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Review: Liga da Justiça

É verdade: o novo filme da DC seria melhor se não tivesse uma Warner (e um Joss Whedon) no caminho.

12 de out. de 2014

Person of Interest 4x03: Wingman

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ATENÇÃO: esse review contem spoilers!

por Caio Coletti

Person of Interest é essencialmente uma história sobre o quanto a humanidade é melhor quando se une do que quando se separa, isso todos nós já sabemos. Não é pouca a genialidade que se encontra nessa premissa, especialmente como observação e crítica de um mundo em que muitas vezes individualidade é confundida com individualismo. Parece pretensioso dizer que Person é uma das séries que melhor entende os anos 2010, mas é impossível não destacar esse lado da série quando um episódio como “Wingman” dá as caras logo no início da temporada. Apesar de também ser sobre comunidade, essa terceira entrada da temporada introduz também um conceito diferente: o de que num mundo em que o simbólico é mais importante que a essência, ainda precisamos dar um jeito de nos sentirmos confortáveis em nossa própria pele, e na nossa própria condição de vida.

É essencial colocar Fusco no centro dos holofotes quando o tema é esse, e a roteirista Amanda Segel (3x10, “The Devil’s Share”) entende que o personagem de Kevin Chapman tem muito a acrescentar à discussão. Quando primeiro entramos em “Wingman”, somos confrontados com condições espinhosas para os nossos protagonistas: não é nenhuma ameaça física dessa vez, mas apenas o fato que eles precisam, agora, lidar com uma situação financeira que não é mais abastecida pelas antigas contas de Finch ou pela máquina, que tem poder limitado. Reese, Finch e Shaw, portanto, devem viver dentro dos limites que suas novas identidades lhes dita –e é uma jogada genial do roteiro contrapor isso a situação de Fusco, uma vez que o policial sempre viveu em situação semelhante.

Chapman faz um trabalho incrível em delinear isso e nos referenciar o tempo inteiro ao passado do personagem, nas raras ocasiões em que ele foi explorado pelos roteiristas de Person. Fusco sempre foi um às na manga quando a série precisou, e é gratificante ver que os momentos de brilho dele nas temporadas anteriores contribuíram para a formação de um personagem bem desenhado e interessante, com algo muito valioso a dizer. Ele é quem mais tem contato com o número da semana, o “conselheiro amoroso” Andre Cooper (Ryan O’Nan, Ray Donovan), cujo passado como operador de um sistema portuário pode esconder mais ilegalidades do que o esperado. A ironia temática aqui é que mesmo o homem contratado para fazer outros homens se sentirem mais confiantes na hora de flertar precisa fazer às pazes com quem ele é e quem ele foi. Ajuda que o guest star O’Nan consiga passar tudo isso mesmo com pouco tempo em tela.

Com poucos deslizes, mas uma trama bem segmentada – um formato que, comprovadamente, costuma não funcionar tão bem para Person –, “Wingman” é uma hora interessante de televisão com um insight muito bem-vindo em relação a todos os personagens, como tem sido de costume dessa temporada, e também em relação a um contexto muito maior do que eles. Esqueça as comediazinhas românticas, porque a série que tem a resposta para as relações humanas na nossa época se chama Person of Interest, e é um thriller de ação no formato de procedural, exibido pela CBS. Que época estranha que estamos vivendo, não?

Observações adicionais:

- A subtrama de Reese se adaptando ao trabalho de policial também rende bons frutos, mais pela exploração do personagem em uma situação completamente diversa da que o vimos por três temporadas inteiras, e menos pela introdução da Capitã Moreno (Monique Gabriela Curnen, O Cavaleiro das Trevas) e da promessa de um envolvimento romântico (ou fui só eu que senti essa intenção?) entre ela e nosso protagonista.

- E as partes estreladas por Finch e Root foram mais bacanas pela atuação de Michael Emerson, fingindo ser um cara durão, do que pela continuação do tema de reconquista de confiança na relação máquina-Finch. É bem claro desde o começo da temporada que essa “disputa” ia ser um dos grandes temas desse ano, mas há jeitos mais legais de explora-la, roteiristas!

