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Review: Liga da Justiça

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15 de jan. de 2015

Previsões para o Oscar 2015: Melhor Atriz

531169807PH00392_72nd_AnnuaJulianne Moore com seu Globo de Melhor Atriz – Drama por Para Sempre Alice

por Caio Coletti

A categoria de Melhor Atriz é sempre uma das mais concorridas do Oscar, e também a que provoca mais debates devido à eterna discussão sobre a qualidade dos papéis femininos em Hollywood. Em 2015, a lista inclui uma mulher deprimida tentando salvar o emprego, a esposa corajosa de um dos maiores cientistas de todos os tempos, uma sociopata de primeira categoria, uma aventureira da vida real que percorreu quase 2000 km a pé, e a professora com Alzheimer precoce interpretada por Julianne Moore, que deve sair vitoriosa da noite de 22 de Fevereiro.

As indicadas:

Marion Cotillard, por Dois Dias, Uma Noite
(2ª indicação, 1 vitória)
Felicity Jones, por A Teoria de Tudo
(1ª indicação)
Julianne Moore, por Para Sempre Alice
(5ª indicação)
Rosamund Pike, por Garota Exemplar
(1º indicação)
Reese Witherspoon, por Livre
(2ª indicação, 1 vitória)

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Aposte em
Julianne Moore, por Para Sempre Alice

Aos 54 anos, com nove indicações ao Globo de Ouro (2 vitórias) e outras cinco ao Oscar, Julianne Moore é uma das atrizes americanas mais respeitadas de sua geração. Nada mais justo, portanto, que finalmente ganhe a sua estatueta, e dessa vez todos os sinais apontam para isso: a atriz já tem 9 troféus de prêmios críticos empilhados na prateleira pela atuação, e o Globo de Ouro confirmou seu favoritismo. Na pele de uma professora de linguística que se vê em uma situação desesperadora ao começar a esquecer palavras, Julianne apresenta uma das performances mais vulneráveis e relevantes da sua carreira. No discurso do Globo de Ouro, ela agradeceu aos diretores Richard Glatzer e Wash Westmoreland (Quinceañera) por fazerem o filme, uma vez que todos achavam que “ninguém queria ver a história de uma mulher de meia-idade”. O filme também conta com Alec Baldwin, Kate Bosworth e Kristen Stewart no elenco.

TRAILER

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Torcemos por
Rosamund Pike, por Garota Exemplar
Marion Cotillard, por Dois Dias, Uma Noite

Na verdade, ficaremos bem felizes se a nossa previsão de vitória para Julianne se confirmar, mas ao mesmo tempo decepcionados que essas duas não possam levar o prêmio também. São dois papéis bem diferentes para atrizes bem diferentes: Pike, a intérprete da assustadora Amy de Garota Exemplar, é uma londrina de 36 anos, que até cair nas graças de David Fincher era conhecida por papéis coadjuvantes em Orgulho e Preconceito e Jack Reacher, entre outros; a francesa Cotillard já tem uma estatueta em casa, pela atuação como Edith Piaf em Um Hino ao Amor, de 2008, mas continua entregando uma atuação magistral atrás da outra na brilhante filmografia que construiu. Enquanto o triunfo de Pike como Amy é esconder muitas camadas de personagem por baixo das infinitas encenações e mentiras do filme de Fincher, Cotillard despe-se de vaidade e apresenta emoção crua no filme dos irmãos Dardenne, uma das pérolas mais subestimadas do ano.

Garota Exemplar: REVIEWTRAILER
Dois Dias, Uma Noite: REVIEWTRAILER

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Esqueceram de
Jennifer Connelly, por Noé

Sabemos que Noé é um filme falho (apesar de termos gostado bastante do épico estranho que Darren Aronofsky fez), mas não poderíamos deixar de citar a atuação espetacular de Jennifer Connelly nele. A verdade é que, num mundo justo, a moça seria uma daquelas atrizes que é habitué do Oscar, aparecendo em indicações de quando em quando e ameaçando ganhar às vezes – uma outra Meryl Streep ou, numa escala menor, Amy Adams. Só para citar alguns momentos em que ela deveria ter sido lembrada: Criação (2009), Diamante de Sangue (2007), Casa de Areia e Névoa (2003) e Réquiem para um Sonho (2000). Como Naameh, a esposa do profeta que dá nome ao filme de Aronofsky, Connelly injeta a aventura/drama do diretor com uma humanidade intensa, fugindo do papel submisso que a história lhe oferece e criando uma expressão emocional muito viva para a personagem. Merecia, e muito, a indicação.

