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21 de jun. de 2015

Review: Uma lição de empatia com “Sense8”

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por Caio Coletti

Quando os irmãos Wachowski apareceram nos cinemas com O Destino de Júpiter, no comecinho desse ano, a impressão era que Hollywood havia ficado pequena demais para as mentes criativas de Andy e Lana, a dupla nativa de Chicago que havia conseguido fama depois do sucesso sem precedentes de Matrix, em 1999. Acomodada no template hollywoodiano de construção de personagem e trama, a ópera especial dos Wachowski sofria de uma atitude condescendente em relação a sua protagonista feminina, de um excesso de elementos atirados em direção à história e recortados dentro de um filme de duas horas, e de uma direção de arte/maquiagem/efeitos especiais sem muita criatividade. Cinco meses depois do fiasco, Andy e Lana se juntaram ao roteirista de quadrinhos J. Michael Straczynski e aportaram no Netflix com Sense8, uma obra que não só faz jus aos temas e ambições dos Wachowski como se recusa a “caber” em qualquer caixinha hollywoodiana, consolidando a plataforma do Netflix como um desafiante natural do status quo da indústria.

Isso não quer dizer que o serviço de streaming escape, por exemplo, da influência da crítica especializada sob a opinião do espectador (entre outros vícios e virtudes do esquema de indústria de entretenimento com o qual estamos acostumados), mas é impossível negar que sem a liberdade de uma plataforma que produz conteúdo direcionado a um público que consegue se fazer ouvir com mais facilidade, Sense8 nunca teria sido concebida e viabilizada do jeito que foi. Cada vez mais, o Netflix se torna um recanto para produções que atendem uma demanda “invísível” aos grandes estúdios e emissoras, afogados na prepotência de quem se acostumou a ditar as tendências e preferências do próprio público. Mais bacana ainda é perceber que, desse novo processo de criação representado pelo Netflix, surgiu uma narrativa tão humana quanto Sense8 – a série dos Wachowski e de Straczynski é uma tour de force de empatia, nos obrigando a enxergar a glória e a derrocada que existe dentro de cada um de seus personagens, que variam de uma mulher transsexual a uma executiva coreana (entre os protagonistas), de um gângster queniano a um policial conservador aposentado (entre os coadjuvantes).

O escopo da produção e da história é gigantesco, talvez até mais do que aquele apresentado no subestimado A Viagem, que os Wachowski dirigiram ao lado de Tom Tykwer (que também assina alguns episódios dessa primeira temporada) em 2012. Enquanto naquele filme, estrelado por Tom Hanks e Halle Berry, entre outros nomes estrelados, em vários papéis diferentes que cobriam desde o século XIX até o futuro longínquo da Terra, a repetição dos membros do elenco auxiliava em uma interpretação conjunta do que cada história significava em contexto, costurando destinos e criando uma poderosa mensagem sobre aceitação e rebeldia, em Sense8 a linearidade quase imperturbável da trama (são só alguns flashbacks durante a temporada) torna ainda mais espetacular o feito dos roteiristas em conjugar essas oito narrativas numa única direção. Sense8, com sua produção internacional, seu elenco absurdamente diverso e sua edição sutilmente brilhante, cria uma espécie de magia cinematográfica que vemos muito raramente na produção contemporânea: aquela que aparece quando um cineasta ousa ser ambicioso para além das medidas recomendadas, e espetacularmente faz tudo funcionar pelo caminho. Testemunhar as cenas de ação que integram os oito protagonistas “sensitivos” da trama é uma experiência imersiva que nos lembra da capacidade fantástica da ficção de desfilar o impossível diante de nossos não-mais-tão-incrédulos olhos.

Como não deve ser novidade para ninguém, a trama cobre a história de oito pessoas ao redor do mundo que, depois do ato desesperado de uma misteriosa mulher (Daryl Hannah), descobrem ter uma conexão única. Eles são sensate, e fazem parte de um mesmo grupo, o que significa que todos dividem pensamentos, sensações, habilidades e conhecimentos entre eles, e podem acessá-los quando bem entenderem (ou quase isso, uma vez que nossos heróis não exatamente dominam suas habilidades ainda). Diminuir cada um desses personagens a um estereótipo é não fazer jus ao que cada um deles representa, então é melhor não listá-los nesse review – um dos maiores prazeres de Sense8 é descobrí-los por tudo o que eles são e tudo o que têm para acrescentar à experiência dos outros. Isso não vale só para as cenas de ação, citadas ali em cima, mas principalmente para os diálogos que transcorrem quanto um dos oito faz uma “visita” ao outro durante um momento crucial. O que os Wachowski e Straczynski fazem aqui é, essencialmente, nos mostrar o quanto somos mais fortes juntos, e o quanto somos mais belos quando nos permitimos ser humanos e falhos. Poucas vezes a plataforma da ficção científica foi usada para sublinhar um tema tão fundamental, e de uma forma tão comovente.

De certa forma, Sense8 é parecido com A Viagem no sentido de querer conversar com o espectador sobre aceitação. Não só aceitação do outro por aquilo que ele tem diferente de nós, mas aceitação de nós mesmos pelo que temos de diferente do resto do mundo – é na peculiaridade de cada um de seus personagens, e no olhar profundo de solidariedade que lança a cada um deles (até aqueles que talvez não mereçam tanto) que Sense8 encontra aquilo que a faz mais do que uma série notável pelo que arquiva tecnicamente. A força da narrativa está em cada uma das atuações, com destaque especial para a atriz transsexual Jamie Clayton (que interpreta a também transsex Nomi), a ótima Doona Bae (Sun), Tuppence Middleton (Riley) e Aml Ameen (Capheus/Van Damme). Em certo ponto da série, a hacker Nomi expressa o medo que sente, ao começar a ter experiências sensoriais conectadas aos outros sensate, de que lentamente sua individualidade, seu eu, possa sumir em meio à identidade coletiva. A beleza da série dos Wachowski é mostrar que não precisa ser assim – que o eu pode existir, da mesma forma que sempre existiu, dentro de um nós muito maior que ele.

✰✰✰✰✰ (5/5)

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Sense8 (EUA, 2015)
Direção: The Wachowskis, James McTeigue, Tom Tykwer, Dan Glass
Roteiro: J. Michael Staczynski & The Wachowskis
Elenco: Aml Ameen, Doona Bae, Jamie Clayton, Tina Desai, Tuppence Middleton, Miguel Ángel Silvestre, Max Riemelt, Brian J. Smith, Freema Agyeman, Daryl Hannah, Alfonso Herrera, Erendira Ibarra, Terrence Mann, Naveen Andrews
1ª temporada - 12 episódios

19 de jun. de 2015

Review: “Jurassic World” não reinventa a roda, mas tem o bastante para divertir

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por Caio Coletti

No ano passado, mesmo com todas as latentes falhas no roteiro de seu Godzilla, o diretor Gareth Edwards fez jus ao seu status de cineasta surgido do cinema independente e distorceu o mito de um dos maiores símbolos da indústria do entretenimento (no Japão e nos EUA) em um filme que se importava com construção de personagem e suspense, preferindo sugerir ameaça, atiçar o espectador quanto a dimensão do seu monstro, do que mostrá-lo. Jurassic World chegou aos cinemas no último dia 11 com a assinatura de outro diretor vindo do cenário indie (Colin Trevorrow, cujo único filme anterior foi a ficção científica lo-fi Sem Segurança Nenhuma) e um fardo pesado de expectativas. Jurassic World, no entanto, não é nenhum Godzilla – no final das contas, é mais fácil para Hollywood mexer em um ícone que não é essencialmente seu do que subverter as expectativas em uma série de filmes criada pelo grande cineasta de blockbusters da história da indústria, que repetiu a fórmula em duas continuações e continuou atraindo um público considerável.

