Review: Dirty Computer (álbum e filme)

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Review: Me Chame Pelo Seu Nome

Luca Guadagnino cria o filme mais sensual (e importante) do ano.

Review: Lady Bird: A Hora de Voar

Mais uma obra-prima da roteirista mais talentosa da nossa década.

Review: Liga da Justiça

É verdade: o novo filme da DC seria melhor se não tivesse uma Warner (e um Joss Whedon) no caminho.

2 de ago. de 2016

Diário de filmes do mês: Julho/2016

diário julho

por Caio Coletti

Nem todos os filmes merecem (ou pedem) uma análise complexa como a que fazemos com alguns dos lançamentos mais “quentes” ou filmes que descobrimos e nos surpreendem positivamente. É levando em consideração a função da crítica e da resenha como uma orientação do público em relação ao que vai ser visto em determinado filme que eu resolvi criar essa coluna, que visa falar brevemente dos filmes que não ganharam review completo no site. Vamos lá:

the guest

The Guest (EUA/Inglaterra, 2014)
Direção: Adam Wingard
Roteiro: Simon Barrett
Elenco: Dan Stevens, Maika Monroe, Brendan Meyer, Sheila Kelley, Leland Orser, Lance Reddick, Joel David Moore, Ethan Embry
100 minutos

Recentemente, o diretor Adam Wingard anunciou que seu projeto ultra-secreto anteriormente anunciado com o título The Woods é na verdade uma continuação de A Bruxa de Blair, neo-clássico de 1999, feita em segredo. Em uma edição anterior do boletim cinéfilo, já falamos do filme que mais qualifica Wingard como um mestre em formação da mistura de gêneros e especialmente do terror, o ótimo Você é o Próximo (veja o que dissemos aqui). Para continuar no pique, esse mês vimos The Guest, sua obra mais recente, e o filme nos fascinou, prendeu e divertiu de uma forma bem diferente do anterior.The Guest é um suspense oitentista em seu cerne, algo que fica claro na composição visual de seus materiais promocionais, na escolha do clímax, bizarramente passado em um labirinto decorado por uma escola para o Dia das Bruxas, e no desenrolar de sua trama. O estranho David (Dan Stevens) invade a vida da família Peterson dizendo que costumava conhecer o filho deles, que morreu na guerra – David foi antes à casa dos Peterson do que a qualquer outro lugar, e aos poucos vai se insinuando na rotina doméstica da família, conquistando de uma forma ou de outra as simpatias da mãe, a sofrida Laura (Sheila Kelley); do pai, o trabalhador Spencer (Leland Orser) e do filho mais novo, o jovem e inseguro Luke (Brendan Meyer).

Stevens está em estado de graça como o protagonista. O astro lançado por Downton Abbey, que em breve fará o príncipe Adam em A Bela e a Fera, mostra que tem faro para papeis diferentes, que exijam uma ameaça velada e um controle sutil – seu David não é nunca impositivo ou aterrorizante de forma explícita, é apenas uma presença penetrante cujas graças sociais, o espectador sabe, brotam de motivos desconhecidos e nada inocentes. Com um temperamento explosivo que não foge de ser sangrento quando precisa, The Guest é menos caloroso e mordaz do que Você é o Próximo, um filme de invasão domiciliar travestido de comédia de humor negro, mas é igualmente bem construído para seus propósitos. Absurdo, com um gosto apurado para o trash e o charme do cinema dos anos 80, o filme de Wingard reverte expectativas de familiaridade e brinca com aspectos sombrios da jornada de amadurecimento padrão de Hollywood. É a obra de um cineasta em crescimento, mas funciona.

✰✰✰✰ (3,5/5)

musaranas

Musarañas (Espanha/França, 2014)
Direção: Juanfer Andrés, Estevan Roel
Roteiro: Juanfer Andrés, Sofía Cuenca
Elenco: Macarena Gómez, Nadia de Santiago, Hugo Silva
91 minutos

Um thriller hitchcockiano de relações familiares femininas distorcidas, com aquelas mesmas pontas afiadas de psicossexualidade do velho mestre do suspense, adicionado a uma dose saudável de voyeurismo violento à la Quentin Tarantino – essa é a receita para Musarañas, o terror espanhol que serve como estreia da dupla Janfer Andrés & Estevan Roel na direção. Diminuir o filme às suas referências, no entanto, não é fazê-lo justiça: ele é também uma visceral análise do medo e de seus efeitos sobre o ser humano, da exasperante e sufocante sensação de mudança que se abate em uma geração que sacrificou sua própria independência em virtude das dificuldades da vida entre Guerras e ditaduras, e que agora, assim como a protagonista Montse, não se vê estimulado a sair de casa para encarar um ambiente que não deve lhe acolher. A agorafobia da personagem é uma manifestação desse medo geracional, e Musarañas reflete, em seu cenário único, ambiente claustrofóbico e clímax cheio de revelações devastadoras, uma situação muito maior que si. O blefe dos diretores e da co-roteirista Sofía Cuenca funciona, seja pela intensa dramaticidade dos acontecimentos ou pela riqueza de significados imbuídos neles.

Na trama, Montse (Macarena Gómez) é a irmã mais velha que, após a morte tanto do pai quanto da mãe da família, criou praticamente sozinha a irmã caçula, que permanece sem nome durante o filme (Nadia de Santiago). Quando a mais nova começa a ter desejos que muito ultrapassam a capacidade de controle de Montse, as coisas começam a desmoronar na família – especialmente após o vizinho de prédio Carlos (Hugo Silva) despencar da escada direto na porta da casa, e passar a depender de Montse para sobreviver. Musarañas toma seu tempo para desenvolver a trama, mas a tensão é palpável, em grande parte por conta da vigia estrita da protagonista sobre os passos da irmã, especialmente quando dentro da casa, visto que Montse é tomada por fobia paralisante quando tenta passar da porta da frente. Em atuação intensa, Gómez vai retirando as camadas protetoras de Montse com habilidade, e o filme se revela, em seu ritmo, uma bem-estudada história de horror com o potencial de marcar a memória do espectador.

✰✰✰✰ (3,5/5)

Hello-My-Name-Is-Doris

Hello, My Name is Doris (EUA, 2015)
Direção: Michael Showalter
Roteiro: Laura Terruso, Michael Showalter
Elenco: Sally Field, Max Greenfield, Stephen Root, Tyne Daly, Wendi McLendon-Covey, Kumail Nanijani, Elizabeth Reaser, Natasha Lyonne, Jack Antonoff, Beth Behrs
95 minutos

Sally Field é uma lenda viva, e uma das melhores atrizes americanas na ativa atualmente. Vencedora de dois Oscar, Field merece lugar entre as Meryl Streep’s, Jane Fonda’s, Jessica Lange’s e Glenn Close’s, mas por algum motivo, nos últimos anos, raramente vemos Sally em tela. Nos últimos seis anos, ela esteve só em quatro projetos – os dois O Espetacular Homem-Aranha, o drama Lincoln, e esse excêntrico Hello, My Name is Doris. Não é surpresa, portanto, que Field abrace com vontade a oportunidade de retratar uma personagem tão rica, envolvida em uma história tão raramente contada no cinema, e que lhe permite passear entre comédia física e escrachada (na qual Field é surpreendentemente excelente), construção de personagem cheia de minúcias e detalhes visuais, e drama pungente. Ela “muda de marcha” com a rapidez e a habilidade de uma profissional veterana, mas é na sua vivaz encarnação da trama e da personagem que mora o charme de Hello, My Name is Doris, que sem ela seria uma boa ideia desperdiçada por um roteiro que comete alguns tropeços aqui e ali.

Não nos leve a mal: o roteiro de Michael Showalter (Wet Hot American Summer) ao lado de Laura Terruso, de quem Showalter emprestou a premissa de um curta-metragem, é bem-intencionado e tem momentos de brilhantismo em sua delicadeza e óbvia afeição pelos personagens; a direção de Showalter também não deixa a desejar, encontrando pequenos momentos em que o visual auxilia a comédia tanto quanto o diálogo; Tyne Daly está tão incrível como a melhor amiga da protagonista quanto era de se esperar para uma vencedora de 6 prêmios Emmys; mas na trama sobre uma solteirona que acaba de perder a mãe a quem dedicou toda sua vida, e que decide investir em um crush que cultiva pelo colega de trabalho mais novo (Max Greenfield, fugindo habilidosamente do seu tipo normalmente mais antipático), é Field quem dá as cartas. É por ela que nos apaixonamos, e é através dela que entendemos essa história sobre uma nada comum, mas tremendamente viva, história de luto, superação e descobrimento.

Por conta de Sally Field, Hello My Name is Doris é belíssimo. Não são muitas atrizes por aí que tem esse tipo de poder sobre o filme em que atuam.

✰✰✰✰ (4/5)

let me in

Deixe-me Entrar (Let Me In, Inglaterra/EUA, 2010)
Direção: Matt Reeves
Roteiro: Matt Reeves, John Ajvide Lindqvist
Elenco: Kodi Smit-McPhee, Chlë Grace Moretz, Richard Jenkins, Cara Buono, Elias Koteas, Richie Coster, Dylan Minnette
116 minutos

Em tempos de Stranger Things, Deixe-me Entrar, o remake americano do neo-clássico sueco de mesmo nome, está prontinho para ser redescoberto por uma audiência faminta por mais histórias de suspense focadas em protagonistas mais novos, que lidam com um ambiente oitentista e fazem referência à forma de contar histórias da época. O filme de Matt Reeves se passa na época de Reagan, quando o medo e o patriotismo andavam de mãos dadas, e os americanos só confiavam no que era familiar – ironicamente, o filme é também uma triste documentação de infâncias e juventudes negligenciadas justamente por aqueles que deveriam chamar de família. No enquadramento de Reeves e do diretor de fotografia Greig Fraser, o rosto da mãe de Owen (Kodi Smit-McPhee), sempre envolvida em brigas com o ex-marido e com um copo de vinho em mãos, praticamente não é visto, e não é por acaso. Os relacionamentos mais significativos e abertos de Owen são com a jovem Abby (Chloe Grace Moretz), uma estranha nova vizinha de prédio, e com os colegas de classe, especialmente o insistente bully feito por Dylan Minnette (Goosebumps). No filme de Reeves, essas crianças são o que são pelo que deixaram de receber, e não pelo que receberam, de seus pais – é um retrato deprimente e gelado, como os arredores do filme.

O filme pulsa também, no entanto, com uma ambiguidade de quebrar o coração, uma mistura do maligno com o fundamentalmente puro que não é nem um pouco estranha a quem passou pela infância e adolescência. “Eu lembro-me de minha infância vividamente. Eu sabia de coisas terríveis”, como disse o autor Maurice Sendak (Onde Vivem os Monstros) uma vez – essa aguda percepção infantil, esse olhar para o que há de mais amargo e mais assustador do mundo, transpira de Deixe-me Entrar, um filme espetacularmente bem escrito que nem sempre encontra o tom certo para funcionar por completo, mas que sem dúvida merece ser assistido. Mesmo que seja só pelas performances complementares e profundas de Smit-McPhee e Moretz, em sintonia perfeita entre si e com o filme ao seu redor, criando uma identificação e comunicação com o espectador que às vezes o próprio diretor Reeves esquece de estabelecer.

✰✰✰✰ (3,5/5)

16 de jul. de 2016

Diário de filmes do mês: Junho/2016

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por Caio Coletti

Nem todos os filmes merecem (ou pedem) uma análise complexa como a que fazemos com alguns dos lançamentos mais “quentes” ou filmes que descobrimos e nos surpreendem positivamente. É levando em consideração a função da crítica e da resenha como uma orientação do público em relação ao que vai ser visto em determinado filme que eu resolvi criar essa coluna, que visa falar brevemente dos filmes que não ganharam review completo no site. Vamos lá:

exame

Exame (Exam, Inglaterra, 2009)
Direção e roteiro: Stuart Hazeldine
Elenco: Adar Beck, Gemma Chan, Nathalie Cox, John Lloyd Fillingham, Chukwudi Iwuji, Pollyanna McIntosh, Luke Mably
101 minutos

Há um apelo muito básico na premissa de Exame, filme britânico de 2009 que vem rodando pelo circuito dos admiradores de suspenses e ficções científicas independentes: basicamente, o filme se concentra em apenas uma sala de reunião de uma grande empresa, onde oito candidatos a um emprego inacreditavelmente almejado passam por seu último teste, que consiste em só uma pergunta. Ou quase isso. Conforme o filme vai evoluindo nas mãos do diretor/roteirista Stuart Hazeldine, influências da ficção científica futurista vão se revelando, e algumas reviravoltas interessantes são aplicadas, mas Exame nunca se mostra um filme com algo a dizer. E é essa a coisa interessante sobre a ficção científica: se você não tem nada a dizer, todo e qualquer esforço para engajar o espectador parece em vão. Bem planejada, com um espírito metódico que precisa ser admirado, e até boas atuações, Exame triunfa como produto de cinema mas falha miseravelmente como produto de narrativa. Não que haja algo de inerentemente errado nas habilidades de Hazeldine como contador de histórias – o problema é que ele não está conduzindo uma que tenha qualquer objetivo a não ser chocar e surpreender. Não há nada de errado em gostar de Exame, mas é indiscutível que ele não merece estar nos rankings ilustres das boas ficções científicas e mistérios que vimos sair recentemente do cinema independente.

O único fio interessante de narrativa que existe no filme é a oposição entre individualismo e comunidade, especialmente em tempos de crise, como modos de vida. Luke Mably e Chukwudi Iwuji fazem um dueto interessante de atuações, e são assistidos de forma perfeitamente capaz pelo elenco coadjuvante, especialmente Adar Beck e Nathalie Cox como as duas principais personagens femininas da confinada trama. O problema é que Exame abandona essa reflexão em favor de um twist de narrativa perto do final, que coloca em perspectiva os acontecimentos e resolve valorizar uma trapaça (e uma questão técnica) na sua resolução do dilema da premissa. Promissor, mas fazendo muitas escolhas erradas, Exame segue como testemunho do potencial de um cineasta que ainda não ofereceu uma segunda obra.

✰✰✰ (3/5)

john wick

De Volta ao Jogo (John Wick, EUA, 2014)
Direção: Chad Stahelski, David Leitch
Roteiro: Derek Kolstad
Elenco: Keanu Reeves, Michael Nyqvist, Alfie Allen, Willem Dafoe, Dean Winters, Adrienne Palicki, Bridget Moynahan, John Leguizamo, Ian McShane, Lande Reddick
101 minutos

Em direta oposição ao item anterior do nosso diário, De Volta ao Jogo tira muito crédito do fato de que não ambiciona nenhum significado maior para sua trama de vingança. Keanu Reeves empresta credibilidade (é sério!) ao papel de John Wick, um ex-assassino da máfia russa que, após o filho de um chefão do crime invadir sua casa, matar seu cachorro (!) e danificar seu carro, parte em uma missão violenta de vingança que o coloca de volta em um mundo do qual saiu para construir uma família. Sim, o cachorro era o presente deixado para trás pela esposa falecida de Wick, e há uma exploração interessante da dinâmica de um assassino de aluguel voltando para um ambiente que não desperta o melhor de si, mas De Volta ao Jogo é largamente um pastiche das convenções do gênero e do poder visceral da violência midiática em aumentar a nossa própria adrenalina. Parte da excelência do filme tem a ver com a direção de Chad Stahelski, um ex-coordenador de dublês que faz das brutais cenas de ação de De Volta ao Jogo não só momentos críveis em que um homem leva a melhor sobre muitos outros, como cria imagens indeléveis que vão ficar na memória do espectador, e especialmente dos fãs de ação.

John Wick é também um daqueles papeis para os quais Keanu Reeves parece ter nascido. Nosso argumento não é contradizer a crítica e saudar Reeves como um grande ator, mas há algo no seu porte, na sua linguagem corporal e no seu estilo particular de atuação que o faz particularmente apropriado para papeis icônicos, calcados em apelos visuais e histórias básicas. É por isso que ele foi um grande Neo, um grande John Constantine, e agora John Wick – Reeves não arquiva uma atuação expressiva ou excelente, mas sua imagem por algum motivo entra imediatamente no inconsciente coletivo da cultura pop. Camisetas de John Wick poderiam ser vendidas por aí, e seria imediatamente reconhecível. De Volta ao Jogo é em parte sobre não levar os filmes de ação à sério demais, em parte sobre colocar o foco de volta na excelência de facto das cenas de adrenalina, e em parte uma exploração venerável dos clichês do gênero.

São 101 minutos de sólidos entretenimento, e a vindoura continuação é mais do que merecida.

✰✰✰✰ (4/5)

alexander

Alexandre e o Dia Terrível, Horrível, Espantoso e Horroroso (Alexander and the Terrible, Horrible, No Good, Very Bad Day, EUA, 2014)
Direção: Miguel Arteta
Roteiro: Rob Lieber, baseado no livro de Judith Viorst
Elenco: Steve Carell, Jennifer Garner, Ed Oxenbould, Dylan Minnette, Kerris Dorsey, Bella Thorne, Megan Mullally, Donald Glover
81 minutos

O título engraçadinho de Alexander e o Dia Terrível, Horrível, Espantoso e Horroroso não colou tão bem com o público do cinema quanto aconteceu com os leitores de literatura infantil, de onde vem a história adaptada pelo roteirista Rob Lieber (The Goldbergs). A bilheteria fraca e as más críticas não são totalmente merecidas, no entanto, visto que esse é um dos mais inofensivos, e de fato bastante divertidos, filmes saídos da divisão não-animada da Disney nos últimos anos. Com uma mensagem bonitinha sobre aceitação dos aspectos negativos da vida, um elenco talentoso e várias piadas que funcionam em graus variados, Alexander não é nem de longe tão terrível, horrível, espantoso e horroroso quanto o dia vivido pela família Cooper, tudo porque o filho mais novo, o azarado Alexander, deseja que todos os outros membros de sua casa vivam pelo menos um dia no seu lugar. O pai desempregado, Ben (Steve Carell), tem problemas numa entrevista de emprego quando precisa levar o filho bebê, Trevor; a mãe, a executiva de uma editora de livros infantis Kelly (Jennifer Garner), passa por uma situação complicada quando um erro de impressão arruína um lançamento; a filha Emily (Kerris Dorsey), atriz, acorda com um resfriado no dia em que deve se apresentar como Peter Pan; e o filho Anthony (Dylan Minnette) perde a namorada no dia da formatura.

O restante das viradas desafortunadas da família durante o dia são a graça do filme, que encontra maneiras de mantê-los unidos mesmo com o mundo desmoronando nos seus arredores. O diretor Miguel Arteta (Por Um Sentido na Vida) não tem um trabalho muito complexo a fazer, mas falha no sentido de não injetar criatividade no visual do filme, que depende inteiramente do talento de seus atores para manter o espectador entretido. Sorte que Carell e Garner estão em excelentes momentos, e que o trio de atores mirins entrega performances interessantes e cativantes, buscando um equilíbrio que não os transforme em caricaturas de si mesmos. Como filme da Disney, Alexander guarda valores que cheiram a conservadorismo, mas os momentos em que deixa esses valores passar são escorregões menores em um todo perfeitamente adorável.

✰✰✰ (3/5)

conjuring

Invocação do Mal (The Conjuring, EUA, 2013)
Direção: James Wan
Roteiro: Chad Hayes, Carey Hayes
Elenco: Vera Farmiga, Patrick Wilson, Lili Taylor, Ron Livingston, Joey King, Mackenzie Foy
112 minutos

James Wan não é o mestre do terror moderno que boa parte da crítica e do público desavisado parece achar que ele é. O diretor malaio é um artesão habilidoso, que conhece e respeita convenções do gênero, e por isso conseguiu se infiltrar em Hollywood. Seus filmes são como refeições básicas bem preparadas, feitos com um senso de narrativa e de provocação de tensão antiquado e fascinante, que se apoia em trabalhos sempre impecáveis de design de produção, trilha-sonora, fotografia, maquiagem, figurino e atuação para levar o espectador em uma jornada convencional que mesmo assim assusta, e até emociona. No fundo, Invocação do Mal é uma bela história sobre a união de uma família diante de uma ameaça que pretende voltá-la contra si mesma. É A Entidade ao contrário, com uma conexão emocional mais profunda e calorosa com seus personagens.  Invocação do Mal não reinventa a roda – de fato, James Wan nunca quis reinventá-la, e talvez por isso incomode saber que, com uma geração incrível de cineastas de terror fazendo filmes que se tornarão clássicos cult como Corrente do Mal (David Robert Mitchell), A Bruxa (Robert Eggers) e O Babadook (Jennifer Kent), Wan ainda seja o máximo que muitos espectadores tenham de contato com o horror de qualidade – uma pena, mas melhor do que nada.

Invocação do Mal, para o qual cheguei uns bons anos atrasado, desvenda um dos casos dos prestigiados “ocultistas” Ed e Lorraine Warren, aqui interpretados por Patrick Wilson e Vera Farmiga. Espécies de celebridades no mundo das investigações paranormais, os dois se aproximam de uma família que acabou de se mudar para uma velha casa – a mãe, Carolyn (Lili Taylor), está sentindo coisas estranhas, e várias das filhas tiveram bizarras visões durante a noite. Há algo de profundamente artístico na forma como Invocação nos conduz pelos corredores, escadas e cômodos da casa em questão, numa câmera fluída que nos apresenta um ambiente inteiramente idealizado e construído com um olho cirúrgico para a percepção espacial que é importante à história. A casa habitada pela família Perron é quase um personagem, e isso não é uma forma metafórica de dizer que ela é um elemento importante – na câmera de Wan e do diretor de fotografia John R. Leonetti, ela parece respirar e nos conduzir por ela tanto quanto os humanos.

Enquanto isso, Farmiga e Taylor seguram firmemente o centro emocional do filme, em um par de performances que esbanja garra, sensibilidade e fisicalidade. Sem elas, Invocação jamais funcionaria como funciona, nos níveis mais básicos de percepção e compreensão do espectador. Nem todo mundo precisa revolucionar o cinema, e Wan certamente entrega uma bela obra aqui.

✰✰✰✰ (4/5)

krampus

Krampus: O Terror do Natal (Krampus, EUA, 2015)
Direção: Michael Dougherty
Roteiro: Todd Casey, Michael Dougherty, Zach Shields
Elenco: Emjay Anthony, Adam Scott, Toni Collette, Krista Stadler, Conchata Farrell, Allison Tolman, David Koechner
98 minutos

Michael Dougherty é um cineasta e roteirista cuja carreira vale a pena seguir de perto. Após trabalhar escrevendo X-Men 2 e Superman: O Retorno para Bryan Singer, Dougherty mostrou sua preferência pelo cinema de terror ao estrear na direção em Contos do Dia das Bruxas, uma narrativa episódica interconectada que fazia troça e levava a sério, ao mesmo tempo, várias convenções do gênero, produzindo uma bela peça de sátira que essencialmente funcionava como terror também. Oito anos depois, ele retorna com Krampus: O Terror do Natal, mais um filme de horror que parecia destinado a atingir um equilíbrio parecido – mas Dougherty gosta mesmo é de surpreender o espectador, e Krampus é zombeteiro e divertido de uma forma  muito mais destacada do que Contos do Dia das Bruxas jamais sonharia em ser. Apoiado em um trabalho de confecção de bonecos e animatronics que não se via no cinema desde que as produções da Jim Henson Company deixaram de ser moda em Hollywood para o domínio do CGI, Krampus é um filme deliciosamente lunático e cínico, com um olhar inteligente para as idiossincrasias de seus personagens e de sua conexão como unidade familiar, mas nunca cedendo a quaisquer impulsos de pieguice ou redenção. Krampus é cruel, sombrio e bizarro, como uma daquelas curiosidades macabras da Sessão da Tarde dos anos 90 que hoje em dia nos faz perguntar: como diabos isso passava na TV durante o dia?

Na trama, um garoto (Emjay Anthony) que ainda acredita no Papai Noel acaba se frustrando com os diferentes problemas de sua família infernal, e pica a sua cartinha para o padroeiro do Natal em pedaços, atirando-a pela janela. Inadvertidamente, o moleque invocou o espírito maligno conhecido como Krampus, um antigo demônio natalino da mitologia alemã que era uma espécie de sombra malévola do Papai Noel. É a deixa da qual o filme precisa para desfilar biscoitos natalinos revoltados e bichos bizarros de toda sorte à frente do espectador, enquanto atores como Adam Scott, Toni Collette e Conchata Farrell se divertem com “cenas de ação” maldosas e um roteiro que se delicia com o desajuste essencial da família que retrata. Dougherty acertou de novo na alquimia de seu novo filme, mesmo que ainda falte um pouco para que consiga explorar de fato o potencial cômico, assustador e metalinguístico de seu trabalho.

✰✰✰✰ (3,5/5)

kill list

Kill List (Inglaterra, 2011)
Direção: Ben Wheatley
Roteiro: Ben Wheatley, Amy Jump
Elenco: Neil Maskell, MyAnna Buring, Michael Smiley, Emma Fryer
95 minutos

Kill List é um filme incômodo. Não só porque subverte algumas regras fundamentais da nossa presunção de como cinema deve ser feito, mas porque é deliberadamente desenhado para isso. A direção de atores do cineasta Ben Wheatley convida à proximidade, mas seu roteiro ao lado de Amy Jump parece nos afastar, enquanto a edição, também por conta dos dois, nos desorienta. Kill List é um filme súbito e lento, complexo e desconcertantemente simples, praticamente indecifrável (mas facilmente compreendido). Os diálogos entreouvidos, a dicção difícil dos protagonistas, a fotografia quente e sensitiva, a virada brusca no terceiro ato que nos leva a um final estranhamente satisfatório – e tremendamente perturbador. Como qualquer filme de suspense, Kill List nos diz que há algo errado desde o começo, em pequenos momentos, mas quando a trama se revela o espectador mesmo assim é pego de surpresa, porque Wheatley quietamente nos conduziu à familiaridade, para nos tirar radicalmente dela (ou melhor ainda, para nos mostrar como ela é sombria). Em sua história sobre o assassino de aluguel e veterano de guerra Jay (Neil Maskell), que aceita uma nova missão após uma briga com a esposa, Shel (MyAnna Buring, excelente), Kill List nos deixa intuir muito, do passado dos personagens aos seus pensamentos e relações mais profundas, e essa indução de um sentimento de fidelidade ao real torna a introdução do sinistro no terceiro ato do filme uma jogada muito mais chocante.

O filme é também uma temerosa meditação sobre o ato de matar, as marcas profundas que ele deixa no ser humano e o que acontece quando essas marcas, pelo cansaço, se tornam invisíveis ou impossíveis de se perceber. Kill List não é um filme insensível, mas é um filme sobre um homem insensibilizado pelas circunstâncias, e vive especialmente na tragédia da interpretação de Michael Smiley (Gal) uma consciência profunda das sombras e da paranoia que mora dentro da torturada alma humana capaz de matar. De sua forma desconcertante, Kill List é um filme sobre transtornos psicológicos traduzidos em violência, e acha em seu final recheado pela sombra de uma teoria de conspiração que cerca o protagonista uma forma de expressar a sua completa solidão. O filme de Wheatley é uma viagem psicológica muito mais do que é uma viagem prática – e é isso que o torna especial, e unicamente inesquecível.

✰✰✰✰ (4/5)

hush

Hush: A Morte Ouve (Hush, EUA, 2016)
Direção: Mike Flanagan
Roteiro: Mike Flanagan, Kate Siegel
Elenco: Kate Siegel, John Gallagher Jr, Michael Trucco, Samantha Tyson
81 minutos

Kate Siegel está extraordinária em Hush, novo terror do diretor Mike Flanagan, seu respiro em mais uma produção independente antes de assumir o bem mais estrelado O Sono da Morte, que estreia em setembro no Brasil. Flanagan é um mestre em formação do gênero, mais que gabaritado depois dos excelentes Absentia e O Espelho – mas é Siegel quem brilha em Hush, um tremendamente bem construído thriller que se equilibra nas pontas dos dedos da atriz, interpretando aqui uma escritora surda que mora sozinha e vê sua casa sendo atacada por um maníaco mascarado (John Gallagher Jr, em excelente forma também). Pouco conhecida como atriz – e casada com o diretor –, Siegel entrega uma atuação de instinto e expressividade absurdas, que enfrenta os desafios físicos do roteiro sem esforço e faz de sua personagem uma figura verdadeira icônica. Flanagan não é muito dado a peripécias visuais quadrinescas, mas mesmo assim é fácil imaginar Kate – ou melhor, sua personagem Maddie – em um pôster no quarto de algum fã de terror inspirado pela história de resiliência. Das final girls dos filmes de assassino recentes, Siegel é a mais intensa e conscientemente construída como um indivíduo crível, mesmo que passe por situações que extrapolam os limites do fisicamente suportável durante o filme. Injetados de adrenalina, é possível que ela e o espectador nem percebam que Flanagan estica um pouco os limites do realismo em seu roteiro.

E se não percebemos, é porque Flanagan, mais um exemplo de diretor que toma as rédeas da edição de seus próprios filmes, constrói um quebra-cabeças excitante e agonizante em Hush, explorando o seu único cenário com maestria e trabalhando ao lado da fotografia e da trilha-sonora para criar momentos de pico por todo o filme, que o impedem de parecer monótono ou repetitivo. O confronto entre Maddie e seu algoz é convincente e fascinante porque os dois se vêem e se comunicam com clareza, porque o “plano” e o objetivo do assassino é cruelmente simples, e porque Flanagan o dirige. Colocado em uma casa que é praticamente uma gaiola de vidro (mas não da forma óbvia com a qual alguns terrores trabalham), Hush é um exercício de tensão sustentada que sai de seus rápidos 81 minutos triunfante. E é, obviamente, uma tour de force pelos recursos de Siegel, que parece ser tão talentosa quanto o marido.

✰✰✰✰ (4/5)

angry birds

Angry Birds: O Filme (Angry Birds, EUA/Finlândia, 2016)
Direção: Clay Kaytis, Fergal Reilly
Roteiro: Jon Vitti
Elenco: Jason Sudeikis, Josh Gad, Danny McBride, Maya Rudolph, Bill Hader, Peter Dinklage, Sean Penn, Keegan-Michael Key, Kate McKinnon, Tony Hale, Hannibal Buress, Ike Barinholtz, Tituss Burgess, Blake Shelton, Charli XCX
97 minutos

Quando um filme baseado no jogo que virou mania na internet (em 2012) foi anunciado, não houve uma alma que tenha ficado animada com a perspectiva. Um filme dos Angry Birds não só parecia fora de época, como principalmente parecia ser uma decisão mercadológica muito mais do que criativa. O jogo original simplesmente não trazia uma história, que dirá uma forte o bastante para sustentar um filme, e a “adaptação” teria que conjurar não só a trama como personagens carismáticos e tridimensionais para convencer e engajar o público. Angry Birds: O Filme, como escrito por Jon Vitti, não faz um trabalho decente em nenhuma dessas coisas, mas arquiva um insight de brilhantismo que aparece perto do final do filme: a canalização da “raiva” dos tais pássaros do título em uma busca por recuperar o que era seu e foi roubado pelos porcos invasores. Por um breve momento, Angry Birds se coloca como uma aventura infantil sobre o valor da raiva, da desconfiança e do cinismo como qualidades adultas, e sobre a crença cega em ideais e a docilidade exagerada como fraquezas de uma sociedade que se deixa ser abusada. É um mero vislumbre durante o filme, mas está ali – pena que o roteirista Vitti (Alvin e os Esquilos) não está atento o bastante para aproveitar a metáfora ao máximo.

O elenco de vozes do filme também traz alguns momentos cômicos bem elaborados: não tanto o protagonista Jason Sudeikis, mas os coadjuvantes Danny McBride (Bomb), Maya Rudolph (Matilda) e Peter Dinklage (Mighty Eagle). A aventura do mal-humorado pássaro Red, que é o único a enxergar às más intenções de um povo de porcos que chega na terra dos pássaros certo dia, é insossa e tem poucos momentos de brilhantismo, talvez com a exceção de algumas piadas mais adultas que funcionam. Em um nível infantil, o filme também não funciona – um exagero de cores primárias e design de personagem ainda mais simplista que deve cansar as crianças facilmente. Coloque seus pirralhos para assistir Divertida Mente, que tanto eles quanto você vão ganhar mais.

✰✰ (2/5)

whiskey

Uma Repórter em Apuros (Whiskey Tango Foxtrot, EUA, 2016)
Direção: Glenn Ficarra, John Requa
Roteiro: Robert Carlock, baseado no livro de Kim Baker
Elenco: Tina Fey, Margot Robbie, Martin Freeman, Alfred Molina, Christopher Abbott, Billy Bob Thornton, Nicholas Braun, Josh Charles, Cherry Jones
112 minutos

Com toda a sinceridade do mundo: este que vos fala não consegue deixar de ver algo especial em Tina Fey. A forma como a ex-etrela do Saturday Night Live escolhe projetos que realçam sua inteligência como atriz e sua destreza em piadas mais sutis, assim como sua fácil navegação por emoções mais complexas, é simplesmente única. Uma Repórter em Apuros é parte dessa trajetória, e é excitante poder observá-la tomar forma. A história real de uma jornalista que passou anos a fio como correspondente de guerra no Afeganistão é uma oportuna e inteligente meditação sobre a humanidade que sobrevive em uma situação de guerra – o humor, o romance, o deboche e a compaixão que existe ali, entre pessoas de origens, posições sociais e visões políticas diferentes. No entanto, o filme nunca perde de vista a situação de violência em que a personagem de encontra, e não banaliza ou futiliza essa violência. Em Uma Repórter em Apuros, a mesma humanidade capaz de empatia e humor é capaz de atos horrendos e inconsequentes em nome de uma ideologia que nem mesmo é sua. Cheio de atuações uniformemente excelentes (Margot Robbie, Martin Freeman, Alfred Molina, Christopher Abbott, Billy Bob Thornton) e uma direção sensível que trabalha ao redor dessas performances, é um filme que merece muito mais crédito do que teve na época de seu lançamento.

Nas mãos de Fey, a jornalista Kim Baker se torna uma mulher de cantos arredondados. Aqui, ela não é garota festeira e irresponsável de Irmãs, a nerd autoritária de 30 Rock, a paranoica e frustrada professora de A Seleção – incansavelmente sagaz mesmo quando está se sentindo absurdamente deslocada, Baker ganha um brilho nos olhos de ambição na interpretação de Fey, mas a atriz também entende que o arco da personagem no ótimo roteiro de Robert Carlock é um em que ela aos poucos se acostuma com os riscos e a situação na qual ela vive no Afeganistão. Uma Repórter em Apuros faz um caso veemente contra a “normalidade” de qualquer situação de guerra, e espelha a jornada de sua protagonista (com todas as suas inteligentes e divertidíssimas paradas humorísticas) na de todos os outros ao seu redor, e na forma como cada um lida com isso. É um pedaço de cinema importante, como os outros que Fey produziu até hoje.

✰✰✰✰ (4/5)

16 de jun. de 2016

Review: Infinitamente imaginativo, Midnight Special é um trabalho de pleno domínio cinematográfico

midnight

por Caio Coletti

A época que estamos vivendo para a ficção científica só é comparável à época que estamos vivendo para o cinema de terror. Um resgate de técnicas e elementos clássicos que, mesmo nesse processo, ainda traz uma quantidade considerável de modernidade e ar fresco ao gênero, o novo cinema de sci-fi é obra de cineastas independentes e jovens, que renovam os rankings de Hollywood com seus sucessos inesperados e logo ganham atenção dos grandes estúdios. Jeff Nichols, embora esteja só agora investindo na ficção científica, se mostrou rapidamente um desses novos talentos – no tenso O Abrigo, no thriller criminal Amor Bandido, e agora na sci-fi Midnight Special (no Brasil, Destino Especial). Nichols é um daqueles cineastas que fazem um filme respirar sem precisar de grandes acrobacias narrativas e técnicas. Não muito diferente do que faz Spielberg, Nichols frequentemente se apropria de uma história de gênero e a coloca em filme de forma única, trabalhando temas, pesando e equilibrando revelações e mistérios com maestria.

Midnight Special é uma ficção científica no sentido mais colateral da palavra, no entanto. Sua história é sobre um garoto com habilidades especiais (não como um super-herói, como uma singularidade genética ou algo assim) cujo pai, feito por Michael Shannon, o “sequestrou” de um culto localizado em um rancho, onde o garoto viveu durante a vida toda, sendo seguido e adorado por centenas de pessoas. O pai e o menino precisam estar em determinado local, em determinado dia e horário, e tem ajuda tanto da mãe (Kirsten Dunst) quanto de um amigo que foi “convertido” pelo garoto (Joel Edgerton). O jovem Jaeden Lieberher rouba a cena de todos os atores adultos na pele do pequeno Alton, extraordinariamente contido e comprometido com o peculiar clima e proposta de Midnight Special, que é menos uma exploração das possibilidades abertas pela existência de algo fora da nossa realidade (como é a definição clássica da ficção científica), e mais uma meditação sobre a capacidade humana de acreditar.

O roteiro de Nichols contempla mais possibilidades de crenças do que a crença religiosa, no entanto. Aliás, se Midnight Special toma alguma posição quanto à religião organizada, não é uma posição muito favorável – seu olhar sobre o líder e os membros do tal “rancho” onde o menino esteve durante a infância é um que condena seus métodos e suas formas de acreditar, de usar a crença para exercer controle, de desconsiderar a humanidade de cada um pela unidade de um todo. Nichols deposita fé imensa na nossa capacidade de crer para além desses limites, no entanto, e quando Midnight Special mostra o seu protagonista mirim lendo os quadrinhos do Superman, não é a toa – existe um conflito interminável entre fantasia e realidade dentro do filme, e Nichols parece crer que esse conflito existe no mundo real também. O universo particular e íntimo que ele constrói com sua trama, que se desenvolve e se revela de maneira quase lúdica ao espectador, é um em que as duas coisas podem coexistir, metafórica e literalmente.

Trabalhando o lado do diretor de fotografia Adam Stone (Obediência), seu parceiro desde o primeiro filme da carreira, Nichols cria um filme que esconde sua beleza e seu lirismo visual por baixo de uma camada de realismo que não permite tomadas plasticamente desenvolvidas, mas as encontra nos lugares mais improváveis. Assistido por uma trilha-sonora espertamente repetitiva e evocativa de David Wingo (Especialista em Crise), Nichols cria um filme tão peculiar quanto é classicista, que usa de movimentos, ângulos e estruturas testadas e aprovadas para criar um todo que é surpreendentemente contemporâneo, calcado na linguagem independente, que não faz concessões ao sistema dos grandes estúdios hollywoodiano. Midnight Special é uma carta de amor à infinita imaginação humana, e à nossa capacidade de trazer obstinadamente essas fantasias à vida, e é também o produto de um cineasta em pleno domínio de sua arte. Nos próximos anos de cinema, fica uma dica valiosa: não tire os olhos de Jeff Nichols.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

midnight special

Midnight Speacial (EUA, 2016)
Direção e roteiro: Jeff Nichols
Elenco: Michael Shannon, Joel Edgerton, Kirsten Dunst, Jaeden Lieberher, Adam Driver, Sam Shepard, Paul Sparks, Bill Camp
112 minutos

14 de jun. de 2016

Review: Esqueça Game of Thrones; The Americans é a melhor e mais adulta série no ar atualmente

the americans

por Caio Coletti

O meu gosto por The Americans não é novidade nenhuma para quem quer que tenha acompanhado O Anagrama de 2013 pra cá. A série da FX conquistou meu coração de seriador na primeira temporada, quando era uma estreia em que ninguém estava prestando muita atenção, mas pela qual eu me senti atraído graças à ambientação nos anos 80, em meio à Guerra Fria. Eu sabia que The Americans tinha o potencial para ser uma fascinante aula de história, e eu não poderia estar mais errado. Conforme chegamos ao quarto ano, fica claro que The Americans não tem interesse algum em ser uma aula de história – quer refletir atualidades e atemporalidades muito mais do que pretende destrinchar os labirintos dos anos 80 ou da Guerra Fria, e quer afirmar sua urgência nessa atualidade. É fácil dizer que The Americans é excelente no que faz, porque ela é, mas é um pouco mais ousado declarar que ela é o drama mais adulto, mais complexo e mais importante no ar na TV americana atualmente.

Na nossa era de absoluta abundância televisiva, o que faz de The Americans uma série digna desses títulos? Se essa quarta temporada é prova de alguma coisa, é que a série de Joe Weisberg e Joel Fields só ficou melhor com o tempo, e nunca teve medo de ficar melhor dentro de seus próprios termos. De forma semelhante à Hannibal, The Americans cresceu para estabelecer um formato que explora o potencial de sua história e de seus personagens da forma mais completa possível. É um formato que exige cada vez mais paciência do espectador, desacelerando a trama e concentrando-se na densidade de seus significados, cozinhando “em fogo baixo” uma tensão que permeia a série e que a estrutura como um longo jogo de gato e rato. Não há resoluções fáceis nem rápidas em The Americans – as situações se arrastam e se ramificam, tomando proporções não previstas. Weisberg e Fields estão jogando para ganhar lá no final da série (que, segundo notícias, deve acontecer na sexta temporada), e não cedem em nenhum momento ao impulso da satisfação imediata.

Nesse quarto ano, Phillip (Matthew Rhys) e Elizabeth Jennings (Keri Russell) precisam lidar com as consequências da confissão de Paige (Holly Taylor) ao Pastor Tim (Kelly AuCoin), que agora sabe da aliança dos pais da menina à União Soviética. Enquanto isso, um novo informante ligado a área de guerra biológica, William (Dylan Baker). surge para complicar as coisas e trazer ameaças mortais para os Jennings, e a trama envolvendo Martha (Alison Wright) começa a chegar a sua potencialmente devastadora conclusão. A forma como as coisas se desenvolvem no episódio final, “Persona Non Grata” (4x13), é um testamento da coragem de The Americans em ser moralmente ambígua, da clareza de sua visão dos personagens e da trama, e de seu comprometimento com uma narrativa essencialmente adulta, que não nos dá situações mastigadas e fáceis de digerir. O mundo de The Americans é caótico, e nem sempre certo e errado estão exatamente claros no campo de batalha silencioso de nossos personagens – não é fácil de assistir, mas é genial e tremendamente honesto com a nossa realidade.

Eu não sou o único que não entende muito bem a ausência de The Americans nos Primetime Emmys todos os anos. A crítica americana tem feito campanha para as indicações acontecerem há tanto tempo quanto a série está no ar, e muita gente acha que esse ano será o momento certo para a série da FX finalmente entrar na roda da premiação mais prestigiada da TV. The Americans não é só magistralmente escrita, por todos os motivos que falei acima, como brilhantemente dirigida, com uma equipe que sabe o momento de realçar detalhes e o momento de incluir seus personagens no meio, que entende a obsessão da série pelos detalhes dos procedimentos de espionagem dos protagonistas e os dirige com o olhar metafórico (mas nunca lúdico, sempre de certa forma frio) que eles precisam. É também espetacularmente atuada, tanto pelo trabalho conjunto de um elenco harmonioso quanto pelo absoluto destaque da dupla de protagonistas.

Na pele de Elizabeth, escondendo uma gravidez por toda a temporada, Keri Russell mostra mais uma vez porque é dona da melhor atuação feminina em uma TV americana inundada de atrizes espetaculares. Sua excelência mora na sutileza e nos detalhes tanto quanto no quadro maior que pinta sobre sua personagem – há sempre algo de contínuo e algo de novo em Elizabeth, de uma forma natural que nos faça ver sua evolução sem perder a essência da personagem. Russell brilha em grandes momentos emocionais, vibra em tela com a intensidade dos impulsos contidos dentro de Elizabeth, e dá rachaduras ao casco duro de uma mulher que é tão humana e falha quanto é inquebrável e admirável. É um testamento ao talento de Matthew Rhys que seu Philip não pareça apagado ao lado dela, mas o ator encontra formas geniais de expressar as crises existenciais e a intensa dúvida e medo que perpassa o espião soviético – com um olhar que se tornou mais implacável e amargo com cada temporada, Rhys, como The Americans, só sabe ficar melhor.

O elenco coadjuvante encontra espaços para bilhar, especialmente Annet Mahendru (Nina), que faz proveito de seus últimos e tocantes momentos na série; Frank Langella (Gabriel), uma presença formidável que traz dureza e compreensão para um personagem fundamental; Alison Wright (Martha), uma bomba de emoções à flor da pele que foi presenteada com um arco de personagem espetacularmente desenhado pelos roteiristas; e Costa Ronin (Oleg), que é explorado com mais profundidade nesse ano e não deixa nem um pouco a desejar na atuação. A constituição de época, conforme os anos foram avançando, ganhou um nível de requinte que permite à série fazer um monte de referências claras a pedaços culturais da década (inclusive em títulos de episódios) sem parecer uma decisão forçada para nos localizar temporalmente. A trilha-sonora minimalista de Nathan Barr nunca esteve melhor, e o departamento de figurino e fotografia fazem um trabalho tão discreto e genial em esconder a gravidez de Keri que a série nunca parece estar realmente se esforçando para isso.

Em 13 episódios, o quarto ano de The Americans é uma evidência óbvia de que não é necessário uma narrativa ser novelesca para ser tensa e dramática – nossa familiaridade com os personagens e situações ajuda, uma vez que estamos a bordo dessa história há quase meia década, mas é a profundidade do trabalho que nos faz esquecer, ou melhor, apreciar, que esta é uma narrativa que avança devagar, como um fluído viscoso se espalhando pelo chão onde foi derramado. Uma história sobre os cantos mais obscuros da vida adulta, sobre as curvas mais inusitadas do amadurecimento e da realização de que não só “nada é tão simples quanto parecia”, como é muito mais complexo do que achamos ser. Essencialmente, The Americans usa uma guerra de tensões ocultas, ameaças e clandestinidades para nos lembrar de que se estregar a uma causa sem reservas é também perder um pouco da objetividade, e um pouco de si mesmo. A série da FX não advoga contra ou a favor disso, mas mantem os olhos argutos para encontrar a culpa, o arrependimento e a noção de inevitabilidade trágica dentro de cada um de seus personagens, não importa o lado ao qual estejam aliados. Aqui, o problema nunca é um vilão, uma maldade, um ideal equivocado – como na vida adulta que todos temos que enfrentar, o problema é todo mundo.

✰✰✰✰✰ (5/5)

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The Americans – 4ª temporada (EUA, 2016)
Direção: Thomas Shlamme, Chris Long, Kevin Dowling, Stefan Schwatz, Noah Emmerich, Kari Scogland, Dan Attias, Matthew Rhys, Daniel Sackheim, Steph Green, Nicole Kassell
Roteiro: Joel Fields, Joe Weisberg, Stephen Schiff, Tracey Scott Wilson, Peter Ackerman, Joshua Brand, Tanya Barfield, Peter Ackerman
Elenco: Keri Russell, Matthew Rhys, Frank Langella, Alison Wright, Noah Emmerich, Holly Taylor, Keidrich Sellati, Lev Gorn, Costa Ronin, Danny Flaherty, Kelly AuCoin, Vera Cherny, Dylan Baker
13 episódios

8 de jun. de 2016

Review: “A Bruxa” acha oportunidades gloriosas em uma história de simplicidade ímpar

the vvitch

por Caio Coletti

Em torno de seis meses atrás, falei aqui n’O Anagrama de Corrente do Mal (leia aqui), um dos títulos mais absolutamente impressionantes de um cinema de terror independente que está em franco e espetacular crescimento. Pelas mãos de diretores jovens e frequentemente estreantes, o gênero vem sendo renovado e recolocado como um instrumento valioso para contar histórias das mais variadas e analisar medos primordiais ao invés de medos específicos ou simplesmente aversão à violência explícita. A pedida de 2016 nesse movimento disperso, mas muito real, é A Bruxa, um pequeno drama colonial americano que ganha tintas de terror através da reimaginação de contos folclóricos, e da exploração de um elemento decisivo da época em que o filme se passa: a religiosidade fervorosa e marcantemente ditada pela culpa e paranoia em relação ao pecado, e à salvação ou danação eterna.

Em um mundo que se orienta em termos essencialmente místicos e irreais, A Bruxa constrói uma tensão muito concreta ao olhar para seus personagens com honestidade e mostrar suas psiques conforme foram moldadas pelo tempo e pelo ambiente em que vivem. De forma muito inteligente, o diretor/roteirista Robert Eggers constrói personagens de uma família atormentados por dúvidas sobre seu próprio destino, sua própria bondade e valor – o pai, William (Ralph Ineson) foi expulso do vilarejo onde a família morava ao discordar dos princípios religiosos aplicados lá, mas pode ter assinado o atestado de óbito de todos no processo, já que agora vivem na miséria; a mãe, Katherine (Kate Dickie), vive em luto pelo filho mais novo que perdeu, sumido na floresta em um momento de distração de sua filha mais velha, Thomasin (Anya Taylor-Joy), que se considera culpada pelo acontecido tanto quanto a mãe; já o filho mais velho, Caleb (Karvey Scrimshaw), luta com os primeiros sinais da puberdade tendo apenas a irmã como referência de objeto de desejo – o que, é claro, não é nada saudável.

Dizer mais que isso seria estragar os pequenos prazeres (se é que podem ser chamados assim) da narrativa de A Bruxa, um filme em que nada e tudo acontecem ao mesmo tempo. Desenhado discretamente em uma estrutura dramática muito sólida, o roteiro de Eggers deixa o espectador com os nervos à flor da pele mesmo com o ritmo lento da trama. Os que sacarem as entrelinhas e os subtextos dos diálogos, a forma como a culpa católica mudou e fragmentou esses personagens, com seus princípios de pecado original e a certeza da essencial maldade dos seres humanos, vão se ver mais entretidos do que o normal, e mais investidos nos destinos de cada um dos personagens, o que só torna as últimas viradas de trama mais eficientes.

A reconstituição de época é impecável, com o figurino de Linda Muir (Bitten) brilhando em sua fidelidade e simplicidade enquanto a trilha-sonora de Mark Korven (Cubo) enche os ouvidos do espectador com barulhos sugestivos e crescendos de violino inesperados. Jarin Blaschke (I Believe in Unicorns) completa a excelência técnica com uma fotografia que se encanta com a natureza seca ao redor da pequena fazenda da família, mas parece igualmente à vontade em espaços mal-iluminados, filmando espectros e aparições, imagens vistas por frestas nas portas, janelas, cortinas e árvores, mesmo quando nada de imediatamente sobrenatural está acontecendo em tela. Nas mãos desses profissionais, Eggers dirige com leveza, trazendo gravidade e emoção para uma história que depende dela até para assustar, e tirando de seus atores (especialmente a excepcional Anya Taylor-Joy) performances ultra-sensíveis e eficientes.

Com uma superfície simples e sutil, mas reflexões e paralelos modernos profundos para fazer, A Bruxa é um filme assombroso em mais do que um sentido – seu final perturbador fica com quem o assiste por um tempo, uma sentença de morte e maldade ainda mais aterrorizante que a filosofia fatalista de seus personagens. Se a grande marca do novo cinema de terror é a criação de monstros que não podemos derrotar, A Bruxa é um clássico da nossa época, porque não só nos diz que não somos capazes de vencer o mal que se aproxima, como mostra as consequências nefastas de uma sociedade e uma mentalidade que nos levam a abraçá-lo.

✰✰✰✰✰ (5/5)

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A Bruxa (The VVitch: A New-England Folktale, EUA/Inglaterra/Canadá/Brasil, 2015)
Direção e roteiro: Robert Eggers
Elenco: Anya Taylor-Joy, Ralph Ineson, Kate Dickie, Harvey Scrimshaw, Ellie Grainger, Lucas Dawson
92 minutos

6 de jun. de 2016

Review: “X-Men: Apocalipse” é a culminação de 16 anos de altos e baixos para os mutantes

x-men apocalypse

por Caio Coletti

Existe na internet uma base de detratores muito vocal e enfática aos filmes da franquia X-Men, versão da Fox para os mutantes da Marvel. O diretor Bryan Singer, que com Apocalipse marca seu quarto filme em uma série que, por enquanto, acumulou seis títulos na marca principal (e três spin-off), é alvo de comentários maldosos e das acusações corriqueiras de incompetência e “estragar o legado” de uma série de personagens com os quais alguns fãs tem contato desde a infância. A maior parte das críticas, no entanto, tem muito a ver com detalhes das histórias ou direções nas quais alguns personagens são levados, e embora eu mesmo tenha algumas dessas reclamações para fazer sobre X-Men: Apocalipse, é mais importante para mim que o filme mantenha o espírito, a discussão temática e o significado de uma aventura dos X-Men. E nos últimos 16 anos, uma boa lição para se tirar da franquia é que, quando Bryan Singer está no comando, esses temas e significados aparecem com muito mais proeminência.

Sob essa ótica, Apocalipse é a apoteose dessa última década e meia de aventuras das equipes lideradas por Charles Xavier e Magneto. Aqui interpretados novamente por James McAvoy e Michael Fassbender, os dois mentores seguem sendo o centro da trama, mas dessa vez as ramificações e consequências dela se espalham para uma série de personagens que converge no final para revelar o filme como o conto da criação de uma equipe ou, olhando por um lado mais emocional, uma família de rejeitados absurdamente diversa se unindo sob uma orientação e um ideal em comum. Esse é, e sempre foi, o espírito de uma história dos X-Men – uma história essencialmente sobre o senso de comunidade tomando protagonismo em um momento em que a dificuldade de lidar com um mundo que nos rejeita é grande demais para carregar sozinho.

As imagens conjuradas por Bryan Singer são essenciais para que esse mesmo espírito seja traduzido em linguagem cinematográfica com competência. O diretor nova-iorquino é dono de um olho excepcional para metáforas visuais e enquadramentos significativos, montando o todo do filme através de uma familiaridade espetacular com o universo em que transita – ao mesmo tempo em que cria cenários e situações que são únicas a esse capítulo da franquia. A forma como Singer filma o vilão Apocalipse, com a ajuda do departamento de maquiagem e da direção de fotografia de Newton Thomas Sigel (Drive), mostra ao mesmo tempo a aspiração de grandeza do vilão e sua eventualmente patética natureza. Apocalipse é a falsa divindade que a figura messiânica representada por Charles precisa combater, e o clímax trabalha sombras e escala com habilidade excepcional. X-Men nunca foi, e ainda não é, uma metáfora cristã – mas em Apocalipse a franquia se torna também uma reflexão sobre nossas crenças, o que leva a elas, e para onde elas nos levam.

É uma extensão natural dos temas da série que o roteiro de Simon Kinberg, veterano da franquia, tira de letra. A chave aqui é perceber que Kinberg tem a ajuda de Michael Dougherty (Contos do Dia das Bruxas) e Dan Harris (Heróis Imaginários) na elaboração da história do filme, o que basicamente significa que, embora Kinberg tenha redigido a versão final, Dougherty e Harris foram os responsáveis por desenhar a trama e as implicações dela. A dupla em questão não aparecia na franquia dos mutantes desde o essencial X-Men 2 (2003), até hoje o melhor filme da série – é latente como o retorno de Dougherty e Harris se reflete no aprofundamento de determinados elementos. Há tempos não víamos em X-Men um diálogo consistente como o que acontece entre Charles e Mística/Raven (Jennifer Lawrence) no comecinho: “Só porque não há uma guerra não significa que há paz”. X-Men: Apocalipse é também sobre o preconceito que resta quando a sociedade finge se livrar das encarnações mais primárias e visíveis dele.

A trama já é mais ou menos de conhecimento geral: após milênios adormecido, o mutante todo-poderoso Apocalipse (Oscar Isaac) é renascido por alguns fanáticos religiosos, que o acreditam um Deus. Reunindo uma série de outros mutantes que se juntam a ele após rejeições e sofrimentos de diferentes espécies, Apocalipse planeja “recomeçar” o mundo a sua imagem e semelhança, após entrar em contato com a cultura atual e concluir que os seres humanos “estão no caminho errado”. Uma equipe jovem de mutantes sob a  tutela de Xavier e a liderança de Mística, que só quer salvar Magneto das garras ideológicas do vilão, se junta para combatê-lo, mas o poder de Apocalipse pode ser grande demais para eles. No front das cenas de ação, Apocalipse entrega exatamente o que promete em seu título: destruição em escala gigantesca, uma dose saudável de lutas mano-a-mano que exploram os poderes de novos mutantes como Psylocke (Olivia Munn) e a reintroduzida Tempestade (Alexandra Shipp), e até uma participação especial empolgante revelada no trailer.

Os membros do elenco que retornam para personagens introduzidos em X-Men: Primeira Classe (2011) são os destaques das atuações, obviamente, e a Michael Fassbender (Magneto) é dado o material mais denso e interessante do filme, com um arco que incluí uma tragédia pessoal encenada de maneira absurdamente tocante pelo ator. Entre os recém-chegados, vale destaque para Isaac, que interpreta um vilão formidável com ares de arrogância e ameaça que seus personagens anteriores no cinema não demonstravam; e para Sophie Turner (Jean) e Kodi Smit-McPhee (Noturno), imediatamente memoráveis em papeis assumidos anteriormente pelos pesos pesados Famke Janssen e Alan Cumming. Um detalhe que salta aos olhos além do elenco, no entanto, é o quanto os efeitos especiais de Apocalipse tem um visual completamente único a eles, simplesmente porque não há a pretensão de realismo incutida nem no trabalho de câmera nem na elaboração plástica dos efeitos.

Em X-Men: Apocalipse, fagulhas roxas dançam em torno do vilão principal enquanto ele “transfere de corpo”, os raios invocados por Tempestade aparecem em tom, detalhes e efeitos vibrantes, a lâmina de energia conjurada por Psylocke brilha em um rosa luminoso, e as asas de Arcanjo soltam afiadas penas de metal. É um mundo fantasioso que não se desculpa por sê-lo, e é um espetáculo visual que só uma audiência mimada com efeitos de configuração padronizada poderia deixar de apreciar. Ao mesmo tempo, é o filme de super-heróis mais socialmente importante de 2016 – aparentemente, é possível sim ter tudo.

✰✰✰✰✰ (5/5)

x-men apocalypse 2

X-Men: Apocalipse (X-Men: Apocalypse, EUA, 2015)
Direção: Bryan Singer
Roteiro: Simon Kinberg
Elenco: James McAvoy, Michael Fassbender, Jennifer Lawrence, Nicholas Hoult, Oscar Isaac, Rose Byrne, Evan Peters, Josh Helman, Sophie Turner, Tye Sheridan, Lucas Till, Kodi Smit-McPhee, Ben Hardy, Alexandra Shipp
144 minutos