✰✰✰✰ (4/5)

PERSON OF INTEREST

Próximo Person of Interest: 4x04 – Brotherhood (14/10)

11 de out. de 2014

Review: La Roux resume o pop de uma década (de novo) no “Trouble in Paradise”

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por Caio Coletti

Quando veio ao mundo em 2009, La Roux tinha tudo para ser apenas o primeiro de muitos artistas a embarcar no revival dos anos 80 capitaneado por Lady Gaga, que lançou seu seminal The Fame no ano anterior. Nada como uma boa surpresa, não é mesmo? Com uma vocalista da escola folk de Carole King e Nick Drake (seus ídolos de infância) e um produtor que espertamente resumiu todas as tendências do momento em uma coleção impecável de canções prontas para entrar no imaginário popular, La Roux acabou se tornando influência obrigatória tanto para as divas do mainstream (Katy Perry, Rihanna, etc) quanto para os atos que embarcaram na onda oitentista (e isso nós vemos até hoje, vide Betty Who e Tove Lo).

Cinco anos se passaram desde então, e meia década é tempo mais do que o suficiente para o mundo pop mudar. Aos poucos o público desapegou do revival da década de 80, seguindo o próximo passo lógico e abraçando todas as particularidades noventistas. Junto a esse processo, que criou fenômenos inesperados de vendas como Charli XCX e Iggy Azalea (entre inúmeros outros), ficou bem claro nos últimos anos que os jovens estavam prontos para abraçar cantores e bandas alternativos, que fugiam da onda eletrônica e se concentravam em referências diferentes. As ascensões de Lorde, fun. e Lana Del Rey são bons exemplos dessa tendência.

Por cima de tudo isso, ainda é preciso considerar que os últimos cinco anos foram também um pesadelo pessoal para a própria Elly Jackson, vocalista do La Roux. Primeiro foi o rompimento com o produtor Ben Langmaid, que teve o dedo em todas as faixas do álbum de estreia. Quando perguntada sobre a separação, Jackson é discreta, mas bastante clara: o produtor se recusou a considerar várias canções que ela havia composto, não concordou com a direção musical que a moça queria tomar, e a relação de amizade entre os dois esfriou. Já no meio da turnê que fez para promover o primeiro disco, a cantora passou por um momento ainda mais difícil quando a ansiedade pelo sucesso repentino e os ataques de pânico lhe roubaram a voz. Essa é uma das razões pela qual o famoso falsete da cantora está menos presente no novo álbum (mesmo curada, Jackson diz ter aprendido a usar a voz com mais cuidado – e garante que também se tornou uma pessoa menos errática e mais centrada).

Essas tribulações pessoais se refletem em Trouble in Paradise, que chegou às prateleiras em meados de Julho desse ano. Com letras complexas que transformam a inquietação de Jackson como artista em uma forma de advogar uma liberdade muito mais profunda do que a do impulsivo primeiro disco, a nova obra de La Roux mostra também que os últimos cinco anos não destreinaram o olho da artista para a cultura pop da sua geração. O que mais sobressai é o quase obsessivo cuidado com as texturas e timbres dos sintetizadores, os complexos arranjos se estendendo por várias faixas que ultrapassam os habituais 3:30/4 minutos da música pop. Trouble in Paradise é capaz de articular num mesmo instrumental as influências dos anos 90, a melodia própria da identidade de La Roux como artista, e elementos de outros gêneros em voga no momento, do dream-pop ao r&b.

“Uptight Downtown” abre os trabalhos lançando um olhar espantado e admirado sobre os protestos de Londres de 2011 (“How can all these people have so much to prove?”, se pergunta a incansável Elly Jakcson), e conta com um baixo funkeado que diz tudo sobre o disco: sexy, groovy e cheio de garra. Muitas das primeiras resenhas do álbum destacaram que a “descoberta do baixo” é talvez a grande conquista do álbum para a carreira da artista, e não é a toa – além da faixa de abertura, o instrumento é essencial para a épica “Silent Partner”, no qual é o principal ingrediente de uma instrumentação Hi-NRG (trata-se de um subgênero surgido no final dos anos 70, cujo paradigma é "Obsession", do Animotion). A canção lida com as principais questões de ansiedade vividas pela cantora, e parece ser engolida de um fôlego só pela linha de baixo rápida e pelas sobreposições de sintetizadores onipresentes nos 7 (!) minutos de duração.

