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23 de ago. de 2015

Review: A TV alemã se destaca com a brilhante “Deutschland 83”

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por Caio Coletti

Há quem diga que a era de ouro da produção televisiva já acabou, se concentrando entre o final da década de 90 e o começo dos anos 2000, e dando seus últimos respiros nos anos seguintes à decisiva greve dos roteiristas de 2007/2008. É impossível ignorar, no entanto, que a expansão do público (em grande parte obtido nessa mesma época, é verdade) abriu espaço para que a produção de televisão de qualidade, seja essa qualidade ajustada ao padrão das emissoras a cabo americanas ou não, atravessasse gêneros, estilos e, mais recentemente, fronteiras internacionais. Não basta mais se manter atualizado na vastidão de boas séries americanas para se considerar por dentro daquilo que é feito de bom em termos de televisão na nossa época – a canadense Orphan Black, a francesa Les Revenants e um leque amplo de produções britânicas formam apenas as referências internacionais mais básicas do momento. A Alemanha entrou nessa dança com Deutschland 83, thriller de espionagem com ambientação durante a Guerra Fria que foi comprado pelo SundanceTV para exibição em terras americanas e, consequentemente, conquistou o mundo.

As críticas rasgadamente elogiosas refletem o trabalho esperto dos developers Anna e Jorg Winger, que tecem os oito episódios dessa temporada de estreia com o cuidado de fazê-la uma história bastante contida em si mesma, mas que ao mesmo tempo deixa abertura para uma continuação caso ela aconteça. Fugindo um pouco da gravidade e seriedade de The Americans, uma outra série genial (de forma diferente) sobre o mesmo período histórico, Deutschland 83 é um tomo de amadurecimento que costura habilidosamente as lealdades e humores oscilantes de seus personagens com o contexto histórico, capturando com precisão a pluralidade e a essencial perplexidade com as quais seus protagonistas encarnam esse mundo em constante mutação e estado nervoso de alerta no qual estão crescendo. Fazendo uso delicioso da trilha-sonora composta de sucessos e lados-B dos anos 70/80 e com uma direção direta e elegante que é típica da forma alemã de fazer ficção, Deutschland 83 é uma história tensa e por vezes violenta, mas carregada com certa leveza dramática que a faz fácil de assistir – e, por isso, ainda mais envolvente.

A trama começa com uma premissa simples: o jovem soldado da Alemanha oriental comunista Martin (Jonas Nay, excelente) é recrutado contra a vontade pelo serviço secreto do país para infiltrar-se sob uma identidade falsa em um quartel do exército da Alemanha ocidental capitalista. Ele deixa para trás a mãe doente (Carina N. Wiese) e a namorada grávida (Sonja Gerhardt), provando das delícias do modo de vida capitalista enquanto realiza missões arriscadas que envolvem se aproximar do poderoso general do quartel (Ulrich Noethen) e de seu filho com ideias pacifistas (o ótimo Ludwig Trepte). O elenco jovem brilha mais que os veteranos em Deutschland 83, em grande parte porque a série cuidadosamente se estrutura ao redor deles, das suas tribulações e do turbilhão de ideias e emoções que passam por essas mentes ainda em processo de formação, especialmente quando deparadas com o mundo complexo e polarizado da Guerra Fria. Nay e Trepte funcionam muito bem em cena juntos, e ainda melhor quando confrontados com os personagens das gerações anteriores – a conflituosa relação entre o jovem Alex Edel (Trepte) e seu pai general é um dos elementos mais marcantes e frutíferos de Deutschland 83.

De certa forma, todos os jovens dessa produção alemã estão lutando para deixarem de ser como seus pais, saibam eles disso ou não. A narrativa da série até resvala em outros temas, gastando bastante tempo para nos explicar a política da quase-guerra entre comunistas e capitalistas e fazendo um retrato ácido das impulsividades que muitas vezes governavam esse mundo à beira do precipício, mas seu centro sempre está na jornada de crescimento de Martin, Alex, Yvonne (Lisa Tomaschewsky) e coadjuvantes sortidos. Quando precisa fazer cenas de ação (e elas são poucas, mas todas invariavelmente empolgantes), a série conduzida pelo casal Winger confia na perícia quase cruel dos diretores Edward Berger e Samira Radsi – eles arquivam trabalhos espetaculares em todos os episódios, especialmente em “Brave Guy” (1x02) e “Able Archer” (1x08), respectivamente.

Tirando do caminho a rede complicada de metáforas e significações que caracteriza a maioria das grandes séries americanas, Deutschland 83 conta a sua história com ímpeto, confiança e alguma coragem, deixando finais abertos que não depõem contra a série mesmo que ela não ganhe uma segunda temporada. Pelo menos nesse compromisso ferrenho com sua própria narrativa e sua própria visão, Deutschland 83 tem bastante a ensinar para muitos títulos celebrados da televisão ianque.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

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Detuschland 83 (Alemanha, 2015)
Direção: Edward Berger, Samira Radsi
Roteiro: Anna Winger, Jorg Winger
Elenco: Jonas Nay, Ludwig Trepte, Ultich Noethen, Sonja Gerhardt, Maria Schrader, Sylverster Groth, Alexander Breyer, Lisa Tomaschewsky, Carine N. Wiese
8 episódios

19 de ago. de 2015

Review: “Lugares Escuros” é um bom neo-noir que se beneficiaria com um pouco mais de ambientação

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por Caio Coletti

Lugares Escuros passou nada usuais 15 meses na mesa de edição. Com a ajuda dos editores Douglas Crise (Birdman) e Billy Fox (Footloose), o diretor Gilles Paquet-Brenner (A Chave de Sarah) obsessivamente cortou e recortou o seu thriller baseado na obra original de Gillian Flynn, que se tornou uma das queridinhas de Hollywood no ano passado quando escreveu a adaptação de seu romance Garota Exemplar para as telas. O resultado desse processo todo é que Lugares Escuros é um filme de quase duas horas que pede desesperadamente por pelo menos mais uns bons 30 minutos para nos localizar como espectadores dentro da história e do clima do mundo onde ela é localizada. Talvez vítima de uma sensibilidade que não tem a economia e a eficiência implacável de um David Fincher (diretor de Garota Exemplar), o francês Brenner entrega um drama de suspense com o tom de gravidade certo, uma visão bem clara dos temas e elaborações da trama, um bom olho para as atuações, e que merece ser visto – mas que é bastante deficiente em termos de ambientação.

