Review: Dirty Computer (álbum e filme)

Janelle Monáe cria a obra de arte do ano com um álbum visual espetacular - e que desafia descrições.

Os 15 melhores álbuns de 2017

Drake, Lorde e Goldfrapp são apenas três dos artistas que chegaram arrasando na nossa lista.

Review: Me Chame Pelo Seu Nome

Luca Guadagnino cria o filme mais sensual (e importante) do ano.

Review: Lady Bird: A Hora de Voar

Mais uma obra-prima da roteirista mais talentosa da nossa década.

Review: Liga da Justiça

É verdade: o novo filme da DC seria melhor se não tivesse uma Warner (e um Joss Whedon) no caminho.

6 de jun. de 2012

O Caso de Amor de Laurel e Hardy

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Eu não queria colocar nada pessoal aqui, mas acho meio difícil. Ray Bradbury foi apresentado a mim pelo meu pai através de um livro empoeirado de contos intitulado O Viajante do Tempo. A coleção de 23 histórias foi provavelmente o que me fez querer ser escritor, seja da forma que fosse. A forma como Bradbury lidava com as palavras é de um sabor artesanal, de uma magia idílica que eu não consegui ler em nenhum outro autor. Ele passeava por ficção científica, romance, terror, drama e comédia com a simples e perfeita prerrogativa de uma nostalgia e uma evocação quase poéticas.

Ainda que aos 91 anos, o mundo perdeu um dos maiores artistas da palavra que já passaram por aqui. Minha forma de homenageá-lo é transcrevendo “O Caso de Amor de Laurel e Hardy”. O meu conto preferido, do meu livro preferido, do meu escritor preferido. Eu não sei qual vai ser o impacto em vocês, mas eu não sei ler essa história sem me emocionar profundamente. É essa emoção, esse estilo único, essas palavras que transcendem qualquer outra descrição para elas, que vão continuar a viver.

O Caso de Amor de Laurel e Hardy

por Ray Bradbury
(In Memoriam: 1920-2012)

Ele a chamava de Stanley e ela o chamava de Ollie.

Isso foi o princípio, foi também o fim do que chamaremos de o caso de amor de Laurel e Hardy.

Ela tinha vinte e cinco anos e ele tinha trinta e dois quando se encontraram num desses coquetéis tediosos, onde todo mundo se pergunta o que foi fazer ali. Mas ninguém vai embora e no final acabam bebendo demais e mentindo, dizendo que foi uma grande festa.

Como acontece frequentemente em salas lotadas, eles não viram um ao outro; e, se houve alguma música romântica que servisse de fundo para sua colisão, ninguém a ouviu. Porque todos estavam falando com uma pessoa e olhando para alguma outra.

Eles ricocheteavam através da floresta humana, sem no entanto encontrarem sombras acolhedoras. Ele estava procurando um drinque; ela, fugindo de um estranho que lhe fazia propostas amorosas. E seus caminhos se cruzaram exatamente no centro da multidão estéril. Tentaram esquivar-se, desviando para a esquerda e para a direita algumas vezes, mas acabaram caindo na risada. Num impulso, ele agarrou sua gravata e abanou-a na direção dela, sacudindo os dedos. Imediatamente ela sorriu, levantando a mão para puxar os cabelos do alto da cabeça num coque desalinhado, piscando e fazendo um ar de quem tinha recebido uma pancada.

- Stan! – gritou ele, reconhecendo-a.

- Ollie! – exclamou ela. – Por onde você tem andado?

- Por que você não faz alguma coisa para me ajudar? – disse ele, com gestos largos.

Agarravam o braço um do outro, ainda rindo.

- Eu... – disse ela com um ar ainda mais radiante. – Eu... Eu sei o lugar exato, a uns três quilômetros daqui, onde em 1930 o Gordo e o Magro carregavam aquela caixa de piano para cima e para baixo daqueles cento e cinquenta degraus!

- Ótimo – gritou ele. – Vamos embora daqui!

Bateram a porta do carro dele e o motor roncou. Los Angeles passava velozmente por eles, iluminada pelo Sol do fim da tarde.

Freou o carro exatamente onde ela disse que estacionasse.

- É aqui!

- Eu não acredito – ele murmurou sem se mexer, somente olhando para o céu colorido de pôr-de-Sol. Abaixo da colina as luzes começavam a aparecer por toda Los Angeles. Ele fez um sinal com a cabeça e prosseguiu: – São esses aí os degraus?

- Todos os cento de cinquenta.

Ela saltou do conversível.

- Venha, Ollie!

- Muito bem – disse ele.

Caminharam até o sopé de outra colina e levantaram os olhos, contemplando os degraus íngremes que se erguiam contra o céu. Os olhos dele estavam ligeiramente mareados. Ela rapidamente fingiu não notar, mas segurou-lhe o cotovelo. A voz dela era maravilhosamente doce:

- Vá – disse ela. – Vá, continue.