A sensualidade fica para os momentos em que La Roux nos entrega sua visão sobre o revival dos anos 90. “Sexotheque”,de título inspirado por um clube de sexo visto pela cantora na Suíça, é uma envolvente combinação de sintetizadores com guitarras disco e batida caribenha, uma constante no disco em vários pequenos momentos pelas faixas, e uma tendência que aflora completamente em “Tropical Chancer”. Com um sample da diva jamaicana Grace Jones e guitarras que você provavelmente nunca esperaria encontrar em um disco do La Roux, a canção é a musicalização da vontade, expressa pela cantora em entrevista, de ser “sexy da forma que o sexy era antes de ser sujo”.  Explorar o lado multicultural do pop dos anos 90, as baladinhas mid-tempo e o gosto meio desinibido pelo trash (pense em Paula Abdul com o esírito do Vengaboys, só de que um jeito sobrenatural em que essa mistura pareça sofisticada) foi uma jogada genial para sair do mais do mesmo dos teclados sequenciais e baladinhas soul. Sem contar que resume muito melhor o espírito da época – e d\ nostalgia que propulsiona seu revival.

A complexa “Cruel Sexuality”, talvez a faixa que melhor conjugue todas as influências do Troube in Paradise, nos introduz a outra grande influência do álbum, o dream-pop. Depois de bons três minutos de synthpop para acompanhar a divagação de Elly Jackson sobre as pressões da sociedade na nossa forma de amar (especialmente a maneira fugaz e líquida da geração que ela tão bem conhece), a canção entra em um interlúdio de sintetizadores nas alturas e melodias inspiradas na música orquestral. É a mesma elaboração de artistas como The Golden Filter e M83, na verdade um rótulo fácil para essa mistura de música ambiente e new wave que fez a cabeça de muitos neo-hipsters (se é que a cultura hipster merece um “neo-“ pra chamar de seu) por aí. A melhor encarnação dessa influência é a belíssima “Paradise is You”, que La Roux chama de “um mantra contra o pânico e a ansiedade disfarçado de canção de amor”, mas que faz hora extra como parte de um tema muito maior do álbum.

Trouble in Paradise é um instantâneo (como é da natureza do pop ser) de sua época, um sinal que Elly Jackson não ficou desligada do mundo de 2009 para cá, e um poderoso veículo de expressão para uma das artistas mais importantes da nossa geração. Importante porque consegue observar o comportamento daqueles cujo imaginário ela captura e transformá-lo em canções inquietas que expressam exatamente aquilo que esse público mais deseja: a liberação das pressões, rótulos, expectativas e “caixinhas” que a sociedade lhes impõe. Ouça de perto, e o pulsante single “Let me Down Gently” é um chamado para esse tipo de liberdade, que La Roux entende ainda melhor agora que experimentou alguns obstáculos a mais pelo caminho. “And I hope it’s sinking in/ Left behind in your perfect skin/ There’s a part of you that’s free/ And I know that there’s a place for me”.

Com ou sem seu parceiro de composição, essa visão absurdamente ampla e original de La Roux dá a ela um status mais do que honorário: o de historiadora da música pop do século XXI.

