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31 de mai. de 2014

Review: A ficção científica de-um-truque-só de “No Limite do Amanhã”

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por Caio Coletti

É preciso que uma coisa fique bem clara: não acredite nas críticas por aí que vendem No Limite do Amanhã como uma tentativa sem sal de fazer ficção científica distópica, o gênero da moda, com um twist temporal de trama. Se há algo que o novo filme de Doug Liman (A Identidade Bourne, Jumper, Sr. e Sra. Smith) faz é entreter, e o roteiro baseado na novela do japonês Hiroshi Sakurazaka sem dúvida tira o melhor proveito do tal “twist temporal” da trama, procurando surpreender e envolver o espectador no ritmo da narrativa. Além de ser um blockbuster competente, portanto, No Limite do Amanhã é um blockbuster inventivo. Não no sentido de ter muitos truques na manga, mas de saber usar os poucos que tem para sustentar duas horas de boa ficção científica.

A trama acompanha Cage (Tom Cruise), um sargento de funções burocráticas do exército americano que, ao se ver improvavelmente na frente de batalha contra um inimigo alienígena que, no futuro do filme, já tomou boa parte da Europa, acaba preso em um time loop: revive os dois últimos dias, de sua chegada na base até o catastrófico enfrentamento com o inimigo nas praias da Normandia, repetidamente. E é essa brincadeira conceitual que dá propulsão ao script assinado por Christopher McQuarrie (Jack Reacher) e os irmãos Jez & John-Henry Butterworth (Jogo de Poder), basicamente. Ajudados pela linguagem ágil do diretor Liman, uma escolha acertadíssima para o filme, e do editor James Herbert (Sherlock Holmes), os três roteiristas transformam essa ficção científica de-um-truque-só em uma experiência intrigante de storytelling.

Ajuda, é claro, que os personagens sejam cativantes, que os diálogos carreguem um humor afinado, e que o elenco entre no clima da trama. Chamar No Limite do Amanhã de “Feitiço do Tempo sem as piadas” não é só pouco lisonjeiro, como também inexato. Apesar de emprestar o preceito temporal da comédia oitentista estrelada por Bil Murray, o filme de Liman consegue conquistar o espectador também por méritos próprios. O sargento Cage de Tom Cruise é um protagonista não só simpático, como interessante – ao invés de torturado como a maioria dos personagens principais dessas ficções distópicas (incluindo o papel do próprio Cruise em Oblivion), Cage é um escorregadio burocrata, cheio de lábia e carisma, que muda sutilmente conforme a situação ao seu redor evoluí. É uma jornada diferente da enfrentada pela maioria dos heróis hollywoodianos, e nada melhor do que ter Tom Cruise, um dos astros americanos mais dispostos a assumir riscos, interpretando-o.

Não vamos fingir que a química entre Cruise e Blunt funciona bem – de fato, as duas atuações são melhores quando não existe a insinuação de uma trama romântica entre os dois personagens –, mas ver Blunt em tela é sempre um prazer, com seu olhar astuto e sua presença de cena ao mesmo tempo imponente e dinâmica. No Limite do Amanhã até se dá ao trabalho de criar uma conexão crível entre seus dois protagonistas, e em certa medida o esforço dá ótimos resultados. É o romance obrigatório que não funciona, talvez pelas poucas faíscas existentes no contato entre os dois, talvez pela própria natureza da história. Afinal, não dá para desconsiderar que, enquanto o personagem de Cruise cria uma familiaridade com a moça, ela continua tendo-o como um desconhecido.

Com um roteiro “redondinho”, que é tão interessante quanto instintivo de se acompanhar, e todos esses outros fatores trabalhando ao seu favor, No Limite do Amanhã ainda conta com efeitos e fotografia gloriosos. As câmeras comandadas por Dion Beebe (Oscar por Memórias de uma Gueixa) fazem uso plasticamente perfeito do 3D (reparem nas cenas de diálogo, não só nas batalhas!) e a equipe de conceituação dos efeitos visuais merece muitos elogios pela concepção dos aliens e de seu Ômega, criaturas fragmentadas e fugidias ao plano registrado pela câmera – ao contrário da maioria dos extra-terrestres retratados por Hollywood, eles parecem realmente de outro planeta.