E deu-lhe um terno empurrão.

Ele começou a subir, contando, e a cada número que dizia num murmúrio sua voz assumia um decibel extra de alegria. Quando alcançou o quinquagésimo sétimo, já se transformara num menino que brincava de um jogo maravilhoso, ao mesmo tempo novo e antigo. Perdera-se no tempo e não poderia dizer se estava carregando o piano para cima ou se este é que o perseguia colina abaixo.

- Pare aí! – ele a ouviu dizer muito longe. – Bem aí!

Ele ficou imóvel, balançando-se sobre o degrau de número cinquenta e oito e sorrindo espantado, como se fantasmas o estivessem acompanhando. Virou-se para ela.

- Tudo bem – disse a moça. – Agora venha para baixo.

Começou a descer, sentindo o rosto afogueado e uma dor peculiar de felicidade no peito. Ele podia ouvir o piano seguindo-o.

- Pare aí mesmo!

Ela segurava uma câmera, e ao vê-la, instintivamente ele levou a mão direita à gravata, para fazê-la rodopiar com o ar da noite.

- Agora eu! – ela gritou, e correu para lhe dar a câmera.

Ele desceu e ficou olhando para cima: lá estava ela, imitando os ombros encolhidos e o rosto perplexo e desesperançado de um Stan espantado com a vida, mas ainda amando viver. Ele disparou o obturador com vontade de ficar ali o resto da vida.

Ela foi descendo devagar, olhando para o rosto dele.

- Você está chorando – a moça exclamou.

Colocou os polegares sob os olhos dele para afastar as lágrimas.

Conferiu o resultado.

- É isso – disse –, lágrimas de verdade.

Ele a observou e viu que os olhos dela também estavam quase tão marejados quanto os seus.

- Veja só, você já foi nos meter noutra encrenca – ele disse.

- Oh, Ollie – ela disse.

- Oh, Stan – ele disse.

Ele a beijou suavemente. E acrescentou:

- Será que nós vamos ficar juntos para sempre?

- Para sempre – ela disse.

E foi assim que começou aquele longo caso de amor.

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É claro que eles tinham nomes verdadeiros. Mas isso não importa, porque sempre acharam que a melhor coisa seria chamarem um ao outro de Laurel e Hardy. Pelo simples fato de que ela pesava sete quilos a menos do que deveria e ele estava sempre tentando fazê-la ganhar peso; e ele tinha dez quilos a mais e ela também estava sempre tentando que ele emagrecesse. Mas os esforços eram inúteis e se transformaram na melhor das brincadeiras, que no final se resumira ao seguinte:

- Você é Stan, sem dúvida alguma, e eu sou Ollie, vamos encarar a verdade. E, meu Deus, minha cara jovem, vamos aproveitar essa encrenca, essa bela encrenca em que nos metemos enquanto durar!

E, enquanto durou, e durou bastante, foi uma dessas coisas perfeitas, uma loucura da qual eles nunca se livrariam até o fim da vida.

A partir daqueles momentos crepusculares na escadaria, seus dias sempre foram longos, despreocupados e repletos daquele riso maravilhoso que acompanha o início e o dia-a-dia de qualquer grande caso amoroso. Somente quando paravam de rir para se beijarem, e apenas interrompiam os longos beijos para rirem daquela coisa estranha e milagrosa que era se encontrarem completamente nus no meio de uma cama tão grande como a vida e tão linda como a manhã.

Sentado ali, no meio de toda aquela brancura tépida, ele fechou os olhos, sacudiu a cabeça e declarou pomposamente:

- Eu não tenho nada a dizer!

- Sim, você tem! – gritou ela. – Diga!

Ele disse e eles rolaram da borda da Terra.

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O primeiro ano deles foi um mito, uma fábula que seria exageradamente aumentada ao ser lembrada, trinta anos mais tarde. Iam com frequência ao cinema assistir a filmes novos ou velhos, mas principalmente aos do Gordo e Magro. Sabiam de cor todas as melhores cenas e gostavam de repetir as falas, gritando enquanto à meia-noite andavam de carro pelas ruas de Los Angeles. Ele a mimava, tratando a infância dela em Hollywood como se fosse algo de muito especial, e ela também o mimava, fazendo de conta que o menino que ele tinha sido – andando de patins em frente aos estúdios – ainda vivia no presente.

Ela provou isso certa noite. Num ímpeto, perguntou onde ele, em seus patins, colidira com o comediante W.C. Fields. Onde pedira a Fields um autógrafo e este devolvera-lhe o livro com uma exclamação:

- Eis aí, seu pequeno filho da puta!

- Me leve lá – ela disse.

Às dez da noite, desceram do carro na frente do estúdio da Paramount; e ele, apontando para o chão, perto do portão, contou:

- Ele estava aqui.

Ela então o abraçou e o beijou, dizendo com carinho:

- Onde foi que você tirou aquela foto com Marlene Dietrich?

