Review: Dirty Computer (álbum e filme)

Janelle Monáe cria a obra de arte do ano com um álbum visual espetacular - e que desafia descrições.

Os 15 melhores álbuns de 2017

Drake, Lorde e Goldfrapp são apenas três dos artistas que chegaram arrasando na nossa lista.

Review: Me Chame Pelo Seu Nome

Luca Guadagnino cria o filme mais sensual (e importante) do ano.

Review: Lady Bird: A Hora de Voar

Mais uma obra-prima da roteirista mais talentosa da nossa década.

Review: Liga da Justiça

É verdade: o novo filme da DC seria melhor se não tivesse uma Warner (e um Joss Whedon) no caminho.

20 de ago. de 2013

Cher e a diversidade feminina no clipe de “Woman’s World”

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por Caio Coletti

E contra todas as expectativas, parece que o grande comeback da Cher ao mundo da música vai mesmo acontecer! “Woman’s World”, provavelmente o single com promoção mais longa da história da música pop, ganhou hoje (20) videoclipe, estrelado pela diva sessentona com seus figurinos elegantes e absurdos e seu carisma de sempre.

Entre perucas de jornal, cabelos longos e ruivos e silhueta quase exageradamente alta que a fotografia do clipe perfila, Cher cede um pouco de espaço no vídeo a várias outras mulheres anônimas, em cuja diversidade está o apelo universal da canção: “esse é um mundo das mulheres!”. Pode não ser novidade, mas ainda é bacana ver isso ser afirmado com tanta convicção.

Sobre complexo de Deus, jornalismo e Lady Gaga, ou uma crítica estatística e pessoal a André Forastieri

774px-Michelangelo,_Creation_of_Adam_04Detalhe de Creation of Adam, de Michelangelo

Os adeptos a séries médicas já devem ter ouvido o termo “complexo de Deus”. O God complex é caracterizado por um sentimento inabalável de certeza na própria opinião, uma recusa absoluta de se reconhecer errado (mesmo que só eventualmente), um sentimento todo-poderoso de infalibilidade. Como frequentemente são responsáveis por salvar ou tirar vidas, os profissionais da medicina precisam ficar atentos ao próprio ego para não desenvolverem alguma coisa assim e, do nada, virarem pacientes. Os psicólogos de plantão precisam ser avisados, no entanto, que não são só os médicos que sofrem do “complexo de Deus”. Alguns jornalistas também.

Sou estudante de Jornalismo e confesso que já conheço alguns que poderiam ser enquadrados nesse diagnóstico, mas meu principal contato com esse tipo de jornalista que eu pretendo nunca me tornar é, para o meu próprio choque, em sites e publicações consagradas. E se posso falar pela minha universidade em específico, o curso faz um trabalho bem incisivo em nos dar a noção de que não somos e nem devemos nos considerar Paladinos da Justiça e da Verdade (em maiúsculas para sublinhar a insuportável pretensão do próprio termo). A neutralidade jornalística? Mito. É virtualmente impossível escrever um texto sem tomar um lado. A escolha de cada palavra significa assumir uma ótica de se olhar a situação, e não outra.

Por outro lado, aprendo que o compromisso do jornalista é sim com os fatos. Com o que lhe foi dito, por quem foi dito. Quando há números comprovados, com eles. O jornalista não molda a realidade para encaixar-se em sua opinião, e não omite fatos e números que falam contra ela. O trabalho jornalístico tem a ver com apresentar uma versão de um acontecimento que deixe seu leitor, espectador ou ouvinte decidir por si mesmo quem está certo. Não é pecado jornalístico advogar uma opinião, desde que se dê espaço para advogar pela outra.