A trama é protagonizada por Abby Day (Charlize Theron), mais uma das protagonistas femininas dúbias e fortes da escritora Flynn. Nesse caso, Abby é a única sobrevivente de um massacre que ocorreu na fazenda de sua família quando ela tinha apenas sete anos de idade. Ela viveu por quase 30 anos às custas de doações de estranhos sensibilizados com sua situação e royalties de um livro que foi escrito em seu nome sobre o crime. Quando o dinheiro começa a minguar, no entanto, ela se vê obrigada a aceitar a proposta do simultaneamente creppy e fofo Lyle Wirth (Nicholas Hoult) e seu grupo de “detetives amadores” obcecados por casos mal-resolvidos do passado, que querem que Abby volte a investigar o caso dos assassinatos e estão dispostos a pagá-la para isso. Acontece que, lá três décadas atrás, o irmão mais velho da moça, Ben (Tye Sheridan quando jovem, Corey Stoll mais velho) foi condenado pelo crime em grande parte graças ao testemunho de uma jovem Abby, praticamente coagida pelos policiais que trabalharam no caso.

Quando a investigação de Abby engata a primeira marcha, o diretor Brenner aumenta a quantidade e a profundidade dos flasbacks, diferenciados das cenas atuais por truques sutis de fotografia empreendidos com elegância pela câmera de Barry Ackroyd (Guerra ao Terror). Passada na área rural do Kansas durante os sempre difusos anos 70, essa fatia da história é justamente aquela que mais desesperadamente precisa de alguns minutos a mais para preparar o terreno para o espectador – falta ao filme a sensação esmagadora de pesar e o pressentimento ruim que sobe pelo vento do Meio-Oeste americano junto com a poeira do solo, algo que a primeira temporada de True Detective retratou tão bem, mesmo com sua ambientação mais contemporânea. As agruras vividas pela mãe de Abby, interpretada com competência devastadora por Christina Hendricks (Mad Men), são um belo e cru retrato do conflito de classes e da situação exasperadora de pobreza e abuso que a família Day sofria, e que reflete a vida de muitas pessoas naquela época e hoje em dia. Coloque na mistura uma crítica velada ao sensacionalismo da mídia (elemento sempre presente nas obras da ex-jornalista Flynn), dessa vez usando a paranoia satanista dos anos 70/80 como veículo, e Lugares Escuros se mostra um drama com muito a dizer – é pra decolar como neo-noir e filme de mistério que lhe falta alguns elementos.

Outra vantagem do filme é que a atuação de Theron no papel principal é só mais uma entre todas as outras do filme, absolutamente todas muito bem sintonizadas aos seus personagens. Ela brilha porque, assim como em Mad Max, consegue expressar muito com uma personagem que diz muito pouco – o tempo todo parcialmente escondida por um boné surrado, a Abby da Theron é uma criatura soturna e anti-social, mas o pathos de sua história é inegável, e a atriz esconde nas menores sutilezas os motivos pelos quais devemos gostar dela. Corey Stoll faz milagres com as pequenas cenas que é dado para construir seu Ben destruído pelo tempo na cadeia, entregando uma performance extraordinariamente serena e sensível, encarando Theron de igual para igual numa dinâmica que é central para o desenvolvimento do filme. Nicholas Hoult é outro que se beneficiaria de mais tempo de tela, mas demonstra a mesma quieta eficiência de sempre ao nos mostrar tanto o lado machucado quanto o lado surpreendentemente seguro de seu personagem. Por fim, Chloe Moretz acerta em cheio o tom de sua Diondra com a mesma execução perfeita com a qual encarnou todos os melhores personagens de sua meteórica carreira até aqui.

Em alguma dimensão, o filme de Paquet-Brenner é um belíssimo conto sobre a natureza humana e sua relação com a mentira, sobre as motivações mais misteriosas por trás de cada uma das nossas decisões e a forma como elas afetam não só a nós, mas a todos ao nosso redor. É um estudo angustiante sobre culpa e dúvida, e sobre as vastidões doentias às quais podem se estender os entremeios do amor (romântico ou fraternal). É um noir moderno por definição temática, que só precisa fazer as pazes com a possibilidade de ser um noir moderno por excelência técnica. Em suma: não ignore Lugares Escuros, como a maioria do público americano o fez, mas entre em sua sessão com a disposição de relevar alguns tropeços pelo bem de uma história que vale a pena assistir.

✰✰✰✰ (4/5)

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Lugares Escuros (Dark Places, Inglaterra/França/EUA, 2015
Direção: Gilles Paquet-Brenner
Roteiro: Giller Paquet-Brenner, baseado no livro de Gillian Flynn
Elenco: Charlize Theron, Nicholas Hoult, Christina Hendricks, Corey Stoll, Tye Sheridan, Chloe Grace Moretz, Andrea Roth, Sean Bridgers
113 minutos

17 de ago. de 2015

Review: “Wayward Pines” sustenta 10 episódios de mistério e ficção científica sem truques baratos

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por Caio Coletti

Não há nada de errado com reviravoltas de narrativa ou “finais-surpresa” – eles são um recurso do roteirista como qualquer outro e, exatamente da mesma forma, eles precisam ser usados quando a história pede por eles. O “segredo” que O Sexto Sentido esconde do espectador (pra citar um dos casos mais famosos do estilo) faz do filme uma análise mais completa e interessante dos personagens e temas que ele representa, e o mesmo vale para outras obras como Psicose, O Nevoeiro e até o controverso A Vila, que não seria um estudo tão contundente da hipocrisia da sociedade contemporânea sem sua revelação final. O problema é que, assim como acontece com várias outras “tendências” de Hollywood, o final-surpresa virou um clichê cansado, que muitas vezes parece estar lá apenas por obrigação mercadológica, destoando ou futilizando os esforços anteriores da narrativa em um grande momento “WOW” que não oferece muito mais do que adrenalina passageira. Wayward Pines tinha tudo para ser uma história exatamente assim, e confesso que, pessoalmente, fiquei com um pé atrás até os últimos minutos do finale – erro meu, porque a minissérie da FOX se mostrou um animal raro na atualidade: uma narrativa na qual o espectador pode confiar.

