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Review: Me Chame Pelo Seu Nome

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Review: Liga da Justiça

É verdade: o novo filme da DC seria melhor se não tivesse uma Warner (e um Joss Whedon) no caminho.

16 de mai. de 2011

Sobre… - “Judas”, os limites da arte e a liberdade de expressão.

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Ela sabe exatamente o que está fazendo. E ela o fez tão bem quanto poderia ser feito num video-clipe”. As palavras não sem nem minhas, nem de algum fã que compactue com a minha crescente noção de que Gaga é artisticamente excepcional. Pelo contrário, elas vêm justamente de quem mais tenderia a criticá-la na nova tour de force polêmica que foi o videoclipe de “Judas”, segundo single do vindouro álbum Born This Way, cujo lançamento está marcado para 23 de Maio: o nome é Steve Kellmeyer, um dos mais conhecidos escritores religiosos da ala conservadora nos Estados Unidos, e o post do qual foram retiradas as palavras originais, para que não me acusem de falta de contexto, pode ser visto em inglês aqui. Como Kellmeyer demonstra, servindo de exemplo, há uma grande diferença entre ser católico e ser mente-fechada. E são os segundos, não os primeiros, que vão teimar em engolir “Judas”. Vamos aos esclarecimentos.

Para começar, o único limite da arte está em seu próprio mundo: enquanto não interferir na liberdade de ninguém, o artista tem garantida a sua. Usar uma metáfora baseada em simbolismo religioso não deveria ser como mexer num vespeiro. Como ítalo-americana de família católica, Gaga já se declarou diversas vezes obcecada por arte e simbolismo sacro, e não é surpresa que use desse artifício, desse mote, para levar adiante sua mensagem e sua música. Num mundo que respeitasse e tentasse entender as particularidades de um artista, a religião em “Judas” seria vista como ela é: subterfúgio para uma piece de resistance corajosa, e não heresia (palavra usada aqui, justamente, para lembrar a inquisição). Porque, querendo ou não, a atitude é parecida. É como se nada que nos confrontasse e abrisse nossa mente tivesse garantido o direito de ser absorvido e filtrado pelo bom-senso (ou só “senso”, uma vez que ninguém pode julgar se ele é realmente “bom”). Clipe após clipe, Gaga nos dá uma ideia nova, sem no entanto dissonar da “Nona Sinfonia” que ela vem compondo com sua carreira.

Uma vez em tantas, não vou me estender por parágrafos a fio só pra explicar o que Gaga quis dizer com seu clipe. Vou tentar ser breve, e pra quem quiser aprofundamento indico a maravilhosa interpretação do clipe postada dias atrás no blog Haus of Abdala, uma visão realmente completa de como Gaga quis se expressar nesse vídeo. Resumidamente, há várias camadas de entendimento para “Judas”, e a mais superficial delas já mostra que todo o cenário religioso foi usado por Gaga para transmitir uma mensagem que é muito mais sociológica e cultural, como ela mesma disse. Só lendo a letra em profundidade já se descobre que “Judas” é uma canção agressiva, sim, mas que essencialmente toca na dualidade do amor. Então, quando Gaga canta que “Jesus é minha virtude, mas Judas é o demônio ao qual me agarro” (Jesus is my virtue, but Judas is the demon I cling to) ela está na verdade dizendo “eu sei o que me faz bem, mas não consigo e nem vou evitar o que me faz mal”. Ela explica: “Alguém um dia me disse ‘se você não tem sombras, é porque não está parado a plena luz’. Então a canção é sobre lavar os pés de ambos, o bem e o mal, e entender e perdoar os demônios do seu passado para seguir adiante em direção a grandiosidade do seu futuro”.