Ele atravessou a rua e andou com ela uns vinte metros.

- Marlene estava aqui – disse –, iluminada pelo Sol do poente.

E ela o beijou novamente, enquanto a Lua, surgindo como num passe de mágica, iluminava toda a rua em frente ao estúdio. Ela deixou que toda a sua alma fluísse para ele, como se fosse uma cascata; ele recebeu seu fluxo, devolveu-o e ficou feliz.

- Agora – disse ela, num murmúrio –, onde você viu Fred Astaire em 35, e Roland Colman em 37, e Jean Harlow em 36?

Até a meia-noite ele a levou a esses três lugares diferentes, e em cada um deles ela o beijou como se aquele momento não tivesse nunca um fim.

Foi assim no primeiro ano. E durante aquele ano, pelo menos uma vez por mês eles voltaram àquela escadaria íngreme do piano e festejaram com coquetéis de champanhe. Até descobrirem uma coisa surpreendente:

- Eu acho que são as nossas bocas – disse ele. – Eu nem sabia que tinha uma boca até encontrar você. A sua boca é a coisa mais extraordinária do mundo, e me faz sentir como se a minha também fosse extraordinária. Você foi realmente beijada antes de me encontrar?

- Nunca!

- Nem eu. E pensar que vivi tanto sem conhecer bocas.

- Minha querida boca – disse ela –, fique quieta e me beije.

Entretanto, no fim daquele ano eles descobriram uma coisa muito mais extraordinária. Ele trabalhava para uma agência de publicidade e era obrigado a passar os dias num só lugar. Ela, por sua vez, trabalhava para uma agência de viagens e em breve precisaria viajar com frequência. Os dois ficaram espantados por não terem percebido isso antes. Mas agora, quando a explosão do Vesúvio já acontecera e a poeira começava a assentar, uma noite eles se sentaram e olharam um para o outro; e ela disse, com voz fraca:

- Adeus...

- O quê? – ele perguntou.

- Estou vendo a hora do adeus se aproximar – disse ela.

Ele olhou para o rosto dela e viu que ela não estava triste como Stan nos filmes, apenas triste como ela mesma.

- Eu me sinto como num final de romance de Heminghway – disse ela –, quando duas pessoas caminham juntas, no final da tarde, dizendo como seria bom se aquilo pudesse continuar para sempre, mas sabendo que não é possível.

- Stan – ele retrucou. – Isso não é nenhum romance de Heminghway e não pode ser o fim do mundo. Você não vai me deixar nunca.

Entretanto, sua frase parecia mais uma pergunta do que uma afirmação. Ela fez um movimento suave e ele, piscando, perguntou:

- O que é que você está fazendo?

- Bobo – ela disse –, estou me ajoelhando no chão e pedindo a sua mão. Case-se comigo, Ollie. Venha comigo para a França. Eu tenho um novo emprego em Paris. Não, não dia mais nada. Fique quieto. Ninguém precisa saber que vou sustentá-lo durante o ano, para que você possa escrever o grande romance americano...

- Mas... – disse ele.

- Você tem uma máquina de escrever portátil, uma resma de papel e eu. Diga uma coisa, Ollie, você vem comigo? Que diabo, nem precisa casar comigo, viveremos em pecado. Mas venha comigo, sim?

- E ficar olhando o fracasso chegar e nos destruir dentro de um ano?

- Será que você tem tanto medo disso, Ollie? Será que não acredita em mim ou em você? Meu Deus, porque será que os homens são tão covardes? Diabos, porque tem a pele tão fina e teme se apoiar na mulher como se ela fosse uma escadinha de parede? Escute, eu tenho uma tarefa a cumprir e você vai comigo. Eu não posso deixar você aqui, você rolaria escada abaixo. Mas, se eu precisar fazer isso, eu farei. Eu quero ter tudo agora, não amanhã. Isso inclui você, Paris e meu trabalho. Você vai precisar de tempo para escrever o seu romance, mas vai conseguir. Agora, ou você vai escrevê-lo aqui, sentindo pena de si mesmo, ou vamos viver num desses apartamentos que tem água fria e muitos andares para subir, longe daqui, no Quartier Latin. É a única vez que eu estou lhe propondo isso, Ollie. Nunca pedi ninguém em casamento antes. E nunca mais farei isso, porque meus joelhos já estão doendo. E então?

- Nós já falamos alguma vez sobre isso? – perguntou ele.

- Pelo menos uma dúzia de vezes durante o ano passado, mas você nunca quis escutar. Não tinha jeito.

- Não. Eu estava apaixonado e sem jeito.

- Você tem agora um minuto para se decidir. Sessenta segundos.

Ela olhava para o relógio de pulso.

- Levante-se-daí! – disse ele embaraçado.

- Se eu fizer isso, será para abrir a porta e desaparecer para sempre – ela comunicou. – Faltam quarenta e nove segundos, Ollie.