Ao trazer toda essa envergadura e premissa moral para o meu atual campo de atuação, o jornalismo de entretenimento online, as linhas são um pouco mais difusas – mas ainda estão lá. A expressão direta da opinião é enormemente valorizada no mundo dos blogs e sites de entretenimento, mas o posicionamento de quem a escreve não deve nunca fugir do que pode ser comprovado, e jamais omitir dados que possam dizer o contrário. Logo, se um lançamento pop que não me agradou estoura nas paradas, resta escrever um review ruim que inclua a informação de que o público abraçou aquela composição com unhas e dentes. E o mesmo ao contrário. Uma canção que eu gostei e vendeu mal “deveria ter vendido mais”. Reconhece-se o desempenho estatístico e irrefutável e insere-se a opinião.

Tudo isso para chegar no exemplo de mau jornalismo em questão, este artigo do colaborador do R7 e jornalista de carreira notável no ramo do entretenimento (uma informação que me chocou bastante, e que pode tirar a credibilidade do meu argumento aqui, mas que eu não omiti, percebam bem) André Forastieri. Eu não sei se o senhor Forastieri considera que a internet não é lugar para se fazer jornalismo de respeito, mas se não considera, aquele título de “jornalista” embaixo do nome exibido em seu blog deveria ser retirado, porque esse texto é tudo, menos jornalismo. Pode ser que seja só uma implicância com Lady Gaga, porque impossível negar que outras investidas dele em assuntos como política e imprensa foram quase excepcionalmente inteligentes e cristalinas.

Pessoalmente, eu gosto da artista pop Lady Gaga. Tenho CD, DVD, biografia e livro de fotos assinado por Terry Richardson. Fui ao show. Qualquer um que me conheça, ou mesmo que leia minhas ruminações aqui n’O Anagrama, sabe disso. Não acho que isso não devesse transparecer nos meus textos, porque acho-a genial, e quero que as pessoas leiam minha visão do porquê acho-a genial. Não quero que elas aceitem essa visão de bate-pronto, mas acharia brilhante se o que eu escrevo as fizesse mastigar um pouco a refeição pop de Gaga. Mesmo que elas entrem aqui achando o gosto da refeição ruim, e saiam sem mudar de opinião.

Nunca neguei que o público não abraçou a maioria dos lançamentos do Born This Way, último disco da moça, de 2011. “Marry The Night”, o último single, estagnou na posição de #29 do Billboard Hot 100. O álbum só rendeu duas canções que chegaram ao top 3. Vendeu 6 milhões de cópias, o que é um número bastante significativo na era de pirataria em que vivemos, mas ainda é metade das vendas do combo The Fame/The Fame Monster. A turnê, apesar de ter sido uma das mais lucrativas de 2012, não lotou os estádios para os quais foi desenhada. A essa altura do campeonato, é impossível negar a influência de Gaga como figura definidora do pop internacional e ditadora de tendências, vide a enxurrada de canções direcionadas a levantar a auto-estima do público jovem inseguro de sua própria identidade depois do lançamento de “Born This Way” (o single). Impossível também negar, no entanto, que ela não reina sozinha no Olimpo dos artistas com “sucesso certo”. Talvez nem mesmo reine soberana.

C093B0136AB0289CE64C2EA6677EE5André Forastieri

O que André Forastieri faz em seu artigo, no entanto, é declarar o fracasso total do último empreendimento de Gaga no mundo pop, o single “Applause”, que se seguirá do terceiro álbum de estúdio, ARTPOP, no dia 11 de Novembro. Álbum com o qual, segundo o jornalista, “ninguém se importa”. O Google Trends indica, no entanto, que o título do álbum da moça (que não é um termo comum, uma vez que o movimento artísitico de Andy Warhol e companhia se escreve “pop art”), está ligeiramente acima do nome do recentemente nomeado Papa Francisco I em volume de buscas em inglês no site (dá pra conferir aqui). Isso, claro, é uma informação só para o caso de você, leitor, e seus amigos terem discutido alguma outra coisa além de Lady Gaga na última semana.