Isso não significa que a trama se prive de pegar-nos desprevenidos às vezes. A história tirada de dois livros assinados por Blake Crouch e conduzida por Chad Hodge (The Playboy Club) é uma ficção científica mirabolante e surpreendente, sim, mas de uma forma honesta e cuidadosa que simplesmente saiu de moda no storytelling atual. Interessante que a série seja produzida pelo mesmo M. Night Shyamalan que deu à luz tanto a O Sexto Sentido quanto a A Vila – apesar de não estar envolvido no processo de roteirização (ele dirige o primeiro episódio), é bacana ver o nome de Shyamalan atrelado a um projeto que dialogue tanto com um dos melhores elementos dos filmes espetaculares que fez no começo da carreira, especialmente quando a maioria do público considera que o brilho do diretor indiano se apagou faz tempo (de fato, seus filmes mais recentes variam de esquecíveis a péssimos). Muito mais do que bebe da fonte de Shyamalan, no entanto, Wayward Pines absorve outras influências: há algo de Lost e algo de Twin Peaks, é claro, mas há também uma intenção de entretenimento na série, e um mecanismo de narrativa, que a fazem se assemelhar a um longo e particularmente fascinante episódio da clássica série de antologia Além da Imaginação. Wayward Pines é meio soft-Phillip K. Dick (Blade Runner) e meio young adult-distópico.

O protagonista é o agente do FBI Ethan Burke (Matt Dillon, segurando bem o papel menos interessante da trama), o estereótipo do “herói americano”, completo com problemas no casamento, um filho adolescente e um caso extra-conjugal recente para “humanizá-lo”. Depois de sofrer um acidente de carro na estrada a caminho de Wayward Pines, onde iria investigar o desaparecimento da colega de trabalho e ex-amante em questão, Kate Hewson (Carla Gugino), Ethan acorda em uma cidade utópica-creepy que vive sob uma sombra de medo, onde pessoas que se lembram de um passado diferente são obrigadas a ficar dentro dos limites do município e viverem vidas designadas a elas. O roteiro não faz muitos favores ao seu personagem principal, tornando-o “gostável” para o espectador mas não trabalhando muito para expandí-lo a partir daí, mas em compensação cria coadjuvantes coloridos, complexos e fascinantes – e Wayward Pines tem um elenco à altura para representá-los.

Devido principalmente à natureza dupla de seus personagens (que se lembram de um passado e são obrigados a agir de acordo com outro), os atores mais experientes e gabaritados da série se deliciam com um prato cheio de emoções, tons e arcos de evolução. A começar pela própria Gugino, que cria uma Kate palpavelmente cautelosa, mas também tremendamente incomodada com as disposições das coisas em Wayward Pines – uma rebelde quase frígida, mas não desumana. O sempre espetacular Toby Jones traz a minúcia de sempre para a composição do Dr. Jenkins, o médico local e dono de mais respostas e mistérios do que inicialmente parece. Na evolução da trama da série, ele e Melissa Leo são os dois atores que recebem mais material para trabalhar a profundidade de seus personagens – perto do final, Dr. Jenkins e Nurse Pam como os conhecemos no início pulp da série se tornaram uma das duplas mais interessantes e trágicas dos últimos anos da televisão, especialmente porque ambos os atores seguram o centro e a composição desses personagens com unhas e dentes mesmo nos momentos mais turbulentos da narrativa. Num mundo justo, ambos seriam figuras certas no Emmy do ano que vem.

Com um finale (1x10 – “Cycle”) que é realmente o ápice da narrativa – algo mais raro do que parece hoje em dia –, e que trilha um caminho especialmente direto ao envolver o espectador puramente através da expectativa e da angústia, Wayward Pines é uma refrescante aula de storytelling, em que as reviravoltas narrativas se integram muito organicamente ao que já sabemos e o que ainda precisamos saber dos personagens e do mundo ao redor deles. A constatação irônica e a reflexão cruel que faz da natureza humana em seus minutinhos finais só torna a minissérie da FOX um programa mais obrigatório – uma estimulante história sobre conflito de gerações, um estudo importante da batalha de egos que compõe a nossa sociedade e a obsessão por controle que muitos de nós desenvolvemos ao nos depararmos com um mundo que não obedece a todos os nossos caprichos. Pelo menos esse ano, 10 horas de televisão poucas vezes foram tão divertidas, interessantes e recompensadoras quanto em Wayward Pines.

✰✰✰✰ (4/5)

WAYWARD PINES:  Pictured L-R:   Siobhan Fallon Hogan, Matt Dillon and Melissa Leo.  WAYWARD PINES is set to premiere Thursday, May 14 (9:00-10:00 PM ET/PT) on FOX.  ©2015 Fox Broadcasting Co.  Cr: Ed Araquel/FOX.

Wayward Pines (EUA, 2015)
Direção: Zal Batmanglij, Tim Hunter, Nimród Antal, James Foley, Steve Shill, M. Night Shyamalan, Charlotte Sieling, Jeff T. Thomas
Roteiro: Chad Hodge, Matt Duffer, Ross Duffer, Rob Fresco, Bill Hooper, Patrick Aison, Brett Conrad, Sang Kyu Kim, Steven Levenson, baseados nos livros de Blake Crouch
Elenco: Matt Dillon, Carla Gugino, Shannyn Sossamon, Toby Jones, Charlie Tahan, Melissa Leo, Reed Diamond, Hope Davis, Siobhan Fallon, Terrence Howard, Juliette Lewis, Justin Kirk
10 episódios

11 de ago. de 2015

Review: “Divertida Mente” é o melhor Pixar em anos, e um dos melhores filmes de 2015

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por Caio Coletti

Há uma infinidade de razões pelas quais a Pixar é a força dominadora do seu nicho do mercado há quase duas décadas, mas talvez a maior delas seja o fato de que a produtora um dia comandada por John Lasseter (ocupado, agora, com a Disney Animation) não se limita a fazer boas animações. Dessas, Hollywood está cheia, para os gostos mais excêntricos (Festa no Céu, Os Boxtrolls) até os mais convencionais (Cada um na Sua Casa, Meu Malvado Favorito) – e não há nada de errado com nenhuma dessas criações. O que a Pixar faz, no entanto, é mais cinema que todas elas. É mais realização visual, mais cuidado com a narrativa, mais entrelaçamento dessas duas coisas em um todo coerente em que cada elemento possui um significado e nada se qualifica como “gordura extra” para agradar o público infantil (nos filmes da Pixar, por exemplo, o “alívio cômico” da história raramente serve apenas para essa finalidade, muitas vezes se provando o verdadeiro coração da trama – vide Procurando Nemo). É clichê dizer que a companhia-parente da Disney triunfa porque faz filmes que os pais podem curtir tanto quanto seus filhos, mas é bacana pensar que o porquê de ser assim reside na capacidade da Pixar de perceber que uma boa história, contada de forma criativa, interessante e cinemática, não tem faixa etária.