- Stan! – suplicou ele.

- Trinta – disse ela, com os olhos no relógio. – Vinte. Já levantei um joelho do chão. Dez. Estou começando a levantar o outro. Cinco. Um.

E ela se levantou.

- A troco do quê, tudo isso?

- Ouça – disse ela –, estou caminhando em direção à porta. Não sei, talvez eu tenha pensado nisso mais do que eu mesma podia perceber. Nós somos pessoas extraordinárias, Ollie, e não acho que ninguém parecido conosco vai aparecer de novo no mundo, pelo menos para nós dois. Ou então estou mentindo para mim mesmo, e provavelmente estou. Mas eu preciso ir embora e você tem a liberdade de vir comigo, embora não esteja podendo encarar o fato, ou sei lá o quê. E agora... – Ela estendeu a mão. – Estou com a mão na maçaneta e...

- E... – ele disse, num murmúrio.

- Estou chorando – ela falou.

Ele começou a se levantar, mas ela sacudiu a cabeça.

- Não, não faça isso. Se você me tocar eu vou ceder, que diabo! Eu tenho que ir embora. Porém, uma vez por ano será o dia da indulgência, ou do perdão, ou seja lá do que for que você quiser chamá-lo. Uma vez por ano eu vou aparecer lá naquela escadaria, mas sem o piano, na mesma hora, como naquela noite em que nos encontramos. E se você estiver lá, eu vou sequestrá-lo, ou você me sequestrará, mas por favor não leve nenhum extrato bancário para me mostrar, nem fale nisso.

- Stan – disse ele.

- Ah, meu Deus! – gemeu ela.

- O quê?

- Essa porta está tão pesada. Não consigo abri-la. – Ela soluçava. – Veja. Está se abrindo. Veja. – E ela soluçava mais forte. – Já fui embora.

A porta fechou-se.

- Stan!

Ele correu e agarrou a maçaneta. Estava molhada. Levantou os dedos até a boca, provando o gosto de sal, e escancarou a porta.

O hall já estava vazio. O as deslocado pelo corpo dela voltou para encontrá-lo. Houve uma ameaça de trovão quando as duas metades de ar se encontraram. Com uma promessa de chuva.

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Por três anos ele voltou para a escadaria do piano no dia 4 de Outubro, mas ela nunca apareceu. Depois, nos dois anos seguintes, ele esqueceu. Contudo, no outubro do sexto ano ele se lembrou de novo e voltou na hora do poente; correu até a metade da escada porque vira algo lá em cima. Era uma garrafa de champanhe com uma fita, e um bilhete dizia:

“Ollie, querido Ollie. Data lembrada. Mas em Paris. As bocas não são as mesmas, mas felizes no casamento. Amor. Stan.”

Depois isso, ele nunca mais foi lá em Outubro. O som daquele piano despencando escada abaixo poderia agarrá-lo e arrastá-lo para Deus sabe onde.

E esse foi o fim, ou quase, do caso de amor de Laurel e Hardy.

Pois houve um encontro final, devido a um acaso feliz.

Quinze anos depois, viajando pela França, ele caminhava com a mulher e as duas filhas pelos Champs-Elysées, num final de tarde, quando viu uma bela mulher vindo na direção contrária. Ela estava acompanhada por um homem mais velho, muito distinto, e por um menino muito bonito de uns doze anos, cabelo escuro, obviamente filho do casal.

Ao cruzarem seus caminhos ambos imediatamente abriram um amplo sorriso.

Ele girou a gravata para ela.

Ela puxou o cabelo para cima, para ele.

E não pararam. Continuaram a andar. Mas ele a ouviu gritar, no Champs-Elysées, e foram as últimas palavras que ouviria dela:

- Veja só a encrenca em que você nos meteu!

E então ela o chamou pelo antigo nome, o apelido que ele tivera nos anos em que haviam se amado.

Porém, ela desapareceu. As filhas e a mulher olharam para ele e então uma das meninas perguntou:

- Aquela senhora chamou você de Ollie?

- Que senhora? – perguntou ele.

- Papai – disse a outra filha, inclinando-se para olhá-lo. – Você está chorando!

- Não.

- Está, sim. Não é, mamãe?

- O pai de vocês – disse a mãe –, e vocês sabem disso, chora até olhando para catálogos de telefone.

- Não – disse ele –, só para cento e cinquenta degraus e um piano. Lembrem que eu tenho que mostrar isso para vocês, meninas, algum dia.

Continuaram a caminhar, mas ele se voltou para olhar para trás, pela última vez. A mulher que estava com o filho e o marido dela também se virou no mesmo momento. Talvez ele tivesse visto a boca da mulher mover os lábios, dizendo: “Até logo, Ollie”. Ou talvez fosse imaginação. Mas ele sentiu que seus próprios lábios de moviam, silenciosamente: “Até logo, Stan”.