O jornalista Forastieri continua, redigindo um texto que é tudo, menos jornalístico, ao afirmar que o novo single “não está vendendo”. O iTunes Charts americano, no entanto, coloca “Applause” como um terceiro single mais vendido do momento, atrás de “Roar” de Katy Perry e “Blurred Lines” de Robin Thicke (prova aqui, muito embora a informação no texto reflita o chart no momento em que este que vos fala o consultou, e portanto está sujeita a mudanças). A Billboard prevê que Gaga vai vender em torno de 200 a 225 mil cópias do single, um número similar ao conseguido por Adele na faixa “Skyfall”, que chegou no final do ano passado em um ambiente bem mais competitivo que o atual, e mesmo assim cravou o #8 na parada da Billboard. Com apenas Katy Perry com prospectos de vendas maiores que os seus, as chances são que Gaga encontre seu caminho para o Top 3 na próxima quarta feira (tudo que eu disse aqui pode ser corroborrado por esse artigo da própria Billboard).

“Applause” não vai alcançar o êxito de uma “Born This Way”, que estreou com vendas em torno de 600 mil cópias, um número que nem “Roar”, a papa-tudo dessa semana na Billboard, provavelmente vai arranhar (as previsões são de 475 mil para Katy Perry), mas não é um fracasso. Eu me pergunto quando uma canção Top 3 da Billboard Hot 100 começou a ser chamada de fracasso. Para efeitos de comparação, “Scream”, parceria entre Michael Jackson e a irmã Janet, não passou do #5, e ainda é considerada uma das canções pop mais bem-sucedidas dos anos 90.

Procurando outros textos do senhor Forastieri aqui e ali no blog do R7, fica bem claro que o dito jornalista tem uma visão de música pop que quase deixa de considerá-la música. E ele tem todo o direito de ter, diga-se de passagem, e de se enterrar em suas coleções de vinis do U2 e do Metallica. Assim como eu tenho todo o direito de argumentar de volta, e de me enterrar nos meus CDs da própria Gaga. Difícil saber se Forastieri sempre considerou o movimento pop todo uma grande bobagem totalmente voltada para o lado mercadológico, ou se pensa que os anos corromperam a proposta de Andy Warhol e companhia. Ou se mal entende qual era essa proposta, na pior das hipóteses. Em um dos muitos textos anteriores que ele linka no artigo sobre Gaga, ele diz que qualidade musical não tem nada a ver com pop (aqui, no segundo parágrafo).

De certa forma, esse tipo de opinião legitima exatamente a missão da artista no mundo pop. A percepção geral das pessoas em relação a esse meio não mudou muito desde que Madonna surgiu 25 anos atrás, e mesmo que o pop tenha ganhado as galerias de arte e especialistas do mundo todo, muita gente ainda se recusa a aceitar que entretenimento feito para as massas também tem o direito de provocar e instigar a mente de quem o recebe. A missão de Gaga sempre foi, desde os primórdios do The Fame – e não só recentemente, como o moço sugere no finalzinho do seu artigo – levar a performance pop de volta para as galerias de arte. O fato de que esse empreendimento ficou mais descarado na proposta do novo álbum deve estar incomodando quem acha que o pop deve se reduzir a própria (presumida) mediocridade.

E daí que vem a vontade de taxar “Applause” como um fracasso. Dois dos melhores e mais influentes álbuns de Madonna, o Erotica e o Bedtime Stories, venderam em torno de 6 milhões de cópias, só o bastante para não serem considerados flops em sua época. Para os padrões da indústria fonográfica atual, com os quais Forastieri não parece se importar o bastante para realizar o mínimo de pesquisa exigida para a função de jornalista, esse mesmo número é bem mais significativo. O autor do artigo deve achar que, se reconhecer isso, a própria fundação do que escreveu vai vir por terra. Está errado.

O senhor Forastieri tem todo o direito de escrever que acha que Gaga não representa a música pop da forma que deveria. Pode escrever, inclusive, que essa tal música pop é só lixo mercadológico. Pode contestar a escolha de colocar diversas das peças performadas e usadas por Gaga em museus de arte por aí. Pode dizer que “Applause” tem números modestos se comparados ao começo da carreira da artista. Pode até dizer que ela sofre da “síndrome de Marilyn Monroe”, muito embora a própria construção da sentença em que ele usa essa expressão devesse dar calafrios nas feministas da mesma forma que a mim. O que ele não pode fazer é deixar de escrever tudo o que fala contra essa opinião.

