Review: Dirty Computer (álbum e filme)

Janelle Monáe cria a obra de arte do ano com um álbum visual espetacular - e que desafia descrições.

Os 15 melhores álbuns de 2017

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Review: Me Chame Pelo Seu Nome

Luca Guadagnino cria o filme mais sensual (e importante) do ano.

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Review: Liga da Justiça

É verdade: o novo filme da DC seria melhor se não tivesse uma Warner (e um Joss Whedon) no caminho.

10 de mar. de 2018

Os 15 melhores álbuns de 2017

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Olha só quem chegou ligeiramente menos atrasado nesse ano! O Anagrama quebrou o tabu dos anos anteriores e elaborou a lista mais completa e mais maravilhosa de melhores discos do ano antes do fim de março (é brincadeira, gente!). Confira abaixo as nossas escolhas, com textos maravilhosos dos nossos colaboradores refletindo sobre mais um ano fenomenal no mundo da música.

altj15)
Relaxer
(alt-J)
Lançamento: 2 de junho
Selo: Infectious/Atlantic
Produção: Charlie Andrew
Duração: 38m59s

por Caio Coletti  

Há poucas coisas mais contemporâneas no cenário musical atual do que a eterna busca por autenticidade dentro do artificial que desenha a carreira dos britânicos do alt-J. Uma das bandas indie mais perenemente surpreendentes e intrigantes do nosso tempo retornou com Relaxer, que, por todas as suas oscilações, faz jus ao nome – é um disco de fácil audição, que esconde sua riqueza de detalhes por baixo de um exterior suave e inteligente, de forma que ela talvez só fique aparente na segunda ou terceira vez que você ouví-lo de ponta a ponta casualmente, enquanto trabalha ou faz qualquer outra coisa do seu dia a dia. O trio principal do alt-J, formado por Joe Newman (guitarra, baixo, vocais), Thom Sonny-Green (bateria) e Gus Unger-Hamilton (teclado, vocais), se encaixa naquele estereótipo de jovens adultos com atenção dispersa e mente superativa, e isso se reflete na música – Relaxer é um ensopado de referências, inserções instrumentais inesperadas, sentimentos espalhados e oscilantes pelas letras narrativas e oblíquas assinadas juntamente pelos três integrantes.

Exemplo primário: o single “In Cold Blood” (abaixo), que conjura uma sessão de sopros no refrão para incrementar sua estranha história em staccato sobre uma festa na piscina que se transforma em uma cena de crime. Quer mais um? Em “Hit Me Like a Snare”, Newman “calibra” seu vocal com o discurso decadente dos cantores do punk setentista para resmungar a maliciosa história de um homem visitando um hotel de sexo e usando uma longa frase em japonês como “palavra de segurança”. Já em “Adeline”, o alt-J empresta ressonância emocional de um sample da trilha de Além da Linha Vermelha, escrita por Hans Zimmer, e transforma o lamento de um demônio da tasmânia apaixonado por uma nadadora humana (é sério!) em um conto surpreendentemente tocante com sua metáfora simples.

Nem todas as ideias musicais do alt-J são proposições ridículas que só funcionam espetacularmente por causa do talento de quem as executa, no entanto. Na sublime versão de “House of the Rising Sun”, a banda grava 20 guitarristas clássicos dedilhando a canção folk ao mesmo tempo, criando uma sensação acústica profundamente humana que combina com os novos versos que a banda adiciona à faixa, suportando a história de uma família despedaçada pelo vício em jogos do pai. Em “Pleader”, que fecha o disco, o coral e o órgão da Ely Cathedral, em Cambridgeshire (Inglaterra), se integram à melodia que remete a canções sacras e aos interlúdios banhados em guitarra espanhola, uma mistura que só o alt-J poderia imaginar para uma canção nostálgica por dias mais simples.

Em meio a todas essas referências saídas de Deus sabe onde, o alt-J ainda é uma banda indie marcantemente contemporânea, inserindo sintetizados e pacotes de cordas inesperados em todo o canto, mas recorrendo ao bom e velho folk de violão quando é hora de fechar (emocionalmente) o disco, com a meditativa e mórbida “Last Year”. É aqui que a busca do alt-J pela autenticidade crua de outras eras musicais se casa melhor com suas ambições alternativas e experimentais, conjurando um folk-pop essencial para entender o espírito musical da nossa geração. 

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MASSEDUCTION
(St. Vincent)
Lançamento: 13 de outubro
Selo: Loma Vista
Produção: Jack Antonoff, St. Vincent, Lars Stalfors, John Congleton
Duração: 41m36s

por Caio Coletti

Há poucos álbuns que se prestam menos a uma crítica acadêmica do MASSEDUCTION, a quinta gravação de estúdio de Annie Clark sob o pseudônimo de St. Vincent. Sua inspiração é tão pura, e suas influências reveladas de forma tão cândida e sem alarde que ele é capaz de desconcertar até o jornalista de música mais experiente (que dirá este que vos fala!). Em MASSEDUCTION, Clark é uma “dominatrix do santório”, como ela mesma definiu ao falar da influência de arquétipos narrativos em sua obra – e enquanto cada uma das faixas introduzem ideias espetacularmente inesperadas, essa personagem da artista (que, como sempre no mundo pop, representa, paradoxalmente, muito do seu eu autêntico) surge para emprestar coesão e essência ao disco. Em 13 faixas, St. Vincent é a rainha das roqueiras alternativas, uma clone mais perturbada de Kylie Minogue, uma artesã do dream-pop sintetizado, uma poetisa da decadência ao piano, e muito mais. Tudo isso sem nunca parecer nada além de uma artista em busca da expressão mais verdadeira de si.

Em muitos momentos, aliás, ela é tudo isso que eu descrevi acima na mesma música. “Pills” é o primeiro exemplo que vem à cabeça – a canção é um deleite pop mordaz levado pela batida, com um refrão que se assemelha a um jingle publicitário (cantado pela modelo Cara Delevingne, ex de St. Vincent), até a sessão final, onde Clark e os coprodutores Jack Antonoff e John Confleton introduzem um improvável interlúdio melódico acompanhado por guitarras distorcidas e cordas, que evoca os momentos mais melodramáticos de David Bowie. A canção título, “Masseduction”, vem logo depois para quebrar completamente com essa impressão, como infalivelmente o disco faz a cada troca de faixa – aqui é que a influência de Kylie aparece mais marcada, com seu refrão repetitivo e seu instrumental que mistura batida eletrônica com intervenções pontuadas de guitarra. É uma música que não estaria fora de lugar no X, disco de Kylie de 2007.

Pouco depois, no single “Los Ageless” (ouça abaixo), Clark mostra todas as suas facetas de uma vez – a mistura é explosiva, com o apelo pop inegável dos ganchos da melodia dos versos se misturando à decadência progressiva das guitarras no refrão e a um interlúdio gritado na sessão central. É o primeiro sinal que MASSEDUCTION não é só um álbum incrivelmente variado e inteligente, como também um tomo de honestidade social, um tratado honesto, afiado e constantemente niilista sobre os nossos impulsos mais básicos (e menos agradáveis) como humanos. St. Vincent passeia por fantasias sexuais e metáforas religiosas na cadenciada “Savior”, mas essa é só a superfície de sua sentença, a provocação pop pintada por cima de um delírio lúcido sobre seduções sociais e o mal que elas podem fazer para um indivíduo.

Essa reflexão é amarrada com o triplo soco no estômago que compõe o final do álbum: as devastadoras “Young Lover”, “Slow Disco” e “Smoking Section” fazem crônica de um relacionamento assombrado por dependência química e psicológica, mas rimam com o disco de forma a representar a visão de St. Vincent sobre a vida em sociedade, suas desesperanças e suas belezas. Enquanto “Young Lover” é levada por gritos e baques percussivos, as outras duas diminuem a intensidade para introduzir reflexões profundas – “Slow Disco” vê a vida como “a slow dance to death” (“uma dança lenta para a morte”), enquanto a autodepreciativa “Smoking Section” termina em uma nota curiosamente esperançosa com os versos “What could be better than love?/ It’s not the end” (“O que pode ser melhor que o amor/ Não é o fim”).

Grandes obras de arte são capazes de casar o opressivo peso do cotidiano, suas hipocrisias e tentações, com a aspiração maior que é própria da narrativa, do espírito e da natureza humana. MASSEDUCTION nunca é menos do que uma obra de arte.

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The Architect
(Paloma Faith)
Lançamento: 17 de novembro
Selo: RCA/Epic
Produção: Paloma Faith, Jesse Shatkin, Starsmith, TMS, Klas Ahlund, Eg White, James Reynolds, Sam Klempner, Jonathan Green, Ghostwriter, Samuel Dixon, Empre Ramazanoglu, Arnbor Birgisson, Jamie Hartman, Knox Brown, Thomas Brenneck, Homer Steinweiss
Duração: 48m42s

por Caio Coletti

Se você quer prova de que Paloma Faith é uma grande vocalista, não procure além de “Still Around”, uma das faixas mais marcantes do seu quarto disco de estúdio, The Architect. Aqui, a normalmente poderosa Faith contem a voz colossal em tons lânguidos, passeando pelos graves e pelas extensões cristalinas de agudos suaves até o refrão, onde deixa o timbre ardido (no melhor dos sentidos) voar para criar uma pérola de blues que ainda é inseparavelmente contemporânea. Tudo só com a voz – a linha de piano deliciosa da faixa é mera coadjuvante aqui. O que é mais impressionante sobre Faith e seus álbuns, no entanto, é que essa voz extraordinária não é o único instrumento que ela domina perfeitamente como artista.

Não estou falando de instrumentos físicos, mas instrumentos de expressão. Com crédito de composição em 14 das 15 canções do The Architect, e de produção em quatro delas, a britânica cria uma obra que é espetacularmente precisa tanto no sentimento que quer passar quanto na estrutura que usa para passá-lo. Todas as canções do The Architect seguem um desenho minucioso de verso-refrão-verso-refrão-ponte-refrão, em durações que raramente passam dos 4 minutos, mas poucas vezes ficam abaixo dos 3:30. Seu instrumental é imediatamente identificável para fãs do soul pop da cantora, mas ainda ligeiramente modificado para conter as multidões de angústias desse disco em específico. The Architect é a obra de uma artista verdadeira.

Essa verdade aparece nas letras diretas e honestas, mas que ainda assim buscam expressar algo mais profundo do que parece. “Crybaby” e “I’ll Be Gentle” (com John Legend) advogam, em solo e dueto, por uma masculinidade mais vulnerável para construir um mundo mais pacífico – é uma mensagem íntima que se transforma em universal, política. “Kings and Queens” e “Lost and Lonely” falam da glória de uma juventude contemporânea perdida e dos aspectos mais patéticos dela, quando olhados do ponto de vista da experiência, mas clamam também por compreensão dos machucados dessa juventude. “’Till I’m Done” e “WW3” parecem aludir à libertação de padrões violentos, noções onerosas de amor e paixão; e por aí vai.

O significado desses temas é unificado pelos três interlúdios do disco – em “Evolution”, Samuel L. Jackson fala sobre tomar controle de nossas próprias vidas e impelir o mundo ao nosso redor a um novo paradigma; em “Politics of Hope”, Owen Jones faz o mapa das motivações e justificativas de um grupo muito ironizado nessa era da internet, os justiceiros sociais; e em “Pawns”, o trio Baby, Nym & Janelle dá a perspectiva de como um grupo marginalizado se sente com a inclusão hipócrita de uma parte desses justiceiros sociais.

As 15 faixas luxuosas de The Architect passeiam entre guitarras quentes (“Lost and Lonely”), filtros de voz inesperados (“Warrior”, composta por Sia), sintetizadores e cordas que remetem a uma releitura contemporânea da música disco muito mais inspirada do que a de outros artistas que tentaram fazer o mesmo (“Kings and Queens”, “’Till I’m Done”)… É uma experiência musical cheia de repertório, propósito, e o talento necessário para cumpri-lo. Tudo culmina na muscular “Love Me As I Am”, que sintetiza um álbum sobre aceitação, compaixão e a vontade incessante de entender o outro e o mundo que o formou.

Poucos artistas atualmente sabem contar uma história com a paciência e o esmero que ela demanda, e precisamos apreciá-los. Paloma Faith é um deles.

gorillaz12)
Humanz
(Gorillaz)
Lançamento: 28 de abril
Selo: Parlophone/Warner
Produção: Gorillaz, The Twilite Tone, Remi Kabaka Jr, Fraser T Smith
Duração: 49m19s

por Nathalia Nasser

Depois de um intervalo de seis anos fortemente sentido pela indústria, Damon Albarn e Jamie Hewlett injetaram uma dose de caos no mundo da música.

Mais ingleses do que os Beatles, a dupla fez do Gorillaz uma banda americana: dos Estados Unidos e bem aceita pelos norte americanos. Não por menos, o Humanz nasceu de uma das grandes tragédias mundiais e distópicas dos últimos tempos: Donald Trump eleito presidente dos Estados Unidos da América. Uma catástrofe política, social, que resume o álbum em uma playlist feita para o fim do mundo.