E assim eles continuaram andando em direções opostas pelo Champs-Elysées à luz daquele Sol poente de outubro.

5 de jun. de 2012

O Fun. vai para a Guerra Civil Americana em “Some Nights”.

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por Caio Coletti
(TwitterTumblr)

Semana agitada para os rapazes do Fun., a banda que estourou com o single "We Are Young" no começo do ano. A nova música de trabalho é “Some Nights”, que acaba de ganhar clipe super-produzido com os novaiorquinos cantando em meio a uma história ambientada na Guerra Civil Americana. O vídeo explora bem a imagem cool da banda e o rosto estranhamente cinematográfico do vocalista de voz supersônica, Nate Ruess.

Ainda em processo de divulgação do primeiro single, a banda esteve no MTV Movie Awards abrindo a cerimônia ao lado de Janelle Monàe (o vídeo não está disponível no YouTube, e segue bloqueado para os brasileiros no site da emissora) e compareceu ainda ao Jimmy Kimmel Live, onde cantou "We Are Young" e "One Foot", que vem sendo aventado como potencial terceira canção de trabalho do álbum.

“We Are Young” esteve no topo da Hot 100 da Billboard por seis semanas seguidas. tendo sido impulsionada pelo cover da série Glee e pela aparição no SuperBowl.

4 de jun. de 2012

O Guia Prático do Desapego (em 7 fases musicais)

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por Caio Coletti
(TwitterTumblr)

Em pleno século XXI, despego é, definitivamente, uma qualidade. Saber deixar as coisas (e as pessoas) irem quando elas não querem mais ficar consiste em requisito essencial para a vida saudável em tempos de dominação da Geração Y/Z, que prega uma mentalidade cada vez mais individualizada e, portanto, cada vez mais familiarizada com o caráter transitório das coisas. Aí você passa a vida inteira se distanciando de tudo, até que resolve se entregar a uma coisa. Aí você se decepciona. E aí? Esse guia prático do desapego (em 7 fases musicais) te ajuda a voltar para a frieza de sempre.

Fase 1: Caindo na real.

“Ele não era o que eu queria, o que eu pensava
Ele nem mesmo abria a porta
Ele nunca me fez sentir-me especial
Ele não é realmente o que eu estou procurando”

Pra não começar a lista já de mau-humor, o desapego fase 01 é com o deboche da Avril para o cara que “nem mesmo abria a porta” em “He Wasn’t”. O hit do segundo álbum da cantora, o Under My Skin (de 2004), tem um clipe clássico e uma letra perfeita pra você começar a cair na real de que a/o fofa/o não é tudo aquilo que parecia. E ainda crava, na ponte final, nos versos sublimes da poetisa Avril: “Na na na na na, todos temos escolha/ Na na na na, todos temos vozes”. Belíssimo.

Fase 2: Dizendo adeus.

“Se você fosse um rei no alto de seu trono
Você seria sábio o bastante para deixar-me ir?
Pois essa rainha que você acha que te pertence
Quer ser uma caçadora de novo”

Direto do reino dos one hit wonders feat você-não-sabe-o-que-está-perdendo, Dido chega para te ajudar a dar o pé na bunda do seu encosto com classe. Terceiro single do primeiro álbum da moça, o No Angel de 1999, “Hunter” tem o estilo mais energético que impregna essa primeira obra de estúdio da britânica, escrita durante sua adolescência. A letra é ótima para uma separação bem amigável, sem descer do salto alto. Em casos mais extremos, talvez seja melhor a segunda dica:

“Arrependimentos eu tenho tantos
Um amor simples com um toque complexo
Não há nada que você pode dizer ou fazer
Eu liguei para avisar que eu estou cheio de você”

Fase 3: Achando o fundo da poço.

“Eu sempre sonhei que pudesse encontrar
Alguém tão lindo quanto você
Mas no processo eu me esqueci
Que eu era especial também”

Fica a dica: como guia do desapego, esse post tem a obrigação de te dizer para NÃO ouvir Adele na ocasião do fim de um relacionamento. “Someone Like You” não é o tipo de música que vai te ajudar a se desprender do passado. Quer curtir uma fossa? Muito melhor optar pela melancolia da rainha do pop em uma de suas composições mais lindas. “X-Static Process”, além de te fazer chorar sob o leite já derramado, ainda vai te lembrar dos seus erros para você corrigi-los. Isso que é eficiência. Dá pra recorrer à Diana Vickers também:

“Você era minha estrela cadente que iluminava o céu
Então você quebrou o espelho e meu coração morreu
Sem esperança, sem fé, sem sorte, sem amor
Você é apenas ordinário agora”

Fase 4: Descarregando a raiva.

