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29 de ago. de 2014

Supernatural está chegando à décima temporada – mas já terminou faz tempo

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ATENÇÃO: esse texto contem spoilers!

por Paulo Cartaxo

Por incrível que possa parecer, Supernatural está chegando à décima temporada com uma legião de seguidores. E não são quaisquer fãs. Divididos em dois grupos, há aqueles que consideram a série fenomenal do começo ao fim, mesmo com seus problemas cronológicos no início, falta de foco e algumas perguntas não respondidas (Chuck Shurley seria Deus?). Do outro lado há os que assistem por hábito, uma espécie de guilty pleasure, pois a série, na realidade, terminou durante a quinta ou a sexta temporada. O resto são episódios de outra dimensão que fogem totalmente da trama principal: morte da mãe dos irmãos Winchester por ter descumprido o pacto que fez com o ex-demônio dos pactos, que agora é rei do inferno, Crowley (Mark Sheppard), para ressuscitar o próprio pai dando o filho caçula, Sam (Jared Padalecki), como receptáculo para Lúcifer (Mark Pellegrino).

Tratando-se de uma série de suspense, Supernatural não deixa a desejar. Abusando de pequenos conflitos e mistérios aleatórios que geram um hiato até retomar o enredo principal, é possível dizer que Supernatural é um Scooby-Doo para adultos. Com sangue, mortes, torturas, demônios e tudo o que tem direito. Ah, é claro, também ressurreições, sim, no plural, aos montes. Talvez tenha perdido um pouco de crédito ao pecar nisso. Já perdemos as contas de quantas vezes os protagonistas morreram e voltaram por causa de alguma ferramenta nova. Se eles morressem agora ninguém encararia de modo sério.

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A nona temporada girou em torno de Metatron (Curtis Armstrong), bancando uma de Deus e tentando virar um storyteller. Tivemos Crowley mais coadjuvante do que nunca, quem conhece seu legado sabe que ele é melhor do que isso, e Castiel (Misha Collins) criando sua armada contra Metatron. A série terminou bem morna, deixando apenas um gancho para a próxima temporada como algo que possa a vir ser cativante: Dean (Jensen Ackles) finalmente como um demônio. Já vimos os portões do inferno serem abertos e fechados; viagens no tempo; anjos que caem do céu, anjos que sobem ao céu; anjos serem imortais, virarem mortais, morrerem e serem ressuscitados; uma possível aparição do misterioso Deus em forma de profeta e vários outros fatores que levam a crer que a série já esgotou todas as possibilidades mitológicas – principalmente as que são sustentadas pela rivalidade de irmãos –, afinal, em algum momento as histórias chegam ao fim, ou Dean e Sam matam todos que não são humanos, e até alguns que são.

A partir do dia 07/10 Supernatural volta ao ar pela The CW com Dean sendo um demônio completo e possuidor da First Blade, arma suprema (até o momento) entre os demônios. Vale lembrar que Jared Padelecki afirmou recentemente que essa temporada trará fortes emoções, levando a crer que esta não será a última vez que ouviremos o sotaque britânico de Crowley ao saudar seus garotos preferidos.

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Próximo Supernatural: 10x01 (07/10)

27 de ago. de 2014

Você precisa conhecer: O synthpop cristalino e apoteótico do Shindu

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por Caio Coletti

Shindu é o nome que escolheram Christopher, Maxime e Chibi, os três belgas que compõem um dos grupos de synthpop mais consistentes e interessantes da cena independente atual. A palavra indiana que batiza o trio significa “pureza” – uma bela epítome para a proposta musical bem cristalina que o grupo tem mostrado desde 2011. O primeiro single, “Happy House” (abaixo), já trazia a sonoridade caracteristicamente oitentista, mas também muito influenciada pelo dream pop do século XXI. Cover de um hit do Siouxsie and the Banshees, a canção denunciou para o mundo a contradição (no melhor sentido) do Shindu: a histeria do revival dos anos 80 versus a serenidade da eletrônica atual.

Dá para perceber melhor essa proposta com os lançamentos subsequentes do trio. Cada vez mais exigida por cima dos sintetizadores que se acumulavam, a vocalista Chibi provou que dá conta do recado. A apoteótica e sexy “Just Go” (abaixo) mostrou que pela podia alçar vôos muito mais ambiciosos do que o mezzo-electro primeiro single deixava transparecer.

