fantasiosos e personagens lidando com dilemas muito reais. Essencialmente, é uma ficção científica e tanto, e ao mesmo tempo não se deixa limitar pelo rótulo. É um filme que precisa ser visto.

✰✰✰✰✰(4,5/5)

26 de ago. de 2016

Review: American Crime Story constrói uma narrativa poderosa das variáveis da justiça

acs

por Caio Coletti

Ryan Murphy não escreveu uma palavra de American Crime Story: The People v. O.J. Simpson. O criador de Glee, Scream Queens e American Horror Story atua como produtor, diretor de alguns episódios e como idealizador da “marca” American ____ Story, mas seu envolvimento na criação, planejamento e eventual redação dos 10 episódios dessa minissérie indicada a nada menos que 22 Emmys não é só mínimo, é nulo. Isso é importante não porque tenho qualquer coisa contra Ryan Murphy, mas porque é flagrante que o produtor não encostou nos roteiros comandados pelos showrunners Larry Karaszewski e Scott Alexander, e também é flagrante o motivo pelo qual ele fez isso: American Crime Story é muito mais sobre densidade e profundidade do que é sobre iconoclastia, referência pop, ou arcos de personagem desenhados com pinceladas grossas e exuberantes. É um animal mais sutil, mais sufocante, mais psicológico e, talvez por isso, mais envolvente e, eventualmente, desesperador.

A história real em que a temporada se concentra é um marco da Justiça americana: o julgamento do jogador de futebol americano O.J. Simpson (Cuba Gooding Jr) pelo assassinato da ex-eposa Nicole Brown Simpson e seu amigo Ron Goldman. Não só a história é cheia de reviravoltas espetaculares e traz momentos que definiram precedentes para casos que estariam por vir, como todo o processo de mais de uma dezena de meses define espetacularmente o momento de tensão racial que vivemos hoje em dia, provendo uma reflexão absolutamente essencial sobre a forma como racismo, machismo, a atenção da mídia e mais uma infinidade de fatores influenciam o funcionamento da Justiça. Em um julgamento conduzido largamente pela opinião popular, encapsulando uma época (e ao mesmo tempo um padrão que se repete até hoje) de brutalidade policial, injustiças sociais contra negros e mulheres, e um jornalismo irresponsável em busca de audiência acima de informação, American Crime Story encontra uma oportunidade espetacular de refletir sobre como a história moldou o que somos hoje.

Karaszewski e Alexander sabem como lidar com essa narrativa da forma correta, equilibrando caricaturas de personagens reais (como a feita por John Travolta, excepcional em seu próprio “canto” da história) com expressões muito coesas e interessantes de personas e situações que valem tanto como documento histórico quanto com material de identificação para o espectador. Vide, por exemplo, o trabalho magnífico de Sarah Paulson, já há algum tempo o coração e a alma de American Horror Story, como Marcia Clark, a principal advogada da acusação. Seu retrato é muito marcante, expressivo e representativo dos dilemas que mulheres precisam lidar no ambiente profissional e pessoal, especialmente sob o escrutínio de um público que se importa mais com sua aparência ou seu tom de voz do que com sua competência – é uma composição humana de uma mulher falha, formidável e corajosa, que talvez esperasse mais do mundo do que o mundo lhe deu. É de quebrar o coração, mas é um testemunho de resiliência e vitória moral também.

Nesse terreno moral complicado, American Crime Story, anda nas pontas dos pés pelas ruínas de uma tragédia americana que esteve por todos os jornais da época e até hoje – e encontra atores comprometidos com a jornada emocional dos personagens, acima de sua representação social, para dar alma e força a essa história. Cuba Gooding Jr está brilhante como O.J, assim como Courtney B. Vance e Sterling K. Brown na pele de advogados de lados opostos do julgamento, mas companheiros na luta pelos direitos civis dos negros. Em participações menores, David Schwimmer e Connie Britton também se destacam pelo retrato da ignorância que guia um determinada classe social a proteger seus amigos celebridades (ou seus próprios interesses) antes de discriminar verdades de mentiras.

Tensa e focada como precisava ser, American Crime Story não suportaria o peso das extravagâncias narrativas de Ryan Murphy, mas o criador faz um trabalho espetacular na direção dos dois episódios que assume, criando uma série de imagens marcantes que elevam o discurso de The People v O.J. Simpson quando estão em tela. Deve-se dá-lo crédito, portanto, porque American Crime Story é melhor quando ele está por trás das câmeras, casando perfeitamente a narrativa séria e importante de Karaszewski e Alexander com o estilo visualista de sua direção. 22 indicações ao Emmy definitivamente merecidas.

Caso não vença na categoria principal de Melhor Minissérie, no entanto, vale lembrar que American Crime Story: The People v O.J. Simpson ainda é o pedaço de televisão mais essencial de 2016, a narrativa que você precisa consumir para entender a forma como a arte e a história refletem a sociedade no estado em que ela se encontra nesse exato momento. É urgente que se veja, se entenda e se pense em O.J. Simpson mais de 20 anos depois, porque os mecanismos que famosamente (não conta como spoiler se é história real) o inocentaram de um assassinato que ele, segundo todos os especialistas, certamente cometeu, ainda estão em pleno funcionamento. Quem sai como culpado nessa história toda não é o réu interpretado por Cuba Gooding – no sentimento de opressão e o gosto amargo que ACS nos deixa, somos nós.

✰✰✰✰✰ (5/5)

THE PEOPLE v. O.J. SIMPSON: AMERICAN CRIME STORY "Conspiracy Theories" Episode 107 (Airs Tuesday, March 15, 10:00 pm/ep) -- Pictured: (l-r) Sterling K. Brown as Christopher Darden, Cuba Gooding, Jr. as O.J. Simpson. CR: Ray Mickshaw/FX

American Crime Story: The People v O.J. Simpson (EUA, 2016)
Direção: Ryan Murphy, Anthony Heminghway, John Singleton
Roteiro: Scott Alexander, Larry Karaszewski, D.V. DeVicentis, Maya Forbes, Joe Robert Cole, etc
Elenco: Cuba Gooding Jr, Sarah Paulson, Sterling K. Brown, Courtney B. Vance, Kenneth Choi, David Schwimmer, John Travolta, Bruce Greenwood, Jordana Brewster, Connie Britton, Selma Blair, Nathan Lane
10 episódios

23 de ago. de 2016

Review: “Esquadrão Suicida” é uma apressada, mas aceitável, adição à fascinante mitologia da DC

esquadrão

por Caio Coletti

Assistir Esquadrão Suicida no cinema é como experimentar de novo uma daquelas ondas de empolgação da infância, aquela embriaguez que não é de álcool. É como um passeio de montanha-russa depois de comer açúcar em excesso. A descrição pode parecer coisa de fã, mas não tem nada a ver com a sensação de ver personagens amados tomarem vida em tela pela primeira vez – é proposital da edição, do roteiro e do aspecto visual do filme de David Ayer essa estética quadrinesca, essa narrativa o tempo todo a 100 km/h, a edição esquizofrênica e o visual que mistura de forma escalafobética sombras e cores, em uma estilização bem à la Hot Topic, a célebre loja de roupas e acessórios americana que famosamente deve muito do seu sucesso ao apelo da Arlequina em sua fase pós-Batman: A Série Animada.