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12 de jan. de 2015

Review: A humanidade crua e delicada de “Dois Dias, Uma Noite”

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por Caio Coletti

Quando se tem um histórico de depressão, as pessoas começam a te tratar de forma diferente. Embora a condição clínica da protagonista Sandra (Marion Cotillard) não seja exatamente o foco de Dois Dias, Uma Noite, a reação daqueles em volta dela na agonizante jornada documentada pelo irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne é muito importante para entender o que o filme quer passar. Saindo de uma longa luta contra a doença, Sandra precisa visitar seus colegas de trabalho para convencê-los a deixá-la retornar ao seu posto, mesmo que isso signifique – segundo o chefe da companhia – a perda do bônus de final de ano de todos eles. É uma tour de force de resistência, e de negação do próprio orgulho, que a personagem tem que passar, tudo enquanto luta contra os traços remanescentes da depressão. É também uma oportunidade única para os Dardenne realizarem um estudo social de profundo significado humano.

Jean-Pierre e Luc são queridinhos de longa data do cinema europeu, têm duas Palmas de Ouro na prateleira (por Rosetta e A Criança, de 1999 e 2005, respectivamente), e são conhecidos pelo estilo “câmera-na-mão” de fotografia, além do costume de não escalar grandes astros em seus filmes. O papel central que Marion desempenha em Dois Dias, Uma Noite, portanto, é uma exceção dentro da carreira dos cineastas, mas é uma exceção mais do que acertada – difícil pensar em outra atriz sendo capaz de interpretar Sandra com tamanha vulnerabilidade, transparência absoluta de emoções e uma linguagem corporal que expressa de costas mais do que muitas atuações seriam capazes em pleno close-up. Há algo nos olhos da atriz francesa, vencedora do Oscar por Piaf, que legitima o constante bravado de Sandra, que rejeita os sentimentos de pena do marido e de vários de seus colegas de trabalho, mas há também o retrato de uma mulher verdadeiramente em pedaços, lutando contra uma força muito maior que ela para se recompor.

Conduzida pela câmera delicada e íntima dos Dardenne, Marion é o corpo e a alma de Dois Dias, Uma Noite (e poucas vezes essa frase tão batida foi usada com tanta justiça): ela nos leva por uma jornada que tem muito a mostrar a cada parada pelo caminho. O roteiro assinado pelos dois irmãos cineastas colore uma ampla gama de reações e emoções ao passar por cada uma das pessoas que Sandra visita, documenta cada encontro com uma tonalidade diferente e parece querer nos mostrar o quanto a maneira como os outros nos veem pesa nos meandros da nossa vida. Citar qualquer uma dessas cenas seria estragar o ponto de Dois Dias, Uma Noite, a constante expectativa na qual a estrutura da história nos deixa, a honestidade brutal e (ao mesmo tempo) sutil com a qual o filme observa cada personagem, sem cair em maniqueísmos fáceis e falsos moralismos.

Cheio de momentos poderosos, o filme dos Dardenne passa sua mensagem com a quietude e a pouca pretensão que é marca indelével do cinema francês. Retratando uma realidade dura e intransponível, que não pode ser salva por atos heroicos ou superações magníficas que provam o espírito humano acima de qualquer provação, Dois Dias, Uma Noite é muito menos uma fábula moral (como facilmente poderia ser, nas mãos de roteiristas menos inteligentes) e muito mais uma reafirmação humanista. Quer nos lembrar que a força da vida, essa incansável vontade de continuar em frente que é justamente o que não nos mantem inertes na cama todas as manhãs de dias úteis, vem pura e simplesmente do ato de lutar por ela.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

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Dois Dias, Uma Noite (Deux Jours, Une Nuit, Bélgica/França/Itália, 2014)
Direção e roteiro: Jean-Pierre e Luc Dardenne
Elenco: Marion Cotillard, Fabrizio Rongione, Catherine Salée
95 minutos