No Limite do Amanhã pode não ser o melhor nem o mais equilibrado filme do ano, mas com certeza é um produto incomum para os grandes estúdios hollywoodianos, e só isso já pesa muito em seu favor.

✰✰✰✰ (4/5)

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No Limite do Amanhã (Edge of Tomorrow, EUA/Austrália, 2014)
Direção: Doug Liman
Roteiro: Christopher McQuarrie, Jez Butterworth, John-Henry Butterworth, baseados na novela de Hiroshi Sakurazaka
Elenco: Tom Cruise, Emily Blunt, Brendan Gleeson, Bill Paxton, Noah Taylor
113 minutos

28 de mai. de 2014

Você precisa conhecer: Um pé em Amsterdã, um em Nashville – o country do The Common Linnets

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por Caio Coletti

Falando sobre de Nashville, centro de todo o imenso mercado country dos EUA, os integrantes do duo The Common Linnets não titubeiam: é como uma segunda casa. E, de acordo com Waylon, o moço da dupla, a cidade americana é onde “meu coração musical está”. Interessante ouvir isso de dois nativos da Holanda, país pelo qual competiram no Eurovision 2014, alcançando o segundo lugar com a canção “Calm After the Storm” (abaixo). Mas é só ouvir um pouco do som dos dois para entender essa identificação.

O The Common Linnets faz country em seus próprios termos, e com seus próprios objetivos. A linda Ilsa de Lange não é só uma das vocalistas, como também idealizadora do projeto. Com carreira musical ultra-bem-sucedida na Holanda desde 1998 e uma das mais conhecidas representantes do country do lado de lá de Greenwich, a moça se juntou com Waylon para dar um pontapé inicial no The Common Linnets como um empreendimento, muito mais do que uma banda. Ilsa repete em qualquer oportunidade que o projeto pretende ser uma “plataforma” para todos os artistas holandeses que desejarem fazer country e ganhar reconhecimento por isso. Sendo assim, é razoável esperar que Ilsa e Waylon, que também tem carreiras solo para sustentar, não sejam os únicos integrantes do Linnets.

A participação no Eurovision rendeu ao projeto uma visibilidade gigantesca no continente. Apesar de quase não ser noticiado por aqui (a edição de 2014 virou notícia só por premiar uma drag queen barbada, Conchita Wurst, com o primeiro lugar), o festival anual é um dos maiores acontecimentos musicais da Europa. Lançado em 09 de Maio último, o álbum de estreia do The Common Linnets alcançou o topo das paradas na Holanda natal, mas se destacou também na Áustria, Alemanha, Bélgica, Suiça e Inglatrerra. “Calm After the Storm” entrou até para o Top 10 de singles britânico. “Still Loving After You” (abaixo) também se destacou nas paradas.

O nome da banda, segundo contam Ilsa e Waylon, veio da mente do designer Rens Dekker, amigo da dupla (que inclusive se conhece desde a infância, sintam a fofura!) que, além de sugerir o nome, desenhou a linda arte da capa do álbum de estreia do duo. “Common Linnet” é, na verdade, o nome em inglês de uma espécie de pássaro que no Brasil chamamos de “pintarroxo” (esse aqui) e que, na Holanda, é usado para designar os habitantes de uma região do país superpovoada desses animais. Não por coincidência, tanto Ilsa quanto Waylon nasceram por lá, o que faz deles songbirds (passarinhos cantantes) daquela região.

Aí embaixo selecionamos três músicas em especial que AMAMOS do álbum de estreia do duo. Vem ouvir com a gente e entrar na vibe desse country com sabor de frio e Leste europeu. Se você gostar, o álbum inteiro está disponível no canal do Youtube.