Divertida Mente é um bem-vindo retorno dessa Pixar confiante de si mesma que parecia meio perdida por aí desde Up, lá em 2009. Não por coincidência, o novo filme divide com a história de Carl Fredricksen e companhia um diretor (Pete Docter, que também assinou Monstros S.A.), que faz o mesmo trabalho incansavelmente inventivo aqui que marcou suas outras investidas nos filmes da empresa. Cada ideia em Divertida Mente é integralmente realizada e explorada em tela, um verdadeiro feito para um filme que, com 94 minutos de metragem, precisa nos apresentar um mundo completamente novo, construído para refletir teorias psicanalíticas sobre o funcionamento real da nossa mente. A capacidade de dar à luz a uma representação visual que é instintivamente compreensível ao mesmo tempo que tremendamente complexa é uma das muitas hercúleas vitórias que Divertida Mente, mesmo com sua duração diminuta, consegue arquivar. Num mundo justo, a mão firme e a sabedoria visual de Docter o renderiam uma indicação ao Oscar no ano que vem pelo trabalho de direção – mas todos nós sabemos que não é bem assim.

A trama do filme acompanha Joy (voz de Amy Poehler no original), a representação da alegria dentro da mente de Riley (Kaitlyn Dias), uma pré-adolescente que se muda com os pais da idílica vida no Meio-Oeste americano para uma vizinhança suja em San Francisco. Por 11 anos, Joy tem comandado os procedimentos dentro da cabeça da menina, criando memórias felizes e fundamentos saudáveis e simples para a personalidade dela – com as emoções conturbadas da mudança, no entanto, e os conflitos financeiros dos pais (Diane Lane e Kyle MacLachlan), a coisa começa a mudar de figura. Depois de um desentendimento com Sadness (Phyllis Smith, escolha perfeita), representante da tristeza na mente da menina, Joy e a antagônica companheira vão parar por acidente fora da sala de controle, e precisam fazer seu caminho de volta juntas. Enquanto isso, Fear (o Medo, feito por Bill Hader), Disgust (“Nojinho”, com a voz de Mindy Kaling) e Anger (Raiva, encarnado por Lewis Black) ficam no comando – o que só resulta em verdadeiras catástrofes. O coração do filme está na interação entre Joy e Sadness, e na jornada que dividem entre si e com o abandonado amigo imaginário de infância de Riley, Bing Bong (Richard Kind), que faz às vezes de personagem coadjuvante heróico/trágico da história.

Em seu cerne, Divertida Mente é uma história dolorosamente honesta sobre amadurecimento, como foram as melhores partes de Toy Story 3, mas não precisa apelar para o saudosismo e a nostalgia do espectador, que havia acompanhado Woody e cia. desde a infância do seu dono Andy, para emocionar. As mudanças que  vão acontecendo alegoricamente dentro da cabeça de Riley vão parecer familiares para qualquer um que já passou pelo final da infância e a transição para a adolescência, incluindo a realização amarga (mas ultimamente bela) de que o mundo não é tão cor-de-rosa quanto achamos que ia ser, e que nossos pais são tão falhos e humanos quanto nós. DIvertida Mente até brinca um pouco com isso, nos levando por pequenos instantes, e sem demagogia moral, para dentro das mentes dos adultos da história, cujo funcionamento é bem diferente daquele que vemos no de Riley. O filme ainda ensina, no que sem dúvida é uma das mensagens mais positivas em filmes infantis em um bom tempo, que a tristeza é tão valiosa para a nossa formação quanto a alegria – e que a mistura das duas, uma constante na complicada vida adulta, pode produzir algo ainda mais valioso.

Em uma cena particularmente pontual, Joy é incapaz de animar, mesmo com seu infinito otimismo, o chateado Bing Bong, que percebeu ter sido quase completamente esquecido por Riley. Sadness, por sua vez, ouve os pesares do personagem, age de forma compreensiva e permite que ele sinta integralmente a decepção e o gosto amargo daquela realização. Divertida Mente é um filme infantil que nos diz (e todos nós precisamos ouvir isso) que é ok estar triste, e que às vezes é preciso está-lo para ser verdadeiramente feliz – essa mistura de sensações agridoce é a matéria mais comum da vida de todo mundo, e é também uma maneira espetacular de contar uma história. A Pixar conseguiu de novo: ultrapassou as barreiras de gênero e entregou uma das melhores peças, live-action ou animação, de cinema do ano.

✰✰✰✰✰ (5/5)

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Divertida Mente (Inside Out, EUA, 2015)
Direção: Pete Docter, Ronaldo Del Carmen
Roteiro: Meg LeFauve, Josh Cooley, Pete Docter
Elenco: Amy Poehler, Phyllis Smith, Richard Kind, Bill Hader, Lewis Black, Mindy Kaling, Kaitlyn Dias, Diane Lane, Kyle MacLachlan, Frank Oz
94 minutos

5 de ago. de 2015

Review: “Orphan Black” volta à sua melhor forma no terceiro ano

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por Caio Coletti

Não há performance na televisão hoje em dia que se compare à de Tatiana Maslany em Orphan Black. Eu sei que esse é um ponto batido e rebatido desde a primeira temporada da série, lá em 2013, quando essa “pequena” produção canadense pegou todo mundo de surpresa com uma primeira temporada genial e cartas de sobra na manga. Mesmo assim, assistir ao terceiro ano de Orphan Black é constatar, episódio a episódio, que a série não existiria da forma como a conhecemos sem o trabalho da sua protagonista nos múltiplos papéis que os roteiristas a delegam. E isso não é “só” porque Tatiana é brilhante, mas porque ela tem o tipo certo de talento para a história que Orphan Black quer contar, e para a forma como a conta – a trama conduzida por um batalhão de showrunners (são 12!) é essencialmente um jogo de malabarismo com vários clichês da ficção científica (fanáticos religiosos! clones! uma doença incurável!), que se move com agilidade pela trama, encara destemidamente a perspectiva de virar as expectativas do espectador de cabeça para baixo de vez em quando, e constrói sua verdadeira base na estruturação das personagens interpretada por Maslany.

