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11 de jun. de 2010

Alejandro! Ale-Alejandro! Ale-Alejandro!

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Lady Gaga ora aparece cercada por militares gays, ora com seus dançarinos seminus em momentos de dança sexy e ao final surge vestida com um hábito de freira vermelho de vinil e termina em decomposição...

(Estadão Online – Cultura, 08 de Junho de 2009)

Uma frase porcamente elaborada, e era tudo o que o Estadão Online, um dos sites de jornais mais acessados pelos internautas brasileiros, tinha para dizer sobre o novo clipe de Lady Gaga, o épico "Alejandro", construído em cima da segunda canção listada no The Fame Monster, EP que serve de complemento e oposição ao primeiro álbum, o The Fame. E depois dizem que Gaga é fútil, que não possui senso de arte e que precisa escandalizar para fazer o sucesso que não teria se fosse por seus dotes musicais. Com um meio de comunicação resumindo um clipe extremamente complexo dessa forma, não é de se espantar que esse seja o pensamento geral.

Mas, fãs, respirem aliviados (se é que alguém ainda não conferiu o resultado final por si mesmo). “Alejandro” é muito mais do que militares gays, dançarinos seminus, e um hábito de freira feito de vinil. Houve quem disesse ainda que letra, música e clipe não se completavam da forma como deveriam. Pura bobagem. Quem sabe ler nas entrelinhas e está por dentro do contexto temático do The Fame Monster sabe reconhecer que “Alejandro”, a música e o clipe, são sobre o medo de se envolver e se machucar depois. Assim como “Bad Romance” era sobre o receio de um romance agressivo, e “Speechless” discursa sobre a inevitabilidade do fim (e a nossa aversão a essa ideia). São temas sombrios os que permeiam o álbum, e “Alejandro” é o primeiro clipe que faz jus a tais temas. É uma narrativa labiríntica e codificada, cheia de simbolismos e referências, mas fica claro para quem consegue passar pelos obstáculos e decifrar o segredo, que são as imagens certas para a mensagem certa.

Narrativa

Na primeira cena do clipe, um militar aparece morto em uma sala com outros soldados. Vale a pena prestar atenção no último a aparecer antes da tela escurecer: é o proverbial esposo de Gaga na história. Passando direto pela cena de dança quase ritualistica que ocorre logo depois, temos Gaga carregando um coração congelado, torturado por espinhos, enquanto segue um velório. Já dá até para começar a esboçar a trama: quem quer que tenha morrido, morreu junto com o coração de Gaga. Ela nos é apresentada como uma espécie de rainha, líder ou primeira-dama de um “reino” totalitário e militarista, uma das claras referências a Madonna, na época que impersonava Evita Perón, do clipe. Quando o nome-título é mencionado pela primeira vez, na já célebre abertura (traduzindo: “Eu sei que nós somos jovens, e sei que você pode me amar, mas não posso ficar assim com você… Alejandro”), o rosto de Gaga é focalizado em fusão com o do homem que se senta a sua cama, o modelo brasileiro Evandro Soviatti. Eis o nosso Alejandro!

O que se segue é um amálgama de cenas de dança e o estilo estourado e teatral de sempre, mas vale prestar atenção na progressão do clipe: alguém está morto, e o coração de Gaga também. Um espaço vazio todo aberto para os Alejandros, Robertos e Fernandos do clipe, numa dança coletiva que é tão escandalosa quanto abertamente homossexual. Mas estilo é estilo, narrativa é narrativa. E esta progride juntamente com a letra. Torturada, arrependida, Gaga se desprende dos laços emocionais e prefere a atração casual ao amor de verdade, com medo de se envolver e mais uma vez precisar enterrar seu coração. As cenas mais picantes, com Gaga e seus dançarinos digladiando-se em camas aos pedaços, remetem diretamente a fase “Human Nature” de Madonna.  Gaga se torna uma espécie de Anticristo, engole um terço, veste o tal hábito de vinil e é adorada como uma deusa pelos dançarinos. Polêmico, sim, mas por pouco motivo. Afinal, que mensagem mais cristã do que essa? Sem amor, nos tornamos o próprio Mal. Não é Gaga que engole o terço, é sua personagem. Ela (e eu, que estou com ela e não abro) assumiu que a nossa raça sabia separar as duas coisas. Aparentemente, estamos ambos errados.

Perto dos 7 minutos de clipe, o “marido” de Gaga reaparece. Observando a “esposa” em sua louca dança com o amante, ele puxa uma arma, e ouvimos um disparo. Nesse momento, a tela preenche-se com a mesma imagem que ocupou o início do clipe. O militar morto não era ninguém, a não ser o próprio Alejandro! Aquele que fez estourar o processo de desprendimento e frieza em Gaga! É chocante, surpreendente, mirabolante e combina perfeitamente com o tema central da letra. No fim, Gaga se entrega a um amor que não o é verdadeiramente, e sua “anticristização” está então completa. Ela se tornou o monstro que ela mesma temia. Contundente, não?

Influências

Há óbvias referências a Madonna do auge de sua fama e polêmica. Mas não se deixe de fora o fato de Steven, diretor do clipe e dono do “Klein” que estampa seu início, é um dos fotógrafos favoritos da ex-rainha do pop. Inclusive, foi ele o autor das célebres fotos dela com Jesus Luz, tiradas para a W., que supostamente haveriam iniciado o caso entre a cantora e o modelo. De uma forma ou de outra, o estilo de Gaga lembra “Vogue”, a sexualidade exacerbada remete a “Erotica” e “Human Nature”, e a colocação de uma rainha plácida, belamente nobre, lembra muito “Don’t Cry for Me Argentina”, tirado do musical Evita, que Madonna tornou em sucesso em 1996, quando ainda tinha bala para tudo isso.