Talvez justamente por optar por essa estética, o Esquadrão Suicida de David Ayer como chegou nos cinemas (não importa, de fato, se foi a Warner que retalhou e modificou o filme ou não) parece um exercício primário de narrativa, sem a nuance e as entrelinhas que vimos em instalações anteriores da franquia da DC Comics no cinema. Chegando só cinco meses depois de Batman vs Superman, o filme do Esquadrão faz jus ao seu nome – pula do abismo da narrativa pop e às vezes exagera um pouco na sua celebração dela, não entendendo as armadilhas que uma exploração rasa do mito do herói ou da mitologia das HQs pode trazer. Por sorte, Esquadrão Suicida tem algumas peças no jogo que podem mudar um pouco isso: os atores.

Maior entre eles, nada surpreendentemente para quem acompanhou a expectativa e a campanha ao redor do filme: Margot Robbie como a Arlequina, uma das personagens mais lucrativas da DC desde sua criação no desenho animado do Batman dos anos 90 – no papel da ex-psicóloga transformada em maníaca pelo Coringa (Jared Leto), Robbie não só ofusca o celebrado colega de elenco como provém uma profundidade à personagem que absolutamente não está no roteiro. Nas mãos da jovem atriz australiana, as piadas mais infames funcionam, e o sombrio sadismo e languidez sexual da Arlequina são equilibrados por uma dimensão de tragédia que nunca deixa a personagem ser fetichizada ou glorificada pelo que se tornou graças a um relacionamento abusivo. No final do filme, fica a impressão de que Margot entende melhor a Arlequina que o próprio roteiro.

Nem só de Harley, no entanto, vive Esquadrão Suicida (infelizmente, muitos diriam). A trama envolve uma agente do governo, Amanda Waller (Viola Davis), desenvolvendo ao lado do seu mais fiel soldado, Rick Flag (Joel Kinnaman), um projeto arriscado: reunir vilões dos mais diversos cantos do universo pós-Superman em que o filme se passa e mandá-los em missões que nenhum outro herói ousaria cumprir. A famosa “síndrome do mau vilão” assola até mesmo esse filme, que é essencialmente composto de caras maus, porque a ameaça contra a qual o Esquadrão precisa luta é a Magia (Cara Delevingne), uma feiticeira antiga que se alojou no corpo de uma jovem arqueóloga e planeja… espera, o que é mesmo que ela planeja? Construir uma máquina de algum tipo e criar soldados meio-répteis, meio-humanos para ajudá-la na missão de fazer a humanidade adorá-la como uma deusa, ou algo assim.

Delevingne está lamentável no papel da vilã, especialmente porque o filme não a permite ser nada melhor do que uma presença risível, com um visual que nem mesmo pode ser descrito como “estourado”, porque não parece consciente o bastante de si para isso. Adicione a isso o problema de que David Ayer simplesmente não faz ideia de como filmar uma cena de ação (diretor de fotografia Roman Vasyanov e editor John Gilroy não ajudam), e você tem a lista de defeitos de Esquadrão Suicida, que mesmo assim parece superar esses obstáculos pela pura força de seus personagens, ícones fascinantes da narrativa popular que tem muito a dizer sobre nossa relação com figuras heroicas e mitos de “salvadores”.

Assim como O Homem de Aço e Batman vs Superman, Esquadrão Suicida é um filme de super-herói incansável em sua contestação do próprio mito do super-herói, e há algo de definitivamente subversivo e flagrantemente fundamental nisso. Ao mostrar a visão dos vilões sobre os atos de gente como o Batman e o The Flash, Ayer criou uma fantasia em que o relativismo moral não parece algo forçado à narrativa, mas natural de sua própria concepção – com Esquadrão Suicida, a DC segue em seu caminho de não só desfazer as noções rígidas e conservadoras de bem e mal dentro da narrativa popular, mas de questionar porque diabos sequer as colocamos ali. É um empreendimento poderoso esse que a editora/estúdio está propondo, e a esperança é que as mudanças de comando nos bastidores e as críticas dos jornalistas especializados não a façam mudar de direção. Coragem sob fogo definitivamente é algo que a DC pode aprender com seus heróis (e vilões).

✰✰✰✰ (3,5/5)

suicide

Esquadrão Suicida (Suicide Squad, EUA, 2016)
Direção e roteiro: David Ayer
Elenco: Will Smith, Margot Robbie, Viola Davis, Jai Courtney, Joel Kinnaman, Jared Leto, Cara Delevingne, Jay Hernandez, Adam Beach, Scott Eastwood, Common, Karen Fukuhara, Kenneth Choi, Adewale Akinnuoye-Agbaje, Ezra Miller
123 minutos

2 de ago. de 2016

Diário de filmes do mês: Julho/2016

diário julho

por Caio Coletti

Nem todos os filmes merecem (ou pedem) uma análise complexa como a que fazemos com alguns dos lançamentos mais “quentes” ou filmes que descobrimos e nos surpreendem positivamente. É levando em consideração a função da crítica e da resenha como uma orientação do público em relação ao que vai ser visto em determinado filme que eu resolvi criar essa coluna, que visa falar brevemente dos filmes que não ganharam review completo no site. Vamos lá:

the guest

The Guest (EUA/Inglaterra, 2014)
Direção: Adam Wingard
Roteiro: Simon Barrett
Elenco: Dan Stevens, Maika Monroe, Brendan Meyer, Sheila Kelley, Leland Orser, Lance Reddick, Joel David Moore, Ethan Embry
100 minutos