O roteiro confeccionado à oito mãos por Rick Jaffa e Amanda Silver (Planeta dos Macacos: A Origem) em parceria com Trevorrow e Derek Connolly, que também escreveram Sem Segurança Nenhuma, ganha alguns pontos por estar plenamente consciente de que não está reinventando a roda. Pelo contrário, muito de Jurassic World é uma tremendamente reverente homenagem ao cânone do blockbuster hollywoodiano, seja nas insistentes referências que faz ao filme original ou nos seus elementos emocionais mais eficientes,  que residem na relação entre os irmãos interpretados por Ty Simpkins (Homem de Ferro 3) e Nick Robinson (Melissa & Joey). O filme confia muito na eficácia de determinados clichês estabelecidos pela indústria, e em grande parte pelo próprio Spielberg, e o resultado nesses momentos é, obviamente, tão misto quanto a legitimidade dos clichês em si.

Enquanto os diálogos entre os irmãos funcionam, por exemplo, a relação entre a personagem de Bryce Dallas Howard e o de Chris Pratt afunda tanto na caracterização dele, um machão sabe-tudo de quem é praticamente impossível gostar (não que Pratt não tente!), quanto no desprezo mal-disfarçado que nutre pela moça, uma mulher de carreira resoluta que é constantemente deslegitimada pelo roteiro por “querer estar no controle” – o filme só se salva dessa atitude misógina lá no final, quando são dadas algumas atitudes heroicas para a personagem de Howard, e a atriz sem dúvida faz o seu melhor para humanizá-la além dos limites e piadas de mau-gosto que o roteiro dispensa à figura dela. Para além dessa construção de personagens, Jurassic World repete muitas das mensagens e metáforas dos três filmes que o antecederam, tocando no assunto da presunção de controle que o homem sente sobre a natureza e criando mais algumas figuras que, conforme o filme passa, são obrigadas a encarar que trazer dinossauros de volta da extinção significa criar vida, não apenas atrações para um parque temático (ou armas, aliás) – e vida não se permite estar sob o controle de ninguém.

O melhor parte do filme é que o diretor Trevorrow empresta da cartilha de Spielberg também a forma de dirigir as cenas de ação, uma mais impressionante do que a outra. Jurassic World faz cara feia para as aventuras de hoje em dia que se apoiam no caos visual (câmeras trepidantes, borrões de violência), preferindo usar o som para sugerir aquilo que a exigência etária não deixa mostrar e estabelecer para o espectador com exatidão cada desenvolvimento das sequências. Em nenhum momento, em Jurassic World, aquela sensação desesperadora de não saber exatamente o que está acontecendo toma conta do espectador – pelo contrário, o suspense e a angústia vem dessa precisão, dessa vontade de nos mostrar exatamente onde estamos, e em que cantos da câmera estão as ameaças. Há muito tempo um blockbuster não usa a limitação da visão cinematográfica para causar suspense e adrenalina como Jurassic World. Uma pena que essa realização esteja à serviço de um roteiro tão pouco imaginativo.

✰✰✰ (3/5)

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Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros (Jurassic World, EUA/China, 2015)
Direção: Colin Trevorrow
Roteiro: Rick Jaffa, Amanda Silver, Colin Trevorrow, Derek Connolly
Elenco: Chris Pratt, Bryce Dallas Howard, Vincent D’Onofrio, Ty Simpkins, Irrfan Khan, Nick Robinson, Jake Johnson, Omar Sy, BD Wong, Judy Greer, Katie McGrath, Jimmy Fallon
124 minutos

17 de jun. de 2015

Review: “The Honourable Woman” é uma história amarga que precisava ser contada

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por Caio Coletti

De todas as decisões corajosas tomadas pela SundanceTV, uma emissora de séries e minisséries prestigiadas e frequentemente polêmicas, exibir The Honourable Woman, uma produção britânica, nos EUA talvez tenha sido a mais afrontosa. A minissérie em oito partes (nove no Netflix, sabe-se lá porque) dirigida, escrita e produzida por Hugo Blick é, entre tantas outras coisas que se propõe a ser, uma condenação convicta da política externa americana e do uso dos conflitos no Oriente Médio como parte de uma negociação por prestígio internacional, pela manutenção da imagem do país do Tio Sam como um salvador universal e uma autoridade justa e confiável no campo político intercontinental. E essa condenação é só uma pequena parte de tudo o que The Honourable Woman abraça em sua narrativa monumental, que engloba um determinado espaço de tempo mas não se esquece de apresentá-lo como uma consequência de atos cometidos muito antes e que reverberarão muito depois.

Quem melhor pega essa dica do roteiro é Maggie Gyllenhaal, é claro, e ela é o centro nervoso de The Honourable Woman. A atriz americana emerge dentro da persona de Nessa Stein, uma empresária judia que acaba de ser apontada para integrar o poder legislativo britânico, e transformou a empresa construída pelo seu pai para inicialmente prover armas de guerra para o povo israelense em uma das maiores negociadoras de paz e oportunidade igual entre Israel e Palestina. Na atuação de Gyllenhaal, no entanto, Stein nunca é exatamente essa cifra que o roteiro nos apresenta no início, esse mistério de intenções que aos poucos vai se desenrolando e passamos a conhecer – desde o primeiro episódio, Nessa é uma mulher completa, com inseguranças e dissimulações, nervosismos e segredos escondidos no mais profundo âmago de seu ser. Há algo de assombroso até na voz que Maggie escolhe para a personagem, no sotaque sutil e no tom grave e distante de sua Nessa, parte integral da história e peso que a atriz lhe empresta de forma profundamente dedicada. O resultado é uma protagonista que, assim como a trama de The Honourable Woman, vive e respira para muito além do que nos é mostrado em tela.

Isso não quer dizer que Hugo Blick não amarre bem sua trama – pelo contrário, o episódio final é pragmático em juntar as pontas da narrativa e finalizar o discurso de The Honourable Woman com uma declaração forte e coerente sobre a forma como o ciclo de violência torna impossível a elaboração de algum tipo de paz entre esses dois povos. A história humana da família Stein e da misteriosa Atika (Lubna Azabal, igualmente espetacular em sua sutileza) reflete à perfeição a visão amarga que Blick quer nos mostrar, através da ficção, dessa situação muito real. A minissérie produzida pela BBC é o melhor tipo de thriller político: aquele que não apaga as reverberações emocionais da sua história em favor de um discurso puramente prático, mas as usa para emprestar profundidade e pathos a ele. The Honourable Woman é uma história de resignação, culpa, desconfiança e segredos, que é brutal ao retratar o interminável ciclo de ódio e vingança que existe naquela região do mundo, a viciosa disputa entre dois povos cujo passado impede uma reconciliação. Em um conflito onde todo mundo teve suas famílias e vidas despedaçadas por alguém do outro lado da fronteira, que esperança existe de reconciliação? The Honourable Woman quer nos dizer que promover a paz em um campo de batalha tão injusto e antigo é uma missão tão fútil quanto os cabos de comunicação que Nessa e sua empresa estão tentando instalar na Cisjordânia.