Talvez por isso essa terceira temporada pareça tão melhor do que a (de certa forma esquecível) segunda, visto que os roteiristas parecem mais focados em nos mostrar as perspectivas e estruturas das vidas que cada uma de nossas protagonistas têm para si. Quando olhamos para Sarah nessa temporada, por exemplo, a série nos remete a tudo que vimos sobre ela antes e, com a ajuda inestimável de Maslany, a transforma em um ser humano completo. Ela não é só “a trapaceira”, uma cifra a mais para adicionar ao clone club que também inclui a “soccer mom” (Alison), a “nerd” (Cosima), a “perturbada” (Helena), a “do mal” (Rachel) e, agora, também a “fútil” (Krystal). Chega a ser cômico reduzir essas personagens a estereótipos, porque grande parte da série se dedica a desconstruí-las diante dos nossos olhos e mostrar todos os elementos, dos pequenos detalhes aos grandes formadores de personalidade, que as fazem quem elas são. E é inestimável ter, nessa missão, uma atriz que faz do respeito que sente em relação às personas que encarna a pedra fundadora da sua performance – sem exagerar nos maneirismos e encontrando formas sutis de diferenciar os clones, Maslany entrega performances que são inspiradoras de maneiras diferentes, e que realçam a tridimensionalidade que a série imprimiu a essas personagens.

O terceiro ano de Orphan Black também se faz um enorme favor ao materializar algumas respostas para perguntas que persistiam desde o início da série, e ao introduzir elementos novos na trama que tornam a jornada das protagonistas mais complicada – mas também mais satisfatória para nós como espectadores. A trama de Orphan Black se abre e se expande durante os 10 episódios da temporada, e o resultado é que, no final de “History Yet to Be Written”, a sensação de familiaridade que já sentíamos em relação à Cosima, Sarah, Alison, Helena e os outros membros honorários da “família” da série se estende para o universo e a mitologia na qual elas estão inseridas. Orphan Black sempre foi ótima em brincar com seus personagens e com as interações que existem entre eles, mas a forma como a trama se entrelaça às histórias desses personagens no terceiro ano torna a experiência mais completa, e o diálogo da série com o espectador mais aberto e interessante. Não que não reste nenhum mistério para os escritores responderem (e ainda bem que restam, porque senão qual seria o ponto?), mas a impressão que fica é que, para a quarta temporada, a configuração do jogo finalmente ficou clara para quem está assistindo.

Seja seguindo o processo eleitoral de Alison para um pequeno cargo administrativo em seu distrito suburbano (e suas desventuras como traficante de drogas, porque sim); acompanhando Cosima e seu dilema com a namorada Delphine, que assume uma posição importante dentro da empresa científica que criou os clones; mostrando a investigação que Sarah e Helena conduzem quanto aos clones masculinos que vimos no finalzinho da segunda temporada; ou nos apresentando a Krystal, parte importante de um aspecto da trama; Orphan Black ergue para si um verdadeiro castelo de cartas de emoções divergentes, observações sociais e considerações metafísicas sobre a natureza da humanidade e a constituição única de cada uma das nossas psiques. Tatiana Maslany é o coração dessa série não só porque ela precisa ser, mas porque ela pode ser – com uma atriz tão tremendamente empática em seu centro, Orphan Black provavelmente não conseguiria se estragar nem mesmo se quisesse.

✰✰✰✰✰ (5/5)

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Orphan Black – 3ª temporada (Canadá, 2015)
Direção: David Frazee, John Fawcett, Chris Grismer, Helen Shaver, Ken Girotti, Aaron Morton, Vincenzo Natali
Roteiro: Graeme Manson, Aubrey Nealon, Chris Roberts, Russ Cochrane, Alex Levine, Sherry White
Elenco: Tatiana Maslany, Jordan Gavaris, Kevin Hanchard, Ari Millen, Kristian Bruun, Evelyne Brochu, Maria Doyle Kennedy, Zoé de Grand’Maison, Justin Chatwin, Ksenia Solo
10 episódios

27 de jul. de 2015

Diário de filmes do mês: Julho/2015

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por Caio Coletti

Nem todos os filmes merecem (ou pedem) uma análise complexa como a que fazemos com alguns dos lançamentos mais “quentes” ou filmes que descobrimos e nos surpreendem positivamente. Particularmente, eu não me dou a escrever críticas grandes de filmes que considero ruins ou irrelevantes, porque não vejo sentido em remoer demais os erros de uma produção cinematográfica. É levando em consideração a função da crítica e da resenha como uma orientação do público em relação ao que vai ser visto em determinado filme que eu resolvi criar essa coluna, que visa falar brevemente dos filmes que não ganharam review completo no site. Vamos lá:

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Cada Um na Sua Casa (Home, EUA, 2015)
Direção: Tim Johnson
Roteiro: Tom J. Astle, Matt Ember, baseados no livro de Adam Rex
Elenco: Jim Parsons, Rihanna, Steve Martin, Jennifer Lopez, Matt Jones
94 minutos

É fácil dizer que a Dreamworks Animation está acomodada a uma fórmula – desde que redescobriu que o público é capaz de abraçar qualquer tipo de história desde que ela seja executada com a dose certa de sinceridade emocional, a empresa enfileirou sucessos fora das franquias que a fizeram famosa (Shrek e Madagascar). Para mais detalhes dessa guinada nos filmes da empresa, dá uma olhada nesse artigo, que publicamos no finalzinho do ano passado. Cada Um na Sua Casa não é tão diferente de Os Croods e Megamente, para citar alguns dos títulos recentes da Dreamworks, mas nem por isso deixa de ser uma aventura tão empolgante para as crianças quanto ressonante para os adultos, o que indica que, pelo menos por hora, a tal fórmula está funcionando. O diretor Tim Johnson, responsável por Os Sem-Floresta e Formiguinhaz, é um talentoso criador de visuais animados, e o roteiro de Tom J. Astle e Matt Ember pode até encontrar alguns obstáculos pelo caminho (demora, por exemplo, para a trama acertar no tom do humor), mas chega são e salvo até o final da jornada.