A partir do momento em que um texto tem só uma voz e só uma todo-poderosa visão que não admite que qualquer número ou consideração de especialistas fale contra ela, paramos de falar de jornalismo e começamos a falar de conversa de bar. A partir do momento em que a sua opinião começa a valer mais do que as fontes de informação que você tem a obrigação de buscar como jornalista, talvez seja a hora de consultar um psicólogo. Você não está mais fazendo um bom serviço ao público. Aliás, lembra que era você que deveria servir o público com fatos e informações, e então opiniões que eles deveriam considerar antes de adotar? Lendo outros textos no blog do senhor Forastieri, fica claro que, assim como eu, ele sabe muito bem disso. E esse Complexo de Deus em certos momentos começa a cheirar como implicação infantil. Eu, sinceramente, não sei o que é mais patético.

Caio

Avril Lavigne é a mistura mais indecifrável de pop e “Rock N Roll” no novo clipe

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por Caio Coletti

Tubarões-ursos, beijos lésbicos, futuros distópicos, enterro de animais de estimação e histórias em quadrinhos em uma história épica sobre a salvação do rock que não poderia ser mais pop do que já é. Esse é um resumo bem sintético de “Rock N Roll”, novo clipe de Avril Lavigne, o segundo a preceder seu próximo álbum, auto-intitulado, que foi adiado para 05 de Novembro próximo.

Ao longo dos últimos 11 anos, a cantora e compositora candense foi aos poucos se tornando a mistura mais intrincada de ato pop e visual/sonoridade rock do século XXI, e parece que esse novo álbum resolveu abraçar de vez essa identidade dividida. Como a gente aqui n’O Anagrama é fã daquele tipo de clipe que nos deixa com olhar de “what the actual fuck?”, adoramos “Rock N Roll”.

Ah, e o novo celular da Sony é a prova de água, como a moça fez questão de mostrar no começo. Melhor merchandising em clipe ever.

19 de ago. de 2013

Review: O mal nunca morre em “American Horror Story Asylum”

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A primeira temporada de American Horror Story, posteriormente intitulada Murder House, foi uma tremenda bagunça. De uma ideia interessante dos criadores Ryan Murphy e Brad Falchuk (Glee), a série tirou um primeiro ano que jogava tramas e subtramas ao vento sem propriamente desenvolver nenhuma delas, que tentava realizar o retrato de um casamento em ruínas (um “horror” muito arraigado no zeitgeist americano) e, mesmo quando conseguia, se perdia em meio a decisões apressadas que prezavam o choque pelo choque, sem função na trama. Asylum, esse segundo ano, tira o melhor dessa premissa, não perde o clima camp, e corrige o grande erro da primeira temporada: conta uma história de verdade.

Em seus melhores momentos, American Horror Story é exatamente aquilo que o título diz: uma antologia horrorizante de todos os males que assombram a América, a de verdade e a da ficção, com o passar dos anos. O problema de comprimí-los em uma história só, com começo, meio e fim, é grande para Murphy, Falchuk e seus roteiristas, mas por boa parte de Asylum, essa é uma missão cumprida. A regularidade aqui é impressionante, mesmo que a série pelo menos uma vez (no terceiro episódio, “Nor’Easter”) tropece novamente na velha mania de abandonar a linha condutora da trama em favor do valor de choque. O segredo de não desembalar por esse barranco, Asylum sabe, é se levar a sério o bastante para ser comovente quando precisa e contundente ao passar sua mensagem (porque sim, essa temporada tem uma!), mas nunca demais a ponto de deixar de ser divertida.