7 de jan. de 2015

Person of Interest 4x11: If-Then-Else

PERSON OF INTEREST

ATENÇÃO: esse review contem spoilers!

por Caio Coletti

“If-Then-Else” é um exercício excepcional de narrativa. Um daqueles episódios de televisão que, talvez daqui há 10 ou 20 anos, servirão de exemplo para mostrar o que essa mídia é capaz de fazer, o quão criativa e interessante ela pode ser. O roteiro assinado por Denise Thé (4x04, “Brotherhood” – review) resgata uma tradição da TV que andou perdida nessa que é chamada a “era de ouro” do formato: no melhor espírito dos episódios cômicos de Arquivo X e do grande musical que Buffy armou lá pelas alturas da sexta temporada, Person of Interest subverte a própria noção de história linear e mexe com a cabeça do espectador ao contar uma parábola poderosa sobre a brutalidade e a generosidade humanas – através de uma série de simulações operadas pela Machine de Finch, que está tentando tirar nossos heróis da situação mais espinhosa na qual estiveram.

Sem perder o espírito brincalhão que adquiriu nos últimos tempos, Person nos presenteia com alguns pequenos prazeres pelo caminho, recompensando o espectador que conhece bem os personagens e é capaz de se divertir com eles tanto quanto é capaz de se emocionar ou se angustiar com seus destinos. “If-Then-Else” marca a despedida de uma personagem que se infiltrou na memória afetiva do público da série de uma maneira impressionante, e presta tributo a ela entregando à atriz que a interpreta o material mais farto que lhe é dado em tempos. Sarah Shahi, como de costume, permanece ferozmente fiel a sua definição de Shaw, e é isso que torna especial cada momento dela no episódio – muito mais pela força da atriz do que por qualquer outra coisa, a personagem se tornou uma figura indissociável da série, e o efeito de sua morte é forte o bastante para sublinhar bem o tema do episódio e representar uma tremenda ruptura no funcionamento de Person.

“If-Then-Else” é um eletrizante jogo de xadrez contra a sorte, um estudo de personagem bem consciente do que a série nos informou sobre eles até agora, e uma ousadia narrativa que se encaixa perfeitamente com o mundo criado por Person, especialmente nesse quarto ano. É um thriller de ação ultra-atual sobre a forma como nos conectamos com as pessoas, e a diferença que faz essa dimensão humana do mundo. É uma demonstração dramática e extrema de que os cálculos de uma máquina não são capazes de prever cada comportamento e variável do mundo real. E é especialmente uma thinking piece filosófica e humanista sobre a necessidade de entender que nenhuma vida é menos importante que a outra – que a verdadeira compaixão e o verdadeiro sentimento não admitem a existência de “coadjuvantes” ou “protagonistas”.

Em pleno meio caminho de seu quarto ano, Person of Interest vira o tabuleiro de cabeça para baixo e deixa as peças caírem no chão mais uma vez, incitando o caos emocional que com certeza preencherá a segunda metade da temporada. E mostrando que, espatifados no asfalto, o peão e a rainha parecem exatamente iguais.

Notinhas adicionais:

  • Eu NÃO estou brincando: a televisão americana pode se preparar para 2015, porque ainda estamos em 08 de Janeiro e “If-Then-Else” acabou de se tornar o episódio a ser batido.
  • É preciso dar parabéns ao diretor Chris Fisher pela forma geniosa com a qual ele conduz essa narrativa cheia de brincadeiras conceituais, mas que ainda quer soar séria e importante no final das contas. Nem todo diretor conseguiria equilibrar esses tons, mas o trabalho do moço aqui é perfeito.
  • B’bye Shaw! We’ll miss you!

✰✰✰✰✰ (5/5)

PERSON OF INTEREST

Próximo Person of Interest: 4x12 – Control-Alt-Delete (13/01)

6 de jan. de 2015

Gotham 1x11: Rogues’ Gallery

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ATENÇÃO:  esse review contem spoilers!

por Caio Coletti

“Rogues’ Gallery” é um dos episódios mais espertos de Gotham até hoje, e o é porque pega o espírito dos dois capítulos que o antecederam (“Harvey Dent” e “Lovecraft” – aqui) e vira-o do avesso para entregar algo ainda mais interessante. É como se, no curto espaço de tempo do holiday break, a série da FOX tivesse se dado conta que, agora que já estabeleceu as regras do mundo em que se localiza, precisa se tornar mais íntima daqueles que o povoam. A 11ª entrada da temporada nos leva para dentro do ostentoso portão de ferro do Arkham, para perto das negociações de bastidores da máfia, e para a motivação mais íntima dos seus personagens – e o resultado é um episódio brilhante.