De qualquer forma, nada se resume a uma só influência, e arte pop que é arte pop precisa sugar tudo, absolutamente tudo, de qualquer fonte possível e imaginável. É isso que Gaga, sua equipe e seus diretores sempre fizeram de melhor. A diferença é que, se em “Telephone” e “Papparazzi” o objetivo era criar um clima ao mesmo tempo mórbido e divertido, com pitadas de Tarantino, a missão aqui é criar uma peça sombria de verdade, severa, agressiva, e ainda assim extremamente pop. Há expressionismo alemão (Fritz Lang e seu M. são presenças marcantes) e surrealismo nas doses certas, e a cena em que Gaga aparece com olhos de cores diferentes remete diretamente a David Bowie, ídolo-maior da cantora.

Música

Seria enganar-se dizer que “Alejandro” está entre as melhores canções de Gaga. Batida e refrão são extremamente grudentos, e não há nada de errado em o ser quando o assunto é música pop. O problema é que Gaga elabora uma melodia que se repete eternamente, sem a criatividade absurda que marca momentos como “Bad Romance”, “Papparazzi” e “The Fame”. E o clipe ainda a estende. O faz com elegância, é bem verdade, mas a repetição ab aeterno não deve agradar a quem não é fã e espanta muita gente que não teve paciência de ver o clipe inteiro. De uma forma ou de outra, “Alejandro” tem suas qualidades: uma levada constante, um refrão empolgante, um vocal seguro e a alquimia digital medida do produtor RedOne. E, em tempos de Gaga, a verdade é que a música pop passou a existir em razão do clipe, e não o contrário. É preciso enxergar, portanto, o todo, e não as partes.

Veredicto

Para quem é fã, não dá para discutir, “Alejandro” é provavelmente a coisa mais épica, ambiciosa, interessante e misteriosa que Gaga conseguiu produzir. As expectativas ela conseguiu alcançar, mas com uma peça particularíssima, de nuances e detalhes que poucos ouvintes casuais terão a paciência de decifrar, preocupando-se muito mais com a própria expressão de sua mensagem do que com o que é agradável, típico ou não, para quem vê, ouve e assimila. Dito por dito, afinal, fico com a opinião do site gringo da MTV: “E, até esse ponto, Alejandro é um trabalho que é singularmente, 100% DELA, artístico, obstuso e, sim, um pouco auto-indulgente. Mas o que dizer? Até aqui, ela com certeza mereceu esse momento”. Ah, e o refrão definitivamente vai te deixar assobiando, e por um bom tempo.

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She’s got both hands in the pocket/ And she won’t look at you, won’t look at you/ She hides true luve ‘en su bolsillo’/ She’s got a halo aroud her finger around you (…)

Don’t call my name/ Don’t call my name/ Alejandro!”

(Lady Gaga em “Alejandro”)

7 de jun. de 2010

Novidades – O MTV Movie Awards 2010

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Astro é astro. Há quem torça o nariz para o famoso sorriso do ator, mas é preciso reconhecer, às vezes, a inteligência e a absoluta falta de pudor de Tom Cruise. Careca e gordo, re-encarnando o hoje lendário produtor Les Grossman, seu personagem “rouba-cenas” no hilário Trovão Tropical, Cruise tomou parte do que foi, simplesmente, o melhor momento de todo o MTV Movie Awards 2010. Depois de uma propositalmente vergonhosa (e hilariantemente ridícula) “performance” de Ken Jeong, outra das inesperadas estrelas da noite, Cruise/Grossman surtou, subiu ao palco e fez a plateia sacudir com um desempenho surpreendente no hip hop. Sim, ele teve a ajuda de quem entende do assunto: Ludacris nos vocais e J.Lo como parceira de dança, mas que Cruise conseguiu fazer de uma piada essencialmente repetida um momento absolutamente inesperado e brilhante, ninguém duvida. Sem medo do ridículo, sem amarras, Cruise mostrou quem o verdadeiro ator não pode temer o vexame ou se prender a vaidade e, ainda mais, provou-se um astro que ainda faz a cabeça do público jovem.

awards 2Quem também garantiu a diversão de qualidade da noite foi Sandra Bullock, que subiu ao palco para receber o Generation Awards, concedido a artistas que marcaram a “geração MTV”, como a única mulher a receber o troféu até o presente momento, despachou os muitos comentários maldosos que andaram surgindo sobre o motivo de sua separação do cantor Jesse James e ainda ficou responsável pelo momento “beijo inesperado”, obrigatório em qualquer festa da MTV que se preze. A vítima da vez, para o delírio do público-macho, foi a lindíssima Scarlett Johansson, em uma cena tão obviamente planejada quanto inevitavelmente, assim digamos, “interessante”. Ou, ao menos, deu algo para se falar no MTV Movie Awards 2010.

Mesmo porque, nas premiações, nada de muito surpreendente aconteceu. Saudado como um gigantesco comercial para a saga Crepúsculo mas, a bem da verdade, um prêmio concedido ao tipo de obra que faz a cabeça do público adolescente, o Movie Awards consagrou Lua Nova como a mania teen do momento com cinco troféus. Entre eles, aliás, o de Melhor Atuação Feminina para Kristen Stewart, prêmio este que pertencia, por convenção e mérito, a própria Sandra por seu momento máximo em Um Sonho Possível. O romance vampiresco levou também Melhor Atuação Masculina para Robert Pattinson (sejamos sinceros, não haviam concorrentes tão bons para se chamar a escolha de injustiça), Melhor Cena de Beijo (entre o casal principal, que fez ceninha no palco com um selinho rápido até demais), Astro Global (Pattinson de novo) e até o prêmio maior da noite: o de Melhor Filme. Indignado com alguns desses? Pois o pior está por vir.