O estilo de direção de Blick, assim como sua escrita, é dado à imagens fortes e marcantes. Sua câmera brinca com iluminação, slow-motion, ângulos improváveis e formatações diferentes de encenação dentro dos cenários que tem disponíveis. A abertura da minissérie dá dicas de alguns desses momentos, provendo ao espectador um fascinante quebra-cabeças para montar entre os muitos oferecidos por The Honourable Woman. A labiríntica trama de espionagem protagonizada pelos ótimos Stephen Rea e Janet McTeer também é assim, ajudando e confundindo o espectador ao mesmo tempo, fornecendo pequenas doses de informação e escondendo outros aspectos dela que serão revelados só depois, mesmo que tenham sido discretamente plantados muito antes. Com estilo e muita coisa a dizer, The Honourable Woman discursa não só sobre Oriente Médio como também sobre confiança, a naturalidade do ser humano em mentir e enganar, o descaso com a vida que alguns aspectos da política implicam (para algumas pessoas), a relação de gênero entre homem e mulher, a posição na qual a mulher é colocada na sociedade, e alguns outros temas menores. É uma obra ambiciosa e vasta, executada com as doses certas de precisão cirúrgica e paixão pelos temas e personagens – e é uma das minisséries mais corajosas, inteligentes e brilhantes em muitos anos.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

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The Honourable Woman (Inglaterra/EUA, 2014)
Direção e roteiro: Hugo Blick
Elenco: Maggie Gyllenhaal, Stephen Rea, Lubna Azabal, Katherine Parkinson, Andrew Buchan, Janet McTeer, Eve Best, Igal Naor, Lindsay Duncan
8/9 episódios

Emmy watch – possíveis indicações:
Melhor Minissérie
Melhor Atriz em Minissérie ou Filme (Maggie Gyllenhaal)
Melhor Atriz Coadjuvante em Minissérie ou Filme (Janet McTeer)
Melhor Atriz Coadjuvante em Minissérie ou Filme (Lubna Azabal)
Melhor Direção em Minissérie ou Filme (Hugo Blick)
Melhor Roteiro em Minissérie ou Filme (Hugo Blick)

14 de jun. de 2015

Review: Com “Ex Machina”, a ficção científica finalmente entende a matéria-prima da humanidade



por Caio Coletti

Em certo momento de Ex Machina, ficção científica comandada por Alex Garland (Sunshine, Extermínio, Dredd), os dois protagonistas masculinos dialogam em frente a um quadro do pintor americano Jackson Pollock, conhecido pelas obras abstratas e geralmente feitas em telas gigantescas, nas quais deixava respingar tinta da forma que sua mente sentisse ser a certa no momento. Durante o diálogo, Nathan (Oscar Isaac) descreve o processo de Pollock como “arte automática”, e pergunta ao colega Caleb (Domhnall Gleeson) o que teria acontecido se Pollock tivesse decidido o contrário, ou seja: que não pintaria nada que não fosse provido de intenção. O jovem programador não hesita: “Ele não teria feito uma marca sequer na tela”. Ex Machina, em muitos sentidos, é um filme sobre intenção – sobre premeditação e sobre a construção de uma narrativa emocional que, na cabeça de cada personagem, envolve a relação com aqueles ao seu redor e os motivos que existem por trás delas. Garland não escreveu um filme otimista sobre a natureza humana, como é costume de seus colegas de ficção científica, mas talvez, ao não fazê-lo, tenha escrito o retrato mais claro dela que já tivemos no gênero.

Conhecemos Caleb como apenas mais um programador da Blue Book, empresa gigantesca comandada por Nathan cujo principal produto é o serviço de busca online mais acessado do mundo (o Google da realidade do filme, digamos assim). Ele é inesperadamente convocado para o retiro recluso do seu patrão, um bunker ultramoderno isolado do mundo e cheio de medidas de segurança que só fazem deixar o moço mais tenso, e conhece Ava (Alicia Vikander), uma inteligência artificial moldada na forma de mulher que Nathan criou e quer que Caleb teste. A ideia principal é que nas interações com Caleb a androide mostre não apenas domínio perfeito da linguagem e da simulação do que é ser humano, muito menos consciência de si própria, mas intenção (ela de novo) na construção de um relacionamento específico com o programador. Muito cedo no filme, Caleb contesta se Nathan programou Ava para flertar com ele, e a questão de repente se torna mais complexa: Ava está fingindo gostar do personagem de Gleeson para arquivar algum objetivo (o que a faria um ser dotado de intenção, sem dúvida), está de fato apaixonada por ele, ou foi criada para fazer isso?


O roteiro de Garland deixa o espectador no suspense até o final, mas nem por isso se torna maçante no miolo. Há uma multidão de coisas acontecendo e sendo discutidas no limitado cenário do filme, seja na relação antagônica mal-disfarçada entre Nathan e Caleb, na ironia de que Garland usa para retratar esses dois homens quebrados de maneiras diferentes, no cuidadoso estudo da relação entre masculino e feminino na estrutura social (dentro e fora do bunker de Nathan), na discussão da possibilidade e da significância de uma inteligência artificial para a história da humanidade. Ex Machina, como todo grande filme, é uma história cheia de significados que se desenrolam com elegância pelo roteiro de Garland, mas é firmemente no retrato da intenção de cada personagem que ele se coloca. E há algo de puro, algo de bonito, algo de egoísta e algo de feio em todos eles – com a ajuda de um elenco pequeno, mas brutalmente eficiente, o resultado é uma fábula com pulso dramático retumbante.

Isaac e Vikander estão especialmente excepcionais, apesar de Gleeson segurar a estrutura do filme nas costas com a facilidade de quem nasceu para ser astro. Talvez justamente por isso ele dê mais espaço para os outros dois brilharem, especialmente a sueca Vikander em um papel tão intrigante que fica difícil não se pendurar em cada palavra e expressão da moça. Ela não decepciona os espectadores ávidos, abraçando o espírito do filme e criando uma interpretação que passeia confortavelmente na linha da ambiguidade, usando o rosto e a linguagem corporal (sim) de maneira espetacular para transmitir emoções e, ao mesmo tempo, nos deixar buscando pelo significado de cada uma delas nas entrelinhas. Sua Ava é simulação e intenção ao mesmo tempo, e dado o desenvolvimento final da trama, não há nada mais adequado do que isso. Isaac, por outro lado, consolida seu nome como um dos mais interessantes jovens astros de Hollywood na composição de um Nathan intenso, que conscientemente desafia os estereótipos do nerd mas eventualmente sucumbe a vícios e desejos terrivelmente humanos. Não é um personagem simpático, e Isaac não o interpreta assim, mas lhe injeta uma dimensão emocional grandiosa, exagerada, para que o espectador entenda suas ações – funciona, e muito.

O que esses dois atores entendem em meio ao mundo lindamente filmado de Ex Machina é que esse é um film noir disfarçado de ficção científica, completo com sua própria femme fatale, envolvida com um protagonista supostamente abusivo e enlaçada pelo salvador em seu cavalo branco. Ou quase isso, porque Ex Machina é também uma subversão de ambos os gêneros (noir e sci-fi), nos presenteando enfim com um filme capaz de mostrar o lado mais manipulador e patético da natureza humana sem perder de vista o fato de que a artificialidade, por toda a sua ostentosa beleza fria de aço e circuitos eletrônicos, não é nem um pouco mais bonita, no final das contas.

✰✰✰✰✰ (5/5)












Ex Machina (Inglaterra, 2015)
Direção e roteiro: Alex Garland
Elenco: Doomhnall Gleeson, Oscar Isaac, Alicia Vikander
108 minutos

11 de jun. de 2015

Completando o álbum: Mais 10 ótimos “guest stars” que vimos em mais de uma série


por Caio Coletti

Para os apreciadores realmente ávidos de séries de TV, algumas das categorias mais bacanas de se acompanhar nos Emmys são aquelas que premiam os atores e atrizes convidados. São quatro estatuetas que são distribuídas nesse filão, duas para homens e duas para mulheres (uma para os/as melhores em comédia, e outra para drama), e por lá passam desde os astros e estrelas de cinema que fizeram aparições especiais em títulos da televisão americana até os celebrados character actors da indústria. Esses últimos nomes, especialmente, ganham o carinho dos que acompanham uma grande quantidade de séries, uma vez que se tornam presenças familiares, mesmo que apareçam em apenas um par de episódios por série. Além de aparecerem recorrentemente na nossa rotina de seriadores, no entanto, o mais bacana é ver como esses profissionais injetam vida em tipos bem diferentes, provando sua versatilidade e valor.