No entanto, como sempre, Gaga adicionou, com as imagens de sua obra, outra camada de coesão para “Judas”.  Uma que revela muito sobre a própria relação de Gaga com as críticas e com seu público. Sendo lavada pelas águas da purificação ao mesmo tempo que lava os pés do “bem e do mal” na seqüência sem música do clipe, Gaga abre os braços imitando o ato da crucificação e de certa forma martirizando sua entrega completa a essa nova experiência que é o álbum Born This Way. Como ela mesma disse em um dos Gagavision, a série de vídeos de backstage que ela faz para seus fãs, todo o processo de composição do álbum foi um esforço para se despir completamente das aparências, para se manter absolutamente autêntica em tudo o que ela fez, e ter a coragem de peitar o mundo com o que ela é. Então, com uma canção como “Judas”, sobre aceitar sua própria escuridão, Gaga aproveita a deixa e, em alguns versos e em uma única sutileza do seu clipe, inclui um sub-texto ainda mais corajoso. Com sua Maria Madalena sendo apedrejada ao invés de salva pela célebre frase “quem não tem pecado, que atire a primeira pedra” (e mais, sendo apedrejada justamente por agir de acordo com o que sente, não podendo matar Judas, o demônio interior que ela na verdade ama), Gaga alfineta quem a julga o Anti-Cristo ou simplesmente a dispensa por “mexer com religião” ou até por “ser pop demais”: “Se seu Deus perdoa e ama todo mundo, porque você me julga? Eu sou o que eu sou. Gostando ou não, respeite-me”.

Não sei se ainda vale a pena tentar esclarecer a relação Gaga-Madonna. Se “Born This Way” foi comparada sonoramente a “Express Yourself”, “Judas” precisou esperar o clipe para ganhar seu próprio paralelo com a carreira da rainha do pop. E o que surgiu da cartola dos críticos, de forma mais do que previsível, foi “Like a Prayer”. Mas, de novo, são recursos parecidos em serviço de mensagens diferentes. Como parte do imaginário popular, o simbolismo religioso sempre esteve e sempre vai estar presente no que se pode chamar de arte pop, porque o uso de recursos definidos e subvertidos do que se encontra no ideário cultural do público é justamente o que faz dessa forma particularíssima de expressão algo tão provocante e difícil de ignorar. Nos últimos tempos, temos nos acomodado a aquilo que não faz pensar, e é entendido sem esforço. E parece que, com a própria Madonna sumida do mundo pop, nos acostumamos a achar que ninguém tem direito a fazer arte pop depois dela.

E nada disso é exagero, ou pelo menos eu penso que não: poucas vezes desde que a arte pop ganhou os recursos e a configuração que tem hoje uma artista combinou talento excepcional para as trivialidades musicais do processo (porque, além de boa cantora, Gaga é uma compositora completa, extremamente criativa harmonicamente) com a coragem ainda mais admirável de soar completamente autêntica em todos os momentos. E mais rara ainda, talvez até sem precedentes, é a autenticidade desafiadora, bem-pensada e, porque não, revolucionária de Gaga. Eu, pelo menos, já aprendi muito com ela e, mesmo quando não aprendo, sei admirar uma artista que jamais mente para si mesma ou para quem a acompanha. Em “Judas”, Gaga canta que não consegue fugir dos seus demônios, e que é preciso aceitar-se por completo, com todas as suas trevas, para chegar a claridade. E, assim declara uma vez mais: “Essa sou eu, e nunca vou deixar de ser. Se for me amar, que seja por isso. Se não for, bom, você conhece a história do teto de vidro, não?”.

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In the most Biblical sense, I am beyond repentance: fame hooker, prostitute wench, vomits her mind. But in the cultural sense, I just speak in future tense: Judas kiss me, it offenced, or wear and ear condom next time.
I wanna love you, but something pulling me away from you. Jesus is my virtue, but Judas is the demon I cling to. I cling to!”

(Lady Gaga em “Judas”)

13 de mai. de 2011

BOT, por Vinícius Cortez (Parte II de II)

Conto (nunk excl)v 1

O inspetor rodou pela sala por mais alguns minutos. Ora parava em frente à janelinha da porta como se quisesse chamar alguém a quem pedir ajuda, ora caminhava junto à parede com uma mão apoiando a testa. Se não fossem dois bots, Gabriel e Ian se assustariam com a aspereza da voz com que o inspetor ordenou ao último que saísse da sala. Houve uma breve hesitação, mas o bot acedeu e se retirou em silêncio.