Pra quem gosta de: Lady Antebellum, The Band Perry, Delta Rae, Laura Marling, Armistice, Couer de Pirate

25 de mai. de 2014

The Americans, 2x13: Echo [SEASON FINALE]

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ATENÇÃO: esse review contem spoilers!

por Caio Coletti

Poucos episódios de televisão nessa ou em qualquer temporada que esses olhos tenham testemunhado são capazes de cutucar tão fundo a ferida da hipocrisia que existe em cada um de nós quanto “Echo”, o season finale de The Americans. Claro, é um testemunho a absoluta maestria narrativa dos responsáveis pela série que, mesmo com uns poucos episódios vacilantes pelo caminho, a trama tenha chegado ao final intacta em relação a tudo o que queria dizer e mostrar. Há uma amargura em “Echo”, uma tensão que é muito mais do que de expectativa pelos destinos dos personagens – é existencial. No último de seus fabulosos 13 episódios dessa temporada, The Americans nos faz uma pergunta que deveria ser inquietante para qualquer um: você abriria mão do que ama pelo amor de uma ideia?

O mais excepcional, sem dúvidas, é quanto esse questionamento sempre esteve no âmago da série, esperando para explodir das águas sempre calmas, mas sempre a ponto de ebulição, de The Americans. Com seu retrato exato e (conforme a temporada passou) cada vez mais impiedoso das mentiras e encenações, e do preço alto que elas cobravam na ilusão de estabilidade e autenticidade meramente humana dos personagens, a série sempre esteve caminhando para esse limite, esse “ponto de quebra”, em que as cortinas fecham e o teatro tem que acabar. “Echo” se coloca em frente a esse confronto, mas deixa que as paredes caiam silenciosamente ao fundo, bem à moda de The Americans, para desfazer o cenário cuidadosamente construído por seus protagonistas.

Surpreendentemente, o episódio segue duas linhas narrativas paralelas, que em momento algum se entrelaçam. De um lado temos Stan, uma guilt-trip ambulante enquanto contempla a decisão que precisa tomar – trair seu país e entregar para os russos o programa de computador que seria responsável pela tecnologia stealth, ou perder Nina de vez, uma vez que a moça será mandada de volta para Moscou, aguardar julgamento (e provável execução) por traição. De uma forma, o dilema de Stan também é entre amor e ideias, e a escolha que ele faz é muito mais fria e menos sentida do que as dos Jennings, também. Esse é o jeito que The Americans encontrou para equilibrar seu jogo moral – Stan sente por Nina, e o episódio faz questão de nos colocar diretamente em sua perspectiva (trabalho perfeito do diretor Daniel Sackheim ao inserir subjetividades no mundo sempre frio da série), mas não é dúvida que passa pelo rosto do fabuloso Noah Emmerich, e sim remorso.

Já o casal protagonista passa por um verdadeiro inferno: tudo começa com a morte de Fred (John Carroll Lynch, we’ll miss you!), que completa a missão dada a ele pelos Jennings, mas não sobrevive ao processo; depois, a notícia de que Larrick não está mais na Nicarágua chega aos ouvidos dos dois e eles são obrigados a se locomover para observar Jared (Owen Campbell, em atuação espetacular) de perto – quando encontram-se com o menino, no entanto, e com Larrick, The Americans aplica a maior reviravolta de trama que já ousou aplicar e faz o garoto confessar o crime do assassinato da família, e que vem sendo um agente da KGB há algum tempo. A cena como é escrita por Joe Weisberg e Joel Fields, e atuada por Campbell, é poderosa não só pelo fato de choque, mas pelo que representa: a confissão final de Jared, observado por Elizabeth e Phillip, faz com que os dois olhem diretamente nos olhos da sordidez de comprometer aquilo que se ama por uma ideia (de “trabalhar por algo maior que eles” e nesse processo perder a noção de todo o resto que é considerado “menor”).