Recentemente, o diretor Adam Wingard anunciou que seu projeto ultra-secreto anteriormente anunciado com o título The Woods é na verdade uma continuação de A Bruxa de Blair, neo-clássico de 1999, feita em segredo. Em uma edição anterior do boletim cinéfilo, já falamos do filme que mais qualifica Wingard como um mestre em formação da mistura de gêneros e especialmente do terror, o ótimo Você é o Próximo (veja o que dissemos aqui). Para continuar no pique, esse mês vimos The Guest, sua obra mais recente, e o filme nos fascinou, prendeu e divertiu de uma forma bem diferente do anterior.The Guest é um suspense oitentista em seu cerne, algo que fica claro na composição visual de seus materiais promocionais, na escolha do clímax, bizarramente passado em um labirinto decorado por uma escola para o Dia das Bruxas, e no desenrolar de sua trama. O estranho David (Dan Stevens) invade a vida da família Peterson dizendo que costumava conhecer o filho deles, que morreu na guerra – David foi antes à casa dos Peterson do que a qualquer outro lugar, e aos poucos vai se insinuando na rotina doméstica da família, conquistando de uma forma ou de outra as simpatias da mãe, a sofrida Laura (Sheila Kelley); do pai, o trabalhador Spencer (Leland Orser) e do filho mais novo, o jovem e inseguro Luke (Brendan Meyer).

Stevens está em estado de graça como o protagonista. O astro lançado por Downton Abbey, que em breve fará o príncipe Adam em A Bela e a Fera, mostra que tem faro para papeis diferentes, que exijam uma ameaça velada e um controle sutil – seu David não é nunca impositivo ou aterrorizante de forma explícita, é apenas uma presença penetrante cujas graças sociais, o espectador sabe, brotam de motivos desconhecidos e nada inocentes. Com um temperamento explosivo que não foge de ser sangrento quando precisa, The Guest é menos caloroso e mordaz do que Você é o Próximo, um filme de invasão domiciliar travestido de comédia de humor negro, mas é igualmente bem construído para seus propósitos. Absurdo, com um gosto apurado para o trash e o charme do cinema dos anos 80, o filme de Wingard reverte expectativas de familiaridade e brinca com aspectos sombrios da jornada de amadurecimento padrão de Hollywood. É a obra de um cineasta em crescimento, mas funciona.

✰✰✰✰ (3,5/5)

musaranas

Musarañas (Espanha/França, 2014)
Direção: Juanfer Andrés, Estevan Roel
Roteiro: Juanfer Andrés, Sofía Cuenca
Elenco: Macarena Gómez, Nadia de Santiago, Hugo Silva
91 minutos

Um thriller hitchcockiano de relações familiares femininas distorcidas, com aquelas mesmas pontas afiadas de psicossexualidade do velho mestre do suspense, adicionado a uma dose saudável de voyeurismo violento à la Quentin Tarantino – essa é a receita para Musarañas, o terror espanhol que serve como estreia da dupla Janfer Andrés & Estevan Roel na direção. Diminuir o filme às suas referências, no entanto, não é fazê-lo justiça: ele é também uma visceral análise do medo e de seus efeitos sobre o ser humano, da exasperante e sufocante sensação de mudança que se abate em uma geração que sacrificou sua própria independência em virtude das dificuldades da vida entre Guerras e ditaduras, e que agora, assim como a protagonista Montse, não se vê estimulado a sair de casa para encarar um ambiente que não deve lhe acolher. A agorafobia da personagem é uma manifestação desse medo geracional, e Musarañas reflete, em seu cenário único, ambiente claustrofóbico e clímax cheio de revelações devastadoras, uma situação muito maior que si. O blefe dos diretores e da co-roteirista Sofía Cuenca funciona, seja pela intensa dramaticidade dos acontecimentos ou pela riqueza de significados imbuídos neles.

Na trama, Montse (Macarena Gómez) é a irmã mais velha que, após a morte tanto do pai quanto da mãe da família, criou praticamente sozinha a irmã caçula, que permanece sem nome durante o filme (Nadia de Santiago). Quando a mais nova começa a ter desejos que muito ultrapassam a capacidade de controle de Montse, as coisas começam a desmoronar na família – especialmente após o vizinho de prédio Carlos (Hugo Silva) despencar da escada direto na porta da casa, e passar a depender de Montse para sobreviver. Musarañas toma seu tempo para desenvolver a trama, mas a tensão é palpável, em grande parte por conta da vigia estrita da protagonista sobre os passos da irmã, especialmente quando dentro da casa, visto que Montse é tomada por fobia paralisante quando tenta passar da porta da frente. Em atuação intensa, Gómez vai retirando as camadas protetoras de Montse com habilidade, e o filme se revela, em seu ritmo, uma bem-estudada história de horror com o potencial de marcar a memória do espectador.

✰✰✰✰ (3,5/5)

Hello-My-Name-Is-Doris

Hello, My Name is Doris (EUA, 2015)
Direção: Michael Showalter
Roteiro: Laura Terruso, Michael Showalter
Elenco: Sally Field, Max Greenfield, Stephen Root, Tyne Daly, Wendi McLendon-Covey, Kumail Nanijani, Elizabeth Reaser, Natasha Lyonne, Jack Antonoff, Beth Behrs
95 minutos

Sally Field é uma lenda viva, e uma das melhores atrizes americanas na ativa atualmente. Vencedora de dois Oscar, Field merece lugar entre as Meryl Streep’s, Jane Fonda’s, Jessica Lange’s e Glenn Close’s, mas por algum motivo, nos últimos anos, raramente vemos Sally em tela. Nos últimos seis anos, ela esteve só em quatro projetos – os dois O Espetacular Homem-Aranha, o drama Lincoln, e esse excêntrico Hello, My Name is Doris. Não é surpresa, portanto, que Field abrace com vontade a oportunidade de retratar uma personagem tão rica, envolvida em uma história tão raramente contada no cinema, e que lhe permite passear entre comédia física e escrachada (na qual Field é surpreendentemente excelente), construção de personagem cheia de minúcias e detalhes visuais, e drama pungente. Ela “muda de marcha” com a rapidez e a habilidade de uma profissional veterana, mas é na sua vivaz encarnação da trama e da personagem que mora o charme de Hello, My Name is Doris, que sem ela seria uma boa ideia desperdiçada por um roteiro que comete alguns tropeços aqui e ali.