Em um momento em que muitos dos grandes artistas pop têm trazido seus álbuns mais como playlists do que como conceito, o epicentro do Humanz foi objetivo. Albarn selecionou as parcerias desejadas para o disco e deu aos músicos uma tarefa: a de imaginar nos EUA no pior cenário possível que poderia acontecer - e aconteceu. Como eles se sentiriam na noite da eleição de Trump? Desse ponto de partida, a construção do Humanz se baseou somente nisso: em fazer um disco sobre o mundo caminhando para um cenário caótico.

O disco é mais uma compilação de faixas bem produzidas e colecionadas do que um álbum coerente. A tentativa de trazer uniformidade à playlist-de-fim-do-mundo são as 6 (!) interludes que trazem referências ao filme A Vida de Brian (1979) e ao clássico disco London Calling (The Clash, 1979). Talvez a junção dessas lâminas de arte que tratavam também de um cenário caótico foram o nó dos pontos dados ao longo das 26 faixas do álbum.

“Ascencion” abre o álbum com Vince Staples numa batida apocalíptica que decola o disco em um nível já alto de velocidade. Com um tom crítico sutil, mas perceptível, Staples ironiza “This the land of the free/ Where you can get a glock and a gram for the cheap/ Where you can live your dreams long as you don't look like me/ Be a puppet on a string hangin' from a fuckin' tree” (“Essa terra é a terra dos livres/ Onde você pode comprar uma arma e uma droga baratas/ Onde você pode viver seu sonhos, a não ser que se pareça comigo/ Seja um boneco pendurado por uma corda, enforcado na árvore”).

Lançada um dia antes da posse de Trump e talvez o momento mais emocionante do álbum, “Hallelujah Money” marca a primeira parceria do cantor inglês Benjamin Clementine com a banda. Os tons vocais de gospel e a batida eletrônica típica do Gorillaz formam a embalagem perfeita para uma letra fortemente crítica e política que ironiza a celebração do dinheiro e discute a construção de muros entre países, num momento de sensibilidade e delicadeza social.

Ao criar um álbum que se desloca rapidamente entre vocalistas, gêneros e tempos, o Gorillaz avançou em suas habilidades pop digitais sem perder qualidade. Peven Everett, D.R.A.M, De La Soul, Danny Brown, Pusha T e Carly Simon: Albarn buscou, como sempre, no mais longe e no mais perto do que lhe parece fazer sentido na música atual.

Em sua gigante pluralidade, o Humanz chega no seu momento final, em “We Got The Power” com uma mensagem emocional e saudosa para os que acompanham Albarn desde os primórdios, na era do britpop. Numa dose de otimismo e bandeira branca, o inglês se junta a Noel Gallagher (Oasis) e Jehnny Beth (Savages) para cantar “We got the power to be loving each other no matter what happens/ We got the power to do that” (“Tempos o poder para amar uns aos outros não importa o que aconteça/ Temos o poder para fazer isso”. Liam Gallagher se revirou em algum lugar da Inglaterra.

Das faixas essenciais, “Andromeda” (com D.R.A.M), “Busted and Blue” (balada solo de Albarn) e “Let Me Out” (com Mavis Staples e Pusha T) estão entre as que não podem ser ouvidas somente uma vez.

A última coisa que Humanz sugere é qualquer tipo de declínio na inspiração da dupla por trás do disco. Pelo contrário, suas ideias são tantas e tão grandes que foram precisos mais de 20 artistas colaboradores para que a abrangência delas pudessem fazer sentido. O disco é menos sobre o que o Gorillaz foi nos últimos quase 20 anos e mais sobre o futuro para o qual se encaminha.

Para uma banda que existe unicamente através da tecnologia, não existia momento melhor para a volta do Gorillaz, que criou um strobo de músicas que piscam em alta velocidade e conseguiram fazer do caos uma festa agradável.

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More Life
(Drake)
Lançamento: 18 de março
Selo: OVO Sound/Young Money/Cash Money/Republic
Produção: Drake, Olivier El-Khatib, 40, Allen Ritter, Akira Woodgrain, Boi-1da, Charlie Handsome, Chef Pasquale, Cubeatz, Deejae, FrancisGotHeat, Frank Dukes, G. Ry, Hagler, iBeatz,Jazzfeezy, Kanye West, M3rge, Murda Beatz, Nabeyin, Nana Rogues, Nineteen85, Noah Goldstein, Ness, PatryNextDoor, S1, Steve Samson, Stwo, Supah Mario, Top FLR, T-Minus, Vinylz, Wallis Lane
Duração: 81m42s

por Andressa Cruz

Desde If You're Reading This It's Too Late (2015), Drake vinha de lançamentos musicais anuais. Ele foi um dos artistas que mais entendeu a dinâmica do streaming e a importância de se manter em relevância. More Life nasceu sob o conceito de playlist, reunindo 22 faixas e sendo lançado primeiramente nas plataformas digitais. Com os singles "Fake Love" (abaixo), "Passionfruit”, "Free Smoke", "Portland" e "Glow", a playlist teve uma boa recepção pela crítica e quebrou vários recordes de streaming, mostrando que Drake sabe como lançar música na era digital.

O "álbum" pode parecer desconexo, mas a vida não é assim? Em cada momento necessitamos de uma música que dialogue com ele, e Drake, em entrevista para a Complex, disse que sua "intenção em criar uma playlist era entregar uma coleção de músicas que se tornam a trilha sonora da sua vida". Então, More Life nos trouxe diversos gêneros um único lugar: afrobeat, dancehall, hip-hop, R&B, entre outros. A diversidade não para nos estilos musicais e Drake explora diferentes colaborações, produtoras e estúdios.

More Life traz a mesma fórmula usada pelo artista desde Nothing Was The Same: rimas, diversos samples e vozes emprestadas dos artistas que colaboram com ele. E, assim como em Views, o pop e dancehall se faz presente no trabalho. Se em DAMN., Kendrick Lamar conta uma história através de um conceito, Drake não tem essa pretensão em More Life. As músicas nada mais são que ideias, atos isolados formando um conjunto.

Sabe aquele serviço de curadoria que fazemos ao selecionar canções para determinada playlist? Podemos identificar isso por aqui. Drake escolhe bem os artistas para dar corpo ao seu trabalho e traz nomes como Jorja Smith, Kanye West, Sampha, Travis Scott, PARTYNEXTDOOR, Skepta e até a atriz Zöe Kravitz para fazer parte de More Life.

Os grandes destaques da coletânea são a sentimental "Teenage Fever”, "Glow", "4422" e a chiclete "Passionfruit". Os samples marcantes são uma característica dos trabalhos de Drake e podemos ouvir inserções instrumentais de J.Lo, Lionel Richie, Hiatus Kaiyote e Earth, Wind & Fire. em suas composições, Drake traz versos intimistas sobre relacionamentos e conflitos pessoais, tornando More Life uma playlist acessível ao público.

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10)
Pure Comedy
(Father John Misty)
Lançamento: 07 de abril
Selo: Bella Union/Sub Pop
Produção: Jonathan Wilson, Father John Misty
Duração: 74m17s

por Nathalia Nasser

Ao criar um mundo paralelo dentro de um universo completamente real, Josh Tillman ultrapassou algumas linhas impostas no pop barroco e triunfou nas composições no seu terceiro álbum solo.

Depois de conquistar corações com I Love You, Honeybear, Tillman abraçou toda a sua inquietude. Pure Comedy vem com promessas anunciadas e mais do que cumpridas- talvez sua primeira grande oportunidade de confrontar de frente o pop.

Tillman reduziu o ser humano a uma espécie quase animal e discutiu ao longo de 13 faixas a bizarra capacidade humana de construir significado onde não existe ao tentar ressignificar a existência monótona e vulnerável. Dois takes por música foram o suficiente para um álbum primoroso nas mãos de Father John Misty, um neurótico apocalíptico que passa longe de qualquer tipo de humildade e quase implora por arte em cada acorde. Na primeira faixa (abaixo), que carrega o nome do álbum, os seis minutos de música discorrem sobre o nascimento da política e ironizam a instituição das religiões: “The religions are the best.” A letra crítica e impaciente é envolvida por um arranjo cru e sofisticado ao mesmo tempo.

“Can we recommend some similar artists?/ This is totally the song of my summer /Are you feeling depressed?/ This guy just gets me/ But your feedback's important to us” (“Podemos recomendar artistas similares?/ Essa é totalmente a minha música do verão/ Você está deprimido?/ Esse cara me entende/ O seu retorno é importante para nós”). “The Memo” são cinco minutos de completa insatisfação nada disfarçada. O piano parece existir estritamente para acompanhar o quase protesto e a composição agressiva atinge todo o sistema com um vocal gentil e uma personalidade artificial ilustrando um estilo de vida nada saudável.

“Ballad of the Dying Man” é uma balada trágica, por assim dizer. Aqui, a persona de Tillman se mostra exatamente como é: patético, crítico, genioso. Um dos pontos altos do álbum, a faixa é envolvente e bem produzida: corais qualificados, um piano agradável e um arranjo notável.

O disco transita entre revolta crua e um humor invejável. Em “Leaving LA”, faixa quase declamada, Tillman desce do púlpito em que se colocou até então, “Oh great, that's just what we all need/ Another white guy in 2017/ Who takes himself so goddamn seriously” (“Ah, que ótimo, é disso que precisamos/ Mais um cara branco em 2017/ Que se leva tão malditamente a sério”), assumindo uma insignificância citada incansavelmente durante todo o álbum.

“When The God of Love Returns There’ll Be Hell to Pay” é facilmente uma de suas canções mais corajosas e enfrenta questionamentos atormentadores diretamente com Deus, sem rastro de medo ou submissão: “You must know the first thing about human beings, we’re the Earth most soulful predator, try something less ambitious the next time you get bored” (“Você precisa saber a primeira coisa sobre os seres humanos, nós somos os predadores mais cheios de alma da Terra, tente algo menos ambicioso da próxima vez que ficar entediado”).

Tillman não fez questão de esconder seus problemas com a depressão e como um pensamento quase niilista foi a saída - mesmo que temporária - possível nesse momento. Só mesmo no final do álbum, em “In Twenty Years or So”, o cantor permite-se despir em sentimentalismo através da melodia, carregada por um piano robusto e sofisticado, e afirma - por meio de um vocal impecável e um falsete muito bem colocado: “It’s a miracle to be here alive/ One more time/ There’s nothing to fear” (“É um milagre estar aqui vivo/ Mais uma vez/ Não há nada para temer”).

Talvez o grande trunfo de Pure Comedy seja mesmo a capacidade de Josh Tillman em soar tão agradável enquanto está sendo crítico e desconfortante. O violão e pianos bem pontuados e a produção - que ainda soa como um despretensioso instrumentista em Los Angeles na década de 70 - são uma soma com um resultado positivo e, no mínimo, agradável. É preciso somente um passo a frente para que o desconforto seja sentido.

Desafortunados os que escolheram apreciar de fato a arte de Josh Tillman. Pure Comedy conceitua uma crítica inabalável sobre a humanidade vista de um lugar frio, embalada em um pacote delicado e gentil.

the 1st

9)
The 1st
(Willow)
Lançamento: 31 de outubro
Selo: Roc Nation
Produção: Blood Orange, Willow Smith
Duração: 34m

por Gabryel Previtale

No Halloween de 2017, 31 de outubro, Willow Smith, que comemorava seu aniversário de 17 anos, decidiu lançar esse seu segundo álbum de estúdio, The 1st. Composto por 11 faixas, o LP é bem possivelmente um mergulho mais aprofundado dos temas tratados no seu primeiro disco, o ARDIPITHECUS (2015), mas dessa vez lançando mão de mais experimentações e novos estilos que o tornam complexo musicalmente, já que este trabalho por exemplo não tem sessões muito bem definidas e nem uma linearidade instrumental e sonora. Digamos que as faixas não são construídas com o instrumental de uma banda, por exemplo - as canções são colocadas tendo a voz da Willow como instrumento principal e, portanto, daí a construção em volta dos vocais, mesclando instrumentação e voz. É uma coisa que a jovem cantora já costumava fazer, principalmente nas suas apresentações ao vivo, onde ela explora e brinca com as vibrações e melodias da sua voz em meio ao background de instrumentos.

É perceptível a evolução da cantora dos últimos projetos para esse mais recente. Não sei se foi proposital, mas chamar esse álbum de The 1st faz parecer que esse, sim, é o primeiro trabalho que exprime o paladar de Willow e sua bagagem musical ao longo desses anos em que já esteve inserida (desde muito cedo) no meio musical. Parece que é o primeiro em que ela coloca sua identidade musical de uma maneira mais séria - claro que o disco trata em sua maioria das faixas de amor, paixão da adolescência, sentimentos, ansiedade, mas também traz um pé em críticas sociais, e até um pouco de raiva em certos vocais. Esse ar juvenil de estudante de filosofia, os arranjos elegantes e o instrumental acústico fazem o CD ser muito bom de ouvir e apreciar. Sabemos que Willow já passeou por vários ritmos: pop, hip hop, eletro e agora folk, mas isso é totalmente compreensível já que a cantora ainda é uma adolescente e está na fase de experimentações e mudanças - amamos quando um artista se renova e traz sempre uma nova tentativa de se reinventar. É de se pensar que tudo que havia de “errado” com seu primeiro LP, The 1st veio consertando, porque o mais genial de todo o trabalho é que apesar de se tratar de temas de adolescentes, as faixas conseguem ser bem maduras e concisas.