Já listamos 10 desses maravilhosos aqui, e agora reunimos outros 10 só para completar:


 Bianca Lawson

A californiana Bianca Jasmine Lawson está com 36 anos, completados no último dia 20 de Março. No entanto, pelo menos até 2012, a moça ainda interpretava uma estudante de colegial em Pretty Little Liars, a ultra-bem-sucedida teia de intrigas da ABC Family. A adolescência eterna dessa atriz cheia de recursos e sempre certeira no tom talvez seja herança do papel que a fez famosa, a Megan Jones de Saved by the Bell: The New Class, série na qual esteve entre 1993 e 1994. A partir daí ela engatou participações em tantas séries que fica difícil contar, seja em episódios isolados de procedurals (Bones, Nikita) ou em papéis mais destacados em séries geralmente dirigidas ao público jovem. A gente tem um carinho especial pela personagem dela em Teen Wolf, da MTV, a misteriosa conselheira da Beacon Hills High School – principalmente porque o papel a permitiu “virar a casaca” e se tornar a adulta da história.

Vimos em: American Horror Story (2011, 1 episódio); Witches of East End (2014, 10 episódios); Teen Wolf (2012-2015, 16 episódios)

Também esteve em: Saved by the Bell: The New Class (1993-1994, 39 episódios); Sister Sister (1995-1996, 7 episódios); Buffy the Vampire Slayer (1997-1998, 3 episódios); Dawson's Creek (1999-2000, 4 episódios); Strong Medicine (2001, 1 episódio); The Cleaner (2008, 2 episódios); Bones (2009, 1 episódio); The Secret Life of the American Teenager (2009, 6 episódios); Nikita (2010, 1 episódio); Pretty Little Liars (2010-2012, 22 episódios); Beauty and the Beast (2012, 1 episódio); 2 Broke Girls (2012, 1 episódio); The Vampire Diaries (2009-2014, 6 episódios); Chicago P.D. (2015, 1 episódio)

No cinema: O primeiro papel significativo de Lawson no cinema foi sob o comando de Mike Nichols (Closer), na dramédia política Segredos do Poder, em 1998. O começo auspicioso, no entanto, não rendeu muito: a atriz fez o hit adolescente No Balanço do Amor, em 2001; o terror Bones, ao lado de Snoop Dogg; e as comédias Quebrando as Regras (com Jamie Foxx) e Universidade do Prazer (com Paris Hilton).


Mark Pellegrino

Do magnânimo Jacob de Lost ao próprio príncipe do inferno em Supernatural, Mark Pellegrino já interpretou (literalmente) os dois opostos da balança celestial. Ele também tem uma coleção invejável de tipos humanos, no entanto, com uma carreira de guest star que vem desde o final dos anos 80 e atravessou vários marcos da televisão americana, da comédia Doogie Howser M.D. (que, para quem não sabe, lançou a estrela de Neil Patrick Harris), passando por The Unit, Grey’s Anatomy, Dexter, Prison Break e a versão americana de Being Human, na qual interpretou um policial vampiro (sim!). Recentemente o ator tem conseguido se firmar em papéis mais destacados, aparecendo na cancelada The Tomorrow People como um cientista e na nova The Returned – a adaptação da série francesa Les Revenants já está com segunda temporada quase garantida pelo Netflix e pela A&E.

Vimos em: The X Files (1999, 1 episódio); Ghost Whisperer (2009, 1 episódio); Lost (2009-2010, 7 episódios); Person of Interest (2012, 1 episódio)

Também esteve em: L.A. Law (1987, 1 episódio); Doogie Howser M.D. (1989, 1 episódio); Tales from the Crypt (1990, 1 episódio); Northern Exposure (1992, 1 episódio); Renegade (1995, 1 episódio); E.R. (1996, 1 episódio); Nash Bridges (1996, 1 episódio); The Sentinel (1996, 1 episódio); Crossing Jordan (2002, 1 episódio); NYPD Blue (1997-2002, 4 episódios); The Unit (2006, 1 episódio); Without a Trace (2006, 2 episódios); Burn Notice (2007, 1 episódio); Grey's Anatomy (2007, 1 episódio); Dexter (2006-2007, 8 episódios); Numb3rs (2008, 1 episódio), Prison Break (2008, 1 episódio), Criminal Minds (2008, 1 episódio); CSI (2005-2009, 2 episódios); The Mentalist (2009, 1 episódio); CSI: Miami (2003-2011, 2 episódios); Breakout Kings (2011, 1 episódio); The Closer (2011, 6 episódios); Chuck (2008-2012, 2 episódios); Castle (2012, 1 episódio); Supernatural (2009-2012, 10 episódios); Grimm (2012, 1 episódio); Revolution (2012-2013, 4 episódios); Being Human (2011-2014, 15 episódios); The Tomorrow People (2013-2014, 22 episódios); Chicago P.D. (2015, 1 episódio); The Returned (2015, 10 episódios)

No cinema: Apesar de não ser um rosto muito conhecido, Pellegrino foi requisitado por diretores de calibre como Richard Donner (Máquina Mortífera 3); os Irmãos Coen (O Grande Lebowski); David Lynch (Cidade dos Sonhos); William Friedkin (Caçado); David Mamet (Spartan) e Phillip Kauffman (A Marca). Esteve também em A Lenda do Tesouro Perdido e O Número 23.



Joe Morton

O veteraníssimo Joe Morton é um dos atores mais respeitados da sua geração hoje em dia. Depois de vencer o tão esperado Emmy, pela atuação em Scandal, no ano passado, a carreira desse nova-iorquino só promete mais grandes coisas para os próximos anos. A escalação para o drama Proof, novo procedural da TNT, só prova a popularidade do ator, que atua na TV desde o comecinho dos anos 70, tendo passado por clássicos como Mission Impossible e Miami Vice. Os papéis mais conhecidos, no entanto, vieram mais tarde na carreira, especialmente depois das cinco temporadas que passou na comédia Eureka, da SyFy, uma das séries mais subestimadas da década passada. Desde então, as participações em The Good Wife e na própria Scandal mantiveram o rosto do ator na mídia, e ele pôde ser visto em um pequeno papel em Grace and Frankie, comédia do Netflix capitaneada por Jane Fonda e Lily Tomlin.

Vimos em: The X Files (2000, 1 episódio); House M.D. (2005, 1 episódio); Numb3rs (2007, 1 episódio); The Good Wife (2009-2011, 11 episódios); Eureka (2006-2012, 76 episódios); Grace and Frankie (2015, 1 episódio)

Também esteve em: Mission Impossible (1970, 1 episódio); M*A*S*H (1976, 1 episódio); Miami Vice (1985, 1 episódio); Who’s the Boss (1986, 1 episódio); The Equalizer (1987-1989, 4 episódios); A Different World (1992, 7 episódios), Homicide: Life on the Street (1994, 2 episódios); The Practice (2002, 1 episódio); Touched by an Angel (1996-2002, 2 episódios); Smallville (2001-2002, 4 episódios); Law & Order: SVU (2003, 1 episódio); Law & Order (1992-2005, 5 episódios); JAG (2005, 1 episódio); CSI: NY (2005, 2 episódios); Boston Legal (2008, 1 episódio); Warehouse 13 (2009, 1 episódio); Brothers & Sisters (2009, 2 episódios); White Collar (2010, 1 episódio); Scandal (2013-2015, 38 episódios)

No cinema: Morton ficou famoso pelo papel em O Exterminador do Futuro 2, em que interpretou o inventor do processador que permitiu a ascensão da Skynet. Também esteve em Velocidade Máxima, O Aprendiz, Enigma do Espaço, Ali, O Mistério da Libélula, O Pagamento, Stealth – Ameaça Invisível e O Gângster.