✰✰✰✰✰ (5/5)

LR

Trouble in Paradise
Lançamento:
18 de Julho de 2014
Gravadora: Polydor
Produção: Elly Jackson, Ian Sherwin, Al Shux
41m27s

9 de out. de 2014

Gotham 1x03: The Balloonman

GOTHAM: Detectives Harvey Bullock (Donal Logue, L) and James Gordon (Ben McKenzie, R) leave the GCPD princint in the "The Balloonman" episode of GOTHAM airing Monday, Oct. 6 (8:00-9:00 PM ET/PT) on FOX. ©2014 Fox Broadcasting Co. Cr: Jessica Miglio/FOX

ATENÇÃO: esse review contem spoilers!

por Caio Coletti

Uma das coisas que a trilogia de Christopher Nolan entendeu tão bem sobre o Batman é que a história do Homem-Morcego de Gotham City é essencialmente uma história de esperança em meio ao desespero. Como boa parte das grandes narrativas, aliás, a do (anti-)herói criado pela DC Comics nos apresenta um cenário devastado e sujo, dominado por trevas e desolamento, e logo em seguida nos mostra um homem que sabe exatamente do quê esse cenário precisa para, mesmo que muito lentamente, fazer seu caminho de superação. Com seu terceiro episódio, “The Balloonman”, Gotham mostra que também entende esse cerne do universo que retrata, e faz um trabalho excepcional em transplantar a força motriz dessa narrativa de Bruce Wayne para Jim Gordon.

Antes de qualquer coisa, a série da FOX é uma gema de sutileza na forma como introduz conceitos sombrios em pleno horário nobre da televisão aberta americana. Não há ato sem consequência no mundo de Gotham, e isso se percebe na forma como o falso assassinato de Oswald Cobblepot, o futuro Pinguim, reflete em Gordon. A investigação da dupla de policiais do Major Crimes parece um mero dispositivo de narrativa, mas o developer Bruno Heller orienta o roteirista John Stephens (Gossip Girl) no sentido de fazer tal dispositivo funcionar também como uma forma de desenvolver e refletir o protagonista da série. Durante os 43 minutos de “The Balloonman”, Gordon passa pelo dilema fundamental que sempre foi o do seu personagem: em Gotham não basta ter fé na lei, mas será um vigilante mascarado, a justiça pelas próprias mãos, a saída para isso? A sombra de Oswald sobre o personagem só delineia essa colocação moral, fazendo Gordon duvidar de si mesmo enquanto precisa encarar a estrutura corrupta a sua volta, que tenta lhe absorver.

A trama da semana também é cuidadosamente escolhida. O episódio começa quando Gotham City se depara com o primeiro vingador mascarado de sua história, o The Balloonman do título, que elimina figuras notavelmente corruptas da cidade de uma forma bem particular. O roteiro faz um trabalho impecável em destacar o quanto essa corrupção se alastra por todos os níveis da metrópole, se tornando até, de maneira assustadora, parte de sua identidade. “This is Gotham” é uma frase que se ouve muito nessa terceira entrada da temporada, e é impressionante perceber o quanto esses personagens tem consciência da corrupção a sua volta e, tendo convivido com ela por tanto tempo, a aceitam como um dado imutável do local em que vivem. É como se o problema estivesse na cidade, e não nas pessoas, e é com essa noção que o Gordon do sempre superlativo Ben McKenzie se confronta diretamente.

Com a ajuda do diretor Dermott Downs (The Tomorrow People), um ex-diretor de fotografia que mostra perícia absurda com a câmera, Gotham City se torna uma personagem muito mais viva (nem que seja só porque é muito mais observada) nesse “The Balloonman”, e é muito oportuno que seja assim, porque a história que o episódio tem para contar se conecta muito à noção que cada um desses personagens tem desse ambiente. Enquanto as brigas internas da máfia continuam, com o confronto entre Fish Mooney e Carmino Falcone parecendo cada vez mais eminente (mas é bem claro que a série quer cozinhar essa trama bem devagar, esperando recompensas no futuro), o retorno de Oswald para Gotham é marcado por um grande suspiro e uma exclamação: “Home!”. Poucas vezes um vilão do Batman foi representado de maneira tão sucinta e simbólica – para o astuto, escorregadio e oportunista Pinguim que Gotham nos apresentou, a metrópole mais insalubre e imoral do mundo da ficção é mesmo um ótimo lar.

E é assim, em 43 minutos de puro brilhantismo, que a produção da FOX se estabelece não apenas como uma ótima série de TV, mas como parte legítima e integrada de um legado muito maior. Gotham se tornou, com rapidez impressionante, um Batman de primeira.