Não nos leve a mal: o roteiro de Michael Showalter (Wet Hot American Summer) ao lado de Laura Terruso, de quem Showalter emprestou a premissa de um curta-metragem, é bem-intencionado e tem momentos de brilhantismo em sua delicadeza e óbvia afeição pelos personagens; a direção de Showalter também não deixa a desejar, encontrando pequenos momentos em que o visual auxilia a comédia tanto quanto o diálogo; Tyne Daly está tão incrível como a melhor amiga da protagonista quanto era de se esperar para uma vencedora de 6 prêmios Emmys; mas na trama sobre uma solteirona que acaba de perder a mãe a quem dedicou toda sua vida, e que decide investir em um crush que cultiva pelo colega de trabalho mais novo (Max Greenfield, fugindo habilidosamente do seu tipo normalmente mais antipático), é Field quem dá as cartas. É por ela que nos apaixonamos, e é através dela que entendemos essa história sobre uma nada comum, mas tremendamente viva, história de luto, superação e descobrimento.

Por conta de Sally Field, Hello My Name is Doris é belíssimo. Não são muitas atrizes por aí que tem esse tipo de poder sobre o filme em que atuam.

✰✰✰✰ (4/5)

let me in

Deixe-me Entrar (Let Me In, Inglaterra/EUA, 2010)
Direção: Matt Reeves
Roteiro: Matt Reeves, John Ajvide Lindqvist
Elenco: Kodi Smit-McPhee, Chlë Grace Moretz, Richard Jenkins, Cara Buono, Elias Koteas, Richie Coster, Dylan Minnette
116 minutos

Em tempos de Stranger Things, Deixe-me Entrar, o remake americano do neo-clássico sueco de mesmo nome, está prontinho para ser redescoberto por uma audiência faminta por mais histórias de suspense focadas em protagonistas mais novos, que lidam com um ambiente oitentista e fazem referência à forma de contar histórias da época. O filme de Matt Reeves se passa na época de Reagan, quando o medo e o patriotismo andavam de mãos dadas, e os americanos só confiavam no que era familiar – ironicamente, o filme é também uma triste documentação de infâncias e juventudes negligenciadas justamente por aqueles que deveriam chamar de família. No enquadramento de Reeves e do diretor de fotografia Greig Fraser, o rosto da mãe de Owen (Kodi Smit-McPhee), sempre envolvida em brigas com o ex-marido e com um copo de vinho em mãos, praticamente não é visto, e não é por acaso. Os relacionamentos mais significativos e abertos de Owen são com a jovem Abby (Chloe Grace Moretz), uma estranha nova vizinha de prédio, e com os colegas de classe, especialmente o insistente bully feito por Dylan Minnette (Goosebumps). No filme de Reeves, essas crianças são o que são pelo que deixaram de receber, e não pelo que receberam, de seus pais – é um retrato deprimente e gelado, como os arredores do filme.

O filme pulsa também, no entanto, com uma ambiguidade de quebrar o coração, uma mistura do maligno com o fundamentalmente puro que não é nem um pouco estranha a quem passou pela infância e adolescência. “Eu lembro-me de minha infância vividamente. Eu sabia de coisas terríveis”, como disse o autor Maurice Sendak (Onde Vivem os Monstros) uma vez – essa aguda percepção infantil, esse olhar para o que há de mais amargo e mais assustador do mundo, transpira de Deixe-me Entrar, um filme espetacularmente bem escrito que nem sempre encontra o tom certo para funcionar por completo, mas que sem dúvida merece ser assistido. Mesmo que seja só pelas performances complementares e profundas de Smit-McPhee e Moretz, em sintonia perfeita entre si e com o filme ao seu redor, criando uma identificação e comunicação com o espectador que às vezes o próprio diretor Reeves esquece de estabelecer.

✰✰✰✰ (3,5/5)

16 de jul. de 2016

Diário de filmes do mês: Junho/2016

Downloads38

por Caio Coletti

Nem todos os filmes merecem (ou pedem) uma análise complexa como a que fazemos com alguns dos lançamentos mais “quentes” ou filmes que descobrimos e nos surpreendem positivamente. É levando em consideração a função da crítica e da resenha como uma orientação do público em relação ao que vai ser visto em determinado filme que eu resolvi criar essa coluna, que visa falar brevemente dos filmes que não ganharam review completo no site. Vamos lá:

exame

Exame (Exam, Inglaterra, 2009)
Direção e roteiro: Stuart Hazeldine
Elenco: Adar Beck, Gemma Chan, Nathalie Cox, John Lloyd Fillingham, Chukwudi Iwuji, Pollyanna McIntosh, Luke Mably
101 minutos

Há um apelo muito básico na premissa de Exame, filme britânico de 2009 que vem rodando pelo circuito dos admiradores de suspenses e ficções científicas independentes: basicamente, o filme se concentra em apenas uma sala de reunião de uma grande empresa, onde oito candidatos a um emprego inacreditavelmente almejado passam por seu último teste, que consiste em só uma pergunta. Ou quase isso. Conforme o filme vai evoluindo nas mãos do diretor/roteirista Stuart Hazeldine, influências da ficção científica futurista vão se revelando, e algumas reviravoltas interessantes são aplicadas, mas Exame nunca se mostra um filme com algo a dizer. E é essa a coisa interessante sobre a ficção científica: se você não tem nada a dizer, todo e qualquer esforço para engajar o espectador parece em vão. Bem planejada, com um espírito metódico que precisa ser admirado, e até boas atuações, Exame triunfa como produto de cinema mas falha miseravelmente como produto de narrativa. Não que haja algo de inerentemente errado nas habilidades de Hazeldine como contador de histórias – o problema é que ele não está conduzindo uma que tenha qualquer objetivo a não ser chocar e surpreender. Não há nada de errado em gostar de Exame, mas é indiscutível que ele não merece estar nos rankings ilustres das boas ficções científicas e mistérios que vimos sair recentemente do cinema independente.

O único fio interessante de narrativa que existe no filme é a oposição entre individualismo e comunidade, especialmente em tempos de crise, como modos de vida. Luke Mably e Chukwudi Iwuji fazem um dueto interessante de atuações, e são assistidos de forma perfeitamente capaz pelo elenco coadjuvante, especialmente Adar Beck e Nathalie Cox como as duas principais personagens femininas da confinada trama. O problema é que Exame abandona essa reflexão em favor de um twist de narrativa perto do final, que coloca em perspectiva os acontecimentos e resolve valorizar uma trapaça (e uma questão técnica) na sua resolução do dilema da premissa. Promissor, mas fazendo muitas escolhas erradas, Exame segue como testemunho do potencial de um cineasta que ainda não ofereceu uma segunda obra.