Confesso que sou fã de carteirinha de Harry Potter, e até torci por Daniel Radcliffe e Emma Watson em suas categorias. E nada contra Tom Felton, tampouco, um intérprete mais do que competente, especialmente no último filme da saga, em que Draco Malfoy tem seus melhores momentos. Ainda assim, nada para bater Christoph Waltz e seu nazista cínico em Bastardos Inglórios, talvez a maior atuação masculina do ano que passou. No voto do público, no entanto, o jovem, estiloso e gente fina intérprete do rival teen do herói da saga saiu vitorioso em Melhor Vilão sobre o nem tão jovem, nem tão estiloso, muito mais talentoso e igualmente gente fina Waltz. Diante dessa lista, salvam-se Zach Galifianakis como Melhor Performance Cômica pelo papel no divertido Se Beber Não Case, e a talentosa Anna Kendrick como Revelação do Ano pela atuação espetacular em Amor Sem Escalas. De resto, muita modinha, pouco pensamento, pouco talento.

Para a MTV, que deveria premiar a nova geração recheada de talentos que celebra, uma noite um tanto decepcionante. Para quem foi esperando um show, no entanto, a emissora entregou o de sempre, com um gosto um tanto especial. E fica a dica: da próxima vez, dêem mais espaço para o apresentador do prêmio fazer valer seu cargo. Pobre Aziz Ansari, espremido entre atrações, pouco teve a fazer. É a vida… Quem sabe na próxima.

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As prévias

Sempre marcantes nas edições do Movie Awards, o prêmio cinematográfico de 2010 da emissora contou com uma trinca de prévias exclusivas de três dos filmes mais esperados desse ano.

Logo de cara, é claro, a onipresente saga Crepúsculo deu as caras com o clip de Eclipse, o próximo tomo da série de Stephenie Meyer a chegar a celulóide. Dessa vez a direção ficou nas mãos mais viscerais de David Slade. Conhecido pelo também vampiresco 30 Dias de Noite e pelo perverso thriller de Meninamá.com, o diretor deu um toque de elegância sombria que nem Catherine Hardwicke nem Chris weitz conseguiram imprimir. Eles fizeram os filmes certos para as tramas certas, mas é o tom de Slade que parece o ideal para que Crepúsculo atinja um público além das meninas histéricas que suspiram por Pattinson e Taylor Lautner. O clip é curto e poucas cenas agradam a olhos treinados, mas ao menos os flashes do momento de ação da trama, de escopo bem maior do que os dois primeiros, parecem feitos de forma épica, intensa e impactante. Lautner ainda não aprendeu a atuar de verdade, e Pattinson continua o mais competente do trio principal, com Stewart tendo pouco o que fazer com um personagem tão passivo.

Em seguida, o bacana Scott Pilgrim vs. The World teve seu preview apresentado pelo próprio diretor, o tarimbado Edgar Wright, parceiro de longa data do comediante inglês Simon Pegg e arriscando seu primeiro vôo solo na história do garoto que passa por uma odisséia mezzo fantasia, mezzo romântica para derrotar os sete ex-namorados malvados de sua nova garota e, assim, ser o dono do coração dela. Pura desculpa para um elenco afinado comandado por Michael Cera e co-estrelado por Mary Elizabeth Winstead, Kieran Culkin, Chris Evans, Anna Kendrick, Brandon Routh e Jason Schwartzman, comandar um festival de gags apoiado pelos recursos aparentemente infindáveis de Wright. O trailer lembra muito a mistura de pop e trash de Zumbilândia, mas o filme deve garantir, ao menos, umas boas risadas, se não um pouco mais do que isso.

Por fim, e jamais menos importante, As Relíquias da Morte - Parte I, o começo do fim da saga do bruxo adolescente Harry Potter, trouxe para o palco do Movie Awards o que pode muito bem ser o preview mais empolgante desde, bom, desde que o primeiro filme estreou. Ao menos aos olhos de um fã, o mero um minuto do trailer, recheado de cenas novas e momentos marcantes, é o mais perto da sensação épica, emocional, conclusiva, grandiosa e radical que J.K. Rowling imputiu no final de sua saga que um filme vai poder alcançar. As expectativas aumentam com aperitivos das atuações de Radcliffe, Watson e Grint, aparetemente mais afinados do que nunca com seus personagens, especialmente o último, em um trecho de dar arrepios em quem vem acompanhando a jornada dos três amigos por todos esses anos. A direção de David Yates promete força e realismo condizentes com o mundo criado, em grande parte por ele, para a saga de Potter nos cinemas, e o roteiro de David Kloves parece mais insanamente criativo (e, ainda assim, fielmente leal ao livro) desde que o inglês começou a escrever a série, no primeiro filme. É esperar até Novembro para o começo do fim. As unhas já estão indo embora de ansiedade.

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Os shows

Katy Perry fez furor, deu entrevistas, anunciou a primeira performance ao vivo de seu novo hit “California Gurls” no Movie Awards 2010 como o grande acontecimento da noite, brincou que ia ficar nua no palco para a apresentação e, no fim, fez só o feijão com arroz. Snoop Dogg estava lá com seu senso ridículo de estilo de sempre, Perry botou peruca azul e desceu surfando até o palco, em trajes reveladores, é verdade, mas nem de longe tanto quanto a cantora prometia. Para uma canção que tem o estado mais “quente” da nação americana no nome, uma performance friazinha, friazinha. Gelada, aliás, perto do que fez Christina Aguilera.