A roteirista estreante Sue Chung é um talento a ser observado nas próximas temporadas de televisão, assinando um script bem-amarrado, com senso temático perfeitamente cristalizado e a noção de que Gotham precisa brincar com o kitsch para funcionar. Aqui, somos apresentados à bizarra coleção de criminosos insanos do Arkham enquanto acompanhamos os atribulados primeiros dias de Jim na instituição, marcados por uma sequência inexplicável de crimes caracterizados pela condução clandestina de terapias de eletrochoque que deixam vários dos pacientes em estados vegetativos. O administrador do Asylum, interpretado por gosto por Isiah Whitlock Jr. (Veep) garante que, mesmo com os terríveis problemas do local, as tais sessões de terapia não estão sendo conduzidas sob sua autorização.

A trilha-sonora e a fotografia brilham em “Rogues’ Gallery” enquanto somos familiarizados com o ambiente nada convidativo do Arkham, uma reflexão estourada da metrópole aos pedaços que foi a protagonista da primeira metade da temporada. Essa parte central da trama funciona largamente graças aos esforços sempre muito bem-vindos da série de construir seu mundo com riqueza de detalhes e comunicação direta com clichês e convenções dos quadrinhos e do gênero policial. Ben McKenzie continua sendo um centro forte na qual Gotham pode se apoiar, e a entrada de Morena Baccarin como uma personagem familiar aos fãs das HQs é muito bem-vinda – ela traz uma presença feminina não-vilanesca que foge dos clichês amontoados na personagem de Barbara, e cuja química com McKenzie é imediatamente identificável.

Enquanto temos um gosto do que é ver Gotham City por trás das fachadas deterioradas das suas ruas, também somos presenteados com uma eficiente exploração dos personagens de Robin Lord Taylor (Pinguim) e Drew Powell (Butch). Nosso gângster manco preferido é preso ao tentar agir à revelia de seu empregador, o chefão do crime Sal Maroni, e a atuação de Lord Taylor fala mais alto do que um episódio todo focado no personagem conseguiria: o Pinguim de Gotham é movido pela ira e a engenhosidade escorregadia de alguém que passou a vida sendo “a smart monkey; but a monkey”. Ao mesmo tempo, Butch é confrontado com a possibilidade levar vantagem caso decida se voltar contra Fish e se alinhar com outro dos subordinados de Falcone – Powell interpreta esse dilema moral da forma fria que o roteiro lhe exige, estabelecendo o personagem como uma força a ser respeitada na definição da direção em que a trama de Gotham vai seguir.

O mais bacana, no entanto, é que mesmo em meio a todo esse turbilhão de acontecimentos, Gotham ainda arranja tempo para construir um tipo deliciosamente insano como o Jack Gruber de Christopher Heyerdahl (conhecido do grande público como o Marcus de Crepúsculo) para movimentar a trama dessa e das próximas semanas. O ator claramente se diverte no exercício de devorar cenários que é esse personagem, e o espectador não consegue evitar de se divertir junto. Uma ótima história de mafiosos, um brilhante retrato de Gotham City, uma parábola sobre justiça centrada em um protagonista marcante, e uma das horas de televisão mais divertidas que você vai passar nessa temporada – bem-vindos de volta a Gotham.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

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Próximo Gotham: 1x12 – What the Little Bird Told Him (19/01)

4 de jan. de 2015

Review: “O Grande Hotel Budapeste” é um pedaço comovente (e esperançoso) de metaficção

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por Caio Coletti

A fascinação humana pela fantasia é uma das características mais naturalmente bem-documentadas da nossa espécie – se a Teoria da Evolução nos caracteriza como os primatas com polegares opositores, talvez também devesse nos caracterizar como os primatas que contam histórias. O Grande Hotel Budapeste é uma das histórias mais especiais que 2014 teve para contar, e é também uma oportunidade absolutamente bem-vinda de refletir sobre o que nos faz tão fascinados pela ficção. É uma proeza cinematográfica, uma caixa de surpresas visual e uma montanha-russa de sensações para o espectador que acompanhar bem de perto, e é também um dos retratos mais sensíveis, em muito tempo, da capacidade humana de criar mundos inteiros à despeito dessa coisinha chata chamada realidade.