✰✰✰ (3/5)

john wick

De Volta ao Jogo (John Wick, EUA, 2014)
Direção: Chad Stahelski, David Leitch
Roteiro: Derek Kolstad
Elenco: Keanu Reeves, Michael Nyqvist, Alfie Allen, Willem Dafoe, Dean Winters, Adrienne Palicki, Bridget Moynahan, John Leguizamo, Ian McShane, Lande Reddick
101 minutos

Em direta oposição ao item anterior do nosso diário, De Volta ao Jogo tira muito crédito do fato de que não ambiciona nenhum significado maior para sua trama de vingança. Keanu Reeves empresta credibilidade (é sério!) ao papel de John Wick, um ex-assassino da máfia russa que, após o filho de um chefão do crime invadir sua casa, matar seu cachorro (!) e danificar seu carro, parte em uma missão violenta de vingança que o coloca de volta em um mundo do qual saiu para construir uma família. Sim, o cachorro era o presente deixado para trás pela esposa falecida de Wick, e há uma exploração interessante da dinâmica de um assassino de aluguel voltando para um ambiente que não desperta o melhor de si, mas De Volta ao Jogo é largamente um pastiche das convenções do gênero e do poder visceral da violência midiática em aumentar a nossa própria adrenalina. Parte da excelência do filme tem a ver com a direção de Chad Stahelski, um ex-coordenador de dublês que faz das brutais cenas de ação de De Volta ao Jogo não só momentos críveis em que um homem leva a melhor sobre muitos outros, como cria imagens indeléveis que vão ficar na memória do espectador, e especialmente dos fãs de ação.

John Wick é também um daqueles papeis para os quais Keanu Reeves parece ter nascido. Nosso argumento não é contradizer a crítica e saudar Reeves como um grande ator, mas há algo no seu porte, na sua linguagem corporal e no seu estilo particular de atuação que o faz particularmente apropriado para papeis icônicos, calcados em apelos visuais e histórias básicas. É por isso que ele foi um grande Neo, um grande John Constantine, e agora John Wick – Reeves não arquiva uma atuação expressiva ou excelente, mas sua imagem por algum motivo entra imediatamente no inconsciente coletivo da cultura pop. Camisetas de John Wick poderiam ser vendidas por aí, e seria imediatamente reconhecível. De Volta ao Jogo é em parte sobre não levar os filmes de ação à sério demais, em parte sobre colocar o foco de volta na excelência de facto das cenas de adrenalina, e em parte uma exploração venerável dos clichês do gênero.

São 101 minutos de sólidos entretenimento, e a vindoura continuação é mais do que merecida.

✰✰✰✰ (4/5)

alexander

Alexandre e o Dia Terrível, Horrível, Espantoso e Horroroso (Alexander and the Terrible, Horrible, No Good, Very Bad Day, EUA, 2014)
Direção: Miguel Arteta
Roteiro: Rob Lieber, baseado no livro de Judith Viorst
Elenco: Steve Carell, Jennifer Garner, Ed Oxenbould, Dylan Minnette, Kerris Dorsey, Bella Thorne, Megan Mullally, Donald Glover
81 minutos

O título engraçadinho de Alexander e o Dia Terrível, Horrível, Espantoso e Horroroso não colou tão bem com o público do cinema quanto aconteceu com os leitores de literatura infantil, de onde vem a história adaptada pelo roteirista Rob Lieber (The Goldbergs). A bilheteria fraca e as más críticas não são totalmente merecidas, no entanto, visto que esse é um dos mais inofensivos, e de fato bastante divertidos, filmes saídos da divisão não-animada da Disney nos últimos anos. Com uma mensagem bonitinha sobre aceitação dos aspectos negativos da vida, um elenco talentoso e várias piadas que funcionam em graus variados, Alexander não é nem de longe tão terrível, horrível, espantoso e horroroso quanto o dia vivido pela família Cooper, tudo porque o filho mais novo, o azarado Alexander, deseja que todos os outros membros de sua casa vivam pelo menos um dia no seu lugar. O pai desempregado, Ben (Steve Carell), tem problemas numa entrevista de emprego quando precisa levar o filho bebê, Trevor; a mãe, a executiva de uma editora de livros infantis Kelly (Jennifer Garner), passa por uma situação complicada quando um erro de impressão arruína um lançamento; a filha Emily (Kerris Dorsey), atriz, acorda com um resfriado no dia em que deve se apresentar como Peter Pan; e o filho Anthony (Dylan Minnette) perde a namorada no dia da formatura.

O restante das viradas desafortunadas da família durante o dia são a graça do filme, que encontra maneiras de mantê-los unidos mesmo com o mundo desmoronando nos seus arredores. O diretor Miguel Arteta (Por Um Sentido na Vida) não tem um trabalho muito complexo a fazer, mas falha no sentido de não injetar criatividade no visual do filme, que depende inteiramente do talento de seus atores para manter o espectador entretido. Sorte que Carell e Garner estão em excelentes momentos, e que o trio de atores mirins entrega performances interessantes e cativantes, buscando um equilíbrio que não os transforme em caricaturas de si mesmos. Como filme da Disney, Alexander guarda valores que cheiram a conservadorismo, mas os momentos em que deixa esses valores passar são escorregões menores em um todo perfeitamente adorável.

✰✰✰ (3/5)

conjuring

Invocação do Mal (The Conjuring, EUA, 2013)
Direção: James Wan
Roteiro: Chad Hayes, Carey Hayes
Elenco: Vera Farmiga, Patrick Wilson, Lili Taylor, Ron Livingston, Joey King, Mackenzie Foy
112 minutos

James Wan não é o mestre do terror moderno que boa parte da crítica e do público desavisado parece achar que ele é. O diretor malaio é um artesão habilidoso, que conhece e respeita convenções do gênero, e por isso conseguiu se infiltrar em Hollywood. Seus filmes são como refeições básicas bem preparadas, feitos com um senso de narrativa e de provocação de tensão antiquado e fascinante, que se apoia em trabalhos sempre impecáveis de design de produção, trilha-sonora, fotografia, maquiagem, figurino e atuação para levar o espectador em uma jornada convencional que mesmo assim assusta, e até emociona. No fundo, Invocação do Mal é uma bela história sobre a união de uma família diante de uma ameaça que pretende voltá-la contra si mesma. É A Entidade ao contrário, com uma conexão emocional mais profunda e calorosa com seus personagens.  Invocação do Mal não reinventa a roda – de fato, James Wan nunca quis reinventá-la, e talvez por isso incomode saber que, com uma geração incrível de cineastas de terror fazendo filmes que se tornarão clássicos cult como Corrente do Mal (David Robert Mitchell), A Bruxa (Robert Eggers) e O Babadook (Jennifer Kent), Wan ainda seja o máximo que muitos espectadores tenham de contato com o horror de qualidade – uma pena, mas melhor do que nada.