— Gabriel, preciso que você desfaça sua ligação com a Central agora. — o tom imperativo que o inspetor usou não devia dar brecha alguma à desobediência, mas demorou algum tempo até que o bot respondesse que suas comunicações por ora estavam desligadas. O inspetor voltou a se sentar e juntou as mãos em frente aos rosto, com os cotovelos apoiados na mesa. Parecia estar prestes a implorar por algo. — Se te desativarem, sujando ou não o nome do Ministro, que diferença faz?

Pela segunda vez desde que entraram naquela sala, Gabriel pareceu esboçar alguma emoção, mais duradoura que a última. Aos olhos do inspetor, podia ser tanto surpresa quanto indignação, mas talvez fosse apenas uma emulação simples do movimento dos músculos de um rosto humano de verdade. O certo é que mais uma vez o bot alinhou sua cabeça ao resto do corpo, e só uma nota sutil como a de alguém que sentisse nojo de repente se revelou em sua voz:

— Você me pede que ignore as leis do seu próprio mundo.

— Eu não lhe peço nada. Só estou... sugerindo. Imagino que você se preocupe com o destino das nações, e acho que você sabe como o Presidente se preocupa em escolher homens bons para o ajudar. E o Figueira é um homem bom. — o inspetor deu um sorriso convidativo, esperando que suas palavras surtissem algum efeito positivo sobre a indiferença hostil de Gabriel. Dessa vez, porém, sem esperar um segundo para anunciar sua resposta, este disse:

— Um homem bom que eu encontrei estrangulando uma garota de vinte anos na cama do seu hotel. Será preciso que eu mostre meu vídeo mais uma vez? O Ministro teve sorte. Se eu soubesse do que ele era capaz, teria perdido mais do que um braço. — Sua voz ressoou no vazio da sala como um tinir metálico, completamente despido de piedade. — Eu acessei alguns dos registros policiais dos últimos períodos em que o Ministro estava viajando a trabalho, e tenho boas razões para acreditar que Helena nem sequer foi a primeira. É quase um esporte para ele, sempre antes das convenções em que discursa. Se eu o deixar ir, ele fará de novo...

A essa altura o Inspetor já segurava a cabeça nas mãos, como se estivesse quase desistindo. Não precisava que Gabriel lhe lembrasse de coisa alguma, porque da última vez fora ele mesmo que resolvera o problema. Era um outro bot secretário, um modelo bem mais antigo em cuja programação fora possível inserir uma linha de execução pela qual certos períodos de tempo bem específicos podiam ser apagados sem deixar vestígio. O inspetor ficara bem orgulhoso ao conseguir alterar o firmware original do bot, mas não podia prever o que estava por vir — um robô com crise de consciência. Se ela, a consciência, tivesse metade da força que tinha em humanos, não havia a menor esperança de que ele concordasse em apagar suas próprias memórias.

— ... e o problema de vocês humanos é tolerar demais. — Concluiu Gabriel, sem que ficasse muito claro porque chegara à última afirmação.

O inspetor se lançou para trás na cadeira, balançando gravemente a cabeça.

— E você achou que poderia consertar tudo?

— Aos poucos, sim. É muito menos do que vocês humanos imaginam, o quanto de atenção que precisam colocar para conseguir aquilo que realmente os faria felizes. Pelo aumento da sua frequência cerebral, vejo que não acredita em mim. Mas nós nos tornamos necessários para salvar o que ainda há de bom entre vocês. E o ministro é um homem mau.