Aisha Hinds

Uma ex-dançarina de sapateado (!) que foi aconselhada por seu professor à procurar uma forma de expressão “mais completa”, Hinds não começou cedo em Hollywood, arquivando a primeira participação na TV aos 28 anos, em NYPD Blue. Mesmo assim, o look inconfundível da atriz nova-iorquina foi ganhando espaço na plataforma, especialmente depois do papel maior em The Shield, aclamado drama policial da FX. O sucesso a fez ser frequentemente escalada como figura de autoridade, especialmente membro da força policial – foi assim em Invasion, em Prison Break e em Detroit 1-8-7. Ela quebrou o paradigma ao ser escalada como uma exorcista em True Blood, e como a mãe de uma das protagonistas de Under the Dome, a bagunçadíssima adaptação de Stephen King empreendida pela CBS. No thriller Cult, que infelizmente teve vida curta na CW, ela mostrou potencial dramático e versatilidade como a detetive que tem um passado misterioso conectado ao culto do título.

Vimos em: Medium (2005, 1 episódio); Lost (2006, 1 episódio); Cult (2013, 7 episódios); Under the Dome (2013-2015, 13 episódios)

Também esteve em: NYPD Blue (2003, 2 episódios); E.R. (2004, 1 episódio); The Shield (2004, 8 episódios); Boston Legal (2004, 1 episódio); Crossing Jordan (2004, 1 episódio); CSI: NY (2005, 1 episódio); Judging Amy (2005, 1 episódio); Invasion (2005-2006, 15 episódios); It's Always Sunny in Philadelphia (2006, 1 episódio); Stargate SG-1 (2006, 1 episódio); Cold Case (2007, 1 episódio); Bones (2008, 1 episódio); Law & Order: SVU (2009, 1 episódio); Prison Break (2009, 2 episódios); Dollhouse (2009, 1 episódio); Desperate Housewives (2009, 1 episódio); Hawthorne (2009-2010, 8 episódios); True Blood (2008-2010, 8 episódios); Weeds (2010, 3 episódios); CSI: Miami (2011, 1 episódio); NCIS: Los Angeles (2014, 3 episódios)

No cinema: A maioria do trabalho de Hinds se concentra na TV, mas vale registrar os papéis em Assalto à 13ª Delegacia, com Ethan Hawke; Instinto Secreto, com Kevin Costner; Incontrolável, de Tony Scott; 72 Horas, de Paul Haggis; Além da Escuridão - Star Trek, de J.J. Abrams; Se Eu Ficar, com Chloe Grace Moretz; e Nos Bastidores da Fama, de Gina Prince-Bythenwood.


Nestor Carbonell

Os olhos profundos desse outro nova-iorquino causaram comoção quando ele ganhou destaque no elenco de Lost, interpretando o misteriosamente (ah, vá!) imortal Richard Alpert. Acontece que, com seus cílios negríssimos como os cabelos, Carbonell parece estar sempre com os olhos maquiados – e o mais legal é que ele usa esse destaque chamativo do rosto para adicionar intensidade a suas interpretações, que já passaram pelos tipos mais diversos antes e depois da aparição em Lost. Exemplos diametralmente opostos: em Wilfred, a surreal comédia da FX, ele interpretou um médico casado que tem um caso com a irmã do protagonista (Elijah Wood) e a abandona quando descobre que ela está grávida; já em Person of Interest, ele foi um simpático número-da-semana em uma trama envolvendo uma reunião de classe 10 anos depois da formatura. Atualmente Carbonell aparece como o xerife de White Pine Bay, que tem uma complicada relação com Norma Bates (Vera Farmiga), em Bates Motel.

Vimos em: House M.D. (2005, 1 episódio); Lost (2007-2010, 37 episódios); Person of Interest (2014, 1 episódio); The Good Wife (2014, 1 episódio); Wilfred (2011-2014, 3 episódios); Bates Motel (2013-2015, 27 episódios)

Também esteve em: Law & Order (1991, 1 episódio); Melrose Place (1992, 1 episódio); A Different World (1992, 2 episódios); The John Larroquette Show (1996, 1 episódio); Resurrection Blvd. (2000, 6 episódios); Ally McBeal (2002, 1 episódio); Monk (2004, 1 episódio); Scrubs (2004, 1 episódio); Strong Medicine (2004-2006, 11 episódios); Commander in Chief (2006, 1 episódio); Cold Case (2006, 3 episódios); Psych (2010, 2 episódios); Ringer (2011-2012, 22 episódios); State of Affairs (2014-2015, 7 episódios)

No cinema: Você provavelmente se lembra dele como o prefeito de Gotham City em O Cavaleiro das Trevas e O Cavaleiro das Trevas Ressurge, os dois últimos filmes da trilogia Batman de Christopher Nolan. Atuou também sob o comando de Andy Garcia em A Cidade Perdida.


Peter Scolari

Geralmente, quando se fala de Peter Scolari, cita-se o fato de que o ator é um dos melhores amigos do astro Tom Hanks em Hollywood – os dois dividiram uma sitcom de vida curta no comecinho dos anos 80, chamada Bosom Buddies. Enquanto o colega engatou carreira cinematográfica e acabou ganhando um par de Oscar pelo caminho, no entanto, Scolari continua como um dos talentos mais subestimados de Hollywood – e, agora aos 60 anos, se tornou uma lenda viva da televisão. Indicado três vezes ao Emmy pelo trabalho na sitcom Newheart, entre 1984 e 1990, o ator hoje se destaca em dois papéis recorrentes bem distintos para duas emissoras. Na HBO ele interpreta o pai da protagonista Lena Dunham em Girls, um personagem que ganhou uma storyline curiosa na quarta temporada, abrindo espaço para uma ótima atuação de Scolari. Já na Fox ele faz o inescrupuloso comissário de Gotham City (antes de Gordon, que na história é apenas detetive) em Gotham.

Vimos em: Girls (2012-2015, 15 episódios); Gotham (2015, 4 episódios)

Também esteve em: Bosom Buddies (1980-1982, 37 episódios); Remington Steele (1982, 1 episódio); Happy Days (1983, 1 episódio); Hotel (1986, 1 episódio); Family Ties (1986, 1 episódio); The Love Boat (1986, 3 episódios); The Twilight Zone (1988, 1 episódio); Newhart (1984-1990, 142 episódios); Empty Nest (1994, 1 episódio); Lois & Clark: The New Adventures of Superman (1994, 1 episódio); Dave's World (1994-1995, 2 episódios); The Drew Carey Show (1996, 1 episódio); The Nanny (1997, 1 episódio); Honey, I Shrunk the Kids: The TV Show (1997-2000, 66 episódios); Touched by an Angel (1994-2001, 2 episódios); Ally McBeal (2001, 1 episódio); Reba (2002, 1 episódio); King of Queens (2002, 1 episódio); E.R. (2002, 1 episódio); The West Wing (2002, 1 episódio); What I Like About You (2002, 1 episódio); Sabrina the Teenage Witch (2003, 1 episódio); Big Love (2006, 1 episódio); White Collar (2013, 1 episódio)

No cinema: A amizade com Tom Hanks rendeu as duas maiores aparições cinematográficas da carreira de Scolari: no musical The Wonders, dirigido pelo próprio Hanks; e na animação por-captura-de-performance O Expresso Polar.

Fiona Gubelmann

A doce e linda Fiona Gubelmann vem lentamente cavando seu espaço na televisão na última década. Desde a estreia em 2004, em um episódio do procedural Cold Case, ela engatou uma série de outras participações ínfimas em séries de sucesso e tom bastante variável, se firmando como uma character actress importante da nova geração. Foi com a escalação para o papel de principal interesse romântico do protagonista Elijah Wood em Wilfred que a loira começou a chamar mais atenção, e desde então os convites, especialmente das séries cômicas, começaram a pipocar. A sensibilidade e timing que Fiona mostrou por quatro temporadas na comédia da FX foi requisitada por Modern Family, New Girl, Mad Men e Melissa & Joey, isso tudo só no último ano desde o final de Wilfred.

