Review: Dirty Computer (álbum e filme)

Janelle Monáe cria a obra de arte do ano com um álbum visual espetacular - e que desafia descrições.

Os 15 melhores álbuns de 2017

Drake, Lorde e Goldfrapp são apenas três dos artistas que chegaram arrasando na nossa lista.

Review: Me Chame Pelo Seu Nome

Luca Guadagnino cria o filme mais sensual (e importante) do ano.

Review: Lady Bird: A Hora de Voar

Mais uma obra-prima da roteirista mais talentosa da nossa década.

Review: Liga da Justiça

É verdade: o novo filme da DC seria melhor se não tivesse uma Warner (e um Joss Whedon) no caminho.

10 de dez. de 2017

Diário de filmes do mês: Novembro/2017

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por Caio Coletti

Nem todos os filmes merecem (ou pedem) uma análise complexa como a que fazemos com alguns dos lançamentos mais “quentes” ou filmes que descobrimos e nos surpreendem positivamente. É levando em consideração a função da crítica e da resenha como uma orientação do público em relação ao que vai ser visto em determinado filme que eu resolvi criar essa coluna, que visa falar brevemente dos filmes que não ganharam review completo no site. Vamos lá:

atomic

Atômica (Atomic Blonde, Alemanha/Suécia/EUA, 2017)
Direção: David Leitch
Roteiro: Kurt Johnstad, baseado nos quadrinhos de Anthony Johnson & Sam Hart
Elenco: Charlize Theron, James McAvoy, Eddie Marsan, John Goodman, Toby Jones, James Faulkner, Sofia Boutella, Bill Skarsgard, Til Schweiger
115 minutos

Atômica começa com Charlize Theron mergulhada em uma banheira de gelo, nua. A câmera do diretor David Leitch, no entanto, não filma a cena iluminada por neon de forma sensual, mas passa seu tempo focando nos enormes hematomas nas costas de Theron, que interpreta a espiã Lorraine Broughton, enviada à Berlim dias antes da queda do muro, em plena Guerra Fria, para recuperar uma lista roubada de agentes secretos e seus nomes reais. Os próximos 115 minutos são passados explicando porque Lorraine acabou indo parar nessa banheira de gelo, com esses hematomas – e Theron faz valer o outlook nada sensual do diretor Leitch ao construir uma anti heroína misteriosa, brutal, imparável, perenemente surpreendente. Com a desonrosa exceção da cena de sexo desnecessária entre Lorraine e Delphine (Sofia Boutella), inserida no roteiro puramente para permitir a fetichização de um relacionamento lésbico, Atômica entrega uma protagonista feminina complexa e naturalmente icônica, que sempre joga no mesmo nível (ou acima) dos homens que a cercam. O oxigênio do filme é a performance física e emocional de Theron, que rouba a cena até da ambientação oitentista espetacularmente construída pelo diretor Leitch.

A direção de arte decadente, cheia de paredes descascadas, coberturas ímpias de arranha-céus, e muito neon (designer de produção: David Scheunemann); a música propulsiva escolhida pelo supervisor John Houlihan (há uma cena de ação ao som de “Major Tom”, de Peter Schilling, que é uma combinação de arrepiar) e, em suas intervenções originais, composta por Tyler Bates; o figurino de Cindy Evans e o trabalho da equipe de cabelo e maquiagem, apresentando visuais icônicos da época sem serem óbvios ou “certinhos” demais, sofisticados demais para a situação. Atômica é um tremendo feito de produção. que revela Leitch não só como um grande diretor de ação (o que já sabíamos, graças a John Wick), mas um cineasta detalhista e elegante. Resta aguardar o refinamento desse talento nos próximos longas metragens de seu currículo.

✰✰✰✰ (4/5)

gerald

Jogo Perigoso (Gerald’s Game, EUA, 2017)
Direção: Mike Flanagan
Roteiro: Mike Flanagan, Jeff Howard, baseados no livro de Stephen King
Elenco: Carla Gugino, Bruce Greenwood, Chiara Aurelia, Carel Struycken, Henry Thomas, Kate Siegel
103 minutos

A junção do diretor Mike Flanagan com o escritor Stephen King faz muito sentido – em seus poucos filmes até agora, Flanagan demonstrou um refinamento sem precedentes para brincar com as convenções do gênero de horror, e King sempre casou essa mesma habilidade com um olhar cirúrgico sobre a condição humana e alguns dos temas mais importantes da nossa sociedade. A perspectiva de ver Flanagan brincando com uma das histórias em que o princípio de King de que “o verdadeiro monstro é o ser humano” mais se aplica era excitante, e o resultado – esse Jogo Perigoso, lançado pela Netflix – corresponde às expectativas. É um terror de sobrevivência obviamente tenso, mas surpreendentemente denso, examinando profundamente o passado de sua protagonista e como ele afetou decisões que ela tomou no seu presente. A trama, como todo mundo sabe, compreende uma mulher, Jessie (Carla Gugino) que é deixada algemada à cama quando seu marido, Gerald (Bruce Greenwood), tem um ataque cardíaco fulminante no meio da “hora H”. O filme é notavelmente mais do que isso, no entanto, usando a engenhosa premissa para entender relações masculino-feminino e traumas de abuso sexual com sensibilidade aguda.

Gugino, que sempre foi uma grande atriz mal-aproveitada em pequenos papéis, regozija ao ganhar uma personagem tão complexa, que é o centro das atenções por 103 tensos minutos. Intensamente ponderada em seu legue de emoções intensas, Gugino segura o olhar do espectador com o que parece muito pouco esforço, encontrando as melhores formas de expressar o trauma que guia a personagem, e as formas como ela é maior do que ele. Um deliciosamente teatral Bruce Greenwood dá apoio à protagonista em algumas das cenas mais cáusticas e envolventes do filme, com o diretor de fotografia Michael Fimognari trabalhando habilmente as luzes e sombras do quarto onde a maioria da ação se localiza. Stephen King teve algumas boas adaptações em 2017, mas Jogo Perigoso é talvez a que melhor entende aquilo que o tornou um escritor de tanto apelo popular quanto aclamação crítica – a força de seus personagens, e as histórias em que o medo sobrenatural é também trauma e opressão, terrores muito reais dos quais tentamos sempre nos desvencilhar.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

kingsman

Kingsman: O Círculo Dourado (Kingsman: The Golden Circle, Inglaterra/EUA, 2017)
Direção: Matthew Vaughn
Roteiro: Jane Goldman, Matthew Vaughn, baseados nos quadrinhos de Mark Millar & Dave Gibbons
Elenco: Taron Egerton, Mark Strong, Hanna Alström, Julianne Moore, Colin Firth, Channing Tatum, Halle Berry, Elton John, Jeff Bridges, Pedro Pascal, Edward Holcroft, Michael Ganbon, Bruce Greenwood, Emily Watson
141 minutos

Eu não amei o primeiro Kingsman como a maioria das pessoas que eu conheço (e uma boa parte da crítica) amou. Serviço Secreto, de 2014, me atingiu como uma parábola arrogante sobre como “as maneiras fazem o homem”, que reforçava um estereótipo masculino menos agressivamente ofensivo, mas ainda essencialmente tóxico. Sua sátira dos épicos de super espiões, por outro lado, era consideravelmente menos esperta e mais óbvia do que achava ser, e não havia medida de criatividade visual e adrenalina bem dirigida que apagasse tudo isso. No fim das contas, Serviço Secreto era um blockbuster pouco imaginativo que fingia não o ser, o que faz com que a continuação, O Círculo Dourado, represente uma melhora para a franquia – ao menos aqui as gracinhas conceituais do diretor Matthew Vaughn fazem parte da piada, já que o segundo Kingsman abraça seu status como arrasa quarteirões sem ambições metalinguísticas e deixa atores mastigadores de cenário e encantos pura e rasamente estéticos brilharem no lugar de pseudo-ambições de mensagem social. Ele ainda não é um grande filme, mas ao menos não parece tentar ser.

Dessa vez, Eggsy (Taron Egerton) precisa lidar com a traficante de drogas Poppy (Julianne Moore), que tem um plano para obrigar o presidente dos EUA a legalizar os narcóticos (da maconha à heroína, naturalmente). Para isso, os espiões britânicos cruzam o Oceano Atlântico e se juntam a suas contrapartes americanas, que incluem agentes interpretados por Pedro Pascal, Channing Tatum, Halle Berry e Jeff Bridges. Encarnando personagens coloridos que os permitem exageros, esses atores, com destaque especial para uma Moore claramente inspirada pelo Lex Luthor clássico de Gene Hackman, abrilhantam a tela quando O CÍrculo Dourado derrapa nas ambições narrativas para além de seus paradigmas óbvios de pastiche de gênero. O retorno relativamente decepcionante na bilheteria é apropriado: Kingsman não tinha muito mais a dar além disso.

✰✰✰ (3/5)

assassin

O Assassino: O Primeiro Alvo (American Assassin, EUA/Hong Kong, 2017)
Direção: Michael Cuesta
Roteiro: Stephen Schiff, Michael Finch, Edward Zwick, Marshall Herskowitz, baseados no livro de Vince Flynn
Elenco: Dylan O’Brien, Sanaa Lathan, Michael Keaton, Scott Adkins, Taylor Kitsch, Shiva Negar
112 minutos

Virtualmente todas as pessoas envolvidas com O Assassino mereciam um filme melhor – a começar por Dylan O’Brien, o jovem astro de Teen Wolf que tenta lançar uma carreira cinematográfica em cima da força do personagem Mitch Rapp, consagrado nos livros de Vince Flynn. Ele encontra todos os recôncavos mais sombrios do personagem e os expressa com a destreza com a qual encarnou todos os seus papéis até hoje, o que faz ainda mais penoso que O Assassino seja um filme de ritmo tão torturado, mensagem tão conservadora, falhas tão previsíveis em quesitos chave para um bom filme de ação em pleno 2017. O diretor Michael Cuesta, que assinou o bom O Mensageiro, injeta o máximo de propulsão às cenas de adrenalina, nunca deixando seu herói se tornar um super-agente invencível nos moldes de John McClane ou James Bond – na câmera de Cuesta, o protagonista Rapp é um jovem hábil e flexível, cuja ira instintiva é a maior motivação. Entendemos sua falta de cautela, mas o filme não pinta suas ações, que beiram o vigilantismo, como negativas ou moralmente ambíguas.

O que acontece é justamente o contrário, aliás – aqueles que levantam essas preocupações são vistos como obstáculos no caminho da justiça, e essa é a falha fatal de O Assassino como peça de ficção ligada ao nosso momento social. Na pele do “mentor” de Rapp, Michael Keaton é consistentemente mais envolvente do que deveria ser, assim como um Taylor Kitsch que há muito tempo merece papéis mais complexos para interpretar – aqui, eles sabem que são os holofotes brilhantes de exagero cuidadoso em um filme sombrio e contido, e se divertem muito nesses papéis. Fracasso de bilheteria, essa primeira aventura de Mitch Rapp provavelmente não vai gerar continuações – é difícil comemorar, no entanto, quando isso significa algo ruim para a carreira de gente que poderia abrilhantar Hollywood.

✰✰✰ (2,5/5)

23 de nov. de 2017

Review: Liga da Justiça erra quando foge do grande filme que poderia ser

justice

por Caio Coletti

Quando Batman vs Superman foi lançado, no ano passado, logo no título do meu review escrevi que o filme “só errava quando não estava totalmente comprometido com sua proposta”. Havia um cinismo na visão dos roteiristas Chris Terrio e David S. Goyer, e na iconoclastia de Zack Snyder, que me encantava – o retrato desses heróis como deuses caídos à Terra, incapazes de proteger o mundo sem destruí-lo, em muitos sentidos perpetuamente aprendendo a mexer em uma “caixinha de brinquedos” perigosa na forma de seus superpoderes, me fazia mais conectado do que nunca a essas figuras em tela. Eles eram míticos no sentido mais puro da palavra, maiores que a vida, mas ao mesmo tempo tão absolutamente familiares a ela.

Por todo o seu alarde de mudança, o que Mulher-Maravilha fez foi pegar esse conceito inovador e muito habilidosamente aplicá-lo de forma mais equilibrada e mais sutil, erguendo um novo mito em torno de Diana Prince e seus ideais mais positivos, embora não menos ambíguos, de heroísmo. Se tivesse aprendido as lições desses dois antecessores, Liga da Justiça poderia ser um grande filme – ao direcionar a visão única de Snyder e Terrio, que retornariam para dirigir e escrever o filme, respectivamente, para uma narrativa que crescia em uma direção mais esperançosa, uma “saída do inferno” que se completaria no fim do filme, os maiores heróis da mitologia dos quadrinhos poderiam fazer jus a esse título também no cinema.

Como costuma acontecer nessas histórias, no entanto, havia uma Warner Bros no caminho do Liga da Justiça que poderia ser sutil o bastante para consertar os erros de Batman vs Superman. A gigante corporativa aproveitou-se da saída de Zack Snyder da produção durante o processo de refilmagens, devido à problemas familiares, para chamar Joss Whedon (Os Vingadores), um diretor e roteirista eficiente quando tem espaço para realizar sua visão, a fim de tornar o filme “mais leve”, nos moldes do seu análogo da Marvel. O problema é que Liga da Justiça, da forma como foi lançado, com suas rasteiras 2 horas de duração, não é o filme de nenhum desses dois cineastas – de fato, é aquele raro produto cinematográfico que, preso entre múltiplas identidades, não consegue alcançar nenhuma.

Em meio à continuada e inteligente reflexão do roteirista Terrio sobre heroísmo e a oposição entre cinismo e esperança que existe no coração dele, as piadas quase “improvisadas” de Whedon não só são inclusões por vezes constrangedoras como são entregues com compreensível inabilidade por atores que passam o restante do tempo construindo personagens conflitantes com elas. Isso é verdade especialmente do Batman de Ben Affleck, no que poderia muito bem ser a pior atuação de sua carreira (se ela não incluísse Contato de Risco, é claro). O Bruce Wayne estoico e calejado que o ator construiu no filme anterior some embaixo de um arco forçado do qual Affleck apenas muito eventualmente consegue extrair qualquer sentido ou substância.

Ezra Miller, Gal Gadot e Jason Momoa encontram formas mais equilibradas de construir seus heróis, em especial os dois rapazes, destaques óbvios do filme, já que à ela é relegado, no pior estilo Whedon, o papel da mulher responsável que reclama das irreverências dos seus colegas de equipe (uma versão piorada da Viúva Negra fetichizada de Whedon em ambos os filmes dos Vingadores). Poucos meses depois de Patty Jenkins lançar o espetacular Mulher-Maravilha, é desencorajador ver um filme que dá tantos passos atrás na representação de mulheres fortes, autônomas e guerreiras, mas que não cabem em estereótipos, nos blockbusters – e essa culpa deve ser dividida entre Snyder e Whedon, diga-se de passagem.

Também é desencorajador perceber que algumas das virtudes técnicas óbvias de Batman vs Superman foram abandonadas após a recepção fraca do filme. A troca de Larry Fong por Fabian Wagner na fotografia, por exemplo, significa que os efeitos especiais não são explorados por sua plasticidade, e sim de uma maneira mais “pedestre”. O estilo de Wagner funciona bem para a tela pequena e para a elaboração realista das batalhas de Game of Thrones, mas não se encaixa no mundo de deuses superpoderosos da DC. O mesmo vale para a troca de Junkie XL & Hans Zimmer por Danny Elfman na trilha sonora – como um todo, Liga da Justiça parece fugir do desafio de ser um filme de gênero orgulhoso como seu predecessor, porque acha que isso significa ódio crítico e do público.

No entanto, pelas frestas dessa fuga sufocante de si mesmo, Liga da Justiça mostra flashes de brilhantismo. Seu arco narrativo fundamental, que viaja do exaspero à esperança, pode parecer apressado e atribulado, mas ainda está lá, e a reminiscência da mensagem original do Superman e de seus companheiros de equipe, nos quadrinhos, é maior do que em qualquer outro filme da DC até aqui. Terrio encontra na junção da humanidade desses super-heróis uma forma de conduzir o mundo sombrio criado por ele no filme anterior a um tipo ambíguo, complicado e belo de luz. O filme desenha a história de cada um dos membros da equipe como definida por perdas metafóricas e literais, e busca entender como essas perdas os propelem adiante no combate a um mal tão mesquinho como o de Lobo da Estepe.

Liga da Justiça ainda é um bom filme, apesar de si mesmo. É triste, no entanto, imaginar o grande filme de heróis que está escondido dentro dele, e que provavelmente nunca veremos sair.

✰✰✰✰ (4/5)

justice

Liga da Justiça (Justice League, EUA/Inglaterra/Canadá, 2017)
Direção: Zack Snyder
Roteiro: Chris Terrio, Joss Whedon
Elenco: Ben Affleck, Henry Cavill, Amy Adams, Gal Gadot, Ezra Miller, Jason Momoa, Ray Fisher, Jeremy Irons, Diane Lane, Connie Nielsen, J.K. Simmons, Ciarán Hinds, Amber Heard, Joe Morton
120 minutos

19 de nov. de 2017

Review: Sim, Thor: Ragnarok é hilário – mas também pode (e deve) ser levado a sério

ragna

por Caio Coletti

Eis algo que você provavelmente não leu em outras críticas de Thor: Ragnarok – o terceiro filme do deus do trovão da Marvel é uma reflexão refrescante, ambivalente e esperta sobre as armadilhas da liderança, que adiciona um imperativo moral ao mundo cada vez mais complicado e difuso da editora no cinema. Eric Pearson (Agent Carter), Craig Kyle (do setor de animação da Marvel) e Christopher Yost (Star Wars Rebels) criam um roteiro que não introduz personagens a esmo, ao invés disso medindo-os para ajudar essa reflexão quase política, que informa e enriquece o restante do universo Marvel.

Eis algo que você provavelmente leu em todas as outras críticas de Thor: Ragnarok – Taika Waititi, o diretor neozelandês conhecido pela pérola independente O Que Fazemos nas Sombras, pega tudo isso e transforma em uma aventura hilariante, recheada de improvisos, que se beneficia imensamente das personalidades de seus intérpretes. O resultado da equação é um filme ágil, mas que se mostra tão essencial na mitologia de líderes falhos e heróis emocionalmente vulneráveis da Marvel quanto delicioso de se assistir, de uma forma que poucos longas de super-heróis, envolvidos com suas tramas atribuladas e (vamos ser sinceros) enfadonhas, conseguem ser hoje em dia.

Na trama, reencontramos Thor (Chris Hemsworth) pela primeira vez desde Vingadores: Era de Ultron, trabalhando para salvar Asgard do que ele vê como ameaças potencialmente apocalípticas (como o demônio Surtur, contra quem ele batalha na primeira cena do filme). Ele desmascara o irmão Loki (Tom Hiddleston), que posava como Odin (Anthony Hopkins) no trono de Asgard, e precisa lidar com a chegada da tremendamente poderosa vilã Hela (Cate Blanchett), a deusa da morte nórdica, que quer o comando da terra dos deuses para si. No meio do caminho para derrotá-la, ele vai parar em Sakaar, um planeta de gladiadores em que é obrigado a enfrentar Hulk (Mark Ruffalo), também sumido desde Era de Ultron.

Ao desvendar o passado que conecta Odin e Hela, Ragnarok desvenda mais um tipo de hipocrisia daqueles que se encontram em posições de poder – de certa forma, é o polo oposto de Doutor Estranho, que destacava a importância de um pragmatismo absoluto por parte dos nossos líderes. Ragnarok é sobre a importância de encarar com honestidade a sua própria história, seja ela a história de uma nação ou de um indivíduo em particular – o roteiro de Pearson, Kyle e Yost é cheio de personagens tentando fazer as pazes com o seu próprio passado, e buscando criar um novo paradigma de comportamento frente a ele.

Na direção de atores, Waititi encontra formas de fazer cada membro de seu elenco “se soltar” em frente à câmera, para o bem ou para o mal. Hemsworth encontra um charme um pouco fácil demais na pele de Thor, que como personagem é, e sempre foi, essencialmente um valentão pomposo com boas intenções; já Jeff Goldblum, como um Grão-Mestre que seria impensável na pele de qualquer outro ator, é um prazer de se assistir, todos os seus tiques se conectando diretamente com o público; Tessa Thompson também entrega uma atuação feroz, divertida e complexa como a Valquíria, a coadjuvante feminina mais bem escrita da Marvel até hoje; Hiddleston e Blanchett, talvez os atores mais prestigiados do elenco sem contar Hopkins, parecem se divertir em papéis de elaborações simples e cujas relações com o público são diretas.

Ragnarok é espetacularmente criativo no âmbito visual, mas não da mesma forma explosiva de Guardiões da Galáxia Vol. 2, ainda a obra-prima de efeitos especiais e direção de arte da Marvel em 2017. Os ângulos escusos e cores vivas de Sakaar se contrastam com as superfícies polidas e grandiosas de Asgard, sutilmente afastada da terra idílica construída por Kenneth Branagh e Alan Taylor nos filmes anteriores do deus do trovão. Se a narrativa parece esparsa, é por causa dos improvisos e da leveza da direção de Waititi, que transforma um roteiro denso em um espetáculo divertido e perenemente disposto a surpreender.

Tomem nota, fãs e produtores – é assim que se junta o melhor de dois mundos no cinema.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

thor

Thor: Ragnarok (EUA, 2017)
Direção: Taika Waititi
Roteiro: Eric Pearson, Craig Kyle, Christopher Yost
Elenco: Chris Hemsworth, Tom Hiddleston, Cate Blanchett, Idris Elba, Jeff Goldblum, Tessa Thompson, Karl Urban, Mark Ruffalo, Anthony Hopkins, Benedict Cumberbatch, Taika Waititi, Rachel House, Clancy Brown, Zachary Levi
130 minutos

5 de nov. de 2017

Diário de filmes do mês: Outubro/2017

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por Caio Coletti

Nem todos os filmes merecem (ou pedem) uma análise complexa como a que fazemos com alguns dos lançamentos mais “quentes” ou filmes que descobrimos e nos surpreendem positivamente. É levando em consideração a função da crítica e da resenha como uma orientação do público em relação ao que vai ser visto em determinado filme que eu resolvi criar essa coluna, que visa falar brevemente dos filmes que não ganharam review completo no site. Vamos lá:

1 gaga

Gaga: Five Foot Two (EUA, 2017)
Direção: Chris Moukarbel
100 minutos

É um pouco estúpido reclamar a artificialidade de porções de Gaga: Five Foot Two, documentário lançado pela Netflix que dá acesso à vida particular e artística de Lady Gaga nos meses antecedendo sua apresentação no SuperBowl 2017. Tanto a arte pop de Gaga quanto o cinema documental tem um histórico de artifício como forma de revelar a realidade. É fácil sentir quando a artista está performando e quando está falando ou agindo sem o filtro de sua vida pública – e, ao mesmo tempo, as duas coisas de confundem o tempo todo. A questão com Gaga, e com o cinema documental, nunca é: isso é mesmo de fato, concretamente, real? E sim: o quê de real eu consigo extrair disso? O filme de Chris Moukarbel persegue essa questão o tempo todo, destrinchando pedaços particulares e públicos da vida de Gaga para tentar entender sua fascinação pela própria arte, e a fascinação do mundo pelos altos e baixos dela. O problema aqui é que Moukarbel não é habilidoso ou tem recursos o bastante para de fato extrair as respostas, ou sondar concretamente as profundidades das questões. Five Foot Two é um documentário polido e direto, quase avesso à criação de uma narrativa a partir do que observa, o que o faz funcionar muito mais como um pedaço de propaganda do que um pedaço de arte.

É uma pena, porque Gaga é claramente uma mulher fascinante – não por qualquer misticismo ou mistério em sua pessoa, mas pela combinação de sua visão única e sua experiência e comportamento comuns. Sentada no estacionamento de seu estúdio, rebatendo acusações de plágio e falando das inconsistências da fama e do mundo pop, ela é uma; cozinhando em casa ou recebendo flores indesejadas do ex-noivo, é outra. Ainda assim, nessa conjunção de personas diferentes, ela nunca parece estar mentindo, como muitos acusam – ao menos não em uma dimensão maior do que as mentiras que todos contamos ao performar partes diferentes de nossa vida. Em sua desafiadora complexidade, ela merecia um documentário mais ponderado e inteligente.

✰✰✰✰ (3,5/5)

2 spidey

Homem-Aranha: De Volta ao Lar (Spider-Man: Homecoming, EUA, 2017)
Direção: Jon Watts
Roteiro: Jonathan Goldstein, John Francis Daley, Jon Watts, Christopher Ford, Chris McKenna, Erik Sommers
Elenco: Tom Holland, Michael Keaton, Robert Downey Jr., Marisa Tomei, Jon Favreau, Gwyneth Paltrow, Zendaya, Donald Glover, Jacob Batalon, Laura Harrier, Tony Revolori
133 minutos

A questão “o mundo precisa de mais uma versão do Homem-Aranha?” passou pela cabeça de todo mundo quando a Marvel e a Sony anunciaram que iam fazer parceria para finalmente incluir o Aracnídeo no universo maior da editora. De Volta ao Lar responde à pergunta com um sonoro “vocês ainda não viram o Homem-Aranha de verdade”. Com um roteiro escrito à doze mãos e um diretor relativamente inexperiente no comando, é estonteante que De Volta ao Lar funcione tão bem – e não é por sua modéstia na trama charmosa envolvendo um Peter Parker (Tom Holland) em idade colegial lidando com problemas adolescentes, ou por sua correlação com filmes teen de John Hughes, muito menos por incluir o herói em um universo ao qual ele sempre deveria ter pertencido. De Volta ao Lar funciona porque entende artificialidade óbvia tanto do gênero do filme de colegial quanto do filme de super-herói, assim como entende o motivo pelo qual essas obras ressoam tanto com o espectador. Através de uma fantasia óbvia (e não estou falando do traje de herói de Peter), De Volta ao Lar encontra os pontos de conexão com a realidade sem enfatizá-los demais, e cria com isso um filme satisfatório em todas as dimensões.

Holland transborda carisma na pele de Peter, que após a aparição rápida em Capitão América: Guerra Civil volta para seu Queens natal com a Tia May (Marisa Tomei), percebendo logo que o bairro é assombrado por uma misteriosa figura alada que comercializa armas poderosas, o Abutre (Michael Keaton). Para o desgosto de seu mentor, Tony Stark (Robert Downey Jr), Peter decide “provar seu valor” caçando o vilão. Ameaçador e imbuído de senso de propósito, Keaton cria um vilão convincente que pouco tem a fazer em um filme concentrado na jornada de amadurecimento de seu herói. De Volta ao Lar é uma comédia adolescente esperta, com personagens distintos cercando o herói em sua vida escolar, e uma primeira aventura solo que acha o cantinho único no qual mais um filme de mais um Homem-Aranha poderia funcionar em pleno 2017.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

3 souls

Nossas Noites (Our Souls at Night, EUA, 2017)
Direção: Ritesh Batra
Roteiro: Kent Haruf, Scott Neustadter, Michael H. Weber
Elenco: Robert Redford, Jane Fonda, Judy Greer, Matthias Schoenaerts, Iain Armitage, Bruce Dern, Phyllis Somerville
103 minutos

Todo mundo ama ver dois grandes atores em cena juntos – mas como Al Pacino e Robert De Niro provaram em As Duas Faces da Lei (2008), há pouco que dois grandes atores possam fazer quando o roteiro e o restante do filme é um verdadeiro desastre. Felizmente, não é o caso de Nossas Noites, romance da Netflix que reuniu Jane Fonda e Robert Redford quase 40 anos depois de sua última parceria, O Cavaleiro Elétrico (mais famoso é Descalços no Parque, que os dois fizeram em 1968). Graças ao roteiro sensível assinado por Kent Haruf, Scott Neustadter e Michael H. Weber, e à direção econômica de Ritesh Batra, aos dois astros é dado amplo espaço para dar vida a seus personagens. Fonda é Addie, uma viúva que se aproxima do vizinho Louis (Redford), cuja esposa também faleceu. Os dois engatam um romance a partir da simples premissa de não quererem passar a noite sozinhos, mas problemas de família e fantasmas do passado dos dois começam a reaparecer conforme eles se conhecem melhor. A forma como os dois atores dançam ao redor das profundidades do texto só pode ser descrita como magistral – nunca exagerando nos monólogos ou nas reações, Fonda e Redford dão uma aula de sutileza e realismo.

A química entre os dois também solta faíscas, tanto emocionais quanto sexuais. Batra não foge dessas últimas, tratando com inteligência e afeto os momentos mais físicos do relacionamento, confiando no carisma infalível de Fonda para carregar as cenas, abordadas com mais cautela por Redford. Nossas Noites funciona só porque nos investimos o bastante no desenrolar do romance entre Addie e Louis, e o tempo de tela econômico dado por Batra para elementos fora da relação dos dois (ainda que essenciais para a trama) funciona no sentido de nos manter focados na interação entre eles. O pequeno Iain Armitage e os coadjuvantes Judy Greer e Matthias Shoenaerts estão aqui para dar apoio à história dos dois protagonistas, que tanto diz sobre afeto, arrependimento e comunicação em qualquer idade.

✰✰✰✰ (4/5)

4 marsha

The Death and Life of Marsha P. Johnson (EUA, 2017)
Direção: David France
Roteiro: David France, Mark Blane
105 minutos

Ao contrário do que o título pode indicar, o documentário The Death and Life of Marsha P. Johnson, da Netflix, não é sobre a pioneira do movimento LGBT que atirou um dos primeiros tijolos na revolta de Stonewall. A reabertura da investigação de sua morte talvez seja o ponto de partida, mas o filme de David France resolve, acertadamente, honrar a memória dessa figura quase mítica ao abordar questões mais profundas levantadas por sua história – da marginalização social das pessoas LGBT (especialmente pessoas trans) ao senso de história e responsabilidade deturpado, até preconceituoso, que existe dentro da própria comunidade. Faz isso também através da história de Sylvia Rivera, melhor amiga de Marsha, ao mostrar os anos seguintes à morte da personagem-título, quando Sylvia se viu sem-teto e esquecida pela comunidade que ajudou a organizar. É nas sessões dedicadas à Rivera que o filme encontra seus minutos mais dolorosos, simbólicos e fundamentais – é na história dela que a falta de impacto duradouro e indignação coletiva com a morte de Marsha parece mais revoltante, porque poderia ter mudado tanta coisa, para tenta gente. O filme de France é cortante porque mostra que, se Marsha foi a mártir da luta LGBT, porque tantas como ela existem até hoje?

Parte da história é Victoria Cruz, uma mulher transgênero que trabalha com uma organização de justica social e resolve reabrir o caso de Marsha. O filme faz crônica não só desse, mas de outros casos de violência contra pessoas trans que são virtualmente ignorados fora da própria comunidade e de organizações como aquela na qual Victoria trabalha. Com tanta obstinação quanto sua protagonista, o diretor France e seu parceiro de roteiro, Mark Blane, destrincham as profundezas desse descaso institucional e social que vem de todos os lados, massacrando e silenciando centenas de milhares de indivíduos, até hoje. É um trabalho fundamental, ainda que frustrante e enfurecido, de cinema e de discurso social.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

5 baby

Em Ritmo de Fuga (Baby Driver, Inglaterra/EUA, 2017)
Direção e roteiro: Edgar Wright
Elenco: Ansel Elgort, Jon Bernthal, Jon Hamm, Eiza González, Micah Howard, Lily James, Kevin Spacey, CJ Jones, Sky Ferreira, Jamie Foxx, Flea
112 minutos

Sim, Em Ritmo de Fuga tem cenas de ação excepcionais e algumas sacadas visuais espetaculares do diretor Edgar Wright, que cria muitas de suas cenas mais “banais” ao ritmo da trilha-sonora. É uma inovação animadora e fascinante, mas não faz um filme – e o problema de Em Ritmo de Fuga é que ele quase não é um filme. Enquanto na direção Wright encontra-se com facilidade, o seu roteiro tropeça na própria falta de ambição, aderindo sem hesitar à clichês cansados sem nenhum sendo de afeição ou ironia para torná-los mais confortáveis. O filme tampouco cria personagens de verdade, transformando em cifras tanto o protagonista interpretado sem particular carisma por Ansel Elgort quanto os coadjuvantes vividos por atores de primeira linha como Jon Hamm e Jamie Foxx. Curiosamente, quem se sai melhor é Eiza González, que entrega um trabalho vívido que absolutamente não morava no roteiro de Wright – ela é um ponto brilhante que de fato podemos compreender em um mar de personagens-caricatura sem motivações claras, incluindo o maior crime de todos: uma “donzela em perigo” mais antiquada e mal desenvolvida que aquelas que vemos em franquias como Transformers.

A trama segue Baby (Elgort), um motorista muito habilidoso que é contratado por um grupo de criminosos para servir de motorista de fuga após assaltos. No time, personalidades explosivas como Buddy (Hamm), Darling (González) e Bats (Foxx) fazem com que cada trabalho seja mais perigoso do que o anterior – e Baby procura uma forma de sair dessa para fugir ao lado da jovem garçonete Debora (James). Graças às cenas de ação bem dirigidas, pouco mais de metade da metragem de Em Ritmo de Fuga consegue fazer o espectador esquecer a trama inana e os personagens pouco convincentes – mas definitivamente não é o bastante para aclamar, como a maioria da crítica fez, como um dos melhores filmes do ano.

✰✰✰ (3/5)

6 big sick

Doentes de Amor (The Big Sick, EUA, 2017)
Direção: Michael Showalter
Roteiro: Emily V. Gordon, Kumail Nanjiani
Elenco: Kumail Nanjiani, Zoe Kazan, Holly Hunter, Holly Hunter, Ray Romano, Anupam Kher, Zenobia Shroff
120 minutos

Holly Hunter está espetacular em Doentes de Amor – mas eis aqui a verdade: a vencedora do Oscar por O Piano nunca está menos que espetacular em nenhum papel que a mereça. Neurótica, mas estonteantemente crível na pele da mãe preocupada da protagonista Emily (Zoe Kazan), Hunter acende a tela a cada vez que aparece nela, mas a diferença dessa grande performance para algumas outras de sua carreira é que, aqui, tudo ao seu redor funciona tão bem quanto ela. A comédia do diretor Michael Showalter (Hello My Name is Doris, outra pérola recente do gênero) é conduzida com tanta inteligência e discrição que deixa cada elemento de sua feliz combinação de talentos brilhar em seu máximo. A história escrita por Emily V. Gordon e pelo próprio astro do filme, Kumail Nanjiani, reconstrói a história real dos dois, que se conheceram em um show de comédia e passaram por um relacionamento único após Gordon enfrentar um problema de saúde sério e Nanjiani peitar as tradições de sua própria família paquistanesa. Doentes de Amor discute barreiras culturais com inteligência tremenda e tiradas realmente geniais, e aproveita para falar de perdão e dos rumos curiosos da vida com a mesma habilidade.

Por estar tão confortável interpretando a si mesmo, Nanjiani entrega a performance mais subestimada do elenco, encontrando formas engraçadas e espertas de expressar os conflitos do Kumail personagem, sem dúvida resgatando a forma como ele mesmo lidou com eles no passado. Acontece que ao redor dele não temos só Hunter, que rouba cada cena em que aparece, mas uma tipicamente sensível e especialmente desafiadora de estereótipos Zoe Kazan, e um hilariante, perfeitamente inepto Ray Romano. Nesse quarteto principal o filme firma as fundações de sua exploração profunda, ainda que sempre engraçada, dos conceitos de tradição e família, com todas as suas rachaduras e vulnerabilidades.

✰✰✰✰✰ (5/5)

raw

Grave (Raw, França/Bélgica/Itália, 2016)
Direção e roteiro: Julia Ducournau
Elenco: Garance Marillier, Ella Rumpf, Rabah Nait Oufella, Laurent Lucas, Joana Preiss
99 minutos

Não é o bastante comparar Grave a longas de gente como David Cronenberg e David Lynch, porque embora os estilos desses mestres certamente tenham sido inspirações para a diretora/roteirista Julia Ducournau, sua visão é tão única e tão profunda que reduzi-la a um pacote de referências pop não seria justo. Grave é uma jornada absurda, visceral e por vezes surreal, sim, mas é também uma obra ponderada e sincera sobre o pesadelo de ser mulher, os recursos de dominação (sexual, comportamental) aos quais uma mulher precisa recorrer no mundo em que vivemos para afirmar qualquer módico de poder, e a armadilha armada para aquelas mulheres que escolhem usar esses recursos, e são julgadas por isso. Se parece um tópico complexo para um filme de terror de 99 minutos sobre canibalismo que reportadamente fez espectadores desmaiarem em festivais por aí, bom… Você claramente ainda não viu nada como a obra de estreia de Julia Ducournau. Só por isso, ela já precisa ser vista, mas o filme é também refinadamente produzido em seus aspectos técnicos, realçando a complexidade do tema e o formato surrealista adotado pela diretora.

A fotografia de Ruben Impens explora as linhas retas e mínimas do design de produção de Laurie Colson para criar a sensação de desconforto que é marca do filme, enquanto a edição de Jean-Christophe Bouzy cuida da dimensão visceral das cenas mais chocantes do longa. A protagonista Garance Marillier está mais do que disposta a entregar os aspectos físicos exigidos por sua personagem, uma jovem vegetariana que entra na faculdade de veterinária e é obrigada a comer carne em um trote – a partir daí, seu apetite está literalmente aberto para a caça. Ainda melhor que ela é Ella Rumpf, que empresta uma intensidade insuspeita à irmã da protagonista, que estuda já há alguns anos na mesma faculdade. A forma como Rumpf guarda os segredos mais profundos de sua Alexia até os momentos certos é simbólico da reflexão de Grave sobre o que obrigados nossas mulheres a se tornarem para sobreviver.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

14 de out. de 2017

Review: O Ato de Matar e O Peso do Silêncio são os dois filmes mais importantes da nossa década

look of silence act of killing

por Caio Coletti

Nenhum outro filme despertou em mim exatamente o mesmo sentimento do que O Ato de Matar. Quando os créditos subiram no documentário de Joshua Oppenheimer, o feito monumental de cinema que eu tinha testemunhado parecia minúsculo, insignificante, perto da força humanitária e do testemunho de moralidade complicada da obra. O Ato de Matar é um grande filme, mas eu não quero sair gritando aos sete ventos que ele é um grande filme – eu não quero indicá-lo para os meus amigos, falar sobre ele na mesa do bar ou nos espaços on-line reservados para discutir cinema.

O que transpira quando Oppenheimer faz contato com líderes dos “esquadrões da morte” da Indonésia e pede para eles reencenarem o terrível genocídio que eles comandaram em forma de cinema é uma daquelas raras peças de arte que são maiores do que si mesmas, maiores até do que o nosso conceito mesquinho e arrogante de arte. O Ato de Matar é um filme que faz o espectador lamentar, de forma profunda e visceral, sua própria existência – é uma obra colossal, fundamental e indescritivelmente terrível.

Há de se colocar as reações físicas e emocionais a ele de lado, no entanto, para entender tudo de essencial que o filme discute. O Ato de Matar é sobre a história como construção dos vencedores, sobre a mentira como um mecanismo de autoproteção (por toda a sua eficiência e sua fragilidade), sobre o contraste espantoso entre ficção e realidade, e, ao mesmo tempo, sobre como uma tem poder de refletir na outra. Ao expor de forma inclemente a humanidade de figuras políticas monstruosas, O Ato de Matar os banaliza e os diminui tanto quanto os faz ainda mais aterrorizantes – porque, chocantemente, eles não são tão diferentes de nós.

E então temos O Peso do Silêncio, espécie de “continuação” do filme anterior produzida por Oppenheimer dois anos depois. Para o segundo filme, o diretor inverte a perspectiva e nos apresenta com uma obra que, embora não tenha o mesmo efeito de “soco no estômago para nunca mais se esquecer”, eleva a complexidade da discussão e coloca o panorama devastador que Oppenheimer fez dos massacres indonésios em um patamar no qual nenhuma obra cinematográfica pode alcançá-lo tão cedo.

Dessa vez, acompanhamos um sobrevivente dos massacres buscando conhecer a história de seu irmão, que foi morto na época. Em uma série de visitas tensas, ele confronta vários dos chefes locais que ajudaram a assassinar milhões de ditos “comunistas”, em busca talvez de um senso de reconciliação – Oppenheimer vê empatia aparecendo pelas frestas do mundo sombrio que retrata, mas vê também a toxicidade que contamina todas as interações em uma comunidade, um país (enfim, uma humanidade), que viveu tais horrores. A reflexão profunda e a história frágil contada por O Peso do Silêncio acaba sendo tão marcante quando a ânsia e a exaustão que O Ato de Matar causam no espectador.

Combinar um exercício intelectual com uma exposição de humanidade em seus impulsos mais monstruosos foi o que Oppenheimer buscou fazer aqui – no meio do caminho, encontrou uma experiência que é muito mais do que artística (embora também o seja, e tão, tão fundamentalmente). Em um díptico pintado em tons de cinza, o documentarista cria os filmes mais importantes da nossa década justamente ao nos lembrar que o cinema nunca será capaz de abraçar, consertar, mudar ou retratar a realidade e suas consequências mais profundas.

look of

O Ato de Matar (The Act of Killing, Inglaterra/Dinamarca/Noruega, 2012)
Direção: Joshua Oppenheimer, Christine Cynn, Anônimo
115 minutos

O Peso do Silêncio (The Look of Silence, Dinamarca/Indonésia/Finlândia/Noruega/Inglaterra/Israel/França/EUA/ Alemanha/Holanda/Taiwan, 2014)
Direção: Joshua Oppenheimer
103 minutos

7 de out. de 2017

Review: O que incomoda em Mãe! é o cruzamento herético entre deuses e humanos

mother

por Caio Coletti

Um dos meus melhores hábitos (os bons não são muitos, acredite) é não criar expectativas para obras artísticas. Via de regra, busco me manter calmamente afastado do furor pelo lançamento de qualquer peça de cinema, TV, música ou seja lá o que for, a fim não de manter a objetividade ou a frieza ao finalmente poder assisti-la (ou lê-la, ou ouvi-la, enfim), mas de me manter aberto à subjetividade que ela quer me passar, ao invés de julgá-la a partir daquilo que esperava dela. No entanto, ao entrar na minha sessão de Mãe!, era impossível não sentir aquela curiosidade no fundo da cabeça, reprimida pelas minhas melhores tentativas de não ceder ao hype: O que será que incomodou tanto nesse filme?

As reações ao longa de Darren Aronofsky não poderiam ser mais polêmicas: Houve quem o amou, saudando a coragem e intensidade do filme como dignas do pesadelo que se via em tela; e houve quem o odiou, cunhando as expressões de sempre (“exercício de ego vazio” e suas inúmeras variações) ou reclamando, do ponto de vista conservador, do uso de símbolos e metáforas sacras para contar uma história de violência.Tinha isso em mente quando o título rabiscado do filme apareceu em tela, seguido imediatamente de um ponto de exclamação grosseiro, quase como que zombando da controvérsia que Aronofsky sabia que seu filme ia causar. Por outro lado, quando “The End of the World” tocou enquanto os créditos subiam, no final do filme, a dúvida (“O que em Mãe! incomoda tanto?”) não existia mais.

A trama de Mãe! (não há spoilers aqui) acompanha o casal formado por Javier Bardem e Jennifer Lawrence, que vivem em uma casa ainda em construção. Ele, um escritor; ela, uma dona de casa. Subitamente, chega por lá um homem (Ed Harris), que cria uma ligação com o personagem de Bardem enquanto Lawrence protesta (educadamente, em particular, como a boa esposa suburbana) contra sua permanência na casa. Logo, junta-se a ele a esposa (Michelle Pfeiffer), e a partir daí o roteiro de Aronofsky dispara uma série tensa de acontecimentos que atingem um crescendo até a odisseia alucinante do final. Metade drama doméstico, metade filme de guerra, e inteiro alegoria, Mãe! é, como cinema, um bicho estranho, que não liga para equilíbrio tonal e não se acanha em usar truques sujos para pegar o espectador desprevenido.

No entanto, ainda não é isso que incomoda sobre Mãe!, visto que Aronofsky é um mestre em dançar na ponta dos pés ao redor da percepção do espectador. O filme não tem qualquer trilha sonora artificial perceptível (o compositor Jóhann Jóhannsson chegou a escrever temas que não foram usados no corte final), mas usa a edição e mixagem de som com maestria para inserir o espectador em um ambiente acústico à flor da pele. O diretor de fotografiaMatthew Libatique, velho parceiro de Aronofsky, mantem a iluminação natural e, sem dúvida sob instruções do cineasta, passa uma enorme parte da metragem filmando o rosto de Jennifer Lawrence em close-up, sua pele de boneca enchendo a tela. Percebendo o desafio, a estrela entrega uma atuação que não é só puramente reativa, buscando personalidade em meio ao desespero que o roteiro joga em sua direção.

Ainda melhores estão outros dois membros do elenco. Bardem parece se deliciar com a missão de retirar as camadas de seu personagem lentamente durante o filme, elaborando sem medo o egocentrismo que guia cada uma de suas decisões, e encarando cada momento em que o roteiro aumenta o volume da paródia/metáfora que representa com tanto senso de aventura quanto coerência. Extravagante na medida certa, Bardem acerta o tom difícil do filme de Aronofsky na mosca, como o grande ator que é. Enquanto isso, Mãe! pede que Michelle Pfeiffer faça justamente o contrário, colorindo ao redor de uma personagem que é em muitos sentidos unidimensional – ela encontra um tom de humor negro tão refinado que, quando ela está em cena, é difícil prestar atenção em qualquer outra coisa. 

Não é nada disso que incomoda em Mãe!, no entanto. Saindo da minha sessão, a impressão é que o que enerva e envolve tanto no filme é a forma como a história contada por Aronofsky desnuda a mitologia da sociedade ocidental de seu misticismo e encontra nela observações minutas e detalhes sórdidos do nosso egoísmo, da nossa prepotência, da nossa teimosia, do nosso equívoco ao tentar entender conceitos como amor, devoção e perdão. Mãe! olha para os deuses que criamos e acha neles a reflexão da nossa pior natureza, e da verdade que nenhum de nós quer encarar: a de que cada ato, consequência, equívoco e desastre que acontece conosco, e entre nós e o meio em que vivemos, é de nossa responsabilidade.

Por toda a sua carreira, Aronofsky transformou humanos em deuses e demônios tortos. Réquiem Para um Sonho, Fonte da Vida, O Lutador, Cisne Negro, Noé – são todos filmes sobre homens e mulheres cujas obsessões, confusões, perturbações e arrependimentos os transformam em seres saídos direto de tragédias gregas grandiosas em que reis e rainhas se digladiam em meio a temas de vingança, degradação e glória. Acontece quando Nina abre suas asas na apresentação final de Cisne Negro, ou Randy sobe nas cordas do ringue para dar seu último pulo em O Lutador, ou Noé decide se deve ou não ouvir as ordens de Deus e matar um membro de sua família, ou Sara descende à loucura com seus remédios para emagrecer enquanto delira sobre estar em um programa de auditório em Réquiem.

Há 17 anos, Darren Aronofsky transforma humanos patéticos, sujos e de caráter duvidoso em deuses e mitos. Em Mãe!, o script se inverteu, e os deuses desceram à Terra para nos mostrar que, veja só, eles são mesmo só humanos, tão gloriosamente perturbados quanto os outros do diretor. É isso que realmente incomoda em Mãe!. Ele faz acreditar, mesmo que por meras 2 horas, que não há uma história maior, mais ideal ou mais pura – que isso que temos aqui é tudo o que jamais teremos. É um filme urgente, totalmente idiossincrático, que precisa ser respeitado e ouvido mesmo que todos os nossos instintos digam que não.

✰✰✰✰✰ (5/5)

mother

Mãe! (Mother!, EUA, 2017)
Direção e roteiro: Darren Aronofsky
Elenco: Jennifer Lawrence, Javier Bardem, Ed Harris, Michelle Pfeiffer, Brian Gleeson, Domhnall Gleeson, Jovan Adepo, Kristen Wiig
121 minutos