“Você cai por terra
Eu me desapaixono por você
Então você reaparece
Seu filho da mãe
Você vai abaixo
Dessa vez eu não vou te salvar
Quando você se afogar
Seu filho da mãe”

Para os hipsters de plantão: é super tendência descarregar a raiva numa vibe pop Leste Europeu. A dinamarquesa Oh Land, logo, é um aboa pedida com sua pegada eletrônica e voz de soprano, rolando na neve em várias iluminações e figurinos no clipe de “Sun of a Gun” (escrito errado mesmo, vai entender). Dá pra cantar (vulgo se esguelar) com ela e começar a exorcizar o filho/a da mãe que você decidiu colocar no passado. Quem prefere algo mais mainstream, no entanto, pode atacar com a nossa segunda sugestão:

“Eu estou cansada da bagunça que você me deixou
Você nunca vai me pegar chorando, oh
Você deve ser cego se não consegue ver
Você vai sentir minha falta até o dia em que morrer”

Fase 5: Começando de novo.

“Primeiro dia, primeiro dia
Começando outra vez
Primeiro passo, primeiro passo
Eu quase não estou fazendo sentido
Por enquanto eu finjo, até eu estar quase fazendo
Do rascunho, começar de novo
Mas agora ‘eu’ como ‘eu’, não como ‘nós’”

Passou a raiva, a depressão? Está esgotada/o emocionalmente e se sente absolutamente vazia/o por dentro? Bom sinal! É hora de dar a partida para um novo começo, e a Alanis te ajuda nisso dando a dica mais importante na bela “Not as We”: “dessa vez ‘eu’ como ‘eu’, não como ‘nós’”. Agora, se pianinho e voz já está muito depressivo para você é hora de dançar (e ensaiar um kung fu ri-di-cu-lo) com a Kelly Clarkson no hit que salvou a carreira da Idol original, “Stronger (What Doesn’t Kill You)”.

“O que não te mata te torna mais forte
Se levante um pouco mais alto
Não significa que estou solitária quando estou sozinha
O que não te mata te faz um lutador
Passos ainda mais leves
Não significa que estou acaba só porque você se foi”

Fase 6: Melhor sem ele/a.

“Desde que você se foi eu parei de guardar rancores
Desde que você se foi eu sinto como se tivesse amadurecido
Desde que você se foi é como se o mundo todo fosse meu palco
Agora que você se foi é como se eu tivesse sido solta da gaiola”

Com sotaque britânico e charme ligeiramente sarcástico, Lily Allen é a pedida certa para aquele momento “e houve boatos de que eu estava na pior” com uma taça de champanhe na mão. Também ajuda você mesmo a perceber que tudo fica melhor longe de algumas pessoas. “I Could Say” é a faixa mais desapego do It’s Not Me It’s You. Só pra sugerir uma alternativa para os que preferem a sensibilidade americana, mas sem perder a classe, tem também a lady vingança Norah Jones:

“Com você longe, estou viva
Me faz sentir como se tivesse tomado pílulas de felicidade
E o tempo parou
Como você se sente?
Como você se sente sendo o que que foi dispensado?”

Fase 7: Enfim, desapego!

“Porque na minha cabeça você era diferente
Mas só por um pequeno tempo
Você não significa nada para mim agora
Eu tive o sentimento mais estranho, me pegou de surpresa
Suas palavras perderam o significado quando desci da minha viagem”

A canção master do desapego, indiscutivelmente, vem da sueca Jonna Lee. “My High” é para juntar tudo (melancolia, depressão, raiva, mágoa) e jogar tudo fora com o brilhante “so fuck you” do último verso. É pra exorcizar a experiência e nunca mais olhar para trás. A moça, o rosto do projeto iamamiwhoami (você vai ouvir falar deles aqui n’O Anagrama ainda esse mês), acertou em cheio. Só para arrematar, nada melhor que dizer que tudo isso não deixou marca nenhuma (quem se importa se é mentira?):

“É como andar sobre a neve sem deixar nenhum rastro
Tudo o que você disse nunca carregou nenhum peso
Eu saí-me intocada e em outro lugar
Quando vai entender? Isso nunca me afetou”

3 de jun. de 2012

Cigano Velho ou Mateus Verdelho? Eis a questão.

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por Marcelo Antunes
(Diz Que Fui Por Aí...)

Confesso que sempre tive uma relação de amor e ódio com o meu cabelo - muito mais amor que ódio, diga-se de passagem. Tanto que, desde a mais tenra idade, saí por aí ostentado uma longa e brilhosa cabeleira dourada - que com o passar dos anos, confesso, deixou de ser dourada (nada que algumas luzes não resolvessem, no entanto).  E assim foi minha vida de cabeludo convicto até que, na última quarta, sentei na cadeira do cabeleireiro e mandei pro espaço todos os meus cachos alourados.