Comparações não faltam desde o lançamento do seu novo disco, Bi-o-nic. Há quem diga que ela deu de emular Lady Gaga, há quem a defenda pelos anos de carreira que tem somados na ficha, e na noite passada deu pra ouvir gente citando Cyndi Lauper e Madonna como inspirações para a apresentação explosiva da cantora. A verdade é que Aguilera tem uma voz brilhante, um estilo não exatamente único, mas particular de uma forma um tanto estranha, e faz uma mistura do pop agressivo que está na moda com um visual retrô, um show de luzes, cores e danças e um ato pop de dar inveja a muita cantorazinha experiente por aí. Do disco eu não falo, mesmo porque não o ouvi, mas, por enquanto, Christina continua dignamente detentora do meu profundo respeito.

60664743Ed Helms, Ken Jeong

“Minha mãe não me deixava assistir aos Smurfs quando eu era criança. Ela achava que a Smurfette parecia um pouco puta sendo a única mulher da vila. Agora eu a mostrei! Eu acabei de ligar pra ela, e foi tipo: ‘advinha, mãe? eu sou a Smurfette’”

(Katy Perry brinca com a peruca azul no tapete vermelho)

Eu estou mais focado em trazer Entourage para as telas do que nos meus próprios filmes. Eu só acho que podemos fazer um grande filme. As pessoas sempre quiseram o filme e reclamavam que os episódios eram muito curtos – eles sempre quiseram mais. Eu penso que vamos conseguir fazê-lo e essa temporada é, de longe,  a melhor até agora”

(Mark Wahlberg atiça os fãs de Entourage, da qual é produtor)

4 de jun. de 2010

Onde Vivem os Monstros (Where the Wild Things Are, 2009)

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Hoje em dia, não é tão difícil ser diferente quando o assunto é arte (ou entretenimento, ao gosto do leitor). Em tempos em que quase tudo é um clichê, não fica tão complicado fugir deles para criar uma peça verdadeiramente única aos olhos de quem vai apreciá-la. Indo direto ao nosso assunto por aqui, o universo cinematográfico, o ingrediente fundamental para tocar o público, o tempero que tanto tem faltado nos grandes blockbusters hollywoodianos, é só um: sensibilidade. E, apesar de todos os defeitos, não dá para negar que Onde Vivem os Monstros, esse estranho exemplar de cinema independente em um contexto inusitadamente mainstream, tem sensibilidade de sobra. Abrindo as cortinas do mundo curiosamente criativo de uma criança bem na frente dos olhos de seu espectador, Spike Jonze transformou a obra infantil de Maurice Sendak em uma pérola de conexões e reflexões sobre a família moderna, o sentimento e a visão de uma criança e, acima de tudo, sobre o que falta para nossa sociedade e sobra para os monstros do título: humanidade.

Max (Max Records) é o cativante protagonista de uma jornada ao mesmo tempo corriqueira e extraordinária, da qual o diretor e roteirista tira a beleza dos pequenos detalhes, engrandecendo os relacionamentos entre os personagens e ilustrando-os em uma história tão fantástica quanto absurdamente realista em suas conclusões. Ele foge de casa uma noite em que a mãe (Catherine Kenner) se irrita com sua atitude frente ao novo namorado (Mark Ruffalo) e, ao entrar em um barco ancorado as margens de um lago perto de sua casa, vai parar na ilha habitada pelo grupo de monstros do título. Delatar as personalidades dos personagens tão inusitadamente complexos que são Carol (voz de James Gandolfini), Alexander (Paul Dano), Judith (Catherine O’Hara), Ira (Forest Whitaker), Douglas (Chris Cooper) e KW (Lauren Ambrose), os próprios monstros, seria estragar boa parte do encanto abundante do filme de Jonze. Basta dizer, portanto, que o roteiro os coloca como reflexões distorcidas, por vezes exageradas, por outras realistas e, talvez justamente por isso, desoladoras, das pessoas presentes (e ausentes) na “vida real” de Max.

Repleto de simbolismos para explorar no script co-escrito por Dave Eggers, o diretor Jonze realiza um trabalho que combina perfeitamente com o clima sensível, quase estourado, do filme. Todo o equilíbrio entre exagero, comoção e contemplação é administrado pela câmera de Jonze com toda a competência, lançando mão de todos os recursos que tem as mãos para aumentar o impacto quase palpável das miudezas e simplicidades da trama. Onde Vivem os Monstros é o típico filme de narrativa simples, linear, que encontra sua beleza nos detalhes e metáforas que vai fazendo pelo caminho. Ainda que seja uma criança, Max é extremamente perceptivo com o mundo ao seu redor, e toda essa sensibilidade é repassada para o público com cautela e simplicidade comoventes.

Claro, uma parcela do mérito deve ir ao jovem Max Records, que fez um dos Irmãos Bloom quando jovens em Os Vigaristas, com uma atuação extremamente expressiva como Max. Ele é o centro nervoso do filme e o personagem que acompanhamos por quase todo o tempo, e é notável observar como o Records encara esse desafio com desevoltura e talento. Seu nível de atuação permite ao espectador tanto navegar pelas águas turvas da vida real quanto acompanhar um delirante mundo imaginário com o personagem. Catherine Keener também é elemento fundamental no começo e no final do filme, incorporando uma mãe tão amorosa quanto indulgente e descontrolada, pintando assim um retrato fiel das inconstâncias da família moderna e comovendo o espectador. São os olhos desses dois atores brilhantes em suas posições que fazem, ao final de Onde Vivem os Monstros, uma fagulha de esperança brilhar na tela.