Observações adicionais:

- O episódio trouxe também as melhores cenas estreladas pelo jovem Bruce e pelo mordomo Alfred até agora. A atuação cativante de Sean Pertwee (Equilibrium) brilha, e o garoto David Mazouz (Touch) finalmente tem a chance de explorar a profundidade de sua atuação como um Bruce que começa a juntar referências para sua futura formação. Como tudo em Gotham, essa parte fundamental da mitologia está sendo desenvolvida com excelência surpreendente.

✰✰✰✰✰ (5/5)

GOTHAM: Oswald Cobblepot (Robin Lord Taylor) finds a new job in the "The Balloonman" episode of GOTHAM airing Monday, Oct. 6 (8:00-9:00 PM ET/PT) on FOX. ©2014 Fox Broadcasting Co. Cr: Jessica Miglio/FOX

Próximo Gotham: 1x04 – Arkham (13/10)

6 de out. de 2014

Person of Interest 4x02: Nautilus

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ATENÇÃO: esse review contem spoilers!

por Caio Coletti

Se há uma coisa na qual Person of Interest está acertando em cheio no começo do seu quarto ano, é nos títulos de episódios. O nome da premiere, “Panopticon”, serviu bem para nos apresentar o novo mundo em que Reese, Finch, Shaw e Root precisam lutar pela própria sobrevivência e lidar com problemas que não existiam antes (para mais detalhes, vem ver nosso review). A segunda semana nos trouxe “Nautilus”, que faz referência não ao navio comandado por Capitão Nemo em 20.000 Léguas Submarinas, mas a uma espécie de molusco que muitos pesquisadores gostam de chamar de “fóssil vivo”, visto que o animal perseverou praticamente sem modificações biológicas desde um período pré-histórico. O formato da concha do nautilus é um dos mais conhecidos exemplos de “perfeição matemática” do mundo natural, se desenrolando em proporções impressionantemente exatas. Em “Nautilus”, o episódio, cada um dos lados da disputa épica entre as forças do Samaritan e nossos protagonistas é visto sob a luz de uma dessas características do animal.

A trama da semana compreende um jogo de pistas espalhadas por Nova York, todas conectadas pelo desenho da concha, e que é objeto da obsessão de Claire Mahoney (Quinn Shephard, Hostages). Quando nossos heróis recebem o número da moça, um ainda relutante Finch é designado para descobrir a ameaça que ela pode estar sofrendo ou perpetrando. O jogo de gato e rato pela metrópole é tão empolgante em termos de movimento de trama quanto qualquer outra coisa que Person já fez, e a revelação no final se conecta com a tendência que dominou a gloriosa terceira temporada: ligar cada um dos casos semanais a uma história maior, lhes imbuir função e significado nesse plano mais amplo – o que inclusive ajuda a lhes emprestar profundidade.

Com pinta de quem pode se tornar personagem recorrente, a jovem Quinn Shephard faz um trabalho bem previsível, mas o roteiro de Dan Dietz (3x21, “Beta”) e Melissa Scrivner-Love (3x19, “Most Likely To…”) trata de tranformá-la em uma personagem interessante, que tem potenciais novos lados para serem explorados no futuro e um dilema moral e emocional muito parecido com o dos nossos protagonistas. A força deles, aliás, continua sendo o essencial desse quarto ano de Person – mais do que nunca, a série parece disposta a passar sua mensagem utilizando esses personagens e as decisões que eles tomam. “Nautilus” não é um episódio perfeito, com seus diálogos mão-pesada (um grande problema no passado de Person que não pode voltar a assombrar a série) e seu funcionamento meio pragmático, mas é possível perdoar quase todas as suas falhas pela forma como Michael Emerson, Jim Caviezel e até Sarah Shahi fazem funcionar os processos emocionais que juntam, mais uma vez, seus três personagens.