O inspetor escutava sem dar muita atenção, seus olhos pousados em algum ponto debaixo da mesa, provavelmente sobre os seus pés. Quando Gabriel parou de falar, grunhiu baixinho da mesma forma que tinha grunhido quando ele mencionou sua frequência cerebral de novo. Finalmente, decidiu responder alguma coisa. Os olhos de Gabriel faiscavam atenção enquanto os lábios do inspetor se moviam devagar.

— Bem, Gabriel, você venceu: agora sei que tudo é possível. Até as calculadoras podem ter um senso de justiça de que nós não precisamos. — Lamentou. E aos poucos foi levantando os olhos até encarar o bot que o observava sem deixar escapar um movimento sequer. — O único problema de vocês, idealistas de carne ou de lata, é que são sinceros demais. Demais.

Dizendo isso, voltou a se endireitar na cadeira e sorriu como uma criança que acaba de ganhar um jogo. Levantou-se rapidamente e, dando passagem aos três bots escuros que marcharam porta adentro, segurava numa das mãos um pequeno quadrado preto, menor do que a sua palma. De repente, Gabriel também se ergueu, batendo com as duas mãos na mesa ao perceber a minúscula luz de rede do celular do inspetor acesa.

— O sinal não está tão forte, mas serve. — comentou em tom brincalhão — Já viu o seu?

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Trevize franziu as sobrancelhas. ‘Como se decide o que é prejudicial ou não para toda a humanidade?’
’Precisamente, senhor’, disse Daniel, ‘Na teoria, a lei zero era a resposta para todos os nossos problemas. Na prática, nós nunca poderemos decidir Um ser humano é um objeto concreto. Dano a um ser humano pode ser medido e julgado. A humanidade, por outro lado, é só uma abstração’”

(Isaac Asimov, em “Foundation and Earth”)

11 de mai. de 2011

BOT, por Vinícius Cortez (Parte I de II)

Conto (nunk excl)v 2

A parede foi aos poucos voltando à sua cor original, acompanhando o desvanecer das imagens que há pouco estavam nela com um suave som quase como o de um folhear de páginas. O inspetor estava parado na cadeira, seus olhos arregalados e sua mão direita, a que não tamborilava nervosamente na mesa, coçando o queixo que já se cobria dos pêlos de uma noite insone.

— Então é isso, hum... — ele pigarreou — Era isso que estava nos seus arquivos de memória?

— Certamente, senhor.

A sala recaiu em silêncio enquanto o inspetor encarava o bot diante de si, tão rígido que era como se duvidasse da sua existência real. Tentava empregar toda a atenção em colher algum rastro de expressividade, alguma coisa em que pudesse fincar uma reprimenda e partir dali. Mas era inútil. Na sua mudez assepticamente impassiva, o bot parecia exatamente como um daqueles que não tinham sido ainda tirados da loja e ficavam exibindo sorrisos amáveis do outro lado das vitrines, esperando por novos compradores. Suspirou e tentou colocar nas suas palavras o tom paternalista que nunca teria usado com um criminoso comum.

— Você não parece entender toda a implicação dessas imagens, Gabriel. Você quase matou um homem. Um homem, entende? E está tudo gravado!

— Compreendo perfeitamente, senhor, mas sei que há de concordar comigo quando digo que o Doutor perpetrava atos contra os quais se dispõe em lei. Se o senhor deseja, posso lhe mostrar.

Dizendo isso, Gabriel mais uma vez se virou para a parede em branco. Emitiu um breve clique metálico e logo letras começaram a surgir onde antes nada havia. Eram linhas completas, numeradas por incisos, no que parecia claramente ser um código legal. Passou a ler em voz alta:

— Homicídio. Dolo qualificado em a), d), f): crime cruel, violento, vítima privada de defesa. — Então parou para observar por um momento o rosto consternado do inspetor. — Talvez deseje que exiba mais uma vez a passagem dos meus arquivos.