Invocação do Mal, para o qual cheguei uns bons anos atrasado, desvenda um dos casos dos prestigiados “ocultistas” Ed e Lorraine Warren, aqui interpretados por Patrick Wilson e Vera Farmiga. Espécies de celebridades no mundo das investigações paranormais, os dois se aproximam de uma família que acabou de se mudar para uma velha casa – a mãe, Carolyn (Lili Taylor), está sentindo coisas estranhas, e várias das filhas tiveram bizarras visões durante a noite. Há algo de profundamente artístico na forma como Invocação nos conduz pelos corredores, escadas e cômodos da casa em questão, numa câmera fluída que nos apresenta um ambiente inteiramente idealizado e construído com um olho cirúrgico para a percepção espacial que é importante à história. A casa habitada pela família Perron é quase um personagem, e isso não é uma forma metafórica de dizer que ela é um elemento importante – na câmera de Wan e do diretor de fotografia John R. Leonetti, ela parece respirar e nos conduzir por ela tanto quanto os humanos.

Enquanto isso, Farmiga e Taylor seguram firmemente o centro emocional do filme, em um par de performances que esbanja garra, sensibilidade e fisicalidade. Sem elas, Invocação jamais funcionaria como funciona, nos níveis mais básicos de percepção e compreensão do espectador. Nem todo mundo precisa revolucionar o cinema, e Wan certamente entrega uma bela obra aqui.

✰✰✰✰ (4/5)

krampus

Krampus: O Terror do Natal (Krampus, EUA, 2015)
Direção: Michael Dougherty
Roteiro: Todd Casey, Michael Dougherty, Zach Shields
Elenco: Emjay Anthony, Adam Scott, Toni Collette, Krista Stadler, Conchata Farrell, Allison Tolman, David Koechner
98 minutos

Michael Dougherty é um cineasta e roteirista cuja carreira vale a pena seguir de perto. Após trabalhar escrevendo X-Men 2 e Superman: O Retorno para Bryan Singer, Dougherty mostrou sua preferência pelo cinema de terror ao estrear na direção em Contos do Dia das Bruxas, uma narrativa episódica interconectada que fazia troça e levava a sério, ao mesmo tempo, várias convenções do gênero, produzindo uma bela peça de sátira que essencialmente funcionava como terror também. Oito anos depois, ele retorna com Krampus: O Terror do Natal, mais um filme de horror que parecia destinado a atingir um equilíbrio parecido – mas Dougherty gosta mesmo é de surpreender o espectador, e Krampus é zombeteiro e divertido de uma forma  muito mais destacada do que Contos do Dia das Bruxas jamais sonharia em ser. Apoiado em um trabalho de confecção de bonecos e animatronics que não se via no cinema desde que as produções da Jim Henson Company deixaram de ser moda em Hollywood para o domínio do CGI, Krampus é um filme deliciosamente lunático e cínico, com um olhar inteligente para as idiossincrasias de seus personagens e de sua conexão como unidade familiar, mas nunca cedendo a quaisquer impulsos de pieguice ou redenção. Krampus é cruel, sombrio e bizarro, como uma daquelas curiosidades macabras da Sessão da Tarde dos anos 90 que hoje em dia nos faz perguntar: como diabos isso passava na TV durante o dia?

Na trama, um garoto (Emjay Anthony) que ainda acredita no Papai Noel acaba se frustrando com os diferentes problemas de sua família infernal, e pica a sua cartinha para o padroeiro do Natal em pedaços, atirando-a pela janela. Inadvertidamente, o moleque invocou o espírito maligno conhecido como Krampus, um antigo demônio natalino da mitologia alemã que era uma espécie de sombra malévola do Papai Noel. É a deixa da qual o filme precisa para desfilar biscoitos natalinos revoltados e bichos bizarros de toda sorte à frente do espectador, enquanto atores como Adam Scott, Toni Collette e Conchata Farrell se divertem com “cenas de ação” maldosas e um roteiro que se delicia com o desajuste essencial da família que retrata. Dougherty acertou de novo na alquimia de seu novo filme, mesmo que ainda falte um pouco para que consiga explorar de fato o potencial cômico, assustador e metalinguístico de seu trabalho.

✰✰✰✰ (3,5/5)

kill list

Kill List (Inglaterra, 2011)
Direção: Ben Wheatley
Roteiro: Ben Wheatley, Amy Jump
Elenco: Neil Maskell, MyAnna Buring, Michael Smiley, Emma Fryer
95 minutos

Kill List é um filme incômodo. Não só porque subverte algumas regras fundamentais da nossa presunção de como cinema deve ser feito, mas porque é deliberadamente desenhado para isso. A direção de atores do cineasta Ben Wheatley convida à proximidade, mas seu roteiro ao lado de Amy Jump parece nos afastar, enquanto a edição, também por conta dos dois, nos desorienta. Kill List é um filme súbito e lento, complexo e desconcertantemente simples, praticamente indecifrável (mas facilmente compreendido). Os diálogos entreouvidos, a dicção difícil dos protagonistas, a fotografia quente e sensitiva, a virada brusca no terceiro ato que nos leva a um final estranhamente satisfatório – e tremendamente perturbador. Como qualquer filme de suspense, Kill List nos diz que há algo errado desde o começo, em pequenos momentos, mas quando a trama se revela o espectador mesmo assim é pego de surpresa, porque Wheatley quietamente nos conduziu à familiaridade, para nos tirar radicalmente dela (ou melhor ainda, para nos mostrar como ela é sombria). Em sua história sobre o assassino de aluguel e veterano de guerra Jay (Neil Maskell), que aceita uma nova missão após uma briga com a esposa, Shel (MyAnna Buring, excelente), Kill List nos deixa intuir muito, do passado dos personagens aos seus pensamentos e relações mais profundas, e essa indução de um sentimento de fidelidade ao real torna a introdução do sinistro no terceiro ato do filme uma jogada muito mais chocante.