Chibi é, de certa forma, o elemento intruso na química do Shindu. Os dois outros integrantes, Christopher e Maxime, viajaram anos juntos como a dupla de DJ’s mais celebrada da Bélgica – na época, atendiam pelo nome de Static & Greedy. “Depois de anos viajando pela Bélgica, nos sentimos ansiosos para trazer algo diferente sem nos alienar na música experimental, que soaria inacessível. Queríamos uma mistura de sons que gostávamos, mas sem privá-la do nosso próprio ‘sabor’”, explicou Christopher para o site da Kitsuné, gravadora francesa que apostou no trio.

Depois dos dois primeiros singles, o Shindu começou a preparar um EP de estreia, que acabou saindo no começo de Agosto. Trust Me traz apenas duas faixas, com dois remixes, mas parece que o longo trabalho no lançamento rendeu as canções mais bem-produzidas do Shindu até agora (e isso não é dizer pouco!). 

“Down the Line” (abaixo) ganhou clipe há algumas semanas, e é também o vídeo mais elaborado do trio até hoje. Combinando a orgásmica conjunção de sintetizadores com a história intensa de um homem passeando pelos pecados capitais e pelo estado de apatia, a peça é a melhor propaganda que o Shindu poderia fazer de si mesmo: sem grandes complicações, com uma proposta bem clara, eles produzem arte extremamente intrigante.

Dá pra baixar algumas faixas do Shindu de graça no Soundcloud deles.

Pra quem gosta de: Purity Ring, Robyn, Royksopp, La Roux

21 de ago. de 2014

Review: Uma vida de ressentimentos em duas horas com o drama de “Álbum de Família”

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por Caio Coletti

“Life is very long”. Essas são as primeiras palavras de Álbum de Família, filme do ano passado que rendeu a Meryl Streep e Julia Roberts indicações ao Oscar de Melhor Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante, respectivamente. A adaptação cinematográfica da peça teatral de Tracy Letts (Killer Joe) é um daqueles raríssimos filmes em que uma jornada de duas horas de encenação é empreendida para se condensar na conclusão dos primeiros minutos. Se existe um ponto que Álbum de Família quer passar para seu espectador, é que a vida é mesmo muito longa, e que sobra tempo nela para deslizes e arrependimentos, amarguras e perdões, amores e decepções, ressentimentos e cinismo. Ao apresentar três gerações da família Weston reunidas sob o mesmo teto, o filme assinado por John Wells (Shameless) condensa em uns poucos dias, ou ainda mais valentemente em meras duas horas, toda a bagagem e as escolhas desses personagens – e arranja tempo para mostrar como eles moldam uns aos outros de forma única.

Vencedora do Pulitzer e do Tony, a montagem original da peça de Letts reportadamente pegava mais pesado no humor negro, e mais leve no drama, do que essa adaptação cinematográfica. Não são cabíveis comparações, no entanto, principalmente tendo em vista que o próprio dramaturgo adaptou sua obra para o cinema. É compreensível que ele tenha sentido a necessidade de abordar essa história de uma maneira diferente, e é preciso que o espectador se mantenha aberto a uma visão da trama em que a dramaticidade suplanta os poucos momentos em que a observação mordaz de Letts se faz notar. O humor de Álbum de Família é glorioso, não me entendam mal: em vários momentos o filme é uma pérola de constrangimento, e a língua afiada da personagem de Streep garante as tiradas cruéis que temperam o filme. O prato principal, porém, é uma crônica dramática que se leva muito a sério. E não há problema nenhum com isso.

Violet (Streep) é a matriarca dos Weston, que reúne o clã todo em sua casa em Oklahoma quando o marido, Beverly (Sam Shepard), desaparece misteriosamente. O centro dessa reunião são as três filhas de Violet: Barbara (Julia Roberts) é a mais velha – e mais controladora –, está tendo problemas com o infiel marido Bill (Ewan McGregor) e a precoce filha Jean (Abigail Breslin); Ivy (Julianne Nicholson), a única que permaneceu em Oklahoma, é uma frágil e solitária solteirona que pode estar se arranjando com Little Charles (Benedict Cumberbatch), seu próprio primo; e Karen (Juliette Lewis) é a aventureira da família, trazendo sempre um namorado diferente para casa – o da vez é Steve (Dermot Mulroney). A família se completa com Mattie Fae (Margo Martindale), irmã de Violet, casada com Charlie (Chis Cooper), e mãe de Little Charles.