As engrenagens de The Americans são tão perfeitas que até a trama de Paige, envolvida com a Igreja durante toda essa temporada, faz sentido. Além de ser uma oportunidade de mostrar que a personagem de Holly Taylor tem uma personalidade parecida com a de Elizabeth, com uma retidão moral e uma paixão pela ideia de sacrifício, trazer a discussão religiosa para dentro da casa dos Jennings é mostrar o quão messiânica é a missão que eles foram colocados naquela terra estranha para cumprir. Num perturbador círculo vicioso de pecado e mentira, “Echo” termina com um diálogo matador desferido por Keri Russell e uma reação aterradora de Matthew Rhys. O que a Mãe Rússia esquece de levar em conta, é claro, é que esses agentes-Messias colocados em terras inimigas são apenas e meramente humanos, e o sacrifício talvez peça deles muito mais do que eles podem oferecer.

The Americans não responde à pergunta que nos faz durante o episódio, aquela que eu destaquei no primeiro parágrafo. E talvez justamente por não responder é que o episódio seja tão inquietante, tão incômodo. Cruelmente, “Echo” se limita a observar que, quando se ama uma ideia acima de qualquer coisa, tudo o mais que se ama se torna refém dela.

Observações adicionais:

- For God’s sake! Eu espero que o Emmy, cujas indicações serão anunciadas no próximo dia 10 de Julho, reconheça, se não a própria série em Melhor Série Dramática, pelo menos Keri Russell como Melhor Atriz na mesma categoria.

- Para quem queria saber, a música usada na cena antes dos créditos iniciais é “Twilight Zone”, do Golden Earring.

✰✰✰✰✰ (5/5)

THE AMERICANS -- "Echo" -- Episode 13 (Airs Wenesday, May 21, 10:00 PM e/p) Pictured: Lee Tergersen as Andrew Larrick. CR. Patrick Harbron/FX

A terceira temporada de The Americans está confirmada pela FX!

Dossiê Cannes 2014: Quem ganhou, quem fez polêmica, quem foi aplaudido e vaiado

Cannes DianaNicole Kidman e Tim Roth, a Grace Kelly e o Príncipe Ranier de Grace of Monaco

por Caio Coletti

Filme de abertura: Grace of Monaco, de Olivier Dahan

O comentário mais gentil que se ouviria em Cannes sobre Grace of Monaco, filme de abertura do Festival desse ano, seria que, de tão ruim, o filme poderia ter um futuro como clássico kitsch. A trajetória da cinebiografia, rótulo que Nicole e o diretor Olivier Dahan (Piaf – Um Hino ao Amor) rejeitam com convicção, não ocorreu sem obstáculos pelo caminho: os descendentes da princesa Grace, incluindo a filha mais nova, Stephanie, expressaram repúdio pelo filme, e o diretor brigou com os produtores, os irmãos Weinstein, pelo corte final do longa. Acerca desse último boato o cineasta foi incisivo: “Só existe uma versão do filme e Harvey [Weinstein] vai lançar essa versão. Se houver alguma mudança a fazer, faremos juntos”, disse na coletiva após a exibição do filme para a crítica.

A polêmica com a família real de Mônaco foi tratada com tato por Nicole, que é 12 anos mais velha do que a princesa Grace seria na época retratada pelo filme: “Fico triste que a família de Grace tenha rejeitado o filme. Não tivemos malícia em relação a eles. Esta é uma ficção, não é uma biopic; precisamos tomar algumas licenças dramáticas. São seus pais retratados na tela, entendo que eles estejam buscando uma proteção de privacidade. Mas quero que eles saibam que minha performance foi feita com muito amor”, esclareceu ela. A estrela ainda revelou que hoje não vê o trabalho como o centro de sua vida, e que entende a decisão de Grace de deixar o cinema pela família (“Quando você tem filhos, descobre que é capaz de morrer por alguém. E quando você tem isso, todas as suas perspectivas mudam”).

Segundo o IMDb, a estreia de Grace of Monaco no Brasil está marcada só para 01 de Janeiro de 2015.