Para quem não sacou a metáfora com o título, vale a explicação: na visão de Person, o Samaritan representa a exatidão determinista, quase cruel, da concha do nautilus – talvez até haja alguma razão em dizer que a série dê à máquina antagonista um espírito niilista, que destrói a noção de que a vida pode ter algum “sentido transcendente” e oferece uma solução simples e ilusória; já a pequena turma de desajustados formada por Reese, Finch, Shaw e Root (e Fusco, ninguém se esqueça dele e do seu conhecimento awesome sobre música demonstrado nesse episódio!) é a própria encarnação do “fóssil vivo”. Com métodos, equipamentos e ideais antiquados para o mundo ditado pelo Samaritan, eles não tem nenhuma escolha a não ser se juntar na busca por um sentido de verdade – um número (e um ser humano) de cada vez.

Observações adicionais:

- “We are being watched” foi de arrepiar.

✰✰✰✰ (4/5)

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Próximo Person of Interest: 4x03 – Wingman (07/10)

2 de out. de 2014

Gotham 1x02: Selina Kyle

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ATENÇÃO: esse review contem spoilers!

por Caio Coletti

Com a exceção do Coringa, no qual Gotham ainda não ousou tocar, a Mulher-Gato é provavelmente a vilã cujo tom é mais difícil de acertar para uma série que quer re-imaginar as origens do Batman. A relação complicada entre ela e Bruce Wayne, com seus subtons francamente sexuais e seu mútuo entendimento, precisa começar a ser construída com cuidado quando o retrato pintado pelos roteiristas inclui esses dois personagens ainda jovens, se transformando nas pessoas que viriam a ser. Em “Selina Kyle”, o segundo episódio de Gotham, o criador Bruno Heller assina mais um script que acerta em cheio nesse desenvolvimento, caminhando a passos vagarosos para uma direção bem planejada. Fazer as trajetórias de Bruce e Selina se cruzarem de maneira tão breve e colateral é a abordagem, perfeita para o início de uma relação que vai incluir tantas coisas em comum no futuro, ao menos de Gotham seguir com fidelidade aos quadrinhos.

Ajuda que a estreante Camren Bicondova traga uma leveza tão grande à personagem, ao mesmo tempo expressando toda a esperteza que é a marca registrada da (nem-tão-)vilã que nos é apresentada originalmente como uma ladra de jóias. A Selina de Gotham é uma criança de rua com habilidades de sobrevivência acima da média para a sua idade, um olhar vívido e perceptivo para o mundo, e uma noção aguda do seu lugar na estrutura social injusta da metrópole. Ter uma atriz que consegue expressar tudo isso em alguns olhares (lá se vai mais da metade do episódio até Selina ter uma linha de diálogo!) é essencial para que o episódio funcione – e como funciona.

“Selina Kyle” é mais afinado do que o piloto em quase todos o sentidos, embora alguns problemas persistam. Os diálogos melodramáticos que foram um incômodo na semana passada ocorrem com muito menos frequência aqui, embora o roteirista Heller não escape de alguns momentos em que a trama parece ser travada pela vontade insaciável de ser impactante no âmbito da encenação. A ambientação também tem seus altos e baixos: a abordagem fria (na fotografia, na direção) da violência nas cenas do Pinguim funciona às mil maravilhas, com Robin Lord Taylor criando um retrato inesquecível do personagem; já a fabulosa Fish Mooney de Jada Pinkett Smith ganha algumas cenas que não só parecem desnecessárias na condução da trama, como fazem um desserviço a atuação estourada (na medida certa) da moça.

A trama da semana envolve dois sequestradores de crianças de rua, interpretados por Lili Taylor (Hemlock Grove) e Frank Whaley (Pulp Fiction) em caracterizações bem típicas dos vilões de Gotham. Aparentemente trabalhando para um criminoso chamado The Dollmaker, os dois tropeçam no ímpeto do Detetive Gordon quando deixam para trás o corpo de um mendigo mais velho, veterano de guerra, que é encontrado pela polícia de Gotham. A partir daí o roteiro mais uma vez se incumbe de analisar os processos de corrupção que infestam a metrópole, entrelaçando essa trama com a apresentação aprofundada de Selina, a continuação das desventuras de Bruce em seu caminho para o amadurecimento (tudo tratado com muito mais sobriedade do que esse resumo faz parecer), e o rastro de sangue que o Pinguim deixa pelo caminho.