Com esse leque verdadeiramente carnavalesco de personagens em mãos, Letts explora quase todas as convenções do drama familiar. É um jogo esperto que o roteirista/dramaturgo joga, atirando em sua história clichês como a história do viciado em drogas da família (no caso, a própria Violet), o incesto, os casos extra-conjugais e a paternidade trocada. Brincando com esses modelos fixos do drama americano, Letts vira tudo de cabeça para baixo ao se focar intensamente no efeito e nas consequências desses desenredos na vida de seus personagens.

Cada um dos Weston ganha uma personalidade muito definida, marcas de expressão e cicatrizes muito reais, e não é difícil imaginar como elas foram adquiridas ao observar o ambiente em que se desenrola a história. Letts triunfa não só ao criar a família disfuncional das famílias disfuncionais, mas ao povoá-la de pessoas que não estão vivas somente naquele momento – a impressão que fica é que a narrativa de Álbum de Família começou a ser desenvolvida muito antes daquelas primeiras palavras em tela (“Life is very long”, lembra?).

É óbvio que Meryl Streep está superlativa. E não se trata de sotaque, técnica, visual ou despudor, e sim de entender que Violet é uma personagem maior-(e-mais-amarga)-que-a-vida, e interpretá-la de acordo. Os exageros e os maneirismos não estão aqui para servir o ego da atriz e garantí-la mais uma lembrança da Academia, mas exatamente para garantir que a matriarca dos Weston seja a figura marcante, magnética, caótica e catalisadora, em torno da qual todas as outras performances se reúnam. Meryl garante, assim, que todas elas tenham sua chance de brilhar, e Julia Roberts agarra a oportunidade com unhas e dentes. Se para a veterana intérprete de Violet essa é mais uma confirmação de um talento inescapável, para a eterna Uma Linda Mulher esse é talvez o grande o momento de sua carreira. Sua Barbara é o personagem menos glamuroso da carreira, e também o menos identificável. É uma mulher egocêntrica, indigesta, cheia de julgamentos para todos ao seu redor, e Julia não tem medo de retratá-la assim – ao mesmo tempo sendo capaz de desafiar Meryl em cena e se sair com uma performance inesperadamente tocante. Ela é o verdadeiro centro da trama, não se pode negar.

A quietamente sublime Julianne Nicholson e o minucioso Benedict Cumberbatch também merecem nota; ou talvez merecessem até mais, assim como Juliette Lewis, Chris Cooper e Margo Martindale, mas não dá para dissecar cada uma das performances aqui – é preciso ver para entender. Álbum de Família, como todo filme de origem teatral, se apóia muito mais intensamente nos seus atores, mas reúne um elenco tão bom que não sai perdendo com isso. A câmera viva de John Wells traz o renovado drama de Tracy Letts um senso de movimento impossível no teatro, o que só ajuda a separar as duas obras.

Aqui, a história que vemos passar pela tela é a exaustão de uma vida que não dá trégua. No inclemente Sol das planícies americanas, os dias se sucedem sem piedade, e nossos personagens precisam lidar com quem são a cada novo alvorecer. Álbum de Família é um drama muito vivo, talvez exatamente por ter consciência dessa inevitabilidade do mundo, e mesmo que não seja exatamente otimista, termina com uma larga estrada se estendendo para além de onde a câmera pode ver. A vida para Tracy Letts é muito, muito longa – tão longa que ainda há muito o que se ver dela.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

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Álbum de Família (August: Osage County, EUA, 2013)
Direção: John Wells
Roteiro: Tracy Letts, baseado em uma peça de sua autoria
Elenco: Meryl Streep, Julia Roberts, Julianne Nicholson, Ewan McGregor, Juliette Lewis, Dermot Mulroney, Margo Martindale, Chris Cooper, Benedict Cumberbatch, Abigail Breslin, Sam Shepard
121 minutos

18 de ago. de 2014

Wilfred 4x09/10: Resistance/Happiness [SERIES FINALE]