Ok, ok, já há algum tempo ensaiava isso. Há um ano mais ou menos que já não o mantinha comprido.  Mas também não posso dizer que ele estava curto. Digamos que era um corte ali, no meio termo, algo como penteado de argentino.  Folheando uns editorias de moda, deparei-me com um corte que há algum tempo vinha querendo fazer, mas faltava-me  coragem.  Lembram do Matheus Verdelho e o seu cabelo raspado na nuca e topetudo na frente? Pois é, queria fazê-lo.  Mas era muito radical até então.  Levei o notebook para o salão, disposto a mostrar para o profissional algumas fotinhos do Matheus, na esperança de que o pobre conseguisse me deixar com a cara do bonitão. Não tive coragem. Era gay demais, até para mim. E entreguei minha cabeça dizendo que confiava no trabalho dele, de olhos fechados.  Voilá, e eis que o meu cabelo que, em média, levava cinco minutos para ser cortado, levou quase quarenta minutos; picota aqui, picota acolá. Senti um frio na espinha.  Merda. O cara tava exagerando.  Será que não dava pra colar um pedaço da franja não? E aquela nuca, Jesus, não tava muito rentinha?

Fui para a casa me sentindo incrivelmente mais leve e lembrando de todas as vezes em que sonhava que cortava o cabelo e acordava com dor no coração. Tá que eu cheguei  e minha mãe perguntou quando havia custado o corte e soltado uma de suas pérolas do tipo "Por isso?! Um corte desses que se faz lá no barbeiro da esquina?!", mas nada que fizesse frente ao "Tá gatíssimo! Rejuvenesceu uns quatro anos" que andei escutando por aí.  É numa hora dessas que eu vejo que todo o dinheiro gasto com finasterida e minoxidil tem valido a pena.  E aquele visual cigano velho, por favor, nunca mais! Se alguém cruzar por mim de rabinho de cavalo, chamem o hospício porque eu pirei.

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Marcelo Antunes (ele mesmo, aí em cima, a cara do Mateus Verdelho) escreve todo dia 03.

1 de jun. de 2012

Review: Adam Lambert, o popstar fora-da-lei, e seu Trespassing.

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por Caio Coletti
(TwitterTumblr)

Em “Strut”, uma das melhores faixas de seu álbum de estreia, o For Your Entertainment de 2009, o segundo colocado do American Idol do ano anterior, Adam Lambert, cantava que queria começar uma revolução. Ficou só na promessa. O álbum não passou de 1 milhão de cópias vendidas em solo americano, os singles só pegaram quem realmente prestava atenção ao cenário pop e a revolução de Lambert ficou enterrada sob um verdadeiro time de compositores célebres (Rivers Cuomo, Ryan Tedder, Justin Hawkins, Lady Gaga, Linda Perry) que não deixaram a pesonalidade notável do americano brilhar. Trespassing, o segundo álbum, promete virar esse jogo. E consegue.

A faixa título já começa desafiando: “no trespassers? yeah, my ass!”. O produtor Pharrell Williams empresta a linha de baixo de “Another One Bites The Dust”, do Queen, insere guitarras que remetem à Prince e ainda acha espaço para o refrão ao estilo cheerleading. Tudo levado sem o mínimo esforço pela voz mais bem preparada do pop atual. “A vida é minha luz e minha liberdade/ E eu brilho quando quero brilhar”, canta Adam num dos pré-refrões da empolgante canção. O clima continua favorável em “Shady”, para a qual o guitarrista Nile Rodgers (da banda oitentista Chic) empresta uma vibração urbana. Adam é agraciado com versos espertos (“no, I ain’t broken, but I/ I need a fix”) e um refrão que demonstra o potencial de sua voz sem sufocar a certeira abordagem musical do produtor Lester Mendez (vide “Stoned”, da Dido).

Outras brilhantes demonstrações do vocal de Adam ainda na primeira metade do álbum são “Kickin’ In” e “Pop That Lock”. A primeira é o melhor trabalho de Pharrell Williams na produção em tempos. Ele joga Adam em meio a uma batida metálica, quase sufocante, insere sintetizadores bastante sutis e brinca bonito com trechos vocais entrelaçados, especialmente no já clássico refrão (“(can you feel it) kicin’in?”). “Pop That Lock” é exemplo de canção eletrônica bem polida, usando batidas e sintetizadores na equalização perfeita de um chamado à pista de dança, trabalhando a influência do dubstep sem se afundar nos mares do previsível. Incrementada com uma voz como a de Adam (a notabilíssima nota que precede e se estende durante o último refrão é algo inacreditável), não é exagero nenhum dizer que se trata de uma das canções mais incríveis do ano até agora.

“Better Than I Know Myself”, a primeira power ballad do disco, e também o primeiro single, mostra um trabalho inspirado de Dr. Luke. Sem cair nos exageros que caracterizaram algumas de suas últimas produções, o sueco cria uma atmosfera equilibradamente opressiva para que Adam eleve a composição às alturas com uma de suas melhores interpretações. “Never Close Our Eyes”, por sua vez, mostra que a voz de Adam e a composição melódica de Bruno Mars é um casamento extremamente feliz. O ex-Idol eleva as qualidades do estilo único de Mars a uma potência inédita, mesmo que o refrão aqui seja bastante derivativo, para quem conhece o disco de estreia do cantor, de “The Other Side”.