Jonze fez um filme sensível, interessante, divertido e emocionante, que não furta o espectador de um final realista, sem soluções fáceis, nem de mostrar as dificuldades de se relacionar e, enfim, de viver. Mas, ao final, mostra que vale a pena continuar tentando. Às vezes, pode até dar certo.

Nota: 8,5

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Onde Vivem os Monstros (Where the Wild Things Are, EUA/Alemanha, 2009)

Uma produção da Warner Bros. Pictures/Legendary Pictures…

Dirigido por Spike Jonze…

Escrito por Spike Jonze, Dave Eggers…

Estrelando Max Records, Catherine Keener, Mark Ruffalo, Pepita Emmerichs…

Com as vozes de James Gandolfini, Paul Dano, Catherine O’Hara, Chris Cooper, Lauren Ambrose, Forest Whitaker, Michael Berry Jr, Spike Jonze…

101 minutos

31 de mai. de 2010

Pandorum (Pandorum, 2009)

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Não existe filme completamente ruim. Há tanta complexidade e detalhismo envolvidos no próprio processo de se fazer uma peça de cinema que soa quase como uma impossibilidade a existência de uma obra descartável ou repugnante em todos os aspectos. Veja Pandorum, por exemplo. Por um lado, é impossível não se ver intrigado pelo mistério que o roteiro de Travis Milloy (o ex-dublê que assumiu a posição de escritor a partir do fraco O Sorriso de Monalisa) ardilosamente propõe, ou até mesmo pela discussão que ele levanta: até que ponto, sem as amarras morais da nossa sociedade, nós somos humanos? É uma questão naturalmente fascinante que a trama trabalha com habilidade, colocando o espectador em uma paranóica viagem envernizada por cenas de ação eletrizantes, mas que pouco esclarece sobre a natureza da trama até o final chocante. Tudo isso, no entanto, é embalado de forma porca por um roteiro que não consegue fugir de alguns clichês (tanto do terror quanto da ficção científica) e por uma direção sem novidades nem ousadias. O resultado é um pacote atraente, amparado por propaganda das boas e produção requintada, mas que nunca cumpre todas as promessas que faz.

O início vai tão direto ao ponto que soa até apressado: a Elysium é uma nave destinada a colonizar o planeta Tamis, um planeta com condições perfeitas para a vida que surge como alternativa a Terra aos pedaços de um século no futuro. Acontece que o Cabo Bower (Ben Foster) e o Tenente Payton (Dennis Quaid) acordam do hiper-sono e percebem que não estão tão sozinhos quanto deveriam em seu turno na viagem de 123 anos. Com a energia da nave desligada e a entrada da ponte de comando travada, Peyton fica para trás, guiando Bower até o reator nuclear que irá reativar a nave através do rádio. Pelo caminho, no entanto, o Cabo descobre que uma parte de tripulação se transformou em monstros canibais, enquanto outra se refugia em lugares seguros, como selvagens. E o Tenente luta contra os sintomas da Pandorum, uma doença psicológica que tende a atacar tripulantes de uma espaçonave isolada de qualquer contato com a Terra destruída. Na intrincada trama, quase nada é o que parece e a sensação de desorientação que o hiper-sono prolongado causou nos protagonistas é estendida de forma habilidosa ao espectador.

Enfim, a verdade é que Milloy mostra-se habilidoso ao carregar uma narrativa coesa e interativa entre suas partes. É uma charada intrigante que vai se desenrolando vagarosamente, quase como uma trama de mistério literária moldada por mãos habilidosas como as de Agatha Christie ou Sir Arthur Conan Doyle. Uma pena que a sutileza não seja a mesma ao tratar a parte mais, digamos assim, entretida da narrativa. Lançando mão de convenções e sem a delicadeza de criar um clima de suspense decente antes de nos apresentar os monstos, Milloy e o diretor Christian Alvart juntam-se para matar todo o impacto e a atmosfera que Pandorum poderia e deveria ter. De um potencial novo Alien, Alvart tira um relaxado terror gore com pitadas do tribalismo do recente Juizo Final que deve agradar aos fãs de Jogos Mortais, e a mais ninguém. Nem um elenco afinado consegue salvar tanto descaminho na direção.

O destaque aqui é Ben Foster, que vem entregando atuações concentradas e impressionantes desde Refém, ao lado de Bruce Willis, mas começou a ser reconhecido com a performance no recente O Mensageiro, em que contracena com Woody Harrelson e Steve Buscemi. Na pele do Cabo Bower, ele empresta credibilidade a um papel destoante, que varia entre pólos quase opostos de personalidade (em uma rara inconsistência da parte do roteiro de Milloy), e quase consegue unir esses dois extremos em um protagonista cativante e digno do próprio mistério da trama. Ao lado de um Dennis Quaid ligeiramente menos canastrão que o normal e um Cam Gigandet (o Cabo Gallo aqui e o James de Crepúsculo) que encarna seu personagem nas cores fortes de sempre, Ben se destaca ainda mais do que o normal. Isso sem contar que é raro vê-lo em um papel de tamanho espaço na narrativa.

Ainda assim, Pandorum é um filme de premissa interessante que, da forma desafortunada que é usual das peças mal-conduzidas, termina sem o refinamento que seria necessário para a questão que levanta ecoar na sensibilidade do espectador.