As linhas do código foram espremidas a um canto da parede e novamente o quarto do Professor apareceu em detalhe. A mesma porta se abriu deixando entrar o olhar despreocupado de Gabriel. Como há pouco, os braços de uma mulher pendiam para fora da cama, amarrados por fio encapado, e o Ministro, ajoelhado sobre ela, erguia as mãos como se as tivesse mergulhado em algo imundo. Demorava um segundo antes de perceber que não estava mais sozinho no quarto. Assim que via Gabriel, porém, se lançava em sua direção a princípio em silêncio, logo gritando furiosamente e...

— Basta, Gabriel! — exclamou o inspetor. — Já entendi da primeira vez que vi. Vocês bots acham que nós somos estúpidos, só porque não viemos de fábricas, como vocês. E pare já com esse zumbido, está me deixando louco.

— Desculpe, senhor. As orientações do Ministério da Saúde indicam que eu devo escalonar sua frequência cerebral sempre que for necessário. Tenho certeza de que sabe como mesmo os loopings desse quadro interativo podem interferir com esse padrão. Acredite que é para o seu próprio bem. Por favor, acalme-se.

O inspetor se levantou da cadeira de um salto tão repentino que até mesmo o bot atrás dele soltou um bipe de alarme, retesando quase que imperceptivelmente as fibras dos seus braços mecânicos. Já do outro lado da sala, girou nos calcanhares e parou de frente a Gabriel, sua expressão severa incapaz de disfarçar seu cansaço. Sem dúvida, esforçava-se para penetrar naquela máscara de gelo que era o rosto do bot, atrás de cujos olhos um pequeno kernel mental não parava de mensurar reações e sinais vitais, sem que no entanto qualquer dessas operações transparecesse no seu rosto. Não era a primeira vez que apreendiam um bot criminoso. Esse tipo de detenção sempre fora corriqueira desde a sua popularização anos atrás, e havia geralmente habilidade que bastasse para que os consumidores não se privassem de comprar seu novo modelo cozinheiro, ou renovar os encarregados pela faxina. Mas desta vez era diferente. Desta vez, tinha diante de si não um bot de inteligência ranqueada em baixos níveis operacionais: esses mal podiam responder perguntas usando mais de uma frase e seria ainda mais improvável que pudessem causar problemas para quem quer que fosse, senão para si mesmos. Na imensa maioria das vezes, os crimes cometidos por bots eram decorrências infelizes de falhas de programação, linhas de código que davam brecha a uma violência que não tinha razão de ser e que escapava a qualquer tipo de previsão. Aqui, porém, havia um modelo atualizado de I.A.A., Inteligência Artificial Assistencial, certamente moldado tendo como base os mais altos padrões de construção lógico-linguística, e portanto seria muito improvável que ele não soubesse o que fazia ou que fosse incapaz de se justificar em frente ao Comitê de Ética que certamente se formaria ao redor do caso. Sentado na sua cadeira e aparentando a calma de uma lagoa à noite, Gabriel escutou o inspetor pensar em voz alta:

— Mas foi logo a porra do Ministro da Educação...

Em casos normais, não seria preciso mais que um pedido para a avaliação dos arquivos de memória, e uma vez que fossem transferidos para qualquer chip físico, era muito mais fácil fazê-los desaparecer. Bots do governo, porém, estavam o tempo todo online, de modo que mesmo que o inspetor pedisse os arquivos para avaliação forense,

não podia estar seguro de que não havia cópias engatilhadas em servidores externos. Mas, bem, não custava muito ter certeza.

— Ian, quero os registros dele agora. — Disse afinal o inspetor, embora obviamente se dirigisse ao bot cinzento que ladeava a porta de saída. A ordem foi recebida com um bipe e logo o DEL-11 retornou resposta.

— Lamento, senhor, mas a conexão foi interrompida. Por razões de segurança, apenas um ID pode operar neste espaço da delegacia.

O inspetor, frustrado, virou-se novamente para Gabriel e voltou a coçar o queixo. O pequeno truque dera errado, e agora era evidente que o bot estava ligado ao mainframe do Governo, provavelmente dedicando uma parte da sua CPU a preparar um relatório detalhado do que corria naquela sala, palavra por palavra. Por um instante os traços finos da sua pele sintética se curvaram num sorriso de auto-admiração, um orgulho completamente impossível caso se tratasse de um bot mais barato — mas foi só isso, um só instante.