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ATENÇÃO: esse review contem spoilers!

por Caio Coletti

“Resistir é inútil” (Vogons, raça alienígena da série Doctor Who)
“A felicidade não depende de coisas exteriores, mas da forma como as vemos” (Leo Tolstoy, escritor russo)

Wilfred sempre foi uma série sobre percepção. Desde muito cedo nessa corrida de quatro anos que a trama ganhou na FX, quase todos os críticos notaram que tudo no mundo reduzido da versão americana da criação de Jason Gann era filtrado pela perspectiva de Ryan, o protagonista encarnado por Elijah Wood. Os coadjuvantes demoraram a adquirir vida, e a servir como elementos autônomos do storytelling, porque nossa percepção deles era ferrenhamente limitada à percepção de Ryan. Eles estavam ali para dizer alguma coisa sobre a forma como o nosso protagonista via o mundo, e o próprio Wilfred, com suas manipulações e planos mirabolantes para guiar Ryan para o caminho que ele considerava melhor, era uma manifestação do quanto esse personagem principal observava seus arredores como um jogo de xadrez. Quando esse mundo toma vida e se torna mais complexo do que ele pode admitir é que a persona de Ryan se quebra, e é nessa operação que está o triunfo do finale duplo da série.

É crível que Wilfred tenha levado 4 temporadas para conduzir Ryan até a beira do abismo, e assisti-lo pular é muito mais impressionante por causa disso. Ao mesmo tempo, o roteiro do developer David Zuckerman em ambos os episódios se encarrega de não jogar para o alto o investimento emocional que construímos com os personagens e com a busca pela felicidade de Ryan. É notável, inclusive, que no final das contas a série faça que essa tal felicidade seja também uma questão de percepção. Como adianta no quote que abre o episódio final, Wilfred não está disposta a usar de clichês para abordar o tema pelo qual os fãs esperam desde 2011. A felicidade para esse estranho conto de doença mental e complexas relações humanas filtradas por uma mente perturbada não é, e nunca poderia ser, a que vemos nas comédias românticas de Hollywood. Essa é uma história de um desajustado aprendendo que precisa fazer as pazes consigo mesmo antes de poder fazer as pazes com o mundo.

Antes de todo o desenvolvimento temático do finale de fato, o penúltimo episódio “Resistance” mostra que o espírito desafiador dos escritores de Wilfred não morreu. Seguindo a deixa de “Courage” (review), o episódio é um crash course em realidade para uma série que nunca se deu muito bem com ela. O amargurado final é mais tocante do que qualquer coisa que os roteiristas ousaram fazer até hoje, e as atuações de Wood e Fiona Gubelmann estão mais uma vez em perfeita sintonia para dar um final inesperado ao principal casal da série. A recentemente adquirida consciência dos próprios atos que Wilfred construiu nas últimas semanas é a recompensa de um episódio gratificantemente direto com as elaborações emocionais. Num caminho nada convencional, a série trouxe esses personagens para um local muito verdadeiro, e muito fácil de se identificar.

Wilfred não é o tipo de série que você espera terminar com os olhos meio embaçados de lágrimas, e também não é o tipo de série que normalmente ganharia um final tão redondo e bem amarrado, coerente com a proposta e as regras que construiu em seu mundo. Essencialmente filtrada pela percepção de Ryan, a trama foi capaz de nos dar um panorama muito completo sobre a forma como esse protagonista via o mundo, e a forma como tudo gira em torno da nossa própria psique. Estamos presos nela, irremediavelmente. Wilfred sabe muito bem que não temos escolha quanto ao que somos – e é por isso que advoga que a felicidade não está em encontrar a pessoa perfeita, o emprego perfeito, a família perfeita. Muito mais satisfatório que isso é encontrar uma forma de lidar com o mundo exatamente da forma como o vemos.

✰✰✰✰✰ (5/5)

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17 de ago. de 2014

Masters of Sex 2x05: Giants

MASTERS OF SEX (SEASON 2)

A partir dessa segunda temporada, ao invés de fazer uma cobertura detalhada de cada episódio de Masters of Sex, O Anagrama vai trazer uma review por mês, de preferência de episódios marcantes para a continuidade da série, checando a quantas anda um dos nossos dramas preferidos.