Captura de tela inteira 25052014 213801.bmpQuentin Tarantino, Nuri Bilge Ceylan, Uma Thurman, Timothy Spall e Bruce Wagner

Palma de Ouro: Winter Sleep, de Nuri Bilge Ceylan

Terceiro ano seguido em que a Palma de Ouro sai para um país fora do eixo EUA-Inglaterra, o grande vencedor da premiação esse ano foi o turco Nuri Bilge Ceylan, de 55 anos, que venceu pela primeira vez após quatro seleções anteriores para a disputa. Conhecido por filmes como Distante, Era uma Vez na Anatólia e 3 Macacos, o diretor trouxe à Cannes dessa vez uma épica meditação sobre a natureza humana e partes dela com o egocentrismo e manipulação. São 3 horas e 15 de filme, duração que, segundo a presidente do júri Jane Campion, meteu medo na plateia, mas a maestria de Ceylan acabou se revelando conquistadora: “O filme tem um ritmo tão bonito que me envolveu, eu podia ficar mais tempo ali. É como uma história de Tchecov, com os personagens se torturando o tempo todo”, afirmou.

A cerimônia de premiação apresentada por Quentin Tarantino e Uma Thurman (em comemoração aos 20 anos da Palma de Ouro de Pulp Fiction), laureou ainda o britânico Timothy Spall, conhecido como o Rabicho da saga Harry Potter, como Melhor Ator pelo papel-título de Mr. Turner, filme de Mike Leigh sobre um dos precursores do impressionismo nas artes plásticas. O título de Melhor Atriz ficou com Julianne Moore, a atriz atormentada por fantasmas do passado e do presente no irônico Maps to the Stars, de David Cronenberg, um dos filmes mais controversos de Cannes 2014 (vide o topless no tapete vermelho) – o roteirista do filme, Bruce Wagner, recebeu o prêmio pela atriz, que não estava mais na França.

Melhor Diretor: Bennet Miller, por Foxcatcher (EUA) - TRAILER
Melhor Roteiro: Oleg Negin e Andrey Zvyagintsev, por Leviathan (Rússia) – TRAILER
Prêmio do Júri: Xavier Dolan, por Mommy (Canadá)
Cámera D’Or (para cineastas estreantes): Marie Amachoukeli-Barsacq, Claire Burger e Samuel Theis, por Party Girl (França)

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Un Certain Regard: O Sal da Terra, de Wim Wenders

Uma co-produção Brasil, França e Itália, documentário sobre a vida de um brasileiro notável, foi a grande vencedora da mostra paralela Un Certain Regard, sempre a mais concorrida de Cannes depois da seleção principal. O Sal da Terra era um projeto de Juliano Ribeiro Salgado, filho do lendário fotógrafo jornalístico Sebastião Salgado, que chamou o diretor alemão Wim Wenders (O Homem Urso, Asas do Desejo) para ajudá-lo a montar uma homenagem em forma de filme para o trabalho do pai. O resultado encantou o júri presidido pelo cineasta argentino Pablo Trapero, que concedeu o prêmio Especial do Júri ao filme, já garantido para distribuição americana e brasileira.

O prêmio principal da mostra ficou, no entanto, com White God, filme húngaro que chocou a plateia ao apresentar cenas violentas de ataques de cachorros selvagens no centro de Budapeste. O diretor Kornél Mundruczó já concorreu a Palma de Ouro duas vezes, mas esse é o primeiro prêmio que leva para casa. Os atores principais do filme, os cães gêmeos Luke e Body, ganharam a “Palma Dog”, brincadeira que premia os cachorros mais expressivos de Cannes. Party Girl acumulou, junto com a Camera D’Or, o prêmio de melhor direção da Un Certain Regard. O ator australiano Davil Gulpilil ganhou o troféu de melhor atuação pelo papel de um aborígene em Charlie’s Country.

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O quê mais teve?