CONTINUA

v 1 v 3

0. A robot may not harm humanity, or, by inaction, allow humanity to come to harm.
1. A robot may not injure a human being, or, through inaction, allow a human being to come to harm.
2. A robot must obey any orders given to it by human beings, except where such orders would conflict the First Law.
3. A robot must protect its own existence as long as such protection doest not conflict with the First and the Second Law.

(As Quatro Leis da Robótica de Isaac Asimov)

9 de mai. de 2011

Delírio Noturno, por Caio Coletti

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Que tipo de escritor eu sou? Não tenho insights, não faço comparações, não tenho desses momentos súbitos de inspiração. Talvez eu não seja um escritor, no final das contas. Talvez Rilke estivesse errado, e aqueles que realmente precisam escrever, aqueles que fazem de cada linha uma forma de descobrir a si mesmo, talvez esses sejam os destinados a serem qualquer outra coisa, que não escritores de verdade. Para se entregar por inteiro a ficção, é preciso não se entregar por inteiro a ficção. É, é uma contradição. Mas diga algo nesse mundo que não é, e eu retiro o que eu acabei de dizer. É preciso certa dose de distanciamento, um apego as idéias para além dos sentimentos, que eu acho simplesmente impossível de ter. O que eu escrevo não é o que eu penso, é o que eu sou.

Talvez eu esteja simplesmente fazendo do jeito errado. Talvez eu deva simplesmente parar por aqui, de enganar a mim mesmo e a você, caro leitor, mas a verdade é que eu não posso. Das imensuráveis vezes em que fiz essa mesma declaração, talvez essa seja a mais verdadeira. Eu não sei se faço o que estou fazendo direito. Mas, mesmo que não esteja, preciso fazer. De que outra forma eu viveria, que não pelas palavras? Dói escrever isso, e é perceber uma vida vazia de atos e vazia de sentimentos. Pode ser que eu esteja chegando ao fundo de mim mesmo agora, e pode ser que eu nunca mais volte. As palavras fazem minha vida. Minha vida culmina em mais palavras. E enquanto elas saem de mim em profusão, não consigo viver e dizer, viver e escrever, viver e sentir, tudo ao mesmo tempo.

Talvez (e quantos talvezes!) eu precise parar, pensar e desligar a música que enche meus ouvidos. Talvez eu deva simplesmente escurecer a tela do computador, jogá-lo pela janela, porque talvez sejam as palavras que estejam me destruindo por dentro. E quando o que eu faço de melhor me faz sentir como se fosse a pior pessoa do planeta? Ao mesmo tempo, escrever me dá um Norte. Um Norte que eu nunca poderei ter de outra forma. Viver é assim? Sem Norte, sem rumo, sem motivo, sem razão? Ou é simplesmente uma playlist em aleatório, uma mistura de sentimentos e motivações, raciocínios e métodos, que não levam a nenhum lugar, nunca, a não ser a um novo começo? Que labirinto! Que jornada finita mais infinita que nós nos arranjamos!

Talvez eu pense tanto que esqueça de viver. Também isso eu já disse várias vezes, e não sinto tanta verdade agora nessa sentença. Talvez tudo o que eu crie aqui seja uma enorme ilusão, e eu viva permanentemente nela. Talvez me faça bem viver nesse sonho-pesadelo constante e sem fim. Talvez seja melhor viver de cabeça para baixo, vendo tudo de uma forma diferente, sonhando o viver e vivendo o sonhar. Que diferença faz? Logo vou parar, e tudo vai voltar ao normal. No fim, é só um espetáculo tragicômico, em que a última risada, ou a última lágrima, é sempre a minha. Quem é alguém para me dizer o contrário?