Vimos em: Don't Trust the B---- in Apartment 23 (2013, 1 episódio); Wilfred (2011-2014, 35 episódios); Modern Family (2014, 1 episódio);

Também esteve em: Cold Case (2004, 1 episódio); Joey (2005, 1 episódio); CSI: NY (2007, 1 episódio); My Name is Earl (2007, 1 episódio); The Closer (2009, 1 episódio); Californication (2009, 1 episódio); Parenthood (2011, 2 episódios); Criminal Minds (2012, 1 episódio); Friends With Better Lives (2014, 1 episódio); Key and Peele (2014, 1 episódio); New Girl (2015, 1 episódio); Mad Men (2015, 1 episódio); Melissa & Joey (2015, 1 episódio)

No cinema: O papel cinematográfico de maior destaque na carreira da jovem Fiona foi em Escorregando Para a Glória, como coadjuvante de Will Ferrell e Jon Heder. No entanto, ela tem dois filmes engatilhados para os próximos anos, ambos trazendo-a no papel principal: o thriller Dispatch e a comédia The Way We Weren't.


Victor Garber

O canadense Victor Garber é um daqueles atores que fez a transição (e continua equilibrando) a Broadway com os papeis na televisão – outros que andam nessa linha junto com Garber são Jane Krakowski, Alan Cumming e Kristin Chenoweth, por exemplo. Ao contrário dos colegas citados, no entanto, Garber segue sendo primariamente coadjuvante em todos os seus papeis na TV e no cinema, e habilidosamente rouba a cena em quase todos eles. Nas duas temporadas da precocemente cancelada Eli Stone, ele interpretou o chefão de uma firma de advogados que, durante a série, mostra um lado sensível e musical – e é fanzoca do George Michael, é claro. Indicado seis vezes ao Emmy, Garber nunca venceu um prêmio da academia da televisão, mas desde o sucesso do seu papel em Alias, de J.J. Abrams, as escalações só aumentaram.

Vimos em: Eli Stone (2008-2009, 26 episódios); Glee (2009, 1 episódio); 30 Rock (2011, 1 episódio); The Good Wife (2014, 1 episódio); Sleepy Hollow (2014, 1 episódio); Web Therapy (2009-2014, 8 episódios)

Também esteve em: Tales from the Darkside (1985, 1 episódio); The Twilight Zone (1986, 1 episódio); E.N.G. (1991-1993, 10 episódios); Kung Fu: The Legend Continues (1994, 1 episódio); Law & Order (1995, 1 episódio); The Outer Limits (1996-2000, 2 episódios); Frasier (2000, 1 episódio); Will & Grace (2004, 1 episódio); Alias (2001-2006, 105 episódios); Ugly Betty (2007, 1 episódio); ReGenesis (2007-2008, 5 episódios); Nurse Jackie (2009, 2 episódios); Murdoch Mysteries (2011, 1 episódio); SGU Stargate Universe (2011, 1 episódio); Suits (2011, 1 episódio); Flashpoint (2011, 3 episódios); The Big C (2012, 1 episódio); Damages (2012, 1 episódio); Republic of Doyle (2010-2013, 4 episódios); Louie (2014, 1 episódio); Blue Bloods (2014, 1 episódio); Power (2014, 7 episódios); Motive (2015, 4 episódios); Flash (2015, 5 episódios)

No cinema: Garber ficou marcado, no cinema, pelo personagem que interpretou em Titanic. No entanto, esteve também na clássica comédia romântica Sintonia do Amor; no misterioso Exótica (do diretor Atom Egoyan); na comédia Clube das Desquitadas; e no vencedor do Oscar Argo, no papel do embaixador canadense.

Alan Tudyk

A bem da verdade, Alan Tudyk é um dos character actors mais importantes da indústria americana não só por suas participações na TV, mas também pela atuação no teatro e no cinema, em que vive surpreendendo o público com os tipos diferentes que consegue encarnar. Na telinha o sucesso veio depois de Firefly, ficção científica de Joss Whedon (Os Vingadores) que foi cancelada após só uma temporada, mas ganhou status de cult e continuação em forma de filme, o ótimo Serenity. Desde então, Tudyk foi escalado para outras ficções (V e Dollhouse, essa última também sob o comando de Whedon), para papéis mais dramáticos (Justified) e para personagems cômicos, nos quais mostrou particular destreza. Apesar dele estar na insuperável Arrested Development, nosso Tudyk preferido ainda é o de Suburgatory, série da ABC na qual ele interpretou o hilário Noah.

Vimos em: Arrested Development (2005-2013, 3 episódios); Suburgatory (2011-2014, 47 episódios)

Também esteve em: Strangers with Candy (2000, 2 episódios); Frasier (2000, 1 episódio); Firefly (2002-2003, 14 episódios); CSI (2006, 1 episódio); V (2009, 3 episódios); Dollhouse (2009-2010, 4 episódios); Justified (2014, 1 episódios); Newsreaders (2014-2015, 14 episódios)

No cinema: O ator marcou presença em inúmeros coadjuvantes, como o Wat de Coração de Cavaleiro e (sim!) o Sonny de Eu, Robô. Outro destaque na enormemente variada filmografia de Tudyk são os trabalhos de dublagem para A Era do Gelo (com vários personagens nos 4 filmes!), Detona Ralph e Frozen.


Amy Sedaris

Das poucas comediantes americanas que não surgiram no Saturday Night Live, Amy Sedaris fez seu nome primeiro com uma série própria, a nem tão bem-sucedida mas muito celebrada Strangers With Candy, e depois como uma presença marcante em várias das melhores séries cômicas da sua época. Ela esteve em Sex and the City, My Name is Earl, The New Adventures of Old Christine, The Middle, 30 Rock, Hot in Cleveland e Raising Hope, sendo especialmente marcante nessa última, como a prima invejosa da protagonista feita pela fabulosa Martha Plimpton. Nos papéis em séries dramáticas, engatou três episódios em The Good Wife, e ainda esteve em Rescue Me e The Closer. É difícil dissociar o rosto de Sedaris do mundo das séries atualmente, e isso é testemunha de quase duas décadas de trabalho duro e presença marcante em todos esses títulos.

Vimos em: The New Adventures of Old Christine (2009, 1 episódio); The Good Wife (2011-2012, 3 episódios); 30 Rock (2012, 1 episódio); Raising Hope (2011-2014, 3 episódios); Unbreakable Kimmy Schmidt (2015, 1 episódio)

Também esteve em: Strangers With Candy (1999-2000, 30 episódios); Just Shoot Me! (2001, 2 episódios); Sex and the City (2002-2003, 4 episódios); Monk (2002-2003, 2 episódios); Ed (2004, 2 episódios); Law & Order: SVU (2004, 1 episódio); My Name is Earl (2006, 1 episódio); Rescue Me (2007, 2 episódios); The Closer (2009, 2 episódios); The Middle (2010, 1 episódio); Royal Pains (2011, 1 episódio); Hot in Cleveland (2011, 2 episódios); Necessary Roughness (2012, 1 episódio); Broad City (2014, 1 episódio); Alpha House (2013-2014, 14 episódios); The Heart She Hollers (2013-2014, 22 episódios)

No cinema: Sedaris roubou a cena em papéis coadjuvantes em Sete Dias Sete Noites, Encontro de Amor, Escola de Rock, Um Duende em Nova York, A Feiticeira, Garota Infernal e Surpresa em Dobro. Também fez memoráveis trabalhos de dublagem em O Galinho Chicken Little, Shrek Terceiro e Gato de Botas.

6 de jun. de 2015

5 álbuns que fazem dez anos em 2015 (e merecem ser lembrados)



Estamos há 15 anos no terceiro milênio, e em plena segunda década dos anos 2000, ainda tem gente que acha que não se produz nada de qualidade, artisticamente como um todo, hoje em dia. Ou, talvez mais certeiramente, nada que “sobreviva ao tempo” como algumas relíquias culturais de décadas atrás sobreviveram. Os cinco álbuns listados abaixo completam uma década de lançamento esse ano. E, além de sua influência ser sentida até hoje no mundo da música (o que prova sua importância histórica), eles continuam sendo peças brilhantes por si mesmos. Pièces de resistance, por assim dizer.