“Underneath”, a balada em carne viva de Lambert, é de um apelo emocional explicável não apenas pela atração natural que o grandioso e o dramático exercem, mas principalmente pela sutileza do arranjo de cordas e percussão e pelo tom verdadeiramente desesperado que Adam coloca nas notas que canta. Ouvi-lo cantar, aqui, é ouvir um lamento rascante, estratosférico, que encontra a rachadura de qualquer barreira de cinismo que o ouvinte possa ter construído. Por fim, “Outlaws of Love”, claramente pessoal, é um libelo tocante ao amor. E não espere que este que vos fala acrescente algum adjetivo a esse amor, porque “Outlaws” não é sobre homossexualidade. Os versos, inicialmente cantados em belíssimo tom de soprano por Adam, que no decorrer da música realiza a transição para uma interpretação mais rascante com a maestria que não se pode negar a ele, dizem apenas que o amor é igual para todos.

“Hey, tears all fall the same/ We all feel the rain/ We can’t change”. O “we” de Adam se refere a todos nós, “foras-da-lei do amor”, porque a verdade é que, numa visão mais ampla, nossa sociedade aos poucos está marginalizando tal sentimento. Interprete como quiser, trata-se de um fechamento realmente tocante para o Trespassing. Um álbum que é essencialmente sobre quebrar regras quando elas vão contra a nossa própria natureza. Um álbum desafiador, ousado, dançante, emocionalmente diverso e completo, como todo bom álbum pop deveria ser. O álbum que se tornou o primeiro de um artista abertamente gay a alcançar o topo da Billboard 200. Agora sim, sr. Lambert, você começou uma revolução.

**** (4/5)

Trespassing
Lançamento: 15 de Maio de 2012.
Selo: 19/RCA.
Produção: Josh Abraham, Ammo, Jason Bonilla, busbee, Cirkut, Josh Crosby, Robert Marvin, Lester Mendez, Dr. Luke, Oligee, The Smeezingtons, U-Tern, Rune Westberg, Fred Williams, Pharrell Williams.
Duração: 42m32s.

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Notas (glossário):

Dupstep:
Tendência absoluta no mundo da música eletrônica atualmente, o estilo surgido em Londres se caracteriza basicamente por grandes quebras de ritmo, padrões de bateria reverberantes e fortes linhas de baixo. O expoente mais destacado do estilo hoje é Skrillex (ouça "Equinox (First of The Year)"), mas o dubstep tem forte influência também no último hit de Rihanna, "Where Have You Been".

Power-ballad:
É a canção que tem estrutura e ritmação de balada (como a clássica "And I Am Telling You I'm Not Going"), mas é acompanhada de instrumental pop e percussão forte. Um excelente exemplo de power-ballad é o cover de Jordin Sparks para "Don't Let it Go to Your Head", de Fefe Dobson.

31 de mai. de 2012

Pressa.

fast-world

por Fabio Christofoli
(Clube do Camaleão)

Eu não sei se eu já disse isso aqui, mas se disse, vou repetir: a gente corre demais!

Demais!

Nossa vida anda muito acelerada, não acham? Eu acho! E sabe o que é pior? Não há motivo algum para ser assim. Pelo contrário, deveríamos ter mais tempo. Mas cada vez ele é menor, mais opressor, mais torturante.

Antigamente, tudo era feito manualmente, hoje há tantas facilidades tecnológicas. Mesmo assim, fazemos mais do que fazíamos antes. Por que será? Eu digo que isso é culpa das nossas ambições.

Conseguimos fazer mais rápido, por isso queremos fazer mais. Sempre mais! Trabalhamos até mais tarde, nos perdemos nos milhões de links da internet, estudamos mais (e, por incrível que pareça, aprendemos menos). Estamos sempre com pressa, fazendo milhões de coisas pela metade, perdendo outras tantas.

Eu sinto que sempre tenho algo pra fazer, mesmo quando não tenho. E admito que até aparece um tempo “livre”, mas minha mente está tão acostumada com a correria que não consegue relaxar. Me sinto preso a essa correria, mais uma vez pergunto: você não?

Diga que sim! Preciso saber se isso é normal.

No fundo eu gostaria de estar escrevendo sobre outras coisas. Queria mesmo. O problema é que vivo com essa pressa no pensamento. Mal consigo pensar ultimamente. Mal consigo respirar.

Você não?  

Diga que sim! Ou vou me sentir aquele coelho da Alice, que toma chá com um chapeleiro louco e uma lebre esquisita.

Aí, ó. Olha as besteiras que escrevo por que vivo com pressa. Preciso parar. Você não?

Fabio Christofoli escreve todo último dia do mês.