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Na hora mais escura da noite, confesse a si mesmo que morreria se fosse proibido de escrever. E olhe profundamente na sua alma, onde ela espalhas suas raízes, a verdade, e pergunte a si mesmo: eu preciso escrever?”

(Rainer Maria Rilke)

6 de mai. de 2011

Quem um dia irá dizer que não existe razão?, por Renan Barreto

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Certa vez estava eu caminhando sem uma direção a ser seguida, caminhando por caminhar. Ouvia uma bela canção, pensava no que escrever: um conto, uma poesia, um capítulo novo do mangá ou do livro que estava trabalhando. Mesmo que o mundo estivesse em plena ebulição, minha mente parecia mais conturbada e caótica do que quaisquer influências externas. O mundo para mim estava cinza e parado. Sem notar eu estava próximo à faculdade. Já se passaram alguns anos desde então. Foi quando a vi: belos cabelos, olhos brilhantes e o melhor de tudo, seu gosto por poesia a transformava na melhor das pessoas, quase lhe conferia poderes divinos. Não sei o que senti, mas sei que não era a primeira vez que sentia. Era amor, a matéria-prima de todas as relações humanas baseadas na cordialidade.

Meus desenhos cismavam em criar traços sozinhos como se eu não tivesse controle sobre eles. Sempre desenhava o mesmo rosto. Minhas poesias tornavam-se felizes subitamente e com a mesma velocidade só conseguia escrever de saudade. Ah! A saudade da pele macia e das deliciosas risadas daquela mulher que me encantava só por existir. Aquele incenso natural, um perfume sem igual... E lá vou eu escrever poesia novamente. A saudade dela era tão forte que qualquer piscar de olhos, mesmo que ao seu lado, se tornava no maior mergulho nas profundezas da escuridão eterna que poderia cair. Evitava até de piscar. Não queria perder um segundo ao seu lado. Como era boa a sensação de... Amar.

Os cadernos caíram junto com o lápis, a caneta vermelha e uma foto minha. Sim, ela tinha uma foto minha. Eu tinha um álbum dela todo decorado na minha mente. Afinal, fotos estragam com o tempo, envelhecem... Memórias não. As memórias são muito melhores do que os fatos realmente foram. Só por ter visto a minha fotografia fazendo parte do material dela, foi o bastante para me alegrar por um mês inteiro. Sorria sem necessidade, como o gato risonho de Lewis Caroll. Sim, eu possuía aquele sorriso inconfundível dos apaixonados, que viam em seu amor a fonte de todas as suas esperanças e resolução de seus problemas. Era a minha musa para todo trabalho. Não havia texto que ela não estivesse presente de alguma forma.

Não sei bem o porquê, mas dedicando-me tanto a ela, fui a aprisionando aos poucos nos meus pobres escritos. Percebi estar fragmentando sua imagem e transpondo-a nas minhas linhas, transportando também sua importância. Fragmentava então o meu amor. Ela estava por toda parte, mas não era ELA completamente. Eram ideias , pedaços virtuais de uma pessoa que sumia do meu coração para o papel.

Um dia estava ela por todo meu quarto. Estava presente em páginas e mais páginas. Enfim, ao meu lado com a forma que dei e com o conteúdo visto por mim. Era ela e não era. E para a saudade doer menos a recriei em mim e a coloquei no papel. Quando chegou o momento de ter matado a saudade, percebi que não havia mais amor. Ela também sabia disso. Éramos apenas duas almas que se conheciam. “’Talvez por medo de perdê-la de vez, que resolvi perdê-la aos pouquinhos. Não conseguiria viver com o fardo de perdê-la numa tacada só’, disse a mulher do padeiro” no Auto da Compadecida de Ariano Suassuna. Tenho certeza que foi o mesmo que senti.

Certo dia não a vi mais. Era só lembrança, uma bela memória que nunca se amarelará. Hoje ela possui outra foto no seu material e eu outra pessoa sobre quem gosto de escrever e que me mata de saudade.