Nota: 6,5

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Pandorum (Pandorum, EUA/Alemanha, 2009)

Uma produção da Constantin Film/Impact Pictures…

Dirigido por Christian Alvart…

Escritor por Travis Milloy…

Estrelando Dennis Quaid, Ben Foster, Cam Gigandet, Antje Traue, Cung Lee…

108 minutos

26 de mai. de 2010

Cannes 2010 – Polêmicas, protestos e a participação brasileira na Riviére Francesa

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A premiação estava cada vez mais próxima e Mike Leigh despontava cada vez mais favorito com seu sensível Another Year (favoritismo que, hoje, sabemos frustrado) mas, antes que o “melhor do cinema mundial” fosse celebrado em Cannes, muita conversa séria ainda haveria de rolar. Afinal, cinema, engajamento e arte (e Cannes, quase sinônimo para tudo isso) não são feitos só de festa.

O caso Jafar Panahi

Iraniano, vencedor da Camera D’Or em 1995 por O Balão Branco e do prêmio da seleção alternativa Un Certain Regard em 2003 por Crimson Gold, Jafar Panahi era um dos selecionados do Festival 2010 para compor o júri encabeçado por Tim Burton. Acontece que, em 2 de Março último, dois meses antes do começo da festa, Panahi foi preso pelo governo Mahmoud Ahmadinejad, acusado de estar preparando um filme contra o regime do presidente, e não havia qualquer indicação de sua soltura até o início do festival. O resultado: o caso do cineasta virou assunto recorrente nas entrevistas e mobilizações de Cannes.

Também iraniano, Abbas Kiarostami iniciou a entrevista coletiva dedicada ao divisor de opiniões Copie Conforme, estrelado por Juliette Binoche, protestando contra a repressão artística em seu país natal. Outros cineastas do país assinaram uma carta aberta que pedia pela libertação de Panahi, e um petição online inciada por brasileiros pedia o cancelamento das premiações de Cannes enquanto o cineasta não fosse solto. Na carta para a família que mandou no último dia 19, Panahi declarou: “Não tenho comido nem bebido nada desde domingo de manhã, e declaro que, se minhas vontades não forem respeitadas, continuarei com essa postura. Não quero ser um rato de laboratório, vítima de jogos doentios, ameaçado e torturado psicologicamente”.

Benfeitorias e polêmicas

Já é tradição a maior concentração de celebridades por metro quadrado em Cannes ser na festa da amfAR, a Fundação de Pesquisas sobre a Aids. Com a responsabilidade de seguir Sharon Stone como a apresentadora principal do evento, Marion Cotillard (Nine) contou com a ajuda de Alan Cumming, conhecido por aqui como o Floop de Pequenos Espiões, para levar a arrecadação a impressionantes 6,7 milhões de dólares, que ajudarão nas pesquisas em busca da cura da síndrome. De novidade mesmo, só o desfile paralelo de beldades pela passarela, cedendo roupas usadas para um leilão destinado a ajudar o Haiti. Jennifer Lopez, Salma Hayek, Penélope Cruz, Charlize Theron, Diane Kruger, Demi Moore e Gwyneth Paltrow foram algumas que leiloaram roupas usadas em premiações passadas.

Enquanto o clima luxuoso ainda pairava sobre a reunião de estrelas por uma boa causa, no entanto, a exibição de Hors la Loi, obra sobre a independência da Argélia realizada pelo cineasta francês Rachid Bouchareb, foi responsável pelos momentos mais tensos do Festival. Os aplausos após a sessão para a imprensa não abafaram o protesto do lado de fora da sala de projeção, e um forte esquema de segurança precisou ser montado na entrada da sessão. A relação tensa da França com suas ex-colônias e especialmente com a Argélia, independente apenas 1962, fez o diretor emitir uma carta aberta dizendo que sua intenção era começar uma “serena discussão de ideias” em relação ao assunto.

O Brasil em Cannes

Espremido em um tempo entre as estréias do dia 18 e as coletivas de imprensa dos filmes exibidos, 5X Favela – Agora Por Nós Mesmos, não fez tanto barulho quanto prometeu, mas deu espaço aos diretores dos cindo curtas-metragens que compõe o filme de se expressarem sobre as intenções de suas realizações. Estruturado e entitulado em referência a um dos filmes seminais do Cinema Novo, a coleção de curtas Cinco Vezes Favela, em que realizadores jovens de classe média davam sua visão sobre a pobreza dessas comunidades, a nova obra é uma visão mais otimista e alternativa do que se sabe sobre as favelas brasileiras. Escrita, dirigida e atuada por membros da comunidade, a coletânea de visões de diferentes comunidades cariocas conta com histórias consideras perdoavelmente ingênuas, mas infalivelmente eficientes em mostrar um lado das favelas pouco conhecido tanto fora quando dentro do Brasil.

Em vertente oposta do nosso cinema, a Quinzena dos Realizadores acolheu A Alegria, longa-metragem dos jovens Marina Meliande e Felipe Bragança, uma mistura de drama com fantasia, centrado no mundo imaginário da adolescente Luiza. Usando linguagem subjetiva, sensibilidade a flor da pele e se conectando com produções como Os Famosos e os Duendes da Morte e As Melhores Coisas do Mundo, o filme recebeu aplausos tímidos, graças a falta de ritmo e preparação de elenco. Mas o destaque mesmo veio da seleção oficial de curtas-metragens disputando a Palma de Ouro, com Márcia Faria e sua estreia em Estação sendo calorosamente recebido pelo público do Festival. A história mostra uma garota que chega em São Paulo e Brasília e acaba se instalando na Rodoviária do Tietê.