O filme é também uma temerosa meditação sobre o ato de matar, as marcas profundas que ele deixa no ser humano e o que acontece quando essas marcas, pelo cansaço, se tornam invisíveis ou impossíveis de se perceber. Kill List não é um filme insensível, mas é um filme sobre um homem insensibilizado pelas circunstâncias, e vive especialmente na tragédia da interpretação de Michael Smiley (Gal) uma consciência profunda das sombras e da paranoia que mora dentro da torturada alma humana capaz de matar. De sua forma desconcertante, Kill List é um filme sobre transtornos psicológicos traduzidos em violência, e acha em seu final recheado pela sombra de uma teoria de conspiração que cerca o protagonista uma forma de expressar a sua completa solidão. O filme de Wheatley é uma viagem psicológica muito mais do que é uma viagem prática – e é isso que o torna especial, e unicamente inesquecível.

✰✰✰✰ (4/5)

hush

Hush: A Morte Ouve (Hush, EUA, 2016)
Direção: Mike Flanagan
Roteiro: Mike Flanagan, Kate Siegel
Elenco: Kate Siegel, John Gallagher Jr, Michael Trucco, Samantha Tyson
81 minutos

Kate Siegel está extraordinária em Hush, novo terror do diretor Mike Flanagan, seu respiro em mais uma produção independente antes de assumir o bem mais estrelado O Sono da Morte, que estreia em setembro no Brasil. Flanagan é um mestre em formação do gênero, mais que gabaritado depois dos excelentes Absentia e O Espelho – mas é Siegel quem brilha em Hush, um tremendamente bem construído thriller que se equilibra nas pontas dos dedos da atriz, interpretando aqui uma escritora surda que mora sozinha e vê sua casa sendo atacada por um maníaco mascarado (John Gallagher Jr, em excelente forma também). Pouco conhecida como atriz – e casada com o diretor –, Siegel entrega uma atuação de instinto e expressividade absurdas, que enfrenta os desafios físicos do roteiro sem esforço e faz de sua personagem uma figura verdadeira icônica. Flanagan não é muito dado a peripécias visuais quadrinescas, mas mesmo assim é fácil imaginar Kate – ou melhor, sua personagem Maddie – em um pôster no quarto de algum fã de terror inspirado pela história de resiliência. Das final girls dos filmes de assassino recentes, Siegel é a mais intensa e conscientemente construída como um indivíduo crível, mesmo que passe por situações que extrapolam os limites do fisicamente suportável durante o filme. Injetados de adrenalina, é possível que ela e o espectador nem percebam que Flanagan estica um pouco os limites do realismo em seu roteiro.

E se não percebemos, é porque Flanagan, mais um exemplo de diretor que toma as rédeas da edição de seus próprios filmes, constrói um quebra-cabeças excitante e agonizante em Hush, explorando o seu único cenário com maestria e trabalhando ao lado da fotografia e da trilha-sonora para criar momentos de pico por todo o filme, que o impedem de parecer monótono ou repetitivo. O confronto entre Maddie e seu algoz é convincente e fascinante porque os dois se vêem e se comunicam com clareza, porque o “plano” e o objetivo do assassino é cruelmente simples, e porque Flanagan o dirige. Colocado em uma casa que é praticamente uma gaiola de vidro (mas não da forma óbvia com a qual alguns terrores trabalham), Hush é um exercício de tensão sustentada que sai de seus rápidos 81 minutos triunfante. E é, obviamente, uma tour de force pelos recursos de Siegel, que parece ser tão talentosa quanto o marido.

✰✰✰✰ (4/5)

angry birds

Angry Birds: O Filme (Angry Birds, EUA/Finlândia, 2016)
Direção: Clay Kaytis, Fergal Reilly
Roteiro: Jon Vitti
Elenco: Jason Sudeikis, Josh Gad, Danny McBride, Maya Rudolph, Bill Hader, Peter Dinklage, Sean Penn, Keegan-Michael Key, Kate McKinnon, Tony Hale, Hannibal Buress, Ike Barinholtz, Tituss Burgess, Blake Shelton, Charli XCX
97 minutos

Quando um filme baseado no jogo que virou mania na internet (em 2012) foi anunciado, não houve uma alma que tenha ficado animada com a perspectiva. Um filme dos Angry Birds não só parecia fora de época, como principalmente parecia ser uma decisão mercadológica muito mais do que criativa. O jogo original simplesmente não trazia uma história, que dirá uma forte o bastante para sustentar um filme, e a “adaptação” teria que conjurar não só a trama como personagens carismáticos e tridimensionais para convencer e engajar o público. Angry Birds: O Filme, como escrito por Jon Vitti, não faz um trabalho decente em nenhuma dessas coisas, mas arquiva um insight de brilhantismo que aparece perto do final do filme: a canalização da “raiva” dos tais pássaros do título em uma busca por recuperar o que era seu e foi roubado pelos porcos invasores. Por um breve momento, Angry Birds se coloca como uma aventura infantil sobre o valor da raiva, da desconfiança e do cinismo como qualidades adultas, e sobre a crença cega em ideais e a docilidade exagerada como fraquezas de uma sociedade que se deixa ser abusada. É um mero vislumbre durante o filme, mas está ali – pena que o roteirista Vitti (Alvin e os Esquilos) não está atento o bastante para aproveitar a metáfora ao máximo.

O elenco de vozes do filme também traz alguns momentos cômicos bem elaborados: não tanto o protagonista Jason Sudeikis, mas os coadjuvantes Danny McBride (Bomb), Maya Rudolph (Matilda) e Peter Dinklage (Mighty Eagle). A aventura do mal-humorado pássaro Red, que é o único a enxergar às más intenções de um povo de porcos que chega na terra dos pássaros certo dia, é insossa e tem poucos momentos de brilhantismo, talvez com a exceção de algumas piadas mais adultas que funcionam. Em um nível infantil, o filme também não funciona – um exagero de cores primárias e design de personagem ainda mais simplista que deve cansar as crianças facilmente. Coloque seus pirralhos para assistir Divertida Mente, que tanto eles quanto você vão ganhar mais.