  • Teve Quentin Tarantino comemorando 20 anos da vitória de Pulp Fiction na corrida pela Palma de Ouro e deixando os fãs eufóricos ao dizer que está pensando em filmar The Hateful Eight, projeto que abandonou em Janeiro após o vazamento de um rascunho do roteiro.
  • Teve Ken Loach, um dos diretores preferidos de Cannes (são 12 seleções para a Palma de Ouro e uma vitória, por Ventos da Liberdade), desistindo de se aposentar após ver seu último filme, Jimmy’s Hall (TRAILER), ser ovacionado pelo público.
  • Teve Michel Hazanavicious (O Artista), Ryan Gosling e Ryan Reynolds tendo seus filmes recebidos com gelidez pela crítica do Festival. Hazanavicious apresentou The Search (TRAILER), Gosling estreou na direção com Lost River (TRAILER) e Reynolds levou o thriller The Captive (TRAILER).
  • Teve Steve Carell sendo o primeiro cotado para o Oscar de Melhor Ator do ano que vem pela atuação em Foxcatcher, na pele de um bilionário obsessivo.

19 de mai. de 2014

Suburgatory 3x13: Stiiiiiiill Horny [SERIES FINALE]

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ATENÇÃO: esse review contem spoilers!

por Caio Coletti

Durante os dois anos em que estive fazendo reviews de Suburgatory para O Anagrama, a comédia da ABC mostrou-se uma das séries mais surpreendentemente difíceis de se discutir. Existe um tom muito específico à Suburgatory que é difícil de traduzir em palavras, e isso é só testemunha da genialidade da série de Emily Kapnek em seus melhores momentos. Não é só esse sabor agridoce de mezzo comédia cartunesca, mezzo drama familiar, não é só a ambiguidade moral de amar e odiar todos os seus personagens ao mesmo tempo (ou amá-los mais completamente por reconhecer seus defeitos, talvez). Durante os três anos em que esteve no ar, Suburgatory conteve uma mágica dentro de si que só fica mais clara nesse series finale.

É verdade que “Stiiiiiiill Horny” não é o último episódio que Kapnek e os outros escritores estavam esperando, mesmo porque a notícia do cancelamento da série os obrigou a correr um pouco com a trama. Se esse finale guarda em si um senso de completude é sinal de que esses personagens estavam solidamente construídos – basta pensar um pouco para entender que isso é muito mais importante do que tempo para fechar a trama, uma vez que a natureza da narrativa por si só impede um fechamento “redondinho” (histórias sempre tem para onde continuar quando deixam a tela). Dito isso, é notável como o roteiro de Andrew Guest, em sua décima e última colaboração com a série, entende a jornada desses personagens e as dá um desenrolar perfeitamente adequado.

Depois do casamento de Lisa e Malik, acompanhamos o novo casal de adaptado à vida em matrimônio, num pequeno conflito que é resolvido com agilidade, simplicidade e inteligência (três qualidades que sempre brilharam em Suburgartory). Ao mesmo tempo, George remói sua noite com a ex, Dallas, e tenta descobrir se quer reatar o relacionamento com ela ou não – e a mesma dúvida acomete a personagem de Cheryl Hines. Por fim, Tessa descobre-se sem amigos e tenta se juntar a um clube de tricô, mas não percebe que está fazendo isso tudo, e esteve fazendo muitas outras coisas por um bom tempo, porque ainda não superou Ryan.

Os “finais” dados a esses dois casais principais são interessantes, e dizem muito sobre os paralelos que Suburgatory desenhou, em sua trajetória através das temporadas, entre as relações pai-e-filho e as relações românticas. Há muito de impulsividade no beijo de Tessa e Ryan que fecha “Stiiiiiiill Horny”, e há uma amargura na discussão entre George e Dallas que sela o relacionamento dos dois de maneira que parece (e vai acabar sendo) definitiva. Um dos grandes temas silenciosos de Suburgatory pode ter sido conflito de gerações, afinal – ou melhor, o conflito que a experiência naturalmente provoca ao sentimento à flor da pele da juventude. Até isso a série precisa relativizar, no entanto, e nos coloca um episódio final estrelado por quatro velhinhas que se dizem, orgulhosamente, “ainda safadas”.

Por falar em relativizar, Suburgatory entra no rol de série que foi capaz de chegar ao outro lado desse processo, e a linda canção entoada por Jeremy Sisto em certa parte do episódio é exemplar disso. Encarnada na personagem de Dallas, Suburgatory conseguiu nos mostrar que futilidade e superficialidade são meras questões de escolha, mesmo quando um ambiente tenta te forçar a isso – e mais, que até as pessoas mais inócuas podem ter qualidades que faltas nas mais profundas. Bastante maduro para uma série que terminou com dois adolescentes se despindo no meio da rua, não?