Tal e qual, inclusive, seus protagonistas: o alienígena Oh (Jim Parsons) e a humana Tip (Rihanna). Os dois se unem depois de uma invasão da raça Boov, a qual Oh pertence, na Terra – um outsider entre seus próprios semelhantes, Oh e condenado e caçado por cometer um erro fatal que pode trazer para o novo lar de sua espécie os inimigos mortais dos Boov. Tip, por sua vez, foi separada da mãe (Jennifer Lopez) durante a invasão, e deseja reencontrá-la. Os momentos mais bacanas de Cada Um na Sua Casa são aqueles que fazem do filme um quase-road movie protagonizado por uma dupla que não se afasta muito de todos os pares antagônicos que geralmente protagonizam as obras do gênero. Oh e Tip, especialmente na interpretação vivaz de seus dubladores, são dois personagens cativantes que carregam tranquilamente uma história honesta e tocante sobre coragem, amizade e diversidade. Não dá, sinceramente, para querer mais que isso.

✰✰✰✰ (4/5)

Jack-Reacher-PosterJack Reacher: O Último Tiro (Jack Reacher, EUA, 2012)
Direção: Christopher McQuarrie
Roteiro: Christopher McQuarrie, baseado no livro de Lee Child
Elenco: Tom Cruise, Rosamund Pike, Richard Jenkins, David Oyelowo, Wender Herzog, Jai Courtney, Robert Duvall
130 minutos

Jack Reacher, primeira adaptação para o cinema de uma série de 20 (!) livros assinados por Lee Child sobre um ex-detetive militar que se envolve em uma série de crimes e conspirações, tem uma primeira cena que pertence a um filme muito melhor do que ele. A silenciosa setpiece montada com personalidade pelo diretor e roteirista Christopher McQuarrie, que ganhou o Oscar pelo script de Os Suspeitos, segue primeiro um atirador (Jai Courtney) se preparando para cometer uma série de cinco assassinatos, escolhidos a dedo em um local público; e depois um detetive (David Oyelowo) juntando as pistas e provas desse mesmo crime para fazer a apreensão de um homem que, só o espectador sabe, na verdade é inocente. Além de tremendamente bem realizada, a sequência é uma forma concisa de nos apresentar a premissa do filme, que se desenrolará quase metodicamente (e de forma exponencialmente mal-planejada) nas duas horas seguintes, e é também um intrigante início para uma trama de suspense – um início que, talvez, até o mestre Alfred Hitchcock aprovaria. O problema é que logo em seguida entra em cena o personagem-título, interpretado por um Tom Cruise que, este que vos fala arrisca dizer, nunca esteve tão pouco carismático.

A culpa não é de todo dele, no entanto. Na série Missão: Impossível, o astro interpreta um agente ultra-competente não muito diferente do que encarna em Jack Reacher, mas ao menos os roteiristas tem a decência de trabalhar nos diálogos para que Ethan Hunt não soe tão condescendente quanto Reacher, telegrafado no filme como um bully misógino que nutre profundo desprezo pela humanidade e por qualquer coisa que não seja sua missão “justiceira”. Jack Reacher, o filme, não está interessado em construir um personagem, porque não apresenta essas falhas do seu protagonista como tais (o que seria aceitável) – prefere urdir com seu protagonista uma ode mal-idealizada às piores fantasias masculinas. É uma pena, de fato, porque a trama de Jack Reacher (e seu elenco coadjuvante, que inclui vários ótimos atores lutando contra as limitações do roteiro) poderia render algo bem mais substancial.

✰✰ (2/5)

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Hot Girls Wanted (EUA, 2015)
Direção: Jill Bauer, Ronna Gradus
Roteiro: Brittany Huckabee
84 minutos

Um dos pontos pivotais de Hot Girls Wanted, documentário produzido pela atriz Rashida Jones (Parks & Recreation) sobre a indústria da pornografia amadora, que estreou no Festival de Sundance e depois foi direto para o Netflix, acontece quando uma das principais personagens do filme entrega um intrigante monólogo sobre a forma como o trabalho no pornô não difere tanto do dia-a-dia de qualquer pessoa presa em um trabalho do qual precisa, mas que odeia com todas as forças. Frequentemente, na linguagem do documentário, a visão do diretor (e do roteirista) se impõe sobre uma história de tal forma que outros ângulos dela aparecem em apenas alguns momentos, quase como se tivessem sido deixados no filme sem querer. Em Hot Girls Wanted, esse “outro ângulo” é tão crucial e impositivo que se sobrepõe facilmente diante da mensagem que a dupla de diretoras Jill Bauer e Ronna Gradus (Sexy Baby) tentam passar nas bordas do material recolhido com suas personagens. Tome o começo do filme, por exemplo, que martela dados e imagens impressionantes no espectador a fim de nos convencer, e não muito sutilmente, de que a sociedade contemporânea passa por uma insensibilização sexual que, em grande parte, é culpa da cultura popular – e da relação direta dela com fenômenos como a pornografia online.

Bauer e Gradus podem até estar certas, e seria interessante ver que tipo de filme elas serias capazes de fazer concentradas nessa mensagem, mas o material recolhido das fontes de Hot Girls Wanted não conversa com o espectador sobre o que as diretoras pretendiam conversar. Pegando a dica daquele trechinho sobre as prisões do trabalho no sistema capitalista, a história dessas garotas pede para que o espectador entenda que tipo de necessidade empurrou cada uma delas para uma indústria que eventualmente se mostra tão incapaz de lhe conceder o que elas querem quanto qualquer outra. As frustrações da protagonista Tressa e de todas as outras personagens do filme não diferem muito daquelas que qualquer um enfrenta quando começa a encarar o mundo de frente – em busca de autonomia, liberdade e independência (através do dinheiro, mas também através da distância e da rebeldia), elas encontram um sistema explorador e degradante, que as destrói aos poucos. Hot Girls Wanted pode não provar o ponto que as suas criadoras pretendiam, mas ainda vale a pena ser visto.