ATENÇÃO: esse review contem spoilers!

por Caio Coletti

Para uma série que retrata as entranhas de uma revolução social histórica – a operada pelos doutores Masters e Johnson de verdade, há boas seis décadas atrás –, Masters of Sex nunca se predispôs a ser muito idealista. Era por isso que, na primeira temporada, a personagem de Virginia destoava tanto da trama, mesmo com os esforços admiráveis de Lizzy Caplan: em meio a um mundo em que a mudança encontra tantas barreiras sociais quanto íntimas (e às vezes esses dois âmbitos se misturam de forma absurdamente complexa), Gini era um ideal no qual era difícil de acreditar. Uma mãe solteira com sonhos grandiosos que era fantasiada por todos os homens que colocavam os olhos nela e enfrentava cada barreira de preconceito com um olhar de desdém e uma determinação de ferro – ela era inabalável. Na segunda temporada, a personagem está menos para ícone imbatível à la Beyoncé, e pode ser que as feministas sintam que perderam muito com isso. O que não percebem, e o que “Giants” deixa claro, é que Gini serve muito mais a seu propósito como personagem social se for meramente humana.

Ela é peça central nesse quinto episódio do ano, seguindo com mais uma obra-prima a sequencia espetacular dos anteriores “Fight” e “Dirty Jobs”, que mostraram a que veio a segunda temporada de Masters. Confrontada por Libby, por Lilian e até pelo próprio Bill, a personagem de Lizzy Caplan reage apropriadamente a uma pressão esmagadora que está escondida nas palavras dirigidas a ela. É satisfatório vê-la ceder aos caminhos para os quais essas duas outras mulheres da série a empurram, e não só porque isso faz dela menos infalível – também porque abre caminho para os escritores e a atriz mostrarem que o lado desafiador de Gini é ainda mais pungente quando ela está usando-o para escapar das próprias dúvidas. A cena no quarto de hotel em que ela e Bill repesam as medidas de poder no relacionamento é impressionante e marca mais do que nunca o quanto a conexão entre os dois é o centro nervoso da série.

Mesmo porque Masters faz bem de nos lembrar disso quando é capaz de criar coadjuvantes tão marcantes. Mesmo com a ausência já prolongada de Barton e Margaret Scully, a série investe em Libby e Betty para colorir as bordas da elaboração temática do episódio, emprestando dimensão humana a ele.

Não são poucos os fãs de Masters que reclamaram das atitudes da personagem de Caitlin FitzGerald nos últimos episódios, especialmente na trama focando na relação dela com Coral (a ótima Keke Palmer) – mas é preciso entender que esse retrato de Libby como uma mulher preconceituosa e essencialmente egoísta é parte de um arco de personagem que vem desde o primeiro ano. A bem da verdade, a esposa de Bill é e sempre foi uma prisioneira, e uma inteligente o bastante para enxergar as barras que a prendem. É um aspecto brilhante da performance de FitzGerald emprestar uma consciência muito aguda à Libby, enquanto os roteiristas continuam pintando-a como incapaz de se libertar das pré-concepções que seu marido tão rigorosamente ignora (com a exceção de algumas hipocrisias, é claro). Retratada assim, Libby é um trágico lembrete de que somos todos prisioneiros de só uma coisa: a nossa própria vontade.

“Giants” é um episódio que retrata os personagens de Masters como eles são, e isso inclui a mesquinha mania de se considerar melhor, ou maior, que o outro (nenhum título de episódio é a toa). Seja por orgulho, sentimento representado pela gloriosa leoa que é a Dra. DePaul da maravilhosa Julianne Nicholson; egoismo, auto-estima ou simplesmente porque a sociedade legitima esse seu preconceito com as maneiras ou a genética do outro. Em meio a tudo isso, a Betty de Annaleigh Ashford é novamente a unsung hero da série – numa terra em que todos pensam ser gigantes, ela tem plena consciência de que sua pequenez não a faz desprezível. Pelo contrário, inclusive, a faz absolutamente admirável.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

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Próximo Masters of Sex: 2x06 – Blackbird (17/08)
Próximo review: 2x10 – Below the Belt (19/09)

14 de ago. de 2014

Você precisa conhecer: Ouça-a rugir! A leoa Ella Eyre é uma explosão de energia no neosoul