Observações adicionais:

- Suburgatory pode ter acabado, mas Emily Kapnek estreia série nova, intitulada Selfie, na próxima fall season. Já estamos ansiosos!

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

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18 de mai. de 2014

The Americans 2x12: Operation Chronicle

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ATENÇÃO: esse review contem spoilers!

por Caio Coletti

The Americans é uma das melhores séries no ar atualmente, ponto. A diferença da trama criada por Joe Weisberg para uma Breaking Bad ou uma Game of Thrones é que The Americans não sente a necessidade de alardear sua qualidade da maneira gritante com que essas e outras grandes séries da atualidade fazem (ou faziam). Há algo de muito mais quieto, muito mais discreto, e muito mais integral na forma como The Americans é excelente – com seus valores de produção apuradíssimos (mas sem luxo ou extravagância), suas atuações espetaculares (mas que colocam o ego do personagem acima do ego do ator) e seus múltiplos temas interconectados em uma narrativa muito coesa, a série do FX não faz barulho sobre suas grandes reviravoltas nem pretende criar ícones pop de seus personagens. Essencialmente, The Americans é tão boa porque se preocupa apenas em contar uma história da melhor maneira possível.

“Operation Chronicle” faz essa prerrogativa ser evidente de uma forma que não era desde o começo da temporada, no igualmente excepcional “Comrades”. Talvez o grande responsável por isso seja o próprio Joe Weisberg, que assina o roteiro desse penúltimo episódio da temporada ao lado de Joel Fields, co-produtor e co-developer da série. Com o conhecimento essencial que Weisberg tem de sua própria criação, o episódio nos mostra a sutileza de The Americans em pleno funcionamento, movendo a trama adiante com delicadeza e cadência impecáveis enquanto assistimos um desenrolar emocional tão ou até mais importante do que o político. Os intermináveis paralelos entre os personagens, suas relações uns com os outros e o diálogo entre esses dois “âmbitos” da trama estão de volta, assim como a preocupação de não isolar os personagens nesse mundo conceitual.

A câmera de Andrew Bernstein (Elementary) auxilia e muito nesse sentido, retomando as tomadas de longe e sublinhando elementos de cena e a forma como a trama dialoga com eles o tempo todo. “Operation Chronicle” é, como a própria The Americans, uma história que acontece em função e por consequência do ambiente em que se desenrola – e quando a série procura reconhecer isso melhor o resultado é um episódio muito mais rico em contexto e envolvimento do espectador.

A série se prepara para o season finale com sua trama em múltiplas frentes: com a ameaça de Larrick se aproximando, Elizabeth corre contra o tempo para tirar Jared, o filhos dos agentes soviéticos mortos no episódio da estreia, do país – mas o episódio nos deixa com uma arrepiante cena que mostra o personagem de Lee Tergesen mais perto do que gostaríamos de seu alvo; ao mesmo tempo, os Jennings são chamados à ação para roubar amostras da pintura de aviões responsável pelo efeito stealth, e para isso dependem de Fred (John Carroll Lynch), de cuja lealdade eles ainda duvidam; por fim, Nina e a KGB armam uma encenação para convencer o agente Beeman a conseguir acesso ao programa de computador que os soviéticos precisam para completar o projeto stealth.

Como é a própria missão de um pré-season finale, “Operation Chronicle” faz mais jogar possibilidades interessantes no ar (o dilema moral de Beeman, o medo de Nina, as infinitas incertezas de Elizabeth e Phillip) do que resolvê-las. Isoladamente, no entanto, continua sendo um retrato instantâneo e extremamente eficiente do mundo particular de The Americans, e de toda a qualidade humana que, essencialmente, faz parte dele.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

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Próximo The Americans: 2x13 – Echo (21/05) [SEASON FINALE]