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Entre aquele Cinco Vezes Favela e este, há quase cinqüenta anos. Muita coisa mudou: o mundo, o Brasil, o cinema e a própria favela. Nosso primeiro filme era um projeto generoso, antenado, mas feito por jovens de classe média. Este novo é uma visão por dentro, em que esses diretores tentam construir sua identidade”

(Cacá Diegues, coordenador do projeto, compara os dois “5X Favela”)

Como todo mundo está cansado de ver favela no cinema, eu quis humanizar os estereótipos que ainda existem sobre os moradores. Há um conflito entre amigos, mas não um conflito de classes, não é uma história de ódio. Já vivi situações como ser obrigado a dar calote no ônibus, mas meu personagem não podia ser depreciativo. Não é um cara de baixa auto-estima, é um rapaz inteligente que não perde sua originalidade”

(Wagner Novais, ator do segmento “Fonte de Renda”, discute estereótipos)

24 de mai. de 2010

Cannes 2010 – Os premiados, en fin!

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Palma de Ouro – Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives (Tailândia)

Quando meio mundo virava os olhos para Mike Leigh, que poderia ter levado sua segunda Palma por Another Year e alguns outros apostavam em Alejandro Iñárritu e Biutiful, Cannes jogou uma carta inesperada. Premiado na mostra Un Certain Regard em 2002 e vencedor do prêmio do júri em 2004, com seu Tropical Malady, o tailandês Apichatpong Weerasethakul subiu ao palco para receber a Palma de Ouro de Cannes 2010 ao mesmo tempo como uma zebra e uma escolha mais do que merecida. Apaludido entusiasticamente em sua exibição no dia 20, Uncle Boonmee retrata um homem que se cerca das pessoas que ama, em uma cabana isolada no meio da selva, quando descobre que seus rins pararam de funcionar, acelerando sua morte. Comparecem a essa última “confraternização” a esposa, morta há anos, e o filho, desaparecido, que é simbolizado por um macaco de olhos brilhantes.

Com a trama budista-espiritista e as texturas fortes do cinema sensorial de Weerasethakul, o filme parece ter agradado em cheio ao presidente do júri Tim Burton, confirmando que os prêmios de Cannes, quase sempre, saem a semelhança de quem comanda o julgamento. Ainda bem que o diretor foi sagaz o bastante para reconhecer isso em seu discurso, com um final um tanto quanto lisongeiro em relação a Burton. “Este é como outro mundo para mim, é meio surreal. Acho que é um momento importante para o cinema tailandês. O prêmio é para vocês. Gostaria de beijar todos vocês do júri, principalmente Tim Burton, porque gosto de seu corte de cabelo”.

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Prêmio de Atuação FemininaJuliette Binoche, por Copie Conforme (França)

Prêmio de Atuação MasculinaJavier Bardem, por Biutiful (Espanha)

Uma francesa e um estrangeiro. A disposição do ano passado, em que Charlotte Gainsbourg levou por Anticristo fazendo companhia ao unânime (e austríaco) Christoph Waltz pelo Coronel nazista de Bastardos Inglórios, prevaleceu também nessa edição 2010 de Cannes. Estampada no cartaz oficial do evento, a sempre encantadora Juliette Binoche surgiu como uma surpresa faturando a Palma de Melhor Atuação Feminina por sua participação na produção multi-nacional Copie Conforme. Rodado em Florença, co-estrelado pelo britânico William Shimell e dirigido por Abbas Kiarostami, o nome mais conhecido do apreciado cinema iraniano, o filme sobre um escritor e uma fã que discutem filosofias de vida e a validez de”uma cópia bem-feita” (ou certificada, como o título sugere) se reveza entre três línguas e Binoche na pele de uma adorável francesinha. Papel que cai bem ao seu talento e carisma e que lhe rende o primeiro e merecido prêmio em Cannes.

Se não bastasse só um reconhecimento um tanto tardio para Cannes 2010, o outro premiado nas categorias de atuação foi Javier Bardem, já detentor de um Oscar por seu psicótico no filme dos irmãos Coen, Onde os Fracos Não Têm Vez. Dessa vez ele impressionou até os franceses, que não puderam deixar de reconhecer a intensidade de sua atuação como o desafortunado Uxbal de Biutiful, dirigido pelo mexicano Alejandro Gonzáles Iñárritu. Sua atuação é o centro nervoso do filme e o coração que bate por trás das histórias quase sempre mecânicas do diretor. Mas nada de unanimidade para ele, no entanto. O prêmio (e um pouco dos holofotes) teve de ser dividido com o italiano Elio Germano, que emocionou a platéia com sua composição do capataz que vê sua vida mudar em La Nostra Vita, de Danniele Luchetti. Em seu país, Germano é até comparado ao Robert DeNiro dos anos 1970, época de Taxi Driver e Touro Indomável.

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Grand Prix  do Júri Ecumênico – Des Hommes et des Dieux (França)

Prêmio do Júri – Um Homme qui Crie (Bélgica)

Historicamente, em Cannes, os prêmios dos dois Júris (o ecumênico e o principal) são distribuídos a produções que teriam pouca chance no mercado regular, seja por sua origem, temática ou estilo alternativo, dando a essas produções uma chance de se revelarem, senão ao grande público, ao menos a uma platéia maior do que teriam naturalmente. Às vezes, como no ano passado, em que o drama de prisão Un Prophéte levou o certificado, o prêmio fica com gosto de consolação para os que ficam a margem do vencedor da Palma de Ouro. No caso de Cannes 2010, o resultado foi uma mistura dessas duas coisas. O Júri Ecumênico favoreceu o time da casa, dando ao burocrátivo Des Hommes et des Dieux, do francês Xavier Beauvois, um prêmio que, apesar de diplomático, acaba se mostrando, em última instântica, óbvio.