Arular 
Lançamento: 22 de Março de 2005
Gravadora: XL/Interscope
Produção: Paul Byrne, Cavemen, Diplo, KW Griff, Richard X, Switch, Anthony Whiting, Wizard
Duração: 38m06s

por Caio Coletti

A quantidade de contradição sobre a qual o mundo contemporâneo está erguido só se tornou mais absurda desde o lançamento de Arular, disco de estreia de M.I.A. Em termos musicais e artísticos no geral, no entanto, poucas obras representam tão bem o que pode transpirar dessas contradições do que o álbum batizado em homenagem ao pseudônimo político do pai da cantora, parte de um grupo revolucionário do Sri Lanka, de onde M.I.A. e a família fugiram em meio a um violento conflito. Naturalizada na Inglaterra, M.I.A. se tornou uma verdadeira esponja de influências e significações – formada em uma prestigiada faculdade de artes britânica e influenciada tão fortemente pelo hip-hop quanto pelos ritmos jamaicanos, brasileiros e cosmopolitas que aparecem no álbum, a documentarista-transformada-em-cantora criou um álbum desafiadoramente pluralista, que expandiu as barreiras do gênero que os americanos chamam de world music.

Na afamada “Bucky Done Gun” (abaixo), o produtor Diplo inseriu ritmos e dicas que vieram direto do funk carioca (inclusive admitindo a inspiração da música "Injeção", de Deize Tigrona). O estilo dancehall jamaicano, que assombrou a música americana por muito tempo no começo da década passada, inclusive trazendo Rihanna da ilha de Barbados para os EUA, inspira boa parte do álbum. Batidas realizadas a partir de sons de objetos como celulares, canetas e brinquedos comprados pela cantora na Índia formam a surpreendentemente empolgante "Hombre". Composto quase todo por M.I.A., incialmente em um instrumento que junta bateria eletrônica e sintetizador, Arular é, musicalmente, um exercício de pop dançante filtrado por uma sensibilidade corajosamente independente. Ousado, mas também absolutamente grudento. Firmado no sentimento do it yourself que inspirou o punk britânico, mas também obsessivamente lapidado e compilado por profissionais de estúdio e pela própria M.I.A., claramente uma perfeccionista.

Tematicamente, o álbum esconde temas políticos fortes e polêmicos ("Sunshowers" não era exibida na MTV americana sem um aviso que isentava a emissora da mensagem expressada na letra) e mistura a sensibilidade metropolitana da M.I.A. que experimentou tanta pobreza quanto riqueza na Inglaterra, e conheceu as atribulações políticas do mundo no Sri Lanka. Saudada por muitos, na época do lançamento do álbum, por trazer essa consciência política de volta à música pop, M.I.A. criou um álbum que não tem medo de parecer descartável, usar símbolos superficiais relacionados a uma cultura que por décadas foi considerada “marginal” à expressão artística humana. De fato, a missão da cantora-compositora-produtora, nesse sentido, parece ser resgatar esses símbolos considerados menores e imbui-los de uma mensagem e um propósito social e cultural que os torne atemporais. Tanto conseguiu que cá estamos, em pleno 2015, reafirmando que Arular é um dos discos pop mais inteligentes do nosso século.


Demon Days 
Lançamento: 11 de Maio de 2005
Gravadora: Parlophone
Produção: Gorillaz, Danger Mouse, Jason Cox, James Dring
Duração: 50m40s

por Caio Coletti

“Demon Days”, a faixa-título do segundo álbum de estúdio do Gorillaz, é o melhor exemplo da mistura absurda de gêneros que é a fundação do projeto paralelo de Damon Albarn (Blur). Em pouco mais de 4 minutos, a faixa passeia por sintetizadores distorcidos, desagua em uma melodia pop cantada pelo coral gospel de Londres e encobre tudo com uma batida e um riff de guitarra diretamente advindos da reggae music. De forma absolutamente corajosa, “Demon Days” é ainda a canção de encerramento do álbum, deixando que a obra da banda de desenho animado mais famosa de todos os tempo termine com uma nota completamente diferente daquela que deu o tom do álbum (seja tematicamente ou musicalmente). Com seu clima ensolarado, “Demon Days” é o exato oposto do disco de “pop sombrio” (nas palavras de Albarn) que o Gorillaz fez em parceria com o sempre fabuloso produtor Danger Mouse, o homem responsável pelas batidas do Gnarls Barkley e do álbum Little Broken Hearts de Norah Jones. O Gorillaz sempre foi, em sua essência, o projeto no qual Albarn pode descarregar sua excentricidade musical, mas Demon Days arquiva um nível de discurso musical que o frontman do Blur ainda não superou, mesmo 10 anos depois.

A primeira parte do disco pulsa com uma urgência inédita na música do Gorillaz - "Last Living Souls", "Kids With Guns" e "O Green World" se apóiam na guitarra e no baixo para nos inserir no mundo quase pós-apocalíptico do qual a banda nos traz mensagens pessimistas. Os vocais de Albarn são o destaque nessas primeiras faixas, dando vida às letras feitas sob medida para evocar imagens de desolação e abandono, como se o Gorillaz nos trouxesse avisos de um futuro em que a Terra não passa de um enorme deserto e as antigas realizações da nossa civilização sejam apenas ruínas esquecidas. O produtor Danger Mouse enche esse espaço vazio com sutilezas musicais, pacotes de cordas inesperados e intervenções de backing vocals e sintetizadores, mas a mensagem continua ali. Assim como continua, aliás, o cerne hip-hop do Gorillaz, que aparece mais a partir do lead single, “Feel Good Inc.” (abaixo) e ainda cria a pérola "DARE", comandada pelo rapper Shaun Ryder.

Assim que o primeiro terço do álbum nos climatizou com o mundo que o Gorillaz representa, Albarn e Danger Mouse se sentem mais a vontade para brincar com ritmos e instrumentações. Alguns dos melhores resultados são a grudenta "Dirty Harry", apoiada por um coral de crianças que se junta ao vocalista Albarn (ou devemos nos referir a ele como 2D?) e a excentricamente tropical "El Mañana". Em "Every Planet We Reach is Dead", os teclados de Ike Turner emprestam uma modulação soul ao som do grupo que casa surpreendentemente bem com o tom melancólico do disco. Demon Days é um álbum conceitual que não precisa ser narrativo para levar o ouvinte em uma viagem por outro mundo (ainda que seja um assustadoramente parecido com o nosso) – até a faixa falada "Fire Coming Out of the Monkey's Head" é críptica e cheia de metáforas. Como bem colocou o crítico do Pop Matters na época, o arco de Demon Days não é narrativo, e sim musical.


Oh No 
Lançamento: 30 de Agosto de 2005
Gravadora: Capitol
Produção: Tore Johansson
Duração: 41m40s

por Caio Coletti

No post de 5 álbuns que fazem dez anos de 2014, um dos nossos destaques foi o álbum de estreia do Franz Ferdinand, uma das bandas de rock mais importantes da nossa era e os definidores iniciais de uma estética muito particular que é comum, hoje, em grupos como o Two Door Cinema Club e o Passion Pit. Oh No é o álbum que colocou os americanos do OK Go no mapa, depois do sucesso estrondoso de "A Million Ways" nos EUA e de "Here it Goes Again" (abaixo) no resto do mundo. Com a ajuda do super-produtor sueco Tore Johansson, que trabalhou com o próprio Franz Ferdinand, entre muitos outros artistas, o quarteto de Chicago produziu um dos discos de rock mais divertidos, dançantes e únicos das últimas décadas. Os dois singles citados são exemplos perfeitos da dicotomia que o Oh No carrega: a começar pelo mais famoso, que ganhou vídeo no qual os integrantes se arriscam numa complexa coreografia em cima de esteiras – “Here it Goes Again” é uma empolgante gema pop-rock, com um refrão grudentíssimo e repetitivo que, graças ao arranjo genioso do produtor Johansson, nunca fica cansativo.