✰✰✰✰ (3,5/5)

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What Happened, Miss Simone? (EUA, 2015)
Direção e roteiro: Liz Garbus
101 minutos

De forma muito semelhante à extraordinária artista que o inspira, o documentário What Happened, Miss Simone?, produzido pelo Netflix, é uma peça de cinema notavelmente raivosa. Ou quem sabe a melhor palavra para definí-lo seja ”enfurecido”, ou qualquer coisa que expresse o tipo de revolta justificada e recheada de empoderamento que é o combustível do trabalho da diretora/roteirista Liz Garbus (Love, Marilyn) ao trabalhar a vida da cantora e ativista dos diretos civis negros Nina Simone. A “High Priestess of Soul” (algo como “Alta Sacerdotisa do Soul”), como ela foi conhecida, morreu em 2007, mas é a força inspiradora por trás de cada uma das cantoras do gênero que vieram depois dela, especialmente das que tocam em questões sociais. Na época de Martin Luther King e Malcolm X, ela foi a artista que mais apaixonadamente se envolveu com a luta pelo fim da segregação racial nos EUA, e What Happened Miss Simone faz ao espectador um favor ao privilegiar o estudo de sua importância na época (e as consequências desse trabalho social na sua carreira, vida e psicologia) do que de seu duradouro impacto musical na música americana. A preferência é de fontes que contam a experiência de viver àquela época e a forma como Simone a encarou – uma cruzadora de barreiras desde a infância, a artista é apresentada como a porta-voz de um sentimento enraizado de revolta que explodiu de maneira tão desastrosa quanto essencial na época em que ela viveu.

No fim das contas, o filme de Garbus é bem-sucedido em nos mostrar que o mundo talvez não fosse o mesmo sem Nine Simone ter passado por ele, e não é esse o objetivo de qualquer documentário que pretende eternizar seu sujeito? Entrecortando trechos de falas da própria Simone, longas gravações de performances, partes do diário pessoal da cantora e entrevistas com pessoas como a filha Lisa, empresários e amigos, o filme é uma mistura de técnicas cinematográficas curiosa que, em alguns momentos, pode ficar um pouco confusa. O que importa em um documentário, no entanto, é força da história que ele tem para contar, e What Happened Miss Simone? é definitivamente uma peça poderosa de arte, tal e qual era sua musa inspiradora. Única, conflituosa e terrivelmente humana como todos nós, Nina Simone era a encarnação do ultraje de uma época, mas expressava sentimentos tão atemporais quanto sua voz e pessoa, eternizados em vídeo e áudio para a nossa e as próximas gerações.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

Parallels (2015)

Parallels (EUA, 2015)
Direção: Christopher Leone
Roteiro: Laura Harkom, Christopher Leone
Elenco: Mark Hapka, Jessica Rothe, Eric Jungmann, Constance Wu, Yorgo Constantine
83 minutos

Vamos direto ao ponto aqui: Parallels foi planejado para ser uma série de TV. O criador, diretor e roteirista Christopher Leone, que tem no currículo duas web-séries (Suit Up e Wolfpack of Reseda), expandiu os 40 e poucos minutos do episódio piloto original e vendeu o produto final para o Netflix, esperando que o público lhe desse notoriedade o bastante para que a Fox Digital Studios repensasse a decisão de dispensar a trama. Do jeito como está, com pouco menos de uma hora e meia, Parallels é um filme tremendamente frustrante – mas vale a pena lhe dar audiência com base na possibilidade de uma continuação no formato em que ele foi planejado para existir, porque Parallels daria uma série de TV bastante divertida. Só não entre nessa esperando respostas fáceis, porque o que você vai encontrar aqui é um monte de questões cujas resoluções ficam seguramente guardadas para qualquer futuro que essa história possa ter como cinema ou como TV. Com as expectativas devidamente ajustadas, essa trama sobre um grupo de pessoas tentando decifrar os segredos de um prédio misterioso que faz quem se encontra dentro dele “pular” entre universos e realidades paralelas pode ser uma das ficções científicas mais espertas e interessante dos últimos anos.

O elenco não é dos mais brilhantes, mas tampouco atrapalha o andamento do roteiro, esse sim o grande atrativo de Parallels. No texto de Christopher Leone, a premissa criativa do “filme” se transforma em um conto de ficção inspirado nos melhores autores da literatura do gênero e, ao mesmo tempo, ajustado perfeitamente ao formato televisivo. Num futuro possível para a trama, é fácil visualizar a forma como uma temporada inteira de Parallels se estruturaria, e é fácil também se empolgar com essa perspectiva. Pelo menos uma das personagens principais (Polly, interpretada pela Constance Wu) é tremendamente interessante, e os três protagonistas restantes são explorados de maneira esperta pelo roteiro, que deixa as grandes revelações da trama para o final do “filme”, à imagem e semelhança do melhor piloto de TV que vimos no nosso século (o de Lost, obviamente). Parallels vai te deixar torcendo pelo futuro dele, mas não é a experiência mais gratificante em termos de cinema.

✰✰✰ (3/5)

Synedoche

Sinédoque, Nova York (Synecdoche, New York, EUA, 2008)
Direção e roteiro: Charlie Kaufman
Elenco: Philip Seymour Hoffman, Samanta Morton, Michelle Williams, Catherine Keener, Emily Watson, Dianne Wiest, Jennifer Jason Leigh, Hope Davis, Tom Noonan
124 minutos

“Sinédoque” é a palavra em português para um tipo especial de figura de linguagem: quando usamos um termo que se refere a parte de um todo para representá-lo. Quando dizemos “o homem” para representar a espécie humana, por exemplo, fazemos uma sinédoque. De forma classicamente metalinguística que conversa com todas as obras anteriores do roteirista (e aqui diretor estreante) Charlie Kaufman, Sinédoque Nova York aplica esse conceito tanto para a jornada do personagem principal, um diretor de teatro que, depois de receber um prêmio especial, almeja montar uma peça “verdadeira” e desenvolve tamanha obsessão com isso que constrói uma réplica de uma parte de Nova York dentro de um armazém gigantesco (é mais complicado que isso, mas enfim); quanto para a jornada do próprio Kaufman, que usa a ambição do seu protagonista como espelho para a sua, e constrói uma história que mostra uma parcela tão pequena da experiência humana, a jornada de apenas uma pessoa em apenas uma fatia de sua vida, mas tem o objetivo de refletir sobre o todo da vida, suas reentrâncias e particularidades. Assim como o Caden Cotard magnificamente interpretado pelo saudoso Philip Seymour Hoffman (em performance sutil, densa e honesta como todas as suas eram), Kaufman chega a conclusão de que o mundo é grande demais para um escritor só abraçá-lo. Ele pode ser grande demais até para a espécie humana inteira abraçá-lo.