✰✰ (2/5)

whiskey

Uma Repórter em Apuros (Whiskey Tango Foxtrot, EUA, 2016)
Direção: Glenn Ficarra, John Requa
Roteiro: Robert Carlock, baseado no livro de Kim Baker
Elenco: Tina Fey, Margot Robbie, Martin Freeman, Alfred Molina, Christopher Abbott, Billy Bob Thornton, Nicholas Braun, Josh Charles, Cherry Jones
112 minutos

Com toda a sinceridade do mundo: este que vos fala não consegue deixar de ver algo especial em Tina Fey. A forma como a ex-etrela do Saturday Night Live escolhe projetos que realçam sua inteligência como atriz e sua destreza em piadas mais sutis, assim como sua fácil navegação por emoções mais complexas, é simplesmente única. Uma Repórter em Apuros é parte dessa trajetória, e é excitante poder observá-la tomar forma. A história real de uma jornalista que passou anos a fio como correspondente de guerra no Afeganistão é uma oportuna e inteligente meditação sobre a humanidade que sobrevive em uma situação de guerra – o humor, o romance, o deboche e a compaixão que existe ali, entre pessoas de origens, posições sociais e visões políticas diferentes. No entanto, o filme nunca perde de vista a situação de violência em que a personagem de encontra, e não banaliza ou futiliza essa violência. Em Uma Repórter em Apuros, a mesma humanidade capaz de empatia e humor é capaz de atos horrendos e inconsequentes em nome de uma ideologia que nem mesmo é sua. Cheio de atuações uniformemente excelentes (Margot Robbie, Martin Freeman, Alfred Molina, Christopher Abbott, Billy Bob Thornton) e uma direção sensível que trabalha ao redor dessas performances, é um filme que merece muito mais crédito do que teve na época de seu lançamento.

Nas mãos de Fey, a jornalista Kim Baker se torna uma mulher de cantos arredondados. Aqui, ela não é garota festeira e irresponsável de Irmãs, a nerd autoritária de 30 Rock, a paranoica e frustrada professora de A Seleção – incansavelmente sagaz mesmo quando está se sentindo absurdamente deslocada, Baker ganha um brilho nos olhos de ambição na interpretação de Fey, mas a atriz também entende que o arco da personagem no ótimo roteiro de Robert Carlock é um em que ela aos poucos se acostuma com os riscos e a situação na qual ela vive no Afeganistão. Uma Repórter em Apuros faz um caso veemente contra a “normalidade” de qualquer situação de guerra, e espelha a jornada de sua protagonista (com todas as suas inteligentes e divertidíssimas paradas humorísticas) na de todos os outros ao seu redor, e na forma como cada um lida com isso. É um pedaço de cinema importante, como os outros que Fey produziu até hoje.

✰✰✰✰ (4/5)

16 de jun. de 2016

Review: Infinitamente imaginativo, Midnight Special é um trabalho de pleno domínio cinematográfico

midnight

por Caio Coletti

A época que estamos vivendo para a ficção científica só é comparável à época que estamos vivendo para o cinema de terror. Um resgate de técnicas e elementos clássicos que, mesmo nesse processo, ainda traz uma quantidade considerável de modernidade e ar fresco ao gênero, o novo cinema de sci-fi é obra de cineastas independentes e jovens, que renovam os rankings de Hollywood com seus sucessos inesperados e logo ganham atenção dos grandes estúdios. Jeff Nichols, embora esteja só agora investindo na ficção científica, se mostrou rapidamente um desses novos talentos – no tenso O Abrigo, no thriller criminal Amor Bandido, e agora na sci-fi Midnight Special (no Brasil, Destino Especial). Nichols é um daqueles cineastas que fazem um filme respirar sem precisar de grandes acrobacias narrativas e técnicas. Não muito diferente do que faz Spielberg, Nichols frequentemente se apropria de uma história de gênero e a coloca em filme de forma única, trabalhando temas, pesando e equilibrando revelações e mistérios com maestria.

Midnight Special é uma ficção científica no sentido mais colateral da palavra, no entanto. Sua história é sobre um garoto com habilidades especiais (não como um super-herói, como uma singularidade genética ou algo assim) cujo pai, feito por Michael Shannon, o “sequestrou” de um culto localizado em um rancho, onde o garoto viveu durante a vida toda, sendo seguido e adorado por centenas de pessoas. O pai e o menino precisam estar em determinado local, em determinado dia e horário, e tem ajuda tanto da mãe (Kirsten Dunst) quanto de um amigo que foi “convertido” pelo garoto (Joel Edgerton). O jovem Jaeden Lieberher rouba a cena de todos os atores adultos na pele do pequeno Alton, extraordinariamente contido e comprometido com o peculiar clima e proposta de Midnight Special, que é menos uma exploração das possibilidades abertas pela existência de algo fora da nossa realidade (como é a definição clássica da ficção científica), e mais uma meditação sobre a capacidade humana de acreditar.

O roteiro de Nichols contempla mais possibilidades de crenças do que a crença religiosa, no entanto. Aliás, se Midnight Special toma alguma posição quanto à religião organizada, não é uma posição muito favorável – seu olhar sobre o líder e os membros do tal “rancho” onde o menino esteve durante a infância é um que condena seus métodos e suas formas de acreditar, de usar a crença para exercer controle, de desconsiderar a humanidade de cada um pela unidade de um todo. Nichols deposita fé imensa na nossa capacidade de crer para além desses limites, no entanto, e quando Midnight Special mostra o seu protagonista mirim lendo os quadrinhos do Superman, não é a toa – existe um conflito interminável entre fantasia e realidade dentro do filme, e Nichols parece crer que esse conflito existe no mundo real também. O universo particular e íntimo que ele constrói com sua trama, que se desenvolve e se revela de maneira quase lúdica ao espectador, é um em que as duas coisas podem coexistir, metafórica e literalmente.

Trabalhando o lado do diretor de fotografia Adam Stone (Obediência), seu parceiro desde o primeiro filme da carreira, Nichols cria um filme que esconde sua beleza e seu lirismo visual por baixo de uma camada de realismo que não permite tomadas plasticamente desenvolvidas, mas as encontra nos lugares mais improváveis. Assistido por uma trilha-sonora espertamente repetitiva e evocativa de David Wingo (Especialista em Crise), Nichols cria um filme tão peculiar quanto é classicista, que usa de movimentos, ângulos e estruturas testadas e aprovadas para criar um todo que é surpreendentemente contemporâneo, calcado na linguagem independente, que não faz concessões ao sistema dos grandes estúdios hollywoodiano. Midnight Special é uma carta de amor à infinita imaginação humana, e à nossa capacidade de trazer obstinadamente essas fantasias à vida, e é também o produto de um cineasta em pleno domínio de sua arte. Nos próximos anos de cinema, fica uma dica valiosa: não tire os olhos de Jeff Nichols.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

midnight special

Midnight Speacial (EUA, 2016)
Direção e roteiro: Jeff Nichols
Elenco: Michael Shannon, Joel Edgerton, Kirsten Dunst, Jaeden Lieberher, Adam Driver, Sam Shepard, Paul Sparks, Bill Camp
112 minutos