É o que faz o protagonista de Budapeste, o encantador M. Gustave, interpretado com delicadeza e timing cômico ímpar por Ralph Fiennes, um ator capaz de esconder significados em cada expressão idiossincrática do roteiro de Wes Anderson, e fugir obstinadamente da caricatura. Se essa não é uma das melhores interpretações masculinas do ano, este crítico que vos fala não sabe qual é. O filme retrata Gustave através dos olhos de Zero (o estreante Tony Revolori e o veterano F. Murray Abraham, em momentos diferentes da narrativa), o novo criado do Grand Budapest, hotel administrado com punho de ferro pelo concièrge. Além de comandar a metódica rotina do local, o personagem de Fiennes ainda serve como consolo sexual para as ricaças de idade avançada que passam pelo estabelecimento – e é quando uma delas (Tilda Swinton, irreconhecível) morre, deixando para Gustave um quadro valiosíssimo, que a confusão começa.

O novo filme de Anderson, talvez o diretor americano mais marcante do século XXI, se impõe como uma aventura de proporções épicas realizada em um tom muito reconhecível para quem acompanha a carreira do moço, e mesmo assim dotada de uma riqueza de significados e uma densidade emocional que é inédita em sua filmografia. Budapeste é um filme muito pleno, em todos os sentidos, e não é a profusão de personagens que o faz assim: é a total honestidade com que o roteiro trata essas figuras, a tridimensionalidade que elas adquirem mesmo com pouco tempo em tela, e o papel fundamental que elas cumprem para o retrato espertíssimo que Anderson faz da época em que se passa sua história dentro da história. Localizada temporalmente à beira da Segunda Guerra Mundial, a comédia aventuresca do diretor funciona também como uma lamentada realização da morte de mundos inteiros de fantasia, baseados em concepções morais firmes que se mantem imaculadas mesmo quando confrontadas com a mera humanidade daqueles que os sustentam.

Anderson estrutura um terceiro ato de tirar o fôlego, uma série absurda de perseguições que tem efeitos tão cômicos quanto angustiantes, largamente porque o restante do filme nos fez nos importar, de maneira muito sutil, com os personagens. Já é de conhecimento público que o diretor é um gênio dos enquadramentos e das pequenas brincadeiras visuais (nossa favorita pessoal tem a ver com uma escada enorme e um cenário de prisão – fiquem atentos), e aqui ele compõe suas cenas com a meticulosidade de sempre, mas a estrela de Budapeste é a história. Executada por Anderson ela se torna muito mais evocativa, divertida e magistralmente estruturada como encenação, mas o acerto em cada passo da história e da caracterização dos personagens é mais importante, e é isso que faz o filme se destacar na filmografia do diretor.

De certa forma, O Grande Hotel Budapeste é sobre a morte da esperança, da civilidade, talvez até da Justiça – e a sua substituição por conceitos muito mais complexos, adequados para um mundo que passou e sobreviveu ao conflito mais brutal da história da humanidade, e que sabe muito bem que aquele não foi o último. Anderson se permite ser melancólico, mas nunca depressivo, porque esconde na manga, em meio à sua forma muito peculiar de fazer cinema, a carta mais poderosa de todas: enquanto formos capazes de contar histórias, esses mundos e valores nunca estarão verdadeiramente perdidos. Essa “enchanting old ruin” da humanidade (a ficção) nada mais é do que nosso remédio, devastadoramente efetivo e cheio de efeitos colaterais, contra nós mesmos.