A brincadeira metafíssica/linguística de Kaufman acaba desaguando em uma meditação sobre as agruras da perda, da terrivelmente desesperadora “não-conclusão” das coisas da vida, da amarga falta de entendimento que temos delas, mesmo que achemos o contrário. O elenco é peça importante porque encarna o espírito da trama no sentido de entregar performances que estão o tempo todo conscientes de que são performances – seja no humor absurdista da personagem de Hope Davis, no exagero que Michelle Williams impõe ao seu retrato de uma persona clichê da estrela hollywoodiana, na naturalidade que Samantha Morton mostra frente aos pequenos desajustes do mundo criado por Kaufman (um dos mais inquietantes é a casa de sua personagem, que está perpetuamente pegando fogo). Como trabalho de um roteirista por excelência, Sinédoque é uma obra-prima imperfeita – um filme com uma grande história para contar, que a conta com alguns problemas técnicos pelo caminho. É um trabalho importante, no entanto, corajosamente pessimista e, mesmo assim, bastante belo. Ao reconhecer que todos estamos, essencialmente, atuando como nós mesmos pelo mundo, Kaufman chega ao auge de sua exploração metalinguística da realidade, e faz seu trabalho mais extraordinariamente tocante até hoje.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

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Wildlike (EUA, 2014)
Direção e roteiro: Frank Hall Green
Elenco: Ella Purnell, Bruce Greenwood, Diane Farr, Nolan Gerard Funk, Brian Geraghty, Joshua Leonard, Ann Dowd
104 minutos

Os dois protagonistas de Wildlike, drama americano independente que está disponível no Netflix, são o que em inglês se chama de loner. A palavra “solitário” não faz bem jus ao termo, que expressa muito mais uma predisposição para o isolamento e a auto-reflexão do que um estado temporário ou forçado de solidão. Na lindíssima metáfora que o filme faz em certo momento, tanto Mackenzie (Ella Purnell) quanto Bart (Bruce Greenwood) são como pipas que escaparam das mãos daqueles que seguravam a outra ponta das suas linhas. A jovem Mackenzie perdeu o pai um ano antes do filme começar, e é deixada pela mãe mentalmente instável para morar com o tio (Brian Geraghty), o que mais tarde se prova ser uma péssima ideia. Obrigada a fugir da casa do anfitrião quando precisa encarar que morar com o tio pode significar um inferno de abusos sexuais, Mackenzie eventualmente topa com Bart, um viúvo que está fazendo sozinho a viagem que costumava fazer com a esposa falecida – o que incluí vários dias de isolamento acampando em um parque natural no Alaska. O diretor estreante Frank Hall Green tira bom proveito das belíssimas paisagens com as quais sua câmera se confronta, ilustrando com a ajuda da fotografia de Hillary Spera (Terror na Ilha) seu roteiro exemplarmente contido, que não desperdiça diálogos e tira o máximo até dos momentos silenciosos.

A sensibilidade particular de Wildlike não é para os espectadores mais inquietos. Um pouco como Boyhood, a obra-prima mal-compreendida que Richard Linklater lançou no ano passado, o filme tira de momentos aparentemente banais muito significado. O elenco pega essa deixa e entrega atuações sutis e inteligentes, que encontram os momentos certos para demonstrar as emoções de personagens que parecem verdadeiramente táteis, tremendamente compreensíveis. O veterano Greenwood, que esteve recentemente na franquia Star Trek, faz um trabalho que merece nota particular, trabalhando linguagem corporal e expressando o pesar de seu personagem pela ausência da esposa muito mais na forma como se relaciona com Mackenzie e os outros personagens do que em grandes discursos e epifanias, luxos que o roteiro não se permite. O mesmo vale para a jovem Purnell e para a pequena participação da grande Ann Dowd (Compliance), que faz em uma cena o que muitas atrizes não conseguem fazer em filmes inteiros – Wildlike, como seus atores, se esforça para ultrapassar os limites da tela e habitar o mundo real. Em grande parte, ele consegue.

✰✰✰✰ (3,5/5)

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Mais um Verão Americano (Wet Hot American Summer, EUA, 2001)
Direção: David Wain
Roteiro: Michael Showalter, David Wain
Elenco: Janeane Garofalo, David Hyde Pierce, Michael Showalter, Marguerite Moreau, Paul Rudd, Christopher Meloni, Molly Shannon, Ken Marino, Joe Lo Truglio, Amy Poehler, Bradley Cooper, Elizabeth Banks
97 minutos

É curioso como muitos filmes se tornam “obrigatórios” (o que quer que isso realmente signifique) por acaso. Digo isso porque, às vezes, é fácil prever que certos trabalhos vão se tornar marcos, seja pelo trabalho de determinados nomes (diretores, roteiristas, atores), pela importância do tema tratado ou pela circunstância do seu lançamento. Mais um Verão Americano não tinha nada disso a seu favor quando chegou nos cinemas, lá em 2001, e começou a angariar seu status de cult. Quatorze anos depois, o Netflix captou a mensagem dos fãs, comprou o filme e mandou produzir uma minissérie que traz mais aventuras (e desventuras) do grupo de personagens apresentado aqui. No melhor espírito da sátira escrita e dirigida por David Wain e Michael Showalter, os mesmos atores da história original vão retornar à pele de seus personagens, desconsiderando totalmente o envelhecimento de todos eles. Em suma, Wet Hot American Summer (a minissérie) vai ser uma prequel na qual os personagens vão parecer uma década e meia mais velhos do que no original – e o mais bacana é perceber que, em uma história como essa, a discrepância e incoerência é muito mais virtude do que defeito.

O filme acompanha um grupo de monitores de um acampamento de verão, um dos “ritos de passagem” mais tradicionais dos jovens americanos. O estilo quase em sketches do roteiro pode parecer familiar para qualquer um que já se deparou com os filmes da série Todo Mundo em Pânico, com a diferença de que Mais um Verão Americano não confia em referências de filmes específicos (e com data de validade) para funcionar. A comédia aqui vem do exagero no retrato dos estereótipos do personagem, do caráter absurdista de alguns plot points e formas de encenação (a cena em que Beth e Neil saem desesperados a procura de um outro monitor é especialmente marcante), mas também da visão nada cínica que os diretores lançam sobre suas criaturas. Ajuda ter um elenco composto de alguns veteranos (Janeane Garofalo, David Hyde Pierce, Christopher Meloni) perfeitamente sintonizados com o humor do filme e vários novatos (Paul Rudd, Molly Shannon, Joe Lo Truglio, Amy Poehler, Bradley Cooper, Elizabeth Banks) que se tornariam nomes reconhecidos nos anos seguintes. Honesta, de certa forma reverente e – mais importante – frequentemente hilária, a sátira de Mais um Verão Americano é uma pérola que valeu conservar.

✰✰✰✰ (4/5)