Uma vez que o Grand Prix é feito para premiar filmes com fundos humanitários e denúncia social, nada mais natural do que laurear uma obra contundente (apesar de nunca ousada) sobre um grupo de frades católicos que se dá bem com a população mçulmana de uma região belga e luta pelos direitos dessa população até a morte. Muito mais condizente, no entanto, teria sido ceder a dupla glória a Mahamat-Saleh Haroun, cineasta de origem africana que fez um filme sobre o conflito bélico em Chade, seu país natal, à beira de uma Guerra Civil. Financiado pela Bélgica, o drama impressionou boa parte dos críticos e levou o prêmio concedido pelo júri principal, em mais uma demonstração de sagacidade e isenção de preconceitos de Tim Burton e seus asseclas.

Prêmio de DireçãoMathieu Almaric, por Tournée (França)

Prêmio da Crítica (FIPRESCI) – Tournée (França)

No final das contas, quem saiu mesmo com dois prêmios na mão foi Mathieu Almaric, conhecido por aqui como o vilão de 007 – Quantum of Solace, que atacou de diretor pela terceira vez em longas de ficção com um retrato do novo burlesco em Tournée, considerado por muitos o filme mais divertido (e mais bem-estruturado) do festival. Estrelado por  verdadeiros artistas dessa espécie de espetáculo e contando a história de uma trupe comandada por um ex-trambiqueiro que pretente realizar um tour por toda a França, Tournée aposta em uma obra sem mensagens, feita para apresentar um mundo de arte, deslumbramento e diversão a um público acostumado com dramas sisudos e pesados. A ousadia de quebrar os padrões de Cannes rendeu a Almaric o prêmio de direção do festival, que não ia para um cineasta francês desde (pasmem), 1995, quando outro ator-diretor de nome parecido, Mathieu Kassovitz, levou a Palma por O Ódio. O curioso é observar que Kassovitz e Almaric, além do primeiro nome, tem em comum o crédito em Munique, obra de 2005 de Steven Spielberg, como coadjuvantes de Daniel Craig e Eric Bana.

Quem também apreciou a visão de Almaric sobre o burlesco foi a crítica, que laureou Tournée como seu preferido de Cannes 2010. Os prêmios da FIPRESCI, formada por críticos de diferentes países que mudam a cada edição, ainda louvaram o hispano-marroquino Todos Vós Sodes Capitáns, documentário do jovem e estreante diretor espanhol Oliver Laxe. Para completar a lista de prêmios da seleção principal, o coreano Poetry, apesar das críticas que recebeu a ocasião de sua exibição para a crítica, acabou levando o troféu de melhor roteiro para o também diretor Lee Chang-Dong, mais conhecido por seu anterior, Secret Sunshine.

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Prêmio Un Certain Regard – Ha-Ha-Ha (Coréia do Sul)

Prêmio do Júri Un Certain Regard – Octubre (Peru)

Prêmio de Elenco Un Certain Regard – Los Labios (Argentina)

Em uma edição em que o cinema asiático, depois de anos relegado a exibições recebidas com frieza, acabou saindo como o maior vitorioso, nada mais contundente do que fazer de um filme coreano o grande ganhador da sempre alternativa mostra Un Certain Regard. Para quem gosta de cinema de arte, a seleção paralela é um prato cheio, e ao que tudo indica a seleção de HaHaHa, comédia coreana do diretor e roteirista Sang-soo Hong, mereceu a vitória cedida pelo júri chefiado pela diretora Claire Denis. O filme sobre dois amigos que descobrem ter passado um verão muito parecido em uma cidade turística pouco conhecida da Coréia em sua reunião de despedida (um deles vai partir ao Canadá) dividiu as atenções com a produção latino-americana de Octubre, premiado com o troféu do júri, e Los Labios, que levou pelo espetacular elenco feminino, condutor da trama sobre três mulheres que viajam a um lugar distante na procura de trabalho, ainda que ilegal. Estreantes, os diretores Santigao Loza e Ivan Fund representam uma nova geração do cinema argentino que vem fazendo sucesso no cirtuito de festivais internacionais.

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P.S.: Na França, Cannes acabou. Mas, aqui no Anagrama, ele tem mais uma semana inteira para brilhar. Tudo, ou quase tudo que rolou por lá, vai acabar aparecendo por aqui. Aguardem!

Eu não cheguei a ver outros filmes de Apichatpong Weerasethakul, mas vários outros membros do júri conheciam o seu trabalho. O que eu realmente gosto em Cannes é ter acesso a filmes que não são fáceis de se ver em nenhum outro lugar. Esse é um filme de fantasia, mas tem algumas coisas que eu nunca vi antes” – Tim Burton

A lista de vencedores desse ano é muito ampla. Juntos, nós conseguimos encontrar um tipo de balanço entre filmes mais radicais e trabalhos de grande escala. A lista incui todo tipo de filme de todos os lugares do mundo” – Alexandre Desplat

Um prêmio é como um consenso, como na política. Mas o verdadeiro juiz é o tempo. Ideias vem e vão, e os filmes ficam. É possível que no futuro apenas um filme desses premiados seja lembrado. E se esse for o caso, nós nos deculpamos” – Victor Erice

Nós tentamos inventar novos prêmios, mas não foi possível! Os filmes que acabaram não ganhando nada também tiveram defensores no júri” – Kate Beckinsale

Para um escritor, é tentador contar tudo o que aconteceu em detalhes nesses dez dias. A única coisa que estava faltando, de um ponto de vista dramatúrgico, era um cara mau” – Emmanuel Carrère

(Em clima de paz, o Júri fecha os trabalhos em Cannes 2010)