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por Caio Coletti

O logo da britânica Ella McMahon, que atende por Ella Eyre na carreira musical, é o belo desenho de um leão vestindo uma coroa. O símbolo, que aprece em destaque nos vídeos para "Going On" (cover do Gnarls Barkley) e "Love me Like You", foi explicado pela cantora e compositora em entrevista para a Idol Magazine: “Sempre se referiram a mim como uma leoa, por causa do meu cabelo! E as pessoas também diziam que eu era intensa, mas também muito leal. Quando eu penso nos atributos de um leão, eu gosto de pensar que é o meu alter-ego. Especialmente quando performo ao vivo. Eu tenho muita energia e gosto de me movimentar pelo palco. Quando você pensa num leão, você pensa amor, lealdade, orgulho, e é sobre isso que o meu álbum é, basicamente”, ela cravou.

O tal alter-ego afeta também a musicalidade. Chupando influências dos atos musicais para os quais passou quase dois anos emprestando a voz (entre eles o Rudimental, no hit britânico “Waiting All Night” – abaixo), Ella faz uma mistura do neosoul de artistas ascendentes como Sam Smith e John Newman com as batidas frenéticas e a energia de projetos eletrônicos que estão dominando as paradas inglesas. O resultado é uma mistura sutil e eficiente, sobre a qual a cantora já declarou ter controle total. “Eu não consigo usar um computador nem se minha vida depender disso! Mas eu gosto de estar envolvida e dizer ‘hey, eu não gosto desses acordes’”, Ella confessou a Idol. “Eu deveria aprender a produzir porque metade do tempo nunca está do jeito que eu quero até eu me envolver. Eu sou um pouco mandona, então gosto de dar minha aprovação”.

Para uma introdução ao mundo da britânica, ouça aí embaixo o hit “Waiting All Night’, que lhe valeu o BRIT Awards de Single do Ano com o Rudimental, e o single “Deeper”, do EP de estreia que inclui as outras duas canções citadas lá no primeiro parágrafo.

A leoa britânica nasceu em Londres em 1º de Abril de 1994 (isso mesmo, ela tem só 20 aninhos!), de um pai jamaicano e mãe maltesa. O casal se separou quando Ella era bem nova, e o pai se mudou de volta para o país natal, para trabalhar como chef. A cantora poderia ter sido uma estrela da natação se não fossem os problemas no ouvido, que a impediram de continuar uma carreira promissora e a jogaram direto na BRIT School for Performing Arts, a mesma que formou estrelas inglesas como Adele – a quem a adolescente Ella Eyre assistiu maravilhada em 2011, no BRIT Awards. “Foi estonteante. (…) Eu filmei o telão e se você assistir, dá pra me ouvir chorando. Aquele foi um dos momentos em que eu pensei que adoraria fazer aquilo. Adoraria tocar as pessoas daquela forma”, ela confessou ao Evening Standard de Londres.

No mês passado, a cantora anunciou em entrevista que seu álbum de estreia deve sair ainda em 2014, e dois singles in-crí-veis já foram lançados. “If I Go” ganhou vídeo brilhante em que Ella e vários dançarinos se movimentam por uma sala que parece existir na ausência de gravidade. O efeito é maravilhoso, e realça uma das melhores canções que a inglesa já produziu, se aproximando bastante da sonoridade de hits do ano passado como "Love me Again", de John Newman (com quem a moça namorava até recentemente). O segundo single, “Comeback”, tem uma vibe mais desafiadora, mostrando um lado agressivo e vingativo de Ella e empolgando bastante.

“Eu gostaria de pensar que sou empowering. Com cada canção há uma mensagem, lirica e musicalmente”, ela disse à Idol. “No álbum, há momentos em que me sinto muito vulnerável. Eu sempre tive essa imagem de uma pessoa dirigindo para casa tarde da noite, sozinha, e uma das minhas canções aparece no rádio e ela diria, ‘É assim que eu me sinto. Alguém mais entende’. Eu tenho esses momentos com a música de outras pessoas, e gosto de ter esperanças que será o que as pessoas ouvirão quando conhecerem minhas músicas”.

Pra quem gosta de: John Newman, Sam Smith, Adele, Rudimental