A pergunta do título prefiro responder apenas no final do post: “Quem um dia irá dizer que não existe razão...?” perguntou Renato Russo em “Eduardo e Mônica”. Eu digo que não há. Não há razão no amor. Podem dizer que a procura pelo melhor parceiro seja seleção natural, mas não há razão num sentimento tão nobre (e talvez até inventado) que nos faça suspirar e nos dá força para mudar o mundo.

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http://renanbarretoonline.blogspot.com/

“…I’m not looking for us, and neither should you/ Absolutely gorgeous/ Then nothing I say it’s true/ You won’t find yourself in these guilty eyes…

Cause I love anybody who’s fool enough to believe/ And you’re just one of many who broke their heart on me/ And so I say I don’t love you/ Though it kills me…”

(James Blunt em “Love Love Love”)

2 de mai. de 2011

Incompleto, por Caio Coletti

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O que você me diz? Milhares de sub-tons me dizem para me acalmar, tomar um pouco de ar e sentir como se nada pudesse me segurar se eu caísse. Sozinho. Só assim eu consigo criar. Como se fosse a última pessoa do mundo, e como se tudo se resumisse ao que encerra meu corpo, tão pequeno e frágil perto da imensidão de um mundo capaz de esmagar cada um de nós com a mera pressão do ar a nossa volta. E nada é feito para fazer sentido. Nada. Nenhum acorde, nenhum número, nenhum objetivo, nenhum sentimento. É como se nos jogássemos de cabeça em um imenso e profundo oceano, um que jamais poderemos conhecer por inteiro. A não ser pelo fato de esse oceano estar dentro de nós mesmos.

Eu posso ter acabado de rir, de me atirar a cada oportunidade de amor que encontrei pelo caminho. Eu posso ter sido pouco cuidadoso comigo mesmo. Mas agora, aqui, com uma voz ecoando em meus ouvidos que “você ainda tem tudo de mim”, nada disso me vem a mente. Sozinho, calmo, o sono aos poucos tomando conta da minha mente, basta eu fechar os olhos para poder ver os seus. E que mais eu veria? Eu nunca me iludi achando que tinha te esquecido. Minha única mentira para mim mesmo é que eu poderia ser completo sem você do meu lado, e que eu posso aceitar, sem problemas, o fato de isso não estar acontecendo, como deveria estar, agora. Porque não há mais tempo. Não há mais chance.

Um dia eu posso te encontrar de novo, e será o momento certo, a conjunção certa, a percepção certa, o amor certo. Agora? Agora somos apenas um desencontrado e uma bem-resolvida. Um louco e a própria encarnação da sanidade. E enquanto eu me vejo chorando aqui, mais uma vez, posso imaginar seu sorriso, a alguns quilômetros de distância. E eu insisto, assim, em me perguntar: porque tão longe? Sim, um dia podemos nos encontrar. Mas será que eu poderei esperar até lá? O tempo tiquetaqueia sem piedade, é verdade, não poderia ser nem um pingo mais verdade, mas na minha cabeça, no meu sentimento, parece que cada segundo é o instante infinito e incompreensível de uma vida.

Mais uma vez sozinho. Mais uma vez entre não poder te deixar para trás e não poder viver se não puder ser ao seu lado, da forma como eu quero. Sei qual parte de mim vai sair vencendo. Certas necessidades são maiores do que qualquer vontade racional. E a luz que você deixa a cada passo me prenderá a você. Que tolo sou eu, sugerindo que não posso mais te esperar, quando cada vez que seus olhos brilham para mim e sua boca forma um sorriso, eu tenho a maior certeza do mundo: a que eu seria capaz de morrer esperando, eterna e finitamente incompleto.

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And I wanna walk with you on a cloudy day/ In fields where the yellow grass grows knee high/ So won’t you try to come?

Come away with me and we’ll kiss on a mountain top/ Come away with me and I’ll never stop loving you…”

(Norah Jones em “Come Away With Me”)