O álbum abre com “Boy”, e já percebemos violinos e uma voz intimista, com pouco volume, porém firme e presente. É uma faixa que dá o tom do que está por vir, são compartilhamentos de histórias e segredos que ela nos convida a conhecer e fazer parte, nos contando seus sentimentos. Essa faixa tem um tom doce e os violinos mesclaram muito bem com todo o resto. Em seguida nós temos um interlúdio, “An Awkward Life of an Awkward Girl” , sem letra, apenas uma orquestra conduzida por um piano clássico, que faz com que o disco não tenha essas sessões muito bem dividas de que falei anteriormente. É algo que pode causar certo estranhamento, mas nada que vá interferir de modo negativo no resultado final.

Indo mais para o miolo do projeto, temos “Warm Honey” (abaixo), que é o álbum resumido em uma faixa - é a essência desse todo, é uma faixa doce e leve, dos mesmos assuntos tratados, mas ao mesmo tempo séria, madura, nostálgica e até filosófica. O instrumental já é uma guitarra com bateria que me lembrou referencias do ANTI, da Rihanna. “Oh no!!!!” é uma faixa muito boa, com colaboração de Dev Hynes, puxando mais pro eletro e os vocais soando inegavelmente como Lorde, até o estilo com o qual a música foi construída.

Por fim, o CD termina com “Romance”, a faixa mais agressiva do álbum, com vocais e notas mais altas e extensas. É uma música sobre reflexão do amor na sociedade, traz mais questões de gênero e liberdade social, com muita critica, mas também uma música com um peso super relevante para o projeto, deixando o CD mais dinâmico e com mais nuances do que só um amor juvenil. Em resumo, é o projeto mais completo lançado por Willow, muito bem construído melodicamente, bem pensado e de muito bom gosto, principalmente no uso dos instrumentais. Por outro lado, não acho que é todo mundo que vai se identificar com a mensagem do projeto, é musicalmente complexo e exige uma mente mais aberta para desfrutar das nuances de Willow como artista, mas realmente vale a pena dar uma chance para o mundo dessa jovem cantora que amadurece a cada trabalho.

9 juli

8)
Lua Full
(Juliana Kehl)
Lançamento: 13 de janeiro
Selo: Deckdisc
Produção: Gustavo Ruiz, Luiz Chagas
Duração: 44m

por Caio Coletti

É difícil fazer música brasileira contemporânea que não se encaixe em rótulos estritos e sufocantes. Em um país cuja tradição musical é tão vasta e tão identificável (para nós mesmos, pelo menos), a impressão é que ou se faz a MPB emulada das décadas “de ouro” ou se faz música pop/eletrônica que quebra completamente com ela. Uma geração de artistas vem tentando borrar essa linha há muito tempo, embora estejam conseguindo mais notoriedade agora – Céu, Tiê, Karina Buhr, Alice Caymmi, por aí vai. Em 2017, Juliana Kehl se destacou desse grupo com o singularmente preciso e sutil Lua Full, seu segundo disco de estúdio, uma coleção de canções que trabalha duro para manter a identidade melódica e sônica brasileira em (quase) todos os seus sentidos e vertentes, mas mesmo assim incorpora a sofisticação e a globalização do pop. Kehl tem em seu favor uma voz quase insultantemente melódica, que passeia com fluidez, elasticidade, expressão e afinação pelas canções escorregadias do álbum que criou ao lado dos produtores Gustavo Ruiz e Luiz Chagas, além de diversos co-compositores.

“Ladainha” (ouça mais abaixo), que abe o disco, nos introduz a essa voz de forma espetacularmente inteligente – é a canção mais melodicamente “redonda” do disco, com uma linha de baixo constante nos versos que deixa sua marca pelo restante do disco. Da canção título, “Lua Full”, à poética “Desoriente”, o baixo não deixa o ritmo escapar das composições esbeltas e expressivas de Kehl e seus colaboradores (entre eles, familiares como Ana Kehl de Moraes e Pedro Piccardi Kehl, além de amigos célebres como Marcelo Janeci), ou das belas reinterpretações de faixas gravadas originalmente por Reginaldo Rossi (“Desterro”) e Zé Pi (“Anoiteceu”).

Colorindo a levada do baixo, você encontra de tudo – guitarras que desaguam em solos desenfreados (“Sagitário”), sintetizadores rasgados (“Fuori da Questa Stanza”), teclados inspirados no soul e no R&B (“O Mundo Dela”). Lua Full faz de tudo, mas faz com um sabor que é intrinsicamente brasileiro, com composições em tons abertos e uma vocalista que não busca impor potência, mas canta de forma notavelmente sublinhada, projetada, calorosa. Seus adereços são cosmopolitas e sua sabedoria pop ao utilizá-los e inegável, mas seu espírito é, de forma respeitosa e consciente, nacional.

Liricamente, Lua Full é uma obra-prima sobre amores desconectados. A faixa-título dá a dica com seu verso principal: “A tua lua full aí/ A minha cheia aqui” – mas nem todos os amores do disco são desencontrados pela distância geográfica. Na minha faixa favorita, “Sete Salomés”, Kehl canta: “E o seu corpo que insiste em tocar/ Meu corpo solto em nenhum lugar”. É um manifesto de desconexão mais profundo – emocional, mas também beirando o social, que rima elegantemente a melancolia, a revolta e a liberação em um pedaço de música tão cheio de camadas escondidas.

Music Review The Killers

7)
Wonderful Wonderful
(The Killers)
Lançamento: 22 de setembro
Selo: Island
Produção: Erol Alkan, The Killers, Jacknife Lee, Stuart Price
Duração: 43m

por Nathalia Nasser

Trazer a década de 80 pros anos 2010 já está mais do que previsto por qualquer banda que risca um ruído indie. O The Killers conseguiu, de novo, fazer do previsto uma boa surpresa. A aura do último disco solo de Brandon Flowers, The Desired Effect, paira sobre o Wonderful Wonderful numa viagem à década oitentista condensada e de qualidade.

A identidade do The Killers não foi perdida: eles continuam soando como uma banda de fechamento de festival, o grande headliner esperado por 70% do público e também assistido pelos outros trinta. Mas talvez aqui seja o momento em que Flowers se mostra mais do que nunca. “The Man” (ouça abaixo), primeiro single do disco, elege o frontman como um “household name” (uma gíria americana para “nome estabelecido” ou famoso) em meio a batidas de groove e vocais que remetem facilmente aos anos 80 dos grandes Michael Jackson e David Bowie.

O álbum é recheado de melodias com guitarras ardidas, synth e letras doloridas, como os versos de “Rut”, terceira faixa do álbum, na qual Flowers pede: “Don’t give up on me/ Cause I’m just in a rut/ I'm climbing but the walls/ Keep stacking up” (“Não desista de mim/ Porque eu estou só em um barranco/ Eu estou escalando mas as paredes/ Surgem uma em cima da outra”). A evolução da faixa se dá ao final, quando ela cresce em mil por cento e, com grandeza, assume o refrão como um mantra.

A postura de banda-de-rock-alternativo-com-grande-bagagem-e-ainda-acima-da-média do The Killers se mantém intacta em canções gigantes e lindas como “Life to Come” (se fechar seus olhos, consegue ver Brandon Flowers cantando para uma arena lotada com jogos de luzes milimetricamente ensaiados), que declama amor, casamento, paixão e vidas futuras. “The Calling” vem para mostrar a imersão oitentista que Flowers e seus companheiros fizeram - há alguns anos, aparentemente - sendo quase um Depeche Mode e a-ha (muito bem) cuspidos. O ar futurista da canção traz a equação declarada dos anos oitenta: guitarra sensual, synth e doses homeopáticas de batidas eletrônicas, que transformam a faixa quase em uma viagem no tempo.

“Wonderful Wonderful”, faixa de abertura, e “Some Kind of Love” trazem em si uma característica comum: um instrumental muito bem produzido e incansavelmente trabalhado, acompanhado de vocais que tocam quase como um carinho, proeza que a voz de Flowers tem o poder de fazer desde “Everything Will Be Alright”.

Canções queridinhas pela crítica, como “Tyson vs Douglas”, faixa que claramente saiu de um congelador de 1986 e foi lindamente encaixada no álbum, seguram a onda profunda do álbum. “Out of My Mind” é das composições que não deixam escapar a identidade de Flowers para qualquer um que o conhece ao longo dos anos.

A meditativa “Have All The Songs Been Written?” fecha o álbum com maestria e doçura. Com uma guitarra bem pontuada e gentil, a canção é quase como espiar Flowers olhando seu próprio reflexo no espelho brigando dolorosamente com bloqueio da composição que teve de lidar nos últimos anos: “Has ever ship gone sailing? / Has every heart gone blue?/ Have all the songs been written?/ Oh i just need one to get through to you” (“Todos os navios já saíra do porto? / Todos os corações já se entristeceram? / Todas as canções já foram escritas?/ Oh, eu só preciso de uma para te tocar”).

Que o The Killers nunca aceitou ser pouco a gente já sabe. Canções massivas como “All These Things That I’ve Done” e “When You Were Young” podem assombrar para sempre uma carreira. Não por menos, o disco foi mais uma prova de que a banda continua puxando suas capacidades ao limite há mais de uma década e se provando ainda grande. Mais uma vez, por parte da produção - assim como Flowers fez em 2015 - o disco é um masterclass de truques de produção da década de 80.

O Wonderful Wonderful foi mais como uma revisita aos anos de Sam’s Town - onde os companheiros de banda de Flowers ainda estavam. É certamente um álbum de grandes músicas: íntimas, tocantes, confusas e grandemente sinceras. Uma ideia quase simples executada de forma sofisticada – talvez o grande benefício da dúvida entregue aos fãs do indie rock dos anos 2000.

7 pp

6)
Tremendous Sea of Love
(Passion Pit)
Lançamento: 24 de março
Selo: Wishart Group Recordings
Produção: Michael Angelakos
Duração: 35m25s

por Caio Coletti

Muita coisa aconteceu na vida de Michael Angelakos, que é o líder (e único membro) do Passion Pitt, desde o lançamento do disco Kindred, em abril de 2015. Ele se divorciou em agosto do mesmo ano, e se assumiu gay publicamente, em entrevista ao autor Bret Easton Ellis, em novembro. Enquanto continuava a lidar com o transtorno bipolar e a depressão, Angelakos, como todo americano, se viu surpreso pela eleição de Donald Trump à presidência – o título de seu novo disco, Tremendous Sea of Love, é tirado de um discurso do agora presidente dos EUA durante a cerimônia de posse. Em meio a uma retórica de ódio e divisão, as palavras atingiram Angelakos e o álbum, quarto do projeto Passion Pit, o coloca na desconfortável (e, ainda assim, tão apropriada) posição de consertar a distorção que elas representam em meio ao discurso do presidente. Tremendous Sea of Love é um disco luminoso, mas não bobo ou deslumbrado – uma corrente de melancolia corre por ele, mas Angelakos a envolve em sintetizadores cortantes, percussões inesperadas, pianos de melodias simples e referências surpreendentes.

“You Have the Right” e “Hey K” são as duas baladas dreamy do disco, com o falsete inconfundível de Angelakos passeado por melodias leves como uma pluma por cima de digitalizações graves e batidas sintéticas de R&B clássico. “Somewhere Up There” e “I’m Perfect” substituem a placidez por euforia – a primeira, descrita por Angelakos como “um ataque de pânico em três atos”, é uma caixinha de surpresas técnica que mistura uma composição pela metade com dois trechos falados, um por um amigo de Angelakos (desvendando os mistérios psicológicos do laço mãe-e-filho) e outro pela própria mãe do artista, respondendo com profundidade desavisada um recado deixado pelo filho. “We’re here, and everybody else is elsewhere” (“Nós estamos aqui, e todo mundo está em algum outro lugar”) diz ela entre avisos e recados de importância trivial.

Tremendous Sea of Love, em muitos sentidos, é sobre essa mesma “profundidade desavisada” do mundo, sobre a forma como nossas vidas comuns e tentativas tolas de transcendê-las ganham uma beleza contemplativa quando vistas de fora, de longe, de cima. Na crua “To the Other Side”, Angelakos eleva o ato de sobreviver a um feito heroico, tudo enquanto não deixa de reconhecer a dimensão inegavelmente patética das nossas ferramentas de sobrevivência: “Fight your war wrapped up in a blanket on your living room floor/ What do you need? / You’re a goddamn human, you’re already set free” (“Lute sua guerra enrolado em um cobertor no chão da sua sala/ Do que você precisa? / Você já é um maldito humano, você já foi libertado”).

Duas das faixas finais do disco,  “Inner Dialogue” e “The Undertow”, pintam o retrato dessa liberdade que Angelakos encontrou nos últimos anos de sua vida. Na primeira, em meio a batidas fragmentadas e experimentações mais esquizofrênicas (no melhor dos sentidos) do que nunca, Angelakos testa diversas entonações, efeitos e cadências na frase “give me your love” (“Me dê seu amor”), uma rara intervenção romântica que continua em “The Undertow” – aqui, o Passion Pit mistura a cadência particular de alguns de seus hits anteriores, como “Constant Conversations”, com a liberdade luminosa de tons e sintetizadores que o Tremendous Sea of Love representa.

Como de costume, um artista livre das amarras convencionais da indústria (Angelakos lançou o disco independentemente, on-line, postando-o só depois nas vias oficiais, como o Spotify) é indubitavelmente um artista melhor. No seu melhor disco até hoje, o Passion Pit criou uma obra-prima de esperança madura, equilibrada e deliciosa pelo prazer que tira de cada nota, escolha instrumental e harmonia vocal.

6 k

5)
Rainbow
(Kesha)
Lançamento: 11 de agosto
Selo: Kemosabe/RCA
Produção: Kesha, Body Brown, Rogét Chahayed, Stuart Crichton, Ben Folds, Ryan Lewis, Nate Mercereau, Rick Nowels, Drew Pearson, Ricky Reed, Pebe Sebert
Duração: 48m39s

por Maurício Sobrinho

Cinco anos após o lançamento de Warrior (2012), Kesha nos presenteia com o brilhante Rainbow. Foram cinco longos anos em que vimos publicamente a cantora enfrentando uma batalha judicial sem fim contra o seu próprio produtor, que abusou da cantora física e psicologicamente desde o início de sua carreira, quando tinha apenas 18 anos. Um período longo e doloroso em que vimos uma artista presa criativamente à sua gravadora, lutando por sua carreira e sobretudo, por justiça.

Quem acompanhou a trajetória sabe que a cantora anteriormente já havia deixado claro o seu desejo em fazer algo fora do padrão que lhe era imposto pela gravadora, mas até então o futuro desse novo disco e dessa nova sonoridade era incerto.

Com o lançamento do lead single “Praying” (abaixo), tivemos a doce surpresa de finalmente conhecer a verdadeira voz potente da cantora, que foi silenciada ao longo dos discos anteriores. Por meio de versos fortes, coesos e autobiográficos, Kesha nos inunda em emoções ao ouvir um dos melhores singles de 2017.

Se engana quem acredita que o álbum é de todo frágil, ainda nas canções mais emotivas como “Praying” e “Rainbow”, Kesha se impõe, mostra força, determinação e, por meio dos versos, nos diz que ela está de volta e veio pra ficar. A cantora não só nos diz que vai lutar, mas também nos convida a lutar com ela, como na sublime “Bastards”, o abre-alas do álbum e uma de suas faixas mais poderosas.

A surpresa não fica apenas na voz, mas sim no conjunto da obra. O disco não se encaixa apenas no pop, sua pluralidade faz com que a artista fuja do que já conhecemos de seu trabalho. A cantora passeia pelo rock, country e surpreende também nas parcerias, como Eagles Of Death Metal, The Dap-Kings Horns e a consagrada Dolly Parton na ótima “Old Flames (Can’t Hold A Candle To You)”.

Mesmo nas faixas mais dançantes, como “Let ‘Em Talk”, de sonoridade alternativa, que poderia ser facilmente de alguma banda indie atual, ou até mesmo “Woman”, nenhum verso passa sem uma mensagem a ser entregue. Os versos chicletes de “Woman”, que ficam em nossa cabeça e que cantamos despretensiosamente, nos lembram que Kesha não precisa de ninguém a não ser ela mesma para fazer toda essa mágica acontecer.

Ainda que sob o selo da Kemosabe Records, temos em nossas mãos o melhor trabalho de Kesha até hoje, que merece respeito não só empaticamente, mas merece por um trabalho denso e honesto. Ela está de volta e pronta para nos mostrar a artista que ela sempre foi, e que infelizmente só hoje tivemos a oportunidade de conhecer.

Que lindo arco-íris após um período de tempestades violentas e cinzas.

6 g

4)
Silver Eye
(Goldfrapp)
Duração: 31 de março
Selo: Mute
Produção: Leo Abrahams, John Congleton, Goldfrapp, The Haxan Cloak
Duração: 44m49s

por Maurício Sobrinho

O sétimo álbum de inéditas dos britânicos do Goldfrapp é exatamente o que o alternativo precisava. O sucessor do Tales Of Us (2013) não é apenas um ótimo álbum, mas sim uma obra necessária. Em uma época em que os artistas anteriormente dito alternativos se recuam em produções mais radiofônicas, é reconfortante ouvir os vocais alongados e sussurrados de Alison.

Com o lançamento do lead single “Anymore” (abaixo) já ficou claro que a dupla não voltaria com a sonoridade obscura do Tales Of Us, mas que sim mais uma vez se reinventaria, fazendo que a curiosidade em torno do Silver Eye crescesse ainda mais.

O disco soa como algo novo, porém ainda encontramos elementos dos trabalhos anteriores, como em “Moon In Your Mouth” e “Faux Suede Drifter”, que, ouvidas de os olhos fechados, nos proporcionam a sensação de pertencer à outra dimensão, algo muito presente, por exemplo, no Seventh Tree (2008).

Em conjunto com um time de produtores, o álbum traz surpresas deliciosas e até, diga-se de passagem, animadas - como em “Systemagic”, que de modo despretensioso e crescente te convida a dançar e se entregar ao poderoso jogo de sintetizadores cuidadosamente alinhados à voz devidamente colocada de Alison. As poderosas “Everything Is Never Enough” e “Become The One” são as provas de que esse casamento com os sintetizadores deu certo.

O álbum não comete erros e não peca por excesso, o que pode soar pretensioso - porém, parece que o Goldfrapp sabia exatamente o que queria nos entregar. O álbum surpreende, faz dançar, pensar e se entregar. Era de um álbum alternativo e bem construído assim que a cena precisava em 2017. E se o hiato até o próximo álbum for de mais 4 longos anos, certamente vai valer a pena, pois os britânicos voltarão com algo tão bom e milimetricamente bem construído quanto o Silver Eye.

3 s

3)
Process
(Sampha)
Lançamento: 03 de fevereiro
Selo: Young Turks
Produção: Sampha, Rodaidh Mcdonald
Duração: 40m17s

por Nathalia Nasser

Conhecer o talento e a profundidade de Sampha Sisay foi um processo feito pela indústria fonográfica em doses homeopáticas. Suas colaborações pontuais com Solange, Kanye West e Frank Ocean trouxeram à tona uma estrela ascendente. Ao lado dos grandes, o londrino de 29 anos se mostrou tão gigante quanto. Em seu álbum de estreia, Sampha não deixa dúvidas da sua grandeza. Produzido por Rodaidh McDonald (The XX, Adele, Daughter, Vampire Weekend), Process se revela maduro e sofisticado.

Das composições que atingem o âmago da sensibilidade, “No Ones Knows Me (Like The Piano)” (abaixo), através de uma delicadeza notável e diálogo íntimo entre o compositor e o piano, traz à tona a dor de Sisay ao perder sua mãe para a volta de um câncer repentino. Com polidez, Sampha se debruça em versos doloridos ao lembrar da sua infância e seu primeiro contato com o piano, e atravessa o tempo para 20 anos depois, ao voltar pra sua cidade natal. Em “Kora Sings”, mais uma vez a perda é colocada com um timbre gentil e melodia agradável. Sisay dialoga quase sozinho: “You’ve been with me since the craddle, you’ve been with me, you’re my angel, please don’t you disappear” (“Você esteve comigo desde o berço, você esteve comigo, você é o meu anjo, por favor, não desapareça”). A quebra vem na faixa seguinte, “Take Me Inside”, uma grande produção nos efeitos vocais.

O álbum como obra completa traça o mesmo caminho de “No Ones Knows Me”: uma trilha oriunda de um lugar reflexivo e sentimental vivida por um jovem que lida ainda com uma perda dolorida. Na primeira e última faixas do álbum, os problemas de saúde familiares são o gás de composição e performance. A abertura do álbum, com “Plastic 100ºC”, Sampha revela um susto de saúde envolvendo o crescimento de um nódulo na garganta: “Sleeping with my worries/ I didn’t really know what that lump was” (“Dormindo com as minhas preocupações/ Eu não sabia o que aquele nódulo era”).  Ao fim, em “What Shouldn’t I Be?”, há um espectro de relação consigo mesmo que discorre o impacto das suas relações familiares ao mencionar seu irmão, que sofreu de um sério derrame.

Ao lado de uma produção primorosa, “Incomplete Kisses” traz falsetes impecáveis e detalhes sombrios sobre sua convivência familiar, situada quase em inércia: “In this house, we’re sinking but we’re far too numb to care” (“Nessa casa estamos afundando, mas estamos anestesiados demais para nos importarmos”).

Blood On Me”, segundo e aclamado single do disco, é escrito como uma cena de filme. No refrão, a respiração forte de Sisay não vem por erro ou falta de cuidado, ele entrou em sua narrativa: Sisay perdeu o fôlego durante as gravações. “Eu estava genuinamente sem ar ao cantar essa música. Fiz de tudo para me sentir genuinamente dentro da situação que criei para ela”, disse em entrevista.

O disco é performado a nível catártico, atingindo um drama e sensibilidade dificilmente vistos em narrações atuais. Os versos delicados (tanto quanto doloridos) de Process são a revelação perfeita e clara de dores e traumas. “Under” é uma equação perfeita: um refrão delicioso e densidade na amostra dos vocais, coro e sintetizadores - uma aula de produção e voz.

Process pode ter sido a primeira aparição perfeita de Sampha em sua totalidade: uma soma de sensibilidade, vocais notáveis e impecáveis, uma produção sofisticada e uma performance de peso. Embora a construção de Process seja absolutamente não-comercial, o primeiro tiro na indústria fonográfica foi muito bem mirado para a criação e crescimento de uma grandiosíssima estrela improvável.

2 kl

2)
DAMN.
(Kendrick Lamar)
Lançamento: 14 de abril
Selo: Top Dawg/Aftermath/Interscope
Produção: Top Dawg, Dr. Dre, 9th Wonder, The Alchemist, Bekon, BadBadNotGood, Cardo, DJ Dahi, Greg Kurstin, James Blake, Kuk Harrell, Mike Will Made It, Mike Hector, Pluss, Ricci Riera, Sounwave, Steve Lacy, Terrace Martin, Tae Beast, Teddy Walton, Yung Exclusive
Duração: 54m54s

por Andressa Cruz

O hip-hop ao longo de sua história teve diversas vozes que transformaram o gênero, a música e até a sociedade. Kendrick Lamar é uma dessas vozes e To Pimp a Butterfly o consolidou como um artista que dialoga com o movimento negro, tornando "Alright" um hino durante protestos do Black Lives Matter, em 2016. O contexto social mais os dois grandes álbuns anteriores de Kendrick nos fez perguntar “o que virá depois de To Pimp a Butterfly?”.

A resposta foi DAMN., seu quarto álbum de estúdio, lançado em abril de 2017 após o single promocional “The Heart Part 4”. Se “ser ou não ser, eis a questão” é uma dúvida que permeia Hamlet, em DAMN., K-Dot nos pergunta “Is it wickedness? Is it weakness?” (É maldade? É fraqueza?) em “BLOOD.”, primeira faixa do disco, e introduz as duas forças principais do álbum.

A música serve como entrada na narrativa do álbum, onde somos convidados a decidir entre uma dessas forças que estão dentro dele, mostrando a dualidade como artista e ser humano. DAMN. é, sem dúvidas, o trabalho mais íntimo feito por ele. “BLOOD.” ainda traz um sample de um noticiário da FOX News, onde o jornalista faz uma crítica à apresentação de Lamar no BET Awards 2016, dizendo que não gostou de como o rapper rima sobre a violência policial contra os negros norte-americanos.

O antagonismo continua a percorrer as faixas: “PRIDE.” (Orgulho) & “HUMBLE.” (Humilde) (ouça abaixo) ou “LOVE.” (Amor) & “LUST.” (Luxúria). Todas os nomes tem uma única palavra que estão ligadas de alguma forma. A simplicidade apresentada nos títulos também está presente nas batidas das faixas. Em To Pimp A Butterfly, Kendrick experimentava e flertava com blues, soul, funk e jazz; em DAMN. ele aposta no bom e velho arroz e feijão do hip-hop. Se a sonoridade parece simples, as rimas carregadas de significados mostram que o equilíbrio é a chave para um disco memorável.

O álbum ainda traz participações de grandes artistas da música, como o U2, em “XXX.”; e Rihanna, na comercial “LOYALTY.”, faixa que contém sample de “24K Magic”, de Bruno Mars. Ao longo da obra, Kendrick Lamar não busca encontrar uma resposta sobre qual lado é certo ou errado, ele nos apresenta o equilíbrio como melhor saída.

No fim de 2017, o rapper divulgou o Damn. Collectors. Edition. e mostrou o seu trabalho sob uma nova perspectiva: as músicas estão em ordem oposta, o que resultou em um novo disco, com outros significados e simbologias. Se na versão oficial, DAMN. começa com a morte de Lamar em “BLOOD.”, nesta versão, o álbum acaba com sua morte na mesma faixa. Isso tudo reforçando a dualidade que o disco trouxe aos nossos ouvidos: o antagonismo está presente em tudo na nossa vida e dentro de nós mesmos.

O projeto de Kendrick Lamar tornou-se o disco de hip-hop mais aclamado do ano, levando o megafone de Melhor Álbum de Rap. Antes de DAMN. nós nos perguntávamos o que viria depois de To Pimp A Butterfly, agora nós nos perguntamos: quando Kendrick Lamar irá ganhar (finalmente) o Grammy de Melhor Álbum do Ano?

1 l

1)
Melodrama
(Lorde)
Lançamento: 16 de junho
Selo: Lava/Republic
Produção: Lorde, Jack Antonoff, Jean-Benoît Dunckel, Flume, Frank Dukes, Kuk Harrell, Joel Little, Malay, S1, Andrew Wyatt
Duração: 40m58s

por Nathalia Nasser

Um coração quebrado e o afogamento na imensidão complexa da vida adulta podem ser a soma perfeita para resultar em uma obra-prima. Ella não deixou detalhe algum para trás na construção minuciosa e lustrosa de seu segundo álbum, que presenteia o mundo pop e permite que ele embale e os anos dançantes da cantora.

Inocente o lado do universo pop que esperou mais do mesmo ou, na melhor das hipóteses, uma evolução de Pure Heroine, disco de estreia da neozelandesa. Ao lado do grandioso Jack Antonoff (fun. e Bleachers), que produz o álbum com maestria, Lorde aprimorou suas composições junto a Joel Little, velho conhecido e parceiro nas letras de Pure Heroine.

Referida por Bowie como ‘the future of music’, Ella viaja por batidas nada óbvias até nos momentos mais previsíveis do álbum, como a faixa-chefe e primeiro single, “Green Light” (abaixo), que abdica de rimas e comprova, mais uma vez, a força da sinestesia de Lorde nas suas composições e produções.

Lorde envolve o ouvinte em uma montanha-russa vivida por todo e qualquer jovem adulto minimamente intenso. O Melodrama faz enxergar o profundo poço que é o fim de um primeiro grande amor com “Writer In The Dark”, que melancoliza na medida perfeita voz, piano e atraso na quase-fala rouca das bridges da balada. Com versos machucados, Ella agoniza o antigo amor: “But in my darkest hours/I stumbled on a secret power/I’ll find a way to be without you, babe” (“Na minha hora mais sombria/ Eu tropecei em um poder secreto/ Eu vou encontrar uma forma de continuar sem você, querido”). Em “Liability”, momento íntimo e pessoal, é quase invasivo que o ouvinte esteja em contato com tamanha insegurança e fragilidade expostas em forma de letra e melodia.

No outro extremo, o álbum se tele transporta para canções galácticas como “Supercut” - um dos destaques de produção do disco - e celebra momentos de efervescência jovem com “Homemade Dynamite” (não à toa que o remix da faixa seja com três dos mais jovens artistas da música atual, todos com menos de 22 anos; e seja composta em parceria com a sueca party-person Tove Lo). Aqui, Ella ironiza a superficialidade de relações que se limitam a uma só noite e, no melhor dos mundos, é capaz de gozar do momento.

A habilidade de Lorde em surpreender fica evidente e indiscutível em “Hard Feelings/Loveless”, faixa subestimada quando se olha para o Melodrama como obra. O trecho “Guess this is the winter/ Our bodies are young and blue” (“Parece que  é o inverno/ Nossos corpos são jovens e azuis”) é uma conexão quase perfeita com a capa do álbum, interpretação artística de Sam McKinnis sobre o conceito que permeia o Melodrama. Talvez a composição mais sofisticada do álbum, a canção é dolorida e abre portas para uma citação do genioso Paul Simon no início de “Loveless”, faixa que se esconde atrás da grandeza de “Hard Feelings”.

Os dezoito meses que duraram o processo de composição e gravação resultaram em momentos de contato quase direto com o formato do Pure Heroine, como “Sober”, talvez o momento mais cru e sofisticado do álbum. Nesse momento, os instrumentos são escolhidos a dedo em cada centésimo de segundo. Antonoff sabe exatamente onde pontuar coral, baixo e instrumentos de sopro no crescente e envolvente refrão. A masterclass de produção combina por completo com a letra profunda que fala sobre um romance não dialogado: “Played it so nonchalant/ It’s time we dance with the truth” (“Fingimos fazer tudo casualmente/ Está na hora de dançarmos com a verdade”). A notável referência desse trecho com o momento lá atrás em que Ella cita, em “Team”, “dancing around with the lies we tell” (“dançando por aí com as mentiras que contamos”) é a evidência perfeita de evolução do seu debut album para o Melodrama.

Uma boa surpresa vem em forma de entrelaço de guitarras de new wave com a produção eletrônica de Flume em “The Louvre”, faixa sofisticada e lúdica em meio ao melodrama. “Sober II (Melodrama)” e “Liability (Reprise)” aparecem quase como um ponto para o nó final do álbum como obra, que se encerra em uma faixa que pode facilmente ser denominada como a equação perfeita do pop. “Perfect Places”, canção preferida de Lorde no disco, expressa em um momento as intermináveis noites de verão e os exercícios mentais que são a sobrevivência em festas constantes, enquanto ao mesmo tempo se desveste em confissões, como a dor da perda de ídolos como David Bowie e Prince, e a diversão entrelaçada com a tristeza de um sexo casual.

Para os ouvintes de primeira ou milésima viagem, o Melodrama permanece na mesma definição: uma viagem magistral.

7 de jan. de 2018

Review: Para Lady Bird, maturidade é sobre aceitação depois da rebeldia

bird

por Caio Coletti

O cinema já contou histórias de amadurecimento centenas, provavelmente milhares, de vezes. A fascinação artística sobre essa parte da vida em que encaramos pela primeira vez quem somos como adultos é natural tanto pela própria estrutura da narrativa dramática quanto pela sua dimensão humanitária. Por um lado, um personagem descobrindo a si mesmo é sempre um bom arco para se desenhar, e em nenhum momento da vida isso acontece de forma mais dramática do que na parte final da adolescência; por outro, em certo sentido o cinema como arte existe para que, através da história de outro, possamos nos ver, nos entender ou mesmo nos identificar, sem a necessidade de nos resolver. Quando passamos pelo processo de amadurecimento, dificilmente pensamos muito nele – é uma transição instintiva, bagunçada, imensurável por qualquer unidade compreensível. No cinema, podemos ver, de fora, o que aconteceu conosco, e entender melhor o que nos tornamos depois disso.

Lady Bird é o exemplo mais recente desse tipo de cinema de amadurecimento, mas é também uma obra absolutamente única dentro do sub-gênero. Mérito absoluto da diretora e roteirista Greta Gerwig – queridinha do cinema indie desde que apareceu em filmes como Hannah Sobe as Escadas (2006), Gerwig é uma roteirista de mão cheia. Seus trabalhos ao lado do namorado Noah Baumbach em Frances Ha (2012) e Mistress America (2015) refletem sobre o mito da autocriação a partir de um ponto de vista maduro, tragicômico, cheio de insight sobre a condição humana específica de uma geração de virada do milênio cujo sentimento de “não pertencer” a definiu por tanto tempo que, quando uma realidade mais complexa do que nunca bate à porta, não só é difícil encará-la como ainda mais complicado navegá-la sem ilusões, artifícios, ingenuidade. Em muitos e muitos sentidos, como na obra de qualquer grande artista, Lady Bird é uma continuação de todos esses temas.

O filme acompanha Christine (Saoirse Ronan), que prefere ser chamada de “Lady Bird” ao invés do nome dado a ela por seus pais. Ela navega seu último ano de escola entre paixonites, problemas acadêmicos e amizades inconstantes enquanto entra em confronto com a mãe, Marion (Laurie Metcalf) sobre sua escolha de faculdade – Lady Bird quer ir para Nova York, mas sua mãe acha que ela deve ficar por perto, em Sacramento (na costa oposta dos EUA). O roteiro de Gerwig é tão ferrenhamente dedicado a essa relação mãe-e-filha porque a história de Christine é, em seu cerne, sobre uma mulher fazendo às pazes com tudo o que tem em comum com uma mãe cujas ambições e cuja vivência, muito por esforço dela mesma, foram completamente diferentes das da filha. Há outros aspectos na vida de Christine que flutuam por Lady Bird, o filme, mas Gerwig nunca perde de vista essa dimensão que considera fundamental do amadurecimento.

Esse é um filme sobre a aceitação após a rebeldia. Sobre perceber que nem sempre podemos decidir por nós mesmos o que somos, que muito de nossa personalidade, nossa psicologia, nossa apresentação externa e elaboração interna, tem a ver com coisas sobre as quais não temos qualquer controle: quem são nossos pais, onde nascemos, onde estudamos, de quem nos aproximamos no ambiente social inclemente da escola, por quem nos apaixonamos na adolescência… Por isso a sutileza na performance de Ronan, que até hoje encarnou personagens mais expressivas em filmes mais obviamente emocionais – não é menos genial sua contenção aqui, sua construção cuidadosa de uma jovem confusa, impetuosa, irada com o mundo. Embora muito mais cômica, sua performance completa a de Timothée Chalamet em Me Chame Pelo Seu Nome para criar um retrato muito fiel e vívido da adolescência no cinema de 2017. Ambos, no final de seus filmes, demonstram emoção colossal que até então havia permanecido trancada com força por baixo de gestos e expressões de frustração.

Ronan encontra uma parceira de cena mais do que valiosa em Laurie Metcalf. A veterana do teatro e da TV (onde ganhou três Emmys seguidos pela sitcom Roseanne) constrói uma mãe com as características de sacrifício altruísta que costumamos ver nessas personagens da ficção, mas também consegue incutir no filme a noção de uma mulher de personalidade forte, humor afiado e amargo, orgulho ferido. Nas cenas mais intensas do filme, seu comportamento é tão reconhecível nos mínimos detalhes para qualquer espectador quanto é único dela. Tecnicamente, Lady Bird pega a dica de suas atrizes. É um filme criado com um esmero discreto, que deixa a história brilhar acima de elaborações fotográficas, musicais ou de encenação mirabolantes – só o design de produção ganha destaque, na criação dos ambientes domésticos de classes diferentes nos quais se passam a história.

Como diretora, Gerwig consegue se manter fora do caminho do próprio roteiro, o que é uma virtude e tanto por si só – especialmente porque estamos falando de uma das roteiristas mais essenciais da nossa década de produção cinematográfica.

✰✰✰✰✰ (5/5)

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Lady Bird: A Hora de Voar (Lady Bird, EUA, 2017)
Direção e roteiro: Greta Gerwig
Elenco: Saoirse Ronan, Laurie Metcalf, Tracy Letts, Lucas Hedges, Timothée Chalamet, Beanie Feldstein, Lois Smith, Odeya Rush
94 minutos

6 de jan. de 2018

Review: Me Chame Pelo Seu Nome é o casamento perfeito entre rigor e caos

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por Caio Coletti

Não há nada fora do lugar em Me Chame Pelo Seu Nome. Nenhuma decisão parece instintiva – pelo contrário, na Itália ensolarada de Luca Guadagnino, tudo é calculado. Há um rigor e uma exatidão com a qual o cineasta guia até as cenas que parecem mais casuais, e isso casa elegantemente com os diálogos impossivelmente maduros e articulados do roteiro de James Ivory, que não abandona aqui o estilo classicista, esbanjando oralidade, que rendeu filmes como Vestígios do Dia e Retorno a Howards End nos anos 1990. E, no entanto, Guadagnino nunca deixa que Me Chame Pelo Seu Nome seja um filme frio, ou que aliene o espectador com rigidez excessiva, deixando para trás seu conteúdo à flor da pele, seu ímpeto de juventude – esse ato de equilíbrio difícil é o que transforma o filme em um dos mais inesquecíveis pedaços de cinema do ano.

A princípio, o que salta aos olhos é a rigidez, já que Guadagnino marca o próprio movimento de seus atores com uma precisão impressionante. Na cena em que Elio (Timothée Chalamet) e Oliver (Armie Hammer) conversam perto de um monumento histórico, suas parábolas ao redor da área circular cercada que contem a estátua são coreografadas com a exatidão de um musical de Busby Berkeley, embora sem sua artificialidade – é aí que entra o visceral do filme. Em seu método quase matemático de cinema, Guadagnino conta com o espaço entre movimentos, falas, expressões e cenas para criar espontaneidade, tensão sexual, compaixão, conexão emocional, melancolia, carinho, amor fraternal e mais uma gama vívida de emoções que se escondem no roteiro de Ivory, mas precisavam de um cineasta curioso e corajoso o bastante para serem expressados em tela.

Na trama, Elio é o filho adolescente do professor Perlman (Michael Stuhlbarg), que traz para as férias de verão na Itália o novo estagiário, Oliver, que deve ajudá-lo em sua pesquisa. Elio e Oliver criam uma conexão complicada, que passa por identificações culturais (são ambos de famílias judias), uma inimizade bem humorada e um magnetismo sexual inegável. É uma trama de amadurecimento tanto quanto é um complicado conto moral sobre a exploração da sexualidade em um tempo como os anos 1980, mesmo no mais relaxado e liberal dos ambientes – as barreiras auto-impostas pelos dois protagonistas falam tão alto no roteiro de Ivory quanto a heterossexualidade compulsória que sabemos, por nosso próprio contexto social, que foi imposta a eles. Me Chame Pelo Seu Nome analisa as consequências devastadoras dessa obrigatoriedade pelo convencional, tanto na dinâmica de poder desequilibrada entre os dois amantes principais quanto no desfecho de seu caso amoroso.

Como Elio, Timothée Chalamet captura a volatilidade da adolescência com a compreensão e sabedoria que só poderiam vir de um ator que já passou por ela (o nova-iorquino está com 22 anos). Sua performance é constrangida e audaciosa na mesma medida, oscila entre arrogante e insegura em uma batida de coração, encontra ao mesmo tempo o orgulho e o medo dos próprios desejos carnais. Poucas vezes no cinema os 17 anos de um personagem foram expressados com tamanha combinação de compaixão e técnica. Enquanto isso, Armie Hammer captura até as sombras mais odiáveis de Oliver com a sede de um ator que esperava por esse personagem há muito tempo, Michael Stuhlbarg encarna uma das mais enigmáticas e versáteis figuras paternas do cinema recente, e Amira Casar faz maravilhas com uma atuação discreta em seu pouco tempo de tela como a mãe de Elio.

Para criar o mundo sensual, quase ofegante, do filme, Guadagnino conta com o diretor de fotografia tailandês Sayombhu Mukdeeprom, celebrado por seu trabalho na trilogia As Mil e Uma Noites, de Miguel Gomes, em 2015. Aqui, ele é o agente provocador que cria a atmosfera de cores fortes, composições ligeiramente fora do eixo esperado, exploração comedida, mas inegavelmente sexy, dos corpos em tela – é um trabalho caloroso que, junto com as performances do elenco, brilha pelas frestas de um filme minuciosamente pensado e executado, criando um amálgama irresistível que remete à arte greco-romana que Oliver e o professor Perlman analisam. Me Chame Pelo Seu Nome é um filme que busca a versão cinematográfica da beleza perfeita dos helênicos, mas está interessado demais nas rachaduras e pedaços quebrados dessa arte antiga, e disposto demais a colocar os corpos que retrata em posições distorcidas e incomuns, física e emocionalmente. É uma revolução cinematográfica que venera o padrão acadêmico – é uma grande história para todo mundo, mas, para quem ama cinema, é a tempestade perfeita.

✰✰✰✰✰ (5/5)

cmbyn

Me Chame Pelo Seu Nome (Call Me By Your Name, Itália/França/Brasil/EUA, 2017)
Direção: Luca Guadagnino
Roteiro: James Ivory, baseado no livro de André Aciman
Elenco: Timothée Chalamet, Armie Hammer, Michael Stuhlbarg, Amira Casar, Esther Garrel
132 minutos

Diário de filmes do mês: Dezembro/2017

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por Caio Coletti

Nem todos os filmes merecem (ou pedem) uma análise complexa como a que fazemos com alguns dos lançamentos mais “quentes” ou filmes que descobrimos e nos surpreendem positivamente. É levando em consideração a função da crítica e da resenha como uma orientação do público em relação ao que vai ser visto em determinado filme que eu resolvi criar essa coluna, que visa falar brevemente dos filmes que não ganharam review completo no site. Vamos lá:

dunkirk

Dunkirk (Inglaterra/Holanda/França/EUA, 2017)
Direção e roteiro: Christopher Nolan
Elenco: Fionn Whitehead, Mark Rylance, Kenneth Branagh, James D’Arcy, Barry Keoghan, Harry Styles, Aneurin Barnard, Tom Hardy, Cillian Murphy
106 minutos

Em muitos sentidos, Dunkirk é a prova cabal que Christopher Nolan não escuta (ou não lê) suas próprias críticas. Dilacerado frequentemente por não criar envolvimento emocional o bastante com seus personagens em meio a tramas cronológica e mecanicamente complicadas, Nolan escolheu abordar o gênero do filme de guerra de um ponto de vista mais visceral do que emocional. Dunkirk é uma bela história de solidariedade em meio a um conflito brutal, mas a trama criada por Nolan, dividida em várias frontes diferentes que se passam em tempos diversos, eventualmente se juntando no final, é um mecanismo imediatamente reconhecível e personalíssimo, que funciona com a exatidão de um relógio, e não o coração acelerado de filmes como O Resgate do Soldado Ryan ou Platoon, clássicos do gênero. Em pouco mais de 1h40, Nolan acompanha um soldado (Fionn Whitehead) preso na praia de Dunkirk com milhares de ouros, sendo constantemente atacados pelos alemães; um aviador (Tom Hardy) tentando impedir que os artilheiros nazistas sigam com o ataque na praia; um cidadão comum (Mark Rylance) voluntariando seu barco pessoal para resgatar soldados; e um comandante (Kenneth Branagh) tendo que tomar decisões difíceis para salvar seus comandados. Dunkirk define esses personagens em traços simples e bem definidos, e encara suas jornadas com o bom sendo de honrá-las e até celebrá-las, mas não se preocupa em realmente conhecê-los – o que não deixa de ser, inevitavelmente, um defeito.

Talvez por isso, apenas atores supremamente talentosos são bem sucedidos em envolver o público na jornada de seus personagens – no caso, Rylance e Hardy, que criam personas excêntricas e identificações imediatas com o público, mesmo sem a ajuda expressa do roteiro que interpretam. Já em outras dimensões técnicas, Dunkirk é, pura e simplesmente, perfeito. O infalível diretor de fotografia Hoyte Van Hoytema retira imagens inacreditáveis do épico árido de Nolan, capturando a grandiosidade da produção tanto quanto a beleza estranha que existe na brutalidade das condições que esses soldados precisam enfrentar. Hans Zimmer deixa os sintetizadores e órgãos de lado para criar uma trilha sonora urgente e essencial para manter o espectador ligado no filme, especialmente nos momentos em que as falhas do roteiro ficam mais visíveis (o relógio de Nolan nem sempre mostra a hora certa, afinal). O trabalho com o som do filme, além da edição de Lee Smith, criam uma costura inteligente e um ritmo eficiente a partir de um material original que vive e morre por essas duas coisas.

Dunkirk vai merecer a indicação a Melhor Filme que conquistará no Oscar 2018 – como cinema puro, é uma realização e tanto de excelência, e o trabalho indubitável de um dos autores mais reconhecíveis (e reconhecidos) da atualidade. Não mereceria, no entanto, se vencesse na categoria. Cinema, afinal, é mais do que técnica, e como contador de histórias Nolan ainda precisa refinar sua arte.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

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Valerian e a Cidade dos Mil Planetas (Valerian and the City of a Thousand Planets, França/China/Bélgica/Alemanha/EAU/EUA, 2017)
Direção: Luc Besson
Roteiro: Luc Besson, baseado nos quadrinhos de Pierre Christin, Jean-Claude Mézières
Elenco: Dane DeHaan, Cara Delevingne, Clive Owen, Rihanna, Ethan Hawke, Herbie Hancock, Rutger Hauer
137 minutos

Eu queria muito amar Valerian e a Cidade dos Mil Planetas. Com um financiamento curioso de filme indie (o diretor Besson recolheu o dinheiro para seu alto orçamento de quase 10 fontes e investidores diferentes), a proposta de ser baseado em uma história em quadrinhos clássica que se tornou referência admitida para sagas como Star Wars, e o espírito criativo de Luc Besson, Valerian era o tipo de blockbuster “zebra” pelo qual era fácil torcer. A realidade do filme não é tão diferente dessa expectativa, no final das contas – Valerian é mesmo um filme estonteantemente inventivo, curiosamente único, que joga o espectador de para-quedas em um universo desconhecido e complicado, além de uma relação cheia de particularidades entre seus protagonistas. É uma obra genuína de arte, porque reflete a sensibilidade de seu criador ao invés de se submeter à mesmice do arrasa-quarteirão hollywoodiano – é um longa bravamente europeu, pode se dizer. Não é um grande filme de ficção científica, no entanto. Tão magistral em sua manipulação de gênero quanto descuidado em sua confiança em arquétipos, Beeson constrói uma narrativa cansada dentro de seu mundo impressionantemente inovador, criando por exemplo (ainda que seja no instinto de fidelidade aos quadrinhos) uma relação adversária entre seus dois protagonistas para depois jogá-los nos braços um do outro, com a personagem feminina responsável por “ensinar” para o aventureiro mulherengo inveterado o significado do amor romântico.

Por falar no tal aventureiro, é surpreendente o charme de Dane DeHaan em um papel completamente oposto aos esquisitões e almofadinhas que normalmente interpreta no cinema. Impetuoso, beligerante e conquistador exatamente como o roteiro pede, ele é um Valerian perfeito para a história de Besson, que se concentra em um suposto ataque a uma estação espacial intergaláctica que une humanos, humanoides e diversas outras espécies de alienígenas. Cara Delevingne não é uma grande atriz (aliás, muito longe disso), mas a personagem carismática lhe serve melhor que, por exemplo, a vilã esquecível de Esquadrão Suicida; já Rihanna mostra mais uma vez que tem futuro como atriz se insistir o bastante e aprender o bastante com cada novo projeto.

No fim das contas, Valerian é uma “aventura old school”, como esses filmes gostam de se chamar nas campanhas de marketing, em todos os sentidos possíveis – ele remete a uma época em que o cinemão hollywoodiano de ficção científica se permitia mais inventividade e vibração, mas também a uma época em que elaborações simplórias e nocivas de roteiro eram o bastante para envolver a plateia. Seu gosto pelo filme é diametralmente proporcional ao seu desgosto pelo típico blockbuster atual, e seu incômodo por determinados elementos viciosos (ou virtuosos) dele.

✰✰✰✰ (3,5/5)

mud

Mudbound (EUA, 2017)
Direção: Dee Rees
Roteiro: Dee Rees, Virgil Williams, baseados no livro de Hillary Jordan
Elenco: Garrett Hedlund, Jason Mitchell, Carey Mulligan, Jason Clarke, Jonathan Banks, Rob Morgan, Mary J. Blige
134 minutos

Há algo de profundamente instintivo em Mudbound, terceiro longa metragem da diretora Dee Rees (Pariah, Bessie) – o cinema de Rees é naturalmente imbuído desse instinto, um tipo visceral de criatividade que conjura do ar uma sinergia com o espectador e com a história que vemos em tela. Em Mudbound, essa história compreende dois soldados (Garrett Hedlund e Jason Mitchell) que retornam da Segunda Guerra Mundial para o sul dos EUA, onde as tensões entre negros e brancos continuam em um clima pré-direitos civis. É um filme sobre a humilhação da servidão – e uso essa palavra porque é um filme que explora as indignidades que continuaram a acontecer mesmo após a abolição da escravatura – tanto quanto é sobre os mecanismos de sobrevivência em um tempo de opressões mais discretas do que costumavam ser. Em suma, é uma história que precisa ser ouvida na década em que nos encontramos, quando mitos e ilusões sobre nossa própria evolução social estão sendo derrubados por demonstrações horrendas de violência, preconceito e ressentimento. Em Mudbound, Dee Rees encara de frente um grupo de personagens a quem não se permite a completude, e corajosamente expõe as partes que eles escondem do mundo para sobreviver.

Em alguns momentos, o colossal material adaptado do livro de Hillary Jordan parece um pouco demais para Rees e sua câmera à flor da pele lidarem – mas, curiosamente, isso não se traduz em defeito ou em desleixo artístico. Ao invés disso, o senso de caos nos momentos em que a narrativa parece dois passos a frente da câmera de Rees cria um sentimento de urgência e uma noção da magnitude das mensagens e da força emocional do filme que não teríamos de outra forma – calculadamente ou não, Rees cria um filme perfeito ao não esconder as imperfeições de um trabalho hercúleo. O elenco brilha nessa mesma sintonia, em especial Jason Mitchell, Mary J. Blige e Carey Mulligan, que constroem personagens expressivos em suas próprias características – da Laura de Mulligan na fragilidade, a Florence de Blige na resiliência, e o Ronsel de Mitchell em seu refrescante senso de rebeldia e autonomia.

Mudbound não foge de seu final trágico, ou das consequências amargas dele. É um conto afiado como navalha, que Rees maneja ao lado de trabalhos sóbrios e belíssimos de trilha sonora (Tamar-Kali), fotografia (Rachel Morrison) e figurino (Michael T. Boyd). É um pedaço de cinema único e fundamental, que, como de costume, merece mais atenção do que vai receber das grandes premiações do ano.

✰✰✰✰✰ (5/5)

guerra

A Guerra dos Sexos (Battle of the Sexes, Inglaterra/EUA, 2017)
Direção: Jonathan Dayton, Valerie Faris
Roteiro: Simon Beaufoy
Elenco: Emma Stone, Steve Carell, Andrea Riseborough, Natalie Morales, Sarah Silverman, Bill Pullman, Alan Cumming, Elizabeth Shue, Eric Christian Olsen, Fred Armisen
121 minutos

Nunca é o bastante dizer o quanto os talentos de Jonathan Dayton e Valerie Faris como cineastas são subestimados por conta do tipo de filmes que eles fazem. Surgidos no cenário cinematográfico com o seminal (sim, seminal) Pequena Miss Sunshine, a dupla de diretores é dona de uma sensibilidade quieta e uma excelência e elegância que não sente a necessidade de se esfregar na cara do espectador o tempo todo. É o tipo de cinema que se torna cada vez menos apreciado em um cenário de Christopher Nolan’s e Darren Aronofsky’s (ambos indiscutivelmente talentosos), autores particularíssimos que jogam com cartas mais bombásticas, polêmicas ou extravagantes. O cinema excepcionalmente inteligente de Dayton & Faris, que sempre lida com questões sociais e interpessoais profundas e essenciais para a nossa época, passa largamente despercebido nesse ambiente da indústria, e A Guerra dos Sexos é mais um exemplo perfeito de que isso não pode continuar acontecendo. Como cinema, o longa toma todas as decisões corretas, criando um produto que não é só “redondinho” ou “acadêmico” (em alguns sentidos, nem mesmo é essas coisas), mas sutil, eficaz e envolvente, que demonstra expertise em deixar o espectador imergir no mundo construído por ele.

A trama aborda o confronto real entre Billie Jean King (Emma Stone) e Bobby Riggs (Steve Carell) – ela, número um do mundo entre as mulheres; ele, um tenista aposentado que também havia sido número 1, e que para manter a relevância na mídia resolveu desafiar “qualquer jogadora do circuito feminino” para um confronto. A vitória histórica de Billie Jean não é, como muitos críticos da partida apontam até hoje, sobre mulheres serem superiores em força ou técnica aos homens do tênis – mas sim sobre sua luta simbólica (por respeito) e concreta (por pagamento igualitário) dentro do esporte. O roteiro de Simon Beaufoy comunica isso de forma exemplar, uma mensagem elaborada nos detalhes e entrelinhas das interações de King e Riggs, da construção de personagem dele, dos pormenores da vida pessoal dela, que explorava sua sexualidade na época. É um trabalho completo e inteligente de roteiro, que desenha personagens sólidos e os conduz pela história real que retrata com o equilíbrio certo de verdade e ficção.

Emma Stone e Steve Carell abrilhantam um filme que não carece de brilho. Stone está melhor aqui do que em sua performance oscarizada em La La Land, um mérito para sua atuação aqui, e não um demérito para sua atuação lá – estruturando uma personagem única dentro de seus maneirismos usuais, Stone encontra o tom subliminar certo para expressar a rebeldia de Billie Jean, e toma posse de uma cena perto do final do filme em que vemos a jogadora sozinha, em seu vestiário, para se comunicar com o espectador através de um carisma inacreditável. Essa não é a escolha de papel mais convencional para quem acabou de vencer um Oscar pela ingénue do musical moderno mais academicamente bem-sucedido de Hollywood, e esse desafio à convenção sem dúvida é algo que faz a Billie Jean King de verdade sorrir quando assiste A Guerra dos Sexos.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

bingo

Bingo: O Rei das Manhãs (Brasil, 2017)
Direção: Daniel Rezende
Roteiro: Luiz Bolognesi, Fabio Meira
Elenco: Vladimir Brichta, Leandra leal, Tainá Muller, Ana Lúcia Torre, Pedro Bial, Domingo Montagner
113 minutos

Em sua dimensão mais fundamental, Bingo: O Rei das Manhãs é sobre o ofício muito particular de um ator. Na pele de Augusto Mendes, Vladimir Brichta entende que interpreta um ator cujo talento mais essencial é encontrar a veia do inconsciente coletivo que corre pela cultura popular em seu momento histórico específico. O exercício de relaxamento de Mendes, que vemos em vários momentos do filme antes dele entrar em cena, é simbólico – ele se desprende das tensões de sua vida diária para entrar em contato com algo mais profundo, uma habilidade iconoclasta que é marca de muitos (se não todos os) grandes atores. Vale começar dizendo que, nesse sentido, Brichta é o motivo pelo qual o filme de Daniel Rezende alça voo ao invés de se estatelar no chão – o intérprete conjura novidade dos detalhes de uma jornada de ascensão e queda que já foi contada centenas de vezes no cinema. É uma performance que merece a mal utilizada classificação de tour de force mais do que qualquer outra desse ano, porque a intensidade do ator é o que carrega Bingo para além de sua excelência técnica, em direção de uma conversa mais profunda e transformadora com o espectador.

Vale dizer, também, que a tal “veia do inconsciente coletivo” que Mendes, o ator de pornochanchadas que virtualmente cria o papel do palhaço mais popular das manhãs da TV brasileira (o filme é uma versão disfarçada da história de Arlindo Barreto, o primeiro Bozo), consegue acessar na pele de seu novo personagem é uma de rebeldia “sacana”, incorreção política e “malandragem” que virou sinônimo com o espírito brasileiro – para o bem ou (mais provavelmente) para o mal. A grande virtude do roteiro de Luiz Bolognesi e Fabio Meira talvez seja não fugir desse detalhe importante de sua história, moldando tanto o protagonista quanto a trama para sublinhar o clima pós-ditadura militar que recriou o gosto pela subversão de autoridade no público brasileiro. Uma pena que esse mesmo espírito de subversão não toque os próprios roteiristas, que se acomodam a padrões familiares, por exemplo, na construção das personagens femininas e no retrato hedonista dos excessos de seu protagonista.

Bingo compensa essa falha com uma excelência técnica que simboliza a potencialidade do cinema brasileiro. Rezende, editor de mão cheia que até ao Oscar foi indicado (por Cidade de Deus), estreia na direção com o faro e a ousadia de um profissional experiente – cheio de cenas de delírio e interlúdios banhados em neon e espírito de galhofa, Bingo é belamente encenado, com uma direção de arte (Cassio Amarante) certeira e grandiosa, uma versátil e impressionista fotografia (Lula Carvalho) e uma edição sintonizada com o clima do filme (Marcio Hashimoto). Por mais um ano, o cinema brasileiro impressiona ao produzir histórias distintamente nacionais com uma sensibilidade igualmente nossa, e a excelência artística implacável que aprendemos a esperar.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

tonya

Eu, Tonya (I, Tonya, EUA, 2017)
Direção: Craig Gillespie
Roteiro: Steven Rogers
Elenco: Margot Robbie, Sebastian Stan, Allison Janney, Julianne Nicholson, Paul Walter Hauser, Bobby Cannavale
119 minutos

O diretor Craig Gillespie e o roteirista Steven Rogers pouco tem a ver com a inovação óbvia de Eu, Tonya e a eficiente mistura de gêneros que o filme cria – ou melhor, apesar de suas melhores tentativas (e não são trabalhos ruins, de nenhum dos dois), não são eles que fazem o trabalho pesado na criação dessa excêntrica comédia de humor negro que encontra surpreendente pungência em sua história sobre fama, abuso e a natureza da verdade. Ao invés disso, o grosso do trabalho fica com a editora Tatiana S. Riegel, que injeta um ritmo particular ao filme de Gillespie, intercalando suas longas e vertiginosas tomadas acompanhando os personagens com recursos como a câmera lenta, o corte abrupto para ângulos curiosos (muito bem escolhidos pelo cinematógrafo Nicolas Karakatsanis), a mistura em dose certa de narração em off com entrevistas diretamente para a câmera e quebras da quarta parede. Aperfeiçoando o roteiro já afiado de Rogers e injetando personalidade na direção já competente de Gillespie, Riegel é argumentadamente a grande autora de Eu, Tonya, e é delicioso ver uma editora no topo de suas habilidades costurando um filme marcante e notável a partir de materiais brutos promissores, mas nunca excepcionais.

Eu, Tonya é a história real de Tonya Harding (Margot Robbie), patinadora de talento excepcional que ficou infame pelo ataque a uma competidora, Nancy Kerrigan, pouco antes das Olimpíadas de Inverno de 1994. O filme é contado de diversos pontos de vista, montando uma comédia de erros e enganações estúpidas em torno de Tonya, seu marido Jeff Gillooly (Sebastian Stan), sua mãe Lavona (Allison Janney) e seu guarda-costas, Shawn (Paul Walter Hauser). A complicada e contraditória “versão dos fatos” dada por cada um deles, e por alguns outros personagens nessa história, é parte da brincadeira – Eu, Tonya é em parte sobre a forma como a celebridade, o próprio ato de contar (e recontar, e recontar, e recontar) uma história é capaz de mudá-la para muito além de qualquer semelhança com a verdade.

Uma Margot Robbie vibrante emerge como Tonya, elaborando suas emoções complexas em cenas que exploram sua expressividade como nenhum outro papel de sua carreira até agora - mas, muito especialmente, Robbie é excelente em expressar a fúria ressentida que define a Tonya do filme. Fúria pelo seu tratamento no esporte que “escolheu”, furia que é reação direta ao abuso sofrido na infância e na vida adulta, mas também fúria que a compele em uma cruzada que um olhar contemporâneo à história de Tonya sem dúvida julga como justa. É a mesma fúria que Janney brilhantemente esconde em sua Lavona, sublimada por baixo de décadas de decepções e de “fazer o que é preciso” para sobreviver. Em última instância, Eu, Tonya, por baixo do humor caricato, mostra duas das mulheres mais reais e completas do cinema em 2017 – só por isso, já merece ser assistido.

✰✰✰✰ (4/5)

24 de dez. de 2017

Review: Star Wars finalmente consegue unir o político e o pessoal em Os Últimos Jedi

jedi

por Caio Coletti

Quando uma história é contada no decorrer de 40 anos de cinema, é óbvio que diferenças sociais serão sentidas na forma como ela é recebida pelo público, e as expectativas desse público, agora multi-geracional, se tornarão cada vez mais discrepantes e impossíveis de manejar. Para a minha geração, que cresceu nos anos 1990 e 2000 com os prelúdios de George Lucas e, só depois, foi conhecer os filmes que os precederam, Star Wars sempre foi sobre política. Em muitos sentidos, ela sempre foi mesmo – vendo os filmes originais, dos anos 1970 e 1980, hoje em dia, fica óbvio que a ambição de Lucas era criar um épico que homenageava aventuras clássicas da ficção, mas que no meio do caminho ele topou com uma narrativa poderosa sobre autoritarismo e as formas de se rebelar contra ele.

Carregar Star Wars para o cinemão moderno e transformá-la em uma saga de nove longas metragens significava então, inevitavelmente, adicionar complexidade a essa reflexão política. O problema da trilogia dos anos 2000 de Lucas é que, na busca por essa complexidade, ele esqueceu de encontrar arcos de personagens emocionais que fizessem o espectador se engajar na trama – e o problema de O Despertar da Força e Rogue One, por suas vezes, era uma confiança muito grande nesse envolvimento emocional, enquanto detalhes e implicações políticas eram deixadas de lado. Em suma, para sobreviver aos próximos 40 anos, Star Wars precisava, tal e qual a Força de sua mitologia, encontrar o equilíbrio entre o lado sombrio (o de reflexão social) e o lado benévolo (o investimento emotivo) de sua história – e Os Últimos Jedi é o filme perfeito para isso.

Na trama, acompanhamos a continuação da luta contra a Primeira Ordem, mas o roteirista e diretor Rian Johnson consegue distingui-la, finalmente, da luta contra o “vilão” da trilogia clássica, o Império. Johnson empresta um toque de decadência e mesquinhez ao mal da Primeira Ordem que não existia nas imponentes forças imperiais, criando um mal muito mais banal e crível, em pleno século XXI, do que aquele clássico terror maniqueísta do cinemão americano. O cineasta se separa dos filmes clássicos também ao emprestar um pouco do cinismo de Lucas quanto aos ensinamentos Jedi e sua validade como instituição – na pele de um Luke (Mark Hamill) iludido, que se recusa a passar sabedoria para uma aprendiz (a Rey de Daisy Ridley) por achar que os Jedi precisam morrer com ele, o novo Star Wars tem a audácia de contestar os métodos, regulamentos e atitudes de seus supostos mocinhos.

A diferença da contestação que vemos aqui para aquela que vimos em A Ameaça Fantasma, O Ataque dos Clones ou A Vingança dos Sith é que Johnson a firma no desenvolvimento dos personagens, e não a despeito deles. Enquanto Rey tenta convencer Luke a ajudar a Resistência liderada por sua irmã, Leia, ela também se comunica com Kylo Ren (Adam Driver), o ostentoso vilão da trilogia, um homem torturado e em crise de identidade, cujas reservas amplas de fúria e ressentimento indicam muito mais uma alma perdida do que um mal absoluto. Quando Ren quebra sua máscara no começo de Os Últimos Jedi, Johnson sinaliza que sua redenção, se um dia vier, terá que vir de cara limpa, e não com uma revelação de fragilidade por baixo de um símbolo maligno, como aconteceu com Darth Vader. O filme representa uma Star Wars com história mais direta, despida de recursos mitológicos ou simbólicos.

Johnson é um grande contador de histórias que encontra rimas visuais e referências brilhantes para construir seu filme. Ao lado do diretor de fotografia Steve Yedlin, seu parceiro de longa data, o cineasta é incansável ao buscar significados em cores, formas e movimentos – seja na aproximação lenta da câmera em direção ao “buraco negro” onde Rey conhece o poder do Lado Escuro da Força ou na abundância de vermelho nas cenas de ação do final do filme, imagens nunca significaram tanto para Star Wars quanto em Os Últimos Jedi. Inspirado por um filme de complexidades e emoções à flor da pele, John Williams cria sua trilha mais genial em muitos anos, evocando emoções complicadas e trazendo à tona sons inesperados para colorir uma história já ricamente desenhada por Johnson.

Por fim, há também o poder que Os Últimos Jedi dispensa às suas personagens femininas, que por décadas passaram os filmes de Star Wars amargando papéis coadjuvantes em relação aos homens – se não fosse a marca própria de humor e personalidade de Carrie Fisher, quão revolucionária seria a Princesa Leia, como escrita no roteiro, no primeiro Star Wars? Aqui, as decisões de liderança que elas precisam tomar são monumentais, e as consequências delas ainda maiores – elas são forças que afetam a jornada dos homens ao redor delas, mas também personagens vívidas e autônomas, com arcos próprios e edificantes. Em certa cena, Leia e Holdo (Laura Dern) tentam dizer, ao mesmo tempo, a frase clássica da série: “Que a Força esteja com você”. Parando na metade, Leia ri da forma como apenas Carrie Fisher era capaz de rir, e faz concessão à amiga: “Eu já disse isso o bastante”. Temos que discordar, Leia – não ouvimos sua voz o bastante desde o começo de Star Wars, lá em 1977. Nem perto disso.

✰✰✰✰✰ (5/5)

jedi

Star Wars: Os Últimos Jedi (Star Wars: The Last Jedi, EUA, 2017)
Direção e roteiro: Rian Johnson
Elenco: Mark Hamill, Carrie Fisher, Adam Driver, Daisy Ridley, John Boyega, Oscar Isaac, Andy Serkis, Lupita Nyong’o, Domhnall Gleeson, Anthony Daniels, Gwendoline Christie, Kelly Marie Tran, Laura Dern, Benicio Del Toro, Frank Oz, Billie Lourd
152 minutos

10 de dez. de 2017

Diário de filmes do mês: Novembro/2017

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por Caio Coletti

Nem todos os filmes merecem (ou pedem) uma análise complexa como a que fazemos com alguns dos lançamentos mais “quentes” ou filmes que descobrimos e nos surpreendem positivamente. É levando em consideração a função da crítica e da resenha como uma orientação do público em relação ao que vai ser visto em determinado filme que eu resolvi criar essa coluna, que visa falar brevemente dos filmes que não ganharam review completo no site. Vamos lá:

atomic

Atômica (Atomic Blonde, Alemanha/Suécia/EUA, 2017)
Direção: David Leitch
Roteiro: Kurt Johnstad, baseado nos quadrinhos de Anthony Johnson & Sam Hart
Elenco: Charlize Theron, James McAvoy, Eddie Marsan, John Goodman, Toby Jones, James Faulkner, Sofia Boutella, Bill Skarsgard, Til Schweiger
115 minutos

Atômica começa com Charlize Theron mergulhada em uma banheira de gelo, nua. A câmera do diretor David Leitch, no entanto, não filma a cena iluminada por neon de forma sensual, mas passa seu tempo focando nos enormes hematomas nas costas de Theron, que interpreta a espiã Lorraine Broughton, enviada à Berlim dias antes da queda do muro, em plena Guerra Fria, para recuperar uma lista roubada de agentes secretos e seus nomes reais. Os próximos 115 minutos são passados explicando porque Lorraine acabou indo parar nessa banheira de gelo, com esses hematomas – e Theron faz valer o outlook nada sensual do diretor Leitch ao construir uma anti heroína misteriosa, brutal, imparável, perenemente surpreendente. Com a desonrosa exceção da cena de sexo desnecessária entre Lorraine e Delphine (Sofia Boutella), inserida no roteiro puramente para permitir a fetichização de um relacionamento lésbico, Atômica entrega uma protagonista feminina complexa e naturalmente icônica, que sempre joga no mesmo nível (ou acima) dos homens que a cercam. O oxigênio do filme é a performance física e emocional de Theron, que rouba a cena até da ambientação oitentista espetacularmente construída pelo diretor Leitch.

A direção de arte decadente, cheia de paredes descascadas, coberturas ímpias de arranha-céus, e muito neon (designer de produção: David Scheunemann); a música propulsiva escolhida pelo supervisor John Houlihan (há uma cena de ação ao som de “Major Tom”, de Peter Schilling, que é uma combinação de arrepiar) e, em suas intervenções originais, composta por Tyler Bates; o figurino de Cindy Evans e o trabalho da equipe de cabelo e maquiagem, apresentando visuais icônicos da época sem serem óbvios ou “certinhos” demais, sofisticados demais para a situação. Atômica é um tremendo feito de produção. que revela Leitch não só como um grande diretor de ação (o que já sabíamos, graças a John Wick), mas um cineasta detalhista e elegante. Resta aguardar o refinamento desse talento nos próximos longas metragens de seu currículo.

✰✰✰✰ (4/5)

gerald

Jogo Perigoso (Gerald’s Game, EUA, 2017)
Direção: Mike Flanagan
Roteiro: Mike Flanagan, Jeff Howard, baseados no livro de Stephen King
Elenco: Carla Gugino, Bruce Greenwood, Chiara Aurelia, Carel Struycken, Henry Thomas, Kate Siegel
103 minutos

A junção do diretor Mike Flanagan com o escritor Stephen King faz muito sentido – em seus poucos filmes até agora, Flanagan demonstrou um refinamento sem precedentes para brincar com as convenções do gênero de horror, e King sempre casou essa mesma habilidade com um olhar cirúrgico sobre a condição humana e alguns dos temas mais importantes da nossa sociedade. A perspectiva de ver Flanagan brincando com uma das histórias em que o princípio de King de que “o verdadeiro monstro é o ser humano” mais se aplica era excitante, e o resultado – esse Jogo Perigoso, lançado pela Netflix – corresponde às expectativas. É um terror de sobrevivência obviamente tenso, mas surpreendentemente denso, examinando profundamente o passado de sua protagonista e como ele afetou decisões que ela tomou no seu presente. A trama, como todo mundo sabe, compreende uma mulher, Jessie (Carla Gugino) que é deixada algemada à cama quando seu marido, Gerald (Bruce Greenwood), tem um ataque cardíaco fulminante no meio da “hora H”. O filme é notavelmente mais do que isso, no entanto, usando a engenhosa premissa para entender relações masculino-feminino e traumas de abuso sexual com sensibilidade aguda.

Gugino, que sempre foi uma grande atriz mal-aproveitada em pequenos papéis, regozija ao ganhar uma personagem tão complexa, que é o centro das atenções por 103 tensos minutos. Intensamente ponderada em seu legue de emoções intensas, Gugino segura o olhar do espectador com o que parece muito pouco esforço, encontrando as melhores formas de expressar o trauma que guia a personagem, e as formas como ela é maior do que ele. Um deliciosamente teatral Bruce Greenwood dá apoio à protagonista em algumas das cenas mais cáusticas e envolventes do filme, com o diretor de fotografia Michael Fimognari trabalhando habilmente as luzes e sombras do quarto onde a maioria da ação se localiza. Stephen King teve algumas boas adaptações em 2017, mas Jogo Perigoso é talvez a que melhor entende aquilo que o tornou um escritor de tanto apelo popular quanto aclamação crítica – a força de seus personagens, e as histórias em que o medo sobrenatural é também trauma e opressão, terrores muito reais dos quais tentamos sempre nos desvencilhar.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

kingsman

Kingsman: O Círculo Dourado (Kingsman: The Golden Circle, Inglaterra/EUA, 2017)
Direção: Matthew Vaughn
Roteiro: Jane Goldman, Matthew Vaughn, baseados nos quadrinhos de Mark Millar & Dave Gibbons
Elenco: Taron Egerton, Mark Strong, Hanna Alström, Julianne Moore, Colin Firth, Channing Tatum, Halle Berry, Elton John, Jeff Bridges, Pedro Pascal, Edward Holcroft, Michael Ganbon, Bruce Greenwood, Emily Watson
141 minutos

Eu não amei o primeiro Kingsman como a maioria das pessoas que eu conheço (e uma boa parte da crítica) amou. Serviço Secreto, de 2014, me atingiu como uma parábola arrogante sobre como “as maneiras fazem o homem”, que reforçava um estereótipo masculino menos agressivamente ofensivo, mas ainda essencialmente tóxico. Sua sátira dos épicos de super espiões, por outro lado, era consideravelmente menos esperta e mais óbvia do que achava ser, e não havia medida de criatividade visual e adrenalina bem dirigida que apagasse tudo isso. No fim das contas, Serviço Secreto era um blockbuster pouco imaginativo que fingia não o ser, o que faz com que a continuação, O Círculo Dourado, represente uma melhora para a franquia – ao menos aqui as gracinhas conceituais do diretor Matthew Vaughn fazem parte da piada, já que o segundo Kingsman abraça seu status como arrasa quarteirões sem ambições metalinguísticas e deixa atores mastigadores de cenário e encantos pura e rasamente estéticos brilharem no lugar de pseudo-ambições de mensagem social. Ele ainda não é um grande filme, mas ao menos não parece tentar ser.

Dessa vez, Eggsy (Taron Egerton) precisa lidar com a traficante de drogas Poppy (Julianne Moore), que tem um plano para obrigar o presidente dos EUA a legalizar os narcóticos (da maconha à heroína, naturalmente). Para isso, os espiões britânicos cruzam o Oceano Atlântico e se juntam a suas contrapartes americanas, que incluem agentes interpretados por Pedro Pascal, Channing Tatum, Halle Berry e Jeff Bridges. Encarnando personagens coloridos que os permitem exageros, esses atores, com destaque especial para uma Moore claramente inspirada pelo Lex Luthor clássico de Gene Hackman, abrilhantam a tela quando O CÍrculo Dourado derrapa nas ambições narrativas para além de seus paradigmas óbvios de pastiche de gênero. O retorno relativamente decepcionante na bilheteria é apropriado: Kingsman não tinha muito mais a dar além disso.

✰✰✰ (3/5)

assassin

O Assassino: O Primeiro Alvo (American Assassin, EUA/Hong Kong, 2017)
Direção: Michael Cuesta
Roteiro: Stephen Schiff, Michael Finch, Edward Zwick, Marshall Herskowitz, baseados no livro de Vince Flynn
Elenco: Dylan O’Brien, Sanaa Lathan, Michael Keaton, Scott Adkins, Taylor Kitsch, Shiva Negar
112 minutos

Virtualmente todas as pessoas envolvidas com O Assassino mereciam um filme melhor – a começar por Dylan O’Brien, o jovem astro de Teen Wolf que tenta lançar uma carreira cinematográfica em cima da força do personagem Mitch Rapp, consagrado nos livros de Vince Flynn. Ele encontra todos os recôncavos mais sombrios do personagem e os expressa com a destreza com a qual encarnou todos os seus papéis até hoje, o que faz ainda mais penoso que O Assassino seja um filme de ritmo tão torturado, mensagem tão conservadora, falhas tão previsíveis em quesitos chave para um bom filme de ação em pleno 2017. O diretor Michael Cuesta, que assinou o bom O Mensageiro, injeta o máximo de propulsão às cenas de adrenalina, nunca deixando seu herói se tornar um super-agente invencível nos moldes de John McClane ou James Bond – na câmera de Cuesta, o protagonista Rapp é um jovem hábil e flexível, cuja ira instintiva é a maior motivação. Entendemos sua falta de cautela, mas o filme não pinta suas ações, que beiram o vigilantismo, como negativas ou moralmente ambíguas.

O que acontece é justamente o contrário, aliás – aqueles que levantam essas preocupações são vistos como obstáculos no caminho da justiça, e essa é a falha fatal de O Assassino como peça de ficção ligada ao nosso momento social. Na pele do “mentor” de Rapp, Michael Keaton é consistentemente mais envolvente do que deveria ser, assim como um Taylor Kitsch que há muito tempo merece papéis mais complexos para interpretar – aqui, eles sabem que são os holofotes brilhantes de exagero cuidadoso em um filme sombrio e contido, e se divertem muito nesses papéis. Fracasso de bilheteria, essa primeira aventura de Mitch Rapp provavelmente não vai gerar continuações – é difícil comemorar, no entanto, quando isso significa algo ruim para a carreira de gente que poderia abrilhantar Hollywood.

✰✰✰ (2,5/5)