Com os talentos que tem a disposição, Gotham tem tudo para acertar suas últimas pontas e se tornar um dos procedurals (ou quase isso) mais empolgantes da televisão atualmente. Ben McKenzie continua sendo um centro sólido para que a série construa seu universo, e sempre que seu Detetive Gordon está em cena o espírito ultra-dramático parece mais justificado. Talvez ele esteja em uma frequência que alguns atores ao seu redor ainda precisam localizar, mas Gotham, ao menos, tem uma característica muito bem-vinda: é o produto e a elaboração inegável do seu protagonista.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

GOTHAM: Detective Gordon (Ben McKenzie) visits Wayne Manor in the "Selina Kyle" episode of GOTHAM airing Monday, Sept. 29 (8:00-9:00 PM ET/PT) on FOX. ©2014 Fox Broadcasting Co. Cr: Jessica Miglio/FOX

Próxima Gotham: 1x03 – The Balloonman (06/10)

1 de out. de 2014

Você precisa conhecer: As batidas urbanas e o surpreendente lirismo de Beatrice Eli

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por Caio Coletti

Beatrice Eli é uma daquelas raras combinações de estilos e referências realmente surpreendentes no âmbito da música pop independente. Sueca de nascimento, a nacionalidade dividida com artistas como Robyn e iamamiwhoami leva a jovem Beatrice a manipular os sintetizadores com naturalidade de quem cresceu com referências do synthpop ao seu redor. Ele são a base de uma boa parte das poucas músicas que a moça lançou até agora, mas passam longe de ser a totalidade de sua experiência musical: some a eles o timbre profundo e sentido que não estaria fora do lugar em um clube de jazz esfumaçado; e feche tudo com as batidas urbanas que ecoam os melhores momentos de Ladyhawke e Lykke Li.

Se você for tomar a palavra da própria como referência, o som de Beatrice Eli é bastante influenciado por esse leque bem diferente de artistas: o medalhão do country/rock/folk Neil Young; a saudosa Amy Winehouse; a artista pop (e mentora do The Voice) Gwen Stefani; a celebradíssima lenda do soul Nina Simone; e Prince, que dispensa apresentações. Todos eles, segundo a artista sueca em sua entrevista para a Glamour, tem um estilo de composição “realista”, e ela ainda adiciona: “Eu também gosto de vozes interessante, e esses que eu mencionei tem uma identidade vocal muito marcante”. Ou seja, por mais que a produção impressione, letras e vozes são essenciais para Beatrice.

O primeiro boom da moça na comunidade musical foi o single “The Conqueror” (abaixo), que nos introduziu com gentileza ao mundo muito peculiar de Beatrice, explorando um visual noturno e urbano para emoldurar uma canção confessional sobre amor e rejeição. Logo em seguida, “It’s Over” (abaixo) chegou pegando mais pesado nas batidas e nos deixando cair de cabeça no visual escuro e cool da artista, que remete à cultura hip hop (porque a mistura ainda não estava interessante o bastante, é claro). O EP It’s Over, lançado em 2012, ainda tinha "Definite Mistake" e "Violent Silence".

Com a aproximação do lançamento do seu primeiro álbum completo de estúdio, Beatrice voltou a lançar música em 2014. O contrato com a gravadora Razzia vai render Die Another Day, disco de estreia que está marcado para 22 de Novembro próximo. Nós mal podemos esperar, especialmente ao ouvir as duas músicas já liberadas pela moça, com seus devidos vídeos.

“Girls” (abaixo) veio primeiro, mostrando que Beatrice estava disposta a fazer sua voz soar mais pop pelo bem de um som mais pulsante, que se conecta com as produções de artistas como Sky Ferreira e Charli XCX. O clima mais pesado do single seguinte, “Moment of Clarity” (abaixo), traz de volta a assinatura melódica que aprendemos a esperar de Beatrice. Ambos os clipes escancaram a homossexualidade da moça, o que a deixa mais confortável para criar visuais provocativos e interessantes.

Pra quem gosta de: Ladyhawke, Lykke Li, Robyn, Charli XCX