✰✰✰✰✰ (5/5)

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O Grande Hotel Budapeste (The Grand Budapest Hotel, EUA/Alemanha/Inglaterra, 2014)
Direção e roteiro: Wes Anderson, baseado nos escritos de Stefan Zweig
Elenco: Ralph Fiennes, F. Murray Abraham, Mathieu Almaric, Adrien Brody, Willem Dafoe, Jeff Goldblum, Harvey Keitel, Jude Law, Bill Murray, Edward Norton, Saoirse Ronan, Jason Schwartzman, Léa Seydoux, Tilda Swinton, Tom Wilkinson, Owen Wilson, Tony Revolori
100 minutos

2 de jan. de 2015

Você precisa conhecer: O pop orgânico e surpreendente do MisterWives

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por Caio Coletti

A nossa primeira indicação musical de 2015 é mais do que bem-vinda: o Misterwives é um triunfo da integridade artística, da sofisticação musical e da sensibilidade pop. Pode parecer exagero, mas é verdade que o sexteto nova-iorquino (centralizado no baixista Will, a vocalista/compositora/tecladista Mandy Lee e o bateirista Etienne) é a melhor banda pop a surgir em muito tempo. Descrevendo a formação da banda como um “feliz acaso do destino”, os três se juntaram em 2012 e ganharam contrato com gravadora logo depois do primeiro show oficial como Misterwives, lançando EP de estreia já em Janeiro de 2014.

Apesar de comentar que ainda não acredita em todo o sucesso (nos EUA, o single “Reflections” – abaixo –chegou perto do topo da parada rock da Billboard), a vocalista Lee confessou ao site The Triangle que tem uma ideia do motivo pelo qual a Misterwives é tão cativante para o público: “Nós não seguimos nenhum padrão. Não temos truques e artifícios chiques de produção. Somos só melhores amigos tocando juntos, e eu acho que as pessoas querem ver isso”. Difícil discordar dela ao ouvir o espírito enérgico e brincalhão do EP de estreia, homônimo ao single de maior sucesso.

O clipe bem-humorado da canção, aliás, foi filmado só depois de uma primeira tentativa que os integrantes da banda descrevem como “desastrosa” (“Tudo o que nós nunca queríamos em um clipe estava no primeiro clipe que gravamos”, resume Etienne). Apesar dos conselhos de que não se tratava de uma jogada esperta em termos de carreira, o MisterWives jogou o material resultante dessa primeira sessão no lixo e reconstruiu o conceito do início. “Nós não ligamos. Nosso único trabalho é lançar boa música, um bom produto, e algo no qual acreditamos. Esse é o objetivo. Acho que conseguimos isso com o segundo clipe”, conclui o baterista.

A música do MisterWives é uma curiosa mistura de folk, com influências de gente muito bem-sucedida no mercado atual (de Vance Joy à Mumford & Sons); e pop, na melhor tradição moderna de bandas como o Neon Trees e os veteranos do Maroon 5. O EP Reflection contem desde a sobriedade de “Coffins” (abaixo) até o delicioso chamado à pista de dança que é “Imagination Infatuation” (abaixo). Com quase nenhuma ajuda de sons sintetizados, os nova-iorquinos conseguem compor canções pop grudentas, dançantes e cheias de boas ideias melódicas, que mantem uma qualidade muito orgânica que faz falta nas paradas.

O intrigante nome da banda vem do termo mórmon “sister wife”, que descreve as várias esposas que um homem da religião pode tomar, e a relação de amizade que teoricamente cresce entre elas. Segundo a vocalista, o termo cunhado pela banda descreve sua relação com os parceiros: “Eu me casei com todos os garotos, e eles se tornaram amigos. Eu me deparei com alguns mórmons enquanto fazíamos a turnê, e eles não estavam muito felizes com o nosso nome”, ela ri.

O EP de estreia se completa com as faixas "Twisted Tongue", “Kings & Queens” (abaixo), e “Vagabond” (abaixo) – essa última acabou se tornando tema de Finding Carter, série dramática da MTV americana, computando mais uma canção bem conhecida pelo público para o MisterWives. Enquanto o álbum não sai (eles prometeram que isso rola em 2015), também dá pra curtir os covers que os nova-iorquinos fizeram para “Money on My Mind” (Sam Smith) e “Riptide” (Vance Joy).

Pra quem gosta de: Vance Joy, Maroon 5, Mumford & Sons, Of Monsters and Man, Neon Trees, No Doubt, Alex Kingston