O camp aqui é delicioso quando toma o centro das atenções, mas o é justamente porque não compõe o coração da série. No fundo, Asylum está mesmo preocupado com personagens, arcos de transformação e narrativa. Todo o resto é só uma distração, e justamente por isso o espectador se deixa levar por deleites como a interpretação de Lily Rabe como a Irmã Mary Eunice, uma doce freira que é o braço direito da Irmã Jude de Jessica Lange no comando do sanatório de Birarcliff. Isso, é claro, até ela ser possuída pelo demônio. A atriz, que ganha mais destaque aqui do que na primeira temporada, se diverte a beça no papel, e muito dessa diversão acaba se transferindo para o público.

Uma boa evidência dessa recém-encontrada competência narrativa é o simples fato de que, dessa vez, American Horror Story tem um centro. E ele está firmemente pregado na personagem Lana Winters, uma repórter ambiciosa que, ao tentar realizar uma matéria expositiva dos horrores do sanatório de Briarcliff, acaba encarcerada no lugar sob a acusação de lesbianismo. Ela é setpiece central da temporada porque está no cerne natural de todos os temas da mesma, e não o contrário. As melhores decisões narrativas são assim: parecem consequencias da história contada, e não manipulações da mesma. Sarah Paulson, que foi coadjuvante absoluta na primeira temporada, segura esse centro com garra impressionante e consistência incansável.

Outro bom exemplo é o senso de retrato social que a série adquiriu entre o primeiro e o segundo ano: Asylum é um conto de terror tão legítimo porque entre suas assombrações figura a injustiça social, a definição superficial do “normal” e da “loucura”, e a obtenção e abuso do poder para a manutenção do status quo. A própria escolha da localização temporal da trama demonstra esse pensamento mais amplo: os anos 60 são aquela época cinzenta em que todas as tradições da América pós-Guerra Civil entraram em conflito com os ideais vendidos pela cultura pop. As convenções daqueles que comandavam a sociedade não eram compatíveis com as dos comandados, e justmente nessa disputa de poder que Asylum se posiciona como espelho distorcido da realidade americana.

Claro, American Horror Story sempre teve, mesmo na primeira temporada, um coração mais profundo, mais sombrio e mais fundamental. A lógica por trás da série sobreviveu às mudanças entre as temporadas, e se o novo senso de narrativa encontra-se focado em Lana, o epicentro conceitual dessa identidade definida por Murphy e Falchuk está sobre os ombros mais do que capazes de Jessica Lange. Do alto de seus 64 anos, a atriz que foi a mocinha da versão de 1976 de King Kong está gigantesca como a Irmã Jude, genuinamente hipnotizante nos primeiros episódios, e progressivamente contruindo uma atuação densa e cheia de camadas. A intensidade de sua performance é igual ao detalhismo e cuidado aplicado a mesma, e Jude acaba se tornando tão facilmente odiável quanto identificável.

A trama concentra no calvário da personagem a noção intrinseca de Horror e Mal (com devidas letras maiúsculas) que a série toma para si: e em American Horror Story, esse Mal é muito maior do que a jornada de qualquer ser humano. Ele nunca morre e, como o demônio que toma conta da Irmã Mary Eunice, ele toma a vida de cada um que toca por inteiro. Uma vez tocado por Ele, só resta a cada um de nós esperar pelo beijo piedoso e sombrio da morte.

**** (4/5)

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American Horror Story Asylum está indicado a 17 Emmys, incluindo:
- Melhor Elenco para Minissérie ou Filme
- Melhor Atriz em Minissérie ou Filme (Jessica Lange)
- Melhor Minissérie ou Filme
- Melhor Ator Coadjuvante em Minissérie ou Filme (James Cromwell)
- Melhor Ator Coadjuvante em Minissérie ou Filme (Zachary Quinto)
- Melhor Atriz Coadjuvantte em Minissérie ou Filme (Sarah Paulson)

Caio

Lady Gaga toma o palco e deixa a imaginação voar no clipe de “Applause”

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por Caio Coletti

Os que reclamavam dos crescentemente complexos e intrincados vídeos de Lady Gaga podem se deliciar com “Applause”, o vídeo mais simples que a cantora lança em muito tempo. Esse parece ser o clima do ARTPOP, uma amostra bem sintética e dinâmica de tudo aquilo que a viagem de Gaga como artista representa: a inserção da música pop na categoria de arte, e vice-versa.

Em “Applause”, o vídeo lançado hoje (19), o palco no qual a cantora apresenta sua música mistura teatro, arena de circo,  exposição de arte contemporânea (a parte em que Gaga aparece como a cabeça de um cisne negro em exposição é simbólica nesse sentido), performance pop e passarela de moda. Tudo isso sem nunca se furtar de ser engraçado e divertido em sua bizarrice.

18 de ago. de 2013

Review: Duas visões sobre Hemlock Grove, série do Netflix

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ATENÇÃO: esses reviews contem spoilers!

Com tantos erros quanto acertos, “Hemlock Grove” resulta em um produto mediano

Uma garota é assassinada em uma pequena cidade e em seguida somos apresentados aos suspeitos do crime. Você já deve conhecer esta sequência de Twin Peaks, clássico dos anos 90. É exatamente esta referência que pegamos ao assistir ao primeiro episódio de Hemlock Grove, série original da Netflix.

A série baseada no romance homônimo de Brian McGreevy não esconde a influência da obra de David Lynch, entretanto é eficaz ao mostrar que tem identidade própria quando mistura o recurso narrativo Whodunnit (o nosso Quem matou?) com uma trama que beira ao sobrenatural adolescente. A mistura funciona no primeiro momento, pois gera um mistério em torno de como o programa vai desenvolver a investigação paralela à mitologia.

O problema aqui é que HG comete um erro comum: demora a explorar a mitologia. Com tantos personagens promissores, o erro pode se tornar imperdoável para os espectadores mais críticos. Ok, todo mundo viu a transformação do garoto em lobo no final do piloto, mas depois daquela cena você simplesmente não vê algo relativo a este universo tão cedo. Outro grande problema é a falta de inspiração do elenco jovem, que passaria despercebido se não ocupasse a tela durante a maior parte do tempo.

Há de se reconhecer que a série tem seus méritos, e o principal, eu diria, é apresentar os monstros clássicos da literatura a uma nova geração. O vampiro, o lobisomem e até mesmo o monstro de Frankenstein ganham uma roupagem que funciona de forma satisfatória no contexto contemporâneo. Outro ponto que precisa ser citado é a qualidade dos efeitos especiais. O trabalho feito nos episódios finais é surpreendente.

Com a vantagem de fazer parte do serviço on demand, Hemlock Grove pode ser um bom programa se você estiver disposto a enfrentar a lentidão dos episódios iniciais.

*** (3/5)

Rubens

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Uma carta em defesa de “Hemlock Grove”

Caros críticos e fãs de televisão,

Decidam o que querem da vida. Desde que a mania pelo sobrenatural foi atiçada na televisão com as estréias de True Blood e The Vampire Diaries (ou talvez mesmo antes com as referências pulp de Lost), vocês estiveram pedindo aos berros por uma série que fosse criativa, instigante e estourada de todas as boas maneiras, mas ao mesmo tempo tivesse pés na realidade e mostrasse personagens com os quais vocês pudessem se relacionar. Hemlock Grove se propõe a ser tudo isso, e é verdade que não acerta todas as notas esperadas em suas 13 horas da primeira temporada, mas erra muito menos do que os últimos meses de recepção glacial fizeram crer.

Para falar bem a verdade, Hemlock Grove é uma das melhores coisas que a televisão ofereceu nessa última temporada, e o fato de que ela e a igualmente ótima House of Cards vieram do site de streaming Netflix prova que o sistema de grandes redes da televisão americana, com algumas gloriosas exceções, produz o mesmo tipo de produto comercialmente pautado que o cinema. Essa é uma maldição, é claro, que vem junto com a popularidade do meio, e não há dúvidas que, futuramente, ela vá afetar também o tipo de produção realizada pelo Netflix. Por enquanto, assim como no início da era de ouro da televisão, ficamos com produções comprometidas com a própria visão que tem da história que querem contar, formando uma unidade muito mais coesa do que a maioria das séries que é produzida enquanto os primeiros episódios já estão recebendo feedback do público.

Lançada integralmente no último dia 19 de Abril, Hemlock é a mesma série do começo ao fim, e essa característica é mais do que bem-vinda em uma trama cujo equilíbrio de tom é tão delicado. A aposta aqui é em uma narrativa bizarramente desconexa, como um amálgama estranho de pesadelos costurados, um novelo de lã que vai tomando formas inesperadas a partir do momento que puxamos a ponta do fio. Os pulos de continuidade muitas vezes passam uma sensação brusca de estranhamento, como se a narrativa entrasse naquela nova cena um pouco mais tarde do que deveria, e não são poucas as vezes que a série apresenta uma sequencia de sonho/delírio como parte da narrativa integral, esclarecendo a diferenciação só depois (seja minutos ou episódios depois).

Esse método todo é muito pouco convencional, mas não pode e não deve ser criticado justamente porque é um método. A repetição desse tipo de procedimento acrescenta um semitom perturbador a narrativa, quase como se houvesse um glitch, um deslocamento, entre quem narra a história e quem a recebe. Não é uma estética elitista, mas é perfeita para manter o interesse na história que Hemlock Grove tem para contar, principalmente porque, sem esse tipo de detalhe, ela é bem convencional: uma garota é assasinada brutalmente na cidade título, que é controlada pela família Godfrey, donos de uma empresa de pesquisa científica. O estado do cadáver encontrado leva a crer que o assassinato é obra de um animal, e não de um humano, portanto quando os ciganos Peter e Lynda Rumancek (Landon Liboiron e Lili Taylor) chegam a cidade só um dia antes do acontecido, surgem as suspeitas de que o moço é um lobisomem, levantadas pela aspirante a novelista curiosa Christina (Freya Tingley).

Em Hemlock Grove (a série e a cidade), ninguém parece especialmente chocado com essa suspeita sobrenatural, e é exatamente assim que deveria ser em um programa sobre uma cidadezinha pequena com forças sinistras. A noção de que Hemlock é um lugar em que as regras do mundo em geral não se aplicam, e o fato de que o espectador é jogado em meio a isso sem que se prestem muitas explicações para ele é um dos aspectos mais intrigantes da série. Mais do que Bates Motel, que encontra seu coração na relação entre os protagonistas, e mais do que Under The Dome, nos quais as forças sinistras estão se mostrando cada vez menos sinistras e mais humanas, em Hemlock Grove encontra-se o melhor exemplo de mistério de cidade pequena na televisão americana atualmente.

Outro grande triunfo nesse sentido é a recusa da série de jogar revelações apressadas nessa primeira temporada. No finale, descobrimos algumas coisas que estavam ocultas durante os episódios anteriores, mas a série é mais do que sábia em manter o pathos de perguntas não respondidas. O público precisa aprender que há muito mais graça nas possibilidades do não saber do que na fria certeza do saber, mesmo que Hemlock seja mais do que incisivo e certeiro nos momentos em que descobrimos os grandes mistérios da trama. Há uma lógica cínica e cruel por trás da série, que casa perfeitamente com o clima sombrio, e um estudo bastante profundo sobre a inevitabilidade da morte, perversões reprimidas e a natureza trágica da maldade. Entre simbolismos e estranhezas, Hemlock Grove passa sua impiedosa mensagem com muita convicção.

Ah, e o sotaque de Famke Jansen é um deleite a parte! E tem tempo de sobra para uma referência a Dirty Dancing também (“Nobody puts baby in a corner!”). Além de tudo, essa ainda é uma série divertida. Do que vocês estavam reclamando mesmo?

***** (4,5/5)

Caio

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Hemlock Grove está confirmada para uma segunda temporada!