Cheio de backing vocals e versos gritados, a canção mais famosa da banda rima com várias outras do disco que seguem a mesma fórmula (com graus variados de sucesso): "Television, Television" é ótima, mas "Crash the Party" talvez seja a mais bacana, discursando sobre um relacionamento que dispensa “suavidade, cortesia, cavalheirismo e charme” para trocá-los por uma bela noitada a dois. Em certo ponto da música, o vocalista e compositor Damian Kulash confessa: “Eu não sou muito bom com sutilezas”. E de fato é a abordagem refrescantemente direta e honesta do OK Go diante de melodias e ganchos pop em meio a uma elaboração instrumental claramente rock que os torna únicos: ao contrário do esteticamente sofisticado Franz Ferdinand, os meninos de Chicago usam os mesmos elementos para fazer música de uma forma mais intensa e clara.

Em “A Million Ways” e algumas outras faixas, no entanto, emerge um OK Go capaz de tratar as melodias com mais gentileza, e um Damian Kulash de voz mais suave. São canções meio-amargas e machucadas que a banda trabalha para expressar musicalmente sem sair da zona de conforto do álbum – as duas canções finais ("Maybe This Time" e "The House Wins") estão entre os momentos mais brilhantes do álbum, e mostram sombras da banda ainda mais inteligente que o OK Go se tornaria nos anos seguintes. Colando vários elementos da estética de bandas que surgiram no rastro do Franz Ferdinand, o OK Go usa esse território entre o pop e o rock para experimentar com instrumentais, composição e uma temática simples de relacionamentos e decepções. Os moços de Chicago não só fizeram história com a videografia, portanto, como contribuíram muito para o que chamamos de pop rock contemporâneo.


A Fever You Can’t Sweat Out
Lançamento: 27 de Setembro de 2005
Gravadora: Decaydance/Fueled By Ramen
Produção: Matt Squire, Panic! At the Disco
Duração: 40m15s

por Henrique Fernandes

Numa época em que o emo estava no auge e que os adolescentes glorificavam My Chemical Romance, Fall Out Boy e Simple Plan, o Panic! At The Disco apareceu pra colocar um pouco de circo e teatralidade no cenário musical. A Fever You Can't Sweat Out é aquele tipo de debut que faz as pessoas duvidarem se a banda conseguirá lançar álbuns que o superem (no caso do Panic descobrimos que a banda se reinventa totalmente a cada disco e nem é possível fazer comparações). Foi um grande sucesso de crítica e público por muitas razões. Dividido em duas partes, o CD apresenta rock, pop, eletro, pianos e cordas num conjunto muito competente. Munidos de excelentes composições do guitarrista Ryan Ross, que trazem referências a livros de Chuck Palahniuk e filmes como Closer, além da potência vocal do vocalista Brendon Urie, o Panic! At The Disco conseguiu criar, junto com os outros integrantes, uma sonoridade única. Junto disso, a banda trouxe um visual Vaudeville para os clipes, shows e performances, tornando-se uma de suas marcas registradas naquela época.

A primeira parte do CD te leva para um futuro nostálgico com grandes músicas como "The Only Difference Between Martyrdom And Suicide Is Press Coverage" e "Time To Dance", que carregam grandes melodias pop rock com inteligentes intervenções eletrônicas que obrigam os ouvintes a dançar. No meio do CD, Brendon Urie declara que é impossível para eles continuarem com a música eletrônica e se desculpa com uma interlude de piano, dando início a segunda parte do CD e uma volta ao tempo onde os cabarés, o circo e o sexo eram os protagonistas. A sonoridade aqui mistura pianos, guitarras, acordeão e muitas cordas. Dessa parte do CD saiu "I Write Sins Not Tragedies" (abaixo), o maior sucesso da banda. O clipe, que conta uma história de amor carregada de ironia e com ares circenses de plano de fundo, ganhou o prêmio de melhor clipe do ano no VMA.

Quando a maioria das bandas de rock que os jovens ouviam estavam preocupados em usar preto, escrever músicas tristes e provocar o choro adolescente, o Panic! At The Disco apareceu para colocar o povo para dançar com suas músicas animadas, suas letras provocativas e sexys e um visual diferente. A Fever You Can't Sweat Out é um CD curto, coeso e completo. Devido a sua originalidade, se tornou um disco atemporal que deu ao Panic uma boa reputação. Os garotos de Las Vegas, naquela época todos na faixa dos 18 anos, fizeram muitos deixarem de chorar para dançar num cabaré moderno.


Confessions on a Dance Floor 
Lançamento: 11 de Novembro de 2005
Gravadora: Warner Bros
Produção: Madonna, Stuart Price, Mirwais Ahmadzai, Bloodshy and Avant
Duração: 56m34s

por Caio Coletti

Já fazem 10 anos, e ninguém ainda compôs um álbum pop melhor que o Confessions on a Dance Floor. Curiosamente, o disco é também o 10º na discografia de Madonna, e o último da sua carreira (outros três vieram depois dele) a receber críticas realmente entusiasmadas com o resultado conseguido pela rainha do pop. A parceria com o produtor Stuart Price (conhecido pelo trabalho com o The Killers e com o Pet Shop Boys) faz muita diferença nesse sentido, canalizando a energia compositiva que Madonna ainda tinha uma década atrás para um álbum que é paradoxalmente contemporâneo e retrô, como qualquer grande obra pop. A influência e a reputação do Confessions o precedem, sendo apontado por muitos como o álbum que trouxe o revival setentista e oitentista para a música pop eletrônica do século XXI, que arrancou essa influência do underground e o trouxe para o amebiente mainstream. Madonna sempre foi uma artista capaz de detectar as ondas sonoras do mundo alternativo e trazê-las para a música comercial, mas há algo de ainda mais subversivo e saboroso no Confessions, um álbum pop feito para ser ouvido de ponta-a-ponta numa época em que o processamento de música é muito imediato, e muito preso ao formato do single.

É impossível diminuir o Confessions a uma seleção de hits, seja porque o produtor Price o faz um todo coeso, seja por causa da decisão de intercalar as faixas como se não houvesse “pausa” entre elas, como um set de DJ. “Hung Up” (abaixo), "Sorry" e "Jump" foram os destaques na época, mas até essas faixas inexistem sem o contexto maior do disco, que mistura as referências oitentistas com um verniz de tecno moderno, fazendo do Confessions a trilha-sonora perfeita (e atemporal) para uma noite iluminada pelas luzes da pista de dança. Isso não significa que o disco não tenha peso lírico – conforme as faixas progridem, as letras se tornam mais substanciais, com o tema confessional guiando discussões sobre religião ("Isaac" é insuperável) e um instrumental mais guiado pelo violão dando a deixa para a última faixa, "Like it Or Not", ser a faixa mais fierce de uma artista que já mostrou tremenda resiliência nesses 30 anos de carreira.

Em um mundo pop em que tudo é essencialmente descartável (o que não significa que tudo seja essencialmente ruim), é a marca de um artista que realmente entende o meio em que está se metendo a criação de uma obra capaz de resistir ao tempo. Confessions on a Dance Floor não é só um disco que merece ser celebrado pelo que trouxe de definidor para aquilo que veio depois dele, mas um disco que merece ser celebrado simplesmente pelo que é. Lindamente composto, melodicamente espetacular, com o melhor trabalho de um dos melhores produtores do nosso século, o 10º álbum de Madonna sobrevive como a prova que, para falar dela, não basta dizer que “um dia ela já for relevante”. Com obras como Confessions, a ítalo-americana arquiva aquilo que qualquer artista, pop ou